FILOSOFIA E PROBLEMAS COTIDIANOS

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A filosofia, apesar de ser uma atividade solitária – pois exige a solidão do pensar por si mesmo – não exige isolamento, ao contrário, nasce do encontro. Do encontro entre as culturas do oriente e do ocidente, do encontro entre diferentes universos, do diálogo entre diversas formas de vida.

Platão, no diálogo Teeteto, cuja temática é o conhecimento, afirmava que o verdadeiro conhecimento está em nós, que necessitamos rememorá-lo, mas para isso precisamos do outro, caso contrário corremos o risco de nos perdermos em caminhos equivocados. Já ocorreu de você, pensando isoladamente, confundir-se, chegar a conclusões equivocadas? Também já ocorreu de expor seu pensamento ao outro e, ao ser questionado, verificar seu equívoco?

Obviamente, para que isto ocorra é necessário ter abertura ao questionamento, pois se nos considerarmos os “donos da verdade”, dificilmente nos permitiremos o pensar junto com o outro. Esta é a principal tarefa da filosofia, pensar junto com o outro, mantendo a autonomia do pensar por si mesmo. Ou seja, ao mesmo tempo em que estamos abertos ao diálogo, não aceitamos as ideias, sejam elas nossas ou de outros, sem antes saber os motivos que temos para aceitá-las.

O surgimento da filosofia, no período Pré-Socrático, caracteriza-se pela tentativa de compreender os fenômenos da natureza e da sociedade, a partir da observação e da investigação do real, assim como através da organização racional do pensamento. Em oposição ao pensamento mítico, que responsabilizava os deuses pelos acontecimentos da vida humana, a filosofia traz para o ser humano a responsabilidade por seus modos de vida.

Os problemas humanos, cujas causas eram atribuídas aos deuses, e seus tratamentos, realizados através de cultos e rituais, passam a ser investigados, estudados, buscando-se formas fundamentadas na observação da natureza e da sociedade, para abordar as questões. Todavia, acreditava-se ainda, na existência de uma lei universal da natureza, que necessitava ser conhecida e respeitada, encontrando-se, através dela, a harmonia necessária à saúde.

Corpo, mente, sociedade e natureza deveriam estar equilibrados, sendo o ser humano o responsável por conhecer a si mesmo e ao universo ao seu redor, buscando a harmonia, o equilíbrio natural. Assim, a autonomia, o pensar por si mesmo, exigia, também, conhecimento. É possível autonomia sem ter conhecimento? Você busca conhecimento sobre as questões fundamentais a serem resolvidas em seu cotidiano? Quais as fontes de conhecimento que busca? São seguras? Como avalia os resultados obtidos em tais fontes? Costuma pensar por si mesmo e, ao mesmo tempo, partilhar com o outro o que pensou?

É a isso que se propõe a filosofia: buscar o conhecimento para tornar nossas vidas melhores, para que tenhamos parâmetros para nossas escolhas e, com isso, tenhamos autonomia, possamos construir nossos caminhos de acordo com nossas necessidades e possibilidades. Esta deveria ser uma atividade natural ao ser humano. Contudo, muitas vezes temos nossa capacidade reflexiva diminuída por contextos nos quais estamos inseridos.

Problemas existenciais, sociais, pressões externas, medos, falta de confiança, conflitos de interesses, ideologias são apenas alguns dos aspectos que minam nossa capacidade reflexiva. É preciso que confiemos em nossas capacidades para avaliar, refletir, ponderar, decidir. Será que podemos confiar em nossos próprios pensamentos? Somos capazes do “pensar por nós mesmo”? Esta é uma capacidade humana, da qual todos somos dotados. Contudo, corremos o risco dos equívocos, daí a importância de estabelecermos critérios para a avaliação de nossos pensamentos, de nossas decisões.

Como a filosofia pode nos auxiliar neste processo?
A filosofia, ao abordar um problema, considera não apenas a questão isoladamente, mas esta em relação aos contextos nos quais se insere. Os problemas não existem fora do mundo, fora da vida, mas se constroem a partir destes. Para abordar uma questão filosoficamente, portanto, o primeiro passo é compreender sua gênese, sua origem, e para tal, traçamos sua história. Tratar um problema sem considerar sua história é, em filosofia, tratá-lo superficialmente.

A partir da história do problema, temos acesso aos elementos que o constituem, compreendemos seu processo de construção, e conseguimos alguns dados sobre ele, tais como: “o que é isto?”, “como isto funciona?”, “por que é dessa maneira?”, “para que isto é?”. Muitas vezes, ao respondermos tais questões, o problema se dissolve. Noutras, precisamos buscar elementos para a construção de novas formas de abordagem, ou aprender maneiras para lidar com a questão.

Entendendo não apenas o problema, mas com o que ele se relaciona, o que o influencia e o que é influenciado por ele, temos uma visão mais ampla do conjunto, que nos permite considerar até que ponto a solução que pensamos, é viável ou não. Além disso, é importante que todo esse processo ocorra de maneira logicamente organizada, a fim de evitar conclusões precipitadas ou equivocadas.

Experimente considerar os problemas com os quais se depara em seu cotidiano, a partir destes procedimentos. Tal abordagem auxilia sua reflexão? Como, habitualmente, você costuma pensar sobre suas questões? Já observou seu próprio processo de pensamento? Não há um padrão melhor ou pior para o pensar, há aquele que desenvolvemos. O importante é que consideremos os vários aspectos envolvidos e encontremos as melhores maneiras para lidar com o problema.

Todo o conhecimento é um fruto da experiência e por isso, uma consequência dos sentidos. Aristoteles

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