O Conceito de Alma em Platão e Psique em Sócrates

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Uma das questões dos diálogos entre Platão e Sócrates é procurar dar neste diálogo uma fundamentação filosófica da alma, até então muito envolto em concepções mágico-religiosas. Todas as provas que ele apresenta para a imortalidade da alma são apoiadas na sua teoria das idéias: a) O conhecimento como reminiscência das idéias contempladas; b) o conhecimento das idéias pela alma demonstra a semelhança desta com aquelas; c) As coisas são o que são devido à sua participação nas idéias.

Para Platão, no transcorrer do Fédon, ele diz que os filósofos são os únicos que procuram o verdadeiro conhecimento ultrapassando o domínio das aparências sensíveis. Assim a tarefa da filosofia é afastar a alma da investigação feita com os sentidos, sempre sujeita aos erros, levando-a a concentrar-se em si própria para aí descobrir o Ser, isto é, aquilo que é.

O eixo norteador da filosofia platônica no que diz respeito à alma é: A alma deve separar-se o mais possível do corpo (mundo sensível), preparando-se assim para a morte, ou seja, o regresso final ao mundo das idéias. Lembrando que as provas da imortalidade da alma constituem o núcleo central do Fédon e algumas partes da Apologia de Sócrates, tudo isso para fundamentar as várias teorias platônicas, tais como, a teoria das idéias, a teoria da Reminiscência e outras, que serão abordadas no decorrer deste ensaio.

Giovanni Reale, esclarece que Platão introduz, além da participação da perspectiva metafísico-ontológica, a participação do elemento religioso derivado do orfismo, que transforma a distinção entre alma (entendido como supra-sensível) e corpo (mundo sensível) em constante oposição. “Por essa razão, o corpo é visto não tanto como receptáculo da alma, à qual deve a vida juntamente com suas capacidades de operação (e, portanto, como instrumento a serviço da alma, segundo o modo de entender de Sócrates), mas sim ao contrário, é entendido como ‘tumba’, como ‘cárcere’ da alma, como lugar para o cumprimento de suas penas” (REALE, 1990, p.153).

Adentrando nos escritos de Platão, primeiramente ele demonstra a existência da alma dizendo que as almas dos mortos se encontram no Hades, isto é, “as almas, ao deixarem este mundo, vão para o Hades, e que dali voltam para a Terra e retornam à vida após haverem passado pela morte. Os homens após a morte regressam à vida, deduz-se necessariamente que as almas estão no Hades durante esse tempo, porque não voltariam ao mundo se não existisse, e isto é uma prova de que existem, já que os vivos nascem dos mortos” (PLATÃO, 1999, p. 132). Platão esta provando que no Hades as almas podem regressar para a vida, uma vez que as almas dos mortos existem em algum lugar, não estão soltas nem no tempo e nem no espaço, assim retornando essas almas que estão no Hades após passarem pela morte, entendemos que Platão afirma a existência da imortalidade da alma.

Uma vez que a alma é imortal, Platão diz que devemos fazer com que todos não tenham medo da morte, é procurar ensinar desde já a criança a não recear a morte como recearia às sombras. Por que não temer a morte? Segundo Platão a verdade e o conhecimento não pertence a esse mundo, é muito difícil conhecer toda a verdade nesta vida, assim uma vez que o corpo é cárcere da alma ele precisa necessariamente ser libertado e uma forma de libertação é a passagem pela morte, através da morte se rompe as correntes da prisão neste corpo sempre sujeito aos vícios, conforme diz Platão: “Podemos presumir que por ser o corpo uma corrente que se perde enquanto o homem continua a viver, a alma, ao contrário, não deixa de tecer o que foi desgastado e, necessariamente, quando chega à hora de morrer, tece sua última roupa, e esta terá maior duração do que ela” (PLATÃO, 1999, p. 154).

Platão enaltecendo o valor da alma lhe atribuí qualidades muito superiores ao corpo, ele afirma que a essência da alma é ser puro, eterno, imortal, imutável, ela é sempre a mesma, porque está ligada ao que não muda, participando até mesmo da natureza dos deuses, porém preservando sempre a sua identidade e a sua maneira de ser, se não seria uma mera cópia dos deuses. Ao contrário destes sublimes valores atribuídos para a alma, o corpo é aquele que corrompe a alma, pois para Platão a função do corpo é perceber os objetos pelos sentidos que são mutáveis e sujeitos à corrupção, assim o corpo corruptível é sempre atraído para as coisas instáveis, por isso é que ele se perde, se abala, titubeia e tem vertigens, como se estivesse embriagado.

Mas se perguntássemos para Platão, como posso libertar meu corpo que é sempre sujeito às concupiscências carnais para se chegar com minha alma ao mundo das idéias? Ele responderia que a Filosofia é o caminho certo para se chegar a esse ideal, pois a Filosofia é um recordar do outro mundo divino. Por meio da meditação filosófica o homem aprende a morrer, ou melhor ainda, ele se prepara ao longo da sua vida para enfrentar a morte. A meditação filosófica faz com que a alma se afaste do corpo maculado e impuro sendo um luzeiro para orientar o corpo contra as paixões tirânicas e de todos os outros males, isto é, o conhecimento livra o homem de permanecer sempre na ignorância e o mais importante esse conhecimento vai levar a alma para um lugar semelhante a ela, um lugar divino, imortal, repleto de sabedoria, em que só existe felicidade, livre assim dos erros do corpo.

Somente o homem que medita filosoficamente é que poderá chegar ao verdadeiro conhecimento mais elevado. Mas para se chegar a essa meta é necessário que ele seja formado pelo hábito e pelo exercício, isto é, um começar e recomeçar tendo um trabalho árduo, lembrando que Platão compara o trabalho de filosofar com o trabalho de Penélope recorrendo à mitologia grega para explicar essa necessidade. Assim o verdadeiro filósofo incansável no seu trabalho intelectual alcança sempre o perfeito equilíbrio, pois ele tem sempre a razão por guia, observa sem parar o que é verdadeiro, divino, imutável e se encontra acima das crenças vulgares.

Com a ajuda da filosofia e da meditação, os homens podem sempre praticar a virtude social e civil que é denominada por comedimento e justiça, ao contrário daqueles que vivem na ignorância sem buscar o conhecimento, entregando-se totalmente ao descomedimento sem pudor que Platão corretíssimo, os compara aos asnos e animais semelhantes.

Essa purificação da alma através da filosofia somente os filósofos podem alcançá-la, pois eles renunciam aos desejos do corpo para viver exclusivamente na busca da sabedoria, assim abandonando às paixões mundanas, a alma desses filósofos alcançaram seguramente a liberdade e a pureza.

Parafraseando Platão, somente os filósofos podem alcançar esse ideal: “Se sua alma não foi completamente pura, tem direito a consegui-la; somente os filósofos podem alcançá-la. (…) Os verdadeiros filósofos renunciam a todos os desejos do corpo, se contêm e não se entregam às paixões. Não receiam nem a ruína de sua casa nem a pobreza, como o povo deslumbrado com as riquezas, nem a vergonha nem a desonra, como os que amam as dignidades e as honrarias.” (PLATÃO, 1999, p. 148).

No entendimento de Platão aonde a alma é uma harmonia graças à reminiscência do conhecimento, ele é categórico ao afirmar o zelo que se deve ter para com a alma, pois se essa alma é imortal, se faz necessário zelar por ela não só durante o tempo presente, isto é, durante a vida, mas ao longo de todo o tempo, pois seria grave perigo não se preocupar com ela. Lembrando que na concepção platônica, aqueles que não zelam pela alma tendem a voltar encarnados em animais inferiores (transmigração das almas).

Zelar pela alma é fazer com que ela chegue ao Hades, com o conhecimento e um regime de vida, livre dos vícios, pois no seu entendimento a alma não leva consigo nenhum bem material que está sujeito à corrupção e destruição, o que vai junto com a alma é o entendimento e a formação que não podem ser destruídos, tal qual a alma imortal, indestrutível e resistente ao Hades.

No Fédon, a conclusão de que se chega é que a razão ilumina toda a verdade presente em todas as coisas. Essa mesma razão leva a alma a sair do cárcere do corpo, pois quando aprendo estou recordando que a alma existiu em alguma parte antes de se unir ao corpo, lembrando que um dia essa alma estava no convívio com os deuses e para lá voltará seguramente, desde que seja buscado o conhecimento verdadeiro e dominada as paixões desordenadas.

Só o filósofo é capaz disso de elevar a sua alma e não temer de maneira alguma a morte que é a libertação integral do ser-humano, tudo isso conforme a analogia de Platão: “Os cisnes, quando percebem que vão morrer, cantam como jamais cantaram, felizes de irem ao encontro do deus a quem servem, mas os homens, com medo que têm da morte, caluniam os cisnes afirmando que esses pássaros choram sua morte e que cantam de tristeza” (PLATÃO, 1999, p. 151). Realmente os filósofos são iguais aos cisnes, felizes morrem, libertando-se de um corpo corruptível e unido suas almas aos deuses, ganhando assim a imortalidade dessa alma.

No outro livro estudado, sob o título “Apologia de Sócrates” veremos que a idéia de alma chamada por Sócrates de Psique, utiliza-se dos mesmos conceitos platônicos, apesar de Sócrates fazer uso de outras analogias para descrever seu pensamento que Platão não utiliza.

Sócrates apresenta-se pela primeira vez diante de um tribunal com a idade de setenta anos, sendo acusado de corromper os jovens. “Sócrates comete crime e perde a sua obra, investigando as coisas terrenas e as celestes, e tornando mais forte a razão mais débil, e ensinando isso aos outros.” (PLATÃO, 1999, p. 185).

Mas porque razão Sócrates corrompe os jovens? A razão está no fato de Sócrates fazer com que as pessoas compreendam que a psique não é desse mundo físico, mas está muito além. O filósofo investiga com o conhecimento as coisas terrenas e as celestes, sem recorrer a mitos ou explicar através da manifestação dos deuses no mundo. Também é uma das acusações que lhe pesa de não acreditar nos deuses, pois para Sócrates a razão é maior que as crenças que não podem ser comprovadas, assim ele rompe com o pensamento mítico e se lança para a busca do conhecimento para explicar as coisas celestes e terrenas.

Podemos compreender que um dos conceitos de psique em Sócrates se refere nesta busca do uso da razão com a finalidade de elevar os homens ao mais alto grau de tomada de consciência da sua existência. Lembrando que Sócrates, além dessa busca da razão ele também considera as influência dos deuses na sociedade, conforme ele mesmo diz que o Deus de Delfos é testemunha de sua sabedoria, pois uma vez ele foi a Delfos e perguntou para o Oráculo se havia alguém mais sábio do que ele, ora a Pitonisa respondeu que não havia ninguém mais sábio do que ele.

Para Sócrates, a morte é o caminho para libertar completamente a psique, assim aqueles que temem a morte parecem no seu entendimento não terem alcançado a sabedoria, pois para ele a morte é o maior de todos os bens para o homem, e, entretanto todos a temem, como se soubessem, com certeza, que é o maior dos males. Assim a ignorância leva o homem a viver nas sombras, temendo a morte e sempre sujeito aos vícios, já o filósofo que busca conhecimento nada teme, mesmo, no entender de Sócrates, não sabendo bastante das coisas do Hades, delas o filósofo não foge.

Sócrates entende que todos sejam jovens ou velhos, não devem se preocupar exclusivamente com o corpo e com as riquezas, mas é necessário se preocupar em primeiro lugar com a alma, para que ela seja quanto mais possível melhor, é aí que nasce as virtudes e não dos bens materiais. O fato do homem possuir uma alma significa desprezo pelas coisas terrenas e uma busca incessante através da sabedoria para elevar essa alma, pois como já dizia Homero “não nasci de um carvalho nem de um rochedo”, logo se sou ser-humano tenho necessariamente uma alma.

Para Sócrates uma vida sem reflexão não é digna de ser vivida, é através do exame e raciocínio que o homem é virtuoso nesta vida e na hora da morte ele não a teme, pois sabe que sua psique será enfim libertada, isto é, a morte é precisamente uma mudança de existência, sendo assim a alma uma migração deste lugar para um outro. Portanto, através da morte, Sócrates quer ter o deleite da sua psique num lugar totalmente virtuoso, livre dos julgamentos e corrupção, um lugar onde a psique possa viver eternamente, refletindo sobre a filosofia e conversando em grego perpetuamente com Orfeu, Museu, Hesíodo e Homero.

Por fim, a idéia que se passa quando Platão argumenta sobre a existência da alma e Sócrates faz a mesma coisa, falando sobre a psique, é que essa alma ou psique unida ao corpo tem necessariamente que se purificar da ignorância, e isso se faz através do conhecimento. Lembrando que Platão sempre está dizendo que o corpo é sujeito às corrupções ao passo que a alma é imortal. E uma vez que essa mesma alma um dia estava em outra vida, contemplando as realidades invisíveis, mas ao descer para o corpo se esqueceu desse ideal, mas encontrando-se latente ela pode ser despertada por meio do raciocínio para assim sair de uma vez por todas da caverna, chegando finalmente, onde é o desejo ardente de Platão e Sócrates, ao mundo das idéias.

 

Referências:

PLATÃO, Apologia de Sócrates. São Paulo: Editora Abril Cultural, 1999. Coleção Os Pensadores.

PLATÃO, Fédon. São Paulo: Editora Abril Cultural, 1999. Coleção Os Pensadores.

REALE, Giovanni; ANTISERI, Dario. História da Filosofia: Antiguidade e Idade Média. Vol. I 3ª ed. São Paulo: Paulus, 1990.

VERNANT, Jean-Pierre. Mito e pensamento entre os gregos. Rio de Janeiro: Paz e Terra, 2002.

 

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