A VIDA COMO FABRICAÇÃO DE SI MESMA

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Sob esta perspectiva, a vida humana, a existência do homem aparece consistindo formalmente, essencialmente num problema. Para os demais entes do universo existir não é problema — porque existência quer dizer efetividade, realização de uma essência; por exemplo, que “o ser touro” se verifique, aconteça. Ora, o touro, se existe, existe já sendo touro. Ao contrário, para o homem existir não é já, sem mais nem menos, existir como o homem que é, senão meramente possibilidade disso e esforço para consegui-lo. Quem dos senhores é, efetivamente, o que sente que teria que ser, que deveria ser, que anela ser? Diferentemente, pois, de todo o resto, o homem, ao existir, tem que fazer-se sua existência, tem que resolver o problema prático de realizar o programa em que, verdadeiramente, consiste. Daí nossa vida ser pura tarefa e inexorável ocupação. A vida de cada um de nós é alguma coisa que não nos é dada feita, presenteada, mas alguma coisa que é preciso fazer. A vida dá muito que fazer; mas, de resto, não é senão essa tarefa que dá a cada um, e uma tarefa, repito, não é uma coisa, senão algo ativo, num sentido que transcende todos os demais. Porque no caso dos demais seres se supõe que alguém ou alguma coisa que já é, atua; mas aqui se trata de que precisamente para ser é preciso atuar, que não se é senão essa atuação. O homem, queira ou não, tem que fazer-se a si mesmo, autofabricar-se. Esta última expressão não é de todo inoportuna . Ela sublinha que o homem, na própria raiz de sua essência, encontra-se, antes que em qualquer outra, na situação do técnico. Para o homem viver é, evidentemente e antes de qualquer coisa, esforçar-se em que tenha o que ainda não tem; isto é, ele, ele mesmo, aproveitando para isso o que tem; em suma, é produção. Com isto quero dizer que a vida não é fundamentalmente como tantos séculos acreditaram: contemplação, pensamento, teoria. Não; é produção, fabricação, e somente porque estas o exigem, portanto, depois, e não antes, é pensamento, teoria, ciência. Viver. . ., isto é, achar os meios para realizar o programa que se é. O mundo, a circunstância, se apresenta evidentemente como primeira matéria e como possível máquina. Já que para existir tem que estar no mundo, e este não realiza por si e sem mais o ser do homem, já que lhe põe dificuldades, o homem se resolve a buscar nele a máquina oculta que encerra para servir ao homem. A história do pensamento humano se reduz à série de observações que o homem fez para expor à luz, para descobrir essa possibilidade de máquina que o mundo leva latente em sua matéria. Daí o invento técnico ser chamado também descobrimento. E não é, como veremos, uma causalidade que a técnica por antonomásia, a plena maturidade da técnica, se iniciasse na altura de 1600; justamente quando em seu pensamento teórico do mundo chegou o homem a entendê-lo como uma máquina. A técnica moderna enlaça-se com Galileu, Descartes, Huygens; em suma, com os criadores da interpretação mecânica do universo. Antes se acreditava que o mundo corporal era um ente amecânico cujo ser último estava constituído por poderes espirituais mais ou menos voluntários e incoercíveis. O mundo, como puro mecanismo, é, ao contrário, a máquina das máquinas.

É, pois, um erro fundamental acreditar que o homem não é senão um animal causalmente dotado com talento técnico ou, em outras palavras, que se a um animal lhe agregássemos magicamente o dom técnico, teríamos sem mais o homem. A verdade é o contrário, porque o homem tem uma tarefa bem diversa que a do animal, uma tarefa extranatural, não pode dedicar suas energias como aquele para satisfazer suas necessidades elementares, já que, evidentemente, tem que apagá-las nessa ordem para poder prover-se com elas na improvável faina de realizar seu ser no mundo.

Eis aqui por que o homem começa quando começa a técnica. A largura, menor ou maior, que esta lhe abre na natureza é o alvéolo onde pode alojar seu excêntrico ser. Por isso insistia ontem em que o sentido e a causa da técnica estão fora dela; isto é: no emprego que dá o homem a suas energias disponíveis, libertadas por aquela. A missão inicial da técnica é essa; dar franquia ao homem para poder dedicar-se a ser ele mesmo.

Os antigos dividiam a vida em duas zonas: uma, que chamavam otium, o ócio, que não é a negação do fazer, mas ocupar-se em ser o humano do homem, que eles interpretavam como mando, organização, trato social, ciências, artes. A outra zona, cheia de esforço para satisfazer as necessidades elementares, tudo o que fazia possível aquele otium, chamavam-no nec-otium, assinalando perfeitamente o caráter negativo que tem para o homem.

Ao invés de viver ao acaso e dissipar seu esforço, necessita este atuar de acordo com plano para obter segurança em seu choque com as exigências naturais e dominá-las com um máximo de rendimento. É isto seu fazer técnico diante do fazer como Deus queira do animal, do pássaro do bom Deus, por exemplo.

Todas as atividades humanas que especialmente receberam ou merecem o nome de técnicas não são senão especificações, concreções desse caráter geral de autofabricação próprio de nosso viver.

Se nossa existência não fosse já desde um princípio a forçosidade de construir com o material da natureza a pretensão extranatural que é o homem, nenhuma dessas técnicas existiria. O fato absoluto, o puro fenômeno do universo que é a técnica, somente pode dar-se nessa estranha, patética, dramática combinação metafísica de que dois entes heterogêneos — o homem e o mundo — se vejam obrigados a unificar-se, de modo que um deles, o homem, consiga inserir seu ser extramundano no outro, que é precisamente o mundo. Esse problema, quase de engenheiro, é a existência humana.

E, contudo, ou por isso mesmo, a técnica não é em rigor o primeiro. Ela se engenha e executa a tarefa, que é a vida; consegue, claro está, numa ou noutra limitada medida, fazer que o programa humano se realize. Ela, porém, por si não define o programa; quero dizer que à técnica lhe é prefixada a finalidade que ela deve conseguir. O programa vital é pré-técnico. O técnico ou a capacidade técnica do homem tem como missão inventar os procedimentos mais simples e seguros para conseguir as necessidades do homem. Mas estas, como vimos, são também uma invenção; são o que em cada época, povo ou pessoa o homem pretende ser; há, pois, uma primeira invenção pré-técnica, a invenção por excelência, que é o desejo original.

Não se creia que é desejar faina tão fácil. Observem os senhores a específica angústia que experimenta o novo rico. Tem nas mãos a possibilidade de obter a efetivação de seus desejos. Em seu íntimo sente que não deseja nada, que por si mesmo é incapaz de orientar seu apetite e decidi-lo entre as inumeráveis coisas que o contorno lhe oferece. Por isso busca um intermediário para que lhe oriente, e o encontra nos desejos predominantes dos demais. Eis aqui a razão pela qual o primeiro que o novo rico compra para si é um automóvel, uma pianola e um fonógrafo. Encarregou aos outros que desejem por ele. Como há o tópico do pensamento, o qual consiste na ideia que não é pensada originariamente pelo que a pensa, mas tão-somente por ele repetida, cegamente, maquinalmente reiterada, há também um desejo tópico, que é antes a ficção e o mero gesto de desejar.

Isto acontece, pois, mesmo na órbita do desejar que se refere ao que já há aí, às coisas que já temos em nosso horizonte antes de desejá-las. Imagine-se até que ponto será difícil o desejo propriamente criador, o que postula o inexistente, o que antecipa o que ainda é irreal. Em suma, os desejos referentes a coisas se movem sempre dentro do perfil do homem que desejamos ser. É este, portanto, o desejo fundamental, fonte de todos os demais. E quando alguém é incapaz de desejar-se a si mesmo, porque não tem claro um “si mesmo” que realizar, é evidente que não tem senão pseudo-desejos, espectros de apetites sem sinceridade nem vigor.

Talvez a doença básica de nosso tempo seja uma crise dos desejos e por isso toda a fabulosa potencialidade de nossa técnica parece como se não nos servisse de nada. Hoje a coisa começa a fazer-se grave fato: “A Europa padece de uma extenuação em sua faculdade de desejar” (Espanha invertebrada) . E essa obnubilação do programa vital trará consigo uma detenção ou retrocesso da técnica que não saberá bem a quem, a que servir. Porque esta é a incrível situação a que chegamos e que confirma a interpretação aqui sustentada: a herdade, isto é, o repertório com que hoje conta o homem para viver, não somente é incomparavelmente superior ao que nunca gozou (as forças criadas na técnica equivalem a 2 500 milhões de escravos, isto é, dois servidores para cada civilizado), já que temos a clara consciência de que são superabundantes, e, contudo, a mágoa é enorme, e é que o homem atual não sabe o que ser, falta-lhe imaginação para inventar o argumento de sua própria vida.

Por quê? Ah!, isso não pertence a este ensaio. Somente nos perguntaremos: Que é o homem, ou que espécie de homens são os especialistas do programa vital? O poeta, o filósofo, o fundador de religião, o político, o descobridor de valores? Não o decidamos; baste com advertir que o técnico os supõe e que isto explica uma diferença de posição que sempre houve e contra a qual é inútil protestar.

Talvez tenha que ver com isto o estranhíssimo fato de que a técnica é quase sempre anônima, ou pelo menos os criadores dela não gozem da fama nominativa que acompanhou sempre àqueles outros homens. Um dos inventos mais formidáveis dos últimos sessenta anos foi o motor de explosão. Pois bem, quantos dos senhores, que não sejam por seu ofício técnicos, lembram neste momento a lista de nomes egrégios que levaram seus inventores?

Daí também a enorme improbabilidade de que se constitua uma “tecnocracia”. Por definição, o técnico não pode mandar, dirigir em última instância. Seu papel é magnífico, venerável, mas irremediavelmente de segundo plano.

 

A reforma da natureza ou técnica, como toda mudança ou mutação, é um movimento com seus dois termos, a quo e ad quem. O termo a quo é a natureza conforme está aí. Para modificá-la é preciso fixar o outro termo, no qual se conformará. Este termo ad quem é o programa vital do homem. Como chamaríamos a obtenção plena deste? Evidentemente, bem-estar do homem, felicidade. Eis aqui que com isso fechamos o circuito de todas as considerações feitas nas anteriores lições.

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