Em que mundo você vive?

anonimo

Fala-se em “realidade” como algo único e compartilhado por todos, mas uma das principais questões da Filosofia é se existe uma realidade objetiva ou se ela é modificada pelos sentidos. A visão de realidade universal pode levar a problemas éticos na relação com o outro

Ao se falar em “realidade”, estamos falando de um mundo comum onde todos vivemos ou de meu mundo particular, percebido apenas por mim? É em relação a isso que se apoia uma das principais dicotomias da Filosofia, o objetivismo e o subjetivismo do conhecimento. Esse problema não escapou à maior parte dos filósofos, que ofereceram várias respostas para o problema.

Kant, na Crítica da Razão Pura, tenta resolver o problema abrindo uma perspectiva relacional para o problema: a experiência chega pelos sentidos, mas é elaborada como conhecimento pelas categorias a priori da razão. O elemento subjetivo, aqui, está presente como o organizador dos dados da realidade – se é possível correr o risco de uma imagem, mais ou menos como um copo que, de certo modo, dá a forma ao líquido que está dentro dele. O líquido veio de um ambiente externo ao copo, mas, ao ser colocado lá dentro, toma a forma cilíndrica do recipiente.

Com isso, Kant ofereceu uma solução a respeito da relação entre mente e sentidos na compreensão do mundo. A realidade existe como fato objetivo, mas só pode ser percebida de forma subjetiva pela razão – conhecemos os fenômenos, isto é, a manifestação das coisas; os noumenos, ou seja, as coisas em si, permanecem fechadas aos nossos sentidos.

Em primeira pessoa

Outra resposta veio no início do século XX. É uma das principais contribuições de Edmund Husserl à discussão sobre a realidade, o conceito de Lebenswelt, traduzido como “mundo vivido”, embora também como “mundo da vida”. Trata-se, em linhas bastante gerais, do mundo cotidiano, do que seria chamado de “vida real” em sua expressão mais simples, como a experiência prática que se tem do cotidiano, da vida com todos os outros. Essa investigação da experiência como ponto de partida seguiu, na trilha de Husserl, filósofos como Heidegger e Alfred Schutz.

Tudo o que não pode ser captado diretamente pelos sentidos deve chegar de outro lugar. São narrativas que, de alguma maneira, compõem boa parte do nosso conhecimento a respeito do mundo. Na vida cotidiana, boa parte dessas narrativas é simplesmente aceita sem muita preocupação. Afinal, sua relevância no cotidiano é pequena – ninguém precisa saber qual é a capital da Polônia durante uma ida à padaria. No entanto, para além de qualquer elemento anedótico, isso pode ser visto como um indício de que nossa concepção da realidade, em sua dimensão mais profunda, talvez seja precária: uma parte do que entendemos como “real” se liga a conhecimentos além de qualquer comprovação para nós.

Ninguém pode compartilhar a experiência do outro – posso contar com todos os detalhes como foi meu dia, mas a pessoa que me ouve no máximo poderá ter uma ideia aproximada de como tudo aconteceu. Isso, no entanto, não significa que ela ficará completamente ignorante de como foram minhas últimas 24 horas. Se, por um lado, ela nunca terá acesso à minha experiência, isso não significa dizer que ficará completamente alheia ao que eu vivi. Afinal, compartilhando a mesma realidade, é provável que ela já tenha tido experiências parecidas a partir das quais pode ter alguma noção, mais ou menos clara conforme o caso, da situação que vivi. De um lado, só posso ter acesso direto a uma pequena parte da realidade que chega até mim pelos meus sentidos. A princípio, esse mundo da experiência seria o nível mais próximo da realidade que posso conhecer diretamente – você está lendo este texto. Por outro lado, meu mundo não se encerra nessas experiências diretas dos sentidos: também é formado pela memória, registro ativo e dinâmico de experiências passadas, do que foi; pela imaginação, espaço do devaneio, do sonho, do que pode ser; e, finalmente, pelos relatos que nos chegam. Com os outros componentes, formam uma estrutura dinâmica e complexa à qual, por falta de nome melhor, chamamos de “realidade”. Ou, em um plural mais acertado, “realidades”.

O Real é relacional

A realidade, nessa perspectiva, é vista como o resultado de uma interação entre sujeitos e objetos, em um fluxo constante entre os dados imediatos da experiência e sua transformação em conhecimento. Como lembra o filósofo Ernildo Stein em sua Antropologia Filosófica, trata-se de um movimento na transformação do sensível no inteligível, daquilo que está nos sentidos, os dados imediatos que chegam a partir dos cinco sentidos, em algo em nossa mente. Essa relação leva a uma primeira pergunta: quais são, portanto, os dados que chegam a esses sentidos? A resposta a essa pergunta indica quais são os elementos que, de alguma maneira, terão alguma influência na formação da mente humana e, por consequência, àquilo que ela reconhece como realidade.

O mundo vivido, nessa perspectiva, está na minha consciência e é interpretado por ela, constituindo-se meu mundo. O objetivo e o subjetivo estão em relação, sem se reduzirem um ao outro. Minhas disposições subjetivas alteram a percepção da realidade, mas não a eliminam.

Os afetos, por exemplo, podem interferir no julgamento de um fato – basta pensar como tudo fica mais bonito depois de receber uma boa notícia ou quando se está vivendo um momento feliz na vida afetiva, e como mesmo um belo dia de verão pode parecer insuportavelmente opressor para quem acabou de terminar um namoro.

Essa posição presume uma consciência relacional: a consciência humana não está fechada em si mesma, agregando a ela os dados do exterior; da mesma maneira, os dados que chegam pelos sentidos não estão exclusivamente nas coisas, de modo independente do ser que conhece; o conhecimento acontece na relação entre a consciência e o mundo além dela, em um fluxo no qual não há um momento primeiro, mas uma interação.

Cérebros em uma cuba

Uma das mais perturbadoras hipóteses a respeito da realidade é apresentada pelo filósofo norte-americano John Searle em Mente, linguagem e sociedade, e guarda semelhanças com o filme Matrix. Em essência, o que chamamos de “realidade” é uma série de impulsos elétricos que caminha de nossos sentidos até o cérebro por uma complexa rede neuronal e forma o “real” – sensações, imagens, movimentos, sabores, o cheiro de uma planta, o toque de uma mão. Todas as experiências da vida, das mais sublimes às mais perversas, são pequenas descargas elétricas. Se o panorama é desolador, a proposta seguinte não melhora as coisas: se o mundo real é um conjunto de impulsos elétricos decodificados, quem garante que não somos cérebros flutuando em uma cuba de cerâmica, estimulados por eletrodos diretamente? As pessoas, as ruas, as sensações, tudo se formaria à minha passagem, conforme as percebo na forma de sons, imagens, cheiros e tudo o mais.

A realidade e eu passamos a ser uma coisa só e nada mais existe. Fim de jogo. A proposição parece contradizer o bom-senso mais elementar, mas traz em si o problema das relações entre percepção e realidade – próximas, até, da proposta de “realidade” do empirismo inglês do século XVIII.

O filósofo britânico George Berkley, no Tratado sobre a visão, substitui o cartesiano “penso, logo existo” por “ser é ser percebido”. O que não pode ser sentido não tem existência para mim. Isso quer dizer que a realidade se dissolve quando viro de costas para ela? Para Berkley, aliás, bispo Berkley, a realidade, mesmo fora do meu campo de percepção, continua sendo percebida por Deus.

O passo decisivo é dado por David Hume, filósofo escocês, ao eliminar Deus da argumentação. Sem essa garantia, a certeza na existência do real é deixada de lado. As sensações, as noções de causa e efeito e os conhecimentos são reduzidos aos sentidos, sem nenhuma possibilidade de provar a existência objetiva do mundo. Realidade é só uma coisa que colocaram na sua cabeça.

Mundos diferentes, éticas diferentes

Há uma dimensão ética imediata que é problema da realidade. A pergunta “em que mundo você vive?” não está relacionada apenas ao conhecimento. A maneira como vemos o mundo está ligada diretamente ao modo como vamos agir nele e ao nosso comportamento em relação aos outros. A visão que tenho do mundo influencia a maneira como vou situar as outras pessoas nele, como vou interpretar suas ações em relação a mim e aos outros. A equivalência entre “realidade” e “visão da realidade” costuma ter consequências práticas, isto é, interfere diretamente na relação com o outro.

Deixando de lado a dimensão médica ou psicanalítica do problema, que implicaria o recurso a tratamentos, é possível verificar como isso acontece no cotidiano. Minha visão de mundo é uma espécie de linha invisível que, de certo modo, costura as experiências vividas em torno de alguns princípios, valores e ideias que tendo a considerar “corretos” – embora, na maior parte dos casos, as pessoas nem sequer se deem ao trabalho de questionar essa visão, exceto em situações de crise.

Em geral, pauta-se a Ética a partir de noções que se têm da realidade. Uma visão dessa realidade composta por conhecimentos e classificações de um determinado tipo pode levar a valores éticos igualmente específicos. As mudanças nesses valores, no sentido oposto, costumam estar ligadas a mudanças nessa visão de mundo. (Isso é o que torna a Filosofia uma prática: ela pode não mudar diretamente o mundo, mas muda a visão que temos dele e, por tabela, nossa maneira de agir).

Uma visão da realidade que encaixa um grupo como inferior abre brecha para que esse grupo seja maltratado – em último caso, eliminado. É possível delinear uma explicação para isso. As “visões de mundo” geralmente não são pensadas como tais, mas como a “realidade” em si. A essa primeira equivalência segue-se outra: equivaler “realidade” e “normalidade”. Desse modo, naturalizam-se valores arbitrários que passam a ser considerados “normais” dentro de uma visão de mundo que não se reconhece como tal.

Uma das dificuldades em questionar o que é a rea- lidade está na aparente obviedade da resposta. Todo mundo sabe o que é o mundo real. Afinal, vive-se nele. Todo mundo pega ônibus, metrô, vai à padaria, ao supermercado, tem alegrias e problemas no trabalho, na família. A vida real se desenrola diante de cada um com tal normalidade que qualquer questionamento pode ser visto como inútil ou absurdo. À distância, é fácil explicar o que é a “realidade” e associá-la com o “normal”. A realidade seria o mundo comum, normal, onde todos vivem. Ponto-final.

O problema é que, quando aproximamos a lente da existência individual, essas fronteiras tornam-se menos nítidas. O “todo mundo”, fartamente utilizado no parágrafo anterior, dá lugar ao indivíduo e à complexidade das ações individuais. Se é possível jogar com as palavras, sabe-se perfeitamente o que é normal ou anormal até o problema ser pensado em termos particulares.

Por exemplo, é considerado normal que uma pessoa colecione miniaturas de carros esportivos. Mas seria normal, digamos, colecionar tomadas antigas ou caixas de chá? O número de colecionadores de chá é consideravelmente menor que o de miniaturas de carros, mas essa diferença quantitativa implica decidir, qualitativamente, que uma prática é normal e a outra não?

A maneira como alguém age no cotidiano está ligada à percepção da realidade que a pessoa tem. A partir do retrato que fazemos de uma determinada situação, definimos como agir, o que fazer, quais serão nossas ações. Existe uma relação aparentemente direta entre o conhecimento que temos da realidade e nossas ações dentro dessa realidade.

Quando se pensa em termos de interação, a pergunta não é se a realidade existe ou não, se vivemos em um mundo real ou em um reflexo do mundo das ideias, se há um mundo objetivo ou não. A questão, nesse caso, não é “o que é o mundo real?”, mas, partindo do princípio de que esse mundo existe nas relações de intersubjetividade, seria o caso de fazer uma modificação para se perguntar “qual é o mundo real que eu conheço?”. Esse tipo de questionamento aproxima-se mais da perspectiva deste texto, partindo do pressuposto de que essa realidade, construída nas representações a partir da interação entre os seres humanos, pode também ser alterada, modificada e reconstruída na medida em que essas representações também podem ser modificadas – se é humano, é histórico; se tem uma história, significa que foi feito e, portanto, pode ser desfeito, alterado, transformado.

Se acredito que uma determinada situação é perigosa, por exemplo, há uma tendência a que se tome mais cuidado. Não há, aqui, nenhum determinismo: nada impede que uma pessoa faça exatamente o contrário. É preciso, desde o início, deixar clara uma diferença da qual nos lembra Pierre Bourdieu entre regra e regularidade: se, por um lado, é muito difícil falarmos em “regras” dentro de uma sociedade, mais ainda em “leis” do comportamento humano, por outro lado é possível identificar algumas regularidades e tendências na ação das pessoas, sem que isso, em absoluto, signifique a obediência a leis ou regras.

A História e a Literatura estão forradas de exemplos dessa relação entre conhecimento e Ética, momentos nos quais uma determinada visão de mundo desencadeou uma série de ações contra determinados grupos. Para citar apenas um, em O rabi de Bacherach, por exemplo, o escritor alemão Heirich Heine conta de que maneira uma arraigada visão antissemita do início da Modernidade dá origem a uma série de padecimentos de uma pequena comunidade judaica no interior da Alemanha. O problema cognitivo da explicação da realidade toma a forma de um problema ético na conduta para com o outro. Algo que diz respeito a uma variada gama de relações humanas – do confronto entre povos e nações até uma visita à padaria.

Psiquismo dividido          

O ser humano, tendo diversas experiências diferenciadas, costuma dar perfis autônomos às várias situações que enfrenta durante a vida. Dessa forma, ora somos muito introspectivos, ora somos vítimas inconsequentes de nossos erros exteriores. Assim, nós nos apresentamos divididos a cada reação que temos de desempenhar, ou também a cada situação particular em que temos de agir. Ora, tais rupturas psíquicas indicam falta de unidade em nossos desempenhos, demonstrando quanto ainda precisamos evoluir diante de nossas variadas situações, com vistas a uma integração saudável de nosso mundo interior.

As pessoas jovens são as que mais sofrem em relação a isso, em função dos diferentes apelos a que são submetidos, pela necessidade de afirmação de uma personalidade em processo de formação, cujos estímulos hormonais estão à flor da pele e tudo estando para ser definido: estudos, trabalho, vocação, etc; não obstante, necessitam demonstrar certa continuidade de propósitos, para que assim não venham a perder a coerência na continuidade harmônica de seu futuro.

Ora, os psicólogos têm observado que nossa integração psíquica precisa considerar quatro dimensões implicadas que, se mantidas em harmonia, nos ajudarão decisivamente na manutenção de nossa saúde mental, porque não dizer, psíquica e espiritual. Assim, a primeira dimensão é a de nossa subjetividade (eu); a segunda, de nossas dependências corporais e materiais (ele); a terceira, do ambiente cultural que nos afeta (nós); e a última, das instituições sociais que nos dominam (eles):  família,  religião, nossos contatos, o trabalho.

No que se refere à primeira dimensão, a da subjetividade, os desajustes ora se referem a um excesso de preocupações subjetivas, o que conduz às obsessões e aos distúrbios mentais, frutos de anomalias resultantes de uma imperfeita compreensão de como nosso eu deve estar relacionado com as outras dimensões que o influenciam: as dependências corporais (ele), nossas relações com a cultura (nós), ou nossos laços de submissão às  pressões sociais (eles).

Como já citada, a segunda dimensão de nosso psiquismo a ser levada em conta é aquela referente aos condicionamentos externos ao nosso eu, a tendência a reduzir nossa subjetividade apenas a um epifenômeno da matéria, como se tornou comum entre os psicólogos modernos. Empiricismo, mito do dado, desconhecimento da intersubjetividade, análises cerebrinas, são as diversas perspectivas distorcidas que acabam por reduzir nosso eu a um puro fenômeno psicofísico.

As diferenças nítidas entre o individual e o social nos conduzem a verificar que entre o eu e a coletividade há uma forte predominância desta, de tal forma que somos mais seres sociais do que indivíduos. Nosso psiquismo se vê assim prisioneiro de inúmeras formas de coerção, que estão a condicionar constantemente nosso eu à predominância do nós. Ora, importa que possamos manter nossas ações não completamente dependentes do meio  social, assim assegurando nossa relativa individualidade ou  autonomia pessoal.

Por fim, temos que considerar o peso que as instituições estabelecidas pelo mundo exterior nos submetem a seus modismos, de tal forma que, se quisermos gozar de um mínimo de relativo equilíbrio, necessário se faz mantermo-nos submissos a suas exigências, reconhecendo a presença do Estado e das leis que nos orientam na ação. Autoridades e procedimentos estabelecidos forçam nossa submissão ao poder político e às ideologias.

O que fazer, pois, para encontrar a vivência integral de nosso psiquismo? A resposta só poderá ser obtida através de uma visão holística das variadas situações ou desafios a superar, num elenco dinâmico de escolhas. Como exemplo, citamos os seguintes referenciais de consciência ativa, conforme proposta de KEN WILBER (Espiritualidade Integral. SP, Ed Aleph, 2010, p. 85)

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