Procurando Transformar o Filosófico em Ciência – Discurso contraditório Cientificista

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Tentativas para transformar as questões filosóficas da mente em empíricas ou dedutivas

Tentou-se, durante muito tempo, usar a observação empírica ou o procedimento dedutivo e formal também para as diversas áreas da filosofia, acompanhando o sucesso sem precedentes das ciências e da lógica. O tempo passou e, depois de muito esforço, percebeu-se que essas estratégias não funcionavam para diversas questões filosóficas. Apesar disso, o uso de um e outro método dominou a filosofia e fez progredir o conhecimento. O uso da estratégia factual ou formal produziu sucessos notáveis e fracassos igualmente enormes com a aplicação dessas técnicas.

Se o modelo que dominou o século XVII era o matemático, o modelo mecânico, o newtoniano, principalmente, foi o mais imitado no século seguinte numa tentativa de cientificar o filosófico. O século XVII foi talvez o último período na história da Europa Ocidental em que a onisciência humana era considerada uma meta atingível.

O progresso sem paralelo da Física e da Matemática no século anterior transformou enormemente a visão que geralmente se tinha da natureza do mundo material. Esse progresso gerou mais ainda a natureza do verdadeiro conhecimento (o científico, observável) fazendo com que as idéias da Idade Média e mesmo da Renascença parecessem remotas, fantasiosas e, às vezes, ininteligíveis à aplicação de técnicas matemáticas (ou da linguagem matemática) e das propriedades mensuráveis, reveladas pelos órgãos sensoriais. Tudo isso deu origem a um único método de descoberta e de compreensão. Descartes, Espinoza, Leibniz e Hobbes, entre outros, procuraram dar a seu raciocínio uma estrutura do tipo matemático vigente.

A linguagem anterior, usada e defendida pelos sábios da antiguidade, sendo menos precisa (semelhante à popular atual), geralmente ocultava as falácias e obscuridades do discurso; utilizava, com naturalidade, uma massa confusa de superstições e preconceitos que caracterizavam prescrições teológicas e as doutrinas dogmáticas sobre o Universo (semelhantes a muitos discursos e pregações). A nova ciência que nascia começava a abolir as antigas crenças e implantava uma nova forma de observar e compreender o mundo.

As antigas disciplinas da metafísica, lógica, ética e de todas aquelas áreas relacionadas à vida social dos homens ainda eram (e são muitas vezes) governadas pelas confusões de pensamento e da linguagem da era anterior, como descrevi, sucintamente, mais acima. Inexistindo uma imagem verdadeira e clara das principais “faculdades” e das operações da mente humana, não se poderia dar crédito a vários tipos de pensamento ou raciocínio usados. Também, não se poderia determinar, de forma mais precisa, as fontes e os limites do conhecimento humano, nem as relações entre as suas variedades. Faltando esse último conhecimento, as afirmações ignorantes e dos charlatães não poderiam ser devidamente desmascaradas, pois faltava um parâmetro para avaliá-las.

Em busca de uma teoria científica da mente

Uma ciência da natureza fora criada (Física); uma ciência da mente ainda precisava ser feita. A meta em ambos os casos devia continuar a mesma: formular leis gerais com base em observação (“interior” e “exterior”) e, quando necessário, no experimento, e deduzir a partir dessas leis, quando estabelecidas, conclusões específicas. Acreditava-se que para toda questão genuína havia muitas respostas falsas e apenas uma verdadeira, bastava possuir método confiável de descoberta, como o usado pelo Sir Newton. Era essencial garantir a eficácia dos instrumentos de investigação antes que se pudesse confiar em seus resultados.

Essa nova tendência na forma de obter o conhecimento (de investigar o investigador do conhecimento) caracterizou a filosofia européia desde a formulação de Descartes de seu método da dúvida até boa parte do século XIX. Os princípios que tentaram aplicar eram os novos cânones científicos do século XVII. Não devia haver dedução a priori de princípios “naturais” ou sagrados na Idade Média e nem “intuições” sem amparo da observação minuciosa.

A evidência era obtida através da experiência, portanto, deveríamos questionar a validade de certos princípios adotados, como o de que “todos os corpos tendem ao repouso quando já não se encontram sob a influência de uma força”, bem como o de que o “caminho natural perseguido pelos corpos celestes, na busca da auto-realização, é necessariamente circular”. As leis de Kepler e de Galileu contradiziam esses princípios “naturais”, obtidos por “revelações” e aceitos até essa época. A nova ênfase era a observação do fenômeno (dados e mais dados acumulados por Tycho Brahe e outros experimentadores).

O uso da observação, antes renegada, e do experimento, ainda não usado, acarretou a aplicação de métodos exatos de medição, e resultou na associação de muitos fenômenos diversos sob leis de grande precisão, formuladas, quase sempre, em termos matemáticos. Consequentemente, a nova ordem estipulava que apenas os aspectos mensuráveis da realidade deviam ser tratados como reais, isto é, aqueles suscetíveis a equações que ligassem as variações de um aspecto do fenômeno com variações mensuráveis em outros fenômenos diferentes e conhecidos.

A categoria aristotélica da causa final foi abandonada como não-científica ou ininteligível, isto é, a explicação dos fenômenos em termos da tendência “natural” de todo objeto a realizar o seu próprio fim ou propósito interior foi criticada e abandonada. Era deixada de lado a questão de porque o objeto existia e que função ele estava tentando cumprir, noções estas para as quais não existia nenhuma evidência experimental ou do uso da observação.

O espaço, o tempo, a massa, a força, o momento e o repouso em termos da mecânica deviam substituir as causas finais, as formas substanciais, o propósito divino e outras noções metafísicas. Desabavam os últimos pilares que sustentavam as idéias aristotélicas (assimiladas até hoje pela população) da subdivisão fundamental da filosofia. Esta se caracterizava pela investigação das realidades que transcendem a experiência sensível, capazes de fornecer o fundamento a todas as ciências particulares, adquiridas por meio da reflexão a respeito da natureza primacial do ser (filosofia primeira).

O mundo da matéria, para Newton, Locke e outros devia ser descrito em termos de partículas uniformes e as leis de seu comportamento eram as leis da interação dessas partículas. Os filósofos empiristas britânicos aplicavam essa concepção também à mente: “uma caixa contendo equivalentes mentais das partículas newtonianas”.

Estas eram chamadas de “idéias” ou “partículas”, cada entidade distinta e separada, “simples”, sem partes, que não podiam ser divididas, “atômicas”, tendo a sua origem em algum lugar no mundo exterior, caindo dentro da mente como muitos grãos de areia no interior de uma ampulheta. Ali elas continuavam isoladas, mas também podiam se reunir dando origem a compostos complexos, da maneira como os objetos materiais do mundo exterior são compostos de complexos de moléculas de átomos. Assim, uma “idéia” ou “átomo” era, por exemplo, “mulher”, uma outra “idéia” seria “bonita”.

Para Locke, o pensamento, pelo menos o reflexivo, seria um tipo de olho interno correspondente ao olho físico externo que apreende o mundo externo. Quando Locke define o conhecimento como a “percepção da conexão e concordância ou desacordo e repugnância de qualquer uma de nossas idéias” (“mulher” e “bonita”), essa “percepção” é por ele concebida como algo que inspeciona duas idéias como se fossem partículas discrimináveis. O olho interno é então capaz de ver se elas concordam ou não (a mulher é ou não bonita) e assim se a proposição que afirma a sua conexão é ou não verdadeira, assim como o olho externo pode inspecionar dois objetos coloridos e ver se as cores combinam ou não.

A mente era concebida como um recipiente e as idéias circulavam dentro dele como moedas formando padrões. O espaço newtoniano tridimensional tem a sua contrapartida no “espaço” interior da mente governada pelo olho interno da faculdade da reflexão.

A filosofia da psicologia, portanto, nessa época, precisava ser convertida numa ciência natural. Os fatos deviam ser descobertos pela introspecção (uma observação interior), devendo começar pela observação empírica. Segundo Hume, “Assim, como a ciência do homem é o único fundamento sólido para as outras ciências, o único fundamento sólido que podemos dar a essa própria ciência deve ser assentado sobre a experiência e a observação”. Idéia semelhante à de Hume foi resumida numa frase de Piaget: “Ainda não conhecemos as mentes que trabalham com as ciências”.

Uma crítica à nova interpretação

O mundo sensorial foi, posteriormente, considerado por Galileu e Descartes como vago, enganoso e nublado, cheio de fenômenos descritíveis apenas em termos qualitativos. Para que o mundo seja científico, ele precisa ser imaginado como quantitativo.

Para essa crítica, as qualidades “primárias” estudadas pelas ciências não são elas próprias dadas diretamente aos nossos sentidos. Existem duas esferas: a quantitativa, precisamente mensurável, de objetos no espaço que possuem propriedades como movimento e repouso, forma determinada, solidez, temperaturas específicas (que são movimentos das partículas) e assim por diante. Essas propriedades são diferentes (contrastam) da qualidade, como “esfera” das cores, cheiros e sabores, graus de calor e sons altos e suaves. Todas essas informações foram classificadas como subjetivas e, deste modo, não confiáveis e, portanto, não-científicas.

Locke, partindo do princípio de que não temos outro conhecimento senão aquele que nos chega pelos órgãos sensoriais, achava difícil explicar porque a qualidade “primária” – para ele – se quiser ser coerente, devia depender tanto da evidência dos sentidos quanto do processo “secundário”, e ainda assim deveria receber o tipo de primazia e autoridade que a ciência física parecia lhes dar.

Hume, em particular, foi claro sobre a diferença entre afirmações de vinculação formal (indutivas, dedutivas), isto é, as da lógica, da matemática ou da álgebra, e as de um tipo factual, isto é, as que asseveram a existência conforme as observações (sensorial). Reconheceu que, uma vez que as noções como necessidade e identidade, estritamente interpretadas, pertencem ao mundo das disciplinas formais – o que os racionalistas tinham chamado de “verdades da razão”, em oposição às “verdades de fato” – que não podem ser testadas por nenhum processo puramente formal, elas não têm lugar na esfera de afirmações sobre o mundo.

De outro modo, o conhecimento deve ser de dois tipos: ou ele afirma ser “necessário”, e nesse caso baseia-se em critérios formais e não pode dar nenhuma informação sobre o mundo, ou ele afirma dar informações sobre o mundo, e nesse caso não pode ser mais do que provável, não sendo jamais infalível; não pode ter certeza, se o que queremos dizer com isso é o tipo de certeza alcançada apenas pela lógica ou pela matemática. Essa distinção entre os dois tipos de afirmação, intimamente relacionada com a distinção de “sintético” e “analítico”, “a posteriori” e “a priori”, é o início de grande controvérsia que despertou Kant de seu cochilo dogmático e transformou a história da filosofia moderna.

Kant sustentava que a dedução não pode aumentar o nosso conhecimento das coisas ou das pessoas e não responde a essas questões, nem resolve esses enigmas, que parecem caracteristicamente filosóficos. E foi mais ainda: quanto aos tipos de julgamento e espécies de categorias implicadas nas experiências normais, elas estão longe de serem idênticas às questões sobre as “fontes” de nossos dados, crenças ou atitudes, como, por exemplos, “todo acontecimento tem uma causa” e “ontem tive um dor de cabeça”.

Esses métodos de silenciar quem duvida são inúteis, porque o modo de convencer alguém da verdade dessas proposições é claramente muito diferente do modo como demonstramos a verdade das proposições factuais sobre o mundo, isto é, pela produção de evidência empírica de algum tipo, como “isso é uma maçã”. Havia um sonho a realizar: tornar o estudo da mente científico, como aconteceu na área da Física, uma adequação e ordem no conhecimento nas relações sociais e políticas.

Kant deu uma resposta esclarecedora. Para ele, de um lado, situam-se as questões de fato e, de outro, as questões sobre padrões (modelos, esquemas) em que não eram eles próprios alterados, por mais que os próprios fatos ou nosso conhecimento dos fatos pudessem se alterar (as proposições). Para Kant, esses padrões, categorias, esquemas ou formas de experiência não eram eles próprios o tema de nenhuma ciência natural possível, pertencem a uma área diferente das ciências; elas estão subjacentes aos fatos.

O uso de outro caminho: tornar a mente científica

Os racionalistas acreditavam que o pensamento racional era um meio de obter a verdade sobre o Universo, imensamente superior ao método empírico. Para eles a verdade era um corpo harmonioso de conhecimento, que todos os sistemas anteriores, como religiões, cosmologias e mitologias não passavam de muitas estradas diferentes, algumas mais longas ou mais largas, torcidas e sombrias para o mesmo objetivo comum.

Os racionalistas dos séculos XVIII e XIX não viam propósitos em nada que o próprio homem não tivesse criado para servir a suas próprias necessidades e consideravam todo o mais determinado pelas leis da causa e efeito, de modo que as coisas, em sua maioria, não perseguiam propósitos, mas eram como eram e se moviam e mudavam como faziam como um fato “bruto” .

Muita coisa boa foi indubitavelmente feita: o sofrimento mitigado, a injustiça evitada ou prevenida e a ignorância revelada, pela tentativa conscienciosa de aplicar os métodos científicos à regulação dos assuntos humanos. Dogmas foram refutados e preconceitos e superstições foram desconsiderados com sucesso. A convicção crescente de que os apelos ao mistério, à escuridão e à autoridade para justificar o comportamento arbitrário eram, muito frequentemente, um sem-número de álibis indignos que ocultavam o interesse próprio, a indolência intelectual ou a estupidez, foi, muitas vezes, triunfalmente vindicada.

Mas o sonho central, a demonstração de que tudo no mundo se movia por meios mecânicos, de que todos os males podiam ser curados por passos tecnológicos apropriados, de que era possível a existência de engenheiros tanto das almas humanas como dos corpos humanos, provou ser ilusório. Ainda assim, acabou se revelando menos desorientador que os ataques recebidos no século XIX por meio de argumentos igualmente falaciosos, mas com implicações que eram, tanto intelectual, como politicamente mais sinistras e opressivas. O poder intelectual, a honestidade, a lucidez, a coragem e o amor desinteressado pela verdade, apresentados pelos pensadores mais talentosos do século XVIII, continuam sem paralelo até nossos dias. A sua era é um dos melhores e mais promissores episódios na vida da humanidade.

De Galeno Alvarenga

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