Xenófanes – E Seu Legado Histórico

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Filósofo e poeta, Xenófanes (gr. Ξενοφάνης) foi o primeiro erudito a enfrentar diretamente a teologia de sua época e teve grande influência nos filósofos posteriores.

Biografia e doutrina

Era filho de Déxio (ou Ortomenes) e nasceu em Cólofon, na Iônia, por volta de de -570; quando contava com cerca de 25 anos, teve de emigrar devido à invasão persa. Visitou então várias cidades da Sicília e é possível que tenha estado também em Eléia. Teve vida longa e faleceu por volta de -475 com mais de noventa anos.

Sua principal atividade era, aparentemente, a poesia, mas alguns de seus poemas têm importante conteúdo filosófico. Ao contrário dos milesianos, escrevia sempre em versos, dos quais nos restam diversos fragmentos. Xenófanes, aliás, é o primeiro dos filósofos pré-socráticos de quem temos quantidade considerável de fragmentos (quarenta e um).

Embora Aristóteles tenha atribuído a ele a fundação da escola eleática de filosofia, representada por Parmênides, Zênon e Melisso, não há dados seguros que apóiem essa afirmação. O pensamento de Xenófanes, além disso, tem semelhanças muito superficiais com o dos eleatas.

A importância de Xenófanes para a Filosofia reside principalmente no espírito crítico e no ceticismo com que encarava o antropomorfismo e moralidade das divindades gregas, e também as limitações do conhecimento humano. Através de seus versos criticou asperamente o hábito humano de representar as divindades à sua própria semelhança e foi, também, o primeiro filósofo grego a postular a possível existência de um deus único.

Contribuição à Astronomia

Segundo Xenófanes, havia sóis e luas em número infinito; o Sol e os astros provinham das nuvens.

Fragmentos, edições e traduções

A fonte dos fragmentos de Xenófanes é muito variada, mas a maior parte vem de Ateneu (séc. II/III), Diógenes Laércio (200/250) e Clemente de Alexandria (150/215).

A primeira edição dos fragmentos é a de Henri Estienne (Henricus Stephanus), publicada em 1573. Depois vieram as coletâneas de Brandis (1813), Karsten (1835), Mulach (1845), Bergk (1878/1882) e Wachsmuth (1885). Mais recentemente, Diehl (1949) e West (1972) editaram os fragmentos poéticos e Diels-Kranz (61951), os filosóficos. Das edições recentes, a de Gentili e Prato (1988) é uma das mais usadas.

Em português, a primeira tradução direta do grego é a de Gerd Bornheim (1967), seguida pela de Anna Lia A. de Almeida Prado, para o volume Pré-Socráticos, da coleção Os Pensadores (1973). Existe, também, uma “recriação” concretista dos fragmentos, efetuada por Trajano Vieira (2006). A coletânea de Kirk, Raven e Schofield (41994), que existe em português, traz uma seleção crítica dos fragmentos relevantes das diversas coletâneas.

Visão Geral

Tradicionalmente, se tem considerado Xenófanes como fundador da escola de Eleia, mas com base em interpretações incorretas de alguns testemunhos antigos. No entanto, ele próprio nos diz que ainda era um andarilho, sem morada fixa, até a idade de noventa e dois anos. Ademais, sua problemática é de caráter teológico e cosmológico, ao passo que os eleatas, como veremos, fundaram a problemática ontológica. Assim, justamente, considera-se hoje Xenófanes como um pensador independente, tendo apenas algumas afinidades muito genéricas com os eleatas, mas certamente sem ligação com a fundação da escola de Eleia.

O tema central desenvolvido nos versos de Xenófanes é constituído sobretudo pela crítica à concepção dos deuses que Homero e Hesíodo haviam fixado de modo exemplar e que era própria da religião pública e do homem grego em geral. O nosso filósofo identifica de modo perfeito o erro de fundo do qual brotam todos os absurdos ligados a tal concepção. E esse erro consiste no antropomorfismo, ou seja, em atribuir aos deuses formas exteriores, características psicológicas e paixões iguais ou análogas às que são próprias dos homens, só quantitativamente mais notáveis, mas não qualitativamente diferentes. Agudamente, Xenófanes objeta que se os animais tivessem mãos e pudessem fazer imagens de deuses, os fariam em forma de animal, assim como os etíopes, que são negros e têm o nariz achatado, representam seus deuses negros e com o nariz achatado ou os trácios, que têm olhos azuis e cabelos ruivos, representam seus deuses com tais características. Mas, o que é ainda mais grave, os homens também tendem a atribuir aos deuses tudo aquilo que eles mesmos fazem, não só o bem, mas também o mal:

Mas os mortais acham que os deuses nascem, que têm roupas, vozes e vultos como eles. Homero e Hesíodo atribuem aos deuses tudo aquilo que é desonra e vergonha para os homens: roubar, cometer adultério, enganar-se mutuamente.

Assim, de um só golpe, são contestados do modo mais radical, na credibilidade, não apenas os deuses tradicionais, mas também os seus aclamados cantores. Os grandes poetas com base nos quais os gregos tradicionalmente se haviam formado espiritualmente agora eram declarados porta-vozes de mentiras.

Analogamente, Xenófanes também desmitifica as várias explicações míticas dos fenômenos naturais, que, como sabemos, eram atribuídos a deuses. Eis, por exemplo, como a deusa Íris (o arco-íris) é desmitificada:

Aquela que chamamos Íris, porém, também ela é uma nuvem, purpúrea, violácea, verde de se ver.

A breve distância de seu nascimento, a filosofia mostra a sua forte carga inovadora, desmontando crenças seculares que eram consideradas muito sólidas, mas somente porque se radicavam no modo de pensar e de sentir tipicamente helênico: contesta qualquer validade a elas e revoluciona inteiramente o modo de ver Deus que era próprio do homem antigo. Depois das críticas de Xenófanes, o homem ocidental não poderá nunca mais conceber o divino segundo formas e medidas humanas.

Mas as categorias de que Xenófanes dispunha para criticar o antropomorfismo e denunciar a falácia da religião tradicional eram as categorias derivadas da filosofia da physis e da cosmologia jônica. Consequentemente, é compreensível que ele, depois de negar com argumentos muito adequados que Deus possa ser.

concebido com formas humanas, acaba afirmando que Deus é o cosmos. Então, pode-se entender algumas de suas afirmações, que para muitos soaram como enigmáticas mas que, ao contrário, são evidentes no interior do horizonte do pensamento grego primitivo. Diz Aristóteles que, “estendendo as suas considerações à totalidade do universo”, Xenófanes “afirmou que o uno é Deus”. Assim, o uno de Xenófanes é o universo, que, como ele próprio diz, “é uno, Deus, superior entre os deuses e os homens, nem por figura nem por pensamento semelhante aos homens”.

Como o Deus de Xenófanes é o Deus-cosmos, então pode-se compreender claramente as outras afirmações do filósofo: Tudo ele vê, tudo ele pensa, tudo ele ouve. Sem esforço, com a força de sua mente, tudo faz vibrar. Permanece sempre no mesmo lugar sem se mover de modo algum, que não lhe é próprio andar ora em um lugar, ora noutro.

Em resumo: o ver, o ouvir, o pensar e a onipotente força que faz tudo vibrar são atribuídos a Deus, não numa dimensão humana, mas sim numa dimensão cosmológica.

Essa visão não contrasta com as informações dos antigos de que Xenófanes erigiu a terra como “princípio”, nem com suas precisas afirmações: Tudo nasce da terra e na terra termina — Todas as coisas que nascem e crescem são terra e água.

Com efeito, essas afirmações não se referem a todo o cosmos, que não nasce, não morre e não se torna nada, mas sim à esfera terrestre. E ele ainda apresenta provas bastante inteligentes de suas afirmações, como a presença de fósseis marinhos nas montanhas, sinal de que houve uma época em que havia mais água do que terra nesses lugares.

Xenófanes também ficou conhecido por sua visão moral de alto valor: contestando as ideias correntes, ele afirmava a superioridade dos valores da inteligência e da sabedoria sobre os valores vitais da robustez e da força física dos atletas, veneradíssimos na Grécia. Não é o vigor ou a força física que torna melhores os homens e as cidades, mas sim a força da mente, à qual cabe a máxima honra.
Xenófanes representa um momento interessante na história da filosofia grega; é posterior a Pitágoras e recolhe sua herança filosófica; ao mesmo tempo, é um antecedente direto de Parmênides e da escola eleática. Viveu cerca da segunda metade do século VI e a primeira do V. Por outro lado, Xenófanes, poeta e filósofo, marca uma etapa da luta travada na Hélade entre a poesia e a filosofia como disciplinas dominantes; pouco a pouco, a Grécia mítica e poética, que se nutre de Homero e de todos seus continuadores, será substituída pela Grécia do logos, cuja primeira maturidade é atingida com Parmênides, e sua vigência social plena entre os séculos V e VI.

“(Xenófanes) afirmou pela primeira vez que todo o gerado é corruptível, e que a alma é um alento.” (Diógenes Laércio, IX, 2.)

“Os deuses não revelaram aos mortais todas as coisas desde o princípio; são estes que, procurando com o tempo, encontram o melhor.” (Fr. 18 de Diels.)

Nos esboços da antropologia de Xenófanes descobre-se de novo o tema permanente da Grécia: a corruptibilidade ante o eterno e divino, e a referência do homem aos deuses imortais, que se manifesta no conhecimento. O saber total, sem dúvida, é inaccessível aos mortais, e só com o tempo através de um processo de esforço, chega-se de algum modo a participar dele. Em relação com isto, tenha-se presente Aristóteles: Metafísica, I, 2.

A Teologia de Xenófanes

Xenófanes é considerado pela maioria como sendo mais um reformador religioso do que um filosófo. Diferentemente de Anaximandro, que criou o conceito do apeiron (ilimitado, indefinido), mas buscava na natureza intrínseca da matéria a causa para todas as transformações, Xenófanes dizia que o ser absoluto, essência de todas as coisas, era o Um. E de acordo com Teofrasto, uma das fórmulas contidas nos ensinamentos de Xenófanes era: “Tudo é o Um e o Um é Deus”.
Aristóteles em seu livro Metafísica, nos relata: “Pois Parmênides parece referir-se ao Um segundo o conceito, e Melisso ao Um segundo a matéria. Por isso aquele diz que o Um é limitado, e este, que é ilimitado. Xenófanes, o primeiro a postular a unidade, nada esclareceu, nem parece que vislumbrou nenhuma dessas duas naturezas, mas, dirigindo o olhar a todo o céu, diz que o Um é o Deus.”
Consequentemente, o conceito Deus é então criado por Xenófanes como sendo um ser mais alto, com uma identidade abstrata, e não possui nenhum atributo conhecido pelos homens, e tão pouco é semelhante a estes – nem quanto à figura, nem quanto ao espírito.
A respeito disso, Clemente de Alexandria, em sua obra Tapeçarias, reproduz essa estrofe também atribuída a Xenófanes:
“Mas se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões
E pudessem com as mãos desenhar e criar obras como os homens,
Os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois,
Desenhariam as formas dos deuses e os corpos fariam
Tais quais eles próprios têm.”

Obras

Restaram apenas fragmentariamente, nas citações de outros autores, representadas por meia dúzia de páginas de versos, com predominância de elegias e sátiras.

Mas é sobretudo em informações doxográficas que encontramos suas doutrinas tipicamente eleáticas; elas vem de Platão, Aristóteles, Simplício, Sexto, Hipólito, Aécio. Mas os versos fragmentários se prestam para estabelecer o clima religioso e moral em que se situava. Perderam-se, todavia, os versos referentes à fundação mesma de Colófon e Elea.

Doutrinas

A terra como elemento – Tal como os primeiros jônicos, a investigação de Xenófanes foi primeiramente à busca de uma natureza elementar a partir da qual se formariam todas as coisas. Tales propusera como primeiro elemento a água, Anaximandro o infinito, Anaxímenes o ar, Heráclito o fogo. Xenófanes propõe a terra. “Pois tudo vem da terra e na terra tudo finda” [Frag. 27] (Aécio IV, 5). Todavia, não há rigidez na proposição de Xenófanes.

Também diz: “Terra e água é tudo quanto vem a ser e cresce” [Frag. 29] (Simplício, Física 188, 32).

“Pois todos nascemos da terra e da água” [Frag. 33] (Sexto, Contra os matemáticos X, 314).

“Porfírio afirma que Xenófanes considera princípios o seco e o úmido; eu digo que ele considera a terra e a água” (Filopono, Física 125, 27)

A metafísica é a glória de Xenófanes- Partindo para uma nova interpretação da diversidade múltipla da natureza, dizendo que esta multiplicidade é apenas o efeito aparente dos sentidos, estabeleceu a unidade em si mesma da coisa que existe. O ser é uno e imutável, não se dividindo e não se multiplicando, nem se transformando e nem se movendo. A base desta afirmação a estabeleceu Xenófanes mediante considerações metafísicas. Seus sucessores avançarão as especulações, mas é com o velho rapsodo que tiveram início. As relações entre o uno e o múltiplo são diferentes das que se supunham até então: “Opõe-se às opiniões de Tales e Pitágoras, e também de Epimênides” (D. Laércio, IX, 18), – eis como se pode entender o texto já citado anteriormente.

Unidade do ser – Percebendo a unidade da natureza – à que chama terra, a intuiu já não somente como sendo esta matéria sensível, mas simplesmente como um todo entitativo, assim apreendido pela inteligência. As coisas são simplesmente ser, instituído como resultado de uma especulação abstrata, alteado este ser acima do meramente sensível. O ser é indicado por qualificativos como uno, eterno, imutável, infinito, divino.

Num diálogo de Platão se exprime pitorescamente o Estrangeiro de Eleia: “Cada qual parece que nos conta um conto, como se fossemos crianças. Diz um que são três os seres que ora se combatem, ora se convertem em amigos, dos quais assistimos as bodas, os partos e a criação dos filhos. Outro, dizendo que são apenas dois, o úmido e o seco, ou quente e o frio, junta-se e os casa. Mas, lá a nossa gente de Eleia, que vem de Xenófanes, e de mais além, admite em suas doutrinas que um único é o ser, designando tudo” (Platão, Sofista 242 c-d).

Adverte Aristóteles contudo que Xenófanes não aprofundou a doutrina da unidade do ente. Concluída a exposição das doutrinas pluralistas do ente, continua o Mestre do Liceu, comentando as da unidade. “O pensamento dos velhos filósofos, que admitiram a pluralidade dos elementos da natureza, está suficientemente conhecida pelo que precedeu. Há ainda outros que professaram que o todo é uma só realidade, mas a excelência da exposição não alcança o mesmo nível junto de todos, nem a conformidade com os fatos” (Aristóteles, Metafísica, 986, b, 10).

Esclarece que não se trata de um princípio primordial, a partir do qual as coisas derivam. “A discussão de suas doutrinas não entra no quadro do presente exame de causas. Eles não procedem à maneira de certos fisiólogos; estabelecendo o ser como um, não engendra todas as coisas a partir do Uno considerado como matéria. Suas doutrinas são outras. Enquanto os fisiólogos admitem o movimento no todo, os filósofos de que falamos pretendem, pelo contrário, que o todo é imóvel” (Metafísica, 986b 13).

Prossegue Aristóteles distinguindo entre unidade material (aquela adquirida por um elemento de determinada espécie, por exemplo, a água) e a unidade formal (por definição), adquirida pela unidade simplesmente do ente. Pretende, então, dizer que Parmênides alcança a unidade formal do ser, ao passo que não Melisso. Quanto a Xenófanes não teria alcançado precisão de conceitos sobre o assunto. Na verdade, Xenófanes tem a visão da unidade, através da unidade da natureza, de suas leis, de suas transformações cíclicas. Transcende à unidade material, sem maiores esclarecimentos, sobre monismo fundamental.

“Parmênides concebeu a unidade quanto à definição e Melisso a unidade material; ela é finita, para o primeiro, infinita, para o segundo.

Quanto a Xenófanes, o mais antigo adepto da unidade (pois se diz que Parmênides foi seu discípulo), não há nada claro, visto que não parece ter entendido a natureza de uma e de outra destas causas. Mas, observando o universo material em conjunto, asseverou que o Uno é Deus. Estes filósofos, como dissemos, deverão ser postos à margem da presente investigação, e completamente dois deles, cujas concepções são, em verdade, muito grosseiras, a saber, Xenófanes e Melisso. Pelo contrário, Parmênides parece raciocinar aqui com mais penetração” (Metafísica, 986b 20-25).

Subjetivismo e relativismo – O unicismo de Xenófanes, – qualquer seja a avaliação de sua profundidade, – tem implicações gnosiológicas, – o caráter subjetivo e relativo do conhecimento. Conscientizou-se Xenófanes sobre a dificuldade do problema levantado. E isto é importante anotar. Parece haver estado próximo do vago ceticismo depois praticado por outros: “Não há homem algum que claramente visse, e nenhum haverá jamais que claramente tivesse visto, e saiba dos deuses e de tudo quanto eu falo; pois ainda que alguém viesse a pronunciar o melhor possível a lavra definitiva, nem esse saberia: sobre tudo recai a opinião” (Sexto, Contra os matemáticos, VII 49, 110; Plut. Aud. Poet. 2 p.17 E).

Sobre a relatividade advertiu Xenófanes que: “Se Deus não tivesse feito o dourado mel, muito mais doces diriam [os homens] são os figos” (Frag. 38, em Herodiano Gramático, Sobre particularidades da linguagem, 41,5).

Diante da diversidade oferecida pelos sentidos, os eleatas advertem que é preciso ficar com a razão, que oferece a unidade e a imobilidade do ser. Sobre esta ponderação dos eleatas informou genericamente Aristóteles: ” Achavam, com efeito, alguns dos antigos, que o ser é um e imóvel. Alegando, que o vazio é um não -, não podendo haver nele movimento, porquanto não há vazio separado” (Da geração e corrupção, I, 8. 825a 2).

O ser uno é caracterizado como divino – a tudo superior – Repete aqui Xenófanes o pensamento dos milésios, que faziam do elemento primordial um ser divino. Trata-se, pois um panteísmo monista, ou simplesmente de um monismo materialista.

“Teofrasto assevera que Xenófanes admite um só princípio, considerando o ser como um e tudo (nem finito, nem infinito, nem móvel, nem imóvel). Concorda, Teofrasto, que a menção desta doutrina mais convém a outro domínio, que ao da história natural. Porque, na verdade, no dizer de Xenófanes, este um e tudo é Deus.

Declara que é um, por ser o mais poderoso de todos; se vários entes houvesse, estaria repartido em igualdade o poder entre todos; ora Deus é o que há de mais sublime e a tudo superior quanto ao poder. É ingênito; o que nasce, haveria de nascer, ou do semelhante, ou do dissemelhante. Ora, o semelhante, diz ele, não pode exercer este efeito (de gerador) sobre o semelhante, porquanto não convém mais a um que a outro o gerar e o ser gerado. De outra parte, se nascesse do dissemelhante, nasceria do que não é. Assim demonstra a ingenerabilidade e a eternidade.

Não é infinito; porque o infinito é o não ser, pois não tem início, nem meio, nem fim e porque (só) os múltiplos seres se limitam reciprocamente. Do mesmo modo elimina o movimento e o repouso; porque o imóvel é o não ser, que em outro não se torna, nem outro nele se torna; o movimento convém mais ao múltiplo, que o uno, pois neste caso podem um em outro se transmutar. Por conseguinte, quando se diz – E sempre se mantém no mesmo lugar, sem mover-se, nem convém à sua natureza que se mova para cá e para lá [Frag. 24], entenda-se não a imobilidade que se opõe à mobilidade, mas sim a estabilidade sem movimento e sem repouso.

Nicolau Damasceno, em seu tratado A cerca de Deus, atribui a ele [Xenófanes] a declaração de que o princípio é infinito e imóvel.

Conforme Alexandre (de Afrodísio), seria limitado e esférico. Claramente sua doutrina é a que ele é infinito e ilimitado; demonstra a limitação e a forma esférica dizendo que semelhante é o ente por todos os lados. Também afirma que ele pensa todas as coisas, dizendo – e sem custo tudo move por força do próprio pensamento (Simplício, Física, 22,22ss).

A mais antiga advertência contra o antropomorfismo teológico – Destacou-se Xenófanes pelo seu combate aos conceitos antropomórficos da divindade, ocorridas sobretudo na religião tradicional. Ainda que se pudesse pôr restrições a tudo o que houvera o mesmo Xenófanes dito sobre a natureza divina, encontrava-se no reto caminho, o de uma análise ontológica a partir do ser. Até seu tempo, foi Xenófanes o melhor dos profetas, no sentido de haver melhor falado sobre Deus. Nenhuma teologia é boa, sem uma correta noção filosófica de divindade.

Aqui importa relembrar o texto de Platão em que o Estrangeiro ridiculariza o que se diz dos deuses e adverte para a doutrina do ser: “Mas lá a nossa gente de Eleia, que vem de Xenófanes , e de mais além, admite em suas doutrinas que um único ser é o que designa tudo” (Sofista 242 d).

O mérito teológico de Xenófanes também foi reconhecido por Aristóteles: “Os poetas representam a opinião dos homens, como as histórias que se contam dos deuses. Essas narrativas talvez não sejam verdadeiras, nem melhores; talvez as coisas sejam como pareciam a Xenófanes; no entretanto, assim as dizem os homens” (Poética, 25 p.1460 b 35).

Em outro passo: “… dizia Xenófanes que tantos são ímpios os que afirmam que os deuses nasceram, como os que asseveram que eles morreram. De ambos os modos se diz que em determinado tempo não existiram” (Retórica, II, 23 p. 1399 b 5).

“Perguntaram os cidadãos de Eleia a Xenófanes se deviam, ou não, oferecer sacrifícios a Leucotéia, e lamentá-la como uma defunta. Aconselhou-os a que não lamentassem, se como deusa a veneravam; mas se a consideravam como um ser humano, não lhe deveriam sacrificar” (Ibidem, II, 26 p. 1400 b 5). Fragmentos dos Silos apresentam a mesma linguagem satírica de Xenófanes contra as imaginações antropomórficas.

“Homero e Hesíodo imputaram aos deuses tudo quanto entre os homens e indecoroso e censurável: roubos, adultérios, enganos recíprocos” [Frag. 11] (Sexto, Contra os matemáticos, IX, 193). “Muitos atos ilícitos eles contam dos deuses: roubos, adultérios, enganos recíprocos” [Frag. 12] (Ibidem, I, 289).

“Mas crêem os mortais que os deuses nasceram, e que, tal como eles, têm figura, vestes e voz” (Clemente de Alexandria, Strômata, V, 109).

“Os etíopes se afiguram os deuses, com pele negra e nariz achatado; os trácios, com olhos azuis e cabelos loiros” [Frag. 16] (Ibidem, VII, 22).

Entidades divinas secundárias. A noção de um deus supremo e único nesta condição, ainda não exclui a admissão de deuses como entidades secundárias e criaturas como os anjos, desde que não sejam aventados como uma necessidade ontológica. Por esta outra via os deuses foram admitidos por Xenófanes, ao que parece. De futuro, também Heráclito, Platão, Aristóteles não sacrificarão totalmente a idéias das deidades individuais e subalternas.

Seria demais, que um homem, como Xenófanes, em tão remota época se despojasse inteiramente do lastro cultural da religiosidade helênica de seu povo. Xenófanes não foi um monoteísta em sentido pleno. Ou melhor, não foi um monista em sua totalidade. Não há conflito entre combater o antropomorfismo religioso e a admissão de divindades secundárias. Combateu Xenófanes, a figuração humana dos deuses, mas não os deuses simplesmente em si mesmos.

A conceituação politeísta de Xenófanes está bem clara neste fragmento: “Um só Deus, o maior entre os deuses e os homens, diferente na forma e no pensamento dos mortais” [frag.23] (Clemente de Alexandria, Strômata V, 109).

O mesmo contexto politeísta se reencontra nos versos, como este: “Ter sempre veneração pelos deuses, isto é bom” (Final do Frag. 1, em Atebeo X, 462 C).

Por isso se tem contestado a afirmação de outros tempos de que Xenófanes fosse o primeiro monoteísta.

“Xenófanes havia sido considerado antigamente como o primeiro monoteísta grego. Os argumentos contra esta opinião foram expostos e defendidos com êxito por Freudenthal em sua obra Ueber die Theologie des Xenophanes, Breslau, 1866, trabalho a que nós devemos muito. O argumento decisivo contra o pretendido monoteísmo de Xenófanes está contido no único verso: um só deus, entre os deuses…” (Th. Gompers, Pensadores gregos, nota ao item Xenófanes).

Não obstante, importa não desatender ao fato de que Xenófanes foi também um poeta, e neste sentido poderia ter usado por vezes a linguagem poética, a qual certamente é favorecida pela imaginação politeísta. Sobre a alma “Xenófanes foi o primeiro a declarar, que tudo está destinado a perecer, e que a alma é um sopro” (D. Laércio, IX, 19).

A Ética – de Xenófanes se mantém ainda nas frases sentenciosas, peculiares às religiões tradicionais, envolvidas em considerações episódicas. Depois de se referir ao fato de ser apreciado como mais ilustre aquele que vence nos jogos, adverte:

“A sabedoria de certo é mais nobre que o vigor dos homens e dos cavalos. Insensato costume, e injusto, este, de mais prezar a força que a sabedoria. Mesmo que haja entre o povo um pugilista hábil, ou quem vença no pentatlo e na luta, ou até na corrida (que mais estimada é a rapidez que a força), quem quer que vitorioso saia das másculas competições, – nem por isso o povo andará mais bem governado. Pouco proveito adviria à cidade, se algum cidadão vencesse as margens do Pisa. Não é isso que lhe aumenta tesouros da cidade” [Frag.2] (em Ateneo X, 413 F).

Um sentir geral de tolerância- Se observa no pensamento religioso e moral de Xenófanes, não sendo nem fanático e nem contrário ao culto popular dos deuses, tudo dentro de uma ética aberta. Este é o clima de um longo fragmento elegíaco, em que participa, e ao mesmo tempo que recomenda moderações:

“Agora o chão da casa está limpo, as mãos de todos e as taças; um cinge as cabeças com guirlandas de flores, outro oferece odorante mirra numa salva; plena de alegria ergue-se uma cratera, à mão está outro vinho, que promete jamais faltar, vinho doce, nas jarras cheirando flor; pelo meio perpassa sagrado aroma de incenso, fresca é a água, agradável e pura; ao lado estão pães tostados e suntuosa mesa carregada de queijo a espesso mel; no centro está um altar todo recoberto de flores, canto e graça envolvem a casa. É preciso que alegres os homens primeiro cantem os deuses com mitos piedosos e palavras puras. Depois de verter libações e pedir forças para realizar o que é justo – isto é que vem em primeiro lugar -, não é excesso beber quanto te permita chegar à casa sem guia, se não fores muito idoso. É louvar-se o homem que, bebendo, revela atos nobres como a memória que tem e o desejo de virtude sem nada falar de titãs, nem de gigantes, nem de centauros, ficções criadas pelos antigos, ou de lutas civis violentas, nas quais nada há de útil. Ter sempre veneração pelos deuses, isto é bom” [Frag. 1] (em Ateneo X, 462 C).

Cosmogonia e cosmologia- Não obstante sua nova maneira de interpretar a variedade dos entes como sendo fundamentalmente um unicismo, Xenófanes apresentou uma filosofia da natureza não menos curiosa. Não deve todavia condenar a Xenófanes de contradição com sua tese da unidade do ente ao estabelecer una interpretação cosmológica à natureza, como já o quis invectivar de incoerência, na antiguidade, Teodoreto: “Xenófanes, o fundador da seita eleática, assevera que o todo é um, esférico e limitado; ingênito, mas eterno e absolutamente imóvel; mas depois, olvidado destas doutrinas, diz que da Terra tudo nasce” (Teodoreto, IV, 5 em Aécio).

Não temos informações sobre a evolução cronológica do pensamento de Xenófanes. Mas não é impossível que seu unicismo fosse uma evolução ulterior, e que de início pensasse apenas como os jônicos, sobre um ser material. Nesta condição inicial terá desenvolvido uma cosmologia em que os elementos seriam a terra e a água. Depois com a teoria do ser uno, esta cosmologia somente se manteria como aparência sensível. No futuro, também o idealista Emanuel Kant, apresentará uma teoria do céu astronômico. E assim já na antiguidade os eleatas desenvolveram a doutrina da aparente variedade e movimento do ser.

“Nasce o sol por via de aglomeração de partículas inflamadas, que vai aumentando dia a dia; a terra é ilimitada, e nem o ar, nem o céu a cingem, infinito O mar é salgado porque nele convergem muitas matérias amálgamas. Xenófanes crê que a terra se mistura com o mar. Com o tempo nele se dissolvera” (Hipólito, Refutação, I, 14).

“Todos os dias os astros se apagam e todas as noites se reacendem como carvões; nascimentos e ocasos, são inflamações e extinções” (Aécio II, 13,14). Por mais hipotéticas que sejam as teorias de Xenófanes sobre os astros, elas representam algo muito mais evoluído que a interpretação mítica e mitológica então dominante.

“Muitos afirmam que a parte inferior da terra se prolonga indefinidamente, asseverando que ela radica no infinito, assim o diz Xenófanes de Colófon” (Aristóteles, Do céu, 2,13. 294a 21).

Um conceito adiantado da meteorologia – Já se encontra formulado em Xenófanes. Um circulo de ações ocorreria a começar da água salgada, continuando pela água doce, pela evaporação, finalmente pela formação das nuvens, das chuvas, dos rios e de novo do mar. Ocorre ali a visão da natureza como um sistema de leis, sem mitos.

“Supurada a água do mar, a doce separa-se pela subtileza própria, e depois, condensando-se em névoa, forma as nuvens; e prosseguindo a condensação, cai a chuva e sopram os ventos” (Aécio, III,4,4).

Diz então Xenófanes: “Fonte da água é o mar, e fonte dos ventos; pois nem existiriam as nuvens sem o vasto mar, nem o curso dos rios, nem a chuva dos céus. Mas é ele, o vasto mar, que gera as nuvens, os ventos e os rios” [Frag. 30] (Aécio, III,4,4).

A terra e a água são as fontes sempre presentes nas explicações de Xenófanes. Não importa a qual dê prioridade. O importante é que formula o sistema de uma explicação.

Principais Fragmentos

I “…Deus é uma substância esférica sob nenhum aspecto parecido com o homem. O todo vê, o todo ouve, porém não respira. Ele é ao mesmo tempo todas as coisas, inteligência, pensamento, eternidade” (D. Laércio, IX, 19).

II “…Todo inteiro vê, todo inteiro pensa, todo inteiro ouve” [Frag. 24] (em Sexto, Contra os matemáticos, IX 144).

III “…Se a divindade é a mais forte de todas as coisas, só pode ser uma única (…), pois se houvesse dois ou mais deuses, não poderia ser o mais forte e o melhor de tudo. Portanto, só pode haver uma divindade (Pseudo-Aristóteles, De Meliso, Xenophonte, Gorgias 3,3)

IV “…Se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões, e se pudessem com as mãos pintar ou produzir obras de arte, como se fossem homens, pintariam as figuras dos deuses, os cavalos semelhantes aos cavalos, os bois semelhantes aos bois; esculpiriam os corpos deles, respectivamente, de acordo com o próprio aspecto” [Frag. 15] (Ibidem, V, 110).

V “…Um só Deus, o maior entre os deuses e os homens, diferente na forma e no pensamento dos mortais” [frag.23] (Clemente de Alexandria, Strômata V, 109).

VI “…O sol apaga-se, e outro sol renasce no Oriente” (Aécio,II,24,2).

VII “…O sol provém de nuvens inflamadas… provenientes de exalações úmidas”

Pensamentos

“É preciso um sábio para reconhecer um sábio”.

– take a wise man to recognise a wise man.

– resposta de Xenófanes a Empédocles, que teria dito “O homem sábio não pode ser encontrado” citado em “The First Philosophers Of Greece” – página 78, Arthur Fairbanks, 1898

“Se mãos tivessem os bois, os cavalos e os leões, e se pudessem com as mãos pintar ou produzir obras de arte, como se homens fossem, então pintariam os cavalos, semelhantes a cavalos, e os bois, semelhantes aos bois, as figuras dos deuses, e esculpiriam os corpos deles, cada um em conformidade com o próprio aspecto.”

– citado em “Revista brasileira de filosofia”, Volume 4 – página 118, Instituto Brasileiro de Filosofia, 1954

Pensamentos

“Para reconhecer o sábio é preciso ser sábio. ”
XENÓFANES

“No seio dos homens e dos numes todos, um só Deus supremo existe, diferente, no aspecto e razão, de todos esses homens. ”
XENÓFANES

“O que de belo e honesto os deuses não concedem aos homens senão o poder de muito trabalho e persistência.”
Xenófanes

“Quantas pessoas sucumbiram diante do infortúnio, por haver formado projetos excessivamente grandiosos, apenas porque se sentiam fortes em demasia!”
Xenófanes

“Se os bois e os cavalos tivessem mãos e pudessem pintar e produzir obras de arte similares às do homem, os cavalos pintariam os deuses sob forma de cavalos e os bois pintariam os deuses sob forma de bois.”
Xenófanes

“Sócrates disse a seus alunos que nos bons sistemas de educação há um limite para além do qual ninguém deve ir. Na geometria, basta saber como medir a terra quando se quer vendê-la ou comprá-la ou dividir uma herança ou dividi-la entre trabalhadores.”
Xenófanes

“Sócrates não gostava de ciências muito sofisticadas, embora as conhecesse todas. Ele dizia que o conhecimento sofisticado exige um esforço extra que tira o tempo do estudante da busca humana mais básica e importante: a da perfeição moral.”
Xenófanes

“É preciso um sábio para reconhecer um sábio.”
Xenófanes

“O que de belo e honesto os deuses não concedem aos homens senão o poder de muito trabalho e persistência.”
Xenófanes

“Quantas pessoas sucumbiram diante do infortúnio, por haver formado projetos excessivamente grandiosos, apenas porque se sentiam fortes em demasia!”
Xenófanes

“Reze ao começar qualquer trabalho, de modo que Deus possa levar tudo a bom termo.”
Xenófanes

“Se os bois e os cavalos tivessem mãos e pudessem pintar e produzir obras de arte similares às do homem, os cavalos pintariam os deuses sob forma de cavalos e os bois pintariam os deuses sob forma de bois.”
Xenófanes

“Sócrates disse a seus alunos que nos bons sistemas de educação há um limite para além do qual ninguém deve ir. Na geometria, basta saber como medir a terra quando se quer vendê-la ou comprá-la ou dividir uma herança ou dividi-la entre trabalhadores.”
Xenófanes

“Sócrates não gostava de ciências muito sofisticadas, embora as conhecesse todas. Ele dizia que o conhecimento sofisticado exige um esforço extra que tira o tempo do estudante da busca humana mais básica e importante: a da perfeição moral.”
Xenófanes

 

 

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