Uma Breve Releitura dos Filósofos do Século XIX

Transcendencia

A grande maioria dos filósofos do século a que me reporto, e em especial na Alemanha, desenvolveram as suas ideias assentes nas obras de Kant explorando em particular o idealismo e a ética que exibe uma tradição filosófica baseada com grande ênfase na vontade-desejo do Ser Humano. Enquanto antes de Kant os filósofos tenham analisado, explorado e desenvolvido os objetos do conhecimento, posteriormente os filósofos integrados na via idealística kantiana enveredaram na matéria do conhecimento desenvolvendo ideias como as do ego, do eu e do Eu, a mente e a consciência humana. Claro que a partir daqui surgiram inúmeros absolutistas como Johann Gottieb Fichte, Friedrich Wilhelm Joseph von Schelling tendo este liderado o movimento conhecido como Romanticismo e Ralph Waldo Emerson, poeta e ensaísta americano. O primeiro transformou o idealismo crítico de Kant num idealismo absoluto transformando a ideia das coisas no seu conteúdo-contexto no ego como última e máxima realidade. Desta forma para Fichte, o mundo foi criado por um ego absoluto o qual, por sua vez, no início apenas tinha consciência de si próprio e à medida que a criação se desenvolvia a sua consciência ampliava-se ao ponto de tomar conhecimento do não-eu ao ponto de poder distinguir as variedades contidas no mundo; para este filósofo a vontade humana não é mais do que uma manifestação parcial do ‘ eu ’ que concede aos seres a liberdade de agir.

Já o segundo, Schelling, penetrou ainda mais fundo no idealismo absoluto afirmando a construção dos objetos ou cousas fruto do trabalho da imaginação ao ponto da Natureza ser um único Ser do ponto de vista do cariz espiritual. O terceiro, Emerson, baseia a Iluminação não na razão mas na sua fé do sentir coadjuvada pela imaginação criativa.

Sem discussão, a mais poderosa mente filosófica do século dezenove foi Hegel cujo sistema do idealismo absoluto, de sobremodo influenciado por

Kant e Schelling, assentou numa nova concepção tanto da Lógica como dos Métodos filosóficos. Este filósofo alemão acreditava que a verdade absoluta, ou realidade, não só existe como a mente humana se encontra apetrechada para a abarcar através do conhecimento porque «tudo o que é real é racional»; dunqüé, como matéria filosófica parte da concepção da realidade como um todo, isto é, da realidade a que ele se reporta como Espírito Absoluto ou razão cósmica abarcando esta ideia todo o mundo da experiência humana seja ela subjetiva ou objetiva. No cerne destas concepções o filósofo determina-se no planear toda uma ação que lhe permita desenvolver a partir do abstrato Espírito Absoluto tomar os seres indiferenciados a fim de os inserir cada vez mais na realidade através de um processo diabético o qual consiste num método no qual as ideias em conflito se resolvem através de tríades a vários níveis. Cada tríade envolve a Tese a qual consiste numa ideia ou movimento e este é o primeiro estágio; o segundo aspecto desta tríade consiste na Antítese (opositora ao estágio anterior; por fim, o terceiro e mais elevado estágio a Síntese que Combina os elementos dos dois primeiros estágios opostos e permite o concluir um novo e superior Arranjo. Desta forma a Síntese torna-se a Tese da tríade seguinte… este processo sem fim é que, segundo Hegel, permitirá progredir no caminho até ao Ideal e dado a profundidade deste sistema diabético o filósofo apela que esse sistema deva ser aplicado a todos os campos do conhecimento: tanto na ciência como nas letras e nas artes.

Na época a que nos reportamos as discussões históricas de Hegel possuíam uma força inegável porque continham como contraforte a filosofia política e social mais tarde desenvolvida por Karl Marx o que não é de estranhar uma vez que o filósofo alemão no cerne do Espírito Absoluto defende e demonstra que através da Dialética se pode observar, estudar e concluir o but da Razão de ser dos conflitos, das guerras… enfim, do crescimento e queda das civilizações e como de estúpido não tinha nada,

reforça a real entidade política dos estados como manifestações do Espírito no mundo tal como reais participantes-causadores da História. Para Hegel em cada época um Estado gera – ou torna-se agente de -, um avanço espiritual adquirindo para si o Poder mas porque a Dialética inclui em si a oposição e o conflito a guerra pode tornar-se eminente tornando-se, portanto a avaliadora evidente da saúde de um ou vários Estados. O que parece Hegel avaliar no conceito de Estado a manifestação do Espírito Absoluto, só para distraídos ou para leitores na-diagonal, fez com que muitos acreditassem ter sido ele a fonte do totalitarismo quando nos seus documentos advoga e desenvolve amplamente a importância da Individualidade do Ser… o seu conceito de Estado no âmbito do Espírito Supremo apenas o acusa no foro histórico e social quando tende a entrar e permanecer nesse totalitarismo baixo domínio de classes.

Quem rejeitou amplamente as teorias de Hegel em relação à fé na razão como matéria para o progresso foram Schopenhauer e Nietzsche tendo este último também e posteriormente repudiado a negatividade e a

atitude resignada de Schopenhauer.

Arthur Schopenhauer assentou na ideia da existência ser fundamentalmente irracional e por isto uma expressão cega de força inútil baseada apenas no desejo-vontade: o desejo de viver, o desejo da reprodução e assim sucessivamente ao ponto de expor o desejo-vontade como sujeito a uma constante luta inglória plena de desapontamentos e sofrimento. Este nosso filósofo, no entanto, oferece-nos dois caminhos amplos a fim de nos permitir escapar do desejo-vontade irracional: a contemplação da arte com o fito de nos libertar das agruras e durezas da vida tal como a renúncia ao desejo-vontade o que passa por deixar de lutar na busca pela felicidade. Observa-se aqui uma forte influência da filosofia indiana… aliás, ele é considerado um dos primeiros filósofos ocidentais influenciado por esse modo de vida do Extremo Oriente; por exemplo, o pensamento budista surge nos seus documentos na tentativa de demonstrar que o mundo se encontra pleno de maldade e de sofrimento fatos que só podem ser ultrapassados através da auto-renúncia. A partir de aqui Schopenhauer envolve-se numa psicologia analítica sobre as forças irracionais que dominam o Ser formando uma escola afim que pretende enfatizar as causas em função das nossas opções tal como estudos sociológicos com o fito de examinar os fatores que afetam as pessoas e, por fim, desenvolver as atitudes culturais que deverão destruir o valor da razão na vida.

Já Nietzsche, contrapondo Schopenhauer, afirma o valor da vitalidade, da força e da supremacia de uma existência a qual é puramente egoística e por isto, passa a desprezar as ideias cristãs e democráticas assentes na igual dignidade dos seres humanos o que, segundo ele, apenas se podia aplicar a um pequeno grupo de aristocratas possuidores do poder que lhes concedia a  recusa da sujeição quer a um Estado ou a uma causa conseguindo mesmo assim alcançar o reconhecimento da grandeza e da auto-realização.

Para Nietzsche era no poder de ser-se forte que consistia o maior valor da vida e mesmo reconhecendo o valor do gênio superava o dos ditadores, foram as suas crenças que ajudaram a contribuir para o desenvolvimento das ideias do Nacional Socialismo Nazi. Porém, este nosso filósofo é de sobremodo difícil de entender… por um lado contribuiu a sua anomalia mental em parte de origem hereditária e por outro o abuso de soporíferos o que veio agravar o seu estado de sanidade mental ao ponto de o conduzir à morte.

Toda a sua vida foi recheada de oscilações de opinião em cuja fase inicial tanto se apresenta um filósofo em determinados documentos, mas alterna com estes grandes fases de imaturidade. É inegável que como escritor e pensador se tornou um dos mais notáveis impressivos estilistas do século XIX pelo caráter lírico do seu pensamento e da sua prosa.

Na sua grande e forte relação com Wagner, para exemplo da sua inconstância mental, tornou-se um ardoroso partidário das doutrinas

estéticas de Schopenhauer… neste período breve, onde a sua imaturidade se exibiu de sobremodo, sustentou a tese (In A Origem da Tragédia), de que tanto os motivos dionísicos-orgiáticos como os apolíneos (ordenadores e harmonizadores), contribuíram para o nascimento da tragédia ática; tal até se pode constatar hoje pois, contrariamente aos atenienses e à sua decadência prevaleceu Esparta pela sua cultura frugal estabelecida no seu grande documento-bíblia: a Paideia.

Nestes mentais moods Nietzsche desentende-se com Wagner – porque este perante as audiências pretende êxitos imediatos -; do mesmo modo e sem se poder concluir bem o porquê corta radicalmente com Schopenhauer induzindo-se numa total descrença em relação ao cristianismo. Acusa a Ética tradicional cristã no que concerne aos ideais da humanidade ao cúmulo de, deificando a paixão, desprezar a racionalidade; por outro lado, decide sustentar que a falsidade de uma opinião não é objeção válida contra ela no caso de tal opinião ser vitalmente útil e de que as mais falsas opiniões são por vezes as mais úteis. O ideal de Nietzsche vai-se modificando-ampliando e passando pela satisfação dos instintos vitais rapidamente alcança a necessidade de dar expressão à vontade de dominação e poderio porque o homem moral que vive para os outros apenas se exibe como um fraco… um degenerado; agora, o egoísta o senhoreador aquele que ergue sobre os outros o seu domínio é o verdadeiro ideal humano, o super-homem.

Em 1889 o nosso filósofo entra em estado de completa insanidade mental – estado que o conduzirá ao fim dos seus dias -, porém e entretanto, sob os cuidados da sua irmã torna-a porta-voz tal como suprema sacerdotisa do seu culto. E se tanto me debrucei sobre Nietzsche é porque ele traduz todo conceito da Paideia: o melhor é o forte… Dizer que este filósofo foi o contributo base para o Nacional Socialismo é desconhecer o Rosa-Crucianismo o qual com toda a sua argúcia elevou a tônica do arianismo, da raça pura enquanto e paralelamente cediam toda uma simbológica secreta que espantou o mundo, junto com a música de Wagner, pela proeza concedendo a completude da força da propaganda Nazi.

Num sistema completamente alheio aos atrás expostos mas dentro do espírito da Revolução Industrial, surge um novo princípio ético: o Utilitarismo assente no Aquilo que é útil é que é bom. Nesta cena surgem dois economistas, também filósofos, a saber: Jeremy Bentham e John Stuart Mill… este último não só ampliou como refinou esta doutrina. Por comparatividade dos argumentos de Kant que estabelecia o princípio racional de que a lei moral era superior ao desejo individual, estes senhores afirmaram que os úteis exigem o princípio ético da utilidade ser superior aos interesses da individualidade e, baixo este conceito, as pessoas entenderiam a necessidade de ser governadas. Estes Utilitarianistas assentaram os seus fundamentos na teoria de que cada um ambiciona a sua felicidade; ora, como as pessoas só a podem encontrar no seio da sociedade logo e consequentemente todos possuímos um interesse na felicidade geral, por isto, de acordo com a produção assim se torna a grandeza da felicidade não só pessoal mas e acima de tudo da comunidade e ao torná-los felizes mais útil a sociedade se torna. Se Bentham acreditou na possibilidade de quantificar as alegrias e os prazeres resultantes da ação de cada um tal como de uma comunidade concedendo-lhes o direito, a qualquer altura, de decidirem aquilo que lhes poderia promover o maior acumulo de alegria e felicidade já Mill em grande parte não aceitou tal ideia.

Mill baseou os princípios do Utilitarismo para o fim da justiça social de modo a que o princípio da utilidade influenciasse a legislação com o fito – o que realmente conseguiu -, de a ampliar social e economicamente… e desta forma grandes reformas surgiram na Inglaterra.

A segunda reação a Hegel digna de consideração proveio do filósofo dinamarquês SÆren Kierkegaard (1813 – 55) que desenvolveu uma filosofia da vida muito distinta – o que para muito contribuiu o seu curso de Teologia-, dos autores atrás focados sendo este filósofo geralmente relembrado como o fundador do Existencialismo. A sua reação a Hegel foi dura ao ponto de considerar as suas teorias um anátema uma vez que,

segundo o seu ponto de vista, não tomou em consideração a existência tal como a natureza pessoal de Deus; ora, a relação do Homem com Deus é o tema-tese fulcral, o dominante, nas obras do nosso filósofo dinamarquês. Por exemplo, na sua obra Either/Or (1843), Kierkegaard exibe ostensivamente que apenas existem duas vias para a vida: a da Estética e o da Ética; porém, acaba por sugerir que o final das duas era definitivamente para serem rejeitadas a favor de uma terceira via… a mais importante: a Religião. É na realidade um trabalho muito curioso que tem muito a ver com a obra de Mozart Don Giovanni;  para tal dois personagens foram criados pelo nosso filósofo o qual os integrou na obra do grande músico para os seus fins de análise-interrogação-conclusão: o personagem A que personifica o modo estético de vida do grande compositor e o personagem B que critica sistematicamente o personagem A. Tudo se segue  através do Diário de um  Sedutor que afirma ter algo sido encontrado entre os papéis pertencentes a A, umas páginas que contêm os registos das relações entre Johannes o sedutor e Cordélia… o objeto da sedução. Essas folhas manuscritas descrevem os métodos adotados por Johannes e nas últimas duas páginas como ele obteve o que pretendia abandonando-a por completo por estar esgotado o seu interesse por ela; segundo as afirmações de Johannes, nessa última folha, ele garante que a conduziu e a introduziu na mais elevada esfera da consciência!

A Segunda parte do trabalho divide-se em dois sectores: o primeiro consiste em duas cartas que abarcam A Validade Estética do Casamento e O Equilíbrio entre o Estético e o Ético na Composição da Personalidade; o segundo sector é preenchido por um sermão cujo orador é um padre cujo nome não é especificado. As cartas (do primeiro sector da segunda parte), são escritas por B tecendo críticas a A mas o teor das mesmas revela que na realidade são escritas pelo juiz Wilhelm o qual visitou frequentemente A… quanto ao padre, esse fala a favor da religião.

Por Estética Kierkegaard entende a preocupação dos sentidos o que, para ele, implica o prazer e o erótico. A advoga o Método da Rotação o qual envolve o caminhar indiscriminado de um prazer para alcançar outro para só mais tarde voltar ao primeiro; porém e por sua vez, o juiz Wilhelm impõe o dever na perseguição da livre escolha tal como acontece na vida a qual possui um fim. Em relação a isto contrapõe a vida temporária de A o qual argumenta com o ponto de vista do eterno sendo ele que insere o fator escolha do either/or. O padre obsta sustentando-se no clássico-teológico pensamento «uma vez contra Deus encontrarmo-nos-emos sempre no erro (no pecado) », mas o juiz Wilhelm avança com a tese da livre escolha e do auto-domínio apesar de isto constituir in facto ídolos o que contribuirá para colapsar a relação entre os homens e Deus ao ponto de serem abandonados por Ele.

É notório, neste relato, como as ideias deste nosso filósofo nos exaustão na importância da experiência a fim de que o nosso pensamento intelectual alcance o julgamento do absurdo ao ponto de incutir-impor  experiências assentes na angústia e na ansiedade, tal como no medo e no terror com o fito, de acordo com o seu ponto de vista, de conduzir o ser numa primeira fase ao desespero e finalmente (tal como eventualmente), à fé religiosa. Johannes Climacus (o pseudônimo de Kierkegaard nesta ocasião), argumenta que um sistema filosófico como o de Hegel torna-se impossível por falta de sustentação porque não permite o tomar em consideração a existência atual uma vez que a verdade constitui-se na subjetividade; d’onde, a impossibilidade do funcionamento do sistema de Hegel, segundo o nosso filósofo, assenta na relatividade da ideia de verdade… Nietzsche corrobora com esta afirmação de Kierkegaard.

Algumas e mesmo muitas vezes se tem negado Karl Marx (1818-83), como filósofo…

porém, e pelo alcance-transformações que os seus documentos conseguiram ele tornou-se um dos maiores filósofos do século a que nos reportamos; ora, isto ninguém pode negar e mesmo pelo fato dos seus pontos de vista terem de sobremodo influenciado a política e a filosofia a partir de então… por isto, torna-se um absurdo o seu nome não constar em vários documentos da História da Filosofia.

Dentro da possível descontinuidade das obras de Karl Marx, tanto as iniciais como as  póstumas  (normalmente assentes no âmbito da Economia), muitos estudiosos puseram   em causa, tal como têm vindo a pôr, o como se pode estabelecer a distinção entre um Marx inicial e o das obras posteriores incluindo a tal hipótese de descontinuidade; porém, a opinião atual enfatiza a continuidade do seu pensamento filosófico o qual não Hegeliano foi profundamente influenciado por Hegel.

Karl Marx nasceu em Trier (Alemanha), mas apesar de se ter candidatado ao curso de Direito rapidamente se inscreveu em Filosofia aonde se associou, em Berlim, aos denominados

‘Jovens Hegelianos‘… neste movimento também se afiliaram Ludwig Feuerbach, Max Stirner e Engels sendo os Hegelianos liderados por Bruno Bauer. Cada vez mais inserido no movimento socialista é na sua ida para Paris que se denota o seu pleno envolvimento… em 1845 e dentro das ideias socialistas, dá início à sua cooperação e profunda amizade com Engels: Marx e Engels trabalharam em conjunto no Manifesto Comunista em 1848.

Possivelmente expulso de Paris deslocou-se para Brussel (Alemanha), aonde se tornou líder da Liga Comunista. Entretanto em 1844 Karl Marx torna-se um

profundo crítico das ideias de Feuerbach pelo fato do que este afirmara entusiasticamente sobre a religião e aonde considerava que as formas-teses materialistas não possuíam qualquer capacidade dialética o que significava que se encontravam despidas do ponto de vista histórico. Da mesma forma Freud criticou Feuerbach por este tentar demonstrar a essência do Homem como uma abstração em vez de o ver como uma soma da totalidade das suas relações sociais.

A reação de Marx contra Stirner é de certa forma idêntica dado este objetar à ideia da essência do ser humano no seu conjunto ao ponto de lançar a tese de um ego livre e independente o qual não só se cria como gera de per si os seus próprios pensamentos« que interessa isto ou aquilo… o que interessa é o de que se pode apropriar; o individual é o único porque eu não desenvolvo o homem mesmo sendo um homem, mas e isso sim, o Eu e o eu desenvolvo no eu-próprio ». Óbvio que perante esta tese Marx de imediato criticou um tal egoísmo como um produto da sociedade burguesa tal como o atacou por não reconhecer, em vez do fato das ideias egóicas serem as cousas determinantes, que as reais relações históricas é que são o fato e a causa determinante; d’onde, as ideias – segundo Marx -, são modificadas e determinadas pela vida o que implica o modo da produção e da inter-relação material.

Karl Marx sustenta o fato de haver momentos, fases, no desenvolvimento da autoconsciência os quais não são construídos baixo um idealismo Metafísico tal como Hegel proclamava; porém, a ideia da existência dessas fases é pura e essencialmente Hegeliana e é por esta razão que Engels, reportando-se a Marx, sustentou ter ele o Hegel excessivamente bem presente no seu pensamento… como que um trauma talvez provocado por ter pertencido à Juventude Hegeliana a qual por algum-demasiado tempo se dedicou a criticá-la pela falta de aprofundamento do materialismo a fim de lhes permitir o encontro da dialética materialista. No entanto e sob as fases acima focadas, o nosso filósofo afirmava a existência de várias: a primeira consiste naquela em que o homem se encontra absorvido na sua espécie-vida que consiste na sua natureza de trabalho… essencialmente o construtivo, revelando-se assim na sua execução a sua realidade; já na segunda fase o homem encontra-se envolvido numa alienação de si próprio e da sua espécie-vida o que implica a separação do ser em relação aos outros e tal como os outros alienados entre si… ele encontra-se finalmente alheado à própria vida – tal como os outros nesta fase… aqui as espécies-vida destes seres sujeitam-se meramente a um modo de existência física tendo como resultado a propriedade privada a qual é a expressão típica da alienação do homem. Por este meio os objetos adquirem um valor independente do trabalho que sobre eles se executou e, desta forma, o homem alheia-se da própria matéria tornando-se o objeto na exteriorização da sua consciência o que geralmente sujeita o homem a tornar-se um objeto tal como os objetos sobre os quais laborou; desta forma se exibe a segunda fase como a negação da primeira.

A terceira fase consiste – nos termos de Hegel -, na negação de uma negação e nisto se fundamenta o comunismo, segundo Karl Marx, o qual consiste na abolição da instituição da propriedade assentando inicialmente numa simples universalização da mesma no sentido de que as coisas são para ser trabalhadas e usufruídas por todos; ora, a completa abolição da propriedade eventual iria contribuir para a plena integração entre as coisas e as necessidades humanas fundamentais para a vida o que estabeleceria uma harmonia na relação entre as coisas e o ser. Mas Marx debruçou-se, paralelamente, nas barreiras estabelecidas entre os seres humanos condenando-as de sobremodo… mas tal pode ter sido uma resultante das fases dialíticas sobre consciência e auto-consciência somadas às fases da existência humana; sendo assim, observamos o nosso filósofo manter a ideia Hegeliana (típica no seu início), de que a história segue o modelo no qual a fenomenologia revela a ideia inerente às fases de desenvolvimento baixo as formas dos níveis de consciência. Porém, posteriormente Marx desagrega-se, segundo alguns analistas e comentadores, das ideias de Engels e passa a assumir a consciência tal como todas as suas formas notando como se tratarem de aspectos de uma ‘super-estrutura‘ que emerge (e só pode emergir), assente numa ‘base‘ econômica… na realidade, não existe aqui contradição entre o pensamento inicial do nosso filósofo com este último exibido, no qual apenas passou a expor a passagem de uma dialética teórica para uma aplicada; ora, se originalmente defendia que os fatores econômicos e as relações entre as coisas permitiam o emergir duma superior inter-relação da consciência, real e dificilmente – como alega à posteriori -, pode existir um ‘algo‘ que se interponha entre os fatos sociais ou econômicos e as relações tal como, por outro lado, entre as inter-relações da consciência.

A partir de aqui outros e posteriormente, começaram a desenvolver numa base científica as exatas relações entre a base e a super-estrutura afastando-se cada vez mais a filosofia e as teorias de Karl Marx do pensamento-atuação oficial Soviético.

http://foziberfilsecxix.no


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