Lógica, Ontologia e Metafísica.

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A. Lógica Formal.

1. Pontos em Resumo.

Theobaldo M. Santos define lógica como sendo a ciência das leis ideais do pensamento e a arte de aplicá-las à pesquisa e à demonstração da verdade. Para Caldas Aulete, lógica é a parte da filosofia que estuda as leis do pensamento e expõe as regras que se deve observar na invenção e exposição da verdade. É raciocínio encadeado, ligação nas idéias, e coerência entre os princípios e as conclusões.

Segundo Aurélio, a lógica, na tradição clássica aristotélico-tomista, é o conjunto de estudos que visam a determinar os processos intelectuais que são condição geral do conhecimento verdadeiro.

A criação da lógica é uma das maiores glórias de Aristóteles, cujo objetivo foi evitar os desregramentos lógicos e o subjetivismo do método filosófico de Sócrates e Platão. A filosofia de Aristóteles mostra-nos toda a natureza como imenso esforço da matéria bruta para se elevar até ao ato puro, isto é, ao pensamento e à inteligência.

No método aristotélico, a que Platão chamou dialético, parte-se de noções incertas, através da divisão dicotômica dos conceitos e de respostas positivas e negativas, chegar-se às conclusões. Cria determinadas regras lógicas que levam a conclusões necessariamente certas, à maneira quase de um cálculo. São as regras do silogismo.

Um silogismo é um conjunto de três proposições das quais a terceira (a conclusão) deriva necessariamente das outras duas. Se afirmar:

Premissa Maior: O homem é um animal racional.

Premissa Menor: Sócrates é um homem.

Conclusão: Logo, Sócrates é um animal racional.

Tem-se um raciocínio com o mesmo formalismo matemático de: se A e B e C é A, conclui-se que C é B, cancelando-se o termo comum A. No silogismo pode-se chegar à mesma conclusão cancelando-se o termo médio e afirmando os termos opostos.

A lógica aristotélica exerceu no pensamento posterior grande influência. Renan referia-se à má educação do espírito que não se pautou direta ou indiretamente pela disciplina aristotélica. Houve, contudo, através dos tempos, uma supervalorização da sua lógica. Kant (1724-1804) considerava-a uma ciência acabada e perfeita. Hoje, depois da adoção do método matemático na Lógica, a grande contribuição de Aristóteles passou a ter mais o valor de um trabalho pioneiro.

A lógica pode ser definida como a ciência das leis ideais do pensamento e a arte de aplicá-las à pesquisa e à demonstração da verdade. Divide-se em Lógica Formal, que estabelece a forma das operações intelectuais; Lógica Material, que determina as regras impostas pela matéria dos objetos a conhecer, e finalmente em Lógica Crítica, que estuda a verdade e o erro.

A lógica foi criada por Aristóteles, que formulou as suas leis, as quais têm sido adotadas por pensadores de todos os tempos. Apesar de resistidas por Bacon, Descartes e Stuart Mill, mas nota-se atualmente uma volta às leis aristotélicas.

Comparada com a Psicologia, percebe-se que esta descreve e explica os fenômenos psíquicos, enquanto que a Lógica estuda o pensamento em si mesmo, procurando saber se ele é válido ou inválido.

Embora cada um de nós possa pensar com os recursos naturais da sua própria inteligência, o conhecimento e a aplicação das regras da lógica dão ao nosso pensamento maior segurança e penetração.

2. A Idéia.

A filosofia define a idéia como algo imaterial, abstrato, geral, e como uma simples representação intelectual de um objeto, e chama de termo a sua expressão verbal. Na Psicologia, é ela considerada em si mesma e pela sua aptidão para sujeito ou predicado numa proposição.

Constitui a idéia um conjunto de elementos chamados de compreensão. Ao conjunto de indivíduo a que a idéia se aplica chama-se extensão.

Quanto à perfeição, as idéias podem ser adequadas e inadequadas, claras e obscuras, distintas e confusas. Quanto à compreensão, podem ser simples e compostas, e quanto à extensão: singulares, particulares e universais. Definição é a análise da compreensão de uma idéia; divisão é a enumeração de todos os elementos que a idéia abrange. A divisão completa a definição, e ambas visam a tornar as idéias mais claras.

3. Conceitos de Idéia.

Segundo Michele Frederico Sciacca, tanto para o santo dos primeiros tempos, como para o “ateu” do século passado, de formação iluminista, negar as idéias como conhecimento em si, anteriores as coisas e objetos para julgá-las, é negar irreparavelmente Deus: ou verdade que não deriva das coisas nem se põe a si mesma e então esta presença de algo imutável e necessário, iluminante e fecundo nos convence racionalmente de que Deus existe e é irracional dizer o contrário, ou se nega que há uma verdade de tal natureza e com ela se nega a presença de Deus e já não é possível pensar ou provar a existência do Ser transcendente, criador e providente.

Se tudo no homem é humano, produzido por ele e criado sem desenho, sinal, imagem ou vestígio divino, é impossível dar-lhe noção de Deus; o homem foi privado do quanto lhe é necessário para poder encontrá-lo e, à luz da razão, provar do Objeto que faz inteligente sua inteligência. Deus haveria criado o homem não para Ele, mas sim para o homem mesmo, não para que o homem O busque, O ame e O invoque, mas para que ele se perca na finitude e contingência sua e do mundo, coisa entre as coisas. Por isso Platão, o metafísico das idéias, é o pai da metafísica da verdade, essencialmente teísta: Se existe a verdade, existe Deus; a verdade existe, logo Deus existe.

Desterrar as idéias como objeto imutável da mente é desterrar Deus do pensamento. Se a mente não conhece nada imutável e necessário, para ela não há nada inteligível ou verdadeiro: não há Deus.

O escritor afirma que Kant cometeu o erro de considerar a experiência sensível como o limite da razão, afirmação que se segue de redução das idéias ou verdades primeiras, intuídas pela mente e fundamento da veracidade de todo juízo, a formas a priori, a puras condições do conhecimento.

Kant nega o saber intuitivo da inteligência e por isso deve negar que se possa demonstrar a existência de Deus; limitado o homem à sua cosmicidade, ele é feito prisioneiro do conhecimento racional e privado de Deus, que não é problema da razão, se antes não foi problema da inteligência. Assim fica destruída qualquer possibilidade de demonstrar Deus porque foram destruídas as idéias.

Em síntese, Kant nega a onticidade da idéia e o saber intuitivo: a experiência sensível é limite da forma “a priori” e, por isso, o limite do homem é sua impossibilidade de transcender a experiência, isto é: “o cosmos”, a “ciência”.

Para Kant, em troca, o “a priori” tem sua adequação no mundo na ordem natural: “o céu estrelado” e “a lei moral”, em conseqüência, o mundo é sua finalidade suprema e então também é seu dado inicial. Podemos ver, com isso, que Deus fica eliminado da ordem do pensamento e da ordem da realidade, e tampouco já se pode explicar como nascem da razão a existência de Deus e as idéias, o que não se justificam no sistema kantiano nem seguem como postulados da razão prática.

Locke é o primeiro sistemático e consciente destruidor da idéia no sentido do Idealismo objeto. Com efeito, como a palavra idéia, indica sensações, imagem, percepções, etc.; tudo o que é conteúdo da consciência; a idéia não é mais o objeto inteligível, imagem a priori do inteligível em si, mas sim a imagem do sensível: a alma conquista as idéias da experiência. Para ele não existe a idéia como objeto da mente, não produzida, mas só intuída por ela, nem obtida na experiência.

Hume, contudo, é uma boa lição; negada a objetividade da idéia, e negado Deus, já nada rege; nem o espírito nem as coisas nem a filosofia, nem a ciência. Neste sentido, o ultra-iluminista Hume, que desenvolve até o fundo o princípio ateu de que “o homem cria o homem e seu reino”, é a crise do mito iluminista, enquanto representa a ratificação do real espiritual e corpóreo e de toda categoria do real.

Kant se apercebeu da ruína do conhecimento objetivo e da metafísica como ciência, em conseqüência da negação da idéia; e também o percebeu Rosmini. Eis aqui dois problemas colocados por eles:

a) Objetividade do conhecimento

b) Restauração da metafísica como saber racional.

Kant vê claramente um aspecto do problema de Deus; que a prova cosmológica, como toda outra, no fundo depende da ontológica. Enquanto ele foi “platônico” (pré-crítico) considerou válida a prova ontológica; tornando-se “crítico”, refutou-a porque, negadas as verdades primordiais dadas à mente e admitindo somente o que é conhecido, estava-lhe vedada a possibilidade de demonstrar racionalmente a existência de Deus.

Ao reconhecer a importância primária da prova ontológica, em relação à cosmológica, Kant se dá conta que o problema da existência de Deus se insere na vida do ente espiritual mais do que na do mundo físico.

A verdade é, que para Kant, a idéia é sempre forma “vazia”, que espera receber conteúdo da experiência sensível; a restauração da metafísica resulta-lhe completamente impossível. A idéia permanece injustificada em seu sistema. Se Deus fosse somente uma idéia da razão, no sentido kantiano, seria um puro possível; mas se Deus é só um possível, Deus é impossível; e tudo o que é se torna automaticamente impossível e inexplicável.

4. O Juízo.

O Juízo, como o ato pelo qual o espírito afirma ou nega alguma coisa, compõe-se de três elementos, um sujeito, um atributo ou predicado e uma afirmação ou negação. Os juízos podem ser afirmativos ou negativos, analíticos ou sintéticos.

A Proposição, que é a expressão verbal do juízo, compõe-se de dois termos: sujeito e predicado, e do verbo, chamado de liame ou cópula. As proposições podem ser gerais ou particulares, afirmativas ou negativas. Combinando a qualidade com a quantidade, temos quatro espécies de proposições: universal afirmativa, universal negativa, particular afirmativa e particular negativa.

As proposições podem opor-se entre si de várias maneiras. Daí quatro espécies de proposições: as proposições contraditórias, as contrárias, as subcontrárias e as subalternas.

As leis de oposição são quatro: a das contraditórias, a das contrárias, a das subcontrárias e a das subalternas. Conversão de uma proposição é a troca dos seus termos, de maneira que o sujeito passe para o predicado e este para sujeito, sem alteração da qualidade.

5. O Raciocínio.

O raciocínio é a operação pela qual o espírito, a partir de uma ou de várias relações conhecidas, conclui outra relação. Esse raciocínio pode ser indutivo e dedutivo, e a dedução pode ser imediata ou mediata. A dedução mediata se faz pelo silogismo, que é um raciocínio composto de três proposições, dispostas de tal maneira que a terceira, chamada conclusão, deriva, logicamente, das duas primeiras chamadas premissas. A dedução imediata pode ser feita por meio da oposição e da conversão.

Tendo como princípio que duas idéias que convém a uma terceira, convém entre si, o silogismo se compõe de matéria (os três termos e as três proposições), de forma (relação lógica entre as premissas e a conclusão) e de partes (antecedente e conseqüente). Suas regras podem ser reduzidas às duas seguintes: 1) nenhum termo pode ser mais geral na conclusão do que nas premissas; 2) o termo médio deve ser tomado, pelo menos uma vez, universalmente.

Os silogismos podem ser irregulares ou compostos. Os principais silogismos irregulares são o entimena, o epiquerema, o possilogismo e o sorites. Os principais compostos são o silogismo condicional, o silogismo disjuntivo e o dilema.

Dentro da filosofia aristotélica e aquinense, o silogismo é considerado a mais segura demonstração da verdade, desde que as premissas sejam rigorosamente exatas.

6. Desenvolvimento da Lógica.

O termo “lógica” foi usado pela primeira vez por Alexandre de Afrodísio (século II D.C.). E as primeiras extensas formulações da lógica dedutiva nos são apresentadas no Organon de Aristóteles. O desenvolvimento dessa disciplina como, de resto, de toda a filosofia, tem-se ampliado por dois mil e quinhentos anos no mundo ocidental. Antes de Aristóteles, as demonstrações geométricas de Pitágoras, a dialética de Zenon e Elea e os diálogos de Platão proveram alguma base sobre a qual Aristóteles edificou sua ciência.

A Lógica é considerada uma ciência porque constitui um sistema de conhecimentos certos, baseados em princípios universais. Daí a razão pela qual a lógica filosófica se distingue da lógica espontânea ou empírica, que apresenta apenas uma aptidão natural do espírito para usar, com precisão as faculdades intelectuais. Pelo exercício espontâneo e habitual da nossa inteligência, podemos conhecer a verdade, mas somos incapazes de justificar, racionalmente, por meio de princípios universais, as regras do pensamento exato.

A lógica se apresenta como ciência normativa, já que seu objetivo não é definir o que é, mas o que deve ser, isto é, as normas do pensamento correto. Diz-se que ela é uma arte porque ao mesmo tempo em que define os princípios universais do pensamento, estabelece as regras práticas para o conhecimento da verdade. Constitui, assim, uma arte de pensar.

O principal objetivo da lógica é o estudo da inteligência sob o ponto de vista do seu uso no conhecimento. É ela que fornece ao filósofo os meios necessários para a investigação segura da verdade.

Mas, para conseguirmos atingir a verdade, é preciso raciocinar com exatidão e partirmos de dados exatos, a fim de que o espírito não caia em contradição consigo mesmo ou com os objetos, firmando-os diferentes do que, na realidade, são. Daí vem a divisão da lógica em: formal ou geral, que estabelece a forma correta das operações intelectuais, isto é, que assegura o acordo do pensamento consigo mesmo, de tal modo que os princípios que descobre e as regras que formula são absolutos, universais e aplicáveis a qualquer matéria, porque derivam da própria natureza do entendimento.

A Lógica pode ser dividida em duas partes distintas:

a) Lógica Material ou Especial: determina as leis particulares e as regras especiais impostas ao pensamento pela matéria ou natureza dos diversos objetos a conhecer. Ela estabelece os métodos de estudo da matemática, da física, da química, da biologia e das ciências morais e sociais. Por isso, é também chamada metodologia.

b) Lógica Crítica: estuda a verdade, seus caracteres e seu critério, assim como o erro, suas causas e seus remédios.

Aristóteles é considerado o fundador da lógica: ele foi o primeiro a investigar, cientificamente, as leis do pensamento. Suas pesquisas lógicas foram reunidas, sob o nome de Organon, por Diógenes Laércio. Alguns autores consideram como lógica a obra hindu de Gautama.

As leis do pensamento formuladas por Aristóteles se caracterizam pelo rigor e pela exatidão. Por isso foram adotadas pelos pensadores antigos e medievais e, ainda hoje são admitidas por muitos filósofos. Com a decadência da escolástica no século quinze, porém, se inicia o combate à lógica aristotélica. Bacon critica o Organon ao qual contrapõe um Novo Organon baseado não no silogismo, mas na indução. Bacon, entretanto, apenas ampliou as regras da indução, pois Aristóteles já as conhecia e delas havia tratado.

Descartes propõe, em seguida, a reforma do método, mas não abandona de todo a lógica aristotélica, no qual é seguido por seus discípulos de Port-Royal. Daí por diante a lógica perde a sua importância e passa a ser considerada como simples arte. Kant, entretanto, reabilita a lógica, concebendo-a como ciência formal e normativa. Mais tarde, Stuart Mill condena o silogismo e faz a apologia do método indutivo.

7. O Psicologismo.

No século dezenove há uma tendência para confundir a Lógica com a Psicologia. É o chamado psicologismo que faz depender a Lógica da Psicologia, e cujos principais defensores são Lipps, Wundt e Ziehen. Contra esse movimento, surge o do idealismo lógico, inspirado em Kant, e admitindo a autonomia da Lógica. Entre os representantes dessa reação antipsicologista, uns, como Herbart, põem em relevo, sobretudo, o aspecto normativo e funcional da Lógica; outros como Hussell e Pfânder, acentuam o seu aspecto descritivo, procurando estudar os “objetos lógicos” em si mesmos. Ultimamente, certos filósofos, como Bertrand Russell, têm aplicado à Lógica os métodos e as fórmulas de matemática.

a) A Lógica e a Psicologia. A Psicologia estuda as diversas formas de atividades do espírito e examina a gênese e o mecanismo dos fenômenos psíquicos. A Lógica estuda o pensamento em si mesmo, abstraído das causas que o produzem e dos fatores que o condicionam. O que interessa, portanto, à Lógica não é descrever e explicar as operações intelectuais, mas apreciar o produto dessas operações. Não é saber como se realiza o pensamento, mas se o pensamento é verdadeiro ou falso, ou seja, válido ou inválido. A Lógica aprecia o valor das idéias, dos juízos de valor.

b) O valor da Lógica. Podemos atingir a verdade sem o auxílio da Lógica científica, sobretudo quando as operações intelectuais não apresentam grande complexidade. Bastam-nos, então, nossos recursos lógicos naturais e espontâneos, cuja síntese é o bom senso. Mas, como acentua Jolivet, se o bom senso é sempre necessário, nem sempre é suficiente.

Se podemos empregar, espontaneamente, as regras do pensamento correto, com maior perfeição o faremos se essas regras nos forem conhecidas e familiares. Além disso, não se trata apenas de conhecer a verdade; é preciso ainda refutar os erros, e o simples bom senso, muitas vezes fracassa. A verdade é que o valor da Lógica resulta da segurança e penetração que confere à inteligência, permitindo-lhe alcançar mais facilmente a verdade e justificar suas operações à luz de princípios universais.

c) A Lógica de Aristóteles. Aristóteles (384-322 a.C.), célebre filósofo grego. Nasceu na Trácia, Macedônia. Seu pai era o médico particular do rei da Macedônia. Com dezessete anos de idade Aristóteles foi para Atenas. Matriculou-se na Academia de Platão e estudou ali por vinte anos. Em 342, Aristóteles foi chamado à Macedônica pelo rei Filipe II e indicado tutor pessoal do filho do rei, Alexandre; acompanhou-o à Ásia e fixou residência em Atenas, no ano de 334, e fundou a sua própria escola, o Liceu, pois ficava junto ao templo de Apolo Lício. O campus era ornamentado por uma alameda chamada peripatos. Aristóteles costumava passear por essa alameda, fazendo palestras aos alunos que o seguiam de perto. Isso conferiu ao Liceu o título de “escola peripatética”. Esse método de ensinar caminhando foi mais tarde imitado por outros, dos quais o mais famoso é Jesus de Nazaré, cujos discípulos (ou alunos) o “seguiam” literalmente.

A filosofia de Aristóteles mostra-nos toda a natureza como imenso esforço da matéria bruta para se elevar até ao ato puro, isto é, ao pensamento e à inteligência. É o maior gênio da Antigüidade: abrangeu todas as ciências do seu tempo e criou outras.

d) Deus, primeiro e último motor. A filosofia de Aristóteles abrange a natureza de Deus (Metafísica), do homem (Ética) e do Estado (Política). Para Aristóteles, Deus não é o Criador, mas o Motor do Universo ou, ainda, o motor não movido. Exceto Deus, toda e qualquer outra fonte de movimento no mundo, seja uma pessoa, uma coisa, um pensamento, é um motor movido.

Assim, o arado move a terra, a mão move o arado, o cérebro a mão, o desejo de alimento move o cérebro, o instinto da vida move o desejo de alimento. Portanto, a causa de todo o movimento é o resultado de outro movimento. O amo de todo o escravo é escravo de algum outro amo. O próprio tirano é escravo de sua ambição. Somente Deus não pode ser resultado de alguma ação, não pode ser escravo de amo algum. Ele é a fonte de toda a ação, o amo de todos os amos, o instigador de todo o pensamento, primeiro e último Motor do Mundo.

As obras de Lógica de Aristóteles são: Sobre a Interpretação, Categorias, Analíticos, Tópicos, Elencos Sofísticos e os 14 livros da Metafísica, que Aristóteles denominava Prima Filosofia. O conjunto dessas obras é conhecido pelo nome de Orgánon.

8. A Lógica Tomística.

a) A Lógica de Aquino.

Tomás de Aquinonasceu Roccasecca perto de Aquino em 1225, na Itália. Seu pai, conde de Aquino, era um aristocrata. Com a idade de cinco anos Tomás ingressou na Abadia do monte Cassino, onde estudou até matricular-se na universidade de Nápoles, aos quatorze. Enquanto esteve ali, entrou para a ordem dominicana, formada por um grupo de monge que se dedicava ao ensino. De Nápoles, Tomás mudou-se para a universidade de Paris, quando tinha dezoito anos. Na época, o teólogo mais aplaudido do mundo era Alberto, o Grande (Alberto Magno). Alberto era conhecido como “o professor universal”. Assim como Platão teve seu Sócrates, e Aristóteles, o seu Platão, Tomás desfrutou o benefício de ter Alberto por tutor.

 

Quatro Homens que Mudaram o Mundo

Nomes

Anos de nascimento e morte

Local de nascimento

Domicílio

Mentor

Posto

Platão

428–348 a.C.

Grécia

Atenas

Sócrates

Fundador da Academia

Aristóteles

384–322 a.C.

Trácia, na Macedônia.

Atenas

Platão

Fundador e Diretor do Liceu

Agostinho

354 – 430 d.C.

Tagaste, na Numídia.

Hipona, na Numídia.

Ambrósio de Milão

Bispo de Hipona

Tomás de Aquino

1225–1274 d.C.

Nápoles, na Itália.

Paris

Alberto, o Grande.

Professor

 

Durante o tempo que estudou com Alberto, Tomás foi ridicularizado e provocado por seus colegas. Chamavam-no de “o boi parvo de Aquino”, levando Alberto a dizer que um dia esse boi parvo deixaria o mundo perplexo. Certa ocasião, um colega olhou para fora da janela e exclamou: “Olhe, Tomás, uma vaca voando!” Tomás levantou-se da cadeira e foi até a janela para ver. Seus colegas caíram na gargalhada diante de tanta ingenuidade. Tomás se voltou e disse: “Prefiro crer que vacas podem voar a pensar que um dos meus irmãos mentiria para mim”.

Como o filósofo mais brilhante da Idade Média, Aquino é considerado o maior pensador dentro do catolicismo romano. Por um lado ele restabeleceu o prestígio da filosofia aristotélica, e por outro determinou claramente a diferença entre a Filosofia e a Teologia.

Tomás de Aquino tratou isoladamente de cada questão, mas deu a todas elas um corpo único, realizando uma síntese perfeita. Sua escola é a do realismo metafísico. É, até hoje, considerado mestre incontestável dos católicos. Sua influência faz-se notar mesmo fora dos domínios do catolicismo. Os que, o seguem, denominam-se tomistas. Deixou, entre outras, as obras Suma Teológica e Suma contra os Gentios.

b) O Tomismo.

Sistema filosófico e teológico de Tomás de Aquino, cuja influência ainda hoje se observa nos adeptos do neotomismo. Também denominado filosofia cristã e filosofia perene, o tomismo foi várias vezes proclamado como doutrina quase oficial da Igreja Católica. Distingue-se da escolástica, termo genérico que abrange as diversas escolas medievais, e traduz mais um método do que uma doutrina.

O tema fundamental das meditações de Aquino é o esclarecimento das relações entre a revelação e a filosofia, isto é, entre a fé e a razão. Segundo o filósofo, tais conceitos não se chocam nem se absorvem: permanecem íntegros em suas respectivas esferas, possibilitando assim a coexistência da filosofia e da teologia, que só entram em conflito quando a razão é usada incorretamente, ou seja, quando tenta, sem o auxílio da fé, compreender o mistério-dogma religioso, inacessível em essência a quaisquer interpretações racionalistas, pois a razão deve ser apenas serva da fé. Assim, Tomás de Aquino consegue estabelecer o equilíbrio entre a tradicional tendência mística e as novas diretrizes racionalistas.

Do mesmo modo que a Veritas de Santo Agostinho é a cristianização da idéia de Platão, o Ser de Santo Tomás é a transposição cristã da forma de Aristóteles. O Aquinata é, pois, o filósofo da metafísica aristotélica, pois o pensador grego, conquanto afirme que o real é o indivíduo concreto, permanece como o filósofo da essência (forma), enquanto Aquino, que introduz na metafísica aristotélica o conceito cristão de criação, é o filósofo da existência (ser).

Síntese da essência e da existência (“A essência é o que o ser é, e a existência, a maneira pela qual é”), o ser de São Tomás está assim mais próximo da Veritas agostiniana do que da forma aristotélica; apenas, no ser, a existência não se identifica inteiramente com a essência, o que só ocorre em Deus.

Portanto, o ser não tem intuição imediata da verdade: seu conhecimento começa pela sensação. A capacidade de conhecer é, sem dúvida, anterior à experiência sensível, mas o conhecer, não. O entendimento é a sede das essências universais, que, segundo o Aquinata, se encontram nas coisas criadas, embora preexistam como formas ou modelos no pensamento divino. Para conhecê-las, é preciso que o ser abstraia das coisas, desmaterializando assim a essência universal.

Partindo dessas formulações, Tomás elabora sua teologia natural, de que Deus é o princípio e o fim. Embora verdade revelada, a existência de Deus, ao contrário do que afirmava Santo Agostinho, pode ser demonstrada racionalmente, através de cinco argumentos que explicam a passagem do sensível ao absoluto inteligível (divino) e define Deus como (1) Primeiro motor imóvel; (2) Causa primeira; (3) Ser necessário; (4) Ser perfeitíssimo e (5) Inteligência ordenadora.

Cinco Provas da Existência de Deus Por Tomás de Aquino

(1) O Primeiro Motor: Tudo que se move é movido por outro ser. Por sua vez, este outro ser, para que se mova, necessita também que seja movido por outro ser. E, assim, sucessivamente. Se não houvesse um primeiro ser movente, cairíamos num processo indefinido. Logo, conclui Tomás de Aquino, é necessário chegar a um primeiro Ser movente que não seja movido por nenhum outro. Esse Ser é Deus.

(2) A Causa Eficiente: Todas as coisas existentes no mundo não possuem em si próprias a causa eficiente de suas existências. Devem ser consideradas efeitos de alguma causa. Tomás de Aquino afirma ser impossível remontar indefinidamente à procura das causas eficientes. Logo, é necessário admitir a existência de uma primeira causa eficiente, responsável pela sucessão de efeitos. Essa Causa Primeira é Deus.

(3) Ser Necessário: O ser possível é uma referência a um ser que pode não ser. Nenhum ser que é apenas possível é auto-existente; ele não tem o poder de ser em si mesmo. Se todas as coisas da realidade fossem apenas possíveis, então em algum momento não teria havido nada existindo. Se houve uma época em que nada existia, então nada jamais poderia começar a existir e nada existiria agora. Mas se algo existe agora, é necessário que algo sempre tenha existido; precisa existir algo que tenha existência necessária – sua existência não é apenas possível, mas necessária. Ele não pode não ser. Não recebe sua existência de outra coisa. Nunca houve um tempo em que ele não era. Em outras palavras, se algo existe agora, então algo tem de ter poder de ser em si mesmo, ou seja, algo precisa ter existência necessária. Esse ser, cuja existência é necessária tanto lógica como ontologicamente, Tomás de Aquino dizia que, é Deus.

(4) Um Ser Perfeitíssimo: Em relação à qualidade de todas as coisas existentes, pode-se afirmar a existência de graus diversos de perfeição. Assim, afirmamos que tal coisa é melhor que outra, ou mais bela, ou mais poderosa, ou mais verdadeira etc. Ora, se uma coisa possui “mais” ou “menos” determinada qualidade positiva, isto supõe que deve existir um ser com o máximo dessa qualidade, ao nível da perfeição. Devemos admitir, então, que existe um ser com o máximo de bondade, de beleza, de poder, de verdade, sendo, portanto, um ser máximo e pleno. Esse Ser é Deus.

(5) A Finalidade do ser Ou Ordenador: Todas as coisas brutas, que não possuem inteligência própria, existem na natureza cumprindo uma função, um objetivo, uma finalidade, semelhante à flecha dirigida pelo arqueiro. Devemos admitir, então, que existe algum ser inteligente que dirige todas as coisas da natureza para que cumpram seu objetivo. Esse Ser é Deus.

As três primeiras provas, baseadas no princípio de casualidade, são também denominadas provas cosmológicas, enquanto as demais, por se fundarem no princípio de finalidade, chamam-se provas finalistas ou teológicas.

O fim do homem, diz Tomás (com Aristóteles), é o aperfeiçoamento da própria natureza. Tal aperfeiçoamento, porém, só se cumpre em Deus, o que torna a última etapa do ser transcendente a ele. Para que a vontade seja boa, deve conformar-se com a lei moral, cujo fundamento metafísico é Deus. Sendo Deus incognoscível, o homem não pode conhecer a lei eterna, bastando para regular sua conduta o conhecimento da lei natural, ou seja, a norma da consciência humana.

Ao encerrar sua doutrina moral, Santo Tomás, coroando as quatro virtudes cardeais de Aristóteles — prudência, fortaleza, temperança e justiça — acrescenta-lhe as três virtudes teologais do cristianismo: fé, esperança e amor.

B. A Ciência.

A ciência procura conhecer o como e o porquê das coisas. Objetivamente, é ela um conjunto de verdades logicamente encadeadas, formando um sistema. Subjetivamente, é um conhecimento certo pelas causas e pelas leis. O conhecimento vulgar é ocasional, assistemático e superficial, enquanto que o conhecimento científico é intencional, sistemático e metódico.

O conhecimento científico só se constituiu quando a inteligência humana se elevou acima do “pensamento místico” e do “pensamento utilitário” para organizar um saber positivo e desinteressado. No início, a filosofia era a ciência universal, a síntese de todo o saber. Embora seja uma forma autônoma de conhecimentos, a ciência depende, de certo modo, da filosofia. Os cientistas modernos procuram completar, com a interpretação filosófica, os resultados de suas investigações experimentais.

A ciência nos permite: (1) compreender e explicar as coisas; (2) prever os fenômenos; (3) agir sobre a natureza. Não existe, atualmente, uma ciência positiva universal, mas apenas ciências particulares, isto é, conjuntos de conhecimentos certos, gerais e metódicos sobre um determinado objeto.

As ciências podem ser classificadas mediante a determinação das relações que as unem, de maneira a mostrar sua posição natural no conjunto dos conhecimentos humanos. As primeiras classificações foram as de Aristóteles, de Bacon, de Ampere, de Augusto Comte, de Spencer e a de Wundt.

A hierarquia das ciências é a ordem de subordinação dos diversos ramos do conhecimento, uns dos outros. Qualquer classificação das ciências pode ser aceita desde que respeite a natureza dos fenômenos e atenda à ordem e dignidade das ciências.

1. O Método

Ao conjunto de processos que o espírito humano deve empregar para a investigação e demonstração da verdade chama-se método. Há três espécies fundamentais de método científico: (1) métodos inventivos, (2) métodos sistemáticos e (3) métodos didáticos. Todo método deve atender a duas condições básicas: (a) natureza do objeto a que vai ser aplicado, e (b) o fim que se tem em vista.

(1.a) Os métodos inventivos são empregados na investigação ou descobertas das verdades. Compreendem o método de autoridade e o método de razão. (2.a) Os métodos sistemáticos são os que visam provar as verdades descobertas pelos métodos inventivos. São eles a definição e a classificação. E (3.a) os métodos didáticos são os que visam ensinar as verdades ao educando. A finalidade desses métodos não é a transmissão das verdades ao educando, e sim fazer com que este aprenda as verdades pela atividade de sua própria inteligência.

Além dos métodos particulares, existe um método geral cujos processos são aplicáveis a qualquer ordem de conhecimento. René Descartes estabeleceu as regras gerais a que se deve subordinar qualquer investigação científica. As regras de Descartes, inspiradas pela matemática, mostram a influência que as concepções do mundo têm exercido sobre os métodos científicos.

É indiscutível o valor do método na investigação, exposição e demonstração da verdade. É um fator de precisão e segurança para a inteligência. Exclui da pesquisa científica o capricho e o acaso, e coloca a razão no caminho da verdade.

2. Métodos das Ciências Matemáticas.

As ciências matemáticas são as que estudam a quantidade, e são divididas em ciências dos números, que abrangem a aritmética e a álgebra, e ciências das figuras, que incluem a geometria, a geometria analítica e a mecânica racional. Portanto, os objetos matemáticos resultam, ao mesmo tempo, da razão e da experiência.

As ciências matemáticas utilizam o raciocínio dedutivo, através da demonstração, que pode ser analítica e sintética, ou direta e indireta. A demonstração possui três elementos: (1) as definições, (2) os axiomas e (3) os postulados.

Diferentemente das ciências matemáticas, que são dedutivas, as ciências da natureza são indutivas e experimentais.

Embora úteis para o desenvolvimento intelectual, as ciências matemáticas não devem ser cultivadas com desprezo da realidade concreta, nem devem ser aplicadas, indistintamente, ao estudo de todos os assuntos.

3. Método das Ciências Físico-Químicas.

As ciências físico-químicas são as que estudam os fenômenos dos corpos brutos ou inorgânicos, e se dividem em química e física, conforme estudam os fenômenos que alteram ou não a constituição da matéria. Tais ciências utilizam a observação, a hipótese, a experimentação e a indução.

As ciências da natureza, outrora descritas e classificadas como sendo indutivas e analíticas, são, atualmente, consideradas indutivo-dedutivas e sintéticas. Três passos são necessários ao pesquisador: (1) a observação, (2) a experimentação e (3) a indução. Observar, que vem a ser o primeiro passo, é aplicar os sentidos ou a consciência num objeto. Essa observação pode ser externa ou interna, científica ou empírica, simples ou “armada” (de instrumentos).

No estudo de um objeto, o pesquisador pode partir de uma hipótese, que é uma explicação provisória dos fenômenos. Essa hipótese, por sua vez, pode ser lenta ou súbita, e resultar de analogias ou de deduções.

O segundo passo é o da experimentação, que é estudar um fenômeno provocado artificialmente. A experimentação completa a observação e verifica a hipótese.

O passo seguinte é o da indução, que é passar do conhecimento dos fatos ao das leis. A indução é, ao mesmo tempo, experimental e racional.

Na Lógica clássica, as teorias científicas são hipóteses que unificam várias leis. Elas sistematizam o saber científico e suscitam novas descobertas.

C. A Metafísica.

1. A Ciência.

Segundo Aristóteles, a metafísica é a ciência das primeiras causas e dos primeiros princípios. O seu objeto é o ser enquanto ser.  Ela compreende a crítica do conhecimento, a ontologia e a teodicéia. A palavra em si mesma significa “depois dos tratados da física”.

Aristóteles considera a metafísica como a ciência dos primeiros princípios e das causas mais elevadas. Os filósofos medievais aceitaram esse conceito, mas os filósofos modernos reduziram o âmbito da metafísica até negá-la inteiramente. Os filósofos contemporâneos procuram reabilitá-la, embora limitando a realidade à esfera das idéias ou recusando à inteligência o poder de penetrar na intimidade do ser.

A metafísica se baseia na experiência, pois se serve dos dados sensoriais para, por meio do raciocínio, atingir o ser universal. Trata-se, portanto, de uma ciência autêntica, com objeto próprio e específico, que responde a uma exigência superior da inteligência humana de desvendar o mistério das coisas e a essência da realidade. Filosoficamente falando, as questões mais simples e materiais implicam princípios metafísicos.

2. Conceitos da Metafísica.

A metafísica é a ciência que estuda os problemas que transcendem as realidades materiais e sensíveis; ou seja, é a ciência do “ser” como “ser”. Esta palavra foi empregada pela primeira vez por Andrônico de Roles, para designar aquilo que vinha depois da física. Ela nos leva ao estudo das últimas conclusões dos seres e fenômenos, e por isso não se confunde com nenhuma das ciências, pois busca e estuda o transcendental, aquilo que está além da mente.

Já desde a Antigüidade se estudava a metafísica como sendo “a ciência que estuda as verdades que estão além da física”. Aristóteles dizia que há uma ciência que não pode ser confundida com as chamadas ciências particulares, a qual investiga o ser e seus atributos essenciais, que pesquisa os primeiros princípios e as causas mais elevadas, e por isso merece ser chamada de “Filosofia Primeira”.

Na Idade Média aceitava-se o conceito aristotélico de metafísica, conceito que já era bem absorvido naqueles tempos, especialmente por abranger o “ser” imóvel e incorpóreo, princípio dos movimentos e das formas do mundo, bem como o mundo mutável e material, especialmente em seus aspectos universais e necessários.

Na Idade Moderna, Galileu começa a tendência da filosofia moderna, que se manifesta claramente no racionalismo de Descartes, Spinoza, Leibniz. Este conceito moderno veio reduzir a metafísica à física pela pretensão de explicar tudo matematicamente e considerar a ordem matemática como a ordem ideal da realidade.

Essa corrente filosófica racionalista tem sido considerada pelos defensores da metafísica aristotélica como sendo uma pretensão evidentemente infundada, pelo fato de não se poder reduzir o espírito, a divindade e a alma a simples quantidades. Além disso, os não racionalistas dizem que é mister que a ciência moderna adquira consciência de sua limitação, permanecendo entre os limites da experiência, e não pretendendo tornar-se metafísica.

O conceito modernista foi quem “prejudicou” a metafísica tradicional, como assim evidenciou o processo de Galileu. E nesta eclosão das idéias racionalistas e enciclopedistas do século XVII a metafísica foi relegada ao abandono, ao desprezo, em decorrência do descrédito quanto às verdades mais profundas, e à crença no transcendental.

Ainda na Idade Moderna, Augusto Comte quis eliminar o conceito transcendental da metafísica, conceito que Immanuel Kant tentou reabilitar, porém negando a possibilidade do conhecimento objetivo.

Na Idade Contemporânea, muitos filósofos tentaram reintegrar a metafísica à sua real dignidade, mas a reduzindo ao âmbito das novas idéias de Kant e às idéias fenomenais, e considerando o acesso ao conhecimento metafísico como sendo intuitivo.

Com o espantoso avanço na ciência, principalmente nos campos da Biologia, Astronomia e Tecnologia, houve realmente uma eclosão da ciência com as correntes filosóficas tradicionais. Surgiu então uma “mudança” nos conceitos filosóficos quanto à vida, ao mundo e a Deus.

Assim, surgem diversas correntes filosóficas baseadas na lógica e na razão, tendo as suas raízes na filosofia grega, como a teologia de Brunner, que descreve a busca da verdade por meio de debates com as opiniões contrárias, e a filosofia de Lessing, segundo a qual, “o ideal do homem é ser moral e potencial”.

Por outro lado, a própria ciência, numa análise do ponto de vista neo-crítico, passou a ser considerada como “destruidora” da vida, e não como portadora da verdade, sendo fortes exemplos as poluições químicas, a produção generalizada de bombas “A”, “H”, “N”, etc., e a poluição sonora produzida pelas máquinas e pelos aparelhos em geral. Essa desmoralização do progresso da ciência no que se refere à paz humana provocou um erguimento da metafísica.

3. A Metafísica Contemporânea.

Entre as tendências contemporâneas em favor da Metafísica, está a filosofia pragmática de William Janes, a filosofia da ação de Maurice Blondel, e a filosofia neo-escolástioca.

Janes pretende conciliar as divergências existentes entre as correntes filosóficas, e principalmente ultrapassar as limitações impostas ao conhecimento humano pelo idealismo kantiano e pelo naturalismo positivista. Pretende ele construir uma metafísica pluralista do universo.

Maurice Blondel afirma o caráter transcendental e sobrenatural da revelação metafísica, e estabelece clara e distintamente as relações entre a razão e a fé.

A filosofia neo-escolástica, que começou a ser iniciada no século dezenove, foi impulsionada pelo apoio vigoroso e decisivo do Papa Leão XIII na evolução cultural do século vinte. De acordo com as diretrizes da encíclica Aeterni Patria, os filósofos, ao restaurarem a escolástica, deviam “purificá-la” das sutilezas inúteis e das teses em contradição com as descobertas científicas, e enriquecê-la com as verdades indiscutíveis que a filosofia moderna e a ciência experimental tivessem conquistado.

A neo-escolástica encontrou a ciência em grande progresso biológico e tecnológico, mas no sentido de satisfazer os anseios do homem, como prometera, a tal ciência não passava de um fracasso. Houve, de fato, um grande desenvolvimento, mas fugindo da crença no sobrenatural, no transcendental, na filosofia primeira — a metafísica. E assim vem a eclosão da metafísica na idade contemporânea, devido a todo um trabalho de crítica e esforço, coroado de realizações positivas.

4. História da Metafísica.

Ao conjunto de 14 livros filosóficos de Aristóteles, que vinha após a Física, e que tratam notadamente da origem do movimento e da causa primeira do mundo, deu-se o nome de Metafísica. Os livros de Aristóteles foram ordenados por Andrônico de Rodes no ano 50 a.C. Nessa edição que Andrônico fez das obras de Aristóteles, colocou os livros que tratavam da “filosofia primeira” depois dos livros da física. E, desse modo, o que Aristóteles denominava de “filosofia primeira”, passou a ser conhecido como metafísica. “O que está depois da física”.

Aristóteles imaginava haver uma ciência que tivesse como meta primeira o estudo do “ser enquanto ser”, e seus atributos essenciais. Essa ciência, que não seria similar a nenhuma outra das conhecidas “ciências particulares”, seria a “filosofia primeira”.

Enquanto as outras ciências enfatizariam, cada qual um aspecto particular do que existe — o ser enquanto físico, ou o ser enquanto móvel, ou o ser enquanto vivo e etc., a “filosofia primeira” inquiriria os primeiros princípios e as coisas mais elevadas da realidade, não se restringindo a uma determinação particularizadora do “ser”, antes tentando compreender o “ser enquanto puramente ser”.

Assim, dentro da tradução iniciada por Aristóteles, a metafísica possui uma posição privilegiada: seria um saber anterior a todos os outros saberes, e seu objetivo teria primazia sobre todos os demais objetos. Nesse sentido, a metafísica passou a ser considerada como fundamento de toda ciência, como também da própria filosofia.

Aristóteles sustentava, como tese última da “filosofia primeira”, a doutrina do “primeiro motor”, incorpóreo e móvel, responsável na condição de causa final, por todas as transformações ocorridas no Kosmos. Aristóteles determinava esse primordial “motor imóvel” de Deus, que deu à sua metafísica, em última instância, a característica de uma “teologia racional”. O vínculo entre a Metafísica e a teologia foi ressaltado durante a Idade Média, paralelamente às discussões sobre as relações entre filosofia e religião, razão e fé.

São Tomás de Aquino deu grande impulso à metafísica na Idade Média, ao desenvolver as teses aristotélicas e adaptá-las aos dogmas e às exigências cristãs de então. Aquino concebeu a metafísica como sendo o estudo do “ente enquanto ente real”, ou seja, como ciência do “ser enquanto ser”, e não como concebido ao modo do gênero supremo e, portanto, sob a espécie de mera abstração.

A conotação maior da construção tomista foi a distinção ontológica entre “essência e existência”. Enquanto em Aristóteles “essência e existência” se distinguiram como modos diversos de se “indagar” ou de pensar sobre a realidade, em Aquino elas passam a ser distinções inerentes à própria realidade, e por isso, ontológicas.

Essa inovação introduzida por Aquino na metafísica aristotélica foi fundamental para a tentativa de conciliação entre “verdade natural” e “verdade revelada”, entre “razão” e “fé”, uma das metas centrais do pensamento tomista.

a) Metafísica moderna.

Ao contrário da metafísica medieval, que era uma especulação baseada na confiança e no poder do intelecto, mas auxiliada pela fé, a metafísica moderna procura sustentar-se apenas em verdades garantidas pela razão.

A partir do cristianismo, a metafísica moderna desenvolveu-se principalmente em torno da análise da noção de substância, tendo como uma de suas sustentações a noção de idéias inatas (idéias que existiriam no intelecto humano, independentemente dos dados dos sentidos). Spinoza e Leibniz discutiram sobre o problema da substância, assunto este que se tornou fundamental no interior do racionalismo moderno. Leibniz deu nova formulação ao inatismo, tentando conciliá-lo com o empirismo. Para ele, nada existiria no intelecto que antes não houvesse passado pelos sentidos, exceto o próprio intelecto.

O debate entre racionalismo e empirismo converge para a obra de Kant, que reformula completamente a posição da metafísica, reconhecendo o valor da crítica empirística à metafísica tradicional, sobretudo como esta se havia apresentado através de Leibniz e Wolff.

Em sua obra Crítica da Razão Pura, Kant procura verificar como é possível o conhecimento científico matematica e fisicamente, e examina se é possível o conhecimento das entidades metafísicas, como Deus, alma, mundo, etc. Conclui que este conhecimento não é possível no nível da pura razão, pois todo conhecimento seria a síntese de dados dos sentidos com as condições “a priori” do sujeito e, no caso da metafísica, não haveria base empírica para a constituição de seus objetos.

O positivismo  por sua vez, critica severamente a metafísica. Para Comte, por exemplo, a metafísica representava simplesmente um modo de saber próprio de determinada época da humanidade, destinada a ser completamente superada pelo conhecimento científico, ou seja, o positivismo, baseado no estabelecimento de leis referentes dos dados da sensação. As referências antimetafísicas de origem positivista vão culminar, no início do século vinte, no neopositivismo e no empirismo lógico.

No pensamento contemporâneo, a investigação metafísica adquiriu grande impulso na obra de Heidegger, que procura, através do pensar metafísico dos antigos gregos, particularmente os pré-socráticos, recuperar a genuína concepção do ser.

5. A Natureza da Metafísica

Tanto a filosofia da natureza como as ciências experimentais e as ciências matemáticas estudam, cada uma delas, um ponto de vista especial do ente, como o seu aspecto sensível ou quantitativo. Será que essas ciências esgotam tudo o que pode ser conhecido no ente?

Não. Há outro aspecto no ente que não é encarado por nenhuma destas ciências, e é capaz, por conseguinte, de originar outras ciências. Em vez de considerar se o ente é sensível ou se é quantitativo, uma ciência há que trata do ente, não enquanto sensível, não enquanto quantitativo, mas sim do ente enquanto ente (ser). Esta ciência é a metafísica. Seu objeto é universal, é transcendental.

Todas as ciências, inclusive a metafísica, estudam o ente; é o objeto material, comum a todas as ciências. Ora, neste objeto material cada ciência toma um ponto de vista especial, aquilo que os filósofos chamam de objeto formal. Só a metafísica pode estudar o ente enquanto ente. Portanto, o objeto formal da metafísica é o ente enquanto ente.

René Descartes (1596-1650), vendo a universalidade do ente enquanto ente, mas não distinguindo o objeto formal da metafísica, pensou que ela absorvia todas as ciências. Logo, para ele, existe uma única ciência: a metafísica. Augusto Comte (1798-1857), pelo contrário, atordoado pela transcendentalidade da metafísica e não distinguindo o objeto formal do objeto material, chegou à conclusão de que não existe metafísica, devorada que esta ficou pelas ciências. Logo, para estes, só existem as ciências experimentais e as ciências matemáticas.

A teoria dos três graus de abstração serve para explicar a noção da metafísica. No primeiro grau, próprio das ciências experimentais e da filosofia da natureza, a inteligência estuda o ente sensível, isto é, o ente sem as propriedades individuais, mas com as qualidades sensíveis, como a cor, o som, o movimento local, etc.

As ciências matemáticas, num grau superior de abstração, o segundo, nem positivamente inclui nem positivamente exclui a quantidade real e, por isso mesmo, difere da quantidade puramente fictícia e imaginária, que é o ente de razão.

Enfim, o último grau de abstração, o mais elevado das ciências especulativas, é a metafísica, que estuda o ente, não enquanto sensível ou quantitativo, mas enquanto ente. Ela faz abstração de tudo, para só considerar o ente; isto, porém, é justamente abranger absolutamente tudo: Deus, almas, animais, vegetais, minerais, entes de razão, pois tudo é ente, ainda que cada um o seja a seu modo. De modo que, mesmo o nada é abrangido pela metafísica. Ela é com razão a “rainha das ciências filosóficas” e o coração da filosofia.

A metafísica defende todas as ciências e só ela pode fazer isso, pois a base e o princípio das ciências encontram-se nela. Assim, a existência da quantidade, base das matemáticas, é provada e defendida pela metafísica; a existência do movimento, do mundo real, dos primeiros princípios, base de qualquer ciência, é demonstrada pela metafísica. Por isso, a metafísica, e só ela, é livre de todas as ciências.

6. Propósitos da Metafísica.

Quando comparamos entre si as definições da metafísica e as concepções do absoluto, podemos perceber que os filósofos, apesar de suas divergências aparentes, todos eles concordam em distinguir duas maneiras profundamente diferentes de conhecer uma coisa: A primeira é que rodeemos essa coisa; a segunda, é que entremos nela.

primeira maneira depende do ponto de vista em que nos colocamos e dos símbolos pelos quais nos exprimimos. A segunda, não se prende a nenhum ponto de vista e não se apóia em nenhum símbolo.

Acerca da primeira maneira de conhecer, diremos que ela se detém no relativo; quanto a segunda, onde ela é possível, diremos que ela atinge o absoluto. Vejamos o exemplo de uma personagem de romance cujas aventuras me fossem contadas:

O romancista poderá multiplicar os traços de caráter, fazer falar e agir seu herói tanto quanto queira. Tudo isto não valerá o sentimento simples e indivisível que eu experimentaria se coincidisse um instante com a própria personagem. Então as palavras, os gestos e as ações me pareceriam correr naturalmente, como da fonte. Já não seriam acidentes acrescentados à idéia que me fazia da personagem, enriquecendo-a sempre mais e mais, sem nunca completá-la.

Assim, mediante um contato real com a personagem eu a receberia de uma vez, integralmente, e os acidentes que a manifestam, em lugar de se acrescentarem à idéia e enriquecê-la, eles se destacariam dela, sem, entretanto esgotá-la ou empobrecer sua essência.

Avancemos um pouco mais. Todos os traços pelos quais me descrevem uma personagem, e que só podem fazer com que a conheça através de comparações com pessoas ou coisas já conhecidas, são sinais pelos quais a exprimimos mais ou menos simbolicamente. Símbolo e pontos de vista me colocam, pois, fora dela; apenas me fazem conhecer dela o que tem em comum e que não lhe pertence propriamente.

Mas o que é propriamente ela, o que constitui sua essência, não poderia ser percebido de fora, pois é, por definição, interior, nem ser expresso por símbolos, pois é incomensurável como qualquer outra coisa. Descrição, história e análise me deixam, pois, no relativo. Somente a coincidência com a própria pessoa me daria o absoluto.

É nesse sentido somente que absoluto é sinônimo de perfeição. O absoluto é perfeito no sentido de que é perfeitamente o que é. É pela mesma razão que freqüentemente se identificou o absoluto com o infinito.

Mais um exemplo. Quando levantamos o braço, realizamos um movimento de que temos interiormente a percepção simples; mas exteriormente, para alguém que observa, nosso braço passa por um ponto, depois por outro, e entre estes dois pontos haveria ainda outros pontos, de tal maneira que, se ele começar a contar a operação, esta não terá fim. Visto de dentro, um absoluto é, pois, coisa simples; mas considerando de fora, isto é, relativamente à outra a coisa, torna-se complexa em relação aos sinais que os exprimem. Ora, o que se presta ao mesmo tempo a uma apreensão indivisível e a uma enumeração inesgotável é, por definição, um infinito.

Portanto, um absoluto só poderia ser dado numa intuição, enquanto o restante é objeto de análise. Chamamos aqui intuição a simpatia pela qual nos transportamos para o interior do objeto para coincidir com o que ele tem de único e, conseqüentemente, de inexprimível. Ao contrário, a análise é a operação que reduz o objeto a elementos já conhecidos, isto é, comum a este objetivo e a outro.

Analisar consiste em exprimir uma coisa em função do que não é ela. Toda análise é, assim, uma tradução, um desenvolvimento em símbolos, uma representação a partir dos pontos de vista sucessivos, em que notamos outros tantos contatos entre o objeto novo, que estudamos, e outros, que cremos já conhecer.

A análise, em seu desejo eternamente insatisfeito de abarcar o objeto em torno do qual ela está condenada a dar voltas, multiplica sem fim os pontos de vista para completar a representação sempre incompleta, e varia sem cessar os símbolos para permitir a tradução, que é sempre imperfeita. A análise se desenvolve, pois, no infinito. Mas a intuição, se esta é possível, é um ato simples.

Não é difícil notar que a ciência positiva tem por função habitual analisar. Ela trabalha, antes de tudo, com símbolos. Mesmo as mais concretas das ciências da natureza, das ciências da vida, se atêm à forma visível dos seres vivos, de seus órgãos, de seus elementos anatômicos. Comparam as formas umas com as outras, reduzem as mais complexas às mais simples. Enfim, estudam o funcionamento da vida naquilo que dele é, por assim dizer, o símbolo visual.

Se existe um meio de possuir uma realidade absolutamente, em lugar de conhecê-la relativamente, de colocar-se nela em vez de adotar pontos de vista sobre ela, de ter a intuição em vez fazer a análise, enfim de apreendê-la fora de toda expressão, tradução ou representação simbólica, a metafísica é este meio. A metafísica é, pois, a ciência que pretende dispensar os símbolos. A metafísica vai da realidade aos conceitos e não dos conceitos à realidade.

Para Martin Heidegger, a metafísica também é determinada como a questão do ente enquanto tal e no todo. A metafísica é ontoteologia. A metafísica é teologia, uma enunciação sobre Deus, porque Deus vem para dentro da filosofia.

7. Schopenhauer e a metafísica.

No seu livro A Necessidade Metafísica, o cético Arthur Schopenhauer mostra que somente o homem admira-se de sua existência, e traz indagações à sua mente do como e do porquê desta existência. Já que somente o homem possui a razão, ele pode pensar na existência da morte e também na limitação da nossa existência, sendo a morte o final de todas as coisas. Dessa reflexão e desse espanto nasce a necessidade metafísica de que somente o homem sofre.

O homem é realmente um animal metafísico. Schopenhauer diz que quando o homem começa a ter quase nenhuma consciência das coisas, mesmo assim ele, o homem, supõe ser algo perfeitamente compreensível. Mas essa ilusão dura pouco. Já com as primeiras reflexões produz-se aquele assombro que, sem dúvida alguma, constitui a origem mesma da metafísica.

Schopenhauer afirma que é a consciência das coisas e também a morte e a consideração dos padecimentos e da miséria da existência que levam à reflexão filosófica e a uma explicação metafísica do mundo. Para ele, se o mundo fosse bom e não houvesse amarguras, o homem não se interessaria em saber “o porquê” o mundo existe e porque ele possui uma natureza tão peculiar. Antes, muito pelo contrário, todas as coisas se compreenderiam facilmente por si mesmas, e ninguém perguntaria nada.

Sobre as religiões, diz Schopenhauer que todas elas defendem a existência de deuses, mas este ainda não é o maior problema. O que se poderia considerar pior é a defesa da imortalidade: alia a vida de todo dia um dogma de imortalidade. Se demonstrássemos a absoluta impossibilidade de outra vida, não existiriam as religiões. O homem não teria interesse pela existência de deuses. Esta necessidade metafísica do homem pode ser vista nos templos religiosos que vem logo após as necessidades físicas.

As idéias que foram inculcadas no homem para explicar a sua existência não são muito importantes. O que interessa mesmo é que estas idéias constituíram explicações satisfatórias de sua existência, e bases para a sua moralidade. Para Schopenhauer, esta necessidade metafísica fez surgir religiosos exploradores.

Além dos religiosos, Schopenhauer cita outro grupo, menos numeroso, constituído por indivíduos que exploram a necessidade metafísica da humanidade para viverem da filosofia. Entre os gregos chamavam-se sofistas, e entre os modernos são os professores de filosofia. Schopenhauer expõe em sua obra algumas diferentes maneiras de satisfazer a necessidade metafísica, que para este filósofo é tudo o que tiver a pretensão de constituir um conhecimento que ultrapasse a experiência, um conhecimento que pretenda demonstrar que existe antes da natureza algo que a torne possível.

De acordo com Schopenhauer, não seria possível uma única e mesma metafísica para todo mundo, já que as inteligências humanas são muito variadas originalmente devido a diversidade de formação exigente de largo tempo e de muitos cuidados. Nos povos civilizados encontramos duas espécies principais de metafísica diferenciando-se uma da outra: uma traz em si mesma sua justificação, e a outra fora de si seus fundamentos.

A primeira dessas duas espécies de metafísica seria adquirida através da cultura, grandes estudos, meditação acurada, reflexão. Esse sistema se restringe a poucos homens, e é somente possível em civilizações ultra-avançadas. A outra seria utilizada pelas massas, incapazes de pensar. As massas não vão além da crendice e da subserviência face às autoridades. Não raciocinam livre e elevadamente.

Dentro desta última categoria, Schopenhauer deixa claro que os menos incautos são os cristãos. Diz que a Verdade é-lhes revelada exteriormente e se manifesta através de prodígios e milagres. Seus argumentos são ameaças de penas eternas e temporais, endereçadas aos incrédulos. Schopenhauer diz que a metafísica da massa (religião) assegura uma durável posse das consciências, pois começam a inculcar os ensinamentos desde a sua primeira infância. Através de seus dogmas, criam no ser humano como que uma segunda consciência.

Estas duas qualidades de metafísica são, para Schopenhauer, Doutrinas de Fé e Doutrinas de Razão, as quais afirmam que somente as religiões são donas absolutas da vida, e cada qual em seus domínios. As filosofias são apenas toleradas. O povo carece de uma religião, já que é um benefício inestimável. Todavia, afirma Schopenhauer, quando as religiões se erguem como obstáculos ao progresso da inteligência humana, devemos afastá-la. Pedir que um gênio, um Shakespeare ou um Goethe, engulam os dogmas de uma religião qualquer, será pedir que um gigante calce os sapatos de um anão.

8. Metafísica, Ciência Divina?

A professora de filosofia Adísia Sá, em seu livro “Metafísica, para quê?”, faz um apanhado geral sobre metafísica e tira sua opinião. Para ela, metafísica é a parte da filosofia que trata das coisas que ultrapassam a experiência sensível. Não é sinônimo de teologia; apenas procura eternizar uma etapa do pensamento, ou seja, a busca do absoluto em forma de Deus. Metafísica não é estudo de Deus nem sinônimo de Deus, como não é mundo ou sinônimo de mundo. Deus e mundo é que são facetas do objetivo da Metafísica, ou seja, o Ser, em realidade. Ela parte da afirmação de Schopenhauer “o homem é um animal metafísico”, e diz que para ele devem voltar-se nossas atenções.

Observa Adísia Sá que o homem é um animal real, que existe no mundo real. O homem e o mundo são os elementos que nos interessam, porque constituem o cerne da metafísica. O homem não é abstrato. Vive e pensa, existe e idealiza no mundo. O mundo não é uma abstração: existe, é real.

O homem e o mundo são entidades indissoluvelmente unidas. A metafísica nada mais é do que a visão do mundo, pelo homem, o qual, tomando a seu cuidado o mundo, o organiza como mundo.

Para Adísia Sá, a ojeriza à metafísica vem de Descartes, passa por Kant, e é aprofundada por Comte. Segundo a autora, René Descartes defendia a metafísica como gnosiologia do absoluto, considerando-a como “a raiz da árvore” da ciência, tendo como objeto “entes imateriais”, como Deus e alma: conhecimentos advindos da “razão humana”. Ou, dito de outro modo, a aceitação do objetivismo absoluto ideal de Platão.

Para Kant, a metafísica é uma ciência independente das outras, e faz dos seus problemas as questões essenciais e fundamentais do homem, como o reino da moral, Deus, liberdade, imortalidade.

Augusto Comte, por sua vez, viu a metafísica como uma etapa da história do homem: uma idade do conhecimento ou estado metafísico (lei dos três estados). No fundo, uma visão gnosiológica da metafísica.

Adísia Sá faz um parêntese para dizer que a metafísica não nasceu com Aristóteles, uma vez que buscar e investigar sempre foram tarefas do homem. Só que essas tarefas não haviam sido antes batizadas. Observar e investigar o ser são naturais inclinações do homem, não conseqüências de nomes ou batismos.

9. Metafísica e Cosmologia.

A fase primeira da filosofia foi chamada de cosmologia. Com os cosmológicos podemos ver, inicialmente, a preocupação humana com o desenvolvimento agrícola, a navegação e a colonização. Os interesses especulativos estavam voltados para os fenômenos naturais, meteorológicos e físicos: observação das estrelas como guia dos navegantes. A filosofia de então era cosmológica e naturalista. O mundo exterior e seus fenômenos eram o que interessava.

Aristóteles trata esses filósofos como naturalistas. A filosofia, e conseqüentemente a metafísica, custaram a livrar-se da confusão original, como a filosofia da natureza, ou cosmologia. A libertação ocorreu na fase socrática e sofística da filosofia. A primeira fase, a cosmológica, era condicionada às forças externas, materiais, da natureza. A segunda, a sofista, recebeu pressões de ordem social, econômica e política, pois pertenceu ao período subseqüente à guerra contra os persas e a imediata invasão das cidades gregas. A filosofia neste período era considerada como sinônimo de ética, moral e política.

Na terceira fase, já na Idade Média, a preocupação teológica se interpôs à filosofia. Alguns consideravam a filosofia como escrava da teologia. A metafísica começava a ser oficialmente considerada como sinônimo de teologia. Era uma apropriação da colocação aristotélica, ou seja, do primeiro motor.

Adísia Sá diz que a metafísica não é propriedade da cosmologia, da teologia, da gnosiologia, da ética. Ela transcende a proprietários. A metafísica é descompromissada. O que ela tenta encontrar, partindo do visível, é o ser, que é encontrável e buscado em todas as realidades. Essa busca do ser tem usado os seguintes métodos: (1) Especulativo, através da física experimental dos pré-socráticos; (2) Dialético — heraclitianos e cientistas, de um modo geral, do mundo contemporâneo; (3) Crítico — sofistas; e (4) Analítico — Aristóteles.

Kant, ao considerar a metafísica um método, a vê como um conhecimento puro, a priori, de três objetos: o mundo como totalidade, a alma, e Deus. Dentro desta visão, a metafísica se torna especulativa e impossível, pois os seus objetos são puras essências, inatingíveis pela razão.

10. A Crítica do Conhecimento.

Embora tivessem os filósofos da Antigüidade e da Idade Média se ocupado com os problemas do conhecimento, a crítica do conhecimento, como disciplina autônoma, só surgiu de fato na Idade Moderna, tendo Kant como o seu principal sistematizador.

A crítica do conhecimento, ao procurar determinar a natureza, os limites e as possibilidades do conhecimento, procura saber, em primeiro lugar, se somos capazes de conhecer a verdade, e, em segundo lugar, qual é a extensão desse conhecimento.

Ao longo da história, percebemos que o homem sempre tem buscado resolver a questão do conhecimento da verdade, valendo-se de uma dessas quatro doutrinas: (1) o dogmatismo, (2) o ceticismo, (3) o probabilismo e (5) o pragmatismo.

O dogmatismo afirma que a verdade existe e que podemos conhecê-la. É uma doutrina de realismo e de bom senso que a razão e a experiência confirmam.

O ceticismo afirma que não podemos ter certeza de coisa alguma, e que a única atitude do espírito deve ser a dúvida universal. É uma doutrina filosófica dos que duvidam de tudo e afirmam não existir a verdade, que, se existisse, seria o homem incapaz de conhecê-la. Variante: Cepticismo.

O probabilismo afirma que só podemos atingir a verossimilhança, mas nunca a verdade, uma vez que os nossos juízos são apenas prováveis, mas nunca certos. Em outras palavras, todo o conhecimento só tem caráter de probabilidade e não de certeza, visto que a verdade não pode ser conhecida.

O pragmatismo afirma que não cabe à inteligência conhecer as coisas, e sim nos mostrar a utilidade das mesmas. Assim, a verdade se caracterizaria pela utilidade ou pela eficácia que possa ter para a ação. Ou, em outras palavras, a verdade não é o que é certo, mas sim o que dá certo.

De todas essas doutrinas, a única filosoficamente aceitável é a do dogmatismo moderno, que admite certa relatividade na aquisição da certeza.

Quanto ao problema do âmbito do conhecimento, há três doutrinas que buscam a sua elucidação: (1) o sensualismo ou empirismo, (2) o idealismo e (3) o racionalismo.

O sensualismo aceita que todas as nossas idéias provêm unicamente dos nossos sentidos.

O idealismo admite que só podemos atingir as idéias, uma vez que o mundo não passa de uma simples representação de idéias.

Já o realismo defende a realidade do mundo exterior e admite a existência do objeto como sendo distinto do sujeito. Para os realistas, a razão, a expressão e o senso comum atestam a veracidade da sua tese.

D. A Ontologia.

1. Definição.

A ontologia pode ser definida como a ciência do ser enquanto ser. Ela estuda, em suas razões fundamentais, o que é ou pode ser. Tanto na Antigüidade como no período medieval, a ontologia foi considerada como a ciência do ser como tal, mas Kant, Hussell, Heidegger e Nicolai Hartmann não aceitaram essa definição tradicional da ontologia.

O estudo do ser divide-se em quatro partes, ou seja, (1) a sua natureza, (2) a sua extensão, (3) as suas causas, e (4) os seus valores. Essas quatro partes incluem a idéia, a existência, o ato, a substância, os acidentes, as categorias, a causa e os valores do ser.

Em resumo:

idéia de ser é a mais universal que se pode conceber. É una, transcendental e análoga.

existência é o ato de existir. Essência é aquilo por que uma coisa é o que é.

Ato é perfeição. Potência é a capacidade de perfeição. Toda mudança é uma passagem da potência ao ato, uma atualização de uma potência anterior.

Substância é o ser que pode existir em si próprio. Acidentes são as maneiras de ser da substância que não podem existir em si mesmas.

Categorias são as modalidades do ser. Há dez categorias ou predicamentos: “substância”, qualidade, quantidade, relação, ação, paixão, localização, posição, situação no tempo, hábito.

Causa é aquilo que influi na existência ou na produção de um ser. Há quatro espécies de causas: eficiente, material, formal e final.

Valores são qualidades que apreciamos nas coisas. As coisas valiosas chamam-se bens. A axiologia, ou ciência dos valores principalmente dos valores morais, teve início no século vinte. Para uns, os valores são atributos subjetivos, para outros objetivos. Max Schler distingue o valor do ser. Mas valores nada mais são, na realidade, do que modalidades do ser.

2. O Ente Enquanto Ente.

A parte da metafísica que estuda o ente enquanto ente, em si mesmo, na sua essência, é chamada de ontologia, do grego “ontos” = ente. Ente parece traduzir bem a transcendentalidade do “ontos” grego, que tanto abarca o ente real como o ente possível e o ente de razão.

A ontologia é, portanto, o âmago da metafísica, pois esta tem como base a evidência imediata e os primeiros princípios do senso comum cientificamente estabelecidos em relação ao ente. Somente de posse do conhecimento do ente e de suas propriedades essenciais é que se podem deduzir conclusões.

Antes, porém, de se estudar o ente enquanto ente, é necessário saber se a inteligência é capaz de conhecer, de fato, este ente enquanto ente. Portanto, neste caso, o ente enquanto ente é encarado não já diretamente em sua essência, como na ontologia, mas sim enquanto é conhecível, enquanto é capaz de ser conhecido e apreendido realmente pela inteligência humana.

No que se refere à existência de Deus, a ontologia responde às seguintes proposições:

A mente humana pode apreender por intuição um tipo de verdade que não é a verdade em si, ou Deus, mesmo quando essa verdade seja similar à verdade, ou a Deus.

Nosso conhecimento de Deus decorre da imagem dEle refletida no espelho de nossa alma, mas não podemos conhecer Sua íntima essência. Portanto, é imagem de Deus; não é Deus. Essa imagem de Deus faz com que Deus mesmo, com natureza distinta da criatura, não seja um fim separado do homem, mas comunicável por obra do próprio Deus à inteligência e à vontade do homem. Por meio dessa imagem o homem volve ao Criador através da presença deste naquele, cumprindo assim um ato que tem uma relação essencial com Deus.

Há, em nossa mente, uma verdade primordial que vem de Deus e que, portanto, é algo divino, pela qual o ente pensante está unido ao Criador através do intermediário que é a verdade. Segue-se, pois, que o espírito que busca a verdade busca a Deus. Quem pensa a verdade, na realidade pensa em Deus e o tem como fim. Nesse sentido, o pensamento humano é de natureza teísta.

A presença imediata da verdade à mente não significa presença imediata de Deus, intuição de sua essência ou contato direto da mente. Significa só presença de imediato da verdade como é dada à mente por Deus, e não da verdade como está nele, isto é, não é presença de Deus mesmo.

Não há divisão imediata de Deus, nem conhecimento na ordem natural de sua essência, e o ontologismo entendido como conhecimento direto de Deus é um erro. O verdadeiro ontologismo, que é distinto do falso e o refuta, não exclui a intuição de verdades inteligíveis, interiores à mente humana. É a presencialidade da verdade no homem e perante o homem.

Mas “ver” e “intuir” a verdade que está em nós não significa absolutamente “ver” ou “intuir” Deus. Nós não conhecemos a Verdade em si mesma, mas sim o que dela está refletido no “espelho” de nossa alma. A mente “participa” da verdade divina não diretamente, mas sim mediatamente, através do intermediário da verdade refletida nela, pelo que a verdade não está nela como está em Deus: é reflexo divino sem ser Deus, que, não agora, mas logo veremos face a face. A verdade, luz e vida da mente humana possuem os caracteres divinos de imutabilidade e absolutismo, mas não é Deus: “é o Seu mais esplêndido reflexo”.

3. A “Auto-Imersão”, de Filo.

Filósofo alexandrino, Filo viveu entre 30 a.C. e 50 d.C.. Embora educado no helenismo, possuía uma instrução superficial do judaísmo e algum conhecimento da Bíblia derivado da Septuaginta.

Talvez em virtude de sua simpatia pela filosofia platônica e de seu conhecimento bíblico, Filo ensina que Deus criou o mundo de substância eterna, mas não influi nele diretamente, e que o Logos é mediador entre Deus e o mundo. A alma humana, segundo Filo, deriva da Fonte Divina e é, pois, capaz de atingir uma concepção da natureza da divindade, não por meio de percepção espiritual, mas por meio de auto-imersão na meditação mística ou no espírito de profecia. Esta deve ser, segundo o filósofo, a finalidade última do esforço do homem no sentido da própria elevação moral.

Na concepção de Filo, o judaísmo possui o instrumento que permite ao homem alcançar a perfeição moral e filosófica — a Torah, que abre o caminho da união com a divindade. Esse caminho é alegórico, pois as narrações de conteúdo não moral que aparecem no Pentateuco mostram as ásperas paixões do gênero humano que devem ser evitadas, ao passo que as outras narrações pintam alegoricamente o bem pelo qual se deve lutar. De modo geral, Filo acredita que a lei judaica é a mais pura revelação de Deus.

Filo foi o fundador do que tem sido chamado de teologia negativa. Deus aparece ali como o próprio Ser, dotado de transcendentalidade, incapaz de ser abrangido pelas nossas descrições. Poderíamos compreender melhor a Deus quando limitamos a declarações racionalistas, afirmando o que Deus não é, em vez de tentarmos dizer, racionalmente, o que Ele é. Essa tentativa visava a evitar as descrições antropomórficas de Deus, sem importar quanto de verdade as mesmas continham, porquanto elas seriam, automaticamente, extremamente inexatas.

E. A Teodicéia.

teodicéia, que a princípio significou uma justificação de Deus em virtude de admitir como fato a existência dEle servindo-se da razão, foi mais tarde considerada sinônimo de teologia natural, ao aplicar-se ao estudo de Deus por meio da razão. Mas a teodicéia não é nem uma ciência experimental nem uma ciência a priori, pois embora estude Deus mediante o raciocínio, ela parte dos efeitos desse Deus, isto é, da observação dos fatos.

O estudo da teodicéia divide-se em três partes: (a) a existência de Deus, (b) a natureza e os atributos de Deus, e (c) as relações de Deus com o mundo. Pelo fato de apresentar diversas provas da existência de Deus, provas essas consideradas necessárias e possíveis, os adeptos da teodicéia diferem dos ontologistas, que proclamam que não é necessário demonstrar tal existência, por ser ela evidente por si mesma.

Entre os que discordam da teodicéia estão os fideísta e os agnósticos. Os primeiros negam a razão e só admitem a fé como meio de resolver o problema dessa existência, e os agnósticos negam a razão e a fé, só admitindo a experiência sensível.

Partindo dos efeitos sensíveis de Deus, podemos, entretanto, pelo raciocínio, atingir a natureza divina. As provas da existência de Deus podem ser metafísicas ou morais.

As provas metafísicas são:

(a) a existência do mundo,

(b) a existência do movimento,

(c) a existência da vida, e

(d) a existência da ordem do universo.

As provas morais são:

(a) a existência da lei moral,

(b) o mérito e o demérito,

(c) o consentimento universal,

(d) as aspirações da alma humana, e

(e) a experiência mística.

De acordo com a teodicéia, o homem pode elevar-se, por meio da sua inteligência, ao conhecimento da natureza divina. Para isso, utiliza os efeitos dessa natureza na realidade universal. Mas seu conhecimento de Deus será sempre incompleto e imperfeito, pois sua inteligência é relativa e limitada.

1. Os Atributos de Deus.

A teodicéia descreve os atributos de Deus como sendo entitativos, operativos e morais.

Os atributos entitativos são: simplicidade, infinidade, unicidade, imensidade, imutabilidade, e eternidade. Os atributos operativos são a inteligência e a vontade. Os atributos morais são a sabedoria, a bondade e a justiça. Na explicação das relações de Deus com o mundo é necessário evitar os erros do dualismo, do panteísmo e do antropomorfismo.

As relações entre Deus e o mundo são explicadas de maneira racional pela doutrina da criação e da providência. Esta doutrina afirma que Deus é imanente e transcendente ao mundo, isto é, está unido ao universo que criou, mas dele Se distingue como realidade independente. Deus possui uma personalidade autônoma, inteligente e livre.

F. Apêndice.

1. A Dialética.

Etimologia — Dialético: adjetivo relacionado com a arte do diálogo e da discussão. Diz-se de todo processo que evolui por contraposições e sínteses. Dialética: primitivamente, arte do diálogo.

Quando dois indivíduos de opiniões contrárias se encontram, sobrevém uma discussão: cada um tenta refutar a opinião do outro; é o antagonismo das teses que se torna o propulsor da discussão. Desse ponto de vista, todo diálogo é dialético (v. Diálogo de Platão). Dessa simples experiência pode-se destacar um duplo aspecto: o positivo e o negativo. Num sentido positivo, a dialética é a arte do construir um conhecimento verdadeiro: é preciso ter-se tido certeza de uma opinião (tese) e depois ter-se reconhecimento do bom fundamento da opinião contrária (antítese) para reconhecer-se a verdade total de uma coisa (síntese).

O homem não pode compreender tudo de uma só vez, porque seu saber é progressivo, é dialético. Os psicólogos notaram que o homem não somente compreende, mas realiza dialeticamente sua personalidade por um jogo de afrontamento do outro e de introversão, ação e reflexão. A dialética não é apenas uma maneira de compreender, mas uma maneira de ser: donde resulta a noção de “dialética real ou dialética da realidade”.

Para o hegelianismo e o marxismo, a dialética significa o que é móvel, progressivo, ou está em evolução. Dizia-se de uma argumentação sutil e ardilosa, e de distinções engenhosas ou inúteis. Concernente a um dialeto: “raciocínio pelo qual se procura provar uma coisa necessária e obscura por outra com as mesmas características, e depois esta segunda pela primeira daquela forma provada”.

Leis Dialéticas: segundo Engels, são três:

Negação da negação,

Passagem da quantidade à qualidade,

Coincidência dos opostos.

Método Dialético: (filosofia), método de conhecimento que procede por oposição e conciliação de contradições.

Momento Dialético: em Hegel, passagem da tese à antítese, é o impulso pelo qual o espírito, reconhecendo que os termos contraditórios são inseparáveis, descobre o princípio que os une numa categoria superior (síntese) partindo da prévia identidade entre realidade e razão.

Silogismo Dialético: para Aristóteles, silogismo em que as premissas são opiniões prováveis. Para Kant, lógica da aparência, dos raciocínios ilusórios.

Dialética Ascendente: em Platão, atividade pela qual o espírito vai da multiplicidade sensível à unidade inteligível.

Dialética Descendente: em Platão, movimento do espírito que operando dicotomias (divisão em dois ramos: método de classificação em que cada um das divisões e subdivisões não contém mais de dois termos) progressivas, retorna do geral ao particular — dedução: raciocínio que parte do geral para chegar ao particular, do princípio à conclusão. A dedução opõe-se à indução, que vai do particular ao geral, dos fatos às leis. Distingue-se a dedução lógica, rigorosa, mas estéril, não fornecendo elementos novos (o silogismo), a dedução transcendental que, em Kant, deduz, pela reflexão, o valor e os limites do que podemos conhecer de maneira puramente racional.

Segundo uma tradição que remonta a Aristóteles, o criador da dialética teria sido Zênon de Eléia (século V a.C.), em virtude dos seus famosos argumentos sobre a impossibilidade racional do múltiplo e do movimento, e em indireta defesa do ser único e imóvel do eleatismo. No seu surgimento histórico a dialética teria, destarte, o sentido de argumentação combativa; parte-se da tese do oponente para, por meio de rigorosas dicotomias, extraírem-lhes as conseqüências possíveis, finalmente mostrando que todas elas conduzem ao absurdo.

Em Platão a dialética deixa de ter o caráter dramático de sua acepção socrática — embate entre duas consciências, com finalidade, ao que parece, eminentemente ético-religiosa. Aristóteles dedica à dialética “tópicos”, contrapondo-a a demonstrações. A dialética é filosofia da aparência, do provável e, como tal, campo de disputa, não de demonstração. Em Hegel, a dialética ultrapassa o sentido demonstrativo de movimento negativo de toda a realidade, para adquirir sentido positivo, como a própria forma de desenvolvimento da realidade, totalmente identificada com o processo da razão.

A vitalidade das questões relacionadas à dialética transparece numa série de estudos e debates atuais, como oposição ou complemento entre dialética e nova retórica.

2. Spinoza.

Filósofo holandês. Descendia de uma família de marranos portugueses; o pai e avó tinham fugido para Amsterdam, onde voltaram ao judaísmo e tornaram-se líderes da comunidade. Spinoza teve educação tradicional e um de seus professores foi Manasseh ben Israel. Foi influenciado pelo espírito de Renascença e estudou filosofia, especialmente René Descartes. Suas opiniões religiosas heterodoxas levaram-no à excomunhão forma da comunidade sefaradita em 1656. A partir de 1660, viveu fora de Amsterdam, ganhando parte de seu sustento como polidor de lentes.

Seu Tratado Político-Teológico (publicado anonimamente em 1670), deu início à moderna crítica bíblica, ao apontar contradições internas da Escritura. Nesse livro, Spinoza traça a linha divisória entre a teologia, conhecimento obediente da fé e da piedade, e a filosofia, descoberta racional e independente da verdade da natureza. Opôs-se à autoridade clerical e às reivindicações da revelação, sustentando que o Estado deveria assegurar a liberdade de pensamento.

Entre seus trabalhos póstumos está à Ética, no qual, de acordo com sua concepção de que uma instituição racional é o mais alto grau do conhecimento, aplicou métodos euclidianos para demonstrar um conceito metafísico do universo, com corolários éticos.

A única substância infinita é causa de si mesma — a Natureza ou deus.

Nada é sobrenatural e mesmo a transcendência de Deus é negada.

Deus é ao mesmo tempo a Natureza Criadora — isto é, o Todo.

Cada coisa finita está em Deus e Ele é imanente a todas as coisas (esta é a metafísica do panteísmo).

A vontade é uma causa necessária, mas não livre, e o sistema, assim, é um vigoroso determinismo.

Spinoza conclui com o conceito da liberdade do homem de sabedoria, que é a virtude ou o poder da inteligência mais perfeita; e é o poder do amor inteligente de Deus e constitui a verdadeira felicidade do homem.

O sistema de Spinoza influenciou profundamente a filosofia subseqüente, e especialmente os pensadores alemães, e por sua vez foi influenciado pela filosofia judaica medieval e renascentista, inclusive Maimônides, Chasdai Crescas e Leone Ebreo.

 

Soli Deo Gloria!

Bibliografia

 

As seguintes obras:

 

Ø  Theobaldo Miranda Santos, Manual de Filosofia;

Ø  Almanaque Abril 1982;

Ø  Enciclopédia Barsa;

Ø  Enciclopédia Conhecer;

Ø  Enciclopédia do Estudante;

Ø  Nova Enciclopédia de Biografias;

Ø  História da Filosofia; História dos Filósofos;

Ø  Teologia Contemporânea;

Ø  Iniciação à Filosofia;

Ø  Enciclopédia Delta Larousse, 4º Volume;

Ø  Enciclopédia Abril.

Ø  Veja também as obras citadas nas notas de rodapé.

 

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