Notas sobre Abstração e Metafísica, Via Ascendente e Descendente

Índice

1- Abstração e Metafísica

Aristóteles estudou minuciosamente a abstração e atribuiu-lhe diversos graus. Esses graus foram, depois, também estudados com não menos atenção pelos escolásticos, e foram caracterizados em três graus abstrativos, três graus que são próprios da faculdade de abstração intelectual do ser humano.

Esses graus caracterizam-se da seguinte maneira:

1 – O primeiro grau de abstração do intelecto consiste em tomar o objecto abstraindo da sua mera singularidade; abstraímos as suas propriedades, os seus acidentes, e chegamos a conceitos gerais como casa, árvore, homem, etc..

2 – Na abstração do segundo grau, a mente não apenas anula os aspectos materiais e as propriedades sensíveis, mas, além disso, especificamente, o intelecto vai considerar o objeto apenas na sua condição extensiva, e quantitativa; e essa consideração pode ser feita segundo uma extensão contínua ou segundo uma extensão discreta. São estas abstrações, portanto, as que compõem a matemática , dado que a abstração na extensividade contínua dá-nos a Geometria, as figuras geométricas, enquanto que a abstração na extensividade discreta dá-nos a Aritmética, ou os números.

3 – o terceiro grau de abstração é aquele que, além de abstrair a singularidade e toda a matéria sensível e inteligível, vai considerar o objeto apenas nos seus aspectos mais universais. É dessa abstração que chegamos às categorias, como o conceito de substância, de causa, de quantidade, de ação, etc…

Resumindo, diremos então que as abstrações do primeiro grau são as que formam a ciência, as do segundo grau são, como já disse, as que formam a matemática, as do terceiro grau são as que constituem a metafísica.

Assim, para Aristóteles, a metafísica fundava-se nas abstrações de terceiro grau, e operava com elas. Quanto à justificação desta gama abstrativa, Aristóteles não necessitava de nada mais senão do que partir da experiência humana, pois na sua atividade empírica, o homem está apto a realizar este processo de conhecimento e a realizar estes graus de abstração, e tal aptidão está também patente na linguagem.

Portanto, a «Metafísica», para Aristóteles, fundava-se e operava com realidades inerentes à experiência humana, e esse era o sentido que ele dava a tal estudo, um estudo de entes reais e não de quaisquer entidades ficcionadas, um estudo de entes presentes na vida e na realidade do homem. Assim, o ente de razão «causa», ou o ente de razão «substância» são entes de razão com fundamento real.

Esse fundamento real é matéria complexa e que tem gerado muita controvérsia. Mas podemos dizer que mesmo aqueles que procuram detratar a abstração Aristotélica, eles também procedem de modo aristotélico, porque praticam essas abstrações, trabalham com elas, e não conseguem pensar ou elaborar nenhuma crítica sem as usar, pois elas estão bem fundadas no real, assentam no desenvolvimento próprio da atividade intelectual humana.

Vejamos o exemplo de uma gota de água numa folha; esta gota de água pode ser olhada de muitas formas diferentes, como um gota, um corpo, um ponto, enfim sobre muitos aspecto específicos… Na ordem desses pontos de vista específicos, veremos que alguns são os que estão mais ligados aos objetos da nossa experiência, outros vão gradualmente pondo de lado os dados sensíveis, para considerar um ou outro aspecto de grau mais elevado, mais universal.

O conceito de corpo, por exemplo, é já um conceito de terceiro grau, um conceito metafísico; vemos corpos, especificamente distintos, mas não «corpo», que é algo abstraído desses corpos.

Portanto, a metafísica de Aristóteles é bem fundada, inclusive para os que a combatem. Mas, qual a razão para a combaterem? Bem, a razão é esta – eles não a compreendem!!!

Eles julgam que a metafísica de Aristóteles é diferente do que acabei de descrever. Eles julgam que a metafísica aristotélica é construída sobre entes ficicionais, entes de imaginação, que resultam da fantasia humana, mitos… Mas não, não é isso!

Aristóteles nunca defendeu isso. Se eles lessem e estudassem Aristóteles, eles compreenderiam.

E não se admirem por eu dizer isto, porquanto é sabido que grandes filósofos houve, grandes mesmo, que nunca estudaram Aristóteles! Por exemplo, Kant nunca o leu. Descartes também não conhecia Aristóteles. Creio que estes exemplos são suficientes para se perceber que não é de estranhar que haja autores modernos que são igualmente desconhecedores da obra do Filósofo…

Assim, esses críticos criam uma concepção da doutrina aristotélica completamente fora das verdadeiras realidades do pensamento Aristotélico, e esta concepção errônea leva a que as suas críticas sejam infundadas e falsas.

2- Via Ascendente e Via Descendente

Pode-se fazer uma distinção importante entre a Metafísica de Aristóteles e a de Platão; mas é preciso reconhecer que essa distinção é mais nítida na fase Pitagórica de Platão, em que ele desenvolve um aspecto do pitagorismo; e aí, nessa concepção pitagôrica-platônica, há uma inversão da ordem da Metafísica que Aristóteles criou.

A Metafísica Platônica parte das Ideias e vai delas extraindo juízos virtuais, que estão contidos nos diversos logoi. Vamos dar um exemplo com o logos de «antecedente». Esse conceito, ou logos, implica necessariamente o logos de «consequente», assim como exige também uma prioridade do antecedente sobre o consequente. Não se poderá falar de um antecedente sem um consequente, e vice-versa. Mas temos que distinguir, entretanto, que o que é antecedente, é anterior formalmente, a sua anterioridade é formal, enquanto que o consequente é posterior formal e materialmente.

Podemos dar um exemplo muito simples com os conceitos de pai e filho. O antecedente, pai, é formalmente anterior, pois o pai só o é com o filho, e o filho só o é quando é filho do pai; mas o filho, o consequente, é necessariamente precedido pelo pai, e é, portanto, posterior formal e materialmente.

Já o antecedente, só é anterior ao consequente formalmente, e não materialmente; de fato, dada alguma coisa, o que a sucede é um possível, e não algo absolutamente necessário; o pai, enquanto materialmente o homem que um dia poderá ser pai, ainda não é antecedente, nem anterior, a um filho meramente possível.

O filho, porém, ao sê-lo, exige necessariamente que o pai lhe seja anterior, e que o seja totalmente e de imediato, e é-lhe posterior tanto formal como materialmente. Do mesmo modo, podemos afirmar que o efeito exige necessariamente a causa, mas a causa pode materialmente ser algo que nunca chega a causar efeito nenhum. Materialmente, portanto, algo pode não ser antecedente de coisa nenhuma, até ao momento em que, formalmente, devem anterior do consequente.

Esses conceitos são logoi, no sentido pitagôrico-platônico, e são extraídos das ideias de antecedência e consequência. No pensamento dos pitagôrico-platônicos, portanto, se a formação dos logoi se processar logicamente, ou seja, com rigor lógico, a realidade irá reproduzir perfeitamente esses logoi que fomos capazes de captar, desde que os pensemos com essa segurança.

Vamos agora ver um outro conceito, para continuar a ilustrar estes aspecto da metafísica platônica, seja os logoi de afirmação e o de negação. O conceito de negação implica a recusa de alguma coisa afirmada, porque negar nada, seria nada negar! Portanto, a negação implica necessariamente a afirmação, embora a afirmação não implique necessariamente a negação.

Ora, se a negação implica a afirmação, ela exige a anterioridade da afirmação sobre a negação. O afirmativo precede o negativo, isto é, o ser precede necessariamente o nada. O nada não pode ter precedido o ser.

Isto são postulados da metafísica platônica, conceitos que estão virtualmente contidos em ideias; e se esses juízos forem deduzidos logicamente, têm uma correspondência com a realidade. A realidade comporta-se do mesmo modo, participando desses logoi.

Há, portanto, uma diferença bastante clara entre a dialética pitagôrica-platônica, e a dialéctica aristotélica. Enquanto que Aristóteles sobe dos degraus inferiores aos superiores, Platão e Pitágoras descem dos degraus superiores aos inferiores. É como uma escada, em que alguém sobe e alguém desce; isto quer dizer que ambas as concepções estão perfeitamente coadunadas, apenas variando na direção; mas os degraus que ali estão para um, são os mesmo degraus que ali estão para o outro.

Esta é a divergência entre o pensamento de Aristóteles e o de Platão. O primeiro parte da empiria e vai racionalizando, e por isso é classificado de empirista-racionalista, enquanto que Platão, seguindo a linha de Pitágoras, parte das ideias, dos logoi e vai deduzindo para a realidade, e verifica-se que a realidade participa desses logoi, repete essas formas; o desenvolvimento da realidade, de fato, imita arquétipos, os arkai pitagóricos, participando desses logoi fundamentais.

Ora, a filosofia concreta procura fundar-se na filosofia positiva, e tanto o pensamento de Aristóteles como o de Platão têm positividade, e a conjunção de ambos permite efetivar a filosofia concreta, já que esta tanto utiliza a via ascendente de Aristóteles como a via descendente de Platão.

Veja-se o caso das célebres polaridades aristotélicas da substância e acidente, essência e existência, matéria e forma, ato e potência , a que Aristóteles não deu noção definitiva, o que levou a muitas controvérsias, nomeadamente aquelas que foram efetuadas pelos escolásticos, que analisaram profundamente essas polaridades. Essa matéria ainda hoje desafia a inteligência humana, apesar de muitos modernos preferirem fugir ao problema, dando-o por ultrapassado, e dedicando-se a outras investigações.

Mas aqueles que têm a coragem de aceitar esse desafio intelectual, irão novamente analisar o tema. Na filosofia concreta, sem nos perdermos nos trabalhos eruditos ou exegéticos já efetuados, vamos procurar as formas apoditicamente válidas de, no plano ontológico, considerar as polaridades substância e acidente, essência e existência, forma e matéria, ato e potência. Os muitos pontos de vista de outros filósofos, que sobre estes temas foram expendidos, serão matéria secundária perante a necessidade de estabelecer uma expressão ontologicamente verdadeira, fundada em juízos necessários e apodíticos, do real significado dessas polaridades. Isso, sim, será importante.

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