Conheça Karl Jaspers

Karl Jaspers

Filósofo alemão, Karl Jaspers nasceu no dia 23 de fevereiro de 1883, em Oldemburgo, e morreu em 1969, em Basileia, Suíça.
Quando terminou os seus estudos no secundário, Jaspers foi encaminhado pelo pai para estudar Direito, que ele acabou por abandonar após três semestres, escolhendo estudar Medicina. Formou-se em Medicina, 1909, pela Universidade de Heildeberg, onde se tornou em assistente voluntário na clínica psiquiátrica que fazia parte da mesma universidade.
Dedicou-se à psiquiatria e percorreu um caminho profissional da psiquiatria à metafísica. A sua formação intelectual foi simultaneamente científica e filosófica. Fez o seu doutoramento em 1909 e, em 1921, era professor pleno de Filosofia em Heildeberg. Por razões políticas, com o regime nacional-socialista, foi expulso e perdeu a sua cátedra em 1937, mas voltou a ensinar na mesma universidade em 1945.
Figura entre os primeiros pensadores contemporâneos que se apresentaram em público com trabalhos de orientação existencialista.
Foi influenciado pelas ideias de Kant nas suas questões fundamentais, tais como: “o que é a ciência?”, “o que é a verdade?”, “o que é o homem?”, que vão ser base para a sua própria filosofia. Outra influência foi a de Kierkegaard, que o despertou para a Filosofia com um pensar consciente, metódico, fundado em si mesmo.
Os seus pensamentos e a sua investigação filosófica prendem-se com três conceitos fundamentais: a orientação no mundo, o esclarecimento da existência e a metafísica.
O seu conceito “ser-em-situação” fundamenta-se na realidade empírica que se impõe a todos, ou seja, o dado puro e simples que se refere a qualquer realidade humana ou mundana, quer física ou psíquica, onde o transcender a situação é a verdadeira existência, a verdadeira existência ainda não é, mas pode vir a ser. O “ser-em-situação” é o ponto de apoio da existência, o problema do ser está indissoluvelmente ligado ao da verdade. Esta existência tem a sua realização na solidão do indivíduo pois, para Jaspers, o agrupamento de indivíduos é denominado “ser-sem-existência”.
Apesar da própria existência, na sua tentativa de autossatisfação, não conseguir preencher o vazio da separação de Deus, o encontro com a essência é que atenderá as exigências do ser limitado. Jesus Cristo é a essência, como parte da Trindade que se faz homem, portanto Ele representa a única possibilidade de satisfação na existência. Mas a existência de Cristo é uma opção de fé.
As suas obras consideradas mais importantes são: Filosofia (1932), em três volumes, sendo o primeiro Orientação Filosófica do Mundo, o segundo Esclarecimentos da Existência, e o terceiro Metafísica; Razão e Existência (1935); Filosofia da Existência (1938); A Fé Filosófica (1948); e Introdução à Filosofia (1950).

JASPERS dedicou-se com vivo ardor à Psiquiatria, matéria que foi decisiva na formação de seu Ideário e particularmente no tocante à questão da validade dos “Saberes Particulares” como instrumentos eficazes para a elucidação da Existência. Porém, insatisfeito com o tratamento dispensado aos pacientes mentais, JASPERS reuniu suas opiniões sobre o tema no livro “Psicopatologia Geral” (de 1913, de que se tornou uma referência no diagnostico das enfermidades psiquiátricas) e se afastou da lida clinica, passando a dedicar suas atenções à Filosofia.
Privilegiado por ter nascido em berço abastado e graças aos seus esforços, JASPERS pôde ter formação eficiente nas áreas Cientifica e Filosófica e foi assim que em 1909 já recebia seu titulo de Doutor e em 1921 a Licença e o Título de Professor Pleno em Filosofia em Heildeberg, quando teve entre seus alunos, a célebre Hannan Arendt.
Contudo, apesar de seu indiscutível talento e senso profissional, JASPERS perdeu sua cátedra em 1937 por obra do Partido Nazista que não lhe perdoou o fato de ser judeu. Mas em 1945, tão logo findou o conflito, a cadeira lhe foi devolvida com as honras devidas. Daí em diante, seu Pensamento pôde florescer até torná-lo uma das vozes mais respeitadas de seu tempo. E ainda hoje, JASPERS é considerado um dos Filósofos Existencialistas mais importantes, motivo pelo qual o seu Pensamento influenciou inúmeros seguidores, dentre os quais alguns da importância de GADAMER.
Normalmente são citados como suas “Obras-Chaves” os seguintes textos:

1. Filosofia, em três volumes,

1.1 – Orientação Filosófica do Mundo.
1.2 – Explicação da Existência, Metafísica, Razão e Existência.
1.3 – A Fé Filosófica.

Perpassando esses e seus outros escritos, o Pensamento do Filósofo tem por base à afirmativa de que a “Filosofia é uma luta pessoal”.
É uma tese singular e que difere daquela que era (e ainda é) comumente afirmada por vários outros Pensadores que julgavam ser a Disciplina apenas uma ferramenta, um meio, para se desvendar “Verdades Objetivas (ou seja, gerais. Válidas para todos os indivíduos, sem considerar o ponto de vista individual, pessoal.)”.
Bem ao contrário, como se vê, do Pensamento de JASPERS, já que para ele toda elucidação de uma questão só é atinente ao indivíduo que a alcançou. É a recompensa obtida pela “luta pessoal”. Pela pesquisa, pela reflexão, pelo trabalho intelectual que o Sujeito despendeu para chegar à “sua” Verdade.
Vigorosamente influenciado por Kierkegaard e Nietzsche, quanto à importância absoluta da subjetividade, (ou da individualidade), JASPERS escreveu em seu célebre Ensaio “Sobre a minha Filosofia”, de 1914, que a Filosofia é, de fato, uma questão de tentativas próprias, ou pessoais, para se compreender a “Verdade”. E já que a reflexão filosófica é “uma batalha pessoal” não há como negar que “apenas como Indivíduo, o Homem pode filosofar”. Não se pode, portanto, depender de outrem para atingir a “Verdade”, pois a mesma é essencialmente relativa. Aquilo que é verdadeiro para fulano, deixa de ser beltrano. É preciso que o Indivíduo descubra “a sua Verdade” através de seu esforço próprio.

NOTA – É proverbial a coerência que caracterizava a vida e o Pensamento de JASPERS. Ser “Existencialista” era-lhe um estilo de Ser, de Existir e por isso ele aplicou os cânones dessa Corrente Filosófica em sua máxima extensão possível tanto no aspecto prático, quanto filosófico da vida. Dessa coerência é que resultaram algumas atitudes que foram mal vistas por alguns, como, por exemplo, sua relutância em compartilhar as ideias que eram hegemônicas em sua época; e absorver as teorias que radicalizavam a Doutrina Existencialista (como, por exemplo, a negação pura e simples de qualquer Metafísica). Contudo, o passar do tempo, mostrou que a razão estava ao seu lado.

Normalmente o Ideário de JASPERS é dividido em três partes, ou em três momentos de sua trajetória:

1. Orientação no Mundo
2. Esclarecimento da Existência
3. Metafísica.

Nessa divisão, o estudante de JASPERS notará que a ortodoxia do Existencialismo sofre alguns arranhões, pois como já se disse, o Filósofo admite a Metafísica e alguns elementos religiosos. Contudo, o cerne do Sistema encontra-se preservado, como se observará logo a seguir nos comentários relativos à Existência e à Essência.
Para JASPERS, a Existência é absolutamente associada com o Pensamento (com o ato de Pensar). Dessa ligação resulta a condição do “Ser em Situação”, onde o transcender a Situação (objetiva, momentânea, material), que só é possível através do Pensar (do Imaginar, do Refletir), é a Verdadeira Existência. O fato da Mente Humana ser sempre impulsionada para além dos limites da Matéria é a afirmação de que intuímos uma “Essência e uma Existência em Paralelo (e não precedente)” à Existência concreta.
A questão da Dualidade (ie, a “existência e a essência”; “o corpo e o espírito” etc.), é um dos célebres (pseudos) paradoxos atribuídos a JASPERS. Todavia, ele rejeitava que a sua concepção fosse dualista quando ele tratou do tema referente à Situação Espiritual no Mundo Atual. Para ele, o Homem é Espírito (não se pode, segundo ele, dar ao corpo físico o mesmo status que à alma; logo, Não haveria dualidade, pois alma e corpo são uma coisa só) e a situação do “Homem Autêntico*” não pode ser outra que não seja a sua Situação Espiritual.

*Homem Autêntico – Conforme o estabelecido pelo Existencialismo Tradicional é o indivíduo que NÃO se esconde atrás das obrigações e fatos do cotidiano, para se esquecer de sua contingência, limitação e finitude.

Sendo assim, sua tese em nada contraria o Existencialismo. Ademais, na verdade, o que o Filósofo propõe é que o Indivíduo se afaste da “massa anônima (produto do Materialismo Existencialista)” e dos “Pensamentos e Comportamento Mecânicos, vazios”, que lhes são impostos por essa mesma “massa”. Que o Homem se volte para seu íntimo, para seu “lado espiritual”, pessoal, individual, subjetivo, pois – vale rememorar – apenas como Indivíduo ele será capaz de Filosofar e encontrar a “sua Verdade”.
Outro ponto a ser citado na Filosofia é JASPERS é referente à menção que ele faz sobre a divindade, sobre Deus, que julga ser um enigma tipicamente oriundo da racionalidade.
Quando fala sobre a “Fé Filosófica”, afirma que essa Fé é uma característica apenas do Homem que pensa, raciocina, pois é através dessa capacidade que se forma a base para um “Conhecimento Ilimitado, Transcendente”. Conhecimento, porém, que ao se avantajar, desliga-se progressivamente dos liames estreitos da Racionalidade, haja vista que a Transcendência, em sua totalidade, não pode ser entendida pelo indivíduo.

As aparentes contradições no Pensamento de JASPERS sinalizam muito mais a multiplicidade das facetas de seu Ideário e essa profusão aparece para alguns de seus críticos como pura incoerência, ou até mesmo indefinição sobre temas que exigiriam uma postura definida. Para outros, entretanto, indicam apenas a dificuldade existente no Sistema do sábio.
No primeiro caso a critica não nos parece justa, pois a profusão de opções é típica da superioridade do seu Pensamento, cuja extraordinária capacidade permite oferecer essas visões alternativas. Em relação à suposta dificuldade para se entender JASPERS é preciso concordar que ela existe, porém o grau da mesma pode ser reduzido a partir de um estudo cuidadoso de suas proposições e da postura de se manter o espírito aberto para ver os Sistemas instituídos com novos olhos. Para entender que as suas proposições se caracterizam por ver a Filosofia como um “Pensar”, um “Refletir” metódico, consciente, baseado no próprio Pensante. Um giro constante em torno da Existência e da Transcendência.
Será sempre necessário um trabalho mental minucioso, mas que certamente recompensará seu executante com a profundidade das idéias reveladas.

Orientar Filosoficamente a Vida

A ânsia de uma orientação filosófica da vida nasce da obscuridade em que cada um se encontra, do desamparo que sente quando, em carência de amor, fica o vazio, do esquecimento de si quando, devorado pelo afadigamento, súbito acorda assustado e pergunta: que sou eu, que estou descurando, que deverei fazer?
O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica. Pautado pelo cronômetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituível de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distração das horas de ócio.

Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irrefletidas trivialidades e rotinas fixas.
Filosofar é decidirmo-nos a despertar em nós a origem, é reencontrarmo-nos e agir, ajudando-nos a nós próprios com todas as forças.
Na verdade a existência é o que palpavelmente está em primeiro lugar: as tarefas materiais que nos submetem às exigências do dia-a-dia. Não se satisfazer com elas, porém, e entender essa diluição nos fins como via para o auto-esquecimento, e, portanto, como negligência e culpa, eis o anelo de uma vida filosoficamente orientada. E, além disso, tomar a sério a experiência do convívio com os homens: a alegria e a ofensa, o êxito e o revés, a obscuridade e a confusão. Orientar filosoficamente a vida não é esquecer, é assimilar, não é desviar-se, é recriar intimamente, não é julgar tudo resolvido, é clarificar.
São dois os seus caminhos: a meditação solitária por todos os meios de consciencialização e a comunicação com o semelhante por todos os meios da recíproca compreensão, no convívio da ação, do colóquio ou do silêncio.

Karl Jaspers, in ‘Iniciação Filosófica’

Soren Kierkegaard
Filósofo religioso e crítico do racionalismo, é considerado o fundador do existencialismo, que se assumiu como uma das mais profundas e renovadoras correntes filosóficas do século XX. Dinamarquês, nasceu em Copenhaga em 1813 e morreu nesta cidade em 1855. Segundo Kierkegaard, o homem tem que renunciar a si mesmo para superar as limitações que a realidade lhe impõe e assim aceder ao transcendente, a Deus e à verdadeira individualidade. Neste sentido, realçou o existir concreto de um homem que anseia pela transcendência focando, consequentemente, os sentimentos de angústia e desespero inerentes a tal condição.

 

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