A Loucura: Fabricação da Normalidade

darkness,emaciated,inner,madness,mind,morphing-8c9f78ad53545e532416cfb47377376b_h

Em 1509 Erasmo de Rotterdam publicou o livro “Elo­gio à Loucura”. Suas ideias, muitas delas ainda atuais, constituem críticas ao chamado bom senso, ao comporta­mento racional, à sisudez do indivíduo “quadrado” e bem adaptado, em oposição à “loucura” que seria a esponta­neidade, a liberdade de expressão e ação e das emoções. Para ele a loucura seria inata, enquanto que o “normal” seria imposto e não humano.

Os chamados “loucos”, até o século XV viviam de ma­neira harmoniosa com a população de “sadios”. Estes cul­tivavam a tolerância e as peculiaridades ou idiossincrasias de cada cidadão, que eram aceitas e respeitadas como adequadas à sua natureza singular. Esse relacionamento harmonioso entre os chamados “normais” e os “não-nor­mais” ocorre ainda, com frequência, nas pequenas cida­des do interior do Brasil.

O conceito de loucura, condição própria de cada pes­soa, a partir do fim do feudalismo – início de burguesia – começou a ser modificado quando apareceu um novo modelo daquilo que seria aceito como sendo a natureza humana. Esse novo padrão teórico acerca do homem era, não só mais restritivo – menos tolerante com as diferenças individuais – como, também, mais prescritivo. As pessoas, para não serem taxadas de loucas, deveriam se compor­tar, talvez até pensar de acordo com o novo padrão “insti­tuído e correto” de conduta.

A recém-criada “natureza humana”, fabricada pela sabedoria burguesa, enfatizava as qualidades da virtude, contenção, parcimônia e razão, que eram exigidas a todo e qualquer preço. A partir da nova tese defendida, a lou­cura foi encurralada e criticada conforme o novo padrão de normalidade das pessoas.

As sociedades começaram a estreitar os seus limi­tes de normalidade, passando a rotular o “louco” e “não-louco”, o “são” e o “patológico”, o “normal” e o “anormal”, como extremos intocáveis de uma escala de medida do certo e do errado, onde um comportamento era valoriza­do, o outro não.

A partir dessa constituição, novas regras de conduta passaram a ser exigidas, somente algumas aceitas como corretas. Em lugar de trabalhar para viver, o indivíduo passou a viver para trabalhar. A definição do normal, que antes se apoiava muito na maneira de ser do indivíduo singular a ser avaliado, passou a ser estabelecido, utili­zando-se um modelo supraindividual, criado não mais das necessidades ou interesses de cada uma pessoa, mas sim das necessidades do conjunto abstrato: economia e traba­lho colocado a serviço da produção.

Esse novo critério decretou o fim do singular, ao ge­neralizar o indivíduo. Tornou-se errado ou anormal ser particular. Só o geral seria normal e o que sair do padrão será considerado “doente mental”. Mas nem todos concor­daram com essas regras, alguns se rebelaram, surgindo um novo problema: “Como conter os insubordinados em um estado que se dizia liberal e cheio de humanismo”? Anteriormente os revoltados e rebeldes eram lançados à fogueira, mas essa prática não é mais tolerada.

Na nova sociedade nós, os bondosos, racionais e vir­tuosos deveríamos ser capazes de compreender e tratar os “loucos”. Nasceram assim as instituições encarregadas de cuidar deles, ou seja, de coletar o lixo humano produ­zido e rejeitado pela sociedade burguesa. Nasce então a figura ilustre do psiquiatra, juntamente com a criação dos hospitais destinados a proteger os “normais” do perigoso contágio dos loucos.

Esse modelo do homem moderno, criado em torno do séc. XV, forçou a eliminação de um sentimento sempre existente na mente de grande parte dos homens dessa época, ou seja, a permissão da liberdade individual. Para a nova ideologia implantada, a liberdade individual é in­compatível com a subordinação a uma atividade, seja de trabalho ou seja de lazer, altamente vigiada, lógica, ditada de fora. Essa coação, até aquela época, só existia nas pri­sões. O novo conceito de natureza humana, estranhamen­te, construiu o corolário: somos “livres” ao nos subordi­narmos às ideias do Estado, dos empregadores, religiosos ou de qualquer outro grupo poderoso.

Foram criadas para manter a ordem estabelecida, visando o normal, leis que exigiam a obediência às nor­mas, cujo objetivo era proteger as classes dominantes. Os mendigos, vagabundos, os ociosos e “loucos” de qual­quer espécie passaram a ser tratados como eram antes o marginais: banidos da sociedade. As instituições, frutos dessas ideias – casas de correção e de trabalho, hospitais em geral – teriam como função principal limpar as cidades da “sujeira” desses desajustados.

Os “hospitais” foram destinados a receberem os gru­pos de “marginais” da sociedade sadia – os diferentes – um lugar onde, na maioria das vezes, não pisavam os médicos, só iam para visitas ocasionais.

A direção dos hospitais, entregue às irmãs de ca­ridade, tratava coercivamente os enfermos através das orações, penitências e práticas adaptadas ao ensinado. A medicina daquela época precisava construir ou mesmo inventar explicações para suas ações irracionais, que se diziam alicerçadas em bases lógicas e humanísticas. Foi criada então a “psiquiatria científica”. Esta “descobriu” si­nais e sintomas nas pessoas, indicadores de doença men­tal. Esses, na maioria das vezes, eram preconceitos ou delírios dos psiquiatras da época, tendo como “pano de fundo” a moral vigente. Eis alguns exemplos dessa “psi­quiatria científica”: “A loucura está localizada nos vasos sanguíneos”, “A oposição à revolução americana é uma forma de doença mental e o apoio uma forma de terapia”, “Sanidade mental é a aptidão para julgar as coisas como os demais julgam e possuir hábitos regulares e insanidade é um distanciamento com relação a isso”, “Conformismo social equivale à saúde mental e inconformismo corres­ponde à doença”.

A maneira de pensar e de agir em desacordo com a forma tradicional passou a ser a principal característica da nova doença mental, sendo diagnosticada através de vá­rios dispositivos que mediam a maneira normal e coletiva de se comportar, necessária à manutenção e crescimento da burguesia e da harmonia social.

Portanto, os primeiros psiquiatras eram muito mais “reformadores sociais evangélicos”, pregadores de uma ética puritana para todos, do que médicos, preocupados com o bem-estar de seus pacientes.

A cura ocorria quando o paciente aceitava e se com­portava de acordo com as normas sociais pregadas pelo médico assistente.

Infelizmente, esses comportamentos “moralistas e normalistas” ainda são vistos com alguma frequência em nosso meio.

Os clientes, muitas vezes, são julgados, inicialmen­te pelos familiares, posteriormente pelo psiquiatra, como possuidor de uma conduta normal ou anormal, conforme os padrões e valores percebidos e usados pele grupo dos examinadores num certo momento. O cliente pode ser re­preendido, tratado sem o desejar, ou “preso” no hospital, por não tolerar ou não conseguir conviver numa sociedade que tem como valores fundamentais o trabalho, a produ­ção e o consumo.

Curvando-se à pressão externa que exigia mão-de-obra barata, trabalhadores braçais foram usados, em pro­fusão, para atender às necessidades dos sub-empregos oferecidos: a psiquiatria, atenta às necessidades dos em­pregadores, procurou acelerar os processos de “cura”, vi­sando o retorno ao trabalho dos candidatos o mais rápido possível.

O psiquiatra, ingenuamente, passou a ser agente da “normalização” quando a sociedade lhe outorgou o poder de examinar, julgar condutas e impor um tratamento após seu veredicto, em nome de um suposto bem-estar geral e social da coletividade e da manutenção da ordem pública estabelecida.

Nasceu assim a relação não-recíproca com a tutela regulamentada conforme a crença: o tutor é o competen­te, o tutelado é o incapaz e irresponsável. Os tratamentos prescritos em grande parte tinham como objetivo principal a integração e o conformismo social. A implementação da psiquiatria preventiva, como ocorre com outros campos de saúde, tornou possível a ação dos especialistas antes do aparecimento da “doença mental”, ao descobrir sintomas e sinais nos suspeitos.

Desse modo, como é sabido, em certos locais e oca­siões, os “sãos” passaram a examinar populações inteiras, tendo à mão o mandado de “busca e apreensão” para os “anormais” detectados.

Felizmente, nos últimos anos, um grande número de psiquiatras vem questionando, duvidando e desmitificando milhares de afirmações e dezenas de teorias criadas por alguns “gênios” da psiquiatria, baseadas, muito mais, em verdades reveladas ou em pressões sociais, do que em ob­servações científicas bem sistematizadas e críticas.

Uma por uma, essas “verdades” vêm sendo discuti­das, não substituídas por “novas verdades” dogmáticas, mas analisadas, através da dúvida constante e equilibrada. O novo caminho traçado é o abandono definitivo de cren­ças eternas, baseadas na autoridade iluminada, no seu prestígio, na sua sabedoria acima de qualquer suspeita.

Galeno Alvarenga

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s