Comentário – Realidade, Ensino e Filosofia

Blog

A leitura e a escrita proporcionam o exercício da reflexão e o desenvolvimento da capacidade de pensar. A leitura, enquanto meio de uma prática que pressupõe o diálogo com a tradição filosófica, instiga o desenvolvimento de habilidades como a escrita, pois há uma implicação proporcionada por tal diálogo em que a mesma facilita o processo de ensino-aprendizagem nos mais diversos níveis de escolaridade.  Neste sentido, tem-se problematizado de que modo as mesmas estão sendo desenvolvidas, e se têm proporcionado efetivamente uma dimensão de autonomia, criatividade e criação do próprio saber filosófico mediante a produção de textos.

Algumas questões se sobrepõem não só no ensino de Filosofia mas em qualquer âmbito do ensino. No texto de Walter Kohan, Sobre o ensinar e o aprender… Filosofia, surgem questões como: (1) ensina-se algo quando se diz que se está ensinando? (2) será que alguém aprende algo quando um outro está ensinando? (3)e ao ler O que isso, a Realidade (de João-Francisco Duarte Júnior)? De que realidade está-se falando? Existem várias realidades, planos de realidade, níveis de realidade?

Um processo de ensino-aprendizado de Filosofia é parte de uma desconstrução de realidades, se se tratar os alunos como indivíduos, para uma construção de uma realidade distinta daquela que estão inseridos, ou acostumados: o mundo cotidiano. Na leitura de Realidade percebe-se que a construção do real é feito com a apropriação da linguagem, dos símbolos que determinam o que é a realidade em que se está inserido, quanto mais linguagem, mais símbolos mais signos — que é a decodificação da realidade para os observadores externos, — mais realidade é apropriada, ou, dizendo de outra forma, adquire-se conhecimento, internaliza-o, constrói-se.

Portanto partindo desse pressuposto, possuindo maior quantidade de signos, mais conceitos para explicar as coisas, melhor conseguiremos nos relacionar com as diferentes realidades que se apresentam para nós e, consequentemente, poderemos de outras formas explicá-la. Pois o que determina a consciência da realidade é dado em três momentos da institucionalização: primeiro o ser humano cria a realidade; no segundo momento a realidade se desliga do ser humano, torna-se objetiva, reificada; e em terceiro, no processo de aprendizagem, o ser humano torna-se produto do que ele mesmo produziu, sendo tudo a ação de um sistema lingüístico, é dentro deste processo que se dá a formação das instituições.

As instituições são normatizadas, legitimadas e nesta legitimação existem quatro níveis de conhecimento: um primeiro nível pré-teórico, um segundo contendo proposições teóricas, terceiro de especialistas de um corpo de conhecimentos e um quarto nível, e acredito ser o mais importante, o Universo Simbólico onde não existem alusões á vida cotidiana. O que realço é a estreita ligação deste Universo Simbólico com processo educacional, mesmo não possuindo uma referência com o cotidiano ele é a forma de explicar a realidade seja ela mitológica, religiosa, filosófica ou científica. Dentro desta questão a aprendizagem aparece como forma de socialização, ou como classificou o autor, como “processo de aprendizagem da realidade” , sendo eles socialização primária e socialização secundária, tendo maior importância a primária pois é a que se dá dentro da família, e a que formará o indivíduo por toda sua vida, estando ele carregado de “alta dose de afetividade”. Já o a socialização secundária marcada por uma menor quantidade de afetividade. E é neste processo secundário que se dá a ação dos professores e talvez por isso é tão difícil. Atualmente o processo de ensinar simbolicamente está cada vez mais afastado do cotidiano, mas aqui aparece um paradoxo: não seria este o sentido do ensino, afastar do cotidiano para refletir sobre ele?

Como as questões suscitam mais e mais questões. Por exemplo uma afirmativa Walter Koham, no texto em que ele afirma não existir método para ensinar, escreve ele: “Não há métodos fórmulas, técnicas para ensinar”. Isto me lembra um texto de Nietzsche onde ele diz que pode se chegar um dia na sala de aula e não ter nada para falar, pode ser um dia daqueles em que não nos sentimos bem e temos que falar de Filosofia, de História ou qualquer outra disciplina, como fazemos se temos que seguir um método? É evidente que podemos até seguir algum método, mas ele não pode se tornar um dogma. Mesmo que não possuir um método possa ser considerado “método”, é essencial que na educação se trabalhe com a contingência.

Seguindo as questões do texto Epistemologia da Educação, de Gilberto Krombauer, onde ele explicita claramente as questões referentes ao método e a realidade objetiva, no processo de aprendizagem, voltando ao Kohan, o que menos importa é o método pois se a realidade é composta de várias realidades, aqui entendida que pode ser compreendida de muitas formas, o método apenas vai direcionar o conhecimento para uma determinada direção, para um lugar já definido sem um questionamento, apenas com um objetivo já definido anteriormente é por isso que o perguntar é importante. O saber perguntar é o que faz do diálogo o momento filosófico por excelência, pois é no perguntar, sem ter uma resposta já definida ou com um objetivo já dado pelo método, é onde acontece o processo dialético do conhecimento e por conseqüência da realidade, é o perguntar para o diálogo que se pode, acredito, inverter os processos já institucionalizados de aprendizagem e, por que não, usando um termo de Giovanni Reale, desmitizar, os “universos simbólicos”.

1 Sobre o ensino da filosofia

De acordo com Celso Candido, em referência a Immanuel Kant, filósofo alemão, “nós não aprendemos filosofia, simplesmente porque não há nada para aprender. E se nada há para aprender tampouco há algo a ensinar”. Segundo o mesmo professor, a filosofia não é um corpo de conhecimentos bem definidos e acabados, o qual os professores deveriam ensinar e os alunos aprender. A filosofia é uma disciplina não acabada, em construção permanente,ela é um sistema em evolução e contradição perpétuo e que só se aprende no seu exercício, ou seja, pensando por si mesmo. A prática do ensino da filosofia consiste na prática de um diálogo que envolve o pensamento livre e autônomo. Trata-se de ensinar o pensamento livre, o amor ao pensamento autônomo. Ensinar fazendo (filosofia). Um ensinar a aprender o tempo todo. Ensinar filosofia é ensinar a arte do diálogo, um diálogo que permita uma reflexão de si e do outro. A filosofia tem a função de interdisciplinaridade, estabelecendo o elo ente as diversas formas do saber e do agir. Quer superar o conhecimento fragmentado das ciências, o saber parcelado, para resgatar o homem na sua integridade, restabelecendo a visão de conjunto. A Filosofia é movimento, pois o mundo é movimento. As perguntas são mais importantes que as respostas e cada resposta transforma-se numa nova pergunta. Ela provoca o desvelamento do que está encoberto pelo costume, pelo poder, pelo convencional. O filósofo sai em busca, não do valor da ação, mas do significado dela.

 2 Sobre o ensino da filosofia

Se você examinar algum manual de introdução a Platão, a Aristóteles ou a qualquer outro filósofo verá que as preocupações essenciais de seus autores são três. Primeira, reconstituir o quanto possível a unidade sistemática do pensamento do filósofo, expondo-a numa ordem lógica mais direta do que aquela que se encontra nos seus escritos. Segunda, assinalar as mudanças de rumo eventualmente observadas na evolução intelectual do filósofo em direção a essa unidade. Terceira, relacionar de algum modo o pensamento dele à cultura e à sociedade do “seu tempo”. O sistema filosófico é assim enfocado sob três aspectos: sua estrutura lógica, a história da sua formação e suas raízes no ambiente humano em torno.

Essas três coisas são importantes, mas há um porém: você pode estudá-las pelo resto dos seus dias e não chegar a compreender grande coisa da filosofia do filósofo, ao menos tal como ele próprio a compreendia.

O problema é que essas modalidades de estudo tomam a filosofia de fulano ou beltrano como objeto de sua investigação, ao passo que nenhuma filosofia surgiu como objeto de investigação de si própria e sim como canal para a investigação de alguma outra coisa.

Aristóteles jamais estudou “filosofia de Aristóteles”. Estudou os meteoros, a fisiologia animal, o funcionamento da psique, a estrutura do discurso, os princípios da validade do saber, a organização das sociedades políticas, as metas da vida humana, a constituição do universo e a natureza de Deus.

Se você não olhar diretamente para essas coisas, tirando suas próprias conclusões e comparando-as com as de Aristóteles, pouco entenderá destas últimas. Sua visão de Aristóteles será tão falseada quanto a de alguém que quisesse julgar a narração de uma partida de futebol sem levar em conta se ela corresponde ou não ao que efetivamente se passou no campo.

Toda filosofia, afinal, não é mais que a exposição de um conjunto de atos intelectivos realizados por um indivíduo que queria saber alguma coisa sobre algo que, decididamente, não era a sua própria obra filosófica. Só a revivescência pessoal desses atos, com foco nos mesmos alvos a que se dirigiam originariamente, permite apreender a filosofia in statu nascendi, isto é, não como produto cultural acabado, estratificado, congelado, mas como atividade real e vivente da inteligência humana no confronto com os dados da realidade.

Fora disso, você pode aprender algo sobre filosofia, mas não aprender filosofia.

É claro que, de vez em quando, será preciso retornar dos objetos da filosofia à própria filosofia tomada como objeto, para averiguar se as conclusões do filósofo conferem com outras conclusões enunciadas por ele em outras partes do seu sistema, ou se estão em acordo ou desacordo com as teorias de outros filósofos. Mas é evidente que esta é uma atividade apenas de controle, de importância derivada e secundária. Esse controle é como olhar no espelho retrovisor: é uma coisa útil para você dirigir um automóvel, mas ninguém pode dirigir um automóvel mantendo a atenção fixa no espelho retrovisor o tempo todo, sem nunca olhar para a frente.

Ou a filosofia é um saber, ou é apenas uma atividade lúdica sem propósito.

Se ela é um saber, é um saber a propósito de algum objeto que, evidentemente, não pode ser somente ela mesma.

Os antigos estavam mais conscientes disso do que os modernos estudiosos de filosofia. Por isso preocupavam-se pouco com os sistemas filosóficos enquanto tais – seja considerados do ponto de vista estrutural, seja evolutivo, seja cultural e sociológico -, mas buscavam sobretudo testar, no confronto com os objetos, a veracidade ou a falsidade do que esses sistemas diziam a respeito. Esse método pode parecer ingênuo e primitivo desde o ponto de vista das técnicas eruditas altamente sofisticadas que hoje se empregam para estudar filosofia. Mas nenhum acúmulo de técnicas e de sofisticação pode substituir uma atitude cognitiva apropriada ao objeto.

Essa arte, esse talento de ajustar o foco é exatamente o que vem se perdendo na sofisticação crescente das técnicas, e que os antigos possuíam em abundância. Por isso é que, no meio de tantos estudos que a cada ano se produzem sobre Aristóteles nas universidades do mundo, pouquíssimos são de leitura tão proveitosa quanto os velhos comentários de Sto. Tomás, de Duns Scot ou de Avicena.

Não deixa de ser curioso que uma das críticas convencionais ao universo intelectual da Idade Média consista em chamá-lo de “livresco”. Não há nada mais livresco do que tomar uma obra filosófica como objeto em vez de olhar para as realidades de que ela fala – e essa inversão de foco é a definição mesma de muitos dos métodos aprimoradíssimos que os modernos substituíram aos medievais.

Reflexão Filosofia

Existirá algo como o saber moral? Existirá o progresso moral?  Estas perguntas não podem ser respondidas a partir da ciência, da religião, da metafísica ou da lógica. A resposta deve provir da nossa própria perspectiva moral.. Com efeito, existem inúmeras verdades modestas de que estamos perfeitamente seguros: a felicidade é preferível à miséria; a dignidade é melhor que a humilhação; é mau que as pessoas sofram, mas é bem pior que a cultura vire as costas ao sofrimento; a morte é pior que a vida; é melhor esforçarmo-nos para alcançar um ponto de vista comum que manifestar um menosprezo tendencioso por ele. Simon Blackburn

 

 

“O ensino da filosofia não precisa ser complexo, intricado. Tem a ver com curiosidade, a mania de fazer perguntas, algo que perdemos na cultura ocidental quando envelhecemos.” Jostein Gaarder

 Baixe Livro:

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s