A Metafísica de Platão

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Poderíamos dizer que a Filosofia começa com uma especulação física sobre o princípio da realidade (com os pré-socráticos) e se desenvolve numa especulação metafísica; procurando entender e desvelar não só o princípio, mas fundamentalmente o fim: a finalidade de toda realidade. Mas se começarmos assim, estaremos tomando o termo que define a Filosofia Primeira de Aristóteles da forma como ele foi entendido pelo senso-comum desde que talvez tenha sido cunhado pela primeira vez.

Sabemos, no entanto, que foi por ocasião do recolhimento e edição das obras de Aristóteles, feita por Andrônico de Rodes (no sec. I a.C.), que esse termo, “Metafísica”, foi cunhado pela primeira vez; designando então os escritos do estagirita que vinham logo após o que ele mesmo havia intitulado como Física (ARISTÓTELES 2006, p. 30).

Com Tomás de Aquino (LALANDE 1999, p. 668, contudo, a Filosofia Primeira toma a finalidade de justificar racionalmente a existência do Divino, já que para a Filosofia Cristã é o Divino que fundamenta toda a realidade sensível, sendo causa primeira de todas as coisas. Descartes, Kant, já na modernidade, assim como Hegel, Marx, Heidegger, Husserl, Sartre e Merleau-Ponty irão ao longo do tempo nos brindar com outras conotações e abordagens que, longe de unificar um conceito em torno desse termo e dessa espécie de Filosofia, nos ampliará seu entendimento em diversas direções para um estudo mais profundo da realidade, inclusive negando essa possibilidade.

Mas não é objeto nosso aqui traçar o entendimento controverso e interessado que o termo Metafísica tomou ao longo da história do pensamento humano, bastando-nos que assumamos por hora o sentido que coloca essa área da Filosofia como aquela que se preocupa com a questão da Existência, abstraindo-se aquilo que pode ser considerado acidente ou transitório, e centralizando sua análise naquilo que podemos inferir como base e fundamento da realidade: o SER, conforme nos fala o próprio Aristóteles:

“Há uma ciência que investiga o Ser como Ser e as propriedades que lhe são inerentes devido à própria natureza. Essa ciência não é nenhuma das chamadas ciências particulares, pois nenhuma delas ocupa-se do Ser geralmente como Ser. (…) Mas visto que buscamos os primeiros princípios e as causas supremas, está claro que devem pertencer a algo em função da própria natureza. (…) Portanto, é do Ser como Ser que nós também temos que apreender as primeiras causas” (ARISTÓTELES 2006, Livro IV – p. 103)
Nesse aspecto, desde que a Filosofia nasceu na Jônia, com Tales de Mileto, poderíamos falar numa Metafísica. Eis aí, talvez, um dos pontos em que Aristóteles poderia ter colocado a Metafísica como Filosofia Primeira em seus escritos, embora não tenha feito. Antes mesmo dos pré-socráticos preocuparem-se com o SER (que tem seu início em Parmênides), o princípio que fundamenta a realidade foi percorrido por toda ciência jônica incipiente, procurando num único elemento (ou num conjunto de elementos fundamentais) a derivação de todas as coisas, originando assim a realidade que percebemos sensivelmente. Essa preocupação, tomada no sentido em que colocamos o termo “Metafísica”, é uma preocupação com o fundamento da realidade e seu princípio, como nos define Aristóteles, porém sem dar-lhe uma finalidade ou objetivo.

Essa preocupação com O QUE e com QUAL é o princípio que determina a realidade e a fundamenta, percorreu toda a Filosofia até Sócrates; quando a preocupação e as perguntas sobre a natureza centralizaram-se no Homem e sua relação com essa Natureza. O que inaugura então a Metafísica propriamente dita, cuja preocupação central é a identificação do POR QUE as coisas são como são, num sistema unificador explicativo de toda a realidade e de como o Homem poderia ter acesso a ela, são as investigações de Platão a partir de uma quádrupla influência que determinaria toda a sua Filosofia:

Sócrates (fundamentalmente através de seus ensinamentos e sua morte em Atenas);
Parmênides (e a questão do SER);
O Pitagorismo (com seu sistema prático-ético-religioso-científico) e
O Orfismo (com sua cosmogonia subversiva do sistema cosmogônico oficial de Hesíodo).

Platão como Pioneiro da Metafísica

Sócrates, mentor, mestre e amigo de Platão tem influência determinante na forma de pensar de seu discípulo, culminando no desenrolar de toda sua filosofia a partir da perda inestimável que sofreu com sua condenação em Atenas no ano 399 a.C. Platão dedica-se então boa parte de sua energia a reproduzir os ensinamentos de Sócrates através de diálogos onde ele discute a natureza do homem e da sociedade, sua função, fundamento e seu papel no mundo.

Embora haja controvérsias entre estudiosos quanto a delimitar onde Platão descreve os ensinamentos de Sócrates de forma fiel e onde ele começa a elaborar sua própria forma de pensar, há de se julgar que houve um momento em que Platão (sem abandonar o que Sócrates lhe ensinou) amplia e estabelece um sistema próprio, elaborando a sua própria Filosofia. Platão estudou e acompanhou Sócrates por dez anos. Tinha vinte e oito anos quando este morreu e continuou escrevendo até os oitenta anos. Cornford nos diz sobre esse fato:

“Um filósofo de seu calibre não poderia se limitar a reproduzir o pensamento de um mestre, por maior que este fosse. Sem dúvida, o germe central do platonismo, do começo ao fim, é a nova moralidade socrática da aspiração espiritual, mas nas mãos de Platão este germe transformou-se numa árvore cujos galhos cobrem os céus. O platonismo é, coisa que a doutrina de Sócrates nunca foi, um sistema do mundo, abraçando todo aquele domínio da Natureza exterior do qual Sócrates se afastara para estudar a natureza e a finalidade do homem.” (CORNFORD 2005, p. 50)
Lembremos, também, que Sócrates agiu e pensou como se “desistisse” de pensar sobre o princípio da Natureza como um todo, limitando suas reflexões a como o Homem, na vida em sociedade, poderia ter acesso a esse conhecimento. As investigações dos primeiros filósofos jônicos não satisfizeram Sócrates, chamando sua atenção apenas o sistema de Anaxágoras que colocava um princípio inteligente como origem das coisas. Mesmo assim decepcionou-se ao deparar-se com esse princípio inteligente dando o início, mas tudo se concluindo mecanicamente; sem uma intenção deliberada para algo melhor. Era inútil, para Sócrates, que uma filosofia não se preocupasse ou não desse fundamento para que o homem conhecesse melhor a si mesmo e pudesse desenvolver uma maneira correta de se viver.

Sócrates então começa sua inestimável investigação filosófica sobre a natureza humana e sua finalidade, tentando assim, através do conhecimento sobre si mesmo e de como o ser humano poderia chegar à verdade, conceber um sistema único que abarcasse toda a realidade e a natureza. Não teve tempo de terminar. No entanto, caberia ao seu mais brilhante discípulo, Platão, tentar ampliar seu escopo investigativo e fechar um entendimento do mundo que desse sentido, finalidade e fundamento a toda realidade.

É nesse contexto que Platão se circunscreve como pioneiro da Metafísica, embora tenha sido Aristóteles a sistematizá-la como área específica na Filosofia e desenvolvido uma Metafísica própria, partindo, inclusive, do próprio Platão. Sua Teoria das Formas ou das Idéias, considerada como pensamento e elaboração própria (mesmo a partir dos ensinamentos de Sócrates), marca o início da Metafísica Clássica, onde procura estabelecer os critérios pelos quais as coisas podem ser consideradas válidas de fato; tendo como pano de fundo uma teoria sobre a natureza dos conceitos e das definições a serem obtidos.

Platão, pegando o gancho de Sócrates, ampliou seu escopo investigativo e desenvolveu um sistema que, ao contrário dos pré-socráticos, não se preocupava com a descrição dos princípios que fundamentavam a realidade, e sim com suas causas, razões, finalidades; para entendermos não só como a realidade é, mas por que ela é da forma como é. Concomitante a isso e sem renegar suas raízes socráticas, abarca também como o homem deve agir perante essa ordem das coisas e como ele teria acesso a conhecê-las em toda sua plenitude, numa perspectiva moral e política.

Para a construção desse sistema Platão vai além de Sócrates e, após a morte de seu mestre, sai de Atenas e empreende algumas viagens. Conhece na Sicília a filosofia pitagórica (com Arquitas de Tarento) e a escola eleata, tendo contato também com Dion, cunhado do tirano de Siracusa, Dionísio I.

É possível considerar uma fidelidade estrita a Sócrates apenas sua em fase inicial, onde escreve os chamados “Diálogos Socráticos”. Foi após suas viagens e seu contato com as doutrinas pitagóricas e eleatas que Platão desenvolve sua Teoria das Formas, já numa fase intermediária de sua vida e de seus escritos. Na fase madu​ra, porém, ele reformula suas teorias criticando em grande parte o que elas têm de aproximação estreita com a visão parmenediana, estando circunscritas nesse período as obras O Sofista e Parmênides, onde o próprio Sócrates já deixa de ser personagem principal nos diálogos. (Ver figura 1)

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Sua influência do Orfismo está clara em seus próprios escritos, conforme nos relata Grazzinelli. A noção e doutrina referente à imortalidade da alma e sua transmigração, embora também encerradas na doutrina pitagórica, traz elementos indissociáveis ao orfismo, o qual é mencionado literalmente em vários trechos da obra platônica, embora de forma ambivalente: ora tomando alguns órficos como charlatães que vendem superstição ora como exemplos de conduta ascética para purificação da alma.

Platão e Parmênides

É inegável a influência de Parmênides em toda filosofia que se tentou fazer depois dele. Seu paradoxo que nega a existência do devir em virtude de sua transitoriedade foi mote de discussão por muitos filósofos. Parmênides preconiza que o único conhecimento possível se dá através do SER, pois nada podemos extrair do Não-Ser: transitório, mutável e inseguro para nos dar informações sobre uma suposta verdade acima das aparências. A realidade está então onde possamos vislumbrar o SER: eterno, imóvel, homogêneo e íntegro. E a Verdade, por conseguinte, só se encontra nesse “reino” da imutabilidade. Andreas Graeser nos fala sobre isso:

“Trata-se da questão de quais as condições preenchidas por algo que existe e que condições presumem o conhecimento da realidade. ‘SER’ é, segundo essa concepção, ser um e contínuo, praticamente não-surgido, permanente, homogêneo como um todo, imóvel, sem passado nem futuro (D.K.28 B8, 2-49). Só formações desse tipo ‘são’, no sentido pleno; e só formações desse tipo admitem conhecimento.” (GRAESER 2002, p. 95)
No entanto a questão da alteridade fica mal resolvida em Parmênides. Segundo Molinaro:

[Parmênides] não empreendeu o exame do modo pelo qual o outro é ser sem cessar de ser o outro ou, inversamente, o modo pelo qual o ser é também o outro sem cessar de ser.” (MOLINARO 2004, p. 26)
Esse pensamento seduz Platão e o faz ir além de Parmênides, conciliando as visões aparentemente opostas entre o eleata e Heráclito; cuja única realidade era justamente o devir constante das coisas, que por sua movimentação incessante nos dava uma noção de permanência. Contudo, Platão concorda com Parmênides em seus principais postulados, estabelecendo que algo só pudesse ser verdade se for manifestação do que é verdadeiro. E o que é verdadeiro, necessariamente, precisa ter as características da imobilidade e perenidade. Estaria criado assim a identidade entre SER e Verdade.

É para responder como chegar a essa Verdade que Platão então começa a traçar seu sistema. Ele parte do que chama “Segunda Navegação”, em que se cessam as tentativas de uma explicação naturalista da realidade (dada pelos pré-socráticos na “Primeira Navegação”) e parte-se para uma elaboração pessoal do filósofo que percebe que não se consegue explicar o sensível a partir do próprio sensível, sempre mutável e transitório, obrigando-o a considerar uma realidade supra-sensível que encerre a Verdade e uma possibilidade concreta de conhecimento. Para se atingir essa realidade só há um meio: a Razão. A experiência então é negada como método de conhecimento e o sensível é relegado ao Mundo da Aparência. Só o inteligível é capaz de captar esse mundo verdadeiro de causas ulteriores cujos fenômenos se originam: O Mundo das Formas, ou das Idéias.

Nos textos de sua fase intermediária (ver Figura 1), Platão ainda se vê atrelado consubstancialmente na questão parmenediana, elaborando uma crítica e “flexibilizando” seu pensamento somente na fase de sua maturidade, nos textos O Sofista e Parmênides.

É, portanto, com sua Teoria da Forma (ou Idéia), complementado com a Teoria da Alma (ou Reminiscência), que Platão então empreende seu grande sistema metafísico, oficializando essa forma de filosofar.

A Metafísica Platônica

A Gênese do Mundo Sensível

O Mundo Sensível, para Platão, tem sua causa no Mundo Inteligível, onde reside a Verdade. O Mundo Inteligível é composto pelo Um e pela Díade, respectivamente Princípio Formal e Princípio Material. O Um age sobre a Díade sem intermediários, por participarem ambos da inteligibilidade. As Díades formam e causam as Formas Puras, as Idéias, de caráter inteligível que moldará e dará causa à matéria informe e sensível que experimentamos na corporeidade.

Segundo Platão, quem faz o intermediário entre a Forma Pura e sua contraparte material no mundo sensível é o Demiurgo. É ele quem, do caos, faz surgir o cosmos sensível por um simples ato de Amor ao Bem.

Portanto, sendo o Mundo Sensível criado pelo Demiurgo a partir do Inteligível, tudo o que é bom o é por participar do Bem em Si, tudo o que é belo o é, por participar do Belo em Si e tudo o que é verdadeiro o é, por participar da Verdade em Si. E as Coisas em Si, as Formas pelas quais as coisas são, estão no Mundo Inteligível, que participa do Mundo Sensível dando-lhe realidade. Aquilo no Mundo Sensível que não tenha contraparte no Mundo Inteligível é falso e inexistente, isto é, aquela margem de irredutibilidade da matéria sensível, segundo Reale: “do irracional ao racional”.

O Mundo das Idéias

O Mundo das Formas Puras, ou das Idéias e o próprio conceito de idéia sofreu algumas modificações ao longo da obra de Platão. Em uma concepção mais socrática em que uma Idéia representasse o que há de comum em todas as coisas de uma determinada categoria, o Eidos acontece nas coisas e não se constitui um ente apartado: não subsiste de forma autônoma independente das coisas. Podemos ver isso nos diálogos de Platão até Menon, onde por influência notadamente socrática, a temática era ética e humanística. A concepção de que as coisas participam de um Eidos definido e independente, autônomo e transcendente que define e dá causalidade às coisas, tem sua forma delineada a partir de Fédon e na Politéia. Szaif nos diz sobre isso:

Conseqüentemente, os Eidos ou idéias devem formar uma realidade própria em relação aos objetos sensorialmente dados, até ontologicamente superior a eles, pois os objetos sensoriais eventualmente emprestam das idéias seu imperfeito ser-assim apenas por meio de ‘participação’ também interpretada como relação de reprodução (Abbildbeziehung) de figuras.” (SZAIF 2002, p. 184)
A Teoria das Formas em Platão tenta dar conta de problemas dos mais variados aspectos, a partir da concepção de um mundo supra-sensível que dá causa e existência ao sensível. As dimensões dessa teoria abarcam a questão do Conhecimento, da Psicologia, da Ética, da Política e da Estética.

Conhecimento: O conhecimento do mundo sensível é o conhecimento dado pela experiência e constitui segundo Platão, o campo da doxa. O conhecimento do mundo intelectivo só pode ser alcançado fora da experiência, pela razão, e se constitui o verdadeiro conhecimento, chamado episteme. Entre um e outro não pode haver comunicação, são separados por naturezas distintas. No sensível só se pode haver opiniões sobre o que os sentidos nos informam, no intelectivo reside o conhecimento de fato, verdadeiro, pois tem acesso ao Mundo das Formas, das Idéias.

Platão, para exemplificar o método a ser empreendido para a busca desse conhecimento verdadeiro e como ele se dá a partir do intelecto humano, elabora duas alegorias em seu livro A República: da Linha Dividida e da Caverna.

Ainda na questão epistemológica de Platão, o que denota possibilidade de acesso do intelecto ao conhecimento das Idéias no supra-sensível é sua Teoria das Reminiscências, onde a episteme se dá pela lembrança do que a Alma imortal viveu antes de se objetivar na corporeidade do mundo sensível. Segundo Mondin:
“Na economia geral do sistema de Platão, a doutrina da reminiscência exerce três funções muito importantes: fornece prova da preexistência, da espiritualidade e da imortalidade da alma; estabelece ponte entre a vida antecedente e a vida presente; dá valor ao conhecimento sensitivo, reconhecendo-lhe o mérito de despertar a recordação das Idéias.” (MONDIN 2007, p. 71)

Psicologia: Em sua origem, o homem em Platão é essencialmente Alma e vivia no Mundo das Idéias. O corpo é a forma acidental de o homem existir no mundo sensível. No homem convivem três Almas, as quais Platão exemplifica na alegoria da Carruagem, onde a alma racional é o cocheiro, a alma irascível é um cavalo bom e belo e a alma concupiscível é um cavalo mau e feio. Um dá trabalho e é rebelde, outro é obediente ao cocheiro.

Três argumentos fundamentam em Platão a concepção de alma que ele nos legou: sua origem hiperurânia que lhe confere lembrança e conhecimento das Idéias (reminiscência); sua prevalência, devido à sua origem sobre o corpo; e sua imortalidade por sua participação na Idéia da Vida.

Ética: A prática da virtude como orientação ética do homem em Platão é conseqüência lógica de sua visão metafísica e está em consonância não só com a óbvia influência socrática de seu pensamento, mas também atrelada de forma substancial com as dimensões órficas-pitagóricas de sua doutrina. O homem deve renunciar aos prazeres do corpo e às riquezas, buscando sempre a virtude maior que é o Bem através do conhecimento.

“É mais feliz o justo no meio dos sofrimentos do que o injusto num mar de delícias.” (PLATÃO, A República 1997)
A dimensão política da metafísica platônica está reunida na República e suas análises estéticas. Embora essa dimensão permeie boa parte de suas obras, encontram-se em Fedro e em O Sofista as análises que mais se aproximam de seu pensamento original e consolidado.

A Alegoria da Caverna

Destaco especialmente essa alegoria platônica por representar um dos temas mais centrais da filosofia de Platão. Ela consta de seu livro A República, Capítulo VII (514a-517d) e é chamada comumente de O Mito da Caverna. Particularmente eu não gosto desse termo, pois ele facilita uma generalização equivocada dos termos Mito e Mitologia. Entendo que seu uso tenha a ver como uma metáfora, uma alegoria. Mitos são narrativas de fundo histórico que preserva seu aspecto pedagógico de forma alegórica e metafórica. Não é o caso dessa alegoria e de tantas outras que Platão constrói para simbolizar sua metafísica, epistemologia, dialética, mística e ética. Segundo Reale(16)é o mito que expressa Platão em sua totalidade”. Concordo com essa frase substituindo o termo e a noção de mito por alegoria.

O poder simbólico da alegoria ultrapassa o próprio conteúdo do ensinamento. Quando Platão se utiliza da figura da Caverna para ambientar as condições de possibilidade da libertação pelo conhecimento, ele se utiliza de um símbolo de grande apelo na Grécia Antiga e que permeou toda a ocidentalidade. A Caverna nos remete não só a um lugar sombrio, mas ao próprio inferno.

À época de Platão o Hades grego já havia mudado sua topografia, a qual foi herdada pela cultura cristã. Na Grécia Arcaica a morte era apenas um esquecimento, mesmo que a Alma (Eidolon) continuasse vagando como uma imagem pálida do falecido. A tradição homérica era carente de uma concepção unitária da personalidade humana, dividindo-a em thymós, phrén e nóos, que significam respectivamente afetividade, discernimento moral e inteligência. O que animaria essa natureza tripla humana é a Psiqué, que segundo Brandão significa “sopro vital”. Brandão nos diz:

“(…) morrendo com o corpo, que lhe sobra para a outra vida? Apenas a psykhé , uma sombra pálida e inconsciente, um eídolon trôpego e abúlico. Ignorando as noções de dever, de consciência, de mérito ou de falta, a outra vida ignora, ipso facto, prêmio ou punição para o homem. Aliás, como julgar, punir ou premiar um eídolon?” (BRANDÃO, Mitologia Grega 1986, Vol. I, p. 146)
Não tendo memória, culpa, recompensa ou castigo, o eidolon (que em vida se constituía a psique) vagava no Hades. Essa crença demonstra a eticidade grega arcaica ligada à vida e ao cotidiano, ao respeito à polis e à política, com a ajuda dos deuses e de Moíra (a deusa destino).

Nos séculos VI a V a.C., em franca oposição à religiosidade cívica homérica, surgem no seio da sociedade uma virada radical e uma preocupação premente com a morte a partir do advento do orfismo. Entrando na vida cotidiana dos cidadãos gregos, o orfismo vem trazer noções soteriológicas (salvacionistas) e escatológicas (de fim dos tempos), mudando a própria topografia do Hades e o destino das almas humanas. Brandão ilustra bem isso no seguinte texto:

“Se em Homero o Hades é um imenso abismo, onde, após a morte, todas as almas são lançadas, sem prêmio nem castigo e para todo o sempre (…) e se em Hesíodo (…) já existe uma mudança escatológica (…) no destino de almas privilegiadas, o Orfismo fixará normas topográficas definidas e reestruturará tudo quanto diz respeito ao destino último das almas.” (BRANDÃO, Mitologia Grega 2008, Vol. II, p. 162-163)
De um inferno que mais parecia um depósito de cascas vazias e sem consciência no eterno sono da morte, Hades passa a compor o Tártaro, o Érebo e os Campos Elíseos, que mais tarde seriam sincretizados pela cultura cristã em Inferno, Purgatório e Paraíso. Começa aí uma dimensão moral e ascética para a alma vivente, que resiste à morte e precisa de salvação.

A influência do orfismo na filosofia platônica é atestada por diversos estudiosos e já mencionada nesse trabalho. Sua alegoria, colocando a imagem da caverna como local onde aqueles que vivem na ilusão do mundo se encontram, gera um apelo persuasivo efetivo predispondo seus leitores a ouvir sua narrativa dentro de valores estabelecidos socialmente.

Portanto, dentro das dimensões que essa alegoria possui, a ambientação e contextualização cumprem uma função importante dentro da argumentação platônica. A Caverna simboliza o mundo da aparência, da ilusão, das realidades percebidas apenas parcialmente onde, presos, tomamos como verdadeira as sombras.
Do lado de fora da caverna, sob a luz bruxuleante de uma fogueira, homens carregam objetos por cima do muro que encobre a entrada. Esses homens, dentro da alegoria, são os manipuladores que produzem ilusões e trabalham para seus próprios confortos.

Outra dimensão dessa alegoria traz e examina como se daria a libertação desses prisioneiros da ilusão e vítimas dos manipuladores. Danilo Marcondes levanta um questionamento interessante nesse aspecto na medida em que Platão mesmo caracteriza esse processo como doloroso e difícil:

“Há uma aparente contradição entre libertar-se e ser forçado a levantar-se, como se o prisioneiro estivesse sendo forçado a libertar-se, sentindo-se em seguida ofuscado e perturbado”. (MARCONDES, 2006, p. 66)

No texto de A República, Sócrates apenas solicita que Glauco imagine a condição em que um desses homens fosse libertado, mas não diz exatamente como essa libertação se daria. Marcondes encontra essa explicação em Fedro e na Teoria da Reminiscência de Platão e diz que, na verdade, a libertação se dá pelo conflito interno que todo homem enfrenta entre, de um lado, o conforto e a acomodação dos costumes e tradições e, de outro, o impulso da curiosidade e do conhecimento, simbolizado por Eros.

É nesse conflito, dialético, que o homem encontrará sua libertação das correntes que lhe segura dentro da caverna, de seu inferno pessoal. Esse caminho é tortuoso, penoso, mas compensador. Por ele e por adaptações constantes, o homem liberto conseguirá contemplar o Sol: símbolo máximo da realidade e grau máximo da plenitude, como causa primeira de tudo.

Giovane Reale  analisa essa alegoria destacando quatro significados para ela:

1 – Simboliza os graus em que ontologicamente se divide a realidade e, principalmente, o mundo sensível (da aparência) do mundo inteligível (da Idéia);
2 – Simboliza os graus em que epistemologicamente o homem tem acesso à realidade: eikasia (imaginação, ilusão), pístis (crença) e a dialética como processo que leva à episteme;
3 – Simboliza as dimensões da vida humana no sentido ascético ou de purificação mística, onde a libertação dos sentidos nos levaria à pura presença do Espírito, Sol;
4 – Simboliza a dimensão política da libertação, a partir da volta do filósofo-legislador trazendo a possibilidade de libertação para aqueles que ficaram. Este deverá, contudo, enfrentar a incompreensão daqueles que ficaram e, sobretudo, o fardo de se readaptar a um mundo com falta de luz, mas cuja volta, paradoxalmente, daria sentido à sua própria existência.

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