O perverso cotidiano e a origem de muitos medos

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No princípio era a regra.

Grandes nomes das ciências humanas, Rousseau e Freud nos dizem algo muito semelhante: as leis fundam a nossa humanidade.

Sem considerar os meandros contemporâneos da forma assumida pela lei em seus artigos, parágrafos e incisos, podemos pensar na Lei fundadora da sociedade como algo mais amplo, universal a todas as culturas humanas: as regras sociais dizem sobre os limites entre o “eu” e o “outro”.

Explico.

Escher, “Drawing Hands”: pra enxergar melhor a relação entre eu e o outro, eu e o mundo

Para que o “eu” possa existir, é preciso que ele abdique da realização total de seus desejos e que reconheça que há algo além de si próprio e, ao mesmo tempo, semelhante: o “outro”. Se todos podem matar, roubar, violentar uns aos outros, a existência de cada ser fica prejudicada.

Os limites de minhas ações, portanto, são estabelecidos pelas regras que fundam a vida em comunidade. São dessas leis que estamos falando e elas assumem diferentes formas nas diferentes sociedades e em distintos períodos históricos, mas sempre existentes.

A regra é interiorizada por todos nós, de diferentes maneiras. Para alguns, a simples menção à fuga da regra soa perigosa. Para outros, ela culmina na culpa. Em muitos casos, simplesmente se cumpre a lei porque a recompensa do cumprimento é a promessa de segurança e felicidade, como garantem o Estado e as Religiões.

Em alguns casos, a sociedade não dá chances do sujeito se humanizar. Criam-se regras que o sujeito não poderá nunca cumprir, sobretudo quando elas são para todos, mas esses todos são completamente diferentes.

A sociedade capitalista cria normas universais para sujeitos com papéis sociais muito desiguais, prometendo uma recompensa inalcançável a muitos: o sucesso.

Fragilizados, os “eus” marginais não se encontram no outro que realmente é protegido pelo contrato social moderno e assim um abismo de insegurança e medo se funda.

O capitalismo propagandeia uma identidade, mas alguns de seus membros nunca poderão realizá-la plenamente. Os marginalizados não se enxergam nesse espelho, vivendo de uma insegurança real e imaginada. Os eleitos morrem de medo porque, no fundo, sabem que a regra não contempla a diferença e, nesse frágil contrato, a linha da entre civilização e barbárie parece ser cruzada a qualquer momento.

E ela é.

Nos últimos tempos, tenho considerado que o medo com o qual nós, brasileiros, convivemos diariamente é retroalimentado pela estrutura perversa de nossa sociedade. E, de certo modo, ainda acho.

O perverso Freudiano é, resumidamente, aquele que reconhece a existência da lei, mas não a respeita. A perversão não está simplesmente no ato de negar ou contestar a lei. Está no ato de não respeitá-la enquanto indivíduo, negando os limites da realização de seus próprios desejos.

O perverso não é uma pessoa com crise existencial, com culpa ou que respeita a lei para ter em troca segurança e felicidade. Tão pouco ele implode os contratos sociais para impor novos.

Ele não é contracultura.

E isso não faz do perverso alguém mais próximo de nossa natureza animal, por implodir a regra social. Ele a conhece e, inclusive, domina seus códigos, mas fixa seus desejos em algo que não depende da regra e do contrato social para se realizar. Pode se fixar no prazer pela violência, prazer pelo sofrimento, pelo espetáculo da submissão e da dominação em si próprios.

Em muitos pontos, acho a sociedade brasileira bastante perversa. Sobrevivemos — enquanto sociedade — gozando em cima de feridas históricas, como a escravidão, a ditadura militar ou o massacre indígena. Mas, mais do que isso, nossa perversão se realiza em ações cotidianas bastante simples.

Todos nós conhecemos regras básicas: deixar a esquerda livre para passagem na escada rolante, respeitar as regras de trânsito ou deixar as pessoas saírem do transporte público antes de entrarmos. No entanto, a regra é para todos, não para o “eu”.

O público também é de todos, não é “meu”. A regra é sempre para o “outro” e o “eu” é a exceção, ou seja, não é uma questão de se concordar ou não com esse tipo de vida em sociedade ou de se propor outra. É a conduta antissocial.

A implosão da regra tem seus resultados visíveis: tumulto no trânsito, tumulto na escada rolante e no transporte público.

E onde não há regra interiorizada, há insegurança. E há também violência.

Nesse quesito, nossa perversão cotidiana se apresenta de maneira espetacular. Haja vista os programas policiais sangrentos que se proliferam na televisão aberta, destinados, sobretudo, às classes mais populares. A espetacularização da violência praticamente uma elaboração onírica e não é à toa que os bem nascidos se escandalizam com ela.

Ora, criada na mais pura violência social, a classe popular não poderia fazer catarse de outra forma. Perverso mesmo nesse discurso é o recorrente incentivo dos apresentadores ao gozo particular da justiça feita com as próprias mãos.

Sim, considero essa uma sociedade muito perversa, nos diferentes grupos sociais que a formam. O pobre gozando com a violência na TV, a classe média vivendo de pequenas transgressões aparentemente inofensivas, os ricos usando a lei do papel e os próprios mecanismos de criação de leis para formalizarem seus modos de vida, realizando todos os seus mais íntimos desejos sem a menor culpa ou medo de punição. Aliás, esses são os grandes responsáveis pela estrutura perversa do Estado brasileiro.

Pensando nesse último ponto e no perverso empresário, de terno e gravata, gostaria de terminar esse longo texto.

O capitalismo é o anti-herói do intelectual de esquerda. Dependendo de onde falamos nesse oceano de informação e ódio que é a rede, o virtual, essa afirmação pode te fazer mártir ou ridículo. Como não tenho vocação para mártir e não me importo de ser ridícula, especulo: a sociedade capitalista é perversa em sua natureza.

Cinicamente, ela propõe uma identidade universal (pelo consumo, pelo sucesso possível para todos…) em um universo social partido. Claro, o mesmo descompasso entre a regra e a identidade se instaura em outras sociedades: tirânicas, nazistas, escravocratas, fascistas. Mas, de forma especial, o contrato que funda o capitalismo privilegia a manipulação do todo para a realização do “eu”.

Mais do que isso, a recompensa pelo cumprimento desse contrato é um grande engodo: o cumprimento da lei não garante que eu possa ser rico, embora muitos acreditem que trabalhando honestamente vão conseguir.  Também não garante que eu tenha segurança, porque no fundo, só tenho segurança se eu realmente encaro o outro como um igual e respeito os limites de minha e de sua existência.

Nessa bolha individualista em que moram o consumo e a produção sem limites, a realização dos desejos em detrimento de qualquer outra pessoa é a lei.

Fico pensando, portanto, se a perversão cotidiana dos brasileiros comuns não seria estratégia para sobrevivência frente a essa sociedade violenta por si própria, mais do que causa de todos nossos medos. De fato, e aqui apresento meu maior medo de todos, infelizmente nossa estratégia alimenta todos os dias seus próprios monstros.

 

 

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