Homem pensante X homem desejante

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De um lado, a filosofia busca explicar o homem pela razão, pela cognição e pela consciência. De outro, a psicanálise resgata o sujeito do desejo, da irracionalidade e do inconsciente.

Um motorista grita, xinga e se irrita com o trânsito. Um passageiro tem uma crise de pânico quando o avião levanta voo. O marido mata a mulher em um acesso de ciúme. Um expectador chora compulsivamente durante o espetáculo musical. A irritação domina o motorista. A crise de pânico domina o passageiro. O ciúme domina o marido. O choro domina o expectador. Esta força “dominadora e incontrolável” que impulsiona ações, sensações, comportamentos e sintomas e que toma de assalto a humanidade, cotidianamente, possui um determinismo para além de qualquer racionalização possível.

Foi investigando essa força que, no alvorecer do século XX, Sigmund Freud chocou o mundo ao declarar que o homem não era senhor de sua própria consciência. Se formos pesquisar as origens do conceito de inconsciente, veremos que ele é muito anterior à psicanálise. Filósofos e teóricos de diversas procedências há muito já o haviam descrito. Mas foi Freud que forjou “O Inconsciente” com I maiúsculo e deu a ele lugar específico e privilegiado no psiquismo humano, por meio de uma concepção sistemática.

Filósofos o descreveram. Freud mergulhou nele. A partir do estudo das repressões patogênicas e de outras manifestações psíquicas, a psicanálise foi vasculhar, a partir da escuta clínica, os meandros do que Freud chamou inicialmente de um “mental inconsciente”. De acordo com ele, os sintomas neuróticos não estavam diretamente relacionados com fatos reais, mas com fantasias impregnadas de desejos. “No tocante à neurose, a realidade psíquica é de maior importância que a realidade material”, afirma ele em seu “Um Estudo Autobiográfico”, de 1925.

BASES DISTINTAS

Antes, porém, Schopenhauer já havia defendido a supremacia do instinto sobre a razão humana. O filósofo desenvolveu o conceito com base em reflexões e formulações teóricas; Freud, a partir da observação empírica de seus pacientes. Ambos estudaram a mesma subjetividade humana, mas a partir de diferentes premissas e perspectivas. Em várias passagens da obra de Freud é possível identificar o que seria o legado de grandes pensadores que parecem ter deixado uma herança intelectual à sua teoria, apesar de ele próprio, em muitos momentos, negar tal influência.

Santo Agostinho acreditava na existência de uma vontade interior que contradiz a si mesma. Platão citava Eros e defendia a existência de um conhecimento que provém da imaginação e dos sonhos. A partir do final do século XIX, Sigmund Freud começa a construir o seu pensamento por meio de premissas como o inconsciente, a sexualidade e a interpretação dos sonhos. O diálogo entre filosofia e psicanálise parece inegável. E, realmente, há vários momentos em que as duas ciências parecem muito próximas. Mas também há pontos de inevitável distanciamento.

Ainda em seu Estudo Autobiográfico, Freud procura esclarecer que o pensamento filosófico não teria tido influência direta na formulação da teoria psicanalítica. “O alto grau em que a psicanálise coincide com a filosofia de Schopenhauer não deve ser remetido à minha familiaridade com seus ensinamentos. Li Schopenhauer muito tarde em minha vida”, afirma, destacando que as neuroses foram o primeiro e, por muito tempo, constituíram o único ponto de seu interesse.

Em suas últimas obras, Freud fez diversas referências à ênfase que Schopenhauer dava à sexualidade, apesar de não nominá-lo diretamente. Em “O Mundo como Vontade e Representação”, o filósofo alemão debate o caráter da paixão sexual que, segundo ele, é o ponto central da vontade de viver e, consequentemente, a concentração de todo desejo. “Ela é a causa da guerra e o fim da paz, a base do que é sério e o alvo da zombaria, a inexaurível fonte do espírito, a chave para todas as alusões e o significado de todas as insinuações misteriosas (….) e somente essa tendência perpetua e mantém unida toda a existência fenomênica”, diz Schopenhauer no capítulo XLII de” A Vida da Espécie”. Ele foi o primeiro filósofo a defender que a irracionalidade preponderaria sobre a razão e a inteligência humanas.

A dimensão que o alemão dá à importância do impulso sexual para a vida do homem encontra paralelo na teoria de Freud, já que aquilo que o pai da psicanálise chamou de sexualidade também está longe de se resumir à união sexual ou ao prazer genital. Freud procurou demonstrar em seus estudos que os componentes sexuais, passíveis de ser desviados para outros interesses, efetuam as contribuições mais importantes às realizações culturais do indivíduo e da sociedade. Aí há também muita semelhança com Eros, do Banquete de Platão.

Quanto a Nietzsche – que parece ter sido o filósofo que mais contribuiu para a construção da teoria psicanalítica, no que se refere às questões relacionadas ao inconsciente e às forças (pulsões) que movem o ser humano – Freud declara tê-lo evitado durante muito tempo a fim de manter a mente “desimpedida”. No entanto, dizia que ele foi o filósofo cujas conjecturas e intuições concordam, da forma mais surpreendente, com os laboriosos achados da psicanálise. Afirma, também, ter seguido o pensador alemão Gustav Theodor Fechner (1801-1887) em muitos pontos importantes. Ele teria influenciado Freud no desenvolvimento do princípio da constância e na fundamentação do conceito de topografia mental.

SUBJETIVIDADE HUMANA

Nenhum homem, por mais genial que seja, desenvolve seu pensamento à margem do saber coletivo. Todo salto criativo e original vem necessariamente alavancado, em alguma medida, pelo legado histórico do conhecimento humano, cumulativo e em contínua expansão. Com Freud, certamente não foi diferente. Antes dele, filósofos, pensadores, escritores e poetas intuíram e desenvolveram ideias para conceitos que o pai da psicanálise interpretou com genialidade visionária e abordou sob perspectivas inéditas.

O sofrimento humano, o inconsciente, a sexualidade, as pulsões. Todos já haviam sido tema de preocupação e de investigação filosófica. Mas foi Freud que cruzou a fronteira do que poderíamos chamar de “uma forma de pensar o sofrimento” para “uma forma de tratar o sofrimento”. Os filósofos se limitaram a formular conceitos. Freud criou um método terapêutico que mistura ciência, medicina e filosofia. É com base nessa simbiose entre método científico, prática clínica e pensamento filosófico que a psicanálise aventura-se pelos labirintos da mente a fim de decifrá-la. Freud dedicou sua vida à ciência que pretendia, por meio da interpretação da subjetividade humana, aliviar o sofrimento psíquico do homem e descortinar aquilo que de mais obscuro lhe habita a alma.

Apesar de negar a influência de determinados pensadores sobre sua obra, em muitos momentos fica clara a ascendência que alguns filósofos tiveram sobre seu pensamento, como Emmanuel Kant. As ideias do pensador alemão teriam contribuído para a construção da metapsicologia freudiana. Mesmo em aspectos não referidos diretamente, teve um papel de muita importância, principalmente no que se refere a uma subjetividade que se constitui por meio de um movimento interno e que faz com que o sujeito seja sempre um fenômeno, uma aparência para si mesmo, de modo que aquilo que o constitui em sua base sempre ficará desconhecido em algum grau.

Oráculo de Delfos
Situado na Grécia, no que foi a antiga cidade chamada Delfos, o Oráculo de Delfos era dedicado a Apolo e centrado em um grande templo, ao qual se dirigiam os antigos gregos para levar suas questões aos deuses.

ENCONTRO

Outra influência filosófica ao pensamento freudiano vem da fenomenologia hegeliana, que compreende a subjetividade a partir de diversas figuras que se sucedem dialeticamente. A verdade não seria um dado, mas o resultado de um processo dialético, conceito próximo à hipótese do determinismo psíquico de Freud. Para a psicanálise freudiana, os fatos e ocorrências da infância são determinantes para a formação do sujeito e seguem, no decorrer da vida, uma trajetória de ressignificações que avança dentro de uma lógica psíquica.

Porém esta jornada da humanidade pelo entendimento acerca de si próprio remonta os séculos. No distante ano de 650 a.C., a inscrição na entrada do Oráculo de Delfos – “Conhece-te a ti mesmo” – já anunciava a aventura a ser empreendida pelo homem em intrincados e complexos caminhos: a busca por si próprio. Não é possível afirmar que Freud, assim como fez o filósofo Sócrates, tenha ido buscar aí inspiração para sua obra. Mas não se pode negar a afinidade entre o que pregava o famoso templo grego e o que buscava o homem que “descobriu” o inconsciente. Mas nem só da fonte da filosofia bebeu Freud. A literatura – arte que, segundo a psicanálise, mais traduziria o inconsciente – foi também, sem dúvida, uma grande inspiração.

Para desenvolver um dos mais conhecidos conceitos psicanalíticos – o Complexo de Édipo – Freud foi buscar elementos no ano 496 a. C., quando o famoso dramaturgo grego Sófocles escreveu uma de suas mais famosas tragédias. Nela, Édipo mata o pai para casar-se com a própria mãe. Ao longo de seus estudos sobre o inconsciente e com base em observações clínicas, Freud transpõe a ficção e traz para a realidade uma nova forma de explicar o homem, seus desejos e as repressões que estariam no cerne das neuroses.

MERO COADJUVANTE

Com base em duas hipóteses fundamentais: a existência do inconsciente e o determinismo psíquico, a psicanálise tirou do homem o centro de sua consciência e colocou- o como coadjuvante de uma cena em que o irracional (desejo) prepondera. Por meio da observação e dos estudos a partir da experiência com centenas de pacientes, Freud falou da existência de um “estranho” que habita em todos nós. A partir desse momento, o inconsciente deixa de ser somente uma pequena porção indecifrável da consciência, deixa de ser uma descrição filosófica e assume o comando de uma realidade psíquica em que o homem não é mais dono de si mesmo. A clínica freudiana – investigação empírica, situada no campo da ciência e com a qual a filosofia não tem nenhum compromisso ultrapassa os conceitos teóricos e se aventura a sondar os obscuros labirintos da mente humana.

Assim, a “invenção” da psicanálise, ao mesmo tempo em que revela traços de uma ascendência filosófica inescapável, por outro representa um salto conceitual e científico de proporções revolucionárias. O homem que pensa e o homem que deseja se encontram e se despedem na curva da subjetividade humana.

HOMEM PENSANTE

Homem é quem desbrava
Miragens, sonhos, ilusões

Inventa braços e pernas
Vai ao encontro de soluções

Constrói cidades de pedra
Sobre vales e pastagens

Não há erva que não medre
Na ambição das viagens

Modifica a natureza
Pela conveniência

Esquece a metáfora
No país da consciência!

António Casado

 

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