Propaganda fascista e anti-semitismo [ 1946]*

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Theodor W Adorno

[* Publicado originalmente em Ernts Simmel (org.),  Anti-semitism: A social disease. Madison: International University Press, 1946. Reproduzido em  Gesammelte Schriften Vol. 9, T. I [Soziologische Schriften] Frankfurt: Surhkamp Verlag, 1975, p. 397-407. Traduzido por Francisco Rüdiger.

As observações contidas neste artigo baseiam-se em três estudos realizados pelo Projeto de Pesquisa sobre o Anti-semitismo, patrocinado pelo Instituto de Pesquisa Social na Universidade de Columbia. Os referidos estudos analisam extensa amostra de propaganda anti-semita e anti-democrática, constituída sobretudo de panfletos, publicações semanais  e transcrições das palestras radiofônicas feitas por agitadores da costa oeste [dos Estados Unidos]. A natureza dos trabalhos é, primariamente, psicológica, embora muitas vezes toquem em problemas econômicos, políticos e sociológicos. Conseqüentemente, em consideração aqui, mais do que os conteúdos objetivos, estão os aspectos psicológicos dessa propaganda. Entre seus objetivos não está o de enunciar uma teoria psicanalítica plena e acabada da propaganda anti-democrática, nem o de dar completo tratamento dos métodos empregados. Outrossim, omitiu-se os fatos e interpretações geralmente conhecidos daqueles familiarizados com a psicanálise.  O objetivo é, antes apontar algumas descobertas que, embora de maneira fragmentada e preliminar, possam vir a sugerir futuras avaliações psicanalíticas.

O material estudado exibe em si mesmo um enfoque psicológico, pois é nestes termos, muito mais do que em bases objetivas, que é concebido. Ele procura conquistar as pessoas trabalhando com seus mecanismos inconscientes, e não apresentando idéias e argumentos. A técnica oratória dos demagogos fascistas tem uma natureza astuciosamente ilógica e pseudo-emocional, mas não é só; mais do que isso, programas políticos positivos, postulados ou qualquer outra idéia política concreta desempenham um papel menor em comparação com os estímulos psicológicos aplicados à audiência. É partindo desses estímulos e outras informações, mais do que das plataformas confusas de seus discursos, que podemos identificá-los como sendo fascistas.

Consideremos três características da abordagem predominantemente psicológica da atual propaganda fascista norte-americana.

1. Trata-se de propaganda personalizada, essencialmente não-objetiva. Os agitadores gastam boa parte de seu tempo falando sobre si mesmos ou de suas audiências. Eles se apresentam como lobos solitários, típicos cidadãos americanos, cheios de robustez e,  como tais, sujeitos incansáveis e sem traços de egoísmo. Também estão sempre divulgando intimidades reais e fictícias sobre suas vidas  e a de seus familiares. Além disso, parecem possuir um caloroso interesse humano nas pequenas preocupações cotidianas de seus ouvintes, a quem descrevem como cristãos pobres mas honestos,  guiados pelo bom sendo mas não-intelectuais. Trata-se de homens que se identificam com seus ouvintes e põem uma ênfase muito grande no fato de serem ao mesmo tempo homens modestos e líderes de grande calibre. Freqüentemente, referem-se a si mesmos como mensageiros de alguém que está por vir – um truque familiar aos discursos de Hitler. Provavelmente  essa técnica está intimamente relacionada à substituição do imaginário paterno por um ego coletivo [1]. Outro esquema de personalização por eles privilegiado é reiterar as pequenas necessidades financeiras e suplicar por pequenas quantias de dinheiro. Os agitadores repudiam qualquer pretensão de superioridade, sugerindo que o líder por vir é alguém tão fraco quanto seus irmãos mas que, ao mesmo tempo, ousa confessar sua fraqueza sem inibição e, por isso, está pronto a se converter em um homem forte.

2. Todos os demagogos trocam os fins pelos meios. Falam muito sobre “este grande movimento”, sobre o seu desejo em promover um  renascimento americano, mas quase nada sobre onde esse movimento vai levar, que organização é boa para tanto e o que de positivamente se pretende alcançar com esse misterioso renascimento. Eis um típico exemplo de descrição redundante da idéia de renascimento feita por um dos mais bem sucedidos agitadores da costa oeste: “Meu amigo, só existe um meio de se conseguir um renascimento. A América inteira , todas as igrejas, tem de conseguir esse renascimento. A história do grande renascimento galês é simplesmente isso. A piedade divina levou os homens aos desespero e, então, eles começaram a orar, a pedir que o renascimento lhes fosse enviado, e onde quer os homens e mulheres fossem lá chegava o renascimento.” A glorificação da ação, daquilo que está acontecendo, simultaneamente substitui e oblitera os propósitos do assim chamado movimento. O fim é o de que “se possa demonstrar ao mundo que existem patriotas, homens e mulheres cristãos, temerosos de Deus e que, apesar de tudo, desejam doar suas vidas  a seu lar, à sua terra natal e à causa de Deus.” [2]

3. Dado que todo o peso desta propaganda visa promover os meios, ela própria é seu conteúdo último. Noutras palavras, a propaganda funciona como uma espécie de satisfação de desejos. Este é um de seus mais importantes padrões. As pessoas são deixadas à vontade, como se estivessem tomando posse de um narcótico; são aceitas com base na confiança, tratadas como uma elite, que merece saber seus obscuros mistérios, escondidos para quem está de fora. A bisbilhotice é ao mesmo tempo encorajada e satisfeita. Constantemente se relatam histórias escandalosas, a maioria fictícias, particularmente as de atrocidades e de excessos sexuais; e a indignação para com as sujeiras e crueldades não é senão uma racionalização propositalmente fina e transparente do prazer que esse tipo de história proporciona aos ouvintes. Ocasionalmente a língua resvala, e o escândalo mascateado facilmente se deixa identificar como um fim em si mesmo. Certa vez, por exemplo, um demagogo da costa oeste prometeu fornecer todos os detalhes sobre um falso decreto, com o qual o governo soviético estaria organizando a prostituição da mulher russa. Quando anunciou essa história, o locutor disse que homem algum ouviria esses fatos sem sentir um frio na espinha. A ambivalência contida na expressão “frio na espinha” é por demais evidente.

Pode-se explicar até certo ponto racionalmente esses padrões. Pouquíssimos agitadores americanos ousariam confessar abertamente suas metas fascistas e anti-democráticas. Diferentemente da Alemanha, neste país a ideologia democrática está cercada de certos tabus, cuja violação poderia ameaçar as pessoas envolvidas na subversão.  A censura política e a tática psicológica constituem, juntas, razão para que, aqui, o demagogo fascista tenha muito mais restrição com relação ao que pode dizer. Além disso, é preciso considerar que certa vaguidade a respeito dos objetivos políticos é intrínseco ao fascismo. Isso se deve, em parte, à sua natureza intrinsecamente ateórica, em parte ao fato de que seus seguidores acabarão sendo enganados. Os chefes fascistas devem evitar qualquer formulação que, mais tarde, eles precisem esticar. Também deverá ser notado que, relativamente às medidas terroristas e repressivas, o fascismo habitualmente vai além do que ele tinha anunciado.  Totalitarismo significa desconhecer limites, não dar nenhum descanso para respirar, conquistar impondo domínio absoluto, exterminar totalmente os inimigos escolhidos. Perante esse significado fascista do que vem a ser “dinamismo”, qualquer programa bem talhado funcionaria como limitação, uma espécie de garantia dada ao adversário. Essencial ao totalitarismo é que nada seja garantido, não se coloque nenhum limite a sua brutal arbitrariedade.

Finalmente, precisamos ter em mente que, para o totalitarismo, as massas não são seres humanos auto-determinados, que racionalmente decidem seu próprio destino e, portanto, devem ser interpelados como sujeitos racionais, mas ao invés são meros objetos de medidas administrativas, que, acima de tudo, devem ser ensinados a se auto-anular e a obedecer ordens.

Precisamente este ponto todavia requer um escrutínio mais detalhado, se quer ir um pouco mais além  da corriqueira hipótese sobre o hipnotismo de massa promovido pelo fascismo. É altamente duvidoso se o que ocorre no fascismo é uma verdadeira hipnose, pois isso também pode ser uma metáfora fácil, que permite ao observador dispensar uma análise mais aprofundada do fenômeno. Provavelmente, a sobriedade cínica é muito mais característica da mentalidade fascista do que a intoxicação psicológica. Além do mais, todos que já tiveram a chance de observar as atitudes fascistas puderam notar que mesmo os estágios de entusiasmo coletivo, aos quais se refere o termo hipnose coletiva, possuem um elemento de manipulação consciente, seja pelo líder, seja pelo próprio indivíduo. Dificilmente pode-se ver nesses estágios o resultado de um contágio passivo. Falando psicologicamente, o ego tem um papel muito grande na irracionalidade fascista, para que se interprete o seu suposto êxtase como mera manifestação do inconsciente. Sempre existe algo de espúrio, de auto-estilizado e auto-ordenado na histeria fascista. Isso demanda um atenção critica, se é para a teoria psicológica do fascismo não se render aos slogans irracionais que  o próprio fascismo promove.

Posto isso, podemos perguntar o que é que, afinal, a propaganda fascista e, em particular, a anti-semita, deseja conseguir ? Para ser exato, sua meta não é “racional”, porque ela não tenta convencer o povo e jamais deixa o plano não-argumentativo. Existe aí uma conexão em que dois fatos merecem detalhada investigação :

1. A propaganda fascista não ataca oponentes reais mas [….]. Isto é, constrói uma imagem do judeu, do comunista, para depois parti-la em pedaços, sem cuidar muito da maneira como essa imagem se relaciona com a realidade.

2. Ela não emprega a lógica discursiva pois, antes disso, particularmente quando se trata de exibições retóricas, ela é o que pode ser chamado de fluxo organizado de idéias. A relação entre as premissas e inferências é substituída por uma vinculação de idéias que repousa em sua mera similaridade e, mais freqüentemente, em associações, ao empregar a mesma palavra característica em duas proposições que, logicamente, não têm qualquer relação. Esse método não apenas escapa aos mecanismos de exame racionais como também torna mais fácil seu acompanhamento pelo ouvinte. O ouvinte não tem exatamente de fazer um pensamento, podendo se entregar passivamente ao fluxo de palavras no qual mergulhou.

A despeito desses padrões regressivos, a propaganda anti-semita de modo algum é totalmente irracional. Irracionalidade é um termo muito vago para descrever suficientemente uma fenômeno psicológico tão complexo. Sabemos muito bem  que a propaganda fascista, com todas as suas fantásticas distorções e contorcionismos lógicos, é conscientemente planejada e organizada. Caso se deseje chamá-la  de irracional, é preciso observar que se trata de uma irracionalidade aplicada antes que espontânea, uma espécie de psicotécnica, derivada dos efeitos conspícuos com que se especula na maioria das expressões da cultura de massa da atualidade – por exemplo, filmes e transmissões radiofônicas. Portanto, ainda que seja verdade que a mentalidade do agitador fascista reflita algo da confusão mental de seus possíveis seguidores e que os próprios chefes “sejam tipos histéricos ou paranóicos”, a verdade é que eles souberam aprender como utilizar suas predisposições psicóticas ou neuróticas para lograr certos fins que estão totalmente adaptados ao princípio da realidade. E isso, quer tendo partido da experiência, quer tendo   considerado o extraordinário exemplo de Hitler. As condições prevalecentes em nossa sociedade tendem a transformar as neuroses e mesmo a loucura moderada em mercadoria, que os que delas padecem podem passa adiante, uma vez descobrindo que há muitos outros com doenças afins às suas. O agitador fascista via de regra é um exímio vendedor de seus próprios defeitos psicológicos. Obviamente isso só é possível devido à similaridade estrutural existente entre o líder e seus seguidores. O objetivo da propaganda é estabelecer a concordância entre eles, muito mais do que fornecer qualquer idéia ou emoção que, desde o início, não pertencesse à sua audiência. Posto isso, o problema da verdadeira natureza psicológica do fascismo pode ser formulado:  Em que consiste esta relação entre líder e seguidores na situação de propaganda?

A observação acima sugerida de que esse tipo de propaganda funciona como forma de gratificação seria um primeiro ponto de referência. Podemos compará-la com o que acontece no fenômeno social novela (soap-opera). Assim como a dona de casa se sente impelida a comprar a sopa vendida pelo patrocinador, ao desfrutar os sofrimentos e boas ações de suas heroínas preferidas por um quarto de hora através o rádio, também os ouvintes da propaganda fascista aceitam a ideologia representada pelo  locutor em gratidão pelo show com o qual se divertiram. A palavra certa de fato é essa, “show”.  O trabalho de construção de um chefe auto-estilizado assemelha-se às performances remanescentes do teatro, do esporte e dos chamados autos de fé religiosos. É característico dos demagogos fascistas se vangloriar de terem sido atletas exemplares em sua juventude: é assim que eles se comportam. Eles berram e choram, fingem lutar contra o demônio e tiram seus casacos quando atacam os chamados “poderes sinistros”.

Os líderes fascistas típicos são freqüentemente chamados de histéricos. Não importa como chegaram a essa atitude. A verdade é que seu comportamento histérico preenche certa função. Embora eles de fato se pareçam a seus seguidores em não poucos aspectos, diferem  em um ponto importante: eles não conhecem nenhuma inibição ao se expressarem. Dizendo e fazendo o  que eles gostariam mas ou não ousam  ou não podem, os agitadores fascistas atuam de modo vicário para seus desarticulados ouvintes. Eles violam os tabus que a sociedade de classe média colocou em todo o comportamento expressivo do cidadão normal e realista. Pode-se dizer que alguns efeitos da propaganda fascista são obtidos através desse procedimento invasivo. Os agitadores fascistas são levados a sério porque eles se arriscam a passar por bobos.

As pessoas educadas costumam ter dificuldade em entender os efeitos dos discursos hitlerianos porque eles soam muito insinceros e inautênticos, ou, como diz a palavra alemã, verlogen. Porém é enganoso pensar que as chamadas pessoas comuns tem uma preferência inquestionável pelo genuíno e sincero,  desprezando o fraudulento. Hitler não foi apreciado porque lhe faltava a bufonaria barata mas, ao contrário, por causa dela, de seus falsos acentos e palhaçadas. Tudo isso foi visto e apreciado como tal. Artistas realmente populares, como Girardi e seus Fiakerlied, estabeleceram verdadeiro contato com suas audiências e jamais deixaram de usar os “falsos acentos”, que tanto nos chocam. Manifestações similares são regularmente encontradas nas pessoas que perdem suas inibições depois de muito beberem. O sentimentalismo das pessoas comuns não é de modo algum uma emoção primitiva e irrefletida. Ao contrário, constitui uma imitação fingida e barata de sentimentos reais que, na maior parte das vezes, não escapa à consciência e carrega consigo uma ligeira autocomplacência.

A situação criada por essa exibição pode ser chamada de ritual. O caráter fictício da oratória propagandista, a distância entre a personalidade do locutor e o conteúdo e caráter de seus proferimentos são próprios do papel cerimonial por ele assumido e dele esperado. Entretanto tal cerimônia é simplesmente a revelação simbólica de identidade que ele verbaliza, uma identidade que os ouvintes sentem e pensam, mas não podem expressar. Realmente o que eles querem que ele faça não é convencê-los, nem, em essência,  levá-los ao frenesi mas, antes, ter suas próprias mentes reveladas. A gratificação que eles extraem da propaganda consiste provavelmente na demonstração dessa identidade, não importa o quão longe ele vá, e, por isso, trata-se aqui de uma espécie de redenção institucional de sua própria falta de articulação, promovida através da verbosidade do comunicador. O principal padrão do ritual propagandístico é esse ato de revelação e o abandono temporário da seriedade responsável e autocontrolada. Para ser exato, podemos ver esse ato de identificação como um fenômeno de regressão coletiva. Realmente não se trata de uma simples volta às emoções velhas e primitivas mas de uma volta para uma atitude ritualística na qual a expressão das emoções é sancionada por uma agência de controle social. Observe-se neste contexto que um dos mais perigosos e bem sucedidos agitadores da costa oeste repetidas vezes encoraja seus ouvintes a se entregar a todo o tipo de emoções,  a liberar seus sentimentos, a berrar e cair em prantos, insistindo em atacar os padrões de conduta baseados num rígido autocontrole, conforme defendidos pelas entidades religiosas estabelecidas e a tradição puritana em conjunto.

Este relaxamento dos controles internos, a fusão dos impulsos individuais com o esquema ritual relaciona-se intimamente com o enfraquecimento psicológico universal da individualidade.

Genericamente uma teoria abrangente da propaganda fascista seria equivalente pois ao deciframento psicológico dos rituais mais ou menos rígidos realizados em cada discurso fascista. Apenas breves referencias a algumas características deste ritual nos é permitido fazer dentro do escopo deste artigo.

1. Em primeiríssimo lugar existe a surpreendente estereotipia do conjunto da propaganda fascista da qual tivemos conhecimento. Não apenas cada locutor individual repete sempre os mesmos padrões como locutores diferentes usam os mesmo clichês. O principal, é claro, consiste na dicotomia entre preto e branco, amigo e inimigo. A esterotipia se aplica não só na difamação dos judeus ou de certas idéias políticas, como exemplificam as denúncias do comunismo e do capital bancário, mas também em matérias e atitudes, à primeira vista, muito remotas. Nós fizemos uma  lista dos expedientes psicológicos mais típicos empregados por praticamente todos os agitadores fascistas, que pode ser condensada em não mais de trinta fórmulas. Várias delas foram citadas acima, tais como a do lobo solitário, a idéia de infatigabilidade, de inocência perseguida, do pequeno grande homem, para não falar do  elogio do movimento em si mesmo, e por aí afora. Obviamente, a uniformidade desses expedientes pode ser explicada em parte pela referência a uma fonte comum, tal como o Mein Kampf, de Hitler. Também pode ser explicada pelas vinculações organizacionais de todos esses agitadores, como  parece ser o caso destes da costa oeste dos Estados Unidos. Todavia a razão precisa ser buscada em outra parte, ao se notar que os agitadores de outros lugares  do país empregam as mesmas asserções; por exemplo, de que suas vidas foram ameaçadas e de que seus ouvintes saberão quem é o responsável , se a ameaça, jamais levada a cabo, vier a ser concretizada. [Na verdade] acontece desses referenciais serem padronizados por razões psicológicas. O possível seguidor do   fascismo anseia por sua rígida repetição da mesma forma como o fanático por música popular [jitterbug] anseia pelos modelos padronizados das canções de sucesso e fica furiosos se as regras do jogo não são fielmente observadas. A aplicação mecânica desses referenciais e modelos é um dos elementos essenciais do ritual.

2. Não é acidental que se encontrem muitas pessoas com falsa fé religiosa entre os agitadores fascistas. Obviamente existe aí um aspecto sociológico, que será discutido mais tarde. Psicologicamente o que acontece é a colocação a serviço do ritualismo fascista dos […] da velha religião, neutralizada e despida de qualquer conteúdo dogmático específico. A linguagem e as formas religiosas são usadas a fim de se dar a impressão de que se trata de um ritual sancionado e que, como tal, é realizado repetidas vezes por algum tipo de “comunidade”.

3. O conteúdo religioso específico tanto quanto o político é substituído por algo que, brevemente, pode ser designado como o culto do existente. A atitude que Else Brunswik chamou de “identificação com o status quo” se relaciona intimamente com esse culto. Os expedientes indicados no livro de McClung Lee sobre o Padre Coughlin, tais como a idéia do vagão lotado ou o truque do testemunho,  ao implicar o apoio de pessoas famosas e bem-sucedidas, realmente  não passam de elementos de um padrão de conduta dotado de muito maior alcance.  Explicitamente seu significado, do verdadeiro princípio a ser seguido, é o de que qualquer coisa que existe e, assim, estabeleceu sua força, é também certa. Ocorreu uma ou outra vez de um agitador da costa oeste recomendar a seus ouvintes que seguissem o conselho de seus líderes sem especificar em que tipo de líderes pensava. Despida de qualquer idéia ou objetivo visível, o que é pois glorificado é a própria liderança. O que mais do que qualquer outra coisa tende a induzir o indivíduo a desistir de si mesmo e se juntar a suposta onda do futuro é a conversão em fetiche da realidade e das relações de poder estabelecidas.

4. Também é característica intrínseca do ritual fascista  a insinuação, só raramente seguida da revelação dos fatos apontados. Novamente, o motivo racional para essa tendência pode ser facilmente entendido: Quer a lei, quer sejam pelo menos as convenções prevalecentes proíbem que se façam declarações públicas de caráter pró-nazista ou anti-semita. O orador que deseja difundir essas idéias tem de recorrer a métodos mais indiretos. Parece provável porém que a insinuação seja empregada e desfrutada como uma gratificação per se. Quando o agitador diz, por exemplo: “as forças obscuras, vocês sabem a quem estou me referindo”, a audiência é capaz de entender que essas observações se dirigem contra os judeus. Desse modo, os ouvintes são tratados como um grupo íntimo, que já sabe de tudo que o orador deseja lhes contar e que concorda com ele antes mesmo que seja dada qualquer explicação. A concordância de sentimentos e opiniões entre o locutor e o ouvinte, acima mencionada, é estabelecida pela insinuação, que, assim, serve para confirmar a identidade entre o chefe e seus seguidores. Certamente, as implicações psicológicas da insinuação vão muito além dessas observações superficiais. Referimo-nos neste ponto ao papel que as ilusões desempenham na interação entre consciente e inconsciente, segundo Freud. A insinuação fascista se alimenta desse papel.

5. A performance ritualística é, como tal, o conteúdo último da propaganda fascista. A psicanálise mostrou a relação do comportamento ritual com a neurose compulsiva; é óbvio que o conhecido ritual fascista da revelação é um substituto da gratificação sexual. Além disso, podemos nos permitir alguma especulação com relação ao significado simbólico específico do ritual fascista. Não estaríamos exagerando ao interpretá-lo como uma oferta de sacrifício.  Partindo da premissa de que a esmagadora maioria das acusações e histórias de atrocidades que abunda nos discursos desse tipo de propaganda consiste de projeções dos desejos dos oradores e de seus seguidores, segue-se que, embora muito escondido, o significado do conjunto do ato simbólico de revelação celebrado em cada discurso de propaganda fascista é o assassinato sacrificial do inimigo escolhido. O desejo de morte ritual é algo que está no coração do ritual de propaganda fascista e  anti-semita. Podemos corroborar isso com um evidência tomada da psicopatologia cotidiana dessa propaganda. O importante papel desempenhado pelo elemento religioso na propaganda fascista norte-americana já foi mencionado. Um dos padres fascistas das rádios da costa oeste disse em uma transmissão: ” Vocês não conseguem ver que, a menos que exaltemos a santidades de nosso Deus, a menos que reconheçamos a existência do céu e do inferno e a  menos que proclamemos o fato de que sem  derramamento de sangue, não há perdão dos pecados ? Vocês não conseguem ver que só Cristo e Deus podem dominar, e que a Revolução acabará tirando esta nação de nossas mãos?” A transformação da doutrina cristã em slogan de violência política não pode ser mais crua do que nesta passagem. A Idéia de um sacramento, “o derramamento de sangue” do Cristo, é linearmente interpretada em termos de um derramamento de sangue em geral, tendo em vista um eventual levante político. O derramamento de sangue real é defendido como uma necessidade porque o mundo supostamente foi redimido pelo derramamento do sangue de Cristo. Investe-se o assassinato com a aura de um sacramento. Do Cristo sacrificado não há na propaganda fascista outro vestígio do que “Juddeblut muss fliessen“. A cruxificação é transformada em símbolo do pogrom. Psicologicamente, a propaganda fascista inteira é, pondo de maneira simples, o sistema de tais símbolos.

Neste ponto, devemos prestar atenção para a destrutividade como fundamento psicológico do espírito fascista. Os programas são vagos e abstratos, as realizações, espúrias e ilusórias, porque a promessa expressa pela oratória fascista não é senão a própria destruição. Não é acidental que todos os agitadores fascistas repitam que catástrofes de algum tipo estão para acontecer. Embora eles alertem sobre o perigo iminente, parece que eles e seus ouvintes excitam-se com a idéia do destino inevitável, sem sequer distinguir claramente entre a destruição de seus inimigos e a sua. A propósito, observemos que esse comportamento mental pôde ser claramente notado durante os primeiros anos do hitlerismo e é de um profundo arcaísmo. Certa vez, um demagogo da costa oeste disse: : “Eu desejo dizer para vocês, homens e mulheres, que nós estamos vivendo em uma das mais aterradoras época da história mundial. Também estamos vivendo na época mais cheia de graça e beleza”. É este o sonho do agitador: a união de horror e beleza, o delírio do extermínio mascarado de salvação. A esperança mais forte que pode existir para efetivamente fazer frente a todo esse tipo de propaganda consiste em apontar suas implicações auto-destrutivas. O desejo psicológico de auto-aniquilação reproduz fielmente a estrutura de um movimento políticos que, derradeiramente, transforma seus seguidores em vítimas.

   NOTAS

1.Veja Max Horkheimer, “Sociological Background of the Psychoanalytic Approach”, in Anti-semitism: A social Disease, ed. Ernst Simmel (Nova York, 1946), a partir da p. 8.

2. Todas as citações são tomadas literalmente, sem modificações, de transcrições de primeira mão.

 

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