G. K. Chesterton, o incomparável

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Biografia

Filho de Edward Chesterton e de Marie Louise Grosjean, G. K. Chesterton era o segundo de três irmãos. Casou-se com Frances Blogg. Concluiu os estudos secundários no colégio de São Paulo Hammersmith onde recebeu prêmio literário por um poema sobre São Francisco Xavier. Ingressa na escola de arte Slade School de Londres (1893) onde inicia a carreira de pintura que vai depois abandonar para se dedicar ao jornalismo e à literatura. Escreveu no Daily News. Nascido de família anglicana, mais tarde converteu-se ao catolicismo em 1922 por influência do escritor católico Hilaire Belloc, com quem desde 1900 manteve uma amizade muito próxima.

Criou, juntamente com seu amigo Hilaire Belloc, uma teoria econômica baseada nos princípios evangélicos e nos ensinamentos Papais, especialmente na encíclica do Papa Leão XIII, Rerum Novarum. O Distributismo propõe o direito à propriedade privada. No dia 17 de setembro de 1926, Chesterton e Belloc criaram a Liga Distributista. Essa liga tinha como objetivo “restaurar a propriedade”, segundo pronunciou Chesterton no discurso inaugural. Chesterton foi eleito o primeiro presidente da Liga. Ele escreveu uma série de artigos no G.K.’s Weekly, os quais foram compilados no livro The Outline of Sanity (1926).

Gustavo Corção assim se referiu à teoria distributivista:

“A ideia central é a da defesa da pequena propriedade e da pequena empresa contra o gigantismo, que já no seu tempo ameaçava a sociedade, e que no nosso tornou-se uma calamidade declarada. Afirmava o direito à posse, não como uma concessão, mas ousadamente, como outorgado por Deus; admitia o capital enquanto indispensável reserva, mas não admitia, de modo algum, o capitalismo, porque a principal característica desse regime a seu ver está na raridade e não na abundância do capital. O capitalismo é uma situação em que quase ninguém possui”.

Ao falecer deixou todos os seus bens para a Igreja Católica. Encontra-se sepultado no Cemitério Católico Romano, Beaconsfield, Buckinghamshire na Inglaterra. A sua obra foi reunida em quase quarenta volumes contendo os mais variados temas sob os mais variados gêneros. O Papa Pio XI foi grande admirador de Chesterton a quem conhecera pessoalmente.

Na sua introdução a “São Tomás de Aquino” deixou escrito:

“Assim como se pode considerar São Francisco o protótipo dos aspectos romanescos e emotivos da vida, assim Santo Tomás é o protótipo do seu aspecto racional, razão por que, em muitos aspectos, estes dois santos se completam. Um dos paradoxos da história é que cada geração é convertida pelo santo que se encontra mais em contradição com ela. E, assim como São Francisco se dirigia ao século XIX prosaico, assim São Tomás tem mensagem especial que dirigir à nossa geração um tanto inclinada a descrer do valor da razão.”

Em uma de suas principais obras, Ortodoxia, defende os valores cristãos contra os chamados valores modernos, a saber, o cientificismo reducionista e determinista. Dono de uma retórica exemplar, coloca em debate crítico ideias como as de Mark Twain e Nietzsche.

Famosíssimo jornalista, novelista, poeta e crítico literário (1874-1935) é uma figura única e genial na literatura inglesa e um dos autores modernos mais freqüentemente citados. Sua perspicácia crítica era muito aguda, seu campo de ação universal, seu vigor invencível. Seu jornalismo exerceu uma atração magnética muito mais poderosa do que se poderia esperar de qualquer colunista ou apresentador de televisão hoje em dia.

O Popular

O sábio filósofo tomista Etienne Gilson gostava de relatar esta saborosa anedota: Dois personagens históricos apaixonaram o genial escritor inglês Gilbert Keith Chesterton: São Francisco de Assis e Santo Tomás de Aquino.

O “poverello”, porque apelava à sua consciência social, e o santo dominicano porque para G.K. ambos compartilhavam em sua origem a mesma raiz normanda. Um dia decidiu escrever um livro sobre o Doutor “Angélico”. Para isso, o prolífico autor, recorreu à sua técnica usual quando se tratava de redigir artigos sobre os temas mais díspares: puxava de sua extraordinária memória os conhecimentos necessários, e o resto deixar por conta de sua viva inspiração. Foi assim que Chesterton ditou a metade da anunciada obra.

Quando alguns alarmados amigos o advertiram de que conscientes eruditos haviam consumido suas vidas através dos séculos estudando Santo Tomás de Aquino, Chesterton fez um parênteses em seu ímpeto criativo e pediu a sua secretária que buscasse alguns livros especializados.

– Que classe de livros?, Perguntou sua colaboradora.

Chesterton respondeu despreocupado:

– Os que você quiser.

Com a ajuda de um sacerdote conhecido, a responsável secretária dedicou-se à busca de tratados e estudos sobre o Aquinate. Ao apresentar a Chesterton o fruto de suas pesquisas, G.K. inclinou seu jovial rosto, coroado de uma leonina melena branca, para permitir que seus olhinhos míopes os percorram à toda pressa, defendendo-se em algumas páginas. Ao dar-se por satisfeito após breve exame, os deixou de lado e terminou com o ditado.

Mais tarde um dos exemplares de “Santo Tomás de Aquino” chegou às mãos do reputado tomista.

– “Chesterton é desesperante” exclamou Gilson. “Estudei Santo Tomás toda minha vida, e nunca poderia ter escrito um livro como o seu. Só um gênio é capaz desta façanha”.

“G.K” Chesterton – como ele gostava de assinar seus escritos – foi um dos mais extraordinários personagens que surgiram entre os católicos de fala inglesa neste século. E sem lugar á dúvidas, um dos menos convencionais. Polemista impetuoso e incansável, ensaísta, jornalista, poeta, dramaturgo, autor premiado e propagandista, passava de artigo humorístico, ao ensaio grave e erudito. De sua pluma saíram milhares de artigos e mais de noventa livros. Sua memória para reter os dados que lia tornou-se lendária. Um amigo relatava que podia absorver livros “como uma aspiradora”.

“Sou acima de tudo um jornalista” escreveu em sua autobiografia. A este “jornalista” devem-se outras obras de extraordinária prosa como “Ortodoxia”; “Heréticos”; “O homem sempiterno”; “Magia”; “O julgamento do doutor Johnson”; “A pequena história da Inglaterra”; “O homem que era quinta-feira”; a série de aventuras e de mistérios na qual o principal protagonista é um sacerdote católico, o padre Brown; “O Napoleão de Nottin-hill” que se adianta às denúncias de Aldous huxley e George Orwell sobre uma sociedade dominada por um “superestado”. Talvez a definição do Papa Pio XI seja a que melhor o classifique; quando o chamou de “defensor da fé” o primeiro inglês a receber tal título desde os escuros dias da reforma.

Chesterton não podia viver sem um constante fluir de idéias em sua cabeça. Inconformado e crítico de tudo o que via de negativo, seus escritos tentavam dar alternativas e soluções. O caso de sua inspiração para escrever “O Napoleão de Nottin-hill” é característico. Um dia estava passeando pelas ruas de um distinto bairro londrino, relatando-se mentalmente historietas de assaltos e assédios feudais, à maneira de Walter Scott, e tratar de aplicá-los vagamente ao “deserto de ladrilhos e concreto” que o rodeavam. Sua Londres natal havia se transformado em uma urbe despersonalizada, cheia de gente anônima.

Frente a seus olhos levantava-se um centro comercial vivamente iluminado que quebrava a monotonia. Uma pequena ilha que seguramente o imaginário inimigo devia conquistar. Alguns jogos de água próximos deveriam ser o alvo do ataque. “Ocorreu-me de repente -lembrará Chesterton mais tarde- que a captura desses jogos de água puderam significar, na verdade, e golpe militar de inundar o vale, e , com aquelas torrentes e cataratas de águas imaginárias, invadiu minha mente a primeira idéia de um conto chamado “O Napoleão de Nottin-hill”.

Seus relatos expressam seus ideais, suas posturas políticas. “Nunca levei à sério meus livros; mas levo muito à sério minha opiniões”, sentenciou em uma oportunidade.

G.K. Chesterton foi desde muito jovem um homem público. Sua pluma impetuosa, seu gosto pela polêmica e sua incomparável figura -pesava cento e vinte quilos e media 1.83 metros de altura- o transformaram em um dos personagens mais popular da Inglaterra.

Um testemunha presencial de seus debates com George Bernard Shaw, amigo íntimo mas com quem não concordava em nada, o descreve vivamente: “era um senhor gordo e de braço curto, abundante e franzido, que juntava as mãos sobre a barriga, retorcendo-as á medida em que ia se expressando, e que, entre lábios, borbulhava algo que se não chegava perceptivelmente aos demais, lhe produzia hilaridade de sobra ao emiti-lo para não poder sequer concluir as frases”.

“Chesterbelloc”

Incrivelmente distraído para as questões práticas, nunca consegui (nem lhe importava muito) vestir-se com correção. Andava sempre desalinhada. Sua esposa Frances Blogg optou por cobri-lo com uma capaz e um chapéu de aba larga que, junto com seu sable-bastón, seu cachecol sobre os ombros e seus óculos de moldura metálica, tornaram-se sua marca registrada.

Foi justamente em uma polêmica onde conheceu outro personagem católico que seria decisivo em sua vida: Hillaire Belloc. Este já era famoso orador em Oxford. Depois de escutá-lo polemizar, ambos se retiraram a um pequeno e escuro café no Soho onde começou a amizade. Mais tarde publicariam juntos um jornal semanal de denúncias chamado “Eye Watch”, o que para Chsterton revolucionou o jornalismo inglês.

Belloc e Chesterton formaram uma dupla de adailes em uma série de causas que iam desde a oposição sincera ás guerras dos ingleses contra os boers sul-africanos, uma diversidade de assuntos de tipo social e, quando este último se converteu ao catolicismo, a propagação da fé em um âmbito agnóstico e naturalista. Formaram um conjunto tão compacto na comunhão na das idéias, que o mordaz Shaw os batizou ironicamente “Chesterbelloc”.

“Nada convencional”

Este personagem tão pouco dado ao formal nasceu, no seio de uma família ultra convencional, em 29 de maio de 1874. Seus pais pertenciam à classe média “um pouco antiquada”, instalada em Kensing-ton onde seu pai dirigia um negócio de boas raízes.

O menino, vivia, aprendia rapidamente de memória as melhores páginas de literatura inglesa, tão extremamente que à idade de sete ou oito anos conhecia Shalkespeare sem entender bem o que significavam as palavras. Desde então, o costume de recitar ou contar de memória contos e relatos nos momentos mais inesperados.

Sua juventude está marcada por um percurso dos “ismos”, sem maior convicção e quase à deriva. Aproxima-se ao socialismo, ao radicalismo, ao liberalismo. Seu inconformismo foi proverbial, “odiando o que a maioria das pessoas gostam” por convencionalismos vazios. Muito jovem iniciou como jornalista no “Daily News”, carreira que lhe dará renome.

Descrente como a maioria dos jovens de sua geração, torna-se amigo do clérigo da “High Church” chamado Conrad Noel. “Havia – relata G.K. – certamente duas tendências no quel ele chamava emancipação da fé de credos e dogmas do passado”. Este personagem, poeta e aristocrata excêntrico, se considerava “socialista cristão” e participava de um grupo chamado “Chritian Social Union”, e apareceu quando Chesterton “não tinha religião”.

Noel desperta no jornalista uma preocupação com o religioso e social que nunca o abandonará. Desde aquela plataforma anglicana se dirige aos operários de Nottingham tratando do que considerava o dever cristão ao problema moderno da pobreza industrial.

É uma etapa de busca para Chesterton. Estas indagações o conduzem ao deísmo, às sociedades teosóficas e éticas. Chega à conclusão de que não existiam as religiões novas. Somente “Israel esparramado pelos montes como borregos que perderam seu pastor, e vi um bom número de borregos sair correndo, balindo, veementemente para qualquer vizinhança onde acreditavam encontrar um pastor”.

Caminho à Fé

O projeto religioso ia tomando forma em Chesterton. Começou a aprofundar na teologia cristã em geral, que muitos odiavam e poucos estudavam. Descobre que as teorias negativas e naturalista que estavam em moda naquela época, não encaixavam na experiência.

Publica nesta época “Heréticos”, que reunia alguns estudos sobre escritores contemporâneos seus como Kipling, Shaw e Wells explicando como cada um deles “pecava por erro último ou religioso”. As polêmicas se acirraram e Chesterton escreveu uma bem meditada explicação sobre a crença de que a doutrina cristã, resumida no credo dos Apóstolos “podia ser uma crítica melhor da vida que nenhum dos que eu havia criticado.

Chamou-se “Ortodoxia”. Na sociedade moderna, refletia G.K., ralo de heresias inconsistentes, a única heresia imperdoável era a ortodoxia. “Uma defesa séria da ortodoxia era muito mais surpreendente para o crítico inglês que um ataque sério contra a ortodoxia para um censor russo”.

O seguinte passo não foi surpreendente. Em 1922 G.K. Chesterton converteu-se ao catolicismo, associando seu nome a outros grandes conversos ingleses como Graham Greene e Christopher Dawson. Seu retorno ao seio da Igreja começou muitos anos antes, quando seu entusiasmo batalhador o levou a combater uma série de doutrinas que ele considerava repugnantes: o materialismo, a teosofia, os espíritas, o capitalismo plutocrata, o socialismo, o ceticismo e tudo aquilo manifestava a “desagregação espiritual e moral de nosso mundo”.

Como ensaísta e pensador compreendeu que as verdades universais e perduráveis que ele buscava se encontravam no catolicismo. Depois, G.K. confessará, um tanto divertido, como se deu as tresloucadas buscas em clubes anarquistas ou babilônicos o que poderia ter encontrado no catecismo ou na paróquia mais próxima.

“Entre o Cardeal Newman e o Pe Brown”

Em suas idas e vindas o engenheiro escritor havia conhecido dois personagens que o ajudariam em sua conversão. O primeiro, o grande Cardeal John Henry Newman, quem o antecedeu na conversão e mostrou-lhe, através de suas obras, Santo Tomás. O outro foi um padre de um bairro pobre, o Padre John O´Connor, pároco de Bradford. G.K. o conheceu em 1907 quando visitou o povoado de Keghly.

Ao concluir uma conferência, o escritor foi abordado por um jovem sacerdote, jovial e comunicativo. A formosa campina convidada a dar um passeio. Enquanto caminhavam Chesterton foi narrando seus projetos para escrever uma obra crítica sobre as injustiças sociais. Enquanto isso o sacerdote o escutava pacientemente.

Ao concluir, o Padre O´Connor desaprovou várias de suas idéias por considerá-las muito vagas. “Foi para mim -narraria G.K. mais tarde- uma curiosa aventura a de encontrar-me com que aquele padre amável e tranqüilo havia sondado abismos mais profundos dos que eu conhecia, e havia descoberto no mundo ignomínias que eu jamais poderia imaginar”.

Ao criar um personagem para sua série policial, onde tentava apresentar um sacerdote para quem cada caso significava, além de desmascarar o mal-feitor, um enfrentamento com a maldade e o engano representado pelo Maligno. G.K. pensou em O´Connor. Foi assim que nasceu este particular “Padre Brown”, o detetive sacerdote a quem Chesterton descrevia como “um homem inteligentíssimo e humilde. Tão simples que um tonto pode tomá-lo como um tonto”.

Quando lhe perguntavam por que tinha entrado para a Igreja Católica ele respondia: “Para desembaraçar-me de meus pecados. Pois não existe nenhum outro sistema religioso que faça, realmente desaparecer os pecados das pessoas”. O perdão fascinava a este coração generoso. “Que eu saiba somente tenho uma virtude”, explicou em certa oportunidade: “Eu poderia realmente perdoar até setenta vezes sete”.

Promotor social

No ano de 1909 um grupo de sacerdotes fundou na Inglaterra a “Catholic Social Guild” a fim de despertar entre os católicos um maior interesse pelas questões sociais, chamando-os a cooperar na promoção de reformas a partir dos princípios católicos. A CSG não tinha planos tem programas detalhados.

Cada católico deveria promover o conhecimento dos princípios gerais e então aplicá-los situações concretas. G.K. Chesterton e seu amigo Hillaire Belloc participaram ativamente do movimento promovendo uma idéia que chamaram “Distributismo”, a que se opunha ao Socialismo e ao capitalismo por igual, e pregava uma ampla distribuição da grande propriedade em favor da pequena, e a diminuição da concentração capitalista.

O ideal desta posição, promovida por Chesterton em seu próprio jornal chamado “G.K. Weekli”, era um convite ao retorno a uma vida artesanal mais simples, afastada da extrema industrialização, onde o homem viveria em maior harmonia com a natureza. No fundo tudo partia de uma preocupação de G.K. pela pessoa concreta, pelos pobres e desvalidos. Um crítico diria dele: “Chesterton compreendia seu próximo”.

A partida

Aquele 14 de junho de 1936 amanheceu triste e sombrio na casinha dos Chesterton em Beaconfield. G.K. havia partido para sempre. A Inglaterra perdeu uma de suas melhores plumas e com ela, algo de seu engenho e bom humor. Um dos melhores epílogos da vida de G.K. é uma frase de um latino-americano pouco formal como Chesterton, que teve a oportunidade de conhece-lo pessoalmente, o Padre Leonado Castellani: “Gritante proclamador da glória de Deus e da Santa Madre Igreja Romana, Chesterton abandona a glória terrena a seu contemporâneo e gêmeo espiritual Bernard Shaw, e prefere tranqüilamente servir com suas enormes faculdades à plebe de Cristo que não antes que o império ou a arte que pagam”.


K. Chesterton: Porquê me converti ao catolicismo

Embora eu seja católico há apenas alguns anos, sei que o problema “por quê sou católico” é muito diferente do problema “por quê me converti ao catolicismo”. Tantas coisas motivaram minha conversão e tantas outras continuam surgindo depois… Todas elas se colocam em evidência apenas quando a primeira nos dá o empurrão que conduz à conversão mesma.

Todas são também tão numerosas e tão diferentes umas das outras, que, no final das contas, o motivo originário e primordial pode chegar a parecer quase insignificante e secundário. A “confirmação” da fé, vale dizer, seu fortalecimento e afirmação, pode vir, tanto no sentido real como no sentido ritual, depois da conversão. O convertido não costuma recordar mais tarde de que modo aquelas razões se sucediam umas após as outras. Pois breve, muito breve, este sem número de motivos chega a se fundir em uma só e única razão.

Existe entre os homens uma curiosa espécie de agnósticos, ávidos esquadrinhadores da arte, que averiguam com sumo cuidado tudo o que em uma catedral é antigo e tudo o que nela é novo. Os católicos, ao contrário, outorgam mais importância ao fato de se a catedral foi construída para voltar a servir como o que é, quer dizer, como catedral.

Uma catedral! A ela se parece todo o edifício de minha fé; desta minha fé que é grande demais para uma descrição detalhada; e da que, com grande esforço, posso determinar as idades de suas diversas pedras.Apesar de tudo, estou seguro de que a primeira coisa que me atraiu ao catolicismo, era algo que, no fundo, deveria ter me afastado dele. Estou convencido de que vários católicos devem seus primeiros passos à Roma à amabilidade do defunto senhor Kensit.

O senhor Kensit, um pequeno livreiro da City, conhecido como protestante fanático, organizou em 1898 um bando que, sistematicamente, assaltava as igrejas ritualistas e perturbava seriamente os ofícios. O senhor Kensit morreu em 1902 por causa das feridas recebidas em um desses assaltos. Logo a opinião pública se voltou contra ele, classificando como “Kensitite Press” os piores panfletos anti-religiosos publicados na Inglaterra contra Roma, panfletos carentes de todo são juízo e de toda boa vontade.

Lembro especialmente agora estes dois casos: alguns autores sérios lançavam graves acusações contra o catolicismo, e, curiosamente, o que eles condenavam me pareceu algo precioso e desejável.

No primeiro caso —acredito que se tratava de Horton e Hocking— mencionavam com estremecido pavor, uma terrível blasfêmia sobre a Santíssima Virgem de um místico católico que escrevia: “Todas as criaturas devem tudo a Deus; ma a Ela, até mesmo Deus deve algum agradecimento”. Isto me sobressaltou como um som de trombeta e me disse quase em voz alta: “Que maravilhosamente dito!” Parecia com se o inimaginável fato da Encarnação pudesse com dificuldade encontrar expressão melhor e mais clara que a sugerida por aquele místico, sempre que soubesse entendê-la.

No segundo caso, alguém do jornal “Daily News” (então eu mesmo ainda era alguém do “Daily News”), como exemplo típico do “formulismo morto” dos ofícios católicos, citou o seguinte: um bispo francês havia se dirigido a alguns soldados e operários cujo cansaço físico lhes tornava dura assistência na Missa, dizendo-lhes que Deus se contentaria apenas com sua presença, e que lhes perdoaria sem dúvida seu cansaço e sua distração. Então eu disse outra vez a mim mesmo: “Que sensata é essa gente! Se alguém corresse dez léguas por mim, eu estaria muito agradecido, também, que dormisse em seguida em minha presença”.
Junto com estes dos exemplos, poderia citar ainda muitos outros procedentes daquela primeira época em que os incertos indícios de minha fé católica se nutriram quase com exclusividade publicações anti-católicas.

Tenho uma clara lembrança do que veio em seguida a estes indícios. É algo do qual me dou tanto mais conta quanto mais desejaria que não tivesse ocorrido. Comecei a marchar para o catolicismo muito antes de conhecer àquelas duas pessoas excelentíssimas a quem, a este respeito, devo e agradeço tanto: ao reverendo Padre John O’Connor de Bradford e ao senhor Hilaire Belloc; mas o fiz sob a influência de meu acostumado liberalismo político; o fiz até na toca do “Daily News”.

Este primeiro empurrão, depois de dever-se a Deus, deve-se à história e à atitude do povo irlandês, apesar de que não haja em mim uma só gota de sangue irlandês.

Estive apenas duas vezes na Irlanda e não tenho nem interesses ali nem sei grande coisa do país. Mas isso não me impediu de reconhecer que a união existente entre os diferentes partidos da Irlanda deve-se no fundo a uma realidade religiosa, e que é por esta realidade que todo meu interesse se concentrava nesse aspecto da política liberal.

Fui descobrindo cada vez com maior nitidez, conhecendo pela história e por minhas próprias experiências, como, durante longo tempo se perseguiu por motivos inexplicáveis a um povo cristão, e continua odiando-lhe. Reconheci então que não podia ser de outra maneira, porque esses cristãos eram profundos e incômodos como aqueles que Nero jogou aos leões.

Creio que estas minhas revelações pessoais evidenciam com claridade a razão de meu catolicismo, razão que logo foi se fortificando. Poderia acrescentar agora como continuei reconhecendo depois, que a todos os grandes impérios, uma vez que se afastavam de Roma, passava-lhes exatamente o mesmo que a todos aqueles seres que desprezavam as leis ou a natureza: tinham um leve êxito momentâneo, mas logo experimentavam a sensação de estar enlaçados por um nó, em uma situação da qual eles mesmos não podiam se libertar. Na Prússia há tão pouca perspectiva para o prussianismo, como em Manchester para o individualismo manchesteriano.

Todo mundo sabe que a um velho povoado agrário, arraigado na fé e nas tradições de seus antepassados, espera-lhe um futuro maior ou pelo menos mais simples e mais direto ou pelo menos mais simples e mais direto que aos povos que não têm por base a tradição e a fé. Se este conceito se aplicasse a uma autobiografia, seria muito mais fácil escrevê-la do que se fosse esquadrinhar suas diversas evoluções, mas o sistema seria egoísta. Eu prefiro escolher outro método para explicar breve, mas completamente o conteúdo essencial de minha convicção: não é por falta de material que atuo assim, mas pela dificuldade e escolher o mais apropriado entre todo esse material numeroso. Entretanto tratarei de insinuar um ou dois pontos que me causaram uma especial impressão.

Há no mundo milhares de modos de misticismo capazes de enlouquecer o homem. Mas há uma só maneira entre todas de colocar o homem em um estado normal. É certo que a humanidade jamais pôde viver um longo tempo sem misticismo. Até os primeiros sons agudos da voz gelada de Voltaire encontraram eco em Cagliostro.

Agora a superstição e a credulidade voltaram a expandir-se com tanta vertiginosa rapidez, que dentro de pouco o católico e o agnóstico se encontrarão lado a lado. Os católicos serão os únicos que, com razão, poderão chamar-se racionalistas. O próprio culto idolátrico pelo mistério começou com a decadência da Roma pagã apesar dos “intermezzos” de um Lucrécio ou de um Lucano.

Não é natural ser materialista e tampouco sê-lo dá uma impressão de naturalidade. Tampouco é natural contentar-se unicamente com a natureza. O homem, pelo contrário, é místico. Nascido como místico, morre também como místico, principalmente se em vida foi um agnóstico. Enquanto que todas as sociedades humanas consideram a inclinação ao misticismo como algo extraordinário, tenho eu que objetar, entretanto, que uma só sociedade entre elas, o catolicismo, leva em conta as coisas cotidianas. Todas as outras as deixam de lado e as menosprezam.

Um célebre autor publicou mais uma vez uma novela sobre a contraposição que existe entre o convento e a família (The Cloister and the hearth). Naquele tempo, há 50 anos, era realmente possível na Inglaterra imaginar uma contradição entre essas duas coisas. Hoje em dia, a assim chamada contradição, chega a ser quase um estreito parentesco. Aqueles que em outro tempo exigiam a gritos a anulação dos conventos, destroem hoje sem dissimulação a família. Este é um dos tantos fatos que testemunham a seguinte verdade: que na religião católica, os votos e as profissões mais altas e “menos razoáveis” —por assim dizer— são, entretanto, os que protegem as melhores coisas da vida diária.

Muitos sinais místicos sacudiram o mundo. Mas uma só revolução mística o conservou: o santo está ao lado do superior, é o melhor amigo do bom. Toda outra aparente revelação se desvia por fim a uma ou outra filosofia indigna da humanidade; a simplificações destrutoras; ao pessimismo, ao otimismo, ao fatalismo, à nada e outra vez ao nada; ao “nonsense”, à insensatez.

É certo que todas as religiões contêm algo bom. Mas o bom, a quinta essência do bom, a humildade, o amor e o fervoroso agradecimento “realmente existente” para com Deus, não se encontram entre elas. Por mais que as penetremos, por mais respeito que lhes demonstremos, com maior claridade ainda reconhecemos também isto: nos mais profundo delas há algo diferente do puramente bom; há às vezes dúvidas metafísicas sobre a matéria, às vezes havia nelas a voz forte da natureza; outras, e isto no melhor dos casos, existe um medo da Lei e do Senhor.

Se exageramos tudo isto, nasce nas religiões uma deformação que chega até o diabolismo. Só podem ser suportadas enquanto se mantiver razoáveis e medidas.

Enquanto estiverem tranqüilas, podem chegar a ser estimadas, como aconteceu com o protestantismo vitoriano. Pelo contrário, a mais alta exaltação pela Santíssima Virgem ou a mais estranha imitação de São Francisco de Assis, seguiriam sendo, em sua quinta-essência, uma coisa sadia e sólida. Ninguém negará por isso seu humanismo, nem desprezará a seu próximo. O que é bom, jamais poderá chegar a ser Bom DEMAIS. Esta é uma das características do catolicismo que me parece singular e ao mesmo tempo universal. Esta outra a segue:

Somente a Igreja Católica pode salvar o homem da destrutiva e humilhante escravidão de ser filho de seu tempo. Outro dia, Bernard Shaw expressou o nostálgico desejo de que todos os homens vivessem trezentos anos em civilizações mais felizes. Tal frase nos demonstra como os santarrões só desejavam —como eles mesmos dizem- reformas práticas e objetivas.

Agora bem: isto se diz com facilidade; mas estou absolutamente convencido do seguinte: se Bernard Shaw tivesse vivido durante os últimos trezentos anos, teria se convertido há muito tempo ao catolicismo. Teria compreendido que o mundo gira sempre com a mesma órbita e que pouco se pode confiar em seu assim chamado progresso. Teria visto também como a Igreja foi sacrificada por uma superstição bíblica, e a Bíblia por uma superstição darwinista. E um dos primeiros a combater estes feitos tivesse sido ele. Seja como for, Bernard Shaw desejava para cada um uma experiência de trezentos anos. E os católicos, muito ao contrário de todos os outros homens, têm uma experiência de dezenove séculos. Uma pessoa que se converte ao catolicismo, chega, pois, a ter de repente dois mil anos.

Isto significa, se o presenciamos ainda mais, que uma pessoa, ao se converter, cresce e se eleva ao pleno humanismo. Julga as coisas do modo como elas comovem a humanidade, e a todos os países e em todos os tempos; e não somente segundo as últimas notícias dos diários. Se um homem moderno diz que sua religião é o espiritualismo ou o socialismo, esse homem vive integramente no mundo mais moderno possível, quer dizer, no mundo dos partidos.

O socialismo é a reação contra o capitalismo, contra a insana acumulação de riquezas na própria nação. Sua política seria de todo diversa se fosse vivida em Esparta ou no Tibet. O espiritualismo não atrairia tampouco a atenção se não estivesse em contradição deslumbrante com o material estendido em todas as partes. Tampouco teria tanto poder se os valores sobrenaturais fossem mais reconhecidos.

Jamais a superstição tem revolucionado tanto o mundo como agora. Só depois que toda uma geração declarou dogmaticamente e de uma vez por todas, a IMPOSSIBILIDADE de que haja espíritos, a mesma geração deixou-se assustar por um pobre, pequeno espírito. Estas superstições são invenções de seu tempo —poderia se dizer em sua desculpa—. Já faz muito, entretanto, que a Igreja Católica tenha aprovado não ser ela uma invenção de seu tempo: é a obra de seu Criador, e continua sendo capaz de viver o mesmo em sua velhice como em sua primeira juventude: e seus inimigos, no mais profundo de suas almas, perderam já a esperança de vê-la morrer algum dia.

G. K. Chesterton

Pensamentos:

Objetivo

O objetivo de um ano novo não é que nós deveríamos ter um ano novo. É sim que nós deveríamos ter uma alma nova.

Cansado de tudo

Pobre daquele que está cansado de tudo, porque tudo e todos estão sempre certamente cansados dele.

Doutrinas espirituais

Doutrinas espirituais na verdade não limitam a mente como fazem as negações materialistas. Mesmo que eu creia em imortalidade eu posso não pensar sobre isso. Mas se eu descreio na imortalidade eu devo não pensar nisso.

Psicanálise é…

Psicanálise é confissão sem absolvição.

Conceder

Tradição significa conceder votos à mais obscura de todas as classes: nossos ancestrais. É a democracia dos mortos. A tradição recusa submeter-se a essa arrogante oligarquia que meramente ocorre estar andando por aí.

Porque

Bebei porque sois felizes, mas nunca porque sois desgraçados.

Amar o próximo

A Bíblia nos ensina a amar o próximo e também a amar nossos inimigos provavelmente porque eles em geral são as mesmas pessoas.

Forte desejo

A coragem é quase uma contradição em termos. Significa um forte desejo de viver, sob a forma de disposição para morrer.

Uma virtude

Amor significa amar o não amável, senão ele não é uma virtude, afinal.

Amar qualquer coisa

O modo para se amar qualquer coisa é perceber que ela pode ser perdida.

Geralmente brigam

As pessoas geralmente brigam porque não conseguem argumentar.

Desesperamos

Somente quando de tudo desesperamos é que a esperança começa a ser a verdadeira força.

Nunca

Nunca levei a sério os meus livros, mas levo muito a sério as minhas opiniões…

Popular

O jornalismo é popular, mas é popular principalmente como ficção. A vida é um mundo, e a vida vista nos jornais é outro.

Quando chover…

Quando chover no seu desfile, olhe para cima e não para baixo. Sem a chuva, não existiria o arco-íris.

Grandes coisas

Vê-se grandes coisas a partir do vale; e somente pequenas coisas a partir do cume.

Simplicidade no homem

Há mais simplicidade no homem que come caviar por impulso, do que naquele que come nozes por princípio.

A razão

A razão porque os fantasmas abandonaram os velhos castelos da Escócia é porque as pessoas deixaram de acreditar neles.

Coragem

A coragem significa um forte desejo de viver, sob a forma de disposição para morrer.

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