MARSILIO FICINO (1433-1499)

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Ficino é um pensador central da renascença porque representa muito bem o espírito dessa época, que consiste em desenvolver a autonomia e a originalidade de forma combinada com a erudição. O estudo da filosofia antiga, no caso de Ficino o pensamento de Platão e de Plotino, não tem como objetivo a reprodução dogmática dos gregos, mas pretende ser uma ocasião de abertura do pensamento que se oponha às sínteses fechadas da Idade Média. Nesse sentido, quando dizemos que Ficino é um platônico, não se deve entender por isso que ele teria sido um discípulo fiel do filósofo grego e que suas obras consistiriam numa exposição literal de Platão. O que temos em Ficino é um platonismo renovado e, muito mais do que uma fidelidade literal, uma inspiração e um estilo de pensar. Isso se manifesta não apenas na interpretação da filosofia platônica, na qual entram muitos outros elementos além do puro platonismo, mas também no recorte de temas que atraem a atenção de Ficino. De qualquer modo, não se poderia entender Ficino fora do contexto da renovação dos estudos platônicos na renascença. O platonismo, com as transformações a que o submete o pensamento original de Ficino, é a base e o guia constante de sua filosofia.
É claro que se tem de levar em conta, então, o conhecimento profundo que ele tinha de toda a obra platônica, o que o distingue na sua época, pois no século XV Aristóteles ainda dominava a cena filosófica. O estudo aprofundado de Platão tornou-se possível através da fundação da Academia de Florença, sob o patrocínio de Cosimo de Medici em 1462. Esse mecenas colocou à disposição de Ficino e dos demais integrantes da Academia um número muito grande de manuscritos, tanto de Platão quanto de outros autores, o que permitiu o desenvolvimento de estudos a partir das fontes originais. Ficino dedicará a maior parte de sua vida à tradução da obra de Platão para o latim, tendo feito o mesmo com os escritos de Plotino. Assim adquiriu grande familiaridade com o platonismo, tanto o original quanto o neo-platonismo, e essa foi a condição fundamental para a realização de sua obra propriamente teórica, a Teologia Platônica, em que o tema principal é a imortalidade da alma. É muito importante considerar, portanto, as condições históricas que permitiram na época um trabalho independente das diretrizes estritas da Igreja, o que somente pôde acontecer graças ao mecenato, sem o qual Florença, por ex., não se teria transformado num centro cultural comparável a Atenas na antiguidade e a Paris na Idade Média. Os Medici desempenham nesse processo de laicização da cultura um papel extremamente relevante; foram eles que apoiaram, financeira e politicamente, as irmandades laicas, agremiações culturais em que se reuniam os estudiosos não ligados ao estamento clerical. O perfil dessas associações estimulava o desenvolvimento de uma cultura individual em consonância com a reivindicação de autonomia intelectual característica da renascença. O que se costuma chamar de individualismo moderno tem nesse período e nessas circunstâncias a sua gênese.
A concepção geral que Ficino tem do universo segue basicamente as linhas do pensamento neo-platônico, no qual Ficino introduz elementos cristãos, seguindo dessa forma também o estilo agostiniano de pensamento. O universo está organizado hierarquicamente: o ponto mais elevado e a origem de tudo é Deus; segue-se uma esfera espiritual denominada de espírito angélico; em seguida a alma racional; depois a qualidade e finalmente o corpo ou matéria. São cinco níveis de realidade dispostos em escala decrescente do divino à materialidade. Mas pode-se observar que a alma racional ocupa uma posição intermediária que, se abstrairmos Deus como realidade máxima, pode ser vista como central, já que se situa entre o espírito angélico, que lhe é superior, e a qualidade e a matéria, níveis inferiores. Essa modificação do esquema plotiniano é intencional. Dentre as realidades que derivam de Deus, Ficino confere relevância à alma racional, humana, concebida como individual. Notemos que em Plotino é a alma do mundo, entidade cósmica, que ocupa a posição imediatamente inferior ao Uno e à Psiquê ou intelecto. Na hierarquia de Ficino não há alma do mundo, mas sim as almas individuais. Isso se deve, em parte, à intenção de incorporar o elemento cristão essencial, que é a alma imortal; mas certamente se deve também ao privilégio que passa a ter em Plotino, e no contexto da renascença, a idéia de indivíduo, dotada agora de uma importância que antes não lhe era conferida. A alma individual não é uma expressão singular da alma do mundo, mas uma realidade metafísica independente. Assim ela passa a ter uma relação mais direta com a divindade, sem a mediação da alma do mundo, o que lhe dá maior dignidade. A alma tem a sua imortalidade como um predicado diretamente derivado de sua origem divina.
O que era em Plotino a alma do mundo transforma-se em Ficino numa função dinâmica de relação entre todos os níveis de realidade. Pois ele acredita que o universo não é apenas uma gradação de elementos hierarquizados mas concebidos estaticamente. O universo é dinâmico e uno; essa unidade está presente na relação dos níveis de realidade entre si. Ora, quanto a essa relação que unifica o universo, a alma humana desempenha um papel fundamental, pois ela pode pensar todos os níveis de realidade e a comunicação que há entre eles. A alma tem no pensamento uma força que se relaciona com todas as coisas, de Deus até a matéria, passando por ela mesma. Essa atividade faz dela uma espécie de centro do universo; não, evidentemente, no sentido de que todas as coisas dependem dela, mas no sentido em que ela pode pensar e representar a ligação de todas as coisas. É como se, num certo sentido, tudo existisse para a alma, embora seja ela apenas um dos níveis de realidade e nem sequer o mais elevado. Ainda mais, além de pensar todas as coisas, a alma humana mantém com elas uma outra relação, que é a de amor. Ficino é sensível à doutrina exposta no Banquete de Platão, segundo a qual o amor une as realidades. Então, na medida em que a alma estende sua atividade amorosa a todo o universo, ela é fator de unificação, porque é pelo amor dedicado ás coisas que a alma pode representá-las unidas entre si e com a própria alma. A unidade do universo está presente á alma através de suas duas atividades: o pensamento e o amor; ambas vinculam, ou pelo menos testemunham a vinculação dos seres entre si. Nesse sentido o amor fundamenta e expressa a unidade do cosmos, pois é ele que torna reais os elos de ligação que constituem a unidade do universo. E sendo o amor uma atividade da alma humana, isso reforça o papel central da alma individual no conjunto do universo. A dinâmica que anima o universo em sua totalidade está no amor, e portanto na alma, razão pela qual Ficino define a alma humana como o maior de todos os milagres, pois ela tem a faculdade de sentir e pensar a combinação de todos os seres. Ela é a mediação pela qual todas as coisas estão unidas.
Dada essa importância da alma, pode-se imaginar o papel que tem em Ficino a experiência interior, a experiência que a alma pode ter de si mesma e de Deus. Ordinariamente nossa alma está voltada para a exterioridade, porque as coisas nos ocupam e nos absorvem. Mas essa experiência ordinária está sempre penetrada pela inquietude e pela insatisfação. São estes dois sentimentos daquilo que falta à alma que provocam a interiorização, pela qual a alma se afasta do mundo para conviver consigo mesma e desse modo vislumbrar a sua origem, isto é, Deus. Vemos aqui que em Ficino a significação mística do neo-platonismo se encontra com a noção cristã de interioridade espiritual e de alma individual. Trata-se da vida contemplativa, que desde Platão é vista como a meta última do aprimoramento intelectual e moral. Também para Ficino a contemplação é o objetivo máximo do ser humano e a realização plena da dignidade da alma. Ao recolher-se em si mesma desprezando a exterioridade, a alma eleva-se para um plano mais alto de realidade, e fica mais próxima de Deus. Por isso o cultivo da interioridade é uma preparação para o conhecimento de Deus, instância em que desapareceria a inquietude e a insatisfação, pois a alma gozaria de plenitude. De acordo com a vertente mística neo-platônica, Ficino concebe essa plenitude como a visão imediata de Deus. Trata-se de percorrer os graus de ascese que nos conduzem da visão interior de nós mesmos à visão de Deus. Em princípio isso é possível ainda nessa vida: Ficino segue assim o ensinamento de Plotino, que admitia a possibilidade de união mística com o divino no plano da vida humana. Mas de fato essa visão somente ocorre raramente, em condições privilegiadas, por breve tempo e para pessoas excepcionais. Nesse itinerário para Deus, o intelecto e a vontade desempenham papel igualmente importante. Porque assim como o conhecimento de Deus é necessário para que a união mística se realize, o amor de Deus é o impulso fundamental para a elevação da alma. Como toda união é amor, a união com Deus é naturalmente a realização mais completa do amor. A união com Deus é uma experiência em que o conhecimento (o intelecto) e o amor (a vontade) estão indissociáveis. Conhecimento e amor são duas traduções de uma mesma experiência.
O tema do amor é central em Ficino e ele o desenvolve a partir de Platão, especialmente do Banquete e do Fedro. O que ficou conhecido como Amor Platônico é uma idéia própria de Ficino, desenvolvida a partir da introdução de elementos cristãos na noção originalmente platônica de amor. Para Platão o amor de qualquer ser particular reflete o amor da Idéia: se amamos alguém pela sua beleza ou pela sua bondade, amamos através dessa pessoa a Beleza e o Bem. Para Ficino, o amor que sentimos por alguém é sempre, tenhamos ou não consciência disso, uma preparação para amar a Deus. Assim como para Platão a Idéia está presente em qualquer relação amorosa, em Ficino Deus é sempre objeto de amor em todo amor que sentimos por alguém em particular. Por isso ele diz que toda relação amorosa, que ordinariamente concebemos como sendo entre duas pessoas, ocorre na verdade sempre entre três: os dois amantes e Deus. Não haveria amor na relação humana se o amor absoluto não se refletisse no amor singular. Isso significa que o amor na sua significação verdadeira é sempre espiritual: daí deriva a acepção de “amor platônico” como aquele que não necessita realizar-se pela união concreta e carnal das pessoas. Com essa depuração do amor Ficino quer acentuar que se trata de um sentimento que manifesta sobretudo a vontade de elevação interior e que a realidade suprema do amor é de ordem mística.
É por isso que a realização plena do amor, isto é a realização divina do amor, exige a imortalidade da alma. Pois a união contemplativa com Deus só se realizará efetivamente quando a alma estiver realmente presente a Deus. Esse amor é a finalidade da alma; ela não realizaria o fim para o qual está destinada se não fosse imortal. Isso funciona como um argumento em favor da imortalidade: assim como todos os outros seres realizam sempre o fim para o qual estão naturalmente destinados, o homem realizaria o seu fim no plano da imortalidade; caso contrário ele seria o único ser privado da realização do seu fim, o que seria contrário à lógica da criação e à dignidade da alma. Aqui se manifesta também o humanismo cristão característico da renascença. O esforço humano para alcançar Deus, qualquer que seja o resultado obtido nessa vida, não pode ser em vão. O homem que se esmera em ser digno de Deus deve realizar esse objetivo. A imortalidade é necessária para isso; ela está em íntima ligação com a dignidade da alma e da pessoa humana. Porque todos os homens tendem naturalmente para Deus. Sem colocar em dúvida a verdade do cristianismo, Ficino observa no entanto que todas as religiões aspiram, de uma forma ou de outra, ao mesmo Deus. A relação com a divindade é algo intrínseco ao ser humano; pode-se dizer até que é algo inscrito em sua natureza, como se fosse natural ao homem conceber a eternidade como seu princípio e a imortalidade como seu destino.

 

O livro do amor, de Marsilio Ficino

– A Coisa Amada

O Comentário ao Banquete de Platão é ainda capaz de despertar admiração e surpresa no leitor contemporâneo. Isso porque a obra de Ficino é clara e apaixonada. E a poesia sobrepaira em todas as suas páginas. Um rasgo de entusiasmo e um rasgo de melancolia constituem o seu percurso dialético. Outras vezes, é o desespero que suprime a malha conceitual. Uma filosofia da imortalidade estruturada em duas pontas: Deus e o Amor. É o que vamos ler em seu Comentário.

Ficino partiu do Banquete e do Fedro, dois grandes diálogos que ensinavam a relação entre o bem e a beleza, da Ética de Aristóteles e do Lélio de Cícero. A todos estes, juntou São Paulo e Santo Agostinho, que ensinavam a dimensão da caridade, bem como os poetas do dolce stil nuovo como Guinizelli e Cavalcanti. A Comédia de Dante e o Cancioneiro de Petrarca perfazem a síntese de sua filosofia do amor. Perfazem, mas não determinam. Marsilio Ficino sabe destramar a tradição e a reorganizar dentro de um sistema novo e de todo fascinante. Ultrapassa a condição de fragmentos para instaurar um discurso.

Para o filósofo, o amor humano é uma preparação para o amor divino. Tudo parte da semelhança. E quando o amor é verdadeiro os amantes se identificam um com o outro. Passamos do amor solitário ao amor recíproco. Semelhança e reciprocidade fundamentam a sua estrutura:

“A semelhança gera o amor. A semelhança é uma certa natureza igual em vários. Pois se eu sou semelhante a ti, tu também és necessariamente semelhante a mim. Portanto, a mesma semelhança, que impele que eu te ame assim como tu me amas, obriga-te também a me amares.”

Algo parecido com o poema de Camões: o amador se transforma na coisa amada e em si mesmo possui a parte desejada. Lemos no Comentário que

“na verdade cada um tem a si próprio e ao outro. Pois este existe naquele. E aquele existe, mas neste. Com efeito, enquanto eu te amo, eu me encontro amante, em ti, estando eu a pensar em mim, e recobro-me por mim mesmo, perdido na minha negligência, conservando-me em ti. A mesma coisa fazes em mim.”

E prossegue:

“Pois eu, depois que perdi a mim mesmo, se por ti me recobro, por ti tenho a mim; se por ti tenho a mim, eu te tenho antes e mais que a mim mesmo, e estou mais próximo de ti que de mim, visto que me ligo a mim precisamente por ti.”

Todavia, apesar dessa profunda união, os amantes não sabem exatamente o que buscam um no outro. Querem sempre mais e já não sabem o que significa esse mais. Sentem uma nostalgia arraigada, mas não sabem determinar a sua extensão. Sofrem quando amam e desconhecem por que sofrem. Têm saudade do imponderável. A semelhança e a reciprocidade não resolvem esse mistério divino. Primeiro, porque a sede de quem ama não se aplaca ao ver ou ao tocar o corpo do amado. Não deseja este ou aquele corpo, mas o resplendor divino infuso no outro. A presença de Deus é como um suave perfume que faz pressentir o sabor de um fruto ignorado. Igualmente, o temor e a reverência do amante ao ver o amado é um temor inconsciente em face de Deus.

Tais argumentos demonstram que o amor não se limita a duas pessoas, mas a três: dois seres humanos e um Deus: o amante e o amado são como espelhos que guardam a imagem imperfeita do Pai. É isso que os aproxima um do outro. Precisam compreender a profundidade desse Bem. Pois amar é voltar à Origem. Vejamos.

I – Motivos de Inquietação

Num conhecido diálogo de Platão, o desejo da filosofia é o desejo da morte. Inicialmente terríveis, as palavras de Sócrates ganham maior clareza à medida que avançamos na leitura do Fédon. Filosofar é libertar-se do corpo para se ocupar da alma, é ir deixando morrer as solicitações do corpo na realidade do pensamento. Ao nosso redor, apenas miragens e simulacros. Tudo mergulhado em sombras. E o corpo sendo uma extensão dessa realidade. Se buscamos o conhecimento puro, devemos examinar as coisas com a alma. Passar da esfera do sensível para a esfera do inteligível. A nossa pátria é a altíssima região da qual baixamos a este mundo terreno, lá onde mora o nosso Pai. Por isso é preciso morrer. Porque habitamos a Distância. Porque vivemos no Exílio. Transcender: eis a palavra-chave na concepção platônica. Morte e transcendência preparam o fim da Distância e o regresso ao seio da Unidade. A nostalgia de Deus é a ante-câmara da morte. Eis o que pensava justamente Marsilio Ficino. Filosofar é morrer.

Ficino é um ser enamorado e atormentado por Deus. E as suas páginas dão o testemunho dessa procura incessante do Significado. Da imagem e do rosto de Deus. A filosofia para Ficino não é senão amor a Deus e regresso a Deus. Voltar ao Princípio dos princípios e contemplar a Causa das causas. Passar da superfície ao Profundo. Pois o homem – sem Deus – é uma devastadora inquietação. O horizonte puramente físico de Aristóteles e Lucrécio jamais serviu de consolo para Ficino. Só fez aumentar-lhe a busca do Sentido. O maior desejo do homem – lembra o filósofo – consiste em tornar-se onipotente. Ele mede o céu, a terra e os abismos. O céu não lhe parece tão alto. O centro da Terra, tão profundo. E o abismo já não lhe causa mais terror. As distâncias espaciais e temporais não o impedem de chegar aonde bem entende. Contudo, a inquietação e a melancolia não se despegam de sua alma. Não lhe basta a conquista da Terra. Sente-se acabrunhado pela vanidade das coisas. Precisa do Outro. Tem saudades do Infinito. E não quer sucumbir nas ondas do tempo.

O endereço do homem é outro. Assim como o Sol atrai as flores, a Lua move as águas, e Marte comanda os ventos, também sofremos o impacto da beleza, que é o rosto de Deus, e que atrai a alma (a sé tira) por uma lei de intrínseca semelhança. Estas páginas de alta poesia – que sabem unir metáforas e conceitos, símbolos e alegorias – fazem da filosofia de Ficino um pensamento emocionado. Comprometido com Deus e com a imortalidade da alma. Diz Lourenço, o Magnífico:

Della divina infinità l’abisso
quasi per una nebbia contempliamo,
benché l’alma vi tenga l’occhio fisso;
ma d’un perfetto e vero amor l’amiamo.
Quel che conosce Dio, Dio a sé tira;
amando alla sua altezza c’innalziamo.

Nos versos do Magnífico o conhecimento de Deus torna-se o desejo supremo da alma e nele somente. Todas as demais formas da vida e do conhecimento devem ser entendidos como preparação mais ou menos consciente para voltar ao Criador. Esse é o destino irreversível da alma. Tu ergo Deus noster, tu solos sitim hanc extingues ardentem. Aplacar-lhe a sede. Fonte das fontes.

Um encontro sublime entre o amador e a coisa amada. Um projeto de redenção onde coincidem o Bem e o Uno, a Causa eficiente e a Causa final, o Demiurgo de Platão e o Intelecto de Aristóteles. Tal a sobreposição de matizes da tradição platônica que alimenta a filosofia do retorno em Marsilio Ficino.

III – Projetos de Unidade

Para compreendermos aquela teoria, é preciso recorrer às hipóstases de Plotino. Admirável desinterpretação do Parmênides. Negativa Transcendência do Uno. Radical dimensão meta-ôntica. O drama do retorno parte justamente destas questões.

Solidão do Primeiro Princípio. Eis o que constatamos – a respiração presa, a mente extasiada, o coração palpitante – desde as primeiras páginas de Plotino: o Uno real, o Uno total, aparece radicalmente separado do Universo, acima da essência e da vida, da parte e do todo. Não é qualidade ou quantidade. Não se move, nem descansa. Não possui forma ou figura. É absolutamente o Separado. Além do ser (epékeina óntos). Transcendência dele em tudo. Imanência de tudo nele. A multiplicidade do cosmos provém do não-múltiplo, e não pode existir a multiplicidade, sem a existência daquele. Assim é a árvore da vida. Onipotência absolutamente dona de si mesma. Tudo parte do Singular.

A superclaridade do Primeiro Princípio expande-se como plenitude que se comunica, autárquica e sem desejo, ao Filho. O pensamento – ato essencial do Intelecto – é plural e o seu índice metafísico é infinitamente menor se comparado ao Uno, mergulhado como se encontra na in-diferença. Eis a razão pela qual o Uno seria incapaz de pensar a si mesmo, pois, se assim o fizesse, deixaria de ser unidade originária, tornando-se sujeito e objeto. Conquanto deficiente e posterior, o Intelecto é o primeiro dos seres e, por um movimento de regresso (epistrophé) ao Pai, contempla o Uno, que não pode ser pensado senão como perene explicitação de si mesmo. A distância que os separa corresponde ao abismo do Infinito. Mesmo assim, o Filho é o ser mais próximo do Pai.

Ao deixar ser a diferença do Intelecto através da processão, o Uno nada perde de sua autarquia. Permanecendo, gera o Intelecto de si mesmo, tal como o fulgor dos raios solares. A inteligência primeira é um kósmos noetós que possui um aspecto ativo e subjetivo, o ato de pensar, e um aspecto passivo e objetivo, o conjunto das idéias. A vida do Intelecto é a luz primeira, que se acende e resplandece sobre si, iluminante e iluminada, puramente inteligível, que se vê por si mesma e não tem necessidade de outra iluminação. Para Plotino, as idéias não representam o conteúdo do Intelecto, mas significam o próprio Intelecto. Cada idéia é ao mesmo tempo intelecção e inteligência. Salvaguardar-se destarte a especial unidade-múltipla do Filho.

Ao contemplar os inteligíveis, o Intelecto reverbera a imagem destes na Alma, comunicando-lhe o próprio ser. Daí porque a Alma é o verbo do Intelecto. Uma parte dela permanece no inteligível, fora do cosmos, contemplando o Intelecto. A outra parte avança em direção dos seres sensíveis, aos quais dá vida. Se a primeira é comparada ao agricultor, a segunda é comparada à árvore. Aquela é transcendente. Esta, imanente. Sendo dupla a sua natureza, seria melhor para a Alma viver no inteligível. Apesar disso, domina-a uma necessidade de participar do mundo sensível. Eis a característica que lhe permite criar o mundo com a memória dos inteligíveis. A Alma – diria Ficino num contexto maior – é o rosto da totalidade, o centro da natureza e a cópula do mundo.

A Alma do Todo envolve harmonicamente o corpo do Universo. Este participa tanto quanto possível da beleza das idéias, pois a Alma produz contemplando os inteligíveis: as almas individuais,o Sol e as estrelas, os rios e os mares. E a beleza é o sinal de algo ainda mais profundo, o índice de uma imponderável nostalgia, a marca do regresso. A alma sonha com um plano de permanência e contemplação. O Belo é o prefácio do Bem. Eis o nosso destino. Plotino compreende o retorno a Deus como fuga do solitário ao Solitário (figué mónou prós mónon). Chega mesmo a lançar mão da metáfora de Ulisses:

“Fujamos pois à cara pátria. Mas como partir, como preparar esta fuga? Não certamente com os nossos pés, porque eles sempre nos levam de um lugar para outro da Terra. Nem é preciso aparelhar carruagens ou navios, mas abandonar todas estas coisas, e não lhes dirigir os nossos olhares, fechar os olhos corporais e despertar outros, que todos possuem, mas que poucos usam”.

Um caminho interno e por mares metafísicos. Quando finalmente o solitário chegar ao Solitário, haverá a imanência da alma no Uno, união por presença, êxtase e abandono, esquecimento e arrebatamento. Com o retorno ao Uno fecha-se o círculo. O fim da conversão coincide com o princípio da processão.

IV – Princípio e Fim

No cristianismo as questões da Trindade, da Criação e da Encarnação obrigam a repensar a identidade e a diferença. Passamos da emanação à criação. Do deus impessoal ao deus pessoal. Do não-desejo do Uno ao desejo do Pai. Da in-diferença do Princípio à diferença do Verbo. Do indivíduo à pessoa.

Partindo de Agostinho e do Pseudo-Dionísio, podemos distinguir em Deus, em sua transcendente unidade, o mesmo e o outro. A identidade consiste no Deus imutável, sempre igual a si mesmo, infinito em sua perfeição, reunindo os atributos do Uno, do Intelecto e da Alma. Temos aqui a plenitude do ser. A diferença consiste na criação, transcendendo-se livremente a si mesmo, sem deixar de permanecer idêntico, uno e trino, sendo a diferença um momento interno da unidade divina. Afinal, garantida a transcendência de Deus, a pluralidade já não constitui uma diminuição a ser eliminada do Uno e a ser explicitada necessariamente fora dele.

Ao aceitar semelhantes aspectos, Marsilio Ficino critica a teoria de uma processão circular e infinita, como se houvesse um perene permanecer, um perene proceder e um perene regressar. Parece-lhe absurdo um movimento sem fim: tudo seria igual a tudo, sem que a causa final pudesse atuar de modo transcendente. O Uno seria apenas o suporte do processo circular. Além disso, Ficino também empresta às hipóstases um rosto e uma vontade. A solidão do Uno começa a sofrer uma grande mudança, pois a força que atrai o conhecido ao desconhecido,o significante ao significado, não pode repousar na clássica des-afeição do Uno. Se os homens amam o Primeiro Princípio, que acendeu em suas almas essa nostalgia, essa inquietude e essa paixão, também o Pai ama radicalmente e pessoalmente todos os homens. Ninguém mais se dissolve no seio da matéria universal ou na unidade de uma inteligência que é a forma da matéria humana. Trata-se de uma relação profunda e radicalmente pessoal. Deus agora tem face. Una e plural. Conhece os homens na diferença. E já não pode prescindir da face:

“Se amarmos os corpos, os espíritos, os anjos, na verdade não amaremos estes, mas Deus nestes. Por certo nos corpos amaremos a sombra de Deus; nos espíritos, a semelhança de Deus; nos anjos, a sua própria imagem. Assim, no presente, amaremos Deus em todas as coisas, a fim de que em Deus, em suma, amemos todas as coisas. Assim, pois, enquanto vivermos, a ele nos dirigiremos para ver não só Deus, mas todas as coisas em Deus, e amaremos não só ele próprio, mas ainda todas as coisas que estão nele mesmo. E quem quer que neste tempo com caridade se consagre a Deus, enfim, se salvará. Isto é, voltará à sua idéia, pela qual foi criado. Aí de novo, se algo lhe faltar será corrigido e se unirá perpetuamente à sua idéia. Então, o verdadeiro homem e a idéia do homem são a mesma coisa. Por isso, nenhum de nós na terra, separado de Deus, é um verdadeiro homem, visto que dele está separado pela idéia e pela forma. A ela nos levarão o divino amor e a piedade. Em todo o caso,aqui estamos repartidos e mutilados; então, amando, unidos à nossa idéia, nós nos tornaremos homens íntegros, posto que pareceremos ter primeiramente amado Deus nas coisas, para que depois amemos as coisas em Deus, e por isto pareceremos venerar as coisas em Deus para nele estimarmos sobretudo a nós mesmos, e, amando Deus, amamos a nós mesmos”.

Como bem observou Kristeller, a vontade é o verdadeiro princípio que põe a alma em movimento e a conduz até o seu fim. O intelecto, considerado superior até quando a mente humana estava um pouco acima dos objetos, revela-se inferior quando o objeto ultrapassa a capacidade do pensamento humano. Só o amor propicia a união: Propius unimur Deo per amatorium gaudium. O intelecto permanece fechado em si mesmo, enquanto que a vontade busca o objeto. O amor e a beleza coincidem aqui. Fons totius pulchritudinis deus est. Fons totius amoris est deus. E a idéia do homem e a sua plenitude também se identificam. O sujeito continua sendo o rizoma dessa metafísica. Pois a diferença torna-se um espelho, onde o amador se reflete na coisa amada e a coisa amada se reflete no amador. Que mais pode refletir o espelho senão a própria face?

 

Frases

“O Homem é o mais desgraçado dos animais: além da imbecillitas corporis, comum a todos os viventes, tem também a inquietudo animi, isto é, a certeza de dever morrer.”

“E assim, portanto, há uma idade que temos que chamar de ouro… e que o nosso século seja assim, áureo, ninguém duvidará disso se tomar em consideração os admiráveis engenhos que nele se achou.”

Sobre a razão:

“Conhece-te a ti mesmo, ó linhagem divina vestida com trajes mortais. Despe-te, eu te peço, separa o quanto podes, e podes o quanto te esforces; separa, digo, a alma do corpo, a razão dos afetos do sentido. Verás logo, cessadas as brutalidades terrenas, um puro ouro, e, afastadas as nuvens, verás um luminoso ar; e então, acredita-me, respeitarás a ti mesma como um raio eterno do divino sol.” (Lettere, ep. 110, 1-9.

Sobre o amor:

“Quando dizemos amor, entendam desejo de beleza.” (Sopra lo Amore, I iv)

Sobre a alma:

Anima copula mundi. (A alma racional como termo médio entre o divino e o terreno)

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