As paixões humanas Thomas Hobbes

Índice

Thomas Hobbes (1588 – 1679)

Para Hobbes a filosofia tem que ter um fundamento prático, tem que ser útil, e dessa forma descarta a metafísica como sendo de interesse da filosofia. A filosofia tem que se interessar pelos corpos, a explicação das causas desses corpos e as suas propriedades. A filosofia não tem que se preocupar com a teologia ou com Deus, esses assuntos são de interesse da fé e não da filosofia. A filosofia também não trabalha com a história, pois essa se fundamenta em indícios e probabilidades.
A filosofia tem que estudar os corpos em geral, como os objetos inanimados; os copos dos homens, que são animados; e os corpos artificiais, como o estado. Tudo o que for espiritual ou não corpóreo, não é do interesse da filosofia. Os interesses da filosofia são os mesmos interesses da ciência, ambas buscam aumentar o poder dos homens sobre a natureza.
Hobbes acreditava que a razão não é uma prioridade humana, pois em certos graus os animais também usam da razão, como quando conseguem prever os acontecimentos futuros com base em suas experiências passadas. O que acontece é que nos homens essa previsão do futuro é muito superior, pois conseguem calcular e modificar o futuro com base nos experimentos passados.
A razão humana vai muito além e consegue através da lógica tornar mais complexo e profundo o nosso pensamento que derivam e se fundamentam em sinais que são os nomes que damos aos pensamentos ou acontecimentos passados. Esse processo tem por objetivo repassar aos outros seres humanos nossas experiências e pensamentos só que de forma sistematizada e elaborada.
Raciocinar é calcular nomes e sentenças, esse calcular pode ser uma soma, subtração, multiplicação ou divisão. Os cálculos do nosso raciocínio têm por base os sinais linguísticos que usamos para significar as nossas experiências, que são retiradas dos nossos sentidos, pois a origem de todos os nossos pensamentos está nos sentidos que estão baseados nos objetos externos ao nosso corpo.
Em Hobbes a ciência e a filosofia são vistas como sendo a busca do conhecimento da origem das coisas e desse conhecimento devemos excluir a teologia, pois o objeto de estudo da teologia é Deus e de Deus não podemos descobrir a origem.
A filosofia de Hobbes é ainda definida como corpórea e mecanicista. É corpórea porque os corpos são gerados e por isso são os únicos sobre os quais é possível raciocinar. É mecanicista porque somente um corpo pode sofrer uma ação. O prazer, a dor, o querer o ódio e o amor também são movimentos. Em todos esses movimentos não existe um bem e um mal, pois ambos são relativos se levarmos em conta que o bem é aquilo que buscamos e o mal aquilo do qual fugimos e que as pessoas buscam ou tentam se afastar de maneira e de coisas diferentes.
Mesmo não existindo um bem e um mal como valor absoluto, Hobbes admite que exista um primeiro bem que precede muitos outros, esse bem é a conservação da vida, e o contrário desse primeiro bem é a morte.
Levando seus princípios para a análise política e social, Hobbes discorda da posição aristotélica que diz que o homem é um animal político. Hobbes acredita que cada homem é diferente do outro e que a vida social é definida pelo egoísmo dessa diferença e pela convenção da convivência em grupo. O Estado em que esses indivíduos vivem não é algo natural, mas artificial, criado por esses indivíduos para alcançar da melhor forma seus objetivos egoístas.
Naturalmente os homens, devido ao seu egoísmo, viveriam em guerra de todos contra todos, cada um tendendo a defender os seus próprios interesses. Conforme palavras de Hobbes, em estado natural o “homem é o lobo do homem”. Nesse estado o homem ficaria prejudicado em seus interesse egoístas pois a qualquer momento poderia perder o seu primeiro bem que é a vida.
Usando o instinto e a razão ele tenta fugir dessa situação e se autoconservar. Para se conservarem os homens fazem entre si um pacto social e delegam a um único homem ou a uma assembleia o direito de representá-los. Esse único homem é o rei e ele detém todos os poderes.
Em torno desse rei ou da assembleia é formado o estado que Hobbes chama de Leviatã. Esse estado defenderá os homens das agressões estrangeiras e das agressões deles contra eles mesmos.

Hobbes e o pensamento político

Hobbes quis fundar a sua filosofia política sobre uma construção racional da sociedade, que permitisse explicar o poder absoluto dos soberanos. Mas as suas teses, publicadas ao longo dos anos, e apresentadas na sua forma definitiva no Leviatã, de 1651, não foram bem aceites, nem por aqueles que, com Jaime I, o primeiro rei Stuart de Inglaterra, defendiam que «o que diz respeito ao mistério do poder real não devia ser debatido», nem pelo clero anglicano, que já em 1606 tinha condenado aqueles que defendiam «que os homens erravam pelas florestas e nos campos até que a experiência lhes ensinou a necessidade do governo.»

A justificação de Hobbes para o poder absoluto é estritamente racional e friamente utilitária, completamente livre de qualquer tipo de religiosidade e sentimentalismo, negando implicitamente a origem divina do poder.

O que Hobbes admite é a existência do pacto social. Esta é a sua originalidade e novidade.

Hobbes não se contentou em rejeitar o direito divino do soberanos, fez tábua rasa de todo o edifício moral e político da Idade Média. A soberania era em Hobbes a projeção no plano político de um individualismo filosófico ligado ao nominalismo, que conferia um valor absoluto à vontade individual. A conclusão das deduções rigorosas do  pensador inglês era o gigante Leviatã, dominando sem concorrência a infinidade de indivíduos, de que tinha feito parte inicialmente, e que tinham substituído as suas vontades individuais à dele, para que, pagando o preço da sua dominação, obtivessem uma proteção eficaz. Indivíduos que estavam completamente entregues a si mesmos nas suas atividades normais do dia-a-dia.

Infinidade de indivíduos, porque não se encontra em Hobbes qualquer referência nem à célula familiar, nem à família alargada, nem tão-pouco aos corpos intermédios existentes entre o estado e o indivíduo, velhos resquícios da Idade Média. Hobbes refere-se a estas corporações no Leviatã, mas para as criticar considerando-as «pequenas repúblicas nos intestinos de uma maior, como vermes nas entranhas de um homem natural». Os conceitos de «densidade social» e de «interioridade» da vida religiosa ou espiritual, as noções de sociabilidade natural do homem, do seu instinto comunitário e solidário, da sua necessidade de participação, são completamente estranhos a Hobbes.

É aqui que Hobbes se aproxima de Maquiavel e do seu empirismo radical, ao partir de um método de pensar rigorosamente dedutivo. A humanidade no estado puro ou natural era uma selva. A humanidade no estado social, constituído por sociedades civis ou políticas distintas, por estados soberanos, não tinha que recear um regresso à selva no relacionamento entre indivíduos, a partir do momento em que os benefícios consentidos do poder absoluto, em princípio ilimitado, permitiam ao homem deixar de ser um lobo para os outros homens. Aperfeiçoando a tese de Maquiavel, Hobbes defende que o poder não é um simples fenômeno de força, mas uma força institucionalizada canalizada para o direito (positivo), – «a razão em acto» de R. Polin – construindo assim a primeira teoria moderna do Estado.

Deste Estado, sua criação, os indivíduos não esperam a felicidade mas a Paz, condição necessária à prossecução da felicidade. Paz que está subordinada a um aumento considerável da autoridade – a do Soberano, a da lei que emana dele.

Mas, mesmo parecendo insaciável, esta invenção humana com o nome de um monstro bíblico, não reclama o homem todo. De facto, em vários aspectos o absolutismo político de Hobbes aparece como uma espécie de liberalismo moral. Hobbes mostra-se favorável ao desenvolvimento, sob a autoridade ameaçadora da lei positiva, das iniciativas individuais guiadas unicamente por um interesse individual bem calculado, e por um instinto racional aquisitivo.

Estado de natureza

A natureza fez os homens iguais e, em sendo iguais, todos podem aspirar a qualquer coisa e se utilizar de quaisquer meios para atingir os seus objetivos. Na medida em que dois homens desejam a mesma coisa, eles passam a ser inimigos e buscam a destruição um do outro. O estado de natureza ou direito de natureza (jus naturale) é definido por Hobbes como ³aliberdade que cada homem possui de usar o seu próprio poder, da maneira que quiser, para a preservação da sua própria natureza, ou seja, da sua vida; e conseqüentemente e de fazer tudo aquilo que o seu próprio julgamento e a razão lhe indiquem como meios mais adequados a esse fim. Na ausência de um poder que limite as suas ambições, os homens vivem empermanente estado de guerra, que é motivado por três causas principiais de discórdia: a competição ± os ataques visam o lucro; a desconfiança ± defesa das pessoas e das propriedades; e a glória ± luta pela reputação ou por uma ofensa qualquer.Nessas condições, o homem não consegue desenvolver atividades voltadas para a melhoria de suas condições de vida, como o trabalho, cultivo de terra, navegação, artes e outras. Tudo causado pelo medo contínuo e perigo de morte violenta. Assim, a sua vida é solitária, miserável, sórdida, brutal e curta.Como resultado das assertivas anteriores, Hobbes conclui que não existe a noção decerto e errado, de justiça e injustiça, uma vez que não há poder comum. Portanto, não há lei e onde não há lei não há justiça. A força e a fraude são cultuadas, na guerra, como as duas virtudes cardeais. Também não há propriedade, já que o homem é dono apenas daquilo que é capaz de conseguir e conservar.Como sair dessa situação miserável? Por intermédio das paixões e da razão. O medo da morte e o desejo de uma vida confortável são paixões que fazem os homens tender para a paz, cuja obtenção é guiada pela razão e materializada pelo estabelecimento de normas, que refletem um acordo entre eles.Hobbes afirma que algumas pessoas podem não concordar com as suas inferências ,pois apresenta os homens como sendo capazes de se destruírem uns aos outros. Entretanto,lembra que quando alguém empreende uma viagem, procura se armar; quando vai dormir,fecha as portas; quando está em casa, fecha seus cofres. Tudo isto pode representar, em atos, uma acusação contra a humanidade, da mesma forma que ele o faz com as suas palavras.

PACTO SOCIAL.

Como todos homens vivem preocupados em defender sua vida, cria-se o pacto social. O pacto social nada mais é do que todos homens saíssem de seu estado natural para que dessa forma, a população obedeça leis racionais, usando a razão e conseqüentemente se socializando.
Hobbes destaca, no Leviatã as seguintes regras da lei natural :
1ª) “procurar a paz e segui-la”;
2ª) “por todos os meios que pudermos, defendermo-nos a nós mesmos”;
3ª) “Que os homens cumpram os pactos que celebrarem”;
4ª) “gratidão”;
5ª) “complacência”, “que cada um se esforce por acomodar-se com os outros”;
6ª) “perdão”, “Que como garantia do tempo futuro se perdoem as ofensas passadas, àqueles que se arrependam e o desejem”;
7ª) “Que na vingança (isto é, a retribuição do mal com o mal) os homens não olhem à importância do mal passado, mas só à importância do bem futuro”;
8ª) “Que ninguém por atos, palavras, atitude ou gesto declare ódio ou desprezo pelo outro”;
9ª) “Que cada homem reconheça os outros como seus iguais por natureza”
Perceberam? Tais leis são baseadas na razão, nesse contexto entra um estado e um poder absoluto. PARA HAVER TAIS LEIS É NECESSÁRIO A EXISTÊNCIA DE UM ESTADO QUE GARANTA A PAZ CIVIL.

O Lobo do Homem

De acordo com Hobbs, o egoísmo é o mais básico comportamento humano. Ele acreditava que o homem é por natureza mau e, se você lhe tirar seu espaço, ele se torna agressivo e cruel com seu semelhante. A solução para que essa maldade seja amenizada era que o homem deveria ser privado de certas liberdades. Essa era a única forma que Thomas Hobbs via de manter a ordem e a paz nos burgos, do contrário, será uma “guerra de todos contra todos”.

Para o filósofo inglês, os homens são perfeitamente iguais, desejam as mesmas coisas, têm as mesmas necessidades, o mesmo instinto de autopreservação. Por isso, em “Estado Natural” ele necessita do conflito e, dessa forma, surgem as revoltas e as guerras. As guerras existem, portanto, porque os homens querem as mesmas coisas, sustenta Hobbs. Como então manter a paz neste “estado natural” de guerra da espécie humana?

Para Thomas Hobbs, a solução é somente por intermédio de um pacto, de um contrato formal entre pessoas iguais que renunciam suas liberdades em troca de tranquilidade. É desse período que vem muitas de nossas convenções presentes em nossos dias atuais. Há os que acreditam e defendem esse ponto de vista filosófico e citam os pactos como as cartas magnas de cada país conhecidas por nós como Constituição. Aqui, cabe mais uma pergunta: o que seria de um país sem sua constituição?

Thomas Hobbs pertence ao período filosófico que denominamos de “contratualismo”, que é o período onde os filósofos acreditavam que a evolução do homem passa por um acordo coletivo. Portanto, só poderia se manter a paz e a evolução da espécie humana por intermédio de instrumentos contratuais.

Você já refletiu sobre essas questões anteriormente? Você concorda que o homem literalmente se mata para ter mais dinheiro, status, sucesso, poder, enfim, que o homem é o lobo do homem?
Jean Jacques Rousseau, ao contrário de Thomas Hobbs, com uma visão um pouco mais puritana e humanista, acreditava que “o homem é bom por natureza”, contudo é o convívio em sociedade que o corrompe.

Talvez não seja correto afirmar que nem o homem é o lobo do homem e nem o homem é bom por natureza. Antes disso, vem as características individuais, pessoais de cada indivíduo, não há uma regra geral. Para cada um é de um jeito. É a singularidade, algo singular em cada indivíduo que só a ele pertence, fruto de uma história vivida a partir da sua realidade.

Para nós, filósofos clínicos, a singularidade é a digital de cada pessoa, como a íris, ou seja, é única. E esse caráter único, autêntico, também pode se traduzir como sendo o seu sabor pessoal. Portanto, quando Hobbs diz ser o homem lobo do homem, ou seja, “mau por natureza” isso é assim para ele. Quando Rousseau diz que o homem é “bom por natureza” isso é assim para Rousseau. Portanto, quando alguém vir com receita pronta, ideias pré-concebidas onde abrange a coletividade, a humanidade, para mim, devemos primeiro saber que isso é a representação de mundo da pessoa que está falando, que está dizendo, e não uma verdade absoluta.

É assim como o mundo me parece hoje. E você, o que pensa sobre o homem ser o lobo do homem?

“A natureza dos homens é tal que, embora sejam capazes de reconhecer em muitos outros maior inteligência, maior eloquência ou maior saber, dificilmente acreditam que haja muitos tão sábios quanto eles próprios. Pois veem sua própria sabedoria bem de perto e a dos homens à distância. Isso prova que os homens são iguais quanto a esse ponto e não desiguais. […] Se dois homens desejam a mesma coisa, portanto, ao mesmo tempo que é impossível ela ser aproveitada por ambos, eles se tornam inimigos. No caminho para  seu fim […] esforçam-se por se destruir ou subjugar um ao outro” (Hobbes, 2005, p. 96-97).

“Da guerra de todos contra todos, também isto é consequência: que nada pode ser injusto. As noções do bem e mal, de justiça e injustiça não podem ter lugar aí. Onde não há poder comum não há lei. Onde não há lei não há injustiça. Na guerra, a força e a fraude são as duas virtudes principais. A justiça e a injustiça não fazem parte das faculdades do corpo ou do espírito. Se assim fossem, poderiam existir um homem que estivesse sozinho no mundo, do mesmo modo que seus sentidos e paixões. São qualidades que pertencem aos homens em sociedade, não na solidão. Outra consequência da mesma condição é que não há propriedade, domínio, distinção do que é meu e teu. Pertence a cada homem só aquilo que ele é capaz de conseguir, e apenas enquanto for capaz de conservá-lo” (Hobbes, 2005, p. 99-100).
Sentenças:
– O homem é o lobo do homem.
– A natureza é a guerra de todos contra todos.
– O papa é o fantasma do imperador romano.
– O interesse e o medo são o princípio da sociedade.
– Sem a espada os acordos são só palavras.
– As leis são feitas pela autoridade e não pela verdade.
– As grandes sociedades se baseiam em medos recíprocos.
– O ócio é a mãe da filosofia.
– Quem não está contra nós, está do nosso lado.
– Toda infração da lei é uma ofensa contra o estado.

Livro:

Deixe uma resposta

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s