Filosofia: do senso comum ao senso crítico

Blog

1.     O QUE É SENSO COMUM?

Em nossa conversa diária com as pessoas, surge uma série de opi­niões sobre os mais variados assuntos. Na maioria das vezes, essas opi­niões informais, que ouvimos ou emitimos em nossas conversas, refletem conhecimentos vagos, superficiais ou ingênuos a respeito dos inúmeros lemas que abordamos. Isto é, conhecimentos pouco profundos, adquiri­dos ocasionalmente no cotidiano, sem uma procura séria e  reflexiva por parte das pessoas.

A título de ilustração, podemos dizer que faz parte do senso comum uma infinidade de “frases feitas”,  repetidas irrefletidamente, rio cotidia­no, como as seguintes: homem que é homem não chora; o brasileiro é um povo pacífico; querer é poder; filho de peixe, peixinho é; Deus é a única esperança etc.

Esse tipo de conhecimento mediano, compartilhado pela maioria das pessoas, constitui o chamado senso comum. Pertence ao senso co­mum um vasto conjunto de concepções a respeito dos mais diferentes te­mas. Freqüentemente, essas concepções estão impregnadas de noções falsas, parciais ou preconceituosas. Entretanto, o senso comum não é formado, apenas, por concepções falsas ou incorretas mas, também, por concepções verdadeiras. O que as caracteriza, portanto, é o fato de serem produzidas por conhecimentos soltos, superficiais, que não nasceram de reflexões profundas e abertas.

O conhecimento do senso comum possui, habitualmente, as seguin­tes características gerais:

  • imprecisão: conceitos vagos, sem rigor, que não definem claramente seu conteúdo e seu alcance;
  • incoerência: associação, num  mesmo raciocínio, de conceitos con­traditórios, que se anulam em termos lógicos;
  • fragmentação: conceitos soltos, que não abrangem, de modo am­plo e sistemático, o objeto estudado.

2.     O NASCIMENTO DA FILOSOFIA E SEU SIGNIFICADO

Etimologicamente, a palavra filosofia é formada por dois termos gregos: filos, que traduz a idéia de amor, sofia, que significa sabedoria. Assim, a Filosofia tem o sentido etimológico de “amor à sabedoria”.

Conforme a tradição histórica, a criação da palavra filosofia é atri­buída ao grego Pitágoras.

Perguntado, pelo príncipe Leonte, qual era a natureza da sua “sabe­doria”, Pitágoras respondera: sou, apenas, um filósofo. Com essa res­posta, ele desejava esclarecer que não detinha a posse da sabedoria. Hu­mildemente, assumia a posição de ser um “amante do saber”, alguém que procura a sabedoria, que busca alcançar a verdade.

Com o decorrer do tempo, entretanto, a palavra filosofia foi per­dendo esse seu significado etimológico.

Na própria Grécia Antiga o termo filosofia passou a designar não apenas o amor ou a procura da sabedoria, mas um tipo especial de sabedoria. Aquela que nasce do uso metódico da razão, da investigação ra­cional em busca do conhecimento. Nesse sentido, o saber filosófico dife­rencia-se das explicações estabelecidas nos mitos.

O mito é um sistema de explicação fantasioso do mundo, expresso em narrativas fabulosas referente aos deuses, forças da natureza e seres hu­manos.

MITOLOGIA GREGA

Os gregos cultuavam uma série de deuses (Zeus, Hera, Ares, Atena etc.) além de heróis ou semideuses (Teseu, Hércules, Perseu etc.). Relatando a vida dos deuses e dos heróis e seus envolvimentos com os homens, os gregos criaram uma rica mitologia, constituída por- um conjunto de lendas e crenças que, por princípios simbóli­cos, fornecem explicações para a realidade universal. Integra a mitologia grega um grande número de “relatos maravilhosos”, que inspiraram diversas obras artísticas da história ocidental.

Ao contrário do mito, o saber filosófico procurava explicar o mun­do por princípios racionais. A Filosofia preocupava-se com o desenvolvi­mento de raciocínios lógicos, tendo como finalidade desvendar as relações de causas e efeitos entre as coisas. O mito, por outro lado, tem um conteúdo explicativo que não busca convencer a consciência racional do homem.

Nesse sentido, “acredita-se ou não nele, conforme a própria. vontade, mediante um ato de fé. caso pareça ‘belo’ ou verossímil, ou simplesmente porque se quer acreditar. O mito, assim atrai em torno de si toda a parcela do irracional existente no pensamento humano; por sua própria natureza. é aparentado à arte, em todas as suas criações. A força da mensagem dos mitos reside na capacidade que ele·, tem de sensi­bilizar as estruturas profundas, inconscientes, do psiquismo humano.

É preciso esclarecer, entretanto, que o nascimento da Filosofia (co­nhecimento racional do mundo) não significou o desaparecimento do mi­to (pensamento do tipo fabuloso e irracional). Durante muito tempo, os primeiros “filósofos” gregos compartilharam de diversas crenças míticas, enquanto desenvolviam o conhecimento racional que caracterizava a Filosofia.

3.        A EXTENSÃO DO CONHECIMENTO FILOSOFICO

o saber filosófico passou a designar, na Grécia Antiga, a totalidade do conhecimento racional desenvolvido pelo homem. Abrangia, portan­to, os mais diversos tipos de conhecimentos, que se estendiam pela Mate­mática, Astronomia, Física, Biologia, Lógica, Ética etc. Enfim, todo o conjunto dos conhecimentos racionais integrava o universo do saber filo­sófico. À Filosofia interessava conhecer toda a realidade sem dividi-Ia em objetos específicos de estudo.

Na história ocidental, esse significado amplo e universalista do saber filosófico manteve-se, de modo geral, no decorrer da Idade Média. Pou­cas áreas separaram-se da Filosofia, como a Teologia, por exemplo, que se desenvolveu enquanto estudo específico a respeito de Deus.

Durante a Idade Moderna, entretanto, o vasto campo da Filosofia entrou num processo de redução, na medida em que a realidade a ser co­nhecida passou a ser dividida, recortada, despertando’ estudos especiali­zados. Gradativamente, conquistaram autonomia muitas ciências parti­culares, que se desprenderam do tronco comum do abrangente saber filo­sófico. Ao se constituírem, essas ciências passaram a direcionar suas in­vestigações a certos campos delimitados da realidade, e o fazem de forma cada vez mais especializada. Exemplos dessas ciências: Matemática, Físi­ca, Química, Biologia, Antropologia, Psicologia, Sociologia etc.

O CAMPO DA FILOSOFIA NA ATUALIDADE

Na época contemporânea, prossegue esse processo de especialização do saber racional, pelo qual as diversas ciências particulares se despren­dem da Filosofia e delimitam, especificamente, seus objetos de investiga­ção científica. Assim, o antigo imenso domínio do conhecimento filosó­fico foi-se restringido cada vez mais. Na antiguidade, todo o conheci­mento racional pertencia à Filosofia. Hoje, perguntamos: o que resta de característico para a Filosofia que esteja fora do alcance das inúmeras ciências particulares?

Para dar uma resposta um tanto simplificada à questão, podemos dizer que restam à Filosofia a busca da compreensão profunda de todos os seres, o trabalho de reflexão sobre os conhecimentos desenvolvidos por todas as ciências, a procura de respostas à finalidade, ao sentido e ao valor da vida e do mundo. Assim, pertence à Filosofia o estudo geral dos seres, do nosso conhecimento e do valor das coisas. Em termos mais es­pecíficos, podemos situar dentro do campo filosófico aqueles estudos que se referem a temas como: teoria do conhecimento, fundamentos do saber científico, lógica, política, ética, estética etc.

4. O PAPEL EDUCACIONAL DA FILOSOFIA

Em termos educacionais, a Filosofia tem uma urgente e grandiosa missão a desempenhar em nossas escolas. Como parte essencial dessa missão, está a tarefa de desenvolver no estudante o senso crítico, que implica a superação das concepções ingênuas e superficiais sobre os homens, a sociedade e a natureza, concepções estas forjadas pela “ideolo­gia” social dominante.

Para isso é necessário que o ensino da Filosofia estimule o desen­volvimento da reflexão do estudante e forneça-lhe um conjunto de infor­mações sobre reflexões já desenvolvidas na história do pensamento filo­sófico.

O resultado desse processo é a ampliação da consciência reflexiva do estudante, voltada para dois setores fundamentais:

  • a consciência de si mesmo: crítica de si próprio enquanto pessoa e de seu papel individual e social (autocrítica);
  • a consciência do mundo: compreensão do mundo natural e social e de suas possibilidades de mudança.

Quanto a este último aspecto, é necessário compreender clararnente que a Filosofia não deve servir, apenas, para’ ‘pensar contemplativamen­te o mundo”, mas para transformá-lo.

RESUMO-FICHAMENTO

1.    O senso comum

  • Conhecimentos soltos, superficiais, que não nasceram de reflexões profundas e abertas. É compartilhado pela maioria das pessoas. O senso comum é freqüentemente marcado pela imprecisão, incoerência, fragmentação.

2.    Nascimento e significado da Filosofia·

  • Etimologia: filas = amor; sofia = sabedoria. Amor à sabe­doria.
  • Evolução do sentido: Filosofia era o saber racional do mun­do, diferente do saber fantasioso e irracional (mito).

3.    A extensão do conhecimento filosófico

  • Na Grécia Antiga, o saber filosófico designava a totalidade do conhecimento racional (Astronomia, Física, Lógica, Ética etc.).
  • Com a especialização do conhecimento científico, o antigo vasto campo da Filosofia foi-se restringindo cada vez mais.
    • Campo atual da Filosofia: estudos referentes a lógica, teoria do conhecimento, valores, ética, estética, política etc.

4.    O papel ,educacional da Filosofia

  • Desenvolvimento do senso critico, ampliando a consciência reflexiva, voltada para a consciência de si e do mundo.

Análise e Reflexão

O que é senso comum?

1.    O que podemos entender por senso comum?

2.    Dê algumas características freqüentemente encontradas no co­nhecimento do senso comum.

O nascimento da Filosofia e seu significado 

3.    Comente o sentido desta definição: “Filosofia é uma coisa tal, que sem a qual o mundo continua tal e qual”.

4. Comente e discuta o conteúdo desta afirmação: “É da própria natureza da Filosofia não se conformar com respostas únicas, definitivas, rígidas e estáticas. O estudo da Filosofia nos convi­da ao contato com a pluralidade de idéias”.

5. Qual o significado etimológico de Filosofia?

6, Na Grécia Antiga, qual a distinção entre o saber filosófico e os mitos? Explique

 A extensão do conhecimento filosófico

7.    O saber filosófico passou a designar, na Grécia Antiga, a totali­dade do conhecimento racional desenvolvido pelo homem. Ex­plique quais os campos abrangidos pelo saber filosófico,

8, A partir da Idade Moderna, a extensão do conhecimento filosófico tendeu a reduzir-se ou ampliar-se? Comente.

O papel educacional da Filosofia

10.  Como parte essencial da missão da Filosofia em nossas escolas está a tarefa de desenvolver o senso critico. Quais as implica­ções práticas dessa tarefa? Ter senso crítico’ significa, apenas, fazer comentários negativos sobre as coisas?

11.Como a Filosofia pode contribuir na ampliação da consciência reflexiva?

12.Comente o significado desta frase: “É necessário compreender claramente que a Filosofia não deve servir, apenas, para pensar contemplativamente o mundo, mas para transformá-la”.

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s