Lição de Vida – Etty Hillesum: reencontrar a vida no turbilhão do Holocausto

Etty Hillesum

Justamente, Alessandro Barban (prior dos beneditinos camaldulenses) e Antonio Carlo Dall’Acqua começam o seu livro sobre Etty Hillesum, intitulado Osare Dio (Cittadella Editrice, 284 páginas), com uma fotografia tirada em 1931. É o retrato de uma família judaica composta por pai, mãe e três filhos, que vive na Holanda, mas poderia ser a de centenas de milhares de outras famílias judaicas de classe média de toda a Europa.

A análise é do escritor e crítico literário italiano Giorgio Montefoschi, em artigo publicado no jornal Corriere della Sera, 18-02-2013. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Sabemos que o pai, Louis Hillesum, é um professor de latim e grego, tímido, interessado principalmente nos seus estudos; que a mãe Riva (Rebeca) é de origem russa, emigrou para a Holanda depois de um pogrom e tem um caráter difícil, marcada pela loucura; que os dois meninos, Jaap, de 15 anos, e Mischa, de 11 (se tornarão: um médico, e o outro, um refinado pianista), têm grandes problemas psíquicos; e que Etty, a menina morena de 17 anos, que, com olhos intensos, tem uma péssima relação com os pais e está passando pela “idade ingrata” em que lutamos com nós mesmos.

Tudo isso, porém, tem uma importância relativa. O que conta, no retrato fotográfico em que os Hillesum exibem com confiança o seu decoro burguês, é a sua “normalidade”: a homogeneidade de milhões – desta vez – de famílias europeias não judaicas, mais ou menos bem de vida, mais ou menos felizes. Passar-se-iam 12 anos, e os Hillesum, sem saber naquele momento, juntamente com outros seis milhões de judeus ignaros e inocentes, seriam varridos da face da terra.

O percurso espiritual de Etty Hillesum, considerada por muitos como uma das almas mais elevadas do século XX, não pode ignorar a tragédia do povo judeu. Provavelmente ela não teria ocorrido dessa forma, ou até mesmo teria permanecido sem expressão – um “fácil idílio” com Deus, cultivado atrás de uma escrivaninha, em uma cômoda sala com muitos livros e sempre belas flores, e do lado de fora os quietos canais de Amsterdã – se a sua vida não houvesse sido “jogada na dor”.

Conhecemo-lo através de um exíguo número de Lettere [Cartas] (publicadas pela editora Adelphi), escritas principalmente do campo de repartição de Westerbork, ao longo de um ano (de 14 agosto de 1942 a 7 de setembro de 1943: data da partida de Etty e dos seus para Auschwitz), e por um interminável Diário de mais de 800 páginas compactas (publicado também integralmente pela Adelphi), que vai do dia 8 de março de 1941 a 12 de outubro de 1942: 17 meses, um tempo muito breve (como observado por Barban e por Dall’Acqua), no qual a lagarta se torna borboleta e se cumpre uma transformação incrível.

O dia 8 de março de 1941 marca um momento fundamental na existência de Etty Hillesum: o encontro com Julius Spier. Spier, judeu alemão de 54 anos, que se refugiou na Holanda depois de ter deixado sua esposa e dois filhos, noivo de uma jovem garota, Hertha (que emigrou para a Inglaterra em 1938), é uma psicoquirólogo (um psicanalista que parte, para a sua análise, do estudo da mão), seguido na sua formação e apreciado por Jung. Não é um homem bonito: é robusto, corpulento, mas tem uma boca extremamente sensual e dois olhos que “transpassam o tempo”.

Até aquele momento, antes de conhecê-lo, Etty viveu desordenadamente: se formou sem entusiasmo em jurisprudência; teve experiências sexuais e sentimentais que a deixaram insatisfeita (atualmente ela tinha um relacionamento fixo com Han Wegerif, um senhor de nada menos do que 62 anos); desperdiçou os seus talentos. Agora, em determinados momentos, ela sente que as suas ideias são “muito vagas, pendem como vestidos muito largos” do seu corpo; em outros, gostaria de “desaparecer, se dissolver, fundir-se harmoniosamente com a terra e o céu”; sofre pelo caos que reina em si mesma; busca um homem para possuir por toda a vida e, ao mesmo tempo, sabe que essa posse absoluta não é a posse do Absoluto; invoca a Deus, que ela intui que está dentro de si mesma, mas tem a impressão de que é uma fonte coberta por pedras e areia.

Spier, que em Amsterdã tem um certo sucesso, é o homem do destino. Os seus métodos terapêuticos, na verdade, são (como destacam Barban e Dall’Acqua) bastante estranhos e, no mínimo, discutíveis. Baseiam-se (além da leitura da mão) na convicção de que corpo e alma estão estreitamente ligados e devem viver em harmonia. Para que os seus pacientes possam alcançar essa harmonia, libertando-se das regressões e dos medos que os bloqueiam, Spier faz uma luta com eles. Uma luta propriamente dita: física, até mesmo violenta. É realmente um método estranho e, se quisermos, no limite da deontologia médica: porque, quando a paciente é uma mulher, é inevitável ou quase que da luta, do contato convulsivo dos corpos, se passe para outros gestos, talvez para carícias relutantes.

É exatamente o que acontece com Etty, que muito logo se sente atraída Spier (“A sua boca, de repente, era tão selvagem e demoníaca, e floresceu com sensualidade (…) A carne, eu só queria a carne”) e se apaixona. Mas Julius – que é um homem culto, religioso, sensível e honesto no seu desejo para fazer com que emerja em cada indivíduo a parte mais profunda e verdadeira do seu ser – também se apaixona por Etty.

Assim, entre os dois, se cria uma situação extremamente complexa e contraditória, feita de pulsões eróticas e inibições, explosões sentimentais e sentimentos de culpa (Spier não quer deixar a sua namorada, Etty continua fazendo amor com Han, até engravida e aborta), na qual, em essência, esse homem e essa jovem mulher que poderia ser sua filha põem a si mesmos como um obstáculo (talvez necessário) para conseguir um amor diferente, ao qual, no entanto, tendem cegamente como a algo misterioso, ainda obscuro, indefinido.

Enquanto isso, a situação dos judeus piora. Em junho de 1942, são promulgadas também na Holanda as leis de Nuremberg: começam as perseguições, as deportações. Os judeus devem ser aniquilados, desaparecer. E eis que Deus chama. Desce no coração de Etty: onde já habita. Um dia, de repente, Etty se encontra (não decidiu fazê-lo) ajoelhada no meio da sala. Um dia, lê o trecho da Carta de Paulo aos Coríntios sobre a caridade e sente que essas palavras são “como varas” na dureza do seu coração. Novamente cai de joelhos. As ameaças e o terror crescem, as barbáries se acumulam. E, lentamente, as pedras e a areia se erguem do coração de Etty, e aquela fonte escondida brota com um poder inaudito.

É o amor de Deus: que Etty reconhece em todo ser humano, começando pelos seus carnífices, e na vida. Uma vida que, mesmo nesse abismo de desespero, não consegue deixar de considerar como plena de significado e maravilhosamente bela. Uma noite, está no seu leito e, através da janela, olha para o céu e as árvores. E escreve: “A guerra, os campos de concentração (…) tudo isso existe, eu sei, mas, em um momento de abandono, eu me encontro no peito nu da vida, e os seus braços me circundam tão doces e protetores, e as batidas do seu coração eu ainda não sei descrever: tão lento e regular e tão doce, quase abafado, nunca tão fiel, como se nunca tivesse que parar, e também tão bom e misericordioso”.

Em outra página, ela escreve: “Acho a vida bela e me sinto livre. Os céus se estendem dentro de mim, assim como acima de mim. Acredito em Deus e nos homens, e ouso dizer isso sem falso pudor”. Mais adiante, ela escreve ainda: “Uma coisa é certa: deve-se contribuir para aumentar a reserva de amor sobre esta terra. Cada migalha de ódio que se acrescenta ao ódio exorbitante que já existe torna este mundo inóspito e inabitável”.

Agora, os eventos progridem. Etty poderia se esconder, fugir. Não o faz. Primeiro como empregada do Conselho Judaico, depois como prisioneira destinada ao extermínio, entra no campo de Westerbork. O que ela vê com os seus olhos, o que ouve com os seus ouvidos, é o horror: fome, miséria física e mental, degradação, humilhação de todos os tipos, crianças arrancadas dos berços, esposas separadas dos maridos para sempre.

E, todas as segundas-feiras, a chegada daquele trem composto por carros de gado que é preciso encher com seres inocentes e que na terça-feira parte para a morte. Etty não se isenta de nada. Spier morreu de câncer, e o seu amor já é todo pelos outros: pelo seu próximo, sustentado por aquela fonte que continua jorrando no seu coração. Mas Deus está no coração de todos.

“Uma coisa, porém, torna-se cada vez mais evidente em mim”, escreve Etty um dia, já diante da inevitabilidade do seu destino, “isto é, que Tu não podes nos ajudar, mas que somos nós que devemos Te ajudar, e desse modo ajudamos a nós mesmos. A única coisa que podemos salvar nestes tempos, e também a única que realmente importa, é um pequeno pedaço de Ti em nós mesmos, meu Deus. E talvez também possamos contribuir para desenterrar-Te dos corações de outros homens. Cabe a nós Te ajudar, defender até o fim a Tua casa em nós”.

Estamos no auge do caminho espiritual dessa jovem judaica que lia os Salmos e os Evangelhos: ajudar Deus. Uma ideia maluca e revolucionária, como apontam Barban e Dall’Acqua, que subverte a relação do ser humano com o seu Criador.

Etty Hillesum morreu em Auschwitz em novembro de 1943. Do trem, ela conseguiu jogar um cartão postal endereçado à sua amiga Christine van Nooten. Estava escrito: “Deixamos o campo cantando”.

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