”O nosso futuro depende da igualdade”. O novo mundo de Stéphane Hessel

Stéphane Hessel

Eu sempre desconfiei das previsões milenaristas. A natureza é tão generosa na sua abundância, perceptível na mínima partícula de grama, de terra ou de água, tão “polítropa”, segundo o epíteto que Homero atribui a Ulisses, “rica em astúcias”. Acredito que ela é capaz de evitar todas as armadilhas das suas criaturas.

Publicamos aqui um trecho da autobiografia de Stéphane Hessel, autor de Indignai-vos! (Ed. Leya Brasil, 2011). O texto foi publicado no jornal La Repubblica, 29-11-2011. A tradução é de Moisés Sbardelotto.

Eis o texto.

Há quem preveja uma grande “implosão” de toda a civilização ocidental, já incapaz de dar à poesia o lugar que lhe cabe. Fiz a pergunta ao meu anjo da guarda: “Você me preservou de tantos perigos, me concedeu tantas alegrias, me inebriou tantas vezes com poesia. Era para me impedir de ver a lepra que consome os meus semelhantes, o desencanto do mundo e a sua corrida à incineração final?”. Ele não respondeu, mas sorriu, como faz todas as vezes em que eu me dirijo a ele, desde a minha infância.

Eu sempre desconfiei das previsões milenaristas. A natureza é tão generosa na sua abundância, perceptível na mínima partícula de grama, de terra ou de água, tão “polítropa”, segundo o epíteto que Homero atribui a Ulisses, “rica em astúcias”. Acredito que ela é capaz de evitar todas as armadilhas das suas criaturas. Eu a percebo como o Goethe a retratou em um texto que eu reli muitas vezes e que se intitulaNatureza. Ela dotou o homem de uma prodigioso arsenal de neurônios e sinapses, do qual está bem longe de ter esgotado os recursos. Ele se serviu dele para construir catedrais e aerossóis, Wall Street e mísseis, campos de extermínio e cidades florescentes. O que está em discussão é a correta utilização desse arsenal, não o seu porte.

Durante o último quarto de século, assistimos a uma aceleração exponencial e cumulativa de cada ramo da técnica. Disso, brotou uma mundialização dos problemas, que causa um acesso febril à angustiante distância entre ameaças e promessas. Então, onde encontrar, no vórtice que levanta todas as coisas, uma mensagem de esperança para se opor à inquietação? No contato com aqueles que são os seus mensageiros. Ao longo da minha vida, eu encontrei principalmente pessoas desse tipo, homens e mulheres animados por convicções fortes, determinados a buscar e a encontrar um sentido para a corrida do tempo. Talvez o meu estrabismo moral não me permitiu sondar o seu lado escuro. Movo o olhar para longe daqueles que se afligem ou se resignam. Aquilo que me fazem ver não me interessa. É a minha doença.

Reconheço logo aqueles que proclamam a alegria de viver, e lhes sou grato. São tão atormentados quanto eu, mas essa angústia os leva a acelerar a vinda daquilo que vai libertá-los desse sentimento. Gostaria de ter feito um retrato dos homens e das mulheres que tão intensamente me ofereceram o seu afeto, mas são muitos.

Alguns anos atrás, eu tive mais um desses encontros. Ela morava a três quilômetros da minha casa do interior. Chamava-se Yvette Pierpaoli. Depois de ter sido expulsa da sua família quando tinha 14 anos, ela tinha vivido na mais extrema miséria. Decidiu se ocupar dos outros e tornou-se a mãe de todas as crianças de rua, em todos os cantos do mundo. Tudo o que empreendia se tornava uma missão, fonte de felicidade para os outros e de alegria para si mesma. Eu lhe perguntei: “Onde se aninham as mensagens de esperança?”. E ela me respondeu: “Nas angústias. O nosso século se concluiu com uma extraordinária conscientização dessas angústias. A esmagadora maioria dos habitantes do planeta combate lado a lado para buscar se livrar delas. O meu otimismo reside nessa declaração”.

Yvette me convenceu de que devemos nos alegrar com os progressos da comunicação e da informação. Eu era contrário a isso. Eu via esse progresso como um efeito da economia de mercado sem regras. Eu temia que a expressão do pensamento pessoal sofresse uma banalização através do computador e da subserviência do imaginário individual à comercialização das mensagens. “Não”, respondeu ela, “são apenas instrumentos. A pessoa que se serve deles faz o que quer. É o homem que tem a última palavra”.

Eu quis verificar essa afirmação olhando para trás, uma tentativa de avaliar o curso deste nosso século. Durante os seus primeiros anos de vida, a grave serenidade e as neurastenias geradas pela burguesia poderiam fazer dela o sudário de um Ocidente muito bem alimentado. Ao contrário, dessa mesma classe social, nasceu a revolta, e surgiu a radical renovação do pensamento europeu: Nietzsche, Freud, Dada, o Surrealismo,Lenin.

A destruição da Europa através de duas guerras poderia ter significado o fim dos seus valores. Mas, embora humilhadas, durante os 30 anos posteriores, as nações europeias conseguiram renovar a fundo a sua posição no espaço mundial. Desfizeram-se dos impérios coloniais e, ao mesmo tempo, realizaram a mais engenhosa das construções, uma audaz mistura entre o cimento econômico que torna obsoletas as velhas rivalidades militares e uma interpenetração cultural que cria uma ampla base aos seus valores comuns mais importantes: a democracia e os direitos humanos.

Duas potências ideológicas totalitárias ameaçaram essa evolução. A primeira, a fascista, estava condenada ao fracasso pelo seu próprio anti-humanismo insustentável, mas a sua passagem ao longo do século, embora breve, foi devastadora. O outro totalitarismo, o marxista-leninista, tinha mais possibilidades de se impor no mundo, porque soube apelar para aquilo de mais nobre que existe no homem e pela forma como entusiasmou aqueles que acreditavam no seu sucesso. Para escapar da cortina de ferro com a qual ameaçava as sociedades em que havia se imposto, foi necessária a união cansativa de pressões internas e externas, que ainda há alguns anos ninguém consideraria capaz de derrubar essa fortaleza.

Naquela ocasião, conseguimos avaliar a ampliada força de penetração conferida às ideias, veículos de liberdade, pelos incríveis progressos da comunicação, como havia sido 30 anos antes para pôr fim às últimas guerras coloniais ou imperiais, ou como ocorreu alguns anos depois para eliminar o apartheid.

Pelo sua própria rapidez, o colapso da ideologia comunista foi fonte de novas angústias. No entanto, fez desaparecer diversos fantasmas do nosso campo de visão. A cooperação internacional organizada, da qual se podia contestar a pertinência depois do fracasso daSociedade das Nações, com o “sistema” das Nações Unidas, encontrou novas dimensões na história das civilizações humanas. Quantas vezes em 50 anos as suas deficiências não foram denunciadas, ou prevista a sua eliminação! Contudo, ela conservou a sua razão de ser, e mesmo aqueles que lhe dirigiam críticas legítimas estão prontos para admitir que não podemos abrir mão dela.

As Nações Unidas estabeleceram objetivos incontestáveis para a comunidade internacional: regulamento pacífico das controvérsias, promoção e proteção dos direitos humanos, papéis equivalentes para homens e mulheres, desenvolvimento equitativo e respeitoso do ambiente, luta contra o dinheiro sujo provenientes da droga e do crime. Esses objetivos não foram alcançados, de fato. Mas há um fato: eles foram afirmados e reafirmados por todos os Estados, e não são apenas os governos que assinam embaixo deles em boa ou má fé, mas eles são levados em consideração por todos os atores da sociedade civil.

Cada uma das calamidades a serem combatidas é objeto da atenção internacional, das associações cidadãs, das fundações e dos movimentos militantes, cada vez mais bem conectados em redes globais.

Biografia

Stéphane Hessel publica Indignai-vos! no final de uma vida fabulosa, que abrange quase toda a História do século XX. Nascido em 1917, em Berlim, numa família de judeus (mas parcialmente convertida ao luteranismo), chega a França em 1925, naturaliza-se em 1937 e entra para a Normale Sup em 1939. Mobilizado, prisioneiro, consegue fugir e junta-se ao general De Gaulle, em Londres. Enviado para França, em 1944, é preso e deportado para Buchenwald, onde dissimula a sua identidade para escapar à forca. Foge mais uma vez, é capturado, salta de um comboio, junta-se aos soldados americanos…

No dia da Libertação, entra para o Secretariado-Geral da ONU e participa na redação da Declaração Universal dos Direitos do Homem. Galardoado com o título de “Embaixador de França” pela esquerda, em 1981, dedica-se, na reforma, à luta pelos “sem papéis” (serviu de mediador por ocasião da ocupação da Igreja de São Bernardo, em Paris) e, mais recentemente, pelos palestinianos, associando-se inclusivamente à campanha de boicote aos produtos israelitas.

Promovido a Grande Oficial da Legião de Honra, em 2006, Stéphane Hessel dá ares de velho senhor à moda antiga. Afável, sedutor, extremamente cortês, não há nada que mais o encante do que levantar-se da mesa no final de uma refeição e recitar Baudelaire ou Paul Verlaine. Mas também não menospreza o prazer da política: figurou, o ano passado, em posição não elegível, nas listas da Europe Ecologie, e continua a ser militante do PS – atualmente, apoia Martine Aubry [para as eleições presidenciais de 2012], de quem é amigo.

Eric Aeschimann,Libération (excertos)

 

 

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