A invisibilidade social, uma perspectiva fenomenológica

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O desprezo social e o não-reconhecimento dão origem ao sentimento de invisibilidade. Na sociedade do espectáculo em que vivemos, o invisível tende a significar o insignificante. Com efeito, múltiplos sentimentos estão ligados ao sentimento central de ser invisível para os outros : a vergonha, a paranóia, a impressão de insucesso pessoal, o isolamento, a clandestinidade. Em resumo, toda uma panóplia de emoções, sentidas por todos a um momento ou outro na vida quotidiana, une-se intimamente ao mundo amargo e silencioso da invisibilidade social. Podemos descobrir através deste termo um mundo social que se constrói segundo os preconceitos visuais e os olhares imaginários.

Esta proposta defende o argumento segundo o qual “os invisíveis” são criados pela percepção colectiva, que não só os cria mas também os transforma e os revela, acompanhando os preconceitos da época. Ou seja, este fenómeno é subordinado a uma intencionalidade própria à “consciência colectiva” (Durkheim, 1893). Para Émile Durkheim, a consciência colectiva regula os conhecimentos e as convicções comuns aos membros de uma sociedade. Do ponto de vista da fenomenologia, é a “subjectividade transcendental” (Husserl, 1993) que dá sentido ao mundo social. Esta subjectividade é transcendental porque não está apenas ligada ao “eu”, mas também ao “nós”. Os homens partilham diversas visões do mundo numa “reciprocidade de perspectivas” (Schütz, 1998). Este processo comum é conhecido por intersubjectividade social, o que quer dizer que os indivíduos partilham um mundo subjectivo cultural.

Baseada na fenomenologia de Husserl e na fenomenologia social de Schütz, proponho uma análise da significação da invisibilidade social, partindo do princípio que o objecto de estudo, o objecto fenomenal, se constitui intuitivamente na percepção. Quer isto dizer que o “ver”, como o “não-ver”, são acções sociais que, por conseguinte, seguem a lógica das estruturas espácio-temporais da consciência.

Algumas noções fundamentais de fenomenologia

A fenomenologia, fundada por Edmund Husserl (se bem que este termo venha de Hegel), é a ciência dos fenómenos e das suas essências (ou “ideias puras”). Um fenómeno é o que aparece à consciência, o que implica que existe uma relação íntima entre o fenómeno e a consciência que o descobre. Podemos dizer então que a fenomenologia analisa a forma como as coisas aparecem. Aliás, “aparecer” vem do grego clássico “phaïnesthaï”, ou seja, a palavra “fenómeno” quer dizer, literalmente, “o que aparece”.

À primeira vista, uma fenomenologia do invisível parece impossível, dado o facto de que este modelo teórico deve “fazer ver” (Heidegger, 1927). No entanto, já Heidegger no seu Seminário em Zähringen se tinha interessado por uma “fenomenologia do inaparente” (Heidegger, 1976). O “inaparente” é para o filósofo o modo radical do fenómeno, porque o inaparente “no seu inaparecer abre a possibilidade do que aparece de aparecer” (Heidegger 1976). O movimento de “inaparecer” é um movimento intencional significante em si. A intencionalidade é um termo central para esta pesquisa e por isso necessita de algumas esclarecimentos.

Como “ciência da consciência” (Hegel, 1807), a fenomenologia tem como paradigma central a psicologia objectiva. A Gestalttheorie (teoria da forma) é particularmente interessante no que diz respeito às estruturas subjectivas da percepção. Para os psicólogos da forma, apercebemo-nos das formas por um acto de pensamento. Por exemplo, ao vermos o céu estrelado, damos formas a conjuntos de estrelas, como no caso da Úrsula maior. A percepção mobiliza as formas que organizam e dão sentido aos elementos apercebidos. Esta mobilização do olhar é um acto intencional (no sentido husserliano), que ilustra completamente a relação explícita que os indivíduos têm com o mundo. A percepção é a constituição primeira do objecto. Ora, a percepção é construída pela base comportamental sócio-cultural do indivíduo que olha. Quer isto dizer que o que vemos (ou não vemos) é, no fundo, o resultado de uma vontade própria, que pode ser, por muito paradoxal que pareça, involuntária.

A intencionalidade é para Jean-Paul Sartre “a estrutura essencial da consciência” (Sartre, 1936). Ela emerge da relação que a consciência tem com o mundo e com os outros, porque, como disse Husserl, “a consciência é sempre consciêcia de alguma coisa” (Husserl, 1986). Dito de outra forma, a consciência tem um carácter fundamentalmente orientado, ela é sempre intenção para fazer sentido das coisas, para ir ao sentido das coisas. Podemos adivinhar aqui, à luz husserliana, um acto animador que consiste no movimento da consciência de dar um significado ao que o olho apercebe.

A intencionalidade é formada pelo que Husserl chama “a atitude natural”, sendo esta a atitude de acreditar que o mundo é simplesmente dado. Ora o primeiro movimento da fenomenologia é a redução eidética. Esta operação da consciência consiste precisamente em se desligar da atitude natural e em se separar da “ prévia inocência” (Ricœur, 1986). Quando a consciência é consciente da atitude natural apercebe-se finalmente que não é o mundo que lhe é dado, mas pelo contrário que é ela que dá sentido ao mundo. Portanto, se a consciência é doadora de sentido, o acto de ver transforma-se numa operação, e mesmo, talvez, numa criação. Podemos fazer aqui uma analogia com o acto animador, em questão precedentemente. A consciência constituinte, como o acto de ver, é uma “intuição intencional” que exige um fim racional : é preciso visar antes de ver. Seguindo esta lógica, proponho um argumento à volta da intencionalidade significante no acto de ver, e, em paralelo, no acto de não-ver.

O método de análise intencional é produtivo, quando consideramos que a consciência perceptiva se torna um acto objectivante. A persistência das formas idênticas na consciência pressupõe, para Husserl, a existência de uma “intencionalidade transcendental” inerente à própria consciência. Por outras palavras, a consciência humana tende a sair de si própria em direcção a outrem, seja este um objecto, os outros ou o mundo. É a intencionalidade da consciência e o seu modo transcendental que nos abrem a possibilidade de distinguir um lado objectivo e um lado subjectivo. Por isso, quando num casal, por exemplo, um dá a mão ao outro, objectivamente ambos dão simplesmente a mão, mas, subjectivamente, dão um mundo de sonhos, recordações e desejos, partilhados através deste gesto.

Por isso, disse eu anteriormente que é, sem dúvida, a subjectividade transcendental que dá sentido ao mundo. E esta subjectividade é ainda mais transcendental porque não está só ligada ao Eu mas é, pelo contrário, uma subjectividade do nós, na medida em que o mundo é sempre vivido por Nós. Ou seja, o mundo é vivido intersubjectivamente. A determinação intersubjectiva da realidade põe em evidência as intenções significantes na constituição do alter ego na minha consciência. A percepção torna-se assim uma relação de motivações, o que quer dizer que a visão ou a não visão dos outros é intencional, voluntária ou involuntariamente.

A fenomenologia viaja sem descanso entre o observado e o observador. No entanto, como Husserl avisa, o mundo real não é simplesmente o mundo das coisas observadas, mas implica também um mundo de valores que faz com que as coisas sejam importantes para um indivíduo. Levinas confirma este pensamento ao afirmar que a vida concreta “é uma vida de acção e de sentimento, de vontade e de julgamento estético, de interesse e de desinteresse. Por isso, o mundo correlativo desta vida é, certamente, objecto de contemplação teórica, mas também é mundo desejado, sentido, mundo de acção” (Levinas, 1978). Os preconceitos da esfera subjectiva, combinados com certas situações, são capazes de perturbar a experiência colectiva intersubjectiva. E não podemos esquecer que é esta experiência subjectiva que dá objectividade à realidade. Para tornar inteligível a noção de invisibilidade social, é portanto necessário compreender a reciprocidade do não-ver colectivo como uma intencionalidade significante.

Fenomenologia social e a intersubjectividade constituinte

A intersubjectividade é a palavra-chave que nos permite passar de um pensamento filosófico a uma teoria do mundo social, pela simples razão de que esta palavra designa claramente o reconhecimento mútuo e recíproco, necessário a uma relação social. Aliás, esta relação intersubjectiva não está somente no fundamento dos laços sociais, mas está também presente no laço íntimo entre o sociólogo e o objecto observado. Ter consciência deste laço permite encarar o observado, não como um objecto, como coisa estranha, mas como um universo de significações, que se insere numa estrutura social de pertinência.

Como pesquisa sociológica, o que nos interessa aqui é o facto de que o Outro invisível não é invisível só para mim, mas é invisível para Nós. Esta intersubjectividade é constituinte a vários níveis. Por um lado há intersubjectividade entre o Eu e aquele que eu não vejo : o outro partilha o sentido do mundo comigo e sabe que eu não o vejo. Por outro lado, há uma intersubjectividade colectiva : Nós não vemos o outro. Podemos portanto afirmar que a percepção é uma experiência da realidade, que transforma em representações não apenas as imagens, mas também as ideias. Para dar um significado objectivo à invisibilidade social, temos de compreender a cultura, os conhecimentos e as convicções daquele que não vê.

Para Alfred Schütz, fundador da fenomenologia social, a realidade da vida quotidiana é assimilada por um “processo contínuo de tipificações” (Schütz, 1998), que se organiza em torno do “aqui” e do “agora” do actor social. Existe portanto na consciência humana uma dimensão de proximidade e de distância no tempo e no espaço, sendo esta proximidade acompanhada por outra dimensão, a intimidade e o anonimato. As tipologias são formadas por estas duas dimensões, num processo próprio às experiências dos contemporâneos, dos antecessores e dos sucessores. São estes processos subjectivos que edificam o mundo do senso comum intersubjectivo e que, por conseguinte, oferecem a possibilidade de interagir socialmente.

Para o sociólogo austríaco, as tipificações estão intimamente unidas às interacções sociais. Os indivíduos interagem uns com os outros, seguindo um esquema de tipificações, que partem do eu-aqui-agora para o anonimato. Os níveis de interacção vão depender da intimidade e do interesse que o indivíduo oferece ao outro. Portanto, podemos afirmar que as tipificações do Outro sofrem a interferência do indivíduo que tipifica. Mais ainda, muitas vezes os esquemas de tipificação estão já pré-definidos de uma forma típica. Por exemplo, eu vejo a padeira como uma padeira e reajo com ela de maneira típica (a reacção entre o cliente e a padeira). O Outro em geral divide-se em diferentes níveis interaccionais : o círculo íntimo (a família e os amigos), os contemporâneos, os predecessores e os sucessores, sendo estes por vezes uma abstracção anónima. Estas tipificações progridem segundo “o património, a educação, a tradição, os hábitos e a reflexão que é própria ao indivíduo” (Schütz, 1998). Isto implica que as significações sociais atribuídas pelo actor social partem de uma síntese entre a história individual e a história colectiva. Podemos aqui reconhecer a intencionalidade da consciência que guia as interpretações das experiências vividas segundo certas configurações significantes. Dito de uma forma simples, as tipificações que o indivíduo utiliza no seu quotidiano são forjadas pelas experiências directas do Eu e pelos vários processos de socialização.

Temos assim, por um lado, a componente a priori, que oferece a imagem de uma estruturação anónima e pré-estabelecida do mundo social dado. Mas, por outro lado, a noção de “história individual, que Schütz chamou “reserva de experiências autobiográficas” (Schütz, 1998), sublinha a importância da consciência constituinte. O que nos interessa em particular é o facto de que Schütz, seguindo a lógica do seu mestre Max Weber, se concentra sobre a perspectiva do actor social, a fim de pôr em evidência a ramificação de intencionalidades que une os indivíduos entre eles e o mundo. A intersubjectividade aparece à luz da fenomenologia social como dada, como que absorvida no senso comum, o que subentende a utilização de uma estrutura de processos pertinentes, que já foi compreendido e interiorizado pelos indivíduos.

O principal contributo de Schütz é o seu argumento completamente original sobre o facto da constituição de tipificações ser vivida por todos os actores sociais, o que sem dúvida implica intencionalidade, estando esta, todavia, relacionada com as experiências autobiográficas de cada um. A fenomenologia social consegue assim ultrapassar a ideia do actor social passivo.

Em poucas palavras, as interacções sociais são determinadas não só pela “proximidade espácio-temporal”, mas também pela “situação sociocultural particular na sua historicidade específica” (Schütz, 1998). Parece-me importante insistir sobre o abandono da temática transcendental, premente na fenomenologia husserliana. Com efeito, para Schütz, a intersubjectividade não é transcendental mas empírica, porque a intersubjectividade é um dado ontológico, uma componente que existe por si própria. Por conseguinte, para compreender sociologicamente o sentido de uma acção social é necessário examinar a constituição dos modos subjectivos das motivações que precedem a acção.

O não-reconhecimento da alteridade invisível

Se considerarmos a acção social de “não ver outrem”, podemos afirmar que o motor desta relação é a intersubjectividade. O “não-ver” aparece sob esta luz como uma prática colectiva, comum, quotidiana, mas no fundo a sua significação social conduz-nos a uma sedimentação de certas tipificações. Defendo, seguindo esta lógica, que o acto de não-ver é uma actividade orientada significativamente. Se agir implica escolher, então o não-reconhecimento de outrem torna-se num acto intencional, sem que se possa dizer, porém, que é voluntário. Para compreender a existência de uma alteridade invisível é necessário analisar a coerência do sistema de conhecimento quotidiano, ou seja, as sequências e relações típicas que contribuem para a constituição deste fenómeno social.

Deste ponto de vista, o caminho da invisibilidade segue claramente a trajectória das estruturas espácio-temporais da consciência. Por exemplo, com o tempo, algumas pessoas que cruzaram a minha vida tornaram-se invisíveis para a minha consciência, e eu esqueci-as, apaguei-as da minha vida pessoal. Da mesma forma, posso não ver um indivíduo, apesar de a sua proximidade no espaço, como ver claramente aqueles que não estão no meu campo perceptivo. Isto explica a presença ainda viva dos mortos, dos seres desaparecidos que continuam, porém, visíveis para a consciência.

Se, como Husserl afirma, a percepção nos dá o ser, então a não-percepção do outro traduz-se pela inexistência do ser. O que conduz a pensar que a alteridade é invisível, é inexistente. Por outras palavras, a percepção, como a memória, é selectiva.

Ralph Ellison escreveu, no seu livro The invisible man,

“Eu sou invisível, compreendam bem, simplesmente porque as pessoas se recusam a olhar para mim”.

NB. Todos os livros utilizados são em francês e os termos e citações são traduzidos pela autora.

Uma visão ética acerca do mundo atual

 

Sendo o ser humano capaz de cultivar o bem, também é capaz de cultivar o que é mal. Nisto que consiste fazer boas encolhas entre virtude e vícios, ou seja, ser ético ou desprezar o intelecto virtuoso de agir perante as coisas. Talvez pudéssemos considerar a infelicidade fruto de escolha, como fruto das más ações do ser humano. A infelicidade pode ser a grande vilã de uma sociedade decaída, pobre e miserável. Podemos pensar as infelicidades mascaradas com outros substantivos bem conhecidos do ser humano. A infelicidade pode talvez ser nomeada de desigualdade social, fome, miséria,doenças e outros substantivos desse gênero. Um desencadeamento de maledicências decorrente de uma falta de ética humanitária.

Talvez seja possível reconhecer que os frutos das mazelas da infelicidade sejam as guerras, o desentendimento, a falta de caridade e fraternidade entre os povos e entre as pessoas da mesma raça e etnia. Pode ser possível que a infelicidade seja o mal que assola a humanidade. O mundo esta carente de uma ética prática, que faça do ser humano mais humano para com os outros. Estamos necessitados de uma reflexão sobre o sentido da vida do outro, a importância do outro. Não é mais possível deixar que nosso egoísmo, racismo e intolerância religiosa, exclua o outro de fazer parte da sociedade que desfruta das benesses da minoria.

Esta falta de respeito ético é explícito na camada governamental do nosso pais. Quando nos deparamos com escândalos de senadores, governadores e outros mais deste meio. O favoritismo para com poucos e o desrespeito para com o povo que trabalha e serve de alicerce que sustenta uma minoria gananciosa e sem compaixão para com os demais. Poderíamos também refletir a falta de ética do próprio povo quando não tem uma visão crítica daqueles que elege pelo voto. Nossas escolhas devem ser baseadas nas virtudes, a partir das virtudes podemos construir uma sociedade ética, ou seja, com igualdade, respeito, educada e consciente de seu papel no mundo.

Por mais iguinorantes que sejamos, sabemos que o bem é melhor que o mal, mesmo que alguém possa ter uma mentalidade fraca, escolhe o que é bom para si. Muitos filósofos considerarão em alguns textos que o bem é o que esta além do nosso mundo, a perfeição de tudo que é bom. Tal quanto o mal foi entendido como deficiência. Podemos também pensar a felicidade como bem do ser humano, o bem do qual podemos estar destinados segundo nossa vida. Temos em nosso mundo uma participação na perfeição da bondade. Por isso o ser humano é limitado e se deixa contrair o que é mal. Mas se todo ser humano fosse praticante de virtudes, vivenciasse as virtudes, faria uma escolha acertada do que é bom, sem se preocupar em estar escolhendo o que é mal e injusto. Desta forma estaria agindo de acordo com o senso ético, agiria com sabedoria e justiça.

Talvez todas essas desgraças que assolam a humanidade hoje podem ser fruto de escolhas não acertadas. Diante as virtudes e vícios poderia até o homem conhecer as virtudes, mas não saber utilizá-las. É como ter um martelo em mãos, podemos saber o que ele é, mas não sabemos usá-lo; ou ainda ter em mão as melhores ferramentas para edificação de um prédio, mas não sabemos usá-las; o que me adianta ter as melhores ferramentas e a melhor argila e não saber utilizar as ferramentas para dá forma a argila. Ao passo que colocamos em prática ou procuro aprofundar na vivência da virtude é possível construir uma vida feliz.

A falta de ética pode ser vista como uma escolha não acertada da vida, uma escolha que não foi refletida, não ponderada, e até mesmo quando nos foi dado oportunidade para tal. A miséria do mundo atual vista desta ótica nos leva a refletir sobre o que fizemos do mundo que habitamos e das pessoas ao nosso redor. A “fome” de justiça que tantos querem pode ser a resposta de uma vida desregrada mergulhada no sofrimento de escolhas de outras pessoas, das quais, em muitas das vezes, fazem o que querem sem o auxílio da razão. O mundo se afunda em um descaso de poluição, proliferação de vírus letais, pandemias que castigam as pessoas.

A crescente onda de violência que assola nosso mundo, a falta de amor e caridade de uns para com os outros. É quase impossível de se compreender e mais ainda, aceitar racionalmente a maldade das pessoas. Não só a maldade violenta que atinge o físico, mas a maldade que atinge o psicológico das pessoas. Tantas pessoas que poderiam fazer o bem e praticar a caridade, tolerância diante ao semelhante. Esta palavra, semelhante, deveria ser levada muito em conta diante as situações em que a vida nos proporciona segundo nossas atitudes de exclusão social e desprezo pelos mais pobres. A maldade praticada poderia ate mesmo ser evitada se refletíssemos o verdadeiro sentido de ser semelhante. O semelhante é o meu outro, é o meu próximo, é um como eu sou, um ser humano que também depende deste mundo para viver e sobreviver. O outro deve ser respeitado na sua totalidade como o eu deseja e quer ser respeitado em sua totalidade.

Poderíamos questionar também o sentido ético de ser caridoso ou complacente para com quem pratica o mal e a violência. Mas se todos nós tomássemos consciência de nossas atitudes maldosas, ou seja, de nossas iniquidades, provavelmente não existiria mais o mal em nosso meio. Não teríamos a preocupação em nos resguardar das maldades alheias e vindas contra nós. Não poderia ser concebível que o bem gere o mau, se todos fossem bons, caridosos, tolerantes, talvez não fosse possível a presença do mal no ser humano. Precisamos ser estandartes da bondade no mundo, nossa imagem deveria radiar a paz como uma luz em meio às trevas. A bondade deve fluir de nosso ser como uma chama que aquece o frio da maldade. Neste calor de amor e fraternidade conseguiríamos reacender no mundo a chama que crepita em muitas das vezes timidamente nas trevas da maldade humana. Todos nós podemos ser sinais da bondade no mundo, podemos ser símbolos do bem e portadores desta bondade. Uma reflexão ética sobre nossas mazelas poderia nos trazer a luz na escura irracionalidade.

Nós humanos podemos decidir o que queremos ser temos a oportunidade de escolha. A iniqüidade não poderia residir na bondade, nem a bondade ser fruto da iniqüidade quando iluminada por uma ação ética. Seria como esperar que uma laranjeira dê maçãs e não laranjas, como seria o procedimento natural e correto segundo a natureza. O passado já se foi, mas o que escolhemos agora é o que será depois as conseqüências das escolhas que fazemos.

O ser humano esta sempre a procura de respostas para a vida, para os acontecimentos da via. Procura uma resposta filosófica para explicar o mundo, o tempo, o conhecimento e a origem de todas as coisas. Também procura na teologia a explicação acerca de Deus, tenta edificar a esperança, o sentido da vida e da morte. Busca responder a pergunta sobre o início e o fim de todas as coisas. Nesta trajetória do ser humano, de buscar respostas, ele passa pelo conhecimento tentando criar uma verdade, ou ate mesmo chegar a uma verdade. Ele constrói e destrói na tentativa de dá sentido a própria vida.

Quando o ser humano se depara com as dificuldades, com a própria morte e sabe que foi possível responder a muitas dúvidas que carregou à vida toda, culpa o destino. Isto que costumeiramente chamamos de destino, seria mais uma vez uma criação do próprio homem para se explicar. Mas entre o então chamado destino e vontade, há muito o que se explicar. O que seria na realidade o caminho da verdade do homem, sua vontade ou a mera e fácil explicação de destino? A escolha do destino seria uma cura do vazio que não foi preenchido, o vazio de não ser humilde de se reconhecer culpado, incapaz e responsável pela sua história.

Nós somos capazes de escolhas, de produzir escolhas, de fazer escolhas e de determinar nossas escolhas. O destino não poderia ser a decisão de uma escolha feita pelo ser humano, visto que a escolha já é uma decisão tomada e determinada pelo próprio homem. Não seria possível a existência de um destino, o qual determine a vida humana e que em muitas vezes é pensado como algo que rege o mundo. Possivelmente poderíamos conceber um outro termo que foge de nosso controle, mas mesmo assim seria consequência de nossas ações e escolhas. Creio que seja possível a existência da fatalidade, isto sim seria o termo mais correto para nós tentarmos nos justificar em nossas falhas. A fabilidade sim é parte do homem que esta em processo continuo de um aperfeiçoamento, já que não somos perfeitos e completos.

O determinante na verdade seriam as nossas escolhas. Em tudo que compete à vida nós podemos escolher. A escolha que fazemos é o que realmente determina a direçãoda história, tanto pessoal quanto sociocomunitário. As escolhas acertadas são sempre frutos de uma reflexão ética para o bem comum e preservação da vida.

Neste cenário suponhamos que, a escolha fica por conta da infelicidade, do desprezo e desvalorização do outro. Nisto podemos ver que não vem a ser uma fatalidade natural, ou seja, dizer que a desgraça é uma fatalidade que ocorre segundo a sorte. É notório que decorre da escolha humana, das ações do homem diante a vida do outro. Nestes casos a infelicidade pode ser produto gerado do ser humano, como se fosse um mal atraído pelo próprio ser. Tudo isso, produto de uma sociedade onde muitos são egoístas, pensam no lucro pessoal, na barganha e interesses escusos. Em meio a tanta desilusão e miséria sofrida, o ser humano busca refúgio, muitas vezes, na religião. Quando não encontra uma estrutura religiosa de bom censo ético, se tem mais um órgão que aproveita do povo e de sua ingenuidade. Muitas seitas como podemos notar em nossos dias que se aproveitam dessa ingenuidade para arrancar seu dinheiro suado, pisoteia e tripudia da inteligência das pessoas.

Se nos apegarmos demasiadamente ao passado corremos o risco de ficarmos imóveis perante a realidade da vida sofrida e não avançar na história. Com isso, se ficarmos preso no passado, apegado as lamurias, corremos o risco de não avançarmos na construção de um agora melhor, de um futuro melhor, pois estaremos inertes no mundo, sem pesar e sem razão. Correríamos o risco de não perceber essas atrocidades que nos são impostas A irracionalidade em entender a vida como virtude ética talvez seja a real calamidade humana. Poderíamos ate considerar pequenas deficiências que desvirtua ou torna virtuoso o ser humano.

As atrocidades do mundo causadas pelo seres que nele habitam, podem ser superadas com a prática das virtudes. O ser humano que vive e prática as virtudes, para ter uma vida feliz, pode ser capaz de superar essas intempéries causadas pelo egoísmo e maldades humanas. Se verdadeiramente, como diz Aristóteles, ser capaz de manter uma alma nobre. Não de aceitação as moléstias sofridas pelos outros, aceitando o caminho da infelicidade, mas por ser capaz de se manter firme no propósito das virtudes éticas.

Podemos ser capazes de fazer da miséria uma vitória contra a injustiça, ou então do sofrimento um escudo poderoso contra a vingança e prepotência humana. Não poderiam ser capazes as maldades e injúrias do mundo de nos arrancar a nobreza da alma.

A partir das escolhas que fazemos tornamos a realidade em que vivemos o que ela é de fato. Se formos realmente senhores da história pelo fato de poder fazer escolhas com base na ética, então, somos capazes de encontrar o sentido da própria vida. A pergunta para todo esse viver do ser humano, para toda busca que faz, seria a felicidade. No fundo de toda busca do ser humano seria a busca da própria felicidade. Tanto a busca do conhecimento, o sentido da vida, a origem e fim de todas as coisas, tudo passa pelo propósito de ser feliz. Encontrar Deus, explicar as realidades metafísicas, seria a busca da felicidade. Ate mesmo a própria busca de si, a tentativa de se encontrar com o eu desconhecido que muito interroga, seria a busca de ser feliz. Na realidade dos fatos o ser humano busca encontrar a verdadeira felicidade. A pergunta agora não poderia ser mais a origem das coisas, o conhecimento, o ser e o não ser, mas poderia ser: o que é e onde está a felicidade? A partir daí poderíamos chegar a um fim.

Deveríamos passar a observa no nosso dia de cada dia, o que rege este dia, o que nos impulsiona ao percorrer do dia. Neste modo de ser e pensar, podemos direcionar nossas atitudes mediante os acontecimentos de cada dia. Se por um acaso dependêssemos apenas de aceitar nosso dia como algo já projetado e determinado pelo suposto destino, não poderíamos mais decidir o que fazer com o nosso dia. Se por um acaso alguém disser que o destino dela é ser malévolo para com os outros e tudo mais que esta ao seu redor, não teria sequer a atitude de tentar mudar tal coisa, pois, estaria acreditando piamente no suposto destino. A maldade seria disseminada sem nenhuma reserva de culpa, pois, sua consciência acusaria o destino como autor determinante de sua vida. Nos somos autores desta vida que temos, somos dirigentes deste dia que nos foi presenteado. Não poderíamos nos omitir perante nossos desejos, vontades e decisões. Cabe a cada um determinar e reger seu dia, somos “homo sapiens”, seres intelectuais, temos conhecimento e decidimos conhecer. O suposto destino não passa mais uma vez de uma desculpa conveniente para aliviar nossa consciência e responsabilidade de nossas ações.

Cada um de nos poderia muito bem ficar estagnado esperando que o dia aconteça, passe diante de seus olhos sem nada fazer. Mas o que seria aproveitar este dia que nada foi feito? Poderíamos fazer o melhor de nós mesmos, dá o melhor de nós mesmos, para que não fosse mais um dia em nossas vidas, mas ó dia em nossas vidas. Podemos ser melhor, podemos fazer o melhor, podemos reconstruir o que foi destruído ou espera por muito para ser construído. O bem pode partir de nossas ações éticas, do melhor que temos. Aceitar a vida é fazer com que ela seja melhor a cada dia de nossas vidas, sem esperar por destino e impulsos externos. Seria como esperar que só os outros pratiquem a caridade, só os outros que deveria fazer o bem, o melhor de si e serem éticos. Somos e deveríamos ser participantes ativos da vida de cada dia que nos é presenteada.

Não podemos saber se cada minuto que se passa é o nosso último minuto, mas poderíamos aproveitá-lo como se fosse o último de todos os minutos, de todas as horas e de todos os dias vividos ate então. Precisamos aproveitar o que recebemos de maneira tal que seja o melhor de todos os outros dias e minutos e horas de nossas vidas. Precisamos amar cada segundo que nos é creditado em nossas vidas todos os dias. Precisamos amar cada atitude que tomamos, cada decisão como se fosse a última de nossas vidas. O poder de amar estes momentos nos faria talvez pessoas melhores. Poderias amar mais, aproveitar mais o que nos foi dado, descobrir coisas novas, aprender mais e desfrutar mais deste mundo. Está mais presente com as pessoas de quem gostamos, os lugares que gostamos e as coisas de que gostamos. Talvez não pudesse ter tempo para fazer ou praticar o mau, pois o tempo seria precioso para que o perdêssemos com coisas que fere os outros e ao mesmo tempo nos fere também.

Sendo o ser humano sociável tem a necessidade de criar uma vida nova, na qual é preciso às vezes cortar o cordão umbilical que nos liga a família. Isto não quer dizer esquecer a família, mas está pronto para projetar e caminhar com as próprias pernas. Temos a necessidade como os pássaros que voam assim que crescem as asas, voar sozinhos e as vezes retornar ao ninho. Não podemos despejar no mundo nossas frustrações quando tudo não saem como queremos que fossem. O mundo e as pessoas não têm culpa que a família não estava estruturada, que o pai não amou, que a mãe não amou o filho. Não podemos criar a partir disso um motivo de gerar o mal em nós ou passar a ser maus com as pessoas. Podemos mostrar que somos mais que qualquer obstáculo que nos impede de ser melhores.

Seria fácil dizer que o mundo proporcionou que eu fosse intolerante, egoísta e mal para com os outros. Muitas das vezes alegando não ter tido uma família como suporte, alguém para orientar e dizer o que é certo e ético. Mas nós somos capazes de escolhas, da mesma forma que escolhemos agredir sem perguntar, pois é mais fácil tirar a força o que é do outro do que se sacrificar para obter o que quero com o trabalho. Somos responsáveis pelo que somos, pelas decisões que tomamos e pelo que fazemos para com os outros. Podemos ser melhores, podemos escolher o melhor.

A oportunidade esta em cada ato que praticamos e em cada ação realizada de nossa vida. Mesmo que não tivemos uma família como deveria ser, isso não nos determina como devemos ser. Escolhemos o que queremos ser, temos projetos, temos escolhas. Mesmo o mundo não ajudando para o que quero ser, posso manter minha essência de ser, posso ser bom mesmo não sendo o que quero, mesmo não conseguindo o que quero. O mal é construído, realizado, praticado a partir de minha própria vontade irracional.

Um pássaro quando pequeno é empurrado do ninho de altura muito assustadora para seu tamanho, e sabe que é a ora de aprender a bater as asas e voar, pois assim garantirá a sua própria vida. Não podemos esperar que o tempo e a vida nos empurrem para que descubramos que podemos fazer o que espera do futuro. É o agora que é a ora de abrir as asas e voar sozinho. No voar conhecerei minhas limitações e saberei ate onde posso ir, ate onde minhas asas suportarão me levar. Então saberei ate onde minhas asas podem me levar e se reconheço minha estrutura que foi formada na família. Saberei que pude suportar os fortes ventos que me atingirão ao voar. Conhecendo o que sou e quem sou saberei que a vida pode e tem estações de calor e frio, ou seja, dificuldades que saberei resolver e conviver.

O pássaro sabe se agüenta uma brisa ou um temporal em suas asas, também podemos descobrir que somos capazes de ultrapassar nossas limitações e sermos mais resistentes em meio às mazelas da vida. Quando uma árvore se curva diante do forte temporal e se deixa dobrar pela sua força devastadora, a árvore consegue se reerguer assim que passa o forte temporal. E mesmo com as raízes abaladas consegue se manter no chão e viva. Mas a árvore que não se dobra ao temporal e se mantém rígida e imóvel, logo é arrancada, quebrada ao meio e lançada para longe com toda força do temporal.

Assim, é o homem que sabe trilhar seu caminho no bem e sabe o momento que deve se dobrar, nas situações difíceis da vida, sabe se colocar de maneira flexível diante das dificuldades e circunstâncias da vida. Sobreviverá para passar a experiência para os outros, sobreviverá para saber que a vida é feita de climas fortes e secos. Mas quando não se reconhece e não demonstra um pouco de bondade, humildade diante os valores da humanidade, logo é arrastado para o primeiro furacão que passa, e é quebrado no abismo da exclusão social.

A vida ilibada, ética e acética pode nos ajudar nos “problemas” de necessidade e vontade. Podemos considerar as necessidades e vontades como espaços a serem preenchidos e trabalhados por virtudes como a própria liberdade. Podemos escolher a reflexão como meio de chegar a um pensamento livre e ético, capaz de fazer escolhas com racionalidade.

Podemos considerar aqui a reflexão ética como um ato expressivo concreto da racionalidade virtuosa do ser humano. A reflexão para ser assim chamada, pensamos que pode partir da raiz da coisa, do mais profundo. Para partir da raiz e do profundo do ser, pode ser que seja necessário para o ser humano ter sensibilidade. Desta forma seja necessário partir da inteligência, inteligência que utiliza o conhecimento ético, podemos dizer que seja sabedoria.

Possivelmente seja do conhecimento que brota a sensibilidade no ser humano, uma capacidade de sentir medo, dor, alegria e outros mais. Talvez a reflexão possa agir de forma rigorosa e abrangente; com visão crítica e coerente dos fatos; trazendo-nos a luz da ética indagadora, que de maneira flexível e consciente, seria possível tornar o ser humano mais livre. Sendo uma ação refletida e racional do ser humano, pode ser este o melhor caminho para uma escolha acertada.

A liberdade de escolha pode possibilitar a escolha de obedecer à necessidade e a vontade. Sendo a liberdade capaz de conduzir o ser humano a uma vida acética, uma vida baseada na reflexão dos seus atos e modo de viver. Livre das vontades desordenadas que podem fazer mal não só ao corpo como também a própria alma.

A felicidade está no alcance de todos, não apenas de uma racionalidade intelectiva, mas de uma vida virtuosa e com vivência prática da sabedoria ética. O mesmo se poderia falar sobre a virtude, ele é para todos, todos podem ter acesso. “A virtude não é vetada a ninguém, é permitida a todos, acolhe a todos, chama a todos a si, livres, libertos, escravos, reis, êxules. Não escolhe a casa ou patrimônio, contenta-se com o homem nu (nudo homine)”. (REALE, 1994, p. 345).

Se a virtude é uma sabedoria ética e prática, ou seja, não é apenas uma ação racionalista presa a um esquema teórico matemático de pensar. Podemos dizer que a virtude não é algo só para os mais letrados de inteligência elevada, mas para qualquer pessoa que se deixa ser conduzido pela razão prática e virtuosa. Podemos dizer que o difícil é aprender viver, pois viver é algo que deve ser simples, algo que todos podem fazer com clareza de retidão.

 

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