Vida e Espiritualidade no pensamento de Paul Tillich

Paul Tillich

1. Introdução

Passaram-se já quase quarenta anos depois da morte do teólogo e filósofo Paul Tillich em 1965. Sua vida se passou em dois continentes, Europa e América do Norte, e sua história em dois séculos, o 19 e o 20; da mesma maneira, sua visão filosófica do mundo desenvolveu-se entre o essencialismo e o existencialismo, e sua teologia cristã, entre o princípio protestante e a substância católica. Foi, em todos os sentidos, quase maior do que a vida para seus muitos estudantes e seu pensamento tem influenciado inúmeras disciplinas, incluindo teologia, filosofia, trabalho pastoral, psicologia, sociologia, educação e ciências naturais. ( Lamento ter perdido a oportunidade de encontrar Tillich pessoalmente por pouco, mas tive o prazer de estudar com Tom Driver, estudante de Tillich e patrono da cátedra Paul Tillich no Union Theological Seminary de Nova York.) Apesar de seus grandes dotes intelectuais e pedagógicos, foi também um ser humano como qualquer um de nós, e – se aplicarmos sua ontologia à sua vida, como fez seu estudante, Rollo May – quanto mais ser possuía, mais era desafiado pelo não-ser.(1)

Meus comentários desta noite concentram-se sobre a vida e a espiritualidade de Tillich que é, obviamente, um tema muito vasto. A imagem que ele usava para descrever sua vida nas reflexões autobiográficas de 1936, “na fronteira”, nos guiará na apresentação que segue. Um de seus estudantes americanos e, subseqüentemente, editor e intérprete de seu pensamento, Carl Braaten, comenta o primeiro encontro que teve com ele: “Tudo o que recordo desse encontro… é que ele estava sempre na fronteira. Vivia em tensão dialética e existencial”. (2) A imagem da fronteira de Tillich foi bem recebida porque as pessoas identificavam-se com ela e adaptavam muitas de suas fronteiras à tessitura de suas próprias vidas. O gênio especial de Tillich consistia , como disse Walter Leibrecht, “em expressar com clareza o que os outros sentiam apenas confusamente e em libertar a percepção por meio do poder da definição correta.” (3)

Paul Tillich foi, verdadeiramente, um homem “na fronteira”: proclamou-se protestante e luterano durante toda sua vida, porém peculiarmente católico em seu método teológico e metafísico e na sua forte ligação com os elementos sacramentais e místicos do catolicismo; teólogo da igreja apesar de parecer a muitos estranho a ela; nascido e educado no século dezenove e, contudo, um dos mais influentes pensadores do século vinte; herdeiro da cultura germânica e, não obstante, perito na língua inglesa que só aprendeu quando já estava com 47 anos de idade e que se tornou o veículo mais importante de sua obra principal; fundamentado na tradição essencialista filosófica de Platão, Agostinho, dos teólogos franciscanos medievais, de Böheme e Schelling mas conhecido principalmente por sua interpretação existencialista e, muitas vezes, controvertida, da mensagem cristã. I imagem da fronteira que aplicava a si mesmo descrevia perfeitamente não apenas sua pessoa mas também sua obra. Se por um lado, sua força manifestava-se na compreensão e na comunicação dos dois lados da fronteira, por outro, era criticado pelas fraquezas dessa atitude: ao sempre situar “na fronteira” e “entre ela” parecia estar “além” e “fora” das questões do dia. Como Nels F. S. Ferré, um de seus críticos afirma: “Tillich vive e pensa pelas margens onde a história da igreja, em seu sentido mais profundo, é a história da história”. (4)

Pretendo discutir diversas fronteiras ou momentos da vida de Tillich: em primeiro lugar, a Primeira Guerra Mundial e sua emigração para os Estados Unidos; em segundo lugar, diversas fronteiras espirituais em sua vida e teologia para concluir com o exame do momento atual: para onde vai a herança intelectual de Tillich?

2. Fronteiras Históricas

Primeira Guerra Mundial

A primeira fronteira de Paul Tillich foi a Primeira Guerra Mundial. As raízes do pessimismo existencial de Tillich situam-se em sua experiência histórica de sofrimento e tragédia: seu trabalho de capelão do exército germânico nessa época quando se deu conta da grande devastação da vida humana e da falha do cristianismo para responder a tal sofrimento. O mundo da “inocência sonhadora” , como o descreviam Wilhelm e Marion Pauck, acabava. Escreveram:

No começo da guerra, Tillich era ainda um rapaz acanhado, verdadeiramente “sonhador” e “inocente”. Era patriota, cheio de orgulho prussiano, pronto para lutar por seu país como qualquer outro. Quando voltou para Berlim quatro anos depois, estava completamente transformado. O monarquista tradicionalista convertera-se num socialista religioso. O crente cristão era agora um pessimista cultural e o reprimido rapaz puritano se transformara num “homem selvagem”. Esses anos representaram a grande mudança na vida de Tillich, a primeira, a última e a única.” (5)

Tillich escreve sobre essa guerra: “A experiência desses quatro anos revelaram para mim e para a minha geração o abismo na existência humana incapaz de ser ignorado.” (6) A guerra marcou uma fornteira na vida de Tillich que influenciou profundamente sua visão de mundo, a interpretação do cristianismo e a cultura moderna. Deu-lhe conteúdo concreto e contexto existencial para seu treinamento formal acadêmico e seus estudos de filosofia, história e teologia. Como sugeriu o casal Pauck, Tillich “nunca se recuperou de seu intenso sofrimento perante a morte” que lhe revelara a guerra. (7)

Na experiência da Primeira Guerra onde Tillich serviu como capelão e pastor para os feridos e moribundos, percebeu que somente importava realmente a mensagem do evangelho de esperança em face do desespero, e da vida perante a morte. Erdmann Sturm, em seu livro sobre os sermões de Tillich desse tempo de guerra, cita estas palavras do teólogo:

“Estamos todos horrorizados pelo abismo que se abre diante de nós e pelo que a vida, a cultura e a humanidade nos legaram. Que é isso senão o inferno na terra! A fé que tínhamos no mundo, na cultura e na humanidade está despedaçada… [Alguns dirão] que o Deus que permite essas coisas não é Deus. Na verdade, o Deus no qual críamos nunca existiu. Esse Deus fazia parte do mundo e, portanto, era um deus falso. O verdadeiro Deus, contudo, permite que o mundo se transforme em sangue e destroços para revelar ao mundo sua majestade e misericórdia”. (8)

Don Arther, capelão militar americano e estudioso de Tillich, acredita que embora este não fale muito seguidamente de sua experiência na guerra, esse foi um momento transformador em sua vida. Escreve:

“Inúmeras evidências dessa época aparecem na sua obra, em seus conceitos como ´estranhamento existencial´ e ´demônico´ mas também em sua obra, A coragem de ser e especialmente em seus sermões. Na Primeira Guerra ele se tornou um pensador existencialista bem como pastor e pregador. A maior parte de seu interesse posterior pela psicologia, pela psicanálise e pela teologia pastoral partem das experiências desse tempo.” (9)

Da experiência da guerra surgiu seu método da correlação. A mensagem cristã não faria sentido se não pudesse responder às questões existenciais sobre a vida e a morte. Assim, abandonava a mensagem burguesa e domesticada da igreja de sua juventude. Começou a atacar as formas irrelevantes e antiquadas do evangelho cristão embora jamais tenha rejeitado a substância da mensagem evangélica. Ao contrário, e é o que importa, temia que a genuína substância da mensagem cristã tinha sido enfraquecida por meio de símbolos e de categorias estagnadas. Para Tillich, a existência não era mera abstração mas a questão básica que confrontava o cristianismo. Dizia: “ Não estou preocupado principalmente em resolver problemas teóricos, mas em indicar a situação espiritual em cuja direção , estou convencido, segue o desenvolvimento espiritual”. (10) Acreditava que as questões mais profundas que confrontavam os indivíduos , questões sobre o sentido último da vida e da morte, não interessavam as igrejas. Resume sua tarefa teológica desta maneira pessoal:

“A única razão de meu trabalho consiste em tornar a fé cristã possível para as pessoas de hoje. Sempre penso nos que universitários que poderiam ser cristãos; sim, penso também nos seminaristas que perdem o sono porque não conseguem ser honestamente o que gostariam de ser; e quero que a teologia tenha sentido para eles para ajuda-los a entender o que está dizendo e porque está dizendo o que diz.” (11)

A Primeira Guerra Mundial foi o primeiro momento histórico que mudou sua vida e pensamento permanentemente.

Da Alemanha para a América

A segunda fronteira que ele atravessou e à qual sempre esteve ligado foi entre “a terra natal e a estrangeira.(12) O nome de Tillich apareceu no primeiro grupo de professores afastados de suas cátedras na Alemanha de 1933 pelos Nacional-Socialistas. Muitos de seus colegas judeus já haviam fugido da Alemanha, enquanto ele ainda esperava que Hitler e os nazistas poderiam ser derrotados. Sentiu-se tentado de entrar para o movimento subversivo da resistência e permanecer em sua terra, mas sua vida tinha que ir adiante, atravessando outra fonteira, desta vez o oceano. Persuadido por sua mulher, Hanna, e aceitando o convite de Reinhold Niebuhr, cujo irmão mais jovem, H. Richard Niebuhr havia traduzido seu livro, The Religious Situation, de 1926, viajou para Nova York. Referiu-se mais tarde ao choque dessa mudança como “enfrentar um abismo”. (13) Seus últimos meses na Alemanha foram dolorosos, pontilhados por despedidas e pelo melancólico sentimento da natureza ambígua de sua jornada. (14)

Chegou na baía de Nova York entre o nevoeiro do dia 3 de novembro de 1933 para assumir o cargo de professor no Union Theological Seminary e na Columbia University por um ano. Com 47 anos de idade e pouco domínio da língua inglesa, começou a segunda parte de sua vida em Nova York. Wilhelm e Marion Pauck descrevem suas primeiras dificuldades com a nova língua, especialmente com as gírias. Progrediu mais depressa na escrita do que na fala. Ao final de 1933 já escrevia seus primeiros ensaios em inglês. (15) Conseguiu, finalmente, aprender a escrever inglês com a mesma simplicidade, clareza e poder que marcara sua obra em alemão. ( Quando eu fazia a minha pós-graduação, fui aprovado em Alemão traduzindo uma passagem de Karl Rahner: quando, mais tarde, traduzi a obra de Tillich para usar em minha tese, ainda sem dominar o alemão, fiquei surpreso com a clareza de sua escrita.) Nunca perdeu seu forte sotaque alemão. Muitas vezes pedia a seus estudantes no Union Seminary a verter para o inglês alguns de seus escritos. (16)

A mudança de sua terra para os Estados Unidos foi o segundo momento em sua jornada entre as fronteiras. Embora sua vida e seu pensamento permanecessem fundamentalmente os mesmos depois de ter chegado a Nova York, por outro lado, mudaram paradoxalmente. Do mundo boêmio da Berlim dos anos 20 passava para a vida estável e de certa forma puritânica do Union Seminary na Nova York dos anos de depressão da década de 30. Também foi modificada a maneira de expressa seu pensamento: do Tillich político e social para o mais teológico e pessoal. De um lado, David Hopper sugere que a compreensão que Tillich desenvolvera a respeito do ser em sua tese de 1912 sobre Shelling expressava-se e ajudava a iluminar seu trabalho definitivo, quatro décadas depois, a Teologia sistemática em três volumes. Por outro lado, Brian Donnelly, em seu novo livro argumenta que o pensamento político marxista continuou a influenciar Tillich embora em termos, agora, teológicos.(18) Com a mudança do filosófico, social e político para o teológico e psicológico também se alterou a linguagem. Segundo James Luther Adams houve também significativa mudança em seu conceito do divino. Nas obras em alemão, empregava para Deus, em contraste com Rudolph Otto e Karl Barth, o termo “o incondicionado” (das Unbedingte). (19) No ensaio de 1922, “Kayros”, define o incondicional como qualidade e não como ser. Caracterizava aquilo que é supremo e, conseqüentemente, nossa preocupação incondicional, chamemo-la “Deus” ou “Ser em si”… ou de qualquer outro nome. (20) O conceito “incondicional” foi certamente influenciado pelo Unvordenkliche de Schleiermacher, para significar o inacessível ao pensamento porém sempre pressuposto pelo ser e pelo pensamento. (21) Depois de seu artigo sobre os símbolos de 1941, passou a referir-se a Deus como “ser-em-si” e nossa “preocupação su0prema”. Por exemplo, o termo “incondicional” aparece apenas em duas páginas do primeiro volume de sua Teologia sistemática, enquanto “preocupação suprema” desdobra-se ao longo de trinta e cinco páginas da mesma obra. (22)

Além disso, a mudança para Nova York foi marcada por novas experiências. Nos anos 20, Tillich rejeitara “o apoio da igreja às convenções hipócritas ou burguesas, (23) e participara da vida boêmia da Alemanha do pós-guerra. Depois de ter sido traído por sua primeira mulher, Trethi, que teve um filho de um de seus amigos, divorciou-se em 1921. Depois disso deixou-se fascinar pelo misticismo, pelo demônico e pelo erótico. (24) Casou-se novamente em 1924 com Hannah e permaneceu com ela até o final de sua vida em 1965. Optaram por um estilo de vida não convencional, descrito mais tarde por ela em dois livros autobiográficos. (25) O poder de Tillich sobre os outros, especialmente sobre as mulheres, criou muitos relacionamentos e, inevitavelmente, desordens e sofrimento. Os elementos sexual e erótico permaneceram problemáticos para ele durante toda a sua vida. O casal Pauck escreveu:

“Tillich nunca se deu inteiramente a seus amigos, nem mesmo para sua esposa. Mas a todos sempre concedeu algo individual; em cada um descobriu coisas novas e diferentes. Sua maneira era gentil, sua generosidade, grande, e sua preocupação pelos outros ligava-se inevitavelmente à admiração que recebia e da qual tanto dependia”. (26) Por causa disso, Tillich foi visto de maneiras diferentes por diferentes pessoas. Tanto sua vida pessoal como as reflexões autobiográficas formais também se situavam na fronteira: entre o pessoal e o coletivo, o cristão e o pagão e a lei e a graça. (27)

Tillich chegou na América na qualidade de confesso individualista, distante do mundo teológico e eclesiástico de sua vida antes da guerra, e tinha agora que se adaptar à comunidade do seminário onde não mais podia fazer o que queria sem ser observado. No começo, acreditava estar entrando num mundo “rigidamente moralista” porque a vida no Union Seminary lhe parecia diferente da que levara na Alemanha, considerada por ele boêmia. Levou algum tempo para se ajustar. Mas sua habilidade carismática de mestre de idéias e sua personalidade dinâmica e serena logo conquistaram estudantes e colegas. (28) Sua carreira também começava “na fronteira”: aos filósofos da Columbia University, do outro lado da Broadway, na rua 120, no norte de Manhattan, suas idéias pareciam “demasiadamente teológicas; para William Sloane Coffin, reitor do Union Seminary, sua linguagem ontológica “parecia demasiadamente filosófica e secularizada”. Mas foi contratado pelo Union Seminary para treinar candidatos para o ministério cristão. (29)

Tillich viveu em dois mundos durante sua vida: entre a juventude piedosa e, depois, a vida exuberante, entre dois paises e culturas, entre a teologia e a filosofia, entre a igreja e o mundo, entre o sagrado e o secular, entre o erótico e o espiritual, entre a obscuridade e as dificuldades financeiras e a fama e a segurança material e, finalmente, na fronteira entre o protestantismo e o catolicismo, entre o temporal e o eterno. E assim, podemos examinar a sua espiritualidade.

3. Fronteiras Espirituais

A espiritualidade de Tillich fundamenta-se teoricamente em três elementos: ontologia mística, visão sacramental do mundo e a importância do princípio profético protestante. Num artigo que publiquei há dez anos, sugeri que os escritos de Tillich poderiam ser estudados nas décadas futuras menos por causa de seu valor histórico, filosófico e teológico e mais como fonte de espiritualidade e de visão espiritual com sua riqueza teológica, inclusividade cultural profundamente humana. (30) Esse comentário não parece agora tão ousado.

Tillich compreendeu a unidade da teologia com a espiritualidade. Ele concordaria, parece-me, com Evagrios de Pontus do quarto século, ao afirmar que “se verdadeiramente orarmos, seremos teólogos”. (31) Segundo Tillich, na herança platônica-agostiniana, “o objeto do conhecimento e o objeto do amor são o mesmo”, posto que o verdadeiro conhecimento “participa, em última análise, no ser verdadeiro”. (32) Tillich dizia “… o verdadeiro conhecimento inclui união e, portanto, abertura para receber aquilo com o que se une”. (33) Para Tillich, a teologia, como a fé, é o estudo de nossa preocupação suprema. ; no ato da fé, como preocupação suprema, “a fonte desse ato se faz presente além da separação entre sujeito e objeto. Está neles e além deles”. (34) Teologia não quer dizer conhecer Deus como objeto do conhecimento ou como a conclusão de argumentos; trata-se, antes, da compreensão individual do divino como o prius do pensamento e da ação, fonte infinita do ser que precede o finito do qual é inseparável. Esse, verum, bonum – ser, verdade, bem – “são princípios da verdade: a luz divina em nós.” (35) Com Aquino e os escolásticos, como disse Yves Congar, a teologia se transformou infelizmente “na consideração racional e científica do dado revelado”, ou “a cópia cientificamente elaborada da fé”. (36) Por outro lado, para Tillich, teologia é sempre resposta. Assim , não se pode separar a vida nem a teologia da espiritualidade. É o que está no centro da espiritualidade de Tillich.

Vamos examinar, primeiramente, que queria ele dizer com espiritualidade. Muitos pensadores têm escrito ultimamente a respeito desse tema, considerado por Samuel Huntington como “vingança de Deus”. (37) Considerando a grande variedade de fatores culturais e teológicos presentes no atual reavivamento espiritual, como entender o termo? Até a realização do Segundo Concílio Vaticano nos anos 60, o termo espiritualidade era quase sempre considerado dentro da tradição católica. A palavra não aparecia nos escritos da Reforma e, até recentemente, muitos protestantes preferiam o termo mais antigo, piedade ( alguns usavam a expressão devoção enquanto outros, como Wesley, optavam por perfeição) para designar a vida no Espírito com sua reverência e amor por Deus. (38) O termo começou a ser usado no catolicismo francês em oposição, quase sempre, à palavra “devoção” por causa de suas “associações com o entusiasmo questionável de certas práticas espirituais e até mesmo de formas heréticas”. (39) Na língua inglesa o termo só aparece na década de 20. (40) Mais recentemente, o vocábulo ultrapassou as fronteiras católicas para descrever, em sentido antropológico, certa qualidade disponível às pessoas que buscam viver a plenitude da vida humana. Da idéia católica tradicional acerca do movimento místico de Deus para a alma e vice-versa, agora significa “a totalidade da vida da fé e até mesmo a vida integral das pessoas incluindo o corpo e as dimensões físicas, psicológicas, sociais e políticas.” (41) Hoje em dia, estuda-se espiritualidade em todas as tradições religiosas, em todos os períodos históricos e nas escolas filosóficas. (42) Nas palavras de John Macquarerie, ela tem a ver fundamentalmente com “o tornar-se pessoa em seu sentido mais verdadeiro”. (43) Ewert Cousins escreveu: “o centro espiritual é o mais profundo da pessoa. É nele que nos abrimos à dimensão transcendental; é aí que experimentamos a realidade suprema.” (44)

Quando examinamos os escritos de Tillich, percebemos claramente como se apropria desses abrangentes conceitos de espiritualidade. Vamos considerar seu pensamento a respeito a partir de três categorias: espiritualidade vivida na tensão entre igreja e mundo; em relação com o princípio protestante e com a substância católica, e como resposta às questões vitais de nossa época.

3.1 Entre a igreja e o mundo

A teologia de Tillich, por sua própria natureza foi uma “teologia espiritual” porque seu método de correlação sugeria profunda unidade entre teologia e espiritualidade, mensagem do evangelho e tradição teológica ao lado de questões existenciais de indivíduos e culturas. Procurava dar respostas às questões decisivas da existência humana. Mesmo em sua expressão sistemática, ele nunca foi um sistemático. Depois de mais de três décadas alguns pensadores católicos reconheciam esse fato. O dominicano Christopher Kiesling escreveu:

“Basicamente, o pensamento teológico de Tillich aproxima-se do de São João da Cruz e de Santo Tomás de Aquino. Se quisermos encontrar paralelos entre seu pensamento e a mentalidade da teologia católica, não devemos buscá-los nos textos dogmáticos nem na teologia moral, mas nas obras de teologia ascética e até mesmo nos escritos dos próprios místicos.” (45)

A teologia e a espiritualidade de Tillich nunca foram eclesiocêntricas. Na verdade, ele não se sentia muito bem nas igrejas. Vivia na fronteira entre a igreja e o mundo. Embora fosse membro da igreja e assim se reconhecesse, e tivesse sido ordenado pastor protestante, falava tanto para os que estavam na igreja como para os que estavam fora dela. Era, em geral, melhor recebido pelos que não freqüentavam igrejas. Sua teologia concentrava-se na reinterpretação da mensagem cristã para os que não percebiam o poder dos símbolos cristãos e vivam alienados das comunidades cristãs tradicionais.

Alguns de seus colegas achavam que havia avançado demais além dessa linha invisível como se fosse um descrente disfarçado em linguagem tradicional. William Sloane Coffin, sempre se mostrou ambivalente a respeito da ortodoxia de Tillich. Quando apareceu o primeiro volume de sua Teologia sistemática em 1951, confirmou suas suspeitas, dizendo “que Tillich não era um pensador cristão mas um místico grego com idéias heréticas vinculadas ao dualismo de Plotino, de Hegel e de Schelling”. (46) Sua doutrina de Deus, principalmente o conceito de “Deus além de Deus” tem sido criticada tanto por teólogos protestantes como católicos. Por exemplo, Nels F. S. Ferré o descreveu como um teólogo “perigosíssimo” (47) porque lhe parecia que “Tillich não acreditava no Deus cristão que ressuscita os mortos e age pessoalmente na história humana”. (48) Por outro lado, há os que o consideram o mais importante pensador teológico do século vinte por causa de sua capacidade de tocar as mentes e corações dos que se havia desgarrado da fé e da esperança cristãs. Reinhold Niebuhr, seu colega no Union Theological Seminary de Nova York, defendeu a contribuição de Tillich à teologia chamando-o nada menos do que “o Origines de seu tempo”. (49)

Se levarmos a sério a clássica definição de Tillich de que “a religião é a substância da cultura e a cultura é a forma da religião” (50) , a espiritualidade viva e vibrante não poderia se limitar à igreja mas teria de incluir a cultura secularizada. Se por um lado, a mensagem cristã se mostra indispensável para os modernos em sua busca de salvação, por outro, Tillich acreditava que a forma da fé nas igrejas contemporâneas tinha que ser rejeitada pela sociedade por estar morta e irrelevante. Por isso Tillich reprovava as igrejas que se mostravam isoladas da sociedade, da cultura e do mundo. Preocupava-se, acima de tudo, com o afastamento dos intelectuais porque “o dogma defendido pela igreja nada tinha para lhes dizer”. Acreditava que os símbolos cristãos, ao mesmo tempo culturais e teológicos, não mais transmitiam o poder das palavras da salvação. Instava a igreja a “proclamar o evangelho em linguagem compreensível ao humanismo não eclesiástico”. (51) Afirmou num sermão que “os que conhecem a profundidade, conhecem Deus”.(52) Essa profundidade pode ser encontrada em diversos lugares e de muitas formas pessoais, artísticas e sociais. Os cristãos têm encontrado recentemente outras fontes de espiritualidade fora das estruturas religiosas tradicionais. Sabemos hoje que a vida espiritual não se confina à instituição eclesiástica. Para que sejamos plenamente espirituais é preciso fazer parte tanto da igreja como da sociedade, da religião e da cultura, situando-se, como ele dizia, “entre as possibilidades alternativas da existência, sem se prender a elas, nem se opor a elas definitivamente”. (53) O crescimento pessoal no Espírito precisa envolver o bem estar da comunidade humana. Nas palavras de Tillich, “A invasão do Espírito no espírito humano não se dá nos indivíduos isolados, mas nos grupos sociais… (54) Como sugere Shirley Guthrie: “A verdadeira espiritualidade… não se encontra no religioso ou na espera psicológica mas nas dimensões econômica e política quando tratam de coisas que não parecem espirituais como fome, direitos humanos e bem estar social…” (55) Tillich tinha consciência da Presença Espiritual em todos os lugares, até mesmo onde as pessoas religiosas tradicionais não esperam encontra-la.

3.2 Princípio protestante e substância católica

O segundo aspecto importante da espiritualidade de Tillich é a tensão entre o princípio protestante e a substância católica. Como diz Langdon Gilkey: “O principal papel do pensamento de Tillich tem sido de ressaltar determinado tema – em diferentes eixos – onde posições aparentemente opostas entram em tensão e em relação abrangente…” (56) O encontro do princípio protestante com a substância católica talvez seja o lugar mais importante dessa relação em sua teologia e espiritualidade.

Esse relacionamento sempre atraiu os teólogos tanto católicos como protestantes. Tillich, segundo André Gounelle, via o catolicismo e o protestantismo não tanto como estruturas dogmáticas diferentes mas como duas atitudes ao mesmo tempo opostas e complementares. (57) Em 1933, pouco antes de sua chegada nos Estados Unidos, pensou seriamente em se tornar católico em conseqüência de sua desilusão com a resposta protestante a Hitler e ao Nacional Socialismo. Além disso, sempre se mostrou atraído pelos elementos sacramentais e místicos do cristianismo mais presentes na tradição católica do que na protestante. Em suas palavras:

“Sempre me opus ao sistema mais expressamente heterônomo religioso, o catolicismo romano. Este protesto é ao mesmo tempo protestante e autônomo. Nunca se dirigiu, apesar das diferenças teológicas, contra os valores dogmáticos ou litúrgicos do sistema católico romano mas contra o caráter heterônomo do catolicismo… confesso que pensei com certa seriedade na possibilidade de me tornar católico…” (58)

Convém observar que a rejeição do catolicismo por Tillich não foi por causa das doutrinas nem da liturgia, mas da natureza autoritária dessa igreja na juventude dele. Lembremos que Tillich nasceu na época do ultramontanismo católico com sua estagnação teológica em reação à crise provocada pelo movimento modernista nas duas primeiras décadas do século vinte.

Tenho a impressão de que à medida que ele proclamava o princípio protestante mostrava-se católico em sua sensibilidade, entendendo a riqueza e a diversidade da tradição católica. Certamente, nunca foi católico romano, mas sempre se sentiu atraído por pensadores católicos, especialmente depois do Concílio Vaticano II, por causa de sua fundamentação ontológica e de sua orientação mística e sacramental.

O teólogo protestante, André Gounelle, nos ofereceu esta bela descrição da substância católica e do princípio protestante:

“A originalidade do pensamento de Tillich mostra-se na capacidade de apreciar o catolicismo e o protestantismo não como elenco de doutrinas nem de estruturas dogmáticas diferentes, mas como duas atitudes ao mesmo tempo complementares e opostas. Lembro-me de sua conhecida análise desses conceitos. Na história do cristianismo, e de outras religiões, sempre houve tensões, quase sempre ressaltando a oposição entre os dois elementos.

A primeira atitude acentua a realidade da presença de Deus em certos lugares. O termo ´lugar´ precisa ser entendido aqui em sentido amplo: localidade (santuários, peregrinações), instituições ( igreja, papado, assembléia de bispos, concílios e sínodos), textos ( Bíblia, definições doutrinárias e confissões de fé), cerimônias (ritos e sacramentos), objetos ( relíquias) e imagens (ícones). A natureza e o número desses ´lugares´ religiosos varia segundo tradições e situações específicas. Nas instituições onde são reconhecidos, os fiéis acreditam encontrr nelas o próprio ser de Deus. Acreditam estar na presença de Deus com a qual experimental verdadeiro contato físico. Afirma-se que Deus se relaciona com esses lugares, momentos e coisas. Por meio deles, Deus assume realidade concreta; aproxima-se de nós, nos alcança e nos visita. Chega-se mesmo a dizer que Deus se encarna nesses lugares. Atribui-se-lhes enorme importância e se os considera sagrados. Quando se os perde, somos afastados de Deus e a fé perde sua realidade. Profana-los significa querer ser como Deus. Devem, pois, ser mantidos, preservados e protegidos a qualquer preço. Estabelecem e estruturam a religião ( no sentido de relação com Deus), que, sem eles, nada teria para oferecer e se esvaziaria. Essa tendência pode ser chamada de sacramental e sacerdotal; na verdade, o sacramento tem a função de assegurar a presença de Deus; o sacerdócio procura estabelecer a comunicação com o divino.

A segunda atitude, ao contrário, tem caráter iconoclasta. Consiste na destruição de ícones e de estátuas. Por extensão, o termo aplica-se aos que rejeitam qualquer representação ou localização de Deus. Não as aplica apenas às pinturas que representam o sagrado, mas também ao ritualismo, ao sacramentalismo, ao dogmatismo, ao eclesiocentrismo e ao biblicismo. Essa atititude não vem da increditilidade ou da descrença, mas do medo, até certo ponto justificável, de que ritos, sacramentos, igreja, Bíblia e dogmas possam ser divinizados e transformados em ídolos. Considera sacrílega e blasfema a sacralização de certos lugares porque somente Deus é divino com o monopólio do sagrado e do santo. Nada pode encerrar Deus, como diria Calvino. Deus permanece eternamente livre. Sua presença não é material, isto é, dependente de coisas que porventura o pudessem conter ou provocar. É espiritual. Emana de ato ou evento do Espírito e não da instituição. Deus não reside em lugar algum. Deus vem a nós como quer e quando quer. Essa atitude pode também ser chamada de profética ou escatológica. É profética porque no Antigo Testamento os profetas resistiram à usurpação do divino pelos sacerdotes, e seu aprisionamento nas cerimônias do culto. Defendiam o surgimento do espírito divino fora dos lugares consagrados e dos costumes tradicionais. É escatológica porque o eschaton ( o supremo e último) situa-se além das realidades presentes, incluindo as que lhe servem de testemunhas.

Por outro lado, insiste-se na presença substancial de Deus em certos lugares ao mesmo tempo em que se afirma essa presença além do nosso alcance e imaginação. Deus situa-se fora e acima daquilo que manifesta sua presença.

Essas duas atitudes a respeito do sagrado ou do religioso aparecem em todas as igrejas cristãs. A primeira corresponde, contudo, à fé de tipo católico e a segunda, de tipo protestante. Convém fazer distinção entre atitude e confissão ou igreja. Assim, o fundamentalismo, geralmente considerado protestante, tende a divinizar a Bíblia, parecendo-se muito com a atitude católica ( certamente não católica romana). Ao contrário, certos féis católicos demonstram atitudes de tipo protestante ( embora estejam longe das confissões protestantes). Mas, certamente, a atitude sacramental e sacerdotal encontra-se mais entre os católicos e a protestante ou profética e iconoclasta, entre os protestantes.” (60)

Tillich, na verdade, estabeleceu um ponto onde, como disse Gilkey, “posições aparentemente opostas entram em tensão e em relação ampla”. Essa tensão fez parte de sua vida e é oi legado que nos deixou não só na teologia ecumênica mas também na espiritualidade. O grande pecado da religião sempre foi a idolatria. Os cristãos de hoje precisam viver na tensão entre as duas atitudes da fé viva: em primeiro lugar, buscar o sagrado nas coisas visíveis e tangíveis da terra; e, depois, nunca transformar essas coisas em absolutos, protestando contra todos os rituais, livros, comunidades e formas de piedade finitas.

Essa espiritualidade baseada na substância católica e no princípio protestante podia criar a “espiritualidade teônoma”, determinada e dirigida pelo Espírito. Esse tipo de espiritualidade percebe a presença do espírito divino em qualquer lugar até mesmo além dos limites da igreja ou da doutrina. Simultaneamente, relaciona-se com Deus mediante Cristo na comunidade eclesial quando suas formas e estruturas refletem a liberdade e a transparência da graça. O espírito peregrino encontra aí profundidade e significado para a sua vida por meio da substância da liturgia e dos sacramentos, das doutrinas e das orientações morais, da autoridade da comunidade apostólica e do serviço no mundo. Tal espiritualidade teônoma fundamentada na substância católica leva a sério o princípio protestante – submetendo todas as formas de idolatria e de hereonomia à crítica profética. Se, de um lado, a graça justificadora de Deus pode se tornar visível na Gestalt da graça, como Tillich dizia, a graça transcende, de outro, todas as Gestalt e todos os esforços para localizá-la definitivamente, no tempo e no espaço finitos. Nas palavras de Tillich, a “Gestalt da graça” realiza-se “nos objetos, não, porém como objetos, mas como o significado transcendente dos objetos”. (61)

3.3 Três temas espirituais presentes nos sermões (62)

Tillich tem algo vital a dizer para as pessoas pensantes que não mais vivem na cultura do “homem religioso”, mas, nas palavras de Philip Rieff, do “homem psicológico”, onde a metafísica desapareceu para dar lugar à terapia e ao consumismo. (63) Tillich acreditava que os modernos “psicológicos” andavam procurando “estrelas guias”. (64) As razões do apelo de Tillich a esse tipo de gente são simples. Em primeiro lugar, seu sistema mostra-se adaptável a qualquer época; as questões de maior importância sobre a vida mudam de conteúdo em diferentes contextos culturais e históricos, mas a qualidade formal do que nos interessa em última análise é sempre a mesma. As pessoas, não importando a época em que vivem, enfrentam a questão absoluta sobre o sentido da vida em face do amor e da falta de amor, da alegria e da tristeza e do sofrimento e da morte. Da mesma maneira, os cristãos precisam buscar na tradição do evangelho respostas para essas questões que sejam fiéis à tradição e à sua terminologia e que, ao mesmo tempo, façam sentido perante sua visão de mundo. Em segundo lugar, os escritos de Tillich sempre tiveram a virtude de tocar profundamente nas pessoas não importando sua idade, situação ou profissão. Eu apelo é mais abrangente do que o do mero teólogo. Às pessoas desesperadas em busca de sentido, seu livro, A coragem de ser, oferece ainda autêtnica auto-afirmação e fonte incondicional de esperança. Aos perdidos e sem fé, a obra Dinâmica da fé, promete surpreendente nova interpretação no contexto de sua tradição. Finalmente, Tillich oferece a desejável alternativa à polarização teológica de nossa época: entre a modernidade secularizada vazia de transcendência, de um lado, e a neo-ortodoxia fundamentalista , acrítica e antiintelectual, de outro lado. A teologia de Tillich, especialmente sua interpretação teológica da cultura, continua ajudando as pessoas a entender o paradoxo de sua liberdade e criatividade como indivíduos, de um lado, e suja ab soluta dependência de Deus no mundo mutável, de outro. Vamos considerar agora os três volumes de seus sermões para apreciar a sua espiritualidade e sugerir três temas espirituais aí encontrados.

Vida interior e vida no mundo

Ele relaciona o mistério da vida interior com a vida na sociedade e na comunidade. A partir do século doze acentuou-se infelizmente a separação entre spiritualitas e corporalitas, entre a vida no espírito e a vida material no mundo. (65) Tillich não acreditava nessa separação. Essas vidas eram inseparáveis: da mesma forma o corpo a alma eram uma só pessoa. No sermão, “O bem que eu quero, não faço”, escreve; “Paulo, e com ele toda a Bíblia, nunca responsabiliza o corpo pela nossa separação de Deus, do mundo e de nosso eu”. (66) No sermão, “O novo ser”, escreve: “A cura – mental e física – cria a reunião do eu consigo mesmo… a verdadeira cura não se dá quando o corpo ou a mente se reúne com o todo, mas quando o eu total, o ser inteiro e a personalidade toda se une com o eu”. (67)

Mais importante do que isso, ele nunca separa a jornada espiritual da vida da pessoa na sociedade. Em “O novo ser”, acrescenta: “ Nada é mais apaixonadamente exigido do que a cura social, do que o poder do Novo Ser na história e nas relações humanas.” (68) E em “Dois servos de Javé”, Tillich nos lembra de que os servos profetas, como o servo sofredor, “ existem invisíveis em todos os países… sabemos que existem e que seu sofrimento não é em vão. São os instrumentos ocultos de Deus na história”. (69)

A razão fundamental da união dessas duas dimensões da vid prende-se à sua ontologia quando afirma que todos os seres se reúnem no mistério do próprio ser. Em “Principados e poderes”, escreve: “Estamos unidos com o que não é criatura e cujo fundamento criativo não pode ser destruído por nenhuma criatura… nenhuma criatura pode destruir o significado da vida universal tanto na natureza como na história, da qual fazemos parte… “ (70) A ontologia de Tillich oferece aos indivíduos o fundamento da espiritualidade sem as pragas dualistas da cultura ocidental – sujeito e objeto, tempo e eternidade, finito e infinito, concreto e universal, natural e sobrenatural e sagrado e secular. A estrutura básica ontológica do eu e do mundo ressalta a importância do sujeito e do objeto, ao mesmo tempo, da coragem e da fé, do ser e da graça, da qualidade da preocupação suprema e do eu supremo bem como a recepção individual do Novo Ser com seu poder e objetivo universais. Em “Você é aceito”, diz: “Estamos ligados ao fundamento do ser para toda a eternidade da mesma maneira como estamos ligados a nós mesmos e á vida.” (71) Em “O jugo da religião”, menciona o poder do Novo Ser “no qual todas as coisas participam por ser universal e onipresente”. (72) Em “Abandono e solidão”, entende que nos momentos de solidão “o centro de nosso ser… é elevado ao centro divino e tomado nele”. Em “Escapar de Deus”, proclama: “O centro de nosso ser envolve-se com o centro de todo ser, e o centro de todo o ser está no centro de nosso ser.” (73) Finalmente, no “Enigma da desigualdade”, escreve: “Existe a unidade final de todos os seres, fundamentada na vida divina de onde emergem e para o qual retornam. Todos os seres, humanos e outros, participam nele. E todos participam uns nos outros.” (74) As palavras de Tillich exigem ligação inseparável entre a salvação pessoal e o compromisso com a justiça social junto aos pobres e oprimidos. Condenaria qualquer espiritualidade alienada do mundo que cega as pessoas diante do eterno que vem a nós como presença e exigência no meio da ordem temporal. (75)

Espiritualidade e teonomia

A vida espiritual ideal e o conceito teológico de teonomia são idênticos para Tillich. Opunha-se sempre às estruturas heterônomas tanto a igreja como das instituições seculares, bem como à autonomia quando separada do fundamento divino. Descreve essa situação em “Segundo qual autoridade?” como “a terrível alternativa de nosso período histórico”. A situação de então ainda é a mesma hoje. Ele a descreve: “Quando não há autoridade, somos obrigados a decidir por nossa conta… Seres finitos que somos, passamos a agir como se fôssemos infinitos e posto que isso é impossível, caímos em completa insegurança, angústia e desespero. Ou, incapazes de enfrentar a solidão de decidir por nós mesmos, esquecemos que existe essa ruptura da autoridade. Submetemo-nos, então, a autoridades definitivas e fechamos os olhos para todo o resto. É o desejo dos que estão no poder.” (76) No sermão, “Sejamos maturos no pensamento”, recomenda aos cristãos que “nenhum representante da igreja deveria criticar o mundo secular se não submetesse antes a igreja a essa crítica”. (77) Na época dos novos fundamentalismos, bíblico ou eclesiástico, suas palavras ainda advertem: “Há multidões que se sentem seguras quando regidas por leis e doutrinas mas são pessoas que ainda não encontraram a liberdade espiritual nem acharam seu verdadeiro eu”. (78) Percebe-se ao longo dos sermões incansável espírito profético e iconoclasta, que não nos deixa levar muito a sério nossas igrejas e doutrinas. O poder de suas palavras parece mais necessário no contexto cultural atual, dividido entre novos ídolos religiosos representados por livros ou comunidades, de um lado, e da mentalidade terapêutica, de outro, atuando num “mundo sem janelas para o transcendente.

Espiritualidade e paradoxo

A linguagem da espiritualidade é do paradoxo e Tillich é requintado quando fala nisso. O paradoxo, como sabemos, aceita a verdade de duas idéias incompatíveis na ordem da lógica como asserções necessárias e inteligíveis na ordem da existência. (79) O paradoxo libera as nossas categorias lógicas de se perderem em si mesmas e nos possibilita a visão do infinito trans-racional. Quando o finito fala do infinito, sabe que sua fala é verdadeira e falsa ao mesmo tempo. Tillich acreditava que o paradoxo situava-se no centro da compreensão da mensagem cristã do Novo Ser, da nova criatura em Cristo, representada especialmente na figura do Crucificado.

Os sermões de Tillich nos convidam para entrar em níveis de compreensão mais profundos de significado por meio do paradoxo. Para ele, a ação divina era paradoxal. No sermão, “Terá vindo o Messias?” escreveu:

“Quem busca a salvação de forma visível não pode ver a criança divina na manjedoura nem a divindade do Homem na Cruz nem o modo paradoxal da ação divina. A salvação é uma criança que será crucificada quando crescer. Só os que conseguem ver poder na fraqueza, a totalidade nos fragmentos, a vitória no fracasso, a glória no sofrimento, a inocência na culpa, a santidade no pecado e a vida na morte poderão dizer: meus olhos viram a tua salvação”. (80)

Em, “Viver entre dois mundos”, ele diz: “Deus age além da expectativa humana [porque] dá poder aos fracos e fortalece os desituídos paradoxalmente. Deus age além da compreensão humana.” (81) No “Paradoxo das beatitudes”, lembra-nos de que os desolados serão abençoados e os pobres ficarão ricos”. (82)

A própria fé é paradoxal. Em “Espera”, escreve: “esperar por Deus não é apenas parte de nossa relação com Deus mas condição para todos os relacionamentos. Nós só temos Deus quando não o temos.” E, “quando sabemos que não o conhecemos e aguardamos que ele se deixe conhecer por nós, começamos a saber alguma coisa a respeito dele… É nesse momento que nos tornamos crentes de dentro de nossa descrença e somos aceitos por ele apesar de nossa separação dele”. (83) Ao descrever a história narrada em Lucas sobre a questão da autoridade, Tillich descreve paradoxalmente a resposta de Jesus: “ele responde a questão da religião profética sem nada responder.” Jesus se recusa a falar sobre sua autoridade e “a maneira como nada responde é sua resposta”. (84)

O “inacreditável conteúdo do cristianismo”, nas palavras de Tillich, é o paradoxo Paulino da justificação: “Pois embora vivamos na carne e sob a lei e na ruptura da existência vivemos, ao mesmo tempo, no Espírito e no cumprimento e na unidade do significado supremo da vida”. (85) Tillich volta a falar nesse paradoxo no sermão, “Vocês são aceitos”: “Ele foi aceito apesar de ter sido rejeitado”. (86) “Aceitem que vocês são aceitos apesar de não serem aceitáveis”. Aí está o conteúdo inacreditável presente na compreensão tillichiana do cristianismo.

O paradoxo expressa-se em mais alto grau na compreensão de Tillich do Cristo como Novo Ser, nova criação. Os aspectos mais abstratos da cristologia de Tillich podem ser debatidos mas seu tratamento do Novo Ser tem impressionado muita gente precisamente porque o paradoxo transparece aí no Crucificado no qual podemos ver a face de Deus. Em suas palavras: “ nenhum poder maior ou mais alta sabedoria poderia revelar mais plenamente o coração de Deus e o coração do homem do que o Crucificado.” (87) “A imagem do Altíssimo, é Jesus na cruz. Sua alma sofredora não foi quebrada pelos poderes do universo.(88) Em rara nota autobiográfica nos sermões, relembra a impressão que lhe causava a Sexta-Feira da Paixão nos dias de sua juventude por causa do sentimento de mistério presente no sofrimento divino. (89) Esse dia revelava, como escreveu em “O enigma da desigualdade”, que “a grandeza e o centro da mensagem cristã” era : “Deus manifesto no Cristo crucificado, participando na morte de um filho, na condenação de algum criminoso, na desintegração da mente, na fome e até mesmo na rejeição humana dele mesmo. Não existe condição humana alguma que não seja penetrada pela presença divina. É o que a cruz, a mais extrema de todas as condições humanas, nos diz.” (90) E, novamente, escreve em “ Vivemos em duas ordens”: “O homem na cruz representa outra ordem na qual os mais fracos se fazem fortes e os mais humilhados os vencedores”. (91)

CONCLUSÃO

Depois de examinar a vida e os escritos de Tillich, constituídos em importante legado teológico para o século vinte, vamos concluir com esta pergunta: para onde vai essa contribuição? Qual será o futuro de seu pensamento? Deverá ele ser considerado agora mero teólogo do nosso passado? Haverá gente interessada em ler Tillich, fora do círculo dos que o estudam hoje, quando comemorarmos em 2065 o centenário de sua morte? As idéias de Tillich conseguirão falar a gerações preocupadas com as questões decisivas a respeito da vida e do sentido, de Deus e da verdade? Falará aos mais conscientes da necessidade de liberdade humana e de libertação, e dos que discutem a diversidade étnica e cultural?

Sugiro, agora, algumas áreas positivas presentes no pensamento dele tanto no presente como para o futuro. Tillich começa a ser descoberto ou redescoberto fora de sua base teológica protestante tradicional européia e norte-americana. Muitos teólogos católico-romanos, desde o Concílio Vaticano II têm se interessado por ele por causa da mudança de foco; do Tillich, teólogo existencialista para “sistemático romântico idealista”, como diria Thomas O´Meara. (92) Jean Richard, da Universidade Laval, de Quebeque, por exemplo, examinou os escritos socialistas de Tillich e os relacionou com a teologia católica latino-americana da libertação. (93) Sebastian Painadath, teólogo jesuíta indiano, desenvolveu sua teologia inter-religiosa da oração em sua tese depois publicada com o título, Dynamics of Prayer: Towards a Theology of Prayer in the Light of Paul Tillich´s Theology of the Spirit. (94) Anthony Akinwale, dominicano africano, escreveu um artigo sobre o método da correlação em relação com preocupações de teólogos de seu continente. (95) O padre anglicano de Sri Lanka, Ruwan Palapathwala, defendeu sua tese de doutorado na Universidade de Vitória, na Nova Zelândia, sobre os fundamentos teônomos para a construção da religião do espírito concreto. E, naturalmente, temos aqui no Brasil a Sociedade Paul Tillich, formada por anglicanos, luteranos, católicos e reformados, empregando o pensamento de Tillich em suas reflexões.

Em segundo lugar, convém observar a adaptação da teologia filosófica de Tillich a outras disciplinas. Esse apelo multidisciplinar pode ser apreciado, por exemplo, em eventos como o bem sucedido encontro em Harvard sobre Einstein e Tillich.(96) São muitos os que se inspiram no pensamento de Tillich, não tanto no que concerne a aspectos de seu sistema teológico, mas à sua maneira de pensar, de ver e de interpretar o mundo, a cultura e a sociedade. Tillich não pode ser considerado mero formulador de doutrinas mas, antes de tudo, criador e modelador de visões de mundo. Seu pensamento é mais do que sistema de idéias; serve de lente através das quais se pode avaliar e interpretar diferentes temas das mais diversas disciplinas.

Em terceiro lugar, a dimensão pastoral e os aspectos espirituais de sua teologia servem para inspirar estudos especializados e aplicações práticas. O aspecto pastoral de seus escritos estão em todas as suas obras, muito além dos sermões, exigindo maior atenção da parte dos que se dedicam ao estudo de sua teologia. Por exemplo, mesmo na definição do conceito abstrato de “incondicional “ atribui-lhe grande poder religioso pessoal. Escreve: Assim, na presença do Incondicional, o conhecimento é inspiração, a percepção intuitiva é mistério, a ação é graça, e a comunidade é o reino de Deus”. (97)

Todos esses sinais bem como o trabalho contínuo das Sociedades Paul Tillich em três continentes, sugerem o valor permanente do pensamento de Tillich para o novo milênio, para as gerações vindouras que continuarão, como ele mesmo disse em seus dias, “a buscar estrelas guias. (98)

Tradução de Jaci Maraschin

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