Blaise Pascal

Blaise Pascal

Nascido em Clermont-Ferrand, a 19 de junho de 1623, Blaise Pascal era filho de Étienne Pascal, presidente da Corte de Apelação, e de Antoinette Bégon. Segundo sua irmã e biógrafa, Gilberte Périer, Pascal revelou desde cedo um espírito extraordinário, não só pelas respostas que dava a certas questões, mas sobretudo pelas questões que ele próprio levantava a respeito da natureza das coisas. Perdeu a mãe aos três anos de idade; era o único filho do sexo masculino. Assim, o pai apegou-se muito a ele e encarregou-se de sua instrução, nunca o enviando a colégios. Mesmo quando, em 1631, a família Pascal mudou-se para Paris, a educação de Blaise permaneceu ao encargo do pai.

A irmã Gilberte escreverá mais tarde: “A máxima dessa educação consistia em manter a criança acima das tarefas que lhe eram impostas; por esse motivo só deixou que aprendesse latim aos doze anos, para que aprendesse com maior facilidade. Durante esse intervalo não o deixou ocioso, pois o ocupava com todas as coisas de que o julgava capaz. Mostrava-lhe de um modo geral o que eram as línguas; ensinou-lhe como haviam sido reduzidas as gramáticas sob certas regras, que tais regras tinham exceções assinaladas com cuidade, e que por esses meios todas as línguas haviam podido ser comunicadas de um país para outro. Essa idéia geral esclarecia-lhe o espírito e fazia-o compreender o motivo das regras da gramática, de sorte que quando veio a aprendê-las sabia o que fazia e dedicava-se aos aspectos que lhe exigiam maior dedicação”.

Além das línguas, Étienne Pascal ensinava outras coisas ao filho: dava-lhe rudimentos sobre as leis da natureza e sobre as técnicas humanas. Tudo isso aguçava ainda mais a curiosidade do menino, que queria saber a razão de todas as coisas e não se satisfazia diante de explicações incompletas ou superficiais. Diante de uma explicação insuficiente, passava a pesquisar por conta própria até encontrar uma resposta satisfatória e, quando se defrontava com um problema, não o largava até resolvê-lo plenamente. Aos onze anos, suas experiências sobre os sons levaram-no a escrever um pequeno tratado, considerado muito bom para sua idade.

Étienne Pascal era matemático e sua casa era muito freqüentada por geômetras. Como queria que Blaise estudasse línguas e, sabendo como a matemática é apaixonante e absorvente, evitou por muito tempo que o filho a conhecesse, prometendo-lhe que a ensinaria quando ele já soubesse grego e latim. Essa precaução serviu apenas para aumentar a curiosidade de Blaise, que passou a se divertir com as figuras geométricas que o pai lhe havia mostrado. Procurava tracá-las corretamente; depois passou a buscar as proporções entre elas e, afinal, depois de propor axiomas relativos às figuras, dedicou-se a fazer demonstrações exatas. Com isso chegou até a 32ª proposição do livro I de Euclides. Estarrecido, o pai verificou que o filho descobrira sozinho a matemática. A partir de então, Blaise recebeu os livros dos Elementos de Euclides e pôde dedicar-se à vontade ao estudo da geometria. Os avanços foram rápidos: aos dezesseis anos escreveu Tratado Sobre as Cônicas, que, no entanto, por sua própria vontade, não foi impresso na época.

Entre a Ciência e a Religião

Não apenas na matemática revelou-se o gênio precoce de Pascal. Nas demais ciências realizou surpreendentes progressos e aos dezenove anos inventou a máquina aritmética, que permitia que se fizesse nenenhuma operação sem lápis nem papel, sem que se soubesse qualquer regra de aritmética, mas com segurança infalível. O invento de Pascal foi considerado uma verdadeira revolução, pois transformava uma máquina em ciência, ciência que reside inteiramente no espírito. A construção da máquina, foi, todavia, muito complicada e Pascal levou dois anos trabalhando com os artesãos. Essa fadiga comprometeu definitivamente sua saúde, que se tornou muito frágil daí por diante.

Aos 23 anos, tomou conhecimento da experiência de Torricelli (1608-1647) referente à pressão atmostérica e realizou uma outra, denominada “a experiência do vácuo”, provando que os efeitos comumente atribuídos ao vácuo eram, na verdade, resultantes do peso do ar. Mais tarde ­ a partir de 1652 -, passou a sse interessaar pelos problemas matemáticos relacionados aos jogos de dados. As pesquisas que fez a esse respeito conduziram-no à formulação do cálculo das probabilidades, que ele denominou Aleae Geometria (Geometria do Acaso). O chamado Triângulo de Pascal foi um dos resultados dessas pesquisas sobre jogos de azar: trata-se de uma tabela numérica que, entre outras propriedades, permite calcular as combinações possíveis de m objetos agrupados n a n.

Um dos últimos trabalhos científicos de Pascal nesse período é o Tratado Sobre as Potências Numéricas, em que aborda a questão dos “infinitamente pequenos”. A essa questão voltará mais uma vez em 1658, num derradeiro estudo científico sobre a área de ciclóide, curva descrita por um ponto da circunferência que rola sem deslizar sobre uma reta. O método aplicado por Pascal para estabelecer essa área abriu caminho à descoberta, do cálculo integral, realizada por Leibniz (1646-1716) e Newton (1642-1727).

Em Ruão, para onde se havia mudado a família Pascal, Blaise conheceu Jacques Forton, senhor de Saint-Ange-Montcard, com quem teve as primeiras discussões a respeito da Bíblia, dos dogmas e da Igreja católica e da teologia em geral. Blaise e outros jovens, seus amigos, logo consideraram Saint-Ange-Montcard um herético pernicioso. Começa então a fase apologética da obra de Pascal, quando ele se une aos jansenistas do Port-Royal, sob a influência de sua irmã, Jacqueline Pascal, que havia entrado para o convento. Segundo o relato de Gilberte, Jacqueline conseguiu persuaadir o irmão de que “a salvação devia ser preferível a todas as coisas e que era um erro atentar para um bem passageiro do corpo quando se tratava do bem eterno da alma”. Pascal tinha então trinta anos, quando “resolveu desistir dos compromissos sociais. Começou mudando de bairro e, para melhor romper com seus hábitos, foi morar no campo, onde tanto fez para abandonar o mundo que o mundo afinal o abandonou”.

Assim, depois do período em que procurou a verdade científica e a glória humana no domínio da natureza e da razão, Pascal dirigiu seu interesse para as questões da Igreja e da Revelação, acalentando o projeto de reunir a sociedade laica e a cristã e de combater a corrupção que teria sido causada pela evolução dos últimos séculos. Nesse período escreve o Memorial, obra mística, e os trabalhos de cunho apologético Colóquios com o Senhor de Saci Sobre Epicteto e Montaigne e as Províncias.

Na verdade, Pascal foi decisivamente marcado por um acontecimento, que determinou a mudança de sua trajetória espiritual: o “milagre do Santo Espinho”. O fato é narrado pela irmã de Pascal, Gilberte Périer: “Foi por esse tempo que aprouve a Deus curar minha filha de uma fístula lacrimal que a afligia havia três anos e meio. Essa fístula era maligna e os maiores cirurgiões de Paris consideravam incurável; e enfim Deus permitiu que ela se curasse tocando o Santo Espinho que existe em Port-Royal, e esse milagre foi atestado por vários cirurgiões e médicos, e reconhecido pelo juízo solene da Igreja”. A cura de sua sobrinha e afilhada repercuriu profundamente em Pascal: “… ele ficou emocionado com o milagre porque nele Deus era gloorificado e porque ocorria num tempo em que a fé da maioria era medíocre. A alegria que experimentou foi tão grande que se sentiu completamente penetrado por ela, e, como seu espírito ocupava-se de tudo com muita reflexão, esse milagre foi a ocasião para que nele se produzissem muitos pensamentos importantes sobre milagres em geral”.

As análises sobre o milagre são fundamentais no pensamento de Pascal, pois determinam o centro de todas as suas reflexões religiosas e filosóficas: a figura de Cristo, mediador entre o finito (as criaturas) e o infinito (Deus criador). Em função de Cristo, Pascal estabelece a verdadeira relação entre os dois Testamentos: o Antigo revelaria a justiça de Deus, perante a qual todos os homens seriam culpados pela transmissão do pecado original; o Novo revelaria a misericórdia de Deus, que o leva a descer entre os homens por intermédio de seu Filho, cujo sacrifício infunde a graça santificante no coração dos homens e os redime. A idéia central de Pascal sobre o problema religioso é, portanto, a de que sem Cristo o homem está no vício e na miséria; com Cristo, está na felicidade, na virtude e na luz.

A figura de Cristo permite ainda a Pascal distinguir os pagãos, os judeus e os cristãos: os pagãos (isto é, os filósofos) seriam aqueles que acreditam num Deus que é si mplesmente o autor das verdade geométricas e da ordem dos elementos; os judeus seriam os que acreditam num Deus que exerce sua providência sobre a vida e os bens dos homens a fim de dar-lhes um seqüência de anos felizes; já os cristãos seriam os que crêem num Deus de amor e de consolação, que faz com que eles sintam interiormente a miséria em que vivem e a infinita misericórdia de quem os criou. Somente aquele que chega ao fundo da miséria e da indignidade e que sabe do mediador (Cristo), chegando por intermédio dele a conhecer o verdadeiro Deus, pois só o mediador poderia reparar a miséria do homem.

Jansenismo e Monarquia Absoluta

Com o intuito de reformular globalmente a vida cristã, o holandês Cornélio Jansênio (1585-1638) deu início a um movimento que abalou a Igreja caatólica durante os séculos XVII e XVIII. Descontente com o exagerado raacionalismo dos teólogos escolásticos, Jansênio – doutor em teologia pela universidade de Louvain e bispo de Ypres – uniu-se a Jean Duvergier de Hauranne, futuro abade de Saint-Cyran, que também pretendia o retorno so catolicismo à disciplina e à moral religiosa dos primórdios do cristianismo. Os jansenistas dedicaram-se particularmente à discussão do problema da graça, buscando nas obras de Santo Agostinho (354-430) elementos que permitissem conciliar as teses dos partidários da Reforma com a doutrina católica.

Jansênio, na obra Augustinus, declarava que a razão filosófica era “a mãe de todas as heresias”. Baseando em Santo Agostinho sua doutrina do dúplice amor, sustentava que Adão, antes de pecar, era livre; pelo pecado perdeu a liberdade e tornou-se escravo da concupiscência, que o arrastou para o mal. Em conseqüência disso, o homem não pode deixar de pecar, a não ser que intervenha a caridade (amor celeste), que o orienta infalivelmente para o bem. Submetidos à lei férrea desse dúplice amor, os seres humanos tornaram-se escravos da Terra ou do Céu, arrastados para a condenação ou para a salvação. Desse modo, independentemente das ações que comete, o homem estaria predestinado para o céu ou para o inferno.

O jansenismo expandiu-se principalmente na França, graças à atuação do abade de Saint-Cyran e de Antoine Arnauld (1612-1694), que, juntamente com outros intelectuais, instalaram-se em Port-Royal. Ali o jansenismo assumiu forma ascética e polêmica, apresentando-se como um verdadeiro cisma, que logo foi atingido pelos anátemas do papa.

Era uma época de profundas transformações políticas na França. A monarquia, em sua evolução, passava de monarquia temperada do Antigo Regime (caracterizada pela primazia da realeza sobre os senhores, graças ao apoio do Terceiro Estado, do corpo de legistas, de adminstradores e de oficiais) à monarquia absoluta, na qual as atribuições dos oficiais e das cortes são transferidas para o corpo de comissários do rei. Os indicadores do movimento jansenista na França – Saint-Cyran, Arnauld d’Andilly, Antoine Le Maître – pertenciam à nobreza togada e em especial a um grupo desses nobres que esperavam passar à condição de comissários do rei. E a ideologia que vai diversificar o interior desse grupo apresenta como núcleo a afirmação da impossibilidade radical de se realizar uma vida válida neste mundo; isso leva homens e mulheres não apenas a abandonar a vida mundana, no sentido corrente do termo, mas a abandonar toda e qualquer função social.

Antes do início dpo movimento, os mais destacados integrantes do grupo de Port-Royal eram amigos e companheiros do cardeal Richelieu, embora dele discordassem quanto a alguns pontos importantes: preconizavam uma aliança com a Espanha católica e luta mortal contra os huguenotes, que estivessem dentro ou fora do país.

Até 1637, a oposição entre o grupo e Richilieu não consistia em indagar se a vida cristã era ou não compatível com a política, mas sim qual era a política cristã. A vitória de Richilieu desencadeou a ruptura com o grupo e um de seus membros (Saint-Cyran) permaneceu, durante dez anos, na prisão do castelo de Vincennes. A partir de então é que nasce o jansenismo propriamente dito: afirmação de que é impossível para o verdadeiro cristão e para o verdadeiro eclesiástico participar da vida política e social. A vanguarda jansenista era constituída por advogados e suas famílias, que se incompatibilizaram com a política de Richilieu; os simpatizantes do movimento eram, em geral, oficiais, advogados e membros das cortes supremas, desgostosos com o poder dos comissários do rei, que passaram a exercer as antigas funções dos oficiais e das cortes. Deve-se notar que o pai de Pascal era membro da Corte Suprema de Clermont-Ferrand.

A oposição dos jansenistas constituía apenas uma das modalidades de oposição que se fazia, na época, à monarquia e que contará com maior número de adeptos depois da Fronda (sublevação contra o primeiro-ministro Mazarin, que se estendeu de Paris às províncias, de 1648 a 1652). Mas jansenismo aapresentou duas vertentes: uma preconizava o retiro completo, a segunda optava pela militância religiosa. Esta última é que terá maior sucesso depois da Fronda e é ela que prossegue, no século XVIII, a luta contra a monarquia absoluta. Pascal participa de ambas as correntes, em momentos diversos de sua vida.

Da Militância ao Recolhimento

O jansenismo podia propor uma atitude abstencionista em relação à política porque estava constituído por pessoas que pertenciam a um grupo social cuja base econômica dependia diretamente do Estado. Enquanto nobreza togada, os oficiais, os membros das Cortes, dependiam economicamente do Estado, embora, ideologicamente, dele se afastassem e a ele se opusessem. A situação dos jansenistas é, assim, paradoxal: exprime o descontentamento em face da monarquia absoluta, sem, contudo, poder desejar sua destruição ou sua transformação radical. Os jansenistas são trágicos porque vivem uma situação trágica – e por isso afirmam tragicamente a vaidade essencial do mundo e a salvação pelo retiro e pela solidão.

O centro da trajetória espiritual de Pascal reside no seu encontro com o jansenismo, que lhe permitiu exprimir melhor sua sede de absoluto e de transcendência. A vocação religiosa de Pascal encontra no jansenismo o solo favorável para sua expansão. O “milagre do Santo Espinho” reforçou-lhe a tendência mística e a certeza de que “há alguma coisa acima daquilo que chamamos natureza” – como escreve sua irmã Gilberte. Até o encontro com o jansenismo havia na vida de Pascal uma contradição entre a primazia atribuída, em princípio, à religião, e a realidade prática de uma vida consagrada ao mundo. Esse encontro permite a Pascal estabelecer o acordo entre a consciência e a vida, através da militância religiosa que procura o triunfo da verdade (ciência) na Igreja e o triunfo da fé (religião na sociedade laica. Esse acordo, porém, não se manterá. Todavia, será ainda entre os jansenistas que Pascal chegará à conclusão de que é importante retirar-se definitivamente do mundo e até mesmo da militância religiosa. Pascal transita, assim, entre as duas atitudes que já existiam entre os próprios jansenistas da militância (Arnauld, Nicole) passa ao retiro (Barcos, Jacqueline Pascal). À fase apologética daas Proncinciais segue-se então a fase dos Pensamentos.

Essa mudança é determinada pela condenação do jansenismo pelo papa Alexandre VI. Pascal acaba submetendo-se ao poder papal – e isso significa que a militância religiosa não mais pode ser efetuada. Nessa terceira fase de sua vida, Pascal volta a dedicar-se à ciência (estudos sobre a ciclóide e sobre a roleta, seguidos de discussões com vários sábios da época), mas seus escritos religiosos perdem o tom apologético para se tornar trágicos. Os Pensamentos revelam ser os escritos de um homem a quem “o silêncio eterno dos espaços infinitos apavora”.

Na fase final de sua vida e de sua obra, Pascal exprime uma só certeza: a de que a única verdadeira grandeza do homem reside na consciência de seus limites e de suas fraquezas. ” Pascal descobre a tragédia”, escreve Lucien Goldmann, “a incerteza radical e certa, o paradoxo, a recusa intramundana do mundo e o apelo de Deus. E é estendendo o paradoxo até o próprio Deus – que para o homem é certo e incerto, presente e ausente, esperança e risco – que Pascal pôde escrever os Pensamentos e abrir um capítulo novo na história do pensamento filosófico”.

Pascal morreu em 29 de agosto de 1662, à uma hora da madrugada. Tinha 39 anos de idade.

Sentenças:

– É mais fácil suportar a morte sem pensar nela.

– Rir da filosofia é o verdadeiro filosofar.

– É melhor saber um pouco de tudo do que tudo de um pouco.

– Boas palavras escondem um mau caráter.

– A nossa natureza é o movimento; o completo repouso é a morte.

– Nós não buscamos as coisas, mas a busca das coisas.

– Quem se aflige por pouco, se consola com pouco.

– A diversão nos consola das nossas misérias.

– Como não sei de onde venho, não sei para onde vou.

– O silêncio dos espaços infinitos me apavora.

– É incompreensível que Deus exista e também incompreensível que não exista.

– O coração tem razões que a razão desconhece.

– A justiça sem a força é impotente, a força sem justiça é tirania.

– Não é certo que tudo seja incerto.

– Só entendemos as profecias quando elas acontecem.

– O amor não tem idade, está sempre nascendo.

– O homem está disposto a negar o que não entende.

– As ilusões sustentam o homem como as asas sustentam o pássaro.

– O universo é uma esfera cujo centro está em todas as partes e a circunferência em nenhuma.

– Os extremos se tocam.

– Tudo é grande na alma grande.

– Eu só posso aprovar os que procuram gemendo

 

Blaise Pascal: Quando Fé e Razão se encontram!

“O desejo de Deus está inscrito no coração do homem, já que o homem é criado por Deus e para Deus; e Deus não cessa de atrair o homem a si, e somente em Deus o homem há de encontrar a verdade e a felicidade que não cessa de procurar” (Cat, 27).

A vida de Blaise Pascal foi uma confirmação literal dessas palavras que se encontram no Catecismo da Igreja Católica. Em sua vida, ele soube unir o amor pela verdade e a busca de Deus, dando testemunho de que é possível conjugar com equilíbrio e profundidade: fé e razão, piedade e ciência, amor e sensatez.

Num mundo onde o desequilíbrio do pecado se manifesta em todas as áreas da vida do homem: desmatamento ecológico, guerras, corrupção na política, desmoralização dos poderes públicos, intolerância religiosa, violência em diversos graus e formas… o testemunho de vida de Pascal parece oportuno para nos lembrar que o homem, que trás em seu coração o desejo de chegar à Verdade, pode e deve contar com o que o Santo Padre João Paulo II chama de “duas asas pelas quais o espírito humano se eleva para a contemplação” da verdade que tanto ele busca. Essas duas asas são a fé e a razão.

Nascido em Clermont, a 19 de junho de 1623, filho de um alto magistrado, homem de vasta cultura, chamado Etienne Pascal e de Antoinette Bégon, desde tenra idade deu mostras de uma extraordinária inteligência e de uma aguçada curiosidade.

Aos sete anos, após a morte de sua mãe, foi morar com seu pai e irmãos em Paris. Dedicado que era aos estudos científicos, matemáticos e físicos, seu pai preferiu que ele se dedicasse ao latim, antes de estudar as ciências e a matemática, matérias pelas quais, a exemplo do pai, nutria maior interesse. Entretanto, Pascal dedicava boa parte de seu tempo livre a estudar as disciplinas “proibidas” por seu pai, principalmente a geometria, se revelando assim um excelente e precoce autodidata.

Com apenas doze anos, Pascal descobriu sozinho as 32 primeiras proposições da Geometria de Euclides. Quando seu pai descobriu o prodígio de seu filho, ao invés de castigá-lo, deixou que ele pudesse livremente dedicar-se aos estudos que mais o interessavam, de modo a não sufocar a grande virtude da inteligência de seu filho.

Quatro anos mais tarde, Pascal, com a idade de dezesseis anos, escreveu um Tratado sobre as Seções Cônicas. Vejamos como sua irmã, a senhora Périer, narra esse período na biografia que escreveu sobre a vida do irmão: “Como [Pascal] encontrava naquela ciência a verdade, que tão ardorosamente procurava, sentia-se tão satisfeito que nela punha todo o seu espírito, e assim progredia tão rapidamente que com a idade de dezesseis anos escreveu um tratado de cones, o qual foi considerado a tal ponto excelente que afirmavam nada ter havido igual desde Arquimedes”.

Nunca tendo freqüentado um colégio, Pascal tinha como preceptor o próprio pai, com quem estudou lógica, filosofia, física…. Aos dezoito anos inventou uma máquina de calcular para ajudar seu pai a efetivar cálculos (em 1650, Pascal ofereceu essa máquina à rainha da Suécia), por volta dessa época começou a sofrer mal-estares freqüentes, que o faziam sofrer muito e iam fragilizando pouco a pouco a sua saúde.

Alguns anos depois, por volta dos vinte e dois anos, Pascal conseguiu demonstrar e confirmar as descobertas de Torricelli a respeito da pressão atmosférica.

Em todo esse itinerário, Pascal buscava a verdade e a felicidade, mas apesar de todas as vitórias e êxitos no campo da ciência, e de tudo de bom que esta oferecia, Pascal ainda não havia encontrado o que tanto procurava…

Depois da morte de seu pai, Pascal se distanciou da vida religiosa tradicional e enveredou por um caminho de distanciamento de Deus, até que na noite de 23 de novembro de 1654, ele teve uma forte experiência mística com Deus. A verdade que ele tanto procurara veio ao seu encontro. Recordando essa experiência, Pascal escreveu depois de algum tempo um memorial: “…Jesus Cristo, Jesus Cristo, eu me afastei dele, evitei-o, reneguei-o, crucifiquei-o. Que eu jamais me separe dele (…) Renúncia total e doce (…) Submissão total a Jesus Cristo (…) Alegria eterna por um dia de provação na terra. Não me esquecerei de suas palavras. Amém”.

Após sua conversão, Pascal dedicou-se, com o mesmo ardor que antes dedicara à Ciência, à vida espiritual. Dedicou a partir de então a sua extraordinária inteligência aos estudos das Sagradas Escrituras e da moral cristã.

Apesar de todas as possibilidades que teria dedicando-se ao trabalho no âmbito das ciências matemáticas e físicas, Pascal decidiu-se por viver uma vida de recolhimento, oração e penitência, com o intuito de aproximar-se cada vez mais daquele por quem seu coração anelava.

Pondo-se a serviço de Cristo, Pascal entendeu por criticar na época a René Descartes que, segundo Pascal, exagerava na importância que atribuía à Ciência, ao mesmo tempo que dava pouco espaço para Deus em sua concepção filosófica racionalista.

Pretendeu mostrar que a religião cristã oferecia tantas marcas de certeza quanto as coisas aceitas no mundo como inquestionáveis ou indubitáveis. Com clareza expunha os diversos assuntos com maestria e lógica raras.

Levava uma vida pobre, humilde, austera e de prática das virtudes. Passou os últimos quatro anos de sua vida seriamente doente, acamado e sofrendo continuamente. Apesar disso, mantinha-se cordial, alegre, paciente, caridoso e ao mesmo tempo profundo em suas contínuas reflexões.

Entretanto, como todo homem sujeito a falhas, Pascal em sua boa intenção de viver e apregoar a radicalidade do Evangelho, acabou se deixando envolver pela doutrina jansenista, que mais tarde seria condenada pela Igreja como sendo herética. Mas, é bom salientar que quando o jansenismo foi definitivamente condenado pela Igreja, Pascal imediatamente parou de pronunciar-se em favor das idéias desse movimento.

Um dia antes de sua morte, solicitou a extrema-unção e o viático. O sacerdote que veio lhe trazer o sacramento final, ao entrar no seu quarto disse: “Eis Aquele que tanto desejaste”; depois de ser interpelado acerca dos principais mistérios da fé, Pascal respondeu: “Sim, Senhor, creio nisso tudo de todo o coração”, logo após recebeu o viático e chorou comovido de emoção. Suas últimas palavras foram uma verdadeira confissão de fé, daquele que soubera fazer tão bom uso de sua razão: “Que Deus não me abandone jamais”.

Entre seus pensamentos que passaram para a posteridade encontra-se um que é muito conhecido e que expressa de modo inequívoco o perfil desse homem que soube elevar-se até a Verdade pelas asas da razão e da fé: “O coração tem razões que a própria razão desconhece”.

Que o exemplo de Pascal nos leve a refletir e a considerar a importância e a complementaridade destes dois grandes dons que Deus nos deu: A fé e a razão, a razão e a fé…

 

Incapacidade de acreditar

Pascal referenciou a dificuldade da razão posta para a crença genuína propondo que “agir como se acreditar” pudesse “curar da descrença”:

Mas ao menos reconheça sua incapacidade de acreditar, já que a razão te trouxe a isto, e você não consegue acreditar. Esforce-se para convencer a si mesmo, não através de mais provas de Deus, mas pela redução de suas paixões. Você gostaria de ter fé, mas não sabe o caminho; você quer se curar da descrença, e pede um remédio para isto. Aprenda com aqueles que estiveram presos como você, e que agora apostam todas as suas posses. Existem pessoas que sabem o caminho que você vai seguir, e que se curaram de todas as doenças que você ainda será curado. Siga o caminho através do qual começamos; agindo como se acreditasse, recebendo a água benta, assistindo missas, etc. Até mesmo isto vai te fazer acreditar naturalmente, e acabar com sua resistência.

Pensées Secão III nota 233, página 40, Tradução por Rafael S. T. Vieira

 

A aposta

Este argumento tem o formato que se segue:

  • Se você acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho infinito;
  • Se você acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda finita;
  • Se você não acredita em Deus e estiver certo, você terá um ganho finito;
  • Se você não acredita em Deus e estiver errado, você terá uma perda infinita.

 

Legado

Em honra de suas contribuições científicas, o nome Pascal foi dado à unidade SI de pressão, a uma linguagem de programação, à lei de Pascal (um importante princípio da hidrostática), e o triângulo de Pascal e a aposta de Pascal ainda levam o seu nome.

O desenvolvimento de Pascal da teoria da probabilidade foi a sua contribuição mais influente para a matemática. Originalmente aplicada ao jogo de azar, hoje é extremamente importante na economia, especialmente na ciência atuarial. John Ross escreveu: “A teoria das probabilidades e as descobertas após essa mudaram a nossa forma de encarar a incerteza, risco, tomada de decisão, e a capacidade de um indivíduo ou da sociedade de influenciar o curso dos eventos futuros.” No entanto, deve notar-se que Pascal e Fermat, embora fazendo um trabalho inicial importante na teoria das probabilidades, não desenvolveram o campo muito mais longe. Christiaan Huygens, aprendendo do tema a partir da correspondência de Pascal e Fermat, escreveu o primeiro livro sobre o assunto. Mais tarde, pessoas que continuaram o desenvolvimento da teoria incluem Abraham de Moivre e Pierre-Simon Laplace.

Na literatura, Pascal é considerado um dos autores mais importantes do período clássico francês e é lida hoje como um dos maiores mestres da prosa francesa. Seu uso da sátira e do humor influenciou polemistas posteriores. O conteúdo de sua obra literária é mais lembrado por sua forte oposição ao racionalismo de René Descartes e a afirmação simultânea que a principal filosofia de compensação, o empirismo, também era insuficiente para determinar verdades importantes.

Na França, prestigiosos prêmios anuais, Cadeiras de pesquisa Blaise Pascal são dadas a prominentes cientistas internacionais para realizar a sua investigação na região de Ile de France. Uma das Universidades de Clermont-Ferrand, França – Université Blaise Pascal – é nomeada em homenagem a ele.

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