Breves considerações a partir do IV Livro da Metafísica de Aristóteles

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Introdução    

Aristóteles, em seu livro IV da Metafísica, trata de três pontos importantes: (1) da metafísica enquanto ciência do ser enquanto ser, (2) do significado do ser, suas noções e a relação do ser com o um e (3) do estudo dos axiomas: o de não-contradição e do terceiro excluído. Neste último ponto, ele faz uma refutação dos sofistas, especialmente de Protágoras, mostrando que o relativismo destes, principalmente no que concerne o princípio de não-contradição, é insustentável. Ele estabelece os princípios da lógica que devem ser base para qualquer raciocínio que se pretenda coerente.

1. A metafísica como ciência do ser enquanto ser e dos princípios da lógica

A metafísica não é uma ciência particular como, por exemplo, a química, a biologia, a matemática etc, pois estas delimitam um aspecto do ser para analisar um conjunto de seres apenas, não englobando a totalidade. Por exemplo, a biologia não trata de todos os seres, mas apenas daqueles que possuem vida. Portanto, a metafísica, diferente das outras ciências, possui como objeto o ser naquilo que este tem em comum com todos os outros seres, logo a ciência supracitada estuda o ser enquanto ser e suas propriedades. À metafísica compete, também, o estudo dos princípios da lógica, pois eles valem para todos os seres e todos utilizam deles. Além disso, a metafísica busca os princípios supremos e as causas dos seres, ou seja, aquilo que deu origem, sustenta e é fim de todos os seres. Os filósofos pré-socráticos procuraram dar uma solução ao problema da origem, sustentação e finalidade do ser, mas, como diz Aristóteles, ficaram apenas na causa material, não conseguindo ir além.

2. O ser se diz de várias maneiras

“O ser se diz em múltiplos significados”. Esta é uma espécie de frase mágica de Aristóteles. Ele não determina o ser como algo fixo, rígido, mas abre as possibilidades de se dizer o ser. O ser não se diz de forma unívoca, mas análoga. Ele pode ser dito enquanto matéria, sínolo, universal, gênero, acidente, etc, mas é ao modo de substância que o ser é dito mais propriamente. Por exemplo, branco é acidente, pois ele não subsiste por si; ele depende de outro, ele existe no outro; mas podemos dizer que “o branco é”, e, por isso, ele pode ser dito enquanto ser, apesar de não em sentido mais próprio. “Animal” é um gênero e, da mesma forma que o “branco”, pode ser dito como ser, apesar de não propriamente. Já, por exemplo, um carro, um homem determinado ou uma mesa concreta, que existem realmente, podem ser dito ser de maneira mais própria, pois cada um é uma substância.

2.1 o ser e o um

“O ser e um são a mesma coisa e uma realidade única…”(p.133). Na percepção aristotélica, o ser e o um são uma só coisa, possuindo a mesma noção. Afinal cada coisa concreta, cada tode ti é uma substância e esta é una. Por exemplo, este carro, este homem, são uma substancia una. Poder-se-ia dizer, sem problemas, um carro, um homem, um relatório, pois, cada coisa é una e por isso ser e um convergem-se. Assim também os universais são um. Quando se pensa casa, por exemplo, a idéia de casa que se tem na mente é una. Podemos dizer, portanto:

SER=UM

3 – O Axioma da não-contradição

O princípio de não-contradição é aquele que diz que uma coisa não pode ser e não ser ao mesmo tempo sob o mesmo aspecto. Uma coisa concreta, determinada (tode ti) é aquilo que ela é; não pode ser outra coisa. Um lápis é um lápis, uma caneta é uma caneta, um homem é um homem, e não podem ser ao mesmo tempo um não-lápis, uma não-caneta, um não-homem, pois, caso contrário, uma só coisa seria tudo, pois, se homem fosse igual a não-homem, então este homem seria também uma pedra, um carro, deus, computador, etc o que reduziria toda a diversidade de seres à unidade. Não é, então, possível que os contrários possam coexistir no mesmo sujeito. Logo, todo raciocínio deve ter como principio o de não-contradição, pois este princípio não é uma mera hipótese, mas, sim, algo seguro “sobre o qual é impossível errar” (p.143). Além do mais, o principio de não-contradição é indemonstrável, pois, caso contrário, teria que haver algo antes dele, o que o tiraria da condição de princípio. Não se pode demonstrar tudo ao infinito, pois isso resultaria na demonstração de nada.

3.1. Demonstração por refutação

Existe apenas uma maneira de demonstrar o princípio de não-contradição, que é por meio da refutação. Este método consiste em fazer o adversário do princípio falar qualquer coisa que tenha significado para ele, para mostrar que o mesmo caiu em contradição. Por exemplo, se alguém que não aceita o axioma citado dissesse que não gosta de abacaxi, poderíamos objetar dizendo que ele, então, gosta de abacaxi. Isso já deixaria claro que não se pode ir contra o axioma em destaque. Além disso, se alguém quisesse demonstrá-lo, claramente se cairia numa petição de princípio, pois teria-se que aceitá-lo implicitamente. Já alguém que quisesse, simplesmente, contrariá-lo cairia em contradição, pois, novamente, se estaria usando o princípio. Uma pessoa que dissesse “eu não aceito o princípio de não contradição” teria que dizer ao mesmo tempo “eu aceito o princípio de não-contradição”, para ficar coerente com seu modo de pensar, o que, no fundo, significa que a pessoa não está dizendo nada.

3.2. Refutação das doutrinas de Protágoras

O relativismo sustentado pelos sofistas e, especificamente por Protágoras, é refutado por Aristóteles, pois, para sustentá-lo, é necessário que se negue o axioma de não-contradição.

Se tudo o que chega a nós por meio dos sentidos é verdadeiro, e os homens têm opiniões contrárias sobre as aparências sensoriais, segue-se que estas deverão ser verdadeiras e falsas ao mesmo tempo. Como as coisas não podem ser e não-ser, então, o erro está em acatar todas as impressões sensoriais como verdadeiras. A pergunta que se faz a partir disso é: como uma mesma coisa pode gerar impressões contrárias? Por exemplo, como um mesmo alimento pode ser amargo para uma pessoa e doce par a outra? Caso assim fosse, um mesmo alimento teria que possuir os contrários. A resposta a esta pergunta é que uma mesma coisa pode ser os contrários em potência, mas não em ato. No exemplo dado, um alimento poderia ser doce e amargo, mas em potência, ou seja, ela teria a possibilidade de ser um e outro, não sendo os dois ao mesmo tempo atualmente.

Outro fator que é sustentado pelos filósofos anteriores a Aristóteles é que como as coisas sensíveis estão em constante movimento, e do que se muda não se pode dizer nada de verdadeiro, pois quando dizemos alguma coisa sobre algo mutável, ao terminarmos de dizer esta coisa já mudou, segue-se que não se pode dizer a verdade daquilo que se muda. Fazendo objeção a este raciocínio, nosso filósofo diz que quando uma coisa muda, ela conserva elementos daquilo que vai perdendo, e ganhando elementos daquilo que vai se transformando. Conclui-se daí que a mudança é a passagem de um ser determinado a outro ser determinado. Ademais, quem sustenta que o ser e o não-ser estão juntos na mesma coisa, deveria afirmar que as coisas não estão em movimento, mas em repouso, pois uma mesma coisa, já seria todas as outras e, portanto, ela não mudaria. Por exemplo, se algo é casa e não-casa, então ela não mudaria e se transformaria em outra coisa, pois ela já seria também esta outra coisa.

4 – Axiomas do 3º Excluído

Este princípio significa que não pode haver um intermédio no mesmo objeto na aplicação dos contraditórios nele, ou seja, ou se afirma ou se nega algo do mesmo objeto. Entre o ser e o não-ser não há um meio termo: ou é ou não é. Por exemplo, uma casa não pode ser uma não-casa e nem uma meia-casa. Não existe meia-casa. Homem é homem e não pode ser um não-homem e muito menos um meio-homem, pois este último jamais pode existir. Se houvesse um meio termo entre os contraditórios, não se poderia dizer nem que é nem que não é. Levando isso as últimas conseqüências, se passaria a ter um termo médio entre a geração e a corrupção, ou seja, algo que tivesse meia-existência o que é inconcebível.

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