A PAIDÉIA

 

Paideia (FO 1943: Paidéia), segundo Werner Jaeger, era o “processo de educação em sua forma verdadeira, a forma natural e genuinamente humana” na Grécia antiga.

 

História

 

Inicialmente, a palavra paideia (de paidos – criança) significava simplesmente “criação de meninos”. Mas, como veremos, este significado inicial da palavra está muito longe do elevado sentido que mais tarde adquiriu.

 

O termo também significa a própria cultura construída a partir da educação. Era o ideal que os gregos cultivavam do mundo, para si e para sua juventude. Uma vez que o governo próprio era muito valorizado pelos gregos, a Paideia combinava ethos (hábitos) que o fizessem ser digno e bom tanto como governado quanto como governante. O objetivo não era ensinar ofícios, mas sim treinar a liberdade e nobreza. Paideia também pode ser encarada como o legado deixado de uma geração para outra na sociedade.

 

Um pedagogo – um escravo, na época – conduzia o jovem, com sua lanterna ilumina(dor(a)), até aos centros ou assembléias, onde ocorriam as discussões que envolviam pensamentos críticos, criativos, resgates de cultura, valorização da experiência dos anciãos etc.

 

Supõe-se que, no processo sócio-histórico, esse mesmo pedagogo libertou-se, talvez de tanto dialogar nos acompanhamentos do jovem até as assembleias, tornando-se um personagem da paideia, e seu consuma(dor).

 

Mas, se até então o objetivo fundamental da educação era a formação aristocrática do homem individual como Kalos agathos (“Belo e Bom”), a partir do século V a.C., exige-se algo mais da educação. Para além de formar o homem, a educação deve ainda formar o cidadão. A antiga educação, baseada na ginástica, na música e na gramática deixa de ser suficiente.

 

É então que o ideal educativo grego aparece como paideia, formação geral que tem por tarefa construir o homem como homem e como cidadão. Platão define paideia da seguinte forma “(…) a essência de toda a verdadeira educação ou paideia é a que dá ao homem o desejo e a ânsia de se tornar um cidadão perfeito e o ensina a mandar e a obedecer, tendo a justiça como fundamento” (cit. in Jaeger, 1995: 147)

 

Do significado original da palavra paideia como criação de meninos, o conceito alarga-se para, no século IV a.C., adquirir a forma cristalizada e definitiva com que foi consagrado como ideal educativo da Grécia clássica.

 

Como diz Jaeger (1995), os gregos deram o nome de paideia a “todas as formas e criações espirituais e ao tesouro completo da sua tradição, tal como nós o designamos por Bildung ou pela palavra latina, cultura.” Daí que, para traduzir o termo paideia “não se possa evitar o emprego de expressões modernas como civilização, tradição, literatura, ou educação; nenhuma delas coincidindo, porém, com o que os gregos entendiam por paideia. Cada um daqueles termos se limita a exprimir um aspecto daquele conceito global. Para abranger o campo total do conceito grego, teríamos de empregá-los todos de uma só vez.” (Jaeger, 1995: 1).

 

Na sua abrangência, o conceito de paideia não designa unicamente a técnica própria para, desde cedo, preparar a criança para a vida adulta. A ampliação do conceito fez com que ele passasse também a designar o resultado do processo educativo que se prolonga por toda vida, muito para além dos anos escolares.

 

A paideia, vem por isso a significar “cultura entendida no sentido perfectivo que a palavra tem hoje entre nós: o estado de um espírito plenamente desenvolvido, tendo desabrochado todas as suas virtualidades, o do homem tornado verdadeiramente homem” (Marrou, 1966: 158).

 

Pandeia na Antiguidade

 

É na Grécia que começa a “História da Educação” com sentido na nossa realidade educativa atual. De fato, são os Gregos quem, pela primeira vez, coloca a educação como problema. Já na literatura grega se vêm sinais de questionamento do conceito, seja na poesia, seja na tragédia ou na comédia. Mas é no século V a. C., com os Sofistas e depois com Sócrates, Platão, Isócrates e Aristóteles que o conceito de educação alcança o estatuto de uma questão filosófica.

 

É claro que os ideais educativos da paideia que vão ser desenvolvidos no século V a. C. se baseiam em práticas educativas muito anteriores. Como sublinha Werner Jaeger, grande estudioso da cultura grega, num célebre estudo justamente intitulado Paideia

 

“Não se pode utilizar a história da palavra paideia como fio condutor para estudar a origem da educação grega, porque esta palavra só aparece no século V” (Jaeger, 1995: 25).

 

Inicialmente, a palavra paideia (p a i d e i a), (de paidos – p a i d o s – criança) significava simplesmente “criação dos meninos”. Mas, como veremos, este significado inicial da palavra está muito longe do elevado sentido que mais tarde adquiriu.

 

Kaloskagathia

 

O alargamento do ideal educativo de arete surgiu nos fins da época arcaica, exprimindo-se então pela palavra kaloskagathia (kaloskagathia).

 

Mais que honra e glória, pretende-se então alcançar a excelência física e moral. Os atributos que o homem deve  procurar realizar são a beleza (kalos – kalos) e a bondade (kagatos – kagatos).

 

Para alcançar este ideal é proposto um programa educativo que implica dois elementos fundamentais: a ginástica para o desenvolvimento do corpo, e a música (aliada à leitura e ao canto) para o desenvolvimento da alma. No fim da época arcaica, este programa educativo completava-se com a gramática.

 

Paideia

 

Mas, se até então o objetivo fundamental da educação era a formação do homem individual como kaloskagathos, a partir do século V a. C., exige-se algo mais da educação. Para além de formar o homem, a educação deve ainda formar o cidadão. A antiga educação, baseada na ginástica, na música e na gramática deixa de ser suficiente.

 

É então que o ideal educativo grego aparece como Paideia, formação geral que tem por tarefa construir o homem como homem e como cidadão. Platão define Paideia da seguinte forma “(…) a essência de toda a verdadeira educação ou Paideia é a que dá ao homem o desejo e a ânsia de se tornar um cidadão perfeito e o ensina a mandar e a obedecer, tendo a justiça como fundamento” (cit. in Jaeger, 1995: 147).

 

Do significado original da palavra paideia como criação dos meninos, o conceito alarga-se para, no século IV. a.C., adquirir a forma cristalizada e definitiva com que foi consagrado como ideal educativo da Grécia clássica.

 

Como diz Jaeger (1995), os gregos deram o nome de paidéia a “todas as formas e criações espirituais e ao tesouro completo da sua tradição, tal como nós o designamos por Bildung ou pela palavra latina, cultura.” Daí que, para traduzir o termo Paideia “não se possa evitar o emprego de expressões modernas como civilização, tradição, literatura, ou educação; nenhuma delas coincidindo, porém, com o que os Gregos entendiam por Paideia. Cada um daqueles termos se limita a exprimir um aspecto daquele conceito global. Para abranger o campo total do conceito grego, teríamos de empregá-los todos de uma só vez.” (Jaeger, 1995: 1).

 

Na sua abrangência, o conceito de paideia não designa unicamente a técnica própria para, desde cedo, preparar a criança para a vida adulta.  A ampliação do conceito fez com que ele passasse também a designar o resultado do processo educativo que se prolonga por toda vida, muito para além dos anos escolares. A Paideia, vem por isso a significar “cultura entendida no sentido perfectivo que a palavra tem hoje entre nós: o estado de um espírito plenamente desenvolvido, tendo desabrochado todas as suas virtualidades, o do homem tornado verdadeiramente homem” (Marrou, 1966: 158).

 

A educação antiga

 

A educação antiga não era um sistema desenvolvido nem rigidamente definido.

 

Em geral, até aos sete anos, as crianças eram educadas no gineceu, na companhia da mãe e das outras mulheres da casa. Depois dessa idade, as raparigas continuavam em casa, onde aprendiam os trabalhos domésticos e música.

 

Para os rapazes, entre os 7 e os 14 anos, embora não houvesse um programa obrigatório, o ideal era que fossem ocupadas na prática da Ginástica (gymnastiké) e da Música (mousiké).

 

Para além dos professores de ginástica ou paidotribés (paidotribes) e dos de música ou kitharistés (kitharistes), no final do século V a.C. surge a figura dos grammatistés (grammatistes) para ensinar as crianças a escrever e a ler.

 

Todos estes professores eram contratados diretamente pela família o que faz com que a educação que cada criança recebia dependesse directamente da vontade e da capacidade financeira da família.

 

Programa de estudos

 

Nas palestras, os rapazes aprendiam a ler, a escrever, a contar e a recitar de cor os poemas antigos (principalmente Homero e Hesíodo), cuja tradição heróica encerrava um elevado conteúdo moral.

 

Estudavam música, aprendendo a tocar pelo menos a lira e iniciavam-se nos exercícios atléticos. Os mais ricos tinham um escravo ao seu serviço – pedagogo – que os acompanhava e, certamente, os ajudava ou mesmo obrigava a repetir as lições.

 

Aproximadamente com 16 anos de idade, os rapazes ficavam livres dos cuidados do pedagogo e interrompiam os estudos literários e musicais.

 

A educação da palestra era então substituída pela do ginásio. Aí continuavam a cultivar a  harmonia do corpo e do espírito. Diariamente, depois da educação física,  passeavam nos jardins do ginásio, dialogando com os mais velhos e com eles aprendendo a sabedoria e a arte de discutir as idéias.

 

Depois dos 20 anos, o jovem tinha dois anos de preparação militar, finda a qual se tornava cidadão.

 

O dia de uma criança grega

 

Mal o dia surgia, o rapaz acordava e o pedagogo que, com a sua lanterna, o ajudava a lavar-se e a vestir-se;

 

Após a refeição da manhã, o pedagogo acompanhava o rapaz à palestra onde ia aprender música e ginástica;

 

Depois de um banho, o rapaz regressava a casa para almoçar;

 

À tarde regressava novamente à palestra para ter agora lições de leitura e escrita;

 

De regresso a casa, e sempre acompanhado pelo pedagogo, o rapaz estudava as suas lições, fazia os trabalhos de casa, jantava e ia deitar-se.

 

Não existiam fins de semana nem férias, exceto os freqüentes dias de festivais religiosos ou cívicos, que constituíam bons dias de descanso para os jovens gregos (cf. Castle, 1962: 65).

 

Educação moral

 

“Um dos principais fins da educação consiste em formar o coração da criança. Enquanto ela se faz, os pais, o preceptor, os parentes, os mestres fatigam-na com máximas habituais, cuja impressão tais educadores enfraquecem pelos próprios exemplos. Por vezes, as ameaças e os castigos afastam a criança das verdades que ela devia amar.” (Barthélemy, s/d: 36).

 

De fato, a educação moral do jovem grego resultava do contacto decreto da criança com o pedagogo, do jovem com o ancião, do menino com o adulto. Todos os mestres se uniam para dar à criança exemplo de dignidade de gestos e de maneiras, de polidez e elegância na conduta, de respeito pelas leis da cidade e pelos mais velhos. Eles ofereciam-se como modelo vivos dos quais as crianças se deviam aproximar através da imitação consciente e inconsciente, favorecida pela convivência constante.

 

Mesmo a ginástica e a música tinham fins morais

 

A ginástica visava o domínio de si e a sujeição geral das paixões à razão. O objetivo era desenvolver qualidades como a paciência, a tolerância, a força, a coragem, a lealdade, a devoção e a consideração dos direitos dos outros.

 

“Eles (os mestres de música) familiarizam as almas dos meninos com o ritmo e a harmonia, de modo a poderem crescer em gentileza, em graça e em harmonia, e a tornarem-se úteis em palavras e ações; porque a vida inteira do homem precisa de graça e de harmonia.” (Platão, cit. in Monroe, 1979: 49).

 

Paideia na atualidade

 

Mortimer Adler – um filósofo norte-americano – tenta, com sua produção científica, resgatar a paideia hoje, na nossa contemporaneidade. Ele destaca a importância de ler, estudar e apreender as idéias dos grandes pensadores, e a vida toda, lutou por isso.

 

 

 

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