O Existencialismo, Filosofia Antidemocrática – Outras Visões

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Cecile Angrand e outros

A palavra existencialismo designa um movimento filosófico e literário que apareceu na França nos últimos anos que antecederam a última guerra mundial. Essa movimento exprime-se através de estudos filosóficos, o mais importante dos quais é “O Ser e o Nada”, de Sartre; através de romances, os mais característicos dos quais são “Os caminhos da Liberdade”, de Sartre, o chefe da escola; através de obras dramáticas e na revista “Os tempos modernos”, a qual nos fornece seguramente o aspecto mais revelador e significativo do movimento.

Os existencialistas são, na sua maioria, diplomados em filosofia ou literatura; muitos deles são antigos alunos da Escola Normal Superior; quase todos foram professores do ensino secundário. Oriundos, em geral da burguesia média e liberal, esses jovens, coroados de diplomas, convencidos de que eram a elite da França e que sua formação “humanista” os destinava ao papel de dirigentes da sociedade, arrastados por um orgulho desmedido, chocaram-se, depois da formatura, com decepções cruéis na vida prática.

O magistério, desvalorizado voluntariamente, na França, não permite que os professores participem dos privilégios das classes possuidoras; permite-lhes, apenas, uma vida decente. E essa contradição entre a consciência de seu valor individual e o sentimento de sua inferioridade social é grande e dolorosa para os jovens ambiciosos. O herói dos romances de Sartre, Matheus, que tem necessidade de espetáculos, coquetéis, champagne e “boites”, e de férias na “Cote d’Azur”, é nos apresentado com o professor mal vestido e desorientado, sem dinheiro que vai mendigar empréstimos a seu irmão, advogado, ou a seus alunos, ou ao Banco dos funcionários.

Sendo professores contra a sua vontade, e impacientes por abandonar uma profissão que rende bastante, cheios de desprezo pelos colegas que aceitam uma situação subalterna, os existencialistas descobriram o existencialismo para abrir-se um caminho ao sol do regime capitalista. O existencialismo foi a sua empresa comercial.

A Clientela

Hoje, Que o Existencialismo Está na Moda

Quem dissse isto? O próprio Sartre. Foram eles que consagraram à sua moda, a sua voga, e que fizeram alguns acreditarem que verdadeiramente isso havia acontecido. . . A partir da libertação, o rádio francês fez ouvir com insistência os nomes, as entrevistas, as frases felizes dos existencialistas. Acaso é de admirar, quando os sucessivos ministérios da Informação continham sempre alguns amigos fiéis de Sartre? Um dos mais notáveis existencialistas, Aron, foi Chefe de gabinete do Ministro Malraux. Assim, a propaganda pôde ser bem feita e sabiamente orquestrada.

Na realidade, que é o que há debaixo dessa moda, e quem, na França, lê as obras existencialistas?

No que concerne às obras filosóficas, como “O Ser e o Nada”, pode-se dizer que ninguém as lê. Os discípulos tentaram interpretá-las e esgotaram-se nessas tentativas. Somente a adoração pelo mestre pôde sustentá-los nesse esforço. Nem mesmo na Universidade oficial encontrou “O Ser e o Nada” o crédito que esperava. Não há um curso sobre o existencialismo nessa Sorbonne que os existencialistas fingem desprezar, mas que se teriam anexado com muito prazer. Seu vocabulário confuso repugna decididamente aos franceses.

Eis aqui, para que nossos leitores sintam bem essa verdade, um parágrafo do livro de Sartre:

“Examinemos mais de perto a possibilidade da questão metafísica. O que nos aparece primeiro, é que o ser para outrem representa a terceira “ek-stase” de por si mesmo. A primeira “ek-stase” é com efeito o projeto tri-dimensional de por si mesmo em marcha para o ser que ele quer ser a maneira de não ser. Ela representa a primeira fenda, a “nadificação” que o por-si mesmo deseja ser ele próprio, o desenraizamento do por si mesmo, de tudo o que ele é, na medida em que esse desenraizamento constitui o seu ser. O 2.° “ek-stase”… é desenraizamento desse mesmo desenraizamento. A cissiparidade reflexiva corresponde a um esforço inútil para adquirir um ponto de vista sobre a “neautizativas” que o por-si mesmo quer vir a ser…” (“O Ser e o Nada”, pág. 359).

O livro tem 800 páginas e todas nos oferecem essa mesma confusão.

Os romances tiveram mais sucesso: um sucesso de escândalo, Sartre sente prazer em descrever as noites de Montmartre, as “boites” de Montparnasse, os Cassinos da Cote d’Azur, os costumes dos invertidos, os episódios eróticos… E como ele não poupa nenhum detalhe, compreende-se que ele tenha sonhado com a glória. Para atrair mais seguramente a clientela rica, seus livros foram vendidos em conta-gotas e quase sempre no mercado negro. Era necessário tentar substituir Freud e obter o sucesso que tinha obtido na França, por volta de 1930, a psicanálise:, então a burguesia tinha-se deliciado com os “complexos” e suas tenebrosas revelações.

Mas Sartre não teve êxito nessa empresa. Primeiramente, esses romances filosóficos exigem um esforço paciente do leitor — e o processo “simultaneista” desgosta à clientela. Um mesmo parágrafo contem os pensamentos e as maneiras de conduzir-se de quatro personagens — dos quais um está em Praga, o outro em Juan-bi-Pins, o terceiro em Paris e o quarto em Munique. Algumas vezes, os sujeitos da frase não estão indicados claramente e o leitor perde-se completamente entre Praga, Juan-bi-Pins, Paris e Munique.

Por outro lado, a burguesia capitalista desconfia dessa literatura equívoca: para salvaguardar seus privilégios, ela tem necessidade de roubar, senão a família, pelo menos seu quadro, suas formas exteriores; é preciso que o patrimônio seja transmitido através de herança justa. Os romances existencialistas que respiram o desdém da família, o horror do casamento, os costumes “livres”, podem exercer uma ação dissolvente sobre a juventude. Segue-se daí que a principal clientela dos livros existencialistas na França é presentemente constituída pelos jovens colegiais que lêm Sartre sob a mesa de estudos, às escondidas dos pais.

Apesar disso, é um fato que existe entre nós, numa parte da universidade e principalmente no ensino secundário, onde atuam alguns professores existencialistas, uma tendência filosófica que é antidemocrática e que poderia envenenar os moços e as moças das classes superiores de nossos liceus.

OS Cartazes de Reclame do Existencialismo

Logo depois da libertação da França, o existencialismo apresentou-se como um movimento de resistentes; na verdade, a maioria de seus representantes tinham aderido mais ou menos tardiamente aos movimentos de resistência; Sartre, e outros tinham dado sua adesão à Frente Nacional. Os “Tempos Modernos” consagraram um lugar importante para as recordações dos “maquis”, a memória dos deportados. Sartre levou ao teatro os sacrifícios dos guerrilheiros; era um reclame magnífico para atrair os filhos dos patriotas.

Assim, sendo resistentes, os existencialistas insistem em apresentar-se como antifascistas e democratas: seus romances narram os feitos de armas dos republicanos espanhóis. O último romance de Sartre, “Le Sursis”, denuncia as manobras de Munique e verbera a covardia da burguesia francesa. Num de seus últimos números os “Tempos Modernos” levanta um protesto indignado contra a guerra na Indochina. Tal é a insígnia luminosa da casa.

Insígnia luminosa é também essa simpatia que os existencialistas apregoam as vezes pelo marxismo, os marxistas e a União Soviética.

Sartre diz e escreve “Aderimos a muitas descrições do marxismo” e os “Tempos Modernos” consagram sempre algumas páginas a literatura soviética. Muito próximo, pois do marxismo, segundo dizem, os existencialistas são também os campeões orgulhosos do ateísmo. “Eu suprimi o Deus pai”, tal é a fórmula admirável de Sartre!

E para tentar reunir a clientela dos jovens intelectuais franceses, o existencialismo vai apresentar-se com uma filosofia “humanista”: o homem é um valor absoluto — nos dizem. O homem é respeitável porque é livre, e todo atentado à liberdade do homem, toda opressão é um crime. Nas obras literárias, o humanismo se exprimirá pela vontade tenaz de viver com todos os homens, de segui-los simultaneamente, de encontrar a voz unânime da França. E Sartre, que sempre teve a palavra “proletário” sob a pena, tem o cuidado de fazer estar nas cenas de seus romances, em quantidade, metalúrgicos, ajustados em macacões azuis; ele tenta mesmo evocar (não sem dificuldade) carreteiros e camponeses.

Compreende-se assim que os leitores apressados, ou moços inocentes tenham tomado o existencialismo por um movimento “de esquerda” e progressista. E como esses filósofos persuadem a seus discípulos de que são livres, responsáveis pelo caminho que escolheu, por seus projetos; de que sua grandeza está em fazer-se, em construir-se pela libertação do quadro sufocante da família, de todas as obrigações sociais, de todos os preconceitos, os existencialistas lisonjeiam assim o orgulho dos jovens intelectuais. No mesmo tempo, eles exploram a confusão deste último com a promessa duma “salvação” “converter-se” ao existencialismo — Tal é a tabuleta da loja.

Uma Filosofia Idealista

Qual é a mercadoria existencialista que “salvará” a juventude? Primeiramente, trata-se de produtos, mais ou menos rejuvenescidos, renovados à moda do dia. Não há uma só idéia nova na filosofia, existencialista. Seu trabalho é uma casa de antiguidades, constituída de empréstimos pedidos a Platão, aos estóicos, aos epicuristas, a Descartes, Kant, Hegel, Maine de Birau, Marx, Fichte, Husseil, tudo isso bem ou mal costurado. É um exercício de “compiladores bem preparados” para esse método detestável da Universidade oficial, que consiste em amalgamar todos os sistemas em um sistema incoerente. A forma foi tomada como empréstimo aos mestres da filosofia existencial: o vocabulário, especial, é de Kieckegaard e de Heidegger. Esses dois mestres obscurantistas são os verdadeiros pais dos existencialistas. O dinamarquês Kieckegaard ensinava que o essencial, na vida humana, é o medo diante do incompreensível e do que não se pode conhecer. E essa filosofia acompanhava-se dum ódio violento contra o povo! depois de 1848, “aterrado”, Kieckegaard escrevia: “Agora o povo deve ser esmagado”. Heidegger, esse, pensa que o sentido de vida humana é a angústia que precede a morte. A existência autêntica é a “corrida para a frente em direção à morte”. Essas meditações sobre o Nada acompanham os prédicos de Heidegger por umasubmissão cega à força nazista, por uma fé ardente no poder mágico do “fuerher” da grande Alemanha.

Se se põe de lado todo o aparelho escolástico dos discípulos franceses de Heidegger, que resta de seu pensamento?

1.°) — é um movimento metafísico, uma filosofia que pretende procurar e encontrar o absoluto.

Como toda a metafísica, o existencialismo pretende ultrapassar a aparência, o que é objeto de observações e experiências, para descobrir não intuição de adivinho o que é mais profundo, mais real e mais verdadeiro que a aparência. O existencialismo distingue o ser da existência. É necessário, para atingir esse absoluto que é a liberdade, ou a existência, desnudar o ser, arrancar o ser. Que quer dizer isso? “Desnudar” o ser é arrancar-se ao mundo, a sociedade, ao seu passado, a tudo o que está definido, classificado, claramente delimitado. Então se encontrará a existência, sem artifícios, pura. Que é a existência absoluta É a “falta de ser”, o “não ser”.

2.°) — Essa metafísica obscurantista, apesar de querer passar por uma idéia nova, nada mais é que um aspecto disfarçado de idealismo filosófico. A diferença entre eles não é maior que a que existe entre “um diabo amarelo e um diabo azul” como dizia Lénin; é sempre, segundo a expressão deste, a mesma “decomposição ideológica”.

“É necessário partir da subjetividade”, escreve Sartre. Está aí o seu postulado inicial. A existência absoluta reside na vontade de uma consciência que assume a sua própria liberdade. Existência e vontade, existência e pensamento, existência e consciência são pois uma só e única coisa; e é sempre, enfim de contas, o primado do pensamento sobre a matéria.

Idealistas, os existencialistas o são ainda pelo julgamento que fazem das ciências e dos conceitos científicos. Lénin escrevia, quando denunciava o fideísmo dos partidários de Mach:

“o fideísmo contemporâneo não repudia absolutamente a ciência; ele só repudia as suas pretensões excessivas, a saber, a pretensão de descobrir a verdade objetiva”.

É essa tradição de Bogdanov, Bazarov e outros “machistas” que os existencialistas retomam em mãos. Sartre escreve: “As ciências são abstratas, elas estudam as variações de fatos abstratos… e não a causalidade real”. A existência ignora a ligação interna e necessária entre os fenômenos, sua dependência de causa e efeito, sua identidade; a existência escapa a toda lei.

Se a ciência tem a esperança de significar alguma coisa, e manifestar a liberdade humana, é preciso que ela não pretenda atingir o objetivo real, que ela se separe de suas aplicações práticas. Aliás, estas, as técnicas, não estão justificadas na vida objetiva. O progresso das técnicas não melhora o homem. S. de Veauvoir escreve que “é uma tarefa bem fácil demonstrar que os aviões, as máquinas, o telefone, o T.S.F.[telégrafo sem fio], não fazem os homens de hoje mais felizes que os de antigamente”.

E está aí como o idealismo dos existencialistas dá como resultado final as afirmações mais vulgares dos reacionários mais retrógrados.

O Anti-Marxismo

Na revista americana “Life“, há um artigo consagrado a Sartre afirmando que esse filósofo é, na França, “o principal inimigo do marxismo”, na frente ideológica.

Recebendo Sartre com as maiores considerações, as Universidades Americanas não se enganaram nesse ponto: compreendiam o significado de classe do existencialismo e seu destino social. Como todas as formas de idealismo, essa filosofia tem por objetivo frear o ímpeto das forças progressistas e contrabalançar a influência do materialismo.

Em sua obra intitulada: “O Existencialismo É Humanismo”, Sartre, repete, contra o materialismo, este argumento demasiado conhecido: o materialismo trata os homens como se eles fossem mesas ou pedras. . . e Sartre opõe então a esse descobrimento o seguinte: “Queremos constituir o reino humano como um conjunto de valores distintos do reino animal”.

Aqui, a má-fé de Sartre é evidente; ele não pode ignorar que Voltaire, Diderot, Helvetius, tanto e tão bem como Marx e Engels, distinguiram o homem da pedra, e trabalharam para desenvolver os valores humanos. Essa má-fé recorda as ignorâncias fingidas por Leon Blum nas suas tentativas revisionistas: trata-se de desacreditar a todo o preço o materialismo histórico.

E os “Tempos Modernos”, e os romances existencialistas, agitam no aro espantalho dos intelectuais burgueses: o marxismo, que reduz o homem ao estado de “sujeito passivo”; o marxismo, que é um fatalismo.

É lamentável para Sartre que o texto admirável de Stálin seja hoje em dia muito conhecido dos franceses: “É então que aparece de forma surpreendente o papel imenso das novas idéias sociais.”

O idealismo existencialista tende a provar que a qualidade é estranha a quantidade e que a necessidade, ligada a quantidade, é estranha a qualidade. Resulta disso que, no domínio da qualidade, tudo é contingente. Ora, que é o domínio da qualidade? É o reino humano, é, por exemplo, a história. A causalidade histórica é uma miragem marxista, e a história é um amontoamento de contingências. Sartre prevê tranqüilamente que amanhã, ou qualquer dia no futuro, a França e a Europa venham a tornar-se fascistas: pode-se saber o que será o dia de amanhã? E que importância tem isso? “O homem é sempre o mesmo…”

O Anti-Comunismo

Não se deve acreditar que a ofensiva existencialista se reserve ao plano filosófico: o ataque é dirigido muito precisamente contra o Partido Comunista, por estes filósofos que professam estar acima dos partidos e que têm por missão julgar aos partidos. Há, para começar, nos romances de Sartre, pérfidas sugestões, alusões venenosas: o herói, Mateus, sonhou na sua juventude em aderir ao Partido: “isso tentava, como o sono”. Dominou-se a tempo, despertou a tempo, mas tem amigos comunistas. Como são eles? Brunet, o intelectual do partido, “renunciou à sua liberdade”. Ele é apresentado como um sargento que faz o recrutamento, que cata a força os aderentes, é um sonhador à espera da “hora de quebrar tudo”… Ele se sente distante dos operários, pois não tem o mesmo objetivo que eles.

Os existencialistas insistem muito sobre esse tema, que é necessário pregar aos intelectuais jovens, de uma separação radical e fatal entre os intelectuais e o proletariado. No “Moral da Ambigüidade”, Simonne de Beauvoir (que conhece muito bem ao Partido Comunista) escreve que o partido “desconfia dos intelectuais”…

Ao lado de Brunnet, La Gomez, o comunista que se foi bater nas fileiras das Brigadas na Espanha. Sartre finge apresentá-lo com simpatia, mesmo com admiração. Mas é para apontar melhor sua flecha envenenada: “A Europa se tornará fascista — diz La Gomez — levianamente. Não é uma preparação má para o comunismo”… “É bela, a guerra!”

Assim, os comunistas são, ao mesmo tempo, sonhadores e bebedores de sangue. Segundo Simonne de Beauvoir, eles são o tipo do “homem sério”, quer dizer, o “lógico do sub-homem”. O “homem sério” perde-se dentro da coisa, destrói sua subjetividade, aniquila-se, afasta-se de si mesmo. “Então explode o absurdo duma vida que procurou fora dela as justificações que só ela podia se fornecer; separados da liberdade que os teria fundido de modo autêntico, todos os objetivos procurados aparecem arbitrários e inúteis.”

E na “Moral da Ambigüidade” ela mesma ataca com violência a palavra de ordem de produção: “exército, marchas, revolução, produção, tornam-se ídolo inumanos aos quais não se hesitará a sacrificar o próprio homem”.

É fácil adivinhar a conclusão de tudo isso, é preciso que se chegue a apresentar comunismo e fascismo como coisas iguais. “O fanatismo político que esvazia a política de todo conteúdo humano e impõe o Estado não para os indivíduos, mas contra eles.” Assim, não há separação entre o sentido das obras de um Koestler e a significação social do existencialismo: são uma coisa só. Mas Koestler foi mais sabido. Ele se dirigiu diretamente a burguesia capitalista. Ele desdobrou amplamente a bandeira do anti-comunismo. Por terem querido conquistar, ao mesmo tempo todas as clientelas, os existencialistas perderam todas as clientelas, e, no mercado capitalista, foi “o zero e o infinito” quem ganhou.

Filosofia Anti-Democrática

Entretanto os existencialistas alegarão ainda que foram anti-fascistas e resistentes. Bastará então, para arrancar-lhes a máscara, opor-lhes os ensinamentos de suas obras recentes.

Em sua classificação dos tipos humanos, S. de Beauvoir coloca o “aventureiro” acima do homem sério, o aventureiro que se atira a empresas sucessivas sempre com mesmo ardor, sem esperar das coisas a justificação da escolha que fez. É o aventureiro quem está no caminho da salvação, da verdadeira liberdade, ele prepara o “homem autêntico”. Tal como Goering, que no processo de Nurenberg, exercia uma certa sedução sobre os juizes, por causa da vitalidade que emanava da sua pessoa”. Tal como Hitler, sem dúvida, o qual é elevado sobre um verdadeiro pedestal no romance de Sartre, “Le Sursis”. Todas as linhas do romance convergem para um cestro que é o discurso de Stuttgard. Todas as personagens estão diante dos aparelhos de rádio, todos esperam. Ouve-se o rumor da sala, o ruído do mar. O Fuehrer fala e sua voz não lhe pertence mais, ele se tornou a existência de milhões de homens, que tem esperança e tem medo. E entre todos esses homens imperfeitos e miseráveis, que não sabem entregar-se totalmente a escolher, Hitler é o único que escolheu, o único que “tomou posição”. . .

É verdade que outras obras de Sartre exaltam a grandeza da Resistência, o heroísmo dos “maquisards”. Mas é fácil demonstrar que essa exaltação é de fato uma traição ao espírito da Resistência. Os guerrilheiros de Mortos Sem Sepultura não suportam as torturas para salvar, por seu silêncio, a camaradas responsáveis; eles não morrem para que a França viva, não sacrificam sua juventude para a construção de um futuro melhor. Sua morte significa apenas a afirmação da sua liberdade individual. Eles desejam calar-se para serem fiéis até o fim a “um compromisso”, uma espécie de aposta, gratuita.

Mortos Sem Sepultura propunha-se atrair pela exploração dum tema popular por excelência, uma juventude que era necessário converter ao individualismo burguês e reacionário. Seria necessário acrescentar que a juventude francesa não se deixou esganar e que ninguém se deixou converter?

Se ele tivesse alcançado seus fins, esse esforço de conversão tentado pelos existencialistas junto à juventude teria tido como efeito afastar a juventude da obra coletiva de restauração da democracia.

Em que consiste, com efeito, essa liberdade, essa liberdade que é o objetivo do existencialismo, e que constitui a salvação, o acabamento moral do homem?

Há em cada um de nós uma espontaneidade, uma liberdade que é possibilidade de aspiração e de escolha. Partindo dessa espontaneidade, podemos edificar ou não edificar nossa liberdade moral. Nos o construímos através da nossa entrega total a essa aspiração: se não temos um objetivo fixado, nossa liberdade se dissipa inutilmente. Mas se nós assumimos um compromisso total, então nossa liberdade se sufoca.

Ser livre, é guardar as mãos livres para o futuro, é continuar disponível. Os heróis de romance abrem caminho à liberdade treinando-se através de atos desnecessários: eles se obrigam a afogar seus gatos quando os adoram, a tornar-se ladrões sem interesse, a casar-se com mulheres que não amam e a que nunca amarão, a recusar-se a desposar as mulheres a que amam de fato. E a liberdade é sentida em toda a sua plenitude num momento eterno, por ocasião duma mobilização, de uma ameaça de guerra iminente cuja significação escapa ao herói e que o deixa indiferente, quando o homem morre, quando, no dizer de Sartre, não há mais causa, mais razão, mais passado, mais futuro. Então, a liberdade é sentida como uma alegria, uma alegria “que se transforma em seguida numa angústia esmagadora”.

Tal é o objetivo que os existencialistas propõem à juventude. Um deles, o Sr. M. Camus, exprimiu seu pensamento numa fórmula lapidar: “Só há um problema filosófico verdadeiramente sério, é o suicídio”.

Quem não está vendo que uma tal doutrina é diretamente contrária à educação que deve formar os cidadãos duma verdadeira democracia? O respeito e o gosto, da responsabilidade coletiva, o culto da ciência, a fé na inteligência humana e em suas descobertas, a vontade de realizar, não uma liberdade metafísica, mas liberdades que se chamam liberdade de viver, de pensar, de se instruir, de trabalhar, de ter férias. Todas essas virtudes de que necessita a juventude para edificar uma França democrática, o existencialismo escarnece delas.

Mas a juventude de nosso país não se deixa enganar. E se vemos, nos cafés de Saint-Germain, ao redor da mesa do mestre, gruparem-se alguns discípulos, vemos também, e cada vez mais, os estudantes das classes superiores dos ginásios e das universidades se gruparem nos círculos da União da Juventude Republicana.

Armados com os exemplos daqueles que se bateram alguma coisa, eles nada têm a fazer do abandono, da angústia, da disponibilidade existencialista. Eles sabem que na URSS, na Polônia, na Tchecoslováquia, na Iugoslávia, os jovens tomaram parte na construção de verdadeiras democracias e entendem entregar-se a fundo e sem reserva ao combate contra as forças anti-democráticas.

A resposta magnífica ao chamado das “sirenes” existencialistas é a massa de estudantes que desfilou a 1.° de maio de 1947, da República a Concórdia, sob a bandeira da União da Juventude Republicana da França, cadenciando a sua marcha com a proclamação da sua vontade:

“Façamos fracassar De Gaulle! “Os ociosos ao trabalho!”

 

Angústia existencial sob a ótica reflexiva de Sören Aabye Kierkegaard

 

angústia existencial (Zimmermann, 1995, p. 108) pode ser considerada uma força obscura, espécie de potência irracional, destarte um suplício contraditório; constitui-se atualmente em uma das maiores dificuldades que afligem a vida do indivíduo. Por sua extrema importância, trata-se de um tema constantemente referido no cotidiano e de fundamental acuidade na existência, sempre se fez presente, desde remotos tempos, até a contemporaneidade. Por se tratar de um assunto complexo, envolve, entre outras coisas, a compreensão das motivações e das múltiplas questões que abarcam o processo de escolha, pelos quais o indivíduo passa com relativa freqüência ao longo de sua existência, e o quanto isso o afeta, refletindo na construção e afirmação de sua subjetividade. Certamente, é um grande desafio a ser enfrentado, um mistério a ser desvendado; podemos mesmo supor que não exista um só ser humano que não tenha no âmago de si uma inquietação, uma perturbação e, portanto, que esteja isento de sentir angústia. Essa constante agonia, ao longo dos tempos, atingiu os indivíduos em larga escala: mulheres, monges, cientistas, homens letrados e não-letrados e, principalmente, os filósofos. Esses, em sua grande maioria, indivíduos questionadores e inconformados por natureza, tendo em vista a sua eterna busca em conhecer a si mesmos e sua inserção no mundo do qual fazem parte.

Por sua extrema importância na vida humana, este tema está ligado profundamente às indagações filosóficas desde Platão. Sabe-se bem que a extensão do mesmo e o caminho tortuoso que implica a discussão de tal não são certamente as maiores dificuldades encontradas por aqueles que se aventuram em discorrer sobre esta questão. Contra a angústia, não há meios de proteção ou garantias racionais. Ela chega sorrateira e instala-se sem pedir permissão, enfermando a vida do indivíduo e abalroando-o de desespero. Na verdade, trata-se de um assunto muito controverso, com muitas teorias, algumas imprecisas, até mesmo obscuras, que não satisfazem integralmente o questionamento a respeito deste assunto. A filosofia, ao lado da psicanálise, tratou e segue tratando deste mote sem, no entanto, esgotá-lo e, ainda hoje, oferece bases férteis para a continuidade desta discussão acerca das motivações que acarretam este fenômeno no indivíduo. A partir dessas reflexões iniciais, podemos inquirir com propriedade: É plausível afirmar que haja indivíduos que sejam beneficiados pela angústia? E, se todo e qualquer indivíduo pode em algum momento ser acometido por este fenômeno, existe solução para esse tormento?

O caráter transformador da angústia

A propósito desse assunto tão controverso e com tantas nuances, é notório que Kierkegaard é um dos filósofos que mais profundamente investigou esse tema. A angústia existencial ocupa um lugar privilegiado e de destaque em seu pensamento e reflexões. “A brevidade de sua vida contrasta com a qualidade e a extensão de sua produção, ainda não classificada nos círculos acadêmicos” (Almeida e Valls, 2007, p. 7). Kierkegaard foi um dos filósofos que mais investigou este mote em sua época, deixando inúmeros escritos e o importante livro: O conceito de angústia (Kierkegaard, 1968, p. 5), um verdadeiro tratado sobre esse assunto, onde a complexidade de suas idéias foi e será sempre instigante, fascinante, útil e atual; principalmente para esses tempos pós-modernos que encontramos seres humanos tão angustiados. “Kierkegaard contribuiu para trazer a filosofia de novo para o plano terreno, inserindo-a nos dramas e tragédias da própria existência” (Almeida e Valls, 2007, p. 60).

Entre as questões do indivíduo, de suas escolhas frente às situações de vida, a angústia, enquanto questão existencial, ocupou um destacado espaço na vida desse filósofo. Kierkegaard supunha que a maioria da humanidade, em algum momento de sua trajetória existencial, padeceu ou padecerá desse mal. “Há quem o considere um divisor de águas, traçando um antes e um depois para a filosofia” (Almeida e Valls, 2007, p. 61).

Ao abordar esta questão que é tão decisiva na vida humana, Kierkegaard afirma que o indivíduo sente angústia até o momento em que se liberta enquanto indivíduo. O sujeito é livre para escolher. Ser livre significa contribuir para a própria realização, mas também significa poder negá-la. Este é o frágil terreno da possibilidade, da escolha e, conseqüentemente, da angústia. A história é a realidade que antecede a possibilidade da liberdade: “A possibilidade da liberdade não coincide, porém, com o poder de escolher entre o bem e o mal. […] a possibilidade está em poder” (Kierkegaard, 1968, p. 53).

O indivíduo só pode experimentar a realidade de sua existência sendo um indivíduo total, como um organismo que possui emoções, que atua e pensa de maneira integrada. Só assim o indivíduo pode superar a dicotomia razão/ emoção, voltando a atenção para a realidade de sua experiência imediata, a qual é sustentada pela subjetividade e objetividade.

A liberdade individual deve se distinguir radicalmente da mera liberdade das restrições sociais que formavam a concepção dominante de liberdade desde o Renascimento e deve distinguir-se das fatídicas e mecânicas pseudolibertações, do típico participante da rotina burguesa no âmbito comercial e industrial. A realização dessas possibilidades implica aventurar-se continuamente em novas áreas, enfrentando novos desafios (May et al., 1968, p. 251); liberdade deste modo implica angústia potencial, sendo que “a angústia é a possibilidade da liberdade” (Reale e Antiseri, 1990, p. 239). Podemos enfatizar que, para Kierkegaard, a angústia era “normal” e não “neurótica”, sendo até mesmo benéfica. O filósofo enxerga a angústia como sendo o puro sentimento do possível, do viável, o sentido daquilo que pode acontecer; é poder-ser, isto é, possibilidade. “O homem constituído pela angústia é constituído pela possibilidade e apenas aquele que a possibilidade forma está formado em sua infinitude” (Kierkegaard, 1968, p. 158).

A angústia surge, então, sempre que existe a possibilidade de escolher ou de não escolher; se não escolhe, o indivíduo fica paralisado; porém, o indivíduo, em muitas ocasiões, tem medo de escolher e de se perder nesta escolha, de fazer a escolha equivocada. A realidade é que a existência é possibilidade e, portanto, quase sempre angústia (May et al., 1968, p. 20). A certeza é uma qualidade interna, acessível só para o indivíduo que pode pensar, sentir e atuar como uma unidade psicológica e ética. Kierkegaard, ao discorrer sobre esse tema da angústia, rechaçou enfaticamente o racionalismo tradicional por sua artificialidade, criticando firmemente a filosofia sustentada por Hegel (May et al., 1968, p. 19).

A individualidade e a conseqüente originalidade são obtidas unicamente se a angústia inerente ao ato de assumir uma posição contrária é enfrentada com coragem, sem temer o erro. Desse modo, quanto maior a liberdade potencial dos indivíduos, tanto maiores possibilidades criativas tem o homem individualmente; desse modo, a sua angústia se potencializa. Kierkegaard afiança que uma das características do indivíduo é sua capacidade para ser consciente de suas próprias possibilidades. Este pensamento o conduziu ao importante conceito da relação do conflito com a angústia.

Angústia e subjetividade

A angústia é observada como uma inquietante estranheza, um sentimento sinistro, é algo que o sujeito sente de forma inegável e avassaladora; o indivíduo é afetado em ato, no instante. Ele é como que tomado por esse turbilhão de emoções profundamente assustadoras e contraditórias, que o deixam, por vezes, profundamente desorientado. Etimologicamente, a palavra angústia originou-se do vocábulo grego argor (Pereira, 1998, p. 30), que significa estreitamento, diminuição. É como se, nos momentos de angústia, o indivíduo se sentisse sufocado, como se a passagem do ar se tornasse impossível e a conexão com o cosmos diminuísse, trazendo uma sensação de desolamento e aniquilação. O indivíduo tem a sensação de desamparo e solidão; nesta situação, ele se encontra isolado em sua emoção, fechado em si mesmo. Mais especificamente, o indivíduo “fechado” não está fechado consigo mesmo, mas fechado de “si mesmo” e de outros indivíduos. Ele está “apartado” de si, distante de seu íntimo e tendo por companhia esse isolamento, essa solidão. Entre as questões desenvolvidas por Sören Aabye Kierkegaard (Harari, 1997, p. 16), insere-se, na questão da angústia existencial, o tema da subjetividade humana.

A subjetividade, no entanto, não é passiva, responsável pelo erro, pois tomar consciência de seus erros é reconhecer-se responsável por eles, será responsável também pela verdade. A subjetividade apresenta-se, portanto, como um poder de Redenção (Le Blanc, 2003, p. 66).

A partir da interrogação sobre o sentido do existente e do existir, Kierkegaard analisa qual a relação entre angústia e a construção da subjetividade, ou seja, o que significa a ânsia de ser “si mesmo” (Kierkegaard, 1968, p. 196) e qual o ônus desta escolha, como fator gerador de angústia. O ponto de partida em sua reflexão é a exaltação da inquietude metafísica; a busca da verdade de cada indivíduo é proposta como uma de suas questões filosóficas essenciais:

Kierkegaard é póstero. Profeta da individualidade, num tempo em que as aldeias globais e os sistemas cosmopolitas negam a individualidade e transformam tudo e todos numa heterogeneidade homogênea, numa sociedade sem identidade, sem autenticidade, sem alma (Almeida e Valls, 2007, p. 9).

Segundo seu pensamento, a existência é uma tensão em direção ao indivíduo, ao sujeito, o qual se constitui em categoria essencial da existência. Kierkegaard assevera que o sujeito é o centro do mundo e que cada indivíduo deve ser o “autor de sua existência” (Kierkegaard, 1968, p. 196) e fazer sua vida valer a pena; afirma que só a verdade edifica e transforma o homem, constituindo-o em pessoa humana:

Existem verdades nas quais temos de comprometer a nós mesmos, tão essenciais que a existência é incompreensível sem elas, e sem as quais a vida não tem sentido. Essas verdades não fornecem o em si do sentido da vida, objetivo e intemporal, mas um sentido para si, para a subjetividade, para aquele indivíduo concreto que vive aqui e agora, cuja alma é incessantemente agitada pelas incertezas da existência e pelas escolhas diante das quais ela o coloca (Le Blanc, 2003, p. 13).

Assim é que, se a vida pode ser considerada uma dádiva, existir é a empreitada de cada indivíduo, onde só ele é o responsável por sua existência e por suas decisões. Kierkegaard afiança que são necessários esforço e honestidade para tornar-se “si mesmo” (Kierkegaard, 1968, p. 196), um ser humano autêntico, isto porém não acontece em um “passe de mágica”; é um processo que pode até mesmo se estender por toda a existência, pois o indivíduo é um eterno projeto em construção de si mesmo. Porém, ao edificar-se, ao cultivar-se a si mesmo, ao eleger a autenticidade como sua verdade, o indivíduo singular se torna admirável. Quando se arrisca a ser um “si mesmo”, na seriedade e na responsabilidade, ele se torna extraordinário (Kierkegaard, 1968, p. 196). Portanto, para ser um indivíduo autêntico, ele deve ser fiel a si e escolher seu próprio caminho. Destarte, o indivíduo autêntico exerce sua liberdade de escolha e está em comunicação contínua integrado consigo mesmo, fiel aos seus desígnios. Desta forma, o indivíduo que exerce a autenticidade tem maior capacidade de se definir e, assim, construir sua verdade, de acordo com seus valores; porém, não existe um conceito absoluto que o defina, porque cada indivíduo define a si mesmo a partir da sua subjetividade.

Para edificar-se enquanto indivíduo é necessário que ele descubra sua vocação, sua missão existencial, a verdade que é verdadeira para si, a idéia singular pela qual ele vive ou morre; ter um ideal e lutar por ele com todas as forças, para, assim, realizar-se no aqui e agora. Nesta tarefa de se descobrir enquanto ser humano, o indivíduo carece abrir-se à sua existência, que é única, pois a verdadeira realidade é o existente, o singular; e só o homem é verdadeiramente singular; conseqüentemente, o caráter essencial da existência é a “verdade que advém da subjetividade”.

A partir destas constatações, Kierkegaard atinge o cerne de seu problema, qual seja: a relação entre angústia e subjetividade. Neste momento, a pergunta que se depreende é: como pode o indivíduo escolher acertada e conscientemente para, deste modo, tornar satisfatória a edificação de “si mesmo?” Para que a escolha correta ocorra, o indivíduo deve primeiramente se conhecer interiormente e descobrir seus desejos, pois somente quem se conhece em profundidade é capaz ter discernimento e de responsabilizar-se por suas escolhas (Huisman, 2001, p. 10) e fazê-las de modo consciencioso, na medida em que tem mais condições de saber a significância de cada uma delas. A interioridade é sinônima de edificação, de tornar-se edificante, de construir-se em bases concretas; para que isto ocorra, é vital a atitude de recolhimento, de reflexão intensa, de discernimento, coerência e, principalmente, comunhão entre o “eu e o mim mesmo” (Reale e Antiseri, 1990, p. 247). Inevitável surgir, a partir daí, uma nova questão: como adquirir a certeza interior e fazer a escolha judiciosa em um mundo deveras massificado e consumista, no qual ser diferente e singular implica, muitas vezes, ser discriminado e mesmo rejeitado por sua originalidade?

O apelo de Kierkegaard para a correta administração da angústia aponta no sentido de que o indivíduo seja verdadeiro em sua essência, que busque “la verdad subjetiva”:

Verdad subjetiva no significa que no haya referencia a realidades extra-subjetivas, que hacen que la pasión no se reduzca a capricho o indiferencia hacia lo real, de ahí el nombre de “verdad”; sin embargo, Kierkegaard usa la expresión compuesta “verdad subjetiva” para indicar que, para las realidades existenciales, la verdad no pude reducirse a lo real como distinto y ajeno a la subjetividad, por el contrario, hace hincapié en aquellas verdades que comprometen la existencia (Martínez, 2004, p. 31).

Assim, o indivíduo irá atuar de forma autêntica e coerente com seus princípios, em sua existência. O indivíduo deve procurar fazer o melhor possível, pois só assim superará o finito, estando ciente de que o que decide a vida é a ação correta na hora exata. Cito Kierkegaard:

[…] o que me falta é, no fundo, ver claramente em mim mesmo o que devo fazer e não o que devo conhecer, salvo na medida em que o conhecimento sempre precede a ação. Trata-se de compreender o meu destino, de ver o que Deus quer propriamente que eu faça, isto é, de encontrar uma verdade que seja verdade para mim, de encontrar a idéia pela qual quero viver e morrer (Kierkegaard, 1980, I A, p. 75).

O indivíduo tem diante de si inúmeras opções viáveis, sendo inteiramente livre para decidir; ele sabe que sua liberdade de escolha é infinita e, ao dar-se conta de suas possibilidades e do peso da responsabilidade de suas escolhas, o sentimento de medo e angústia surge, pois implica sempre um ponto de interrogação quanto a seu futuro. Ao captar através da reflexão e interiorização o peso e o significado de sua liberdade de escolha, ocorre a “vertigem da liberdade” (Kierkegaard, 1968, p. 66), que nada mais é que a consciência da liberdade para efetivar o caminho a ser trilhado. Assim é que todo o peso da liberdade de escolha passa a ser um ponto de interrogação, na medida em que ocasiona o surgimento do sentimento de angústia, porém o sentimento de angústia é de fundamental importância no processo de construção da subjetividade.

Esta empreitada, este processo de autoconscientização acaba por gerar angústia na medida em que existe uma pulsão para o externo, para o massificado, o qual é, em geral, muito mais seguro e previsível do que ser um “si mesmo” autêntico e sustentar suas escolhas, sem ter a certeza plena para onde este processo o conduzirá.

Kierkegaard dá um tratamento polêmico ao conflito, à criatividade e à culpa. Ele supõe que o conflito interno e o sentimento de culpa são geralmente uma conseqüência da criatividade (Oliviéri, 2004, p. 10). Sendo assim, não devemos classificar o indivíduo de neurótico, mas, sim, reconhecer que a angústia tem um papel fundamental nas crises (May et al., 1968, p. 20) de criatividade, ajudando mesmo a resolvê-las e agraciando um maior desenvolvimento ao indivíduo de forma global.

Destarte, cada possibilidade criativa, tratando-se do desenvolvimento individual, implica certa destruição do passado, com uma ruptura de formas alicerçadas no passado, que devem ser destruídas, para dar lugar ao novo. A angústia é a condição sine qua non, para que a existência autêntica se realize, pois é na angústia que todo o sentido de certeza cede lugar a uma incerteza universal, sem esperança. O indivíduo por medo, insegurança, se sente muitas vezes tentado a permanecer no que lhe é familiar e seguro, preferindo não se aventurar e, com isso, não cresce enquanto ser humano. Contudo, se não avança, o resultado é a angústia neurótica.

Para Kierkegaard, a angústia neurótica (May et al., 1968, p. 29) é o resultado do bloqueio emocional, que acontece quando o sujeito tem medo da liberdade. Este bloqueio impede a expansão e implica constrição nas áreas da liberdade, da experiência, da consciência e da criatividade. Temos aqui, segundo Rollo May, uma primitiva formulação do processo que mais tarde Freud chamou de repressão, e Sullivan de dissociação. Tanto quanto Freud e Sullivan, Kierkegaard pensa que quando tratamos de evitar o confronto íntimo com um temor “real”, ou com uma experiência que implica “ansiedade normal”, nos comprometemos, bloqueando a consciência e a conseqüente experiência advinda desse processo. Acreditava Kierkegaard que as duas fontes de angústia neurótica – desunião dentro de si e falta de harmonia com os demais – se superam através de processos simultâneos; superar um é superar o outro. Porém, nenhum dos dois pode-se obter, a menos que o indivíduo tenha a coragem de enfrentar sua angústia confrontando seu interior e levando a cabo as ameaçadoras experiências de solidão e angústia que são “normais” (no sentido de que não se pode evitar senti-las) se realmente deseja realizar essa possibilidade, que é a aquisição de sua autenticidade e autonomia.

A vida humana é feita de constantes escolhas. Em cada escolha, o indivíduo provavelmente terá perdas, e a angústia surge justamente pelo medo das perdas decorrentes de não se ter tomado a melhor decisão. Para escolher o melhor caminho, o indivíduo autêntico necessita ter coragem e lucidez para escolher independentemente do medo. Ele deve ir além do medo e, assim, efetivar sua autoconquista. Se nos inquirimos sobre o fundamento da angústia para Kierkegaard, podemos dizer que só através desta experiência, apesar de dolorosa, o homem poderá elevar-se à existência autêntica. Só na medida em que for capaz de passar, terá condições de ser existencialmente livre. É então compreensível que Kierkegaard qualifique o sentimento de angústia como um mestre, efetivamente o mestre “primeiro”, podendo até ser muito proveitoso se o indivíduo souber tirar partido dele. Afirmava que a angústia, de fato, é melhor mestre que a realidade, visto que a realidade pode ser evitada temporariamente através de fugas consumistas e/ou ilusórias, ao passo que a angústia é uma educadora que sempre está a postos no íntimo de cada indivíduo e que, a qualquer momento, o invade, pegando-o desprevenido.

Considerações finais

Temos consciência de que a dicotomia entre razão e emoção, assim como o isolamento do indivíduo de sua comunidade, e de seus semelhantes, foram e continuam sendo de fundamental importância para o surgimento da angústia desde tempos remotos até a contemporaneidade. A cada momento em que existe uma cisão, uma separação entre o sentimento e a ação, surge o conflito, e, conseqüentemente, a angústia mostra sua tenebrosa face. Kierkegaard nos orienta para uma forma mais profunda e autêntica de enfrentar a existência. Ao analisarmos sua filosofia, constatamos que existe um grande desafio em nosso tempo que é no sentido de humanizar e individualizar cada sujeito, tornando-o um “si mesmo” kierkegaardiano. Enfrentar esse desafio, para assim superar as fontes de angústia, requer um esforço conjunto de indivíduos em todos os campos: das ciências sociais, da psicologia, da filosofia e das artes em geral. O indivíduo sente o quão aflitiva e delicada é a sua situação; porém, é na liberdade de escolha que está a chave, a saída para a sua angústia. Ao escolher, a dúvida cede lugar à certeza. O indivíduo tem urgência em resgatar seus valores autênticos e sua individualidade para encontrar o equilíbrio interno e, assim, tornar-se um ser humano mais integrado consigo e com os demais, pois quando se é verdadeiro com os próprios valores, fiel a si mesmo, sofre-se menos.

Não pretendemos aqui, de forma alguma, esgotar o tema da angústia, pois tal seria impossível. A angústia sempre será nossa eterna companheira, por mais que dissimulemos, neguemos e abominemos sua existência, pois o processo de crescimento do indivíduo é contínuo e implica, invariavelmente, angústia. Contudo, acreditamos que, se o indivíduo sair da escola da possibilidade e “souber tirar proveito da experiência da angústia”, então dará à realidade outra explicação, exaltando-a e dando boas-vindas à angústia, crescendo através dela e edificando-se como ser humano:

Mi alma está tan pesada que ningún pensamiento puede llevarla ningún aletazo puede elevarla por los aires. Si se mueve, se arrastra a ras del suelo, igual que vuelan los pájaros cuando barruntan tormenta. Sobre mi ser íntimo se incuba un abatimiento, una angustia que sospecha un temblor de tierra (Kierkegaard, 1977, p. 33).

NOTAS

Mestranda em Filosofia pela UNISINOS – Universidade do Vale do Rio dos Sinos.

Sabemos que a angústia é uma doença emocional com a qual o indivíduo sofre muito, que o leva a sentir-se como que prisioneiro de si mesmo. Sabe-se hoje que um grande número de pessoas sofre desse mal e desconhece como se livrar deste entrave. Cabe aqui salientar que a angústia é um fenômeno difuso, de limites imprecisos e, muitas vezes, de configuração ambígua, e que paira entre as fronteiras da psicologia e da fisiologia, guardando vínculos, em alguns sentidos, com áreas das ciências sociais e da sociologia. Suas conseqüências são muitas vezes destrutivas em relação ao indivíduo como um todo, e a perda do equilíbrio emocional e do controle decorre muitas vezes desse sentimento.

Podemos observar isso no caso de uma criança em crescimento. Kierkegaard acreditava que a angústia de uma criança pequena era “ambígua”, “não reflexiva”, pois a criança não tinha consciência da separação entre ela e seu meio ambiente. Porém, com o desenvolvimento da consciência na criança (que ocorre mais ou menos a partir dos 2 anos), ela estaria apta a enxergar as suas finalidades e desejos. Esta autoconsciência é, no indivíduo em crescimento, a base da responsabilidade, do conflito interno e do sentimento de culpa. A observação de seus desejos e vontades pode colocar a criança em choque com os pais e mesmo ser considerada um desafio, perante essas figuras de autoridade que eles representam.

O conceito de angústia de Kierkegaard foi, segundo May, um prenúncio do que mais tarde Otto Rank descreveria como a angústia inerente à individuação, e que Kurt Goldstein descreveu como a angústia normal que o indivíduo enfrenta no inevitável sobressalto ante seu crescimento.

O sistema de Hegel tem a pretensão de explicar tudo e demonstrar a necessidade de todo acontecimento. O que Kierkegaard sobremaneira repudia em Hegel é a transformação da existência em um sistema. Para Kierkegaard, o indivíduo é uma subjetividade que não pode encontrar o seu fundamento em nenhum sistema racional. Ele afirmou com veemência que o caráter essencial da existência é a subjetividade. Kierkegaard sustenta com veemência que o sistema hegeliano que identifica o pensamento abstrato com a realidade é uma forma de confundir os indivíduos mediante uma evasão da realidade da situação humana.

A valorização do autoconhecimento está presente na tradição filosófica desde Heráclito até os grandes filósofos contemporâneos, é a condição da originalidade. Sua valorização pode ser confirmada em Galileu, Nietzsche, Heidegger e Kierkegaard, entre outros.

Tem-se conhecimento que muitos artistas necessitam do conflito, da angústia, da crise emocional para criar e fazer suas obras de arte.

REFERÊNCIAS

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HUISMAN, D. 2001. História do existencialismo. São Paulo, Editora da Universidade do Sagrado Coração, 185 p.

KIERKEGAARD, S.A. 1968 [1844]. O conceito angústia. São Paulo, Hemus, 164 p.

KIERKEGAARD, S.A. 1977 [1843]. Diapsalmata. 4ª ed., Buenos Aires, Aguilar, 53 p.

KIERKEGAARD, S.A. 1980. Diário. Brescia, Morcelliana, 12 vols., 175 p.

LE BLANC, C. 2003. Kierkegaard. São Paulo, Estação Liberdade, 142 p. (Figuras do saber, 1).

MAY, R.; SCHACHTER, S.; HALL, C.S.; RANK, O.; HORNEY, K.; GOLDSTEIN, K.; KRAPF, E.E.; FENICHEL, O. e DIETHELM, O. 1968. La angustia normal y patológica. Buenos Aires, Editorial Paidos, 285 p.

MARTÍNEZ, L.G. 2004. La verdad subjetiva (Sören Kierkegaard como escritor). México, Ed. Universidad Iberoamericana, 266 p.

OLIVIÉRI, M. de F. 2004. Angústia existencial – Imensurável tormento d’alma. São Leopoldo, RS. Trabalho de Conclusão de Curso. Unisinos, 91 p.

PEREIRA S. J., I. 1998. Dicionário grego-português/português-grego. 8ª ed., Braga, Livraria do Apostolado da Imprensa, 670 p.

REALE, G. e ANTISERI, D. 1990. História da filosofia. São Paulo, Paulus, vol. 3, 950 p. (Coleção Filosofia).

ZIMMERMANN, D. 1995. Estudos de Psicoterapia. Porto Alegre, Fundação Instituto Mário Martins, 227 p.

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