Memória, Aprendizagem e Pensamento

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Aprendizagem e memória são conceitos fundamentais para a noção da individualidade. Nossa maneira peculiar de pensar, sentir e agir depende do que aprendemos e armazenamos em nossa memória durante nossa vida. Ora, como cada indivíduo vive experiências diferentes e particulares, tendo também uma idade, profissão, irmãos, colegas, professores e muitas outras coisas mais desiguais, as pessoas terão, forçosamente, memórias e histórias para contar diversas, bem como mentes singulares para assimilar novos conhecimentos.

Aprendemos pelas experiências e o número delas é literalmente infinito. A aprendizagem é um processo pelo qual nós adquirimos novos conhecimentos; memória é o processo pelo qual nós retemos este conhecimento obtido. Assim, podemos dizer que o aprendizado pode ser definido como a aquisição de memória; cada um de nós adquire memórias diferentes.

Nosso cérebro, automática e continuamente, filtra estímulos do meio interno e externo; não deixa passar a maioria deles por não ter importância para nós naquele instante, deixando entrar apenas os relevantes. Os estímulos que passam pelo filtro existente na parte mais primitiva do cérebro atingem, em seguida, as áreas mais modernas, dando origem à formação da segunda fase da cadeia cognitiva: a organização dos estímulos que passaram pelo filtro inicial e mais primitivo. De outro modo, alguns estímulos tiveram acesso livre através do portão selecionador do sistema talâmico, foram aceitos devido à suposta importância de seu conhecimento para o organismo.

A cognição (pensamento) é definida como o processamento de novas informações – as que atravessaram a barreira do filtro do tálamo – através de antigos conhecimentos básicos já existentes que foram armazenados através da experiência do indivíduo. Tem sido verificado que o cérebro economiza esforço através do uso de experiências anteriores, preservando, de forma condensada, idéias (modelos, esquemas, padrões) de situações já vivenciadas antes, tudo isso facilita a compreensão das informações que aparecem. Através desses resumos esquemáticos de conhecimentos anteriores, as novas informações recebidas são organizadas e processadas. O modelo representa, portanto, padrões de pensamentos adquiridos durante o desenvolvimento do indivíduo.

Os que adquiriram erros lógicos do pensamento durante o período de desenvolvimento, trabalharão no futuro com “redes” ou “esquemas” defeituosos para avaliar as informações futuras e, consequentemente, estarão predispostos a experimentar mais problemas futuros.

Os termos, inferências arbitrárias, abstrações seletivas, supergeneralizações e minimizações têm sido usados para descrever as distorções existentes ou erros cognitivos básicos, de outro modo, classificar o “pau nascido torto” e suas consequências para o aprendizado futuro que leva a pessoa a cometer erros sistemáticos ao avaliar novas informações, pois há um “defeito” no seu assimilador mental. Essas cognições (raciocínios, pensamentos) são automáticas, involuntárias e altamente plausíveis para o seu possuidor. Os esquemas podem representar a base da memória de trabalho da pessoa, isto é, a memória utilizada pelo indivíduo no momento de sua conversa, leitura para compreender o escutado, lido ou pensado. Uma vez compreendida a informação, pode ocorrer a resposta final do processo da pessoa diante de uma informação: a execução motora da ação.

Duas Memórias: Procedimento e Declarativa

As memórias podem ser divididas em duas grandes classes quanto à origem do conhecimento memorizado:

  1. Uma memória, fruto dos acontecimentos que se sucederam na vida particular do indivíduo; esta é uma memória instável, confusa, desorganizada, mistura de ruídos falsos e verdadeiros;
  2. Uma outra memória nascida dos genes; esta é inata, estável, abastecida pelos acontecimentos organizadores de um passado anterior ao indivíduo, bem protegida contra o “ruído” e a informação circulante.

As duas memórias trabalham juntas: a dos genes possibilita a aquisição das memórias ocorridas após o nascimento. Deve ser lembrado que cada espécie apresenta potencialidades diferentes para aprender conforme as facilidades e limitações fornecidas pelos genes do indivíduo. Por outro lado, dentro da mesma espécie, alguns indivíduos possuem cérebros que são melhores arrumados, capazes de adaptarem-se melhor às estimulações do meio ambiente desde a infância; podendo aprender mais, podem se tornar mais “inteligentes”.

A memória disponível para cada pessoa numa certa idade estabelece a individualidade de cada um. Somos quem somos porque nos lembramos, não só de quem somos, mas, também, como nós fomos e onde queremos chegar.

Memórias, procedimento e declarativa

Inicialmente, deve ser lembrado que nenhuma das memórias estudadas localiza-se num só lugar; todas envolvem circuitos complexos. A memória tem sido dividida em vários tipos e, frequentemente, autores diferentes, dão nomes diversos para o mesmo tipo de memória.

Dois tipos de memórias têm sido descritos: a memória de procedimento (também chamada de processo, não-consciente, implícita, de atividades), e a memória declarativa (recebendo ainda os nomes de episódica, consciente, de eventos e explícita). Uma terceira memória descrita, a memória de trabalho, que não será descrita aqui, é considerada como um ramo ou subtipo da memória declarativa.

Os pesquisadores concordam que o uso dos dois sistemas de memórias é uma regra mais do que uma exceção; as duas se sobrepõem, são usadas conjuntamente; assim, ambas são recrutadas nas experiências de aprendizagem. Na verdade, uma repetição constante de uma ação pode transformar a memória declarativa (explícita) numa de procedimento ou implícita, como pode ser observado na experiência de aprender a dirigir um veículo. Nesse caso, há, inicialmente, um envolvimento de um processo consciente, depois, automático ou inconsciente – o motorista perito não fica pensando, ao dirigir, como ele aprendeu e cada detalhe do aprendizado.

Memória de Procedimento (Processo mental inconsciente)

A memória de procedimento relaciona-se a atividades que são memorizadas como ações: nadar, escrever, tocar um instrumento, digitar, andar de bicicleta etc. Esta memória é aprendida lentamente, armazenada através de atos repetitivos, após diversas tentativas, envolvendo a associações de estímulos sequenciais. Ela permite o armazenamento de informações acerca de relações entre acontecimentos, que são expressas, primariamente, pela melhoria dos processos de atuação – não pela familiaridade com certas tarefas – sem que o sujeito seja capaz de descrever exatamente o que e como foi aprendido. Envolve, portanto, sistema de memória que não tem acesso ao conteúdo do conhecimento geral do indivíduo. Por isso é chamada de memória de processos e não-consciente. Esta memória relaciona-se, anatomicamente, a ativação de sistemas sensoriais e motores comprometidos na tarefa da aprendizagem; adquirida e retida devido à plasticidade do sistema nervoso, que varia de indivíduo para indivíduo como um bom e mau jogador de futebol, vôlei, tênis etc.

A memória de procedimento (inconsciente) inclui vários processos e estes envolvem diversas áreas cerebrais:

  1. O reconhecimento do estímulo encontrado é uma função dos córtices sensoriais;
  2. A aquisição de várias pistas dos estados afetivos sentidos envolve a amígdala (uma região do cérebro);
  3. A formação de novos hábitos motores e, talvez, hábitos cognitivos, exige o neo-estriatum;
  4. A aprendizagem de ações motoras novas ou a coordenação de novas atividades irá depender do cerebelo. Desse modo, diferentes situações vividas e, consequentemente, certas experiências de aprendizagem, estimulam o cérebro, fazendo entrar em ação diferentes subconjuntos de áreas, que agem em combinação com os sistemas de memória explícita localizados, principalmente, no hipocampo.

Tem sido aceita por alguns teóricos a idéia de que o desenvolvimento da conduta moral também seria adquirida através de meios da memória de procedimento e inconsciente. Para seus defensores, a pessoa geralmente não se lembra de forma consciente de que modo e em quais circunstâncias ela assimilou as regras morais que governam suas avaliações e a conduta moral ou ética. Sabe-se que essas foram adquiridas quase automaticamente, como as regras da gramática que usamos sem pensar e que governam cada linguagem nativa.

Memória Declarativa (O Processo Mental Consciente)

A memória declarativa tem sido também chamada de memória consciente, semântica, episódica, de evento, de conhecimento, de lugares etc. Ela, que envolve associações de estímulos simultâneos, permite o armazenamento de informações acerca de um acontecimento simples que ocorre num tempo e lugar particular, podendo ser aprendida e usada após uma única tentativa. De posse dessa memória, possuímos um sentido de familiaridade com o fato, pessoa, lugar, daí o nome de memória episódica, relacionada ao episódio.

Existem dois tipos de memórias declarativas: uma de curta duração (de 3 a 4 horas), outra de longa duração (acima de 6 horas, podendo durar dias, meses e anos). A primeira encarrega-se dos processos declarativos enquanto pode-se formar ou não uma outra memória, a de longa duração. Esta última, ao contrário da de curta duração, requer uma cascata bioquímica complexa no hipocampo, que geralmente leva horas para se instalar e poder, posteriormente, ser recuperada ou resgatada.

A memória declarativa é adquirida através de circuitos que ligam diversas regiões do córtex, principalmente os circuitos envolvidos com a memória de trabalho e com o hipocampo. Assim é que lesões de certa gravidade na região do lobo temporal não impedem o aprendizado da memória de procedimento, apesar de dificultar ou impedir o da memória declarativa, (episódica). De outro modo, essa região do lobo temporal, principalmente o hipocampo, é responsável apenas pelo tipo de memória declarativa e não a de procedimentos.

 

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