O Desespero da Humanidade: Desespero-fraqueza

Introdução

“Todos nós somos uma síntese com uma finalidade espiritual…”

Kierkegaard

Kierkegaard[1] escreveu em 1849, “Desespero Humano – Doença até a Morte”, um estudo básico, no qual o filósofo procura refletir sobre o significado dos desesperos, e como devemos lidar com tais desesperos de uma maneira saudável para a nossa existência. “A antropologia proposta por Kierkegaard é que: toda existência tem de encarar a tarefa de unificar uma complexidade constitutiva submetida à divisão entre a alma e corpo, convocada a ser ultrapassada pela mediação do espírito”( FARAGO, 2006, p. 21) O autor em tal livro busca definir três dimensões do eu para explorar a condição concreta do eu: 1- o “eu” é uma síntese de opostos polares; 2- o “eu” é auto-relacionável, que se orienta por si próprio; 3- o “eu” é dependente de Deus. Segundo Kierkegaard, o eu não é a relação em si, mas o seu voltar-se sobre si. E ao apresentar o eu como uma relação, desenvolve que “o homem é uma síntese de infinito e finito, de temporal e de eterno, de liberdade e de necessidade, é em suma uma síntese”. (Kierkegaard, p. 195)

Portanto, o eu é devir, e por essa razão somente é o que será, realizando-se, no entanto, concretamente, numa síntese vivida no instante. E existindo na não-existência, dessa forma, não sendo ainda, o eu é desespero. O desespero está ligado ao caráter provisório da existência. Por isso, não há como não ser desesperado, ou seja, como existir fora dele.

Para Kierkegaard, o desespero é algo universal. E todos os homens, mesmo não tendo consciência do desespero o vivenciam. Segundo ele, o desespero põe a tona a miséria e a grandeza do homem. Kierkegaard analisa o desespero seguindo um duplo esquema: onde o primeiro esquema seria considerar o desespero a partir dos fatores que constituem a síntese que é o indivíduo: finitude e infinitude. O segundo esquema seria considerar o desespero sob o aspecto de subconsciência-consciência, ou seja, o não querer ser si – próprio (fraqueza e desafio).

O Desespero

O desespero, segundo Kierkegaard, é motivado pelo desejo de não ser si – próprio, pelo desejo de ser si – próprio e pelo fato de não ser consciente de ter um “eu”. O desespero se define pelo desequilibro da dialética/síntese (finito e infinito), podendo o eu desesperar de si ou de algo, apercebendo-se ou não disso; O desespero é a doença mortal que a torna incapaz de realizar-se a si mesma, é a doença da própria personalidade humana, tomada como mortal por trazer ao seu existir o morrer a cada instante. Segundo Kierkegaard, ela é apenas universal, e também inexorável e se caracteriza como vantagem do ser humano que se avança pela fé, pelo contato com Deus. Assim: “O desespero é a discordância interna de uma síntese cuja relação se refere a si mesma. Todavia, a síntese não é a discordância, é apenas a sua possibilidade, ou então implica-a.” (Kierkegaard, 2007 [1849] p.21).

O desespero não é algo posterior ou relacionado a um objeto, estar relacionado com algo a ser, desesperos particulares, o desespero de si próprio. Consiste numa doença mortal, é a síntese entre o finito e o infinito. E o desespero considerado sobre essa dupla categoria de finito e de infinito está relacionado ao desespero da infinidade ou carência de finito e o desespero do finito ou carência de infinito. Já o desespero visto sob a dupla categoria do possível e da necessidade, relaciona-se ao desespero do possível ou a carência de necessidade e ao desespero na necessidade ou a carência do possível. Kierkegaard acrescenta que a inquietação é o verdadeiro comportamento para com a vida, para com a nossa realidade pessoal.

Desespero-fraqueza

Em seu livro III. Cap. 2b. p. 227- 236, Kierkegaard nos dá uma noção de desespero-fraqueza e para ele, a fraqueza é a ausência de uma consciência infinita,relacionada ao desespero de uma coisa temporal. O desespero-fraqueza é uma manifestação do desespero que é caracterizado pelo não querer ser si mesmo devido a algum fator em sua existência, a partir de algo externo, quantitativo e material (questões do espontâneo e do imediato, que tem relação com quantidade, ciência, comércio e Estado). O eu que se desespera na fraqueza, será sempre passivo. ” O que dizes da fraqueza está certo, mas não é dela que deves desesperar; devemos despedaçar o eu para nos tornarmos nós próprios, deixa-te pois de desesperar dela.” (Kierkegaard, p. 230)

Dividindo-se no desespero quanto ao temporal ou de uma coisa temporal e quanto ao eterno ou de si mesmo.

Desespero temporal ou duma coisa temporal

O desesperar do temporal ou duma coisa temporal, que equivale a desesperar-se do finito, vem a ser o mesmo que, desesperar-se de si mesmo e do eterno. Nesse caso, desesperar-se de si próprio e do eterno é a fórmula do desespero. Kierkegaard afirma que:

” Não se encontra consciência infinita do eu, do que seja o desespero, nem da natureza desesperada do estado em que nos encontramos; neste caso desesperar é apenas sofrer; suportar-se passivamente uma opressão que vem de fora, e de modo nenhum o desespero vem de dentro como se fosse uma ação. É, em suma, por um abuso inocente de linguagem, um jogo de palavras, que na linguagem da espontaneidade se empregam palavras como: o eu, o desespero.” (Kierkegaard, p. 221)

Este desesperado que Kierkegaard descreve, não suspeita do desespero que se passa por trás dele, e julga-se desesperar-se de uma coisa temporal, mas de fato o seu desespero diz respeito à eternidade. E ele se desespera à eternidade, justamente por dar valor às coisas temporais. O desespero do temporal é caracterizado pelo chamado sujeito espontâneo, contingente ao meio externo, puro, imediato, no qual não se constata consciência da infinitude do eu nem do que é o desespero, no qual desesperar se manifesta como pura e simplesmente sofrer, suportar passivamente uma opressão que vem de fora e, pela ausência de reflexão sobre a origem e a conformação de seu estado, não quer ser a si próprio, podendo mesmo, em sua mais abjeta forma, desejar ser outrem. Quando um mínimo de autoconsciência se alia ao sujeito espontâneo chega-se ao mais vulgar, mais freqüente dos desesperos, que não necessariamente advém de um choque com o meio, mas possivelmente da reflexão sobre si mesmo. Entretanto, na assunção desse eu que timidamente se expressa há a percepção da íntima diferença com o mundo exterior, a ruptura do eu e do imediato, e essa discrepância o faz recuar amedrontado. Assim, desespera e o faz passivamente, sem buscar sua autêntica potencialidade.

O homem aqui desespera da sua fraqueza. Ele condensa-se numa nova consciência que é a consciência da sua fraqueza. O homem vê que dar valor ao temporal/ao finito é uma fraqueza, é desesperar-se. E em vez do desesperado escolher ou optar pela possibilidade de voltar-se para Deus, para assim transformar o seu desespero em fé, ele mergulha no desespero, e se desespera desta sua fraqueza. E consciente do seu desespero, sabe que dar valor ao temporal, equivale a perda da eternidade e a perda do seu eu.Há nesse caso, o crescimento na consciência do eu, pois é impossível desesperar-se do eterno sem a consciência do eu, sem a idéia de que há ou houve nele eternidade. E para desesperar-se de si, também é necessário a consciência de ter um eu; e é disso que o homem se desespera: de si próprio, e não do temporal. Há aqui uma maior consciência do que seja o desespero, que é a perda da eternidade e de si próprio.

Quando o homem perde o temporal ou uma coisa temporal, o desespero parece vir de fora, mas vem sempre do eu. E quando o desespero surge ou vem do eu, trata-se de um desespero-desafio. A partir disto, vemos um progresso no qual o seu próprio crescimento de intensidade aproxima este desespero da salvação; e ele salvaguarda a cada instante uma probabilidade de salvação.

Assim como um pai deserda o seu filho, o eu recusa reconhecer-se após tanta fraqueza. No seu desespero, o homem não quer ouvir falar mais de si, nada mais quer saber de si. Esse desespero, segundo Kierkegaard, possui um grau profundo e encontra menos freqüente no mundo. O eu ocupa-se e ilude o tempo a recusar ser ele próprio. É o que se chama de hermetismo[2].

Segundo Kierkegaard, ninguém está iniciado nesses segredos do seu eu. Qualquer eu, por pouco esclarecido que seja, tem a idéia de se dominar. E o desesperado tem o hermetismo suficiente, ou seja, o desconhecimento de si próprio, para se distanciar dos segredos do seu eu, sem perder o aspecto de “um vivo” (de um homem, de um mortal).

Considerações Finais

Observamos então, a busca incansável de Kierkegaard, em nos esclarecer a noção de desespero que se encontra intrinsecamente ligada à questão da própria existência humana. Existindo, pois em todo ser humano, características do desespero, estando o ser consciente ou não de seu desespero e que por sua vez é essencial para a aproximação com Deus.

É a síntese entre finito – o eu – e infinito – Deus.

“Deus habita em uma luz de onde emana cada raio que ilumina o mundo (…).”

Kierkegaard

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