A Verdade e os Diferentes Modos de Explicar

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A conduta (a tomada de decisões) do homem é determinada pela maneira como ele capta (apreende, obtém), percebe, emociona-se, pensa e prevê os acontecimentos. Através do trabalho sensorial, perceptual, cognitivo, emocional e imaginário o ser humano tenta construir (representar) para si um mundo significativo (inteligível, compreensível) e emocionalmente sentido como agradável ou desagradável, para aproximar ou escapar dele. Para executar esse trabalho, o homem capta, classifica e ordena uma multidão de estímulos focalizados e importantes para ele no momento e, ao mesmo tempo, descarta as mensagens desnecessárias: fatos, objetos e pessoas. Em seguida avalia o compreendido através do bem-estar emocional produzido por sua crença, ou relaciona o concebido com outros conhecimentos existentes. Diante desse encontro o homem usa modelos para organizar o percebido ou conjeturado e, também, geralmente, sente emoções diante da composição do caos disposto de forma ordenada. O conhecimento é adquirido através do modelo (padrão, esquema) utilizado e das emoções sentidas.

Os acontecimentos estão constantemente ocorrendo em torno de nós e são ordenados conforme as diferentes concepções ou interpretações que, uma vez armazenadas em nossa memória, são usadas automática e implicitamente. Somos nós, conforme nosso próprio modelo mental, que organizamos, em nosso pensamento, certos acontecimentos e não outros. Enfatizamos alguns deles, valorizamos uns mais que os demais e criamos assim sentido para fatos antes soltos e desorganizados no meio ambiente e que, sem a participação de nossa mente única (diferente de todas as outras), encontravam-se sem significado.

Apesar de todo o esforço de nossa mente jamais iremos conseguir alcançar a verdade “verdadeira”, pois a verdade captada é criada de acordo com o momento que estamos vivendo, com o conhecimento captado e os modelos usados no instante, adequado ou inadequado àquela situação particular, isto é, ela varia de pessoa para pessoa e de momento para momento.

Com frequência, acreditamos estar de posse da verdade ao percebermos existir certa relação prática e funcional entre os nossos desejos e esperanças e os resultados aparentes de nossas ações. Ao estabelecermos apenas uma concepção da realidade caótica, eliminamos várias outras interpretações possíveis, e ficamos convencidos de ser a nossa análise a única aceitável ou correta. Vejamos alguns exemplos extremamente simples: um garoto residindo na zona rural criou um modelo de diversão a partir de uma bola, um cão e algumas brincadeiras existentes em sua cidade. Um dia ele veio passear em Belo Horizonte e visitou um parque de diversões. Provavelmente, ficou boquiaberto e confuso ao ver tanto brinquedo desconhecido. Ora, o “deslumbramento” acerca da “verdadeira diversão” será oposto caso o menino estivesse acostumado a visitar a Disneyworld. Um segundo exemplo: uma adolescente de 15 anos conquista o seu primeiro namorado, um imberbe de 16 anos. Fica encantada com suas declarações de amor e com sua técnica eficiente de abraçá-la e beijá-la. Posteriormente, conhece um rapaz treinado nessa arte com esmero. A mocinha passa a ter um novo modelo, uma nova “verdade” do que seria um “bom” ou “excitante” namorado e reformulará o seu julgamento inicial.

O amigo leitor poderá lembrar-se de vários exemplos pessoais: suas preferências culinárias antigas e as de hoje; suas escolhas passadas e as atuais quanto à música, passeios, política, literatura, programas de TV, futebol, etc. A sua concepção do mundo, com a idade, tornou-se diferente; seu “mapa mental”, ainda que vivendo num “território” muito semelhante ao antigo, não é mais o mesmo. Agora, possuindo novos modos de “enxergar” a realidade, pois faz uso de novas “lentes”, descobrirá novos valores. Você passa a perceber acontecimentos antes não notados, representa fatos ao seu redor de maneira diferente e visualiza o mundo de outro modo.

Chamo a atenção do leitor que as nossas primeiras “lentes” usadas para detectar as “verdades” da realidade não foram criadas por nós. Algumas, como as emoções sentidas, fazem parte de nosso organismo biológico (nascemos com elas), outras foram aprendidas através de nossos educadores: pais, professores, companheiros e outros. Esses modos de captar estímulos e “olhar o mundo” nos foram transmitidos, na maioria das vezes, de maneira simples, ingênua e até mesmo tola. Uma vez inculcadas essas “verdades”, elas nos darão uma representação do mundo semelhante à existente na mentes dos nossos educadores. As novas informações que nos chegam posteriormente, com frequência, vêm fortalecer as idéias primitivas, pois o comum é convivermos com pessoas que pensam de modo semelhante ao nosso, lermos livros previamente examinados e não censurados e assim por diante. Temos a tendência de gostar de ler ou de ouvir discursos ou pregações fáceis de serem assimiladas, ou seja, que estão de acordo com o aprendido e valorizado por nós.

Psicologicamente é mais fácil manter as verdades iniciais, pois assim não temos que repensar e jogar por terra crenças queridas e familiares, que davam coerência ou sentido ao mundo experimentado. A entrada de novos modos de pensar – de conhecer a realidade – nos perturba e nos faz perder a harmonia antes existente diante da derrubada de nossas “sólidas” crenças. Não é fácil trocar uma crença, como “Minha mãe sempre me amou”, por outra, tal como “Minha mãe, de fato, me odiava”. Essa mudança nos obrigaria a reformular nossa opinião, sentimento e conduta nos mais diversos aspectos, pois a nova crença cria modos diferentes de organizar nossos modelos mentais. Também, a troca da crença “Minha namorada só se encontra comigo” pela “Minha namorada anda me traindo com outro; talvez, outros”, também iria produzir sérias mudanças na maneira de pensar, sentir e viver.

Muitas vezes, apesar de todas as evidências dos fatos, contrárias ao modelo estabelecido, a pessoa continua a adotar a crença inicial. Quase sempre, só com algum sofrimento, até mesmo com algum sentimento de culpa, é que conseguimos mudar as “verdades” gerais ou princípios iniciais, principalmente quando as novas são totalmente diferentes das antigas. Por outro lado, não é difícil mudar a percepção de fatos sensoriais, como passar a gostar de espinafre ou de ovos após prová-los algumas vezes ou, ainda, passar a escovar os dentes, pois, caso contrário, será criticado pelo mau hálito.

O homem é um inventor de verdades, um conceitualizador de acontecimentos, um representador de uma realidade que ele nem sabe quanto de real ela tem. E como se dá essa invenção? Por capricho, raciocínio, emoção ou pressão dos fatos? Ainda não possuo essa verdade, mas gostaria muito de possuí-la.

 

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