A ESSÊNCIA DOS FENÔMENOS SOCIAIS: O HOMEM E A GENTE

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A ESSÊNCIA DOS FENÔMENOS SOCIAIS:

O HOMEM E A GENTE

Ortega y Gasset dedicou a sua obra a precisar o que é a sociedade, os fatos sociais. Parte do ser humano como indivíduo, enfatiza o seu aspecto qualitativo e intransferível para ir ao encontro dos outros seres humanos, a sociedade. Entende o homem como único ser capaz de “ensimermar-se”, isto é, retirar-se provisoriamente do mundo, voltar-se para dentro de si, meditar e emergir seguro de suas verdades para atuar em seu meio. O autor, através de uma visão filosófica da sociedade fala-nos do “eu”, do “tu”, do “outro”, enfim, das relações sociais e dos fatos humanos que fundamentam a sociedade.

Ortega y Gasset, um dos filósofos do nosso tempo, consagra-se entre os sociólogos com a obra O Homem e a Gente1, publicada após a sua morte2 . Este estudo sociológico é genuinamente filosófico, pois os fatos estudados pela sociologia são tomados como humanos.

No início de sua obra. Ortega adverte a respeito da carência de clareza com que os temas como: leis, Estado e coletividade são empregados. Diz que os próprios sociólogos não analisam de forma precisa o que é social ou o que é a sociedade. Este estudo objetiva precisar o que é sociedade, esclarecer os seus sintomas e os fatos sociais que nela se manifestam. Tem como finalidade ir ao encontro dos fenômenos sociais mais elementares, isto é, buscar no social a vida de cada um, e do ser em sociedade.

Partindo da realidade individual do ser humano, entendida como fenômeno qualitativo e único, estrutura-se o estudo do social. O homem, incorporado de vida social é tomado como protagonista de

sua vida, de seu mundo, impondo a própria vontade sobre este, modelando o planeta segundo a sua intimidade.

O homem tem como atributo essencial a capacidade de meditar, retirar-se provisoriamente do mundo, recolher-se dentro de si no sentido de uma retirada estratégica, um ensimesmamento, para pensar seu trabalho, suas idéias, seu mundo interior e emergir posteriormente renovado, seguro de suas verdades.

No transcorrer da história humana, o homem encontra-se em três momentos fundamentais: o primeiro é quando ele se encontra alterado, perdido. Procura, então, em um segundo momento, conquistar com esforço o seu recolher. Busca em sua intimidade instantes de reflexão, sua própria contemplação. Tal estágio é chamado ensimsmamento. Por último, submerge ao mundo para atuar sobre ele conforme seu plano preconcebido em forma de ação, de práxis.

Os animais não possuem a capacidade de ensimermar-se. Estão regidos pelo mundo de fora, pelas forças que os rodeiam, assim, não podem elaborar suas próprias idéias. São pura alteração.

O homem é por essência ação. Esta é regida por uma prévia contemplação, um contínuo projetar a ação futura. O autêntico pensamento está intimamente relacionado com a ação. Os pensamentos servindo para previver ações, vêm sendo elaborados, pouco a pouco, intrínsecos a uma cultura, durante milênios. Deste modo, não existem aquisições humanas permanentes.

Não podemos idolatrar o intelectualismo, a teoria pura, como se o homem pensasse sem finalidade ou o outro extremo: a ação pura, reduzindo o ser humano a um ser parcela. O ser humano precisa fazer coexistir o mundo interior e exterior.

O homem procura conservar o equilíbrio, a continuidade. Supera o passado, mas não perde o contato com o mesmo. Esta constante renovação, busca de um “equilíbrio instável”, é a base, segundo Ortega y Gasset, para o entendimento do que é a sociedade.

A vida humana, tomada como realidade radical, é única e intransferível, somente pode ser vivida pelo próprio ser. A vida do outro é mero espetáculo; mesmo a vida das pessoas mais próximas. Desta maneira, nenhum conhecimento pode ser pleno, suficiente, se não partir da vida radical de cada ser, em suma: o seu existir.

Cada homem, em seu mundo, elege dentro de si o próprio modo de viver, o seu ser. Esta vida não é encontrada pronta, há que se decidir sobre ela, fazer escolhas intransferíveis. Ninguém pode substituir a realidade de outro homem ou pela sua ou responsabilizar-se por ela. Desta maneira Ortega y Gasset (1973, p.83), resume esta idéia dizendo: “(…) vida, no sentido de vida humana, portanto, em sentido biográfico e não biológico.”

Esta solidão, radical solidão, em que o homem encontra-se por ter as suas próprias vontades, dores, sentimentos intransferíveis, não consiste em dizer que não haja nada mais do que o próprio ser. Ao contrário, existem infinitas coisas, e entre estas, estão os outros seres humanos. O mundo está repleto de referências do próprio ser que passa a estar ligado a tudo e a todos que nele existem. Tudo consiste na intervenção ou importância que se dispensará ao que o cerca. Passa a sofrer influências em suas referências. Somente se importará com aquilo que o afeta ou é importante.

Ortega entende por humano, o ser que ao fazer algo compreende o que faz e coloca sentido nos seus atos, no seu mundo. Este mundo vital é composto de poucas coisas no momento presente, de inumeráveis coisas que não estão à vista, mas conhecendo a sua existência são latentes. Esta é a primeira lei estrutural do mundo.

A segunda lei é a seguinte: não se percebe uma coisa isolada, ao contrário, uma coisa sempre destaca-se das demais. Uma espécie de fundo onde sobressaem as que são importantes. Com isso, pode-se estruturar o mundo em três planos: a própria coisa que ocupa o homem, o horizonte dentro do qual aparecem as coisas e o mais além, o latente, aquilo que existe, mas não há contato direto.

O homem encontra-se, durante toda a vida, em seu corpo. Pode mudar de lugar, mas de qualquer maneira, o seu “aqui” e o seu “eu” são inseparáveis. As coisas estão sempre perto ou longe de sua pessoa, de sua espacialidade referencial. Por ser assim, o mundo não é de cada um, mas em comum com os outros seres humanos.

O outro ser não pode ser o próprio “eu”. Os “aquis” são diferentes, de perspectivas exclusivas a cada um. As coisas se articulam umas com as outras como instrumentos ou como empecilhos para a vida, formando dentro deste mundo pequenos mundos como a religião, a arte, os negócios, etc. Cada coisa está ligada a um destes mundos, e articula-se com cada ser, com os outros. O mundo vital é puro dinamismo.

Esta estruturação formal de mundo possui um conteúdo. Sua existência descobre-se no que se chama de social e sociedade. Por exemplo: estando o homem diante de uma pedra, esta existe para o homem, mas o contrário não acontece. Tal relação é unilateral, não ocorre comunicação. Mas no caso de um animal, o ato humano em relação a este, é recíproco. Ambos existem um para o outro. Há reciprocidade, coexistência. A pedra existe para o homem, mas não coexiste. Mesmo possuindo coexisistência e uma limitada comunicação entre o ser humano e os animais, não se pode reconhecer um fato social nesta relação.

O ser humano, além de pensar relacionar-se, é expressão, formula interpretações. A vida consiste em ocupações com diversas coisas, assuntos, interpretações. Socialmente, o homem é um ser convencional. Somente quando está em sua solidão vive a sua verdade. De outra forma, é pura falsificação.

A reciprocidade com o outro possibilita a identificação como ser humano. Tal realidade só aparece a partir da existência de outro ser, implicando em uma existência recíproca, uma comunidade de homens, uma sociedade. O ser humano não existe na sua solidão, mesmo que

esta solidão esteja a própria verdade; aparece na sociedade como o “outro”, de forma recíproca com os demais.

Percebe-se que o que aparece primeiro na vida do homem não é ele próprio, mas os outros homens. Esta relação com o outro, consiste em um conhecimento cada vez melhor deste outro ser, fazendo com que, pouco a pouco, tal relação torne-se ativa: o ser humano atuando sobre o outro e o inverso também. O viver individual passa a ser conviver, estar aberto ao outro, agir mutuamente; assim apresenta-se a realidade social.

Ortega desenvolve a análise sobre a relação do “eu” com os “outros”, estudando a expressividade do ser humano, sobretudo a gesticulação. Por ser o corpo do outro ser forma concreta, é entendido como um campo de expressividade que emite constantemente sinais.

Ao dizer que há diante de si outro ser como ele, o homem afirma que esse outro ser – que não é pedra, nem planta, nem animal -, é um outro “eu”, ego, portanto, “não-eu”.

O corpo é o que há de mais próximo do homem, confunde-se com ele, mas isto é apenas um fato concreto, espacial. O mais importante é que este corpo é instrumento imediato para ver o outro, as coisas do mundo. Para o homem, o corpo de um outro ser somente é através do seu corpo. Não é possível transpor seu corpo para o do outro, ou ao contrário, o corpo alheio é para ele apenas exterioridade, sua forma com os seus gestos, já que muitas vezes o outro não é Ele, mas Ela. Conforme visto anteriormente, o primeiro contato do ser humano com o mundo são os outros homens, encontrando-se, pois, em sociedade. Portanto, através dos outros, vê-se a si próprio.

Mais além da esfera dos “tus”, ticam os outros que são vistos como “semelhantes”. Ao redor de cada um aparecem homens mais próximos, íntimos, até chegar aos mais distantes, menos íntimos. O maior grau de proximidade é o que se chama de intimidade. Além dos homens que se encontram no seu horizonte, há outros que nunca foram vistos: lembranças de familiares, documentos.

O outro homem, por essência, é perigoso, cada um de maneira diferente. No entanto, não existe outra maneira, é preciso uma aproximação, cautelosamente. Uma técnica de mútua aproximação é o cumprimento. A gesticulação e a fisionomia permitem analisar o viver do outro homem. A relação social não acontece de forma harmônica, mas através de choques entre diferentes “tus”. Assim, cada qual vai descobrindo os seus limites.

Surge, então, a coletividade. Algo humano, mas sem o homem individual, a vida deixa de ser própria, passando de um ser individual para atuar na sociedade, como um autômato socializado.

Através da análise do cumprimento, Ortega y Gasset medita sobre a dimensão do seu uso na sociedade. Os diversos modos de cumprimento são executados pela pessoa, mas não são criados por ela, não é reflexão. Não os entendendo, apenas copia em forma de movimento mecânico, e, através do mundo social, composto por diversos usos automatizados, percebe os outros homens, as coisas, o universo.

Ortega aborda a questão da linguagem. Quando o ser humano se propõe a falar, o faz por querer dizer tudo o que pensa. Isto não acontece porque a linguagem apenas transmite uma pequena parte do que pensamos: “(…) cada língua é uma equação diferente (…) cada povo cala umas coisas para poder dizer outras. Porque tudo seria indizível” (Ortega y Gasset: 1973, p. 277). A língua utilizada por cada um de nós é socializante, mesmo quando se está em outro tipo de sociedade, outro país, obrigatoriamente mantém-se tal uso da língua.

No final de sua obra, o conceito de vigência também é destacado pelo autor. As idéias podem ser diferenciadas em duas categorias: opiniões reinantes e opiniões particulares. Nas primeiras, os usos não necessitam do apoio do grupo, impõe-se a todos em forma de pressão, é o que chama de vigências. A sociedade não possui idéias próprias, individuais, profundamente pensadas: só contém tópicos, sua existência estrutura-se sobre estes.

O Homem e a Gente, obra filosófica que trata da realidade social, é um aprofundamento magnífico em busca de respostas concretas sobre a essência dos fenômenos sociais. O autor, insatisfeito com as contribuições dos mais renomados sociólogos a respeito do que é o Estado, a coletividade, enfim, a sociedade, recorre à filosofia para desvelar os fatos humanos e entender a realidade radical de cada um e da sociedade.

Analisa os fatos vitais que formam o social e os trata como fenômenos qualitativos. Acredita no ser humano e na sua transformação, através de crises – no sentido positivo. As circunstâncias de cada um não são iguais para todos e estas não são vividas da mesma maneira por pessoas diferentes.

Sua obra é a procura de esclarecimentos profundos sobre questões básicas que regem a vida; questões estas que precisam ser entendidas para dar-se sentido a ela.

O texto não aborda diretamente a questão educacional, porém, filosofia e educação estão relacionadas quando se procuram respostas às perguntas como: quem é a criança que se está educando, para que sociedade se está educando e quais são as suas reais necessidades?

A preocupação dos professores em responder tais questões, será a mesma de Ortega y Gasset, quando dedicou-se a precisar o que é sociedade, quer dizer, fazer do aluno abstrato, um ser posicionado histórica e socialmente. Deste modo, a Educação será um processo em busca da descoberta de individualidades, com o objetivo de levar o aluno a ensimesmar-se e posteriormente atuar no seu meio, consciente de suas verdades.

ORTEGA y GASSET, J. O Homem e a Gente. Rio de Janeiro: Ibero-Americano, 1973.

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