O Eu e a Regulação Interna

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O nosso “eu”- Maria, José, Lúcia, Antônio – pode ser entendido como uma associação composta de diversos “eus” interdependentes que se comunicam continuamente: o eu auto-eficácia, o eu auto-estima, ou o eu pai, filho, namorado, aluno etc. Existindo, como existe um grupo de várias pessoas, o “eu” global – se é que existe isso – trabalha com todas as partes bem coordenadas de cada um dos “eus” ao mesmo tempo.

Mas nem tudo são flores; com frequência, essa harmonia entre os vários “eus” é quebrada, isto é, falha. Não é raro observarmos alguns “eus” menores e semipartidos agirem isoladamente ou, também, terem ações uns contra os outros, como tem sido descrito, de maneira dramática, nos Transtornos de Dupla ou Tripla Personalidade.

O eu é a maior estrutura do sistema cognitivo; é ele que circunda e relaciona todas as informações relevantes derivadas da vida da pessoa. O indivíduo pode ser examinado, por exemplo, como tendo uma alta ou baixa auto-estima somente quando seus pensamentos e sentimentos acerca dele mesmo estejam organizados de uma maneira que indica uma avaliação relativamente coerente desse aspecto.

Do mesmo modo que um grupo de amigos, ou colegas, não pode ser reduzido aos componentes individuais, não caracterizando as relações funcionais entre eles, assim também o eu total não pode ser reduzido a um e outro eu isolados; neste caso, não poderíamos chamá-los de grupo ou de eu. Por definição sabemos que o grupo dos atleticanos tem em comum torcer pelo Atlético. Assim também a mente não pode ser reduzida a mecanismos separados, sem levar em conta a influência de uma parte sobre a outra, tendo tanto as ações como os pensamentos coordenados.

Assim como ocorre com cada indivíduo que faz parte do grupo dos atleticanos, no caso de Pedro ou de Maria – uma pessoa particular – algumas funções cognitivas isoladas e diferentes, produzidas por estruturas específicas diversas, funcionam em paralelo umas com as outras, interagindo entre elas, visando a produzir estruturas e funções de ordem mais elevada, com novas propriedades, isto é, diferentes das existentes em cada uma das funções isoladas. Exemplificando: sabemos que existem atleticanos altos e baixos, gordos e magros, pobres e ricos, mas todos são chamados de atleticanos por interagirem, num certo momento, formando um grupo que torce pelo Atlético. De outro modo: indivíduos, isolados, reúnem-se, num certo momento, para exibir o que têm de comum: torcer e morrer pelo Atlético. Assim, a influência mútua entre os indivíduos gordos e magros, velhos e novos, como no caso dos atleticanos, conduz a emergência de fenômenos de nível social tais como certas formas de comentar, comportar-se, agir em certos dias, ou seja, certas “normas” de opinião pública, valores e condutas.

Podemos pensar que, tanto as estruturas mentais do indivíduo particular, com as dos grupos, estão aprisionadas em modelos de relação ou ligação, padrões esses que sugerem certas funções complexas – vestir a camisa preta e branca, gritar “galo”, soltar foguetes, conforme o ocorrido etc. que resultam das interações entre os componentes do grupo, uns atuando nos outros, e determinadas idéias gerais que emergem do grupo atuam sobre todos os componentes. O grupo pode ser caracterizado como uma coleção de indivíduos interconectados por ligações; cada um irá influenciar e é influenciado pelos outros com os quais ele mantém esse tipo, apenas esse, de relação. Do mesmo modo, o eu geral de cada um de nós é influenciado pelos diversos “eus” separados e influencia os outros.

A mente (espírito, alma, eu ou consciência) revela ou reflete o mundo circundante particular de cada homem; mas também mostra sua própria operação interna, ou seja, a maneira particular de organizar os conteúdos acerca do seu mundo. A natureza reflexiva – o exame de si mesmo – da mente – fornece a base para a apreensão e conhecimento do eu. A representação do eu que resulta desse espelho, reflexo de milhões de pensamentos e sentimentos experimentados pelo eu, formam uma estrutura altamente complexa, difícil de ser entendida.

Para a construção de uma imagem de si mesmo como bom jogador de futebol, o jovem craque necessita integrar um amplo conjunto de fatos e avaliações pertinentes já vividas e experimentadas: o sucesso naquilo que está sendo avaliado. Isso vale para qualquer área. Certos pensamentos específicos acerca do eu, por exemplo, acerca de suas habilidades futebolísticas, podem estimular ou ativar outros pensamentos relacionados armazenados em sua mente (memória autobiográfica), os quais, uma vez recuperados, expostos à consciência, tornam-se aptos para serem reorganizados em grupos de novas ou de antigas ordens, que podem ser cada vez mais elevadas; o novo conjunto formado pode produzir outros conceitos ou auto-avaliações.

Para entender melhor, vou exemplificar: um pensamento acerca de um encontro social poderá trazer à mente outros encontros sociais já ocorridos e ligados a este. Durante o encontro, podem emergir, tornando-se conscientes, avaliações globais acerca de nossa habilidade social e, também, fornecendo padrões e prescrições com respeito de como devemos nos comportar no futuro. Não devemos nos esquecer, é claro, que a mente pode ser um “terreno desordenado para fantasias”; este estilo, cada vez mais, parece estar aumentando por culpa do hemisfério esquerdo, que é adepto das ficções e não da realidade, como acontece com o hemisfério direito, que é mais observador.

O eu fornece também a integração para as várias estruturas psicológicas. Os auto-esquemas existentes em cada eu singular irão influenciar as condutas do indivíduo, bem como organizar os julgamentos acerca delas. Mas sempre a organização é uma propriedade que emerge – como no caso dos torcedores – derivada das interações existentes entre os elementos. Nesse processo, cada elemento particular adota um estado que conduz a um alinhamento com o estado dos outros elementos importantes. Um bom exemplo é a observação das bolhas de ar que aparecem quando a água começa a ferver. Até um certo ponto, elas estão desordenadas, sozinhas, desligadas. Ao começar a fervura, há um certo movimento em uma direção; a partir daí, quase todas elas se movimentam de um só modo.

Nós, com frequência, agimos como a bolhas de ar da água fervente. Do mesmo modo que na panela nem todas as bolhas seguem a maioria, no eu, também, alguns poucos elementos do eu podem discordar dos outros, sendo incompatíveis e mesmo inimigos que não suportam aparecer na mesma consciência ao mesmo tempo; como certas pessoas que não podem ficar perto uma da outra numa reunião.

É muito difícil ou impossível manter uma amizade e, ao mesmo tempo, competir com nosso amigo, mesmo sendo nosso cônjuge. Também, é impossível ser “educado” e, ao mesmo tempo, espontâneo, pois este último conceito indica não seguir as regras. Alguns “eus” isolados podem ainda estar em conflito por outras causas; se um eu meu é inimigo de Pedro, fica difícil para um outro eu meu ser amigo de André – uma terceira pessoa – que é amigo de Pedro, isto é, do meu inimigo. Esse fato é visto com frequência durante as separações; fica problemático e difícil para o filho gostar do pai que a mãe fala mal e detesta, isto é, gostar do inimigo da mãe/amiga.

É comum observar um elemento do sistema do eu – um eu isolado- interagir somente com um número limitado de elementos da vizinhança. Assim, não só é impossível como desnecessário cada elemento interagir com cada outro; nossa competência para falar em público não precisa ser considerada com respeito a nossa efetividade em torcer pelo atlético ou nossa habilidade para descascar abacaxis ou fazer uma salada de alface.

Mas agir de um certo modo, realizando um dado papel, significa comportar-se de maneira tal que esta esteja coerente com o exigido em outros papéis. Vamos ao exemplo: para ser torcedor do Atlético o meu eu terá que gostar também de futebol, provavelmente de esportes de maneira geral, assistir jogos nas TVs, ler páginas de esporte nos jornais etc. Cada uma dessas ações encontra-se interligada e em harmonia com o meu papel de torcedor do Atlético, que na verdade não sou, pois sou mais cruzeirense. Portanto, qualquer ação está sujeita à confirmação – ou não-confirmação – de outras influências.

Se um elemento – conduta ou pensamento – está bem integrado aos outros elementos, ele receberá mais influência e apoio desses elementos e, nesses casos, ocorre mais segurança interna; fica mais fácil resistir aos desafios que ocorrem pelas informações vindas de fora que não estão de acordo com a conduta. Aqui retorno a pensar no grupo dos atleticanos; qualquer ação de um membro do grupo está sujeita à crítica ou apoio dos outros elementos. Se a ação é bem integrada às normas do grupo, o torcedor ficará mais seguro e poderá enfrentar melhor o desafio provocado pelas torcidas inimigas, como a cruzeirense. Um indivíduo isolado fica mais vulnerável às influências e pressões externas, enquanto que o mesmo indivíduo fazendo parte de uma rede social de apoio tende a resistir mais, mesmo no caso de intensas pressões sociais.

Os estudos com o eu e com os grupos mostram que, comumente, surgem padrões de comportamentos que só emergem nos grupos, nunca no indivíduo isolado. Um bom exemplo disso são as quebradeiras, incêndios em ônibus, roubos grupais, depredações, pichações, vandalismos, certos tipos de sexo etc. Assim como existem ações de grupos destruidoras, existem ações benéficas; os grupos podem ser formados para realizarem condutas pró-sociais diante de catástrofes; nessas ocasiões são comuns o aparecimento de ações cooperativas entre indivíduos. Tanto num caso como em outro, os indivíduos envolvidos são afetados pela conduta anti-social ou pró-social que poderá trazer mudanças transitórias ou duradouras para sua vida futura.

Para finalizar essas idéias, deve ser lembrado que cada elemento do eu pode ser caracterizado com respeito a sua atual avaliação: uns são positivos, outros negativos; ou com respeito a sua posição: uns são mais centrais, agindo com maior peso, maior papel e influência, outros, mais periféricos, com menor potência. Assim, se é central ou importante para Pedro chamar a atenção das pessoas, ele irá procurar agir de modo a fazer brincadeiras, elogios, brigar, chorar etc., em resumo, tudo aquilo capaz de provocar atenções.

Um sistema autopoiético (que vive para organizar a si mesmo, caso do homem) deve possuir individualidade (ser único, singular). Essa identidade resulta de sua diferenciação genética inicial e, mais tarde, de sua ativa e continuada relação com situações de “não-eus” – o meio ambiente, incluindo outros indivíduos diferentes. A identidade é construída e conservada ativamente diante das perturbações encontradas no meio ambiente. Assim nasce o “eu”, que é, ao mesmo tempo, o conhecedor e o conhecido.

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