O MITO DA CAVERNA – CONTINUAÇÃO

Caverna

A filosofia é a base de várias ciências, principalmente a jurídica. Platão prova isso, segundo o autor do artigo Francisco de Asssis Goes. Boa leitura e meditação.

Imaginemos uma caverna subterrânea onde, desde a infância, geração após geração, seres humanos estão aprisionados. Suas pernas e seus pescoços estão algemados de tal modo que são forçados a permanecer sempre no mesmo lugar e a olhar apenas a frente, não podendo girar a cabeça nem para trás nem para os lados. A entrada da caverna permite que alguma luz exterior ali penetre, de modo que se possa, na semi-obscuridade, enxergar o que se passa no interior.

A luz que ali entra provém de uma imensa fogueira externa. No exterior, entre a fogueira e os prisioneiros há um caminho ascendente ao longo do qual foi erguida uma mureta, como se fosse a parte fronteira de um palco de marionetes. Ao longo dessa mureta-palco, homens transportam estatuetas de todo tipo, com figuras de seres humanos, animais e todas as coisas.

Por causa da luz da fogueira e da posição ocupada por ela os prisioneiros enxergam na parede no fundo da caverna as sombras das estatuetas transportadas, mas sem poderem ver as próprias estatuetas, nem os homens que as transportam.

Como jamais viram outra coisa, os prisioneiros imaginam que as sombras vistas são as próprias coisas. Ou seja, não podem saber que são sombras, nem podem saber que são imagens ou estatuetas de coisas, nem que há outros seres humanos reais fora da caverna. Também não podem saber que só enxergam por causa da luz vinda do exterior da da caverna e imaginam que toda a luminosidade possível é natural da propria caverna.

Que aconteceria, se alguém libertasse os prisioneiros? Que faria um prisioneiro libertado? Em primeiro lugar, olharia toda a caverna, veria os outros seres humanos, a mureta, as estatuetas e a fogueira. Embora dolorido pelos anos de imobilidade, começaria a caminhar, dirigindo-se à entrada da caverna e, deparando com o caminho ascendente, nele adentraria.

Num primeiro momento ficaria completamente cego, pois a fogueira na verdade é a luz do sol e ele ficaria inteiramente ofuscado por ela. Depois, acostumando-se com a claridade, veria os homens que transportam as estatuetas e, prosseguindo no caminho, enxergaria as próprias coisas, descobrindo que, durante toda a sua vida, não vira senão sombra de imagens, as sombras das estatuetas projetadas no fundo da caverna, e, que somente agora está contemplando a própria realidade.

Libertado e conhecedor do mundo, o prisioneiro regressaria à caverna, ficaria desnorteado pela escuridão, contaria aos outros o que viu e tentaria libertá-los.

Que lhe aconteceria nesse retorno? Os demais prisioneiros zombariam dele, não acreditariam em suas palavras e, se não conseguissem silenciá-lo com suas caçoadas, tentariam fazê-lo espancando-o e, se mesmo assim, ele teimasse em afirmar o que viu e os convidasse a sair da caverna, certamente acabariam por matá-lo. Mas, quem sabe alguns poderiam ouvi-lo e, contra a vontade dos demais, também decidissem sair da caverna rumo à realidade.

 

O Mito da Caverna narrado por Platão no livro VII do Republica é, talvez, uma das mais poderosas metáforas imaginadas pela filosofia, em todos os tempos, para descrever a situação geral em que se encontra a humanidade. Para o filósofo, todos nós estamos condenados a ver sombras a nossa frente e tomá-las como verdadeiras. Essa poderosa crítica à condição dos homens, escrita há quase 2500 anos, inspirou e ainda inspira inúmeras reflexões.

Nesta alegoria a caverna é o mundo em que vivemos.

As sombras das estatuetas são as coisa materiais e sensoriais que percebemos.

O prisioneiro que se liberta é o sábio, o filósofo.

A luz exterior do sol é a luz da verdade.

O mundo exterior é o mundo das idéias verdadeiras ou da realidade.

O instrumento que liberta o filósofo e com o qual ele deseja libertar os outros prisioneiros é a dialética.

A visão do mundo real iluminado é a própria filosofia.

Os prisioneiros zombam, espancam e matam o filósofo porque imaginam que o mundo sensível é o mundo real e único verdadeiro. Platão estaria se referindo à condenação de Sócrates à morte pela assembléia ateniense?

Com essa metáfora Platão quis mostrar muitas coisas. Uma delas é que é sempre doloroso se chegar ao conhecimento, tendo-se que percorrer caminhos bem definidos para alcançá-lo, pois romper com a inércia da ignorância requer sacrifícios. A primeira etapa a ser atingida é a da opinião, quando o indivíduo que se ergueu das profundezas da caverna tem o seu primeiro contanto com as novas e imprecisas imagens exteriores. Nesse primeiro instante, ele não consegue captá-las na totalidade, vendo apenas algo impressionista flutuar a sua frente. No momento seguinte, porém, persistindo em seu olhar inquisidor, ele finalmente poderá ver os objetos na sua integralidade, com os seus perfis bem definidos. Ai então ele atingirá o conhecimento. Essa busca não se limita a descobrir a verdade dos objetos, mas algo bem superior: chegar à contemplação das idéias morais que regem a sociedade – o bem, o belo e a justiça.

Há, pois dois mundos. O visível é aquele em que a maioria da humanidade está presa, condicionada pela penumbra da caverna, crendo, iludida que as sombras são a realidade. O outro mundo, o inteligível, é privilégio de alguns poucos. Os que conseguem superar a ignorância em que nasceram e, rompendo com os ferros que os prendem ao subterrâneo, erguem-se para a esfera da luz em busca das essências maiores do bem, do belo e do justo. O visível é o império dos sentidos, captado pelo olhar e dominado pela subjetividade; o invisível é o reino da inteligência percebido pela razão. O primeiro é o território do homem comum preso às coisas do cotidiano, o outro, é a seara do homem sábio (filósofo) que se volta para a objetividade, descortinando um universo diante de si.

Platão então pergunta (pela boca de Sócrates, personagem central do diálogo (A República), o que aconteceria se este ser que repentinamente descobriu as maravilhas do mundo dominado por Hélio, o fabuloso universo inteligível, descesse de volta à caverna? Como ele seria recebido? Certamente que os que se encontram encadeados zombariam dele, colocando abertamente em dúvida a existência desse tal outro mundo que ele disse ter visitado. O recém-chegado certamente seria hostilizado. Dessa forma, Platão traçou o desconforto do homem sábio quando é obrigado a conviver com os demais homens comuns. Não acreditam nele, não o levam a sério. Imaginam-no um excêntrico, um idiossincrático, um extravagante, quando não um rematado doido. Este, não raras vezes, tem sido o destino comum a que muitos cientistas, inventores, e demais revolucionários do pensamento tiveram que enfrentar ao longo da história.

Deveria por isso o sábio então desistir? O riso e o deboche com que invariavelmente é recebido fariam com que ele devesse se afastar do convívio social? Quem sabe não seria preferível que ele se isolasse num retiro solitário, com as costas voltadas para a cidade.  Mas, hostil à idéia da vida monástica, Platão foi incisivo: O conhecimento do sábio deve ser compartilhado com seus semelhantes, deve estar a serviço da comunidade. O filósofo cheio de sabedoria e geometria que leva uma existência de eremita, acreditando-se ser o centro do universo, de nada serve. Isso porque a lei não deve assegurar a felicidade apenas para uma determinada classe de cidadãos (no caso, os sábios), mas sim se esforçar para “realizar os anseios da cidade inteira”. O conhecimento dá a seus portadores a sensação de liberdade, mas essa liberdade que parecem gozar não é para eles fazerem o que bem lhes aprouver, mas para contribuir com o fortalecimento dos laços da sociedade.

Platão não ficou apenas na recomendação de que os sábios devem socializar o conhecimento. Ousou ir bem mais além. Justamente por eles, os filósofos, serem menos “apressados em chegar ao poder” (sabendo perfeitamente distinguir o visível do inteligível, a imagem da realidade, o falso do verdadeiro), é que devem ser chamados para a regência da sociedade. A presença deles impediria as sedições e as intermináveis lutas civis internas tão comuns entre os diversos pretendentes rivais, “gente ávidas de bens particulares”, sempre em luta, divergindo com espadas, na tentativa de ficar com o poder. O governo da cidade cabe, pois, aos mais instruídos e aos que manifestam mais indiferença ao poder, ainda que seja a característica do sábio “o desinteresse pelos cargos públicos”, pela simples razão deles terem sido os únicos a terem vislumbrado o bem, o belo e o justo.

Esta é uma amostra da utópica, mas bela filosofia de Platão, sintetizada através de dois mundos:

O visível, cujo espaço é limitado pela geografia sombria da caverna. Nele o homem se encontra aprisionado, constrangido a olhar só para a parede na sua frente, ficando com a mente embotada, preocupando-se apenas com as coisas mesquinhas do seu dia-a-dia e dominado pelas sensações e pelos sentidos mais primários em situação de desconhecimento e ignorância. Esta é a condição em que se encontra o homem comum.

O invisível, que é todo universo fora da caverna, o espaço composto pelo ar e pelo mundo inteiro dominado pela espiritualidade e claridade exuberante de Hélio, o Sol que tudo ilumina com seus raios esplendorosos, permitindo a rápida identificação de tudo, alcançando-se assim a ciência e o conhecimento. Este mundo é a plenitude do homem liberto da opressiva caverna, podendo investigar e inquirir tudo ao seu redor conhecendo enfim as formas perfeitas orientado pela inteligência e pela razão e em condições de cultivar a sabedoria e a busca pela verdade e pelo ideal da junção do bem com o belo e o justo. Esta é a condição do sábio, do filósofo.

Fonte: “A República” – Platão

 

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