Pragmatismo

Definição:

Esse termo foi introduzido na filosofia em 1898, por um relatório de W. James a Califórnia Union, em que ele se referia à doutrina exposta por Peirce num ensaio do ano 1878, intitulado “Como tornar claras as nossas ideias”. Alguns anos mais tarde, Peirce declarava ter inventado o nome pragmatismo para a teoria segundo a qual “uma concepção, ou seja, o significado racional de uma palavra ou de outra expressão, consiste exclusivamente em seu alcance concebível sobre a conduta da vida”; dizia também que preferira esse nome a praticismo ou praticalismo porque, para quem conhece o sentido atribuído a “prático” pela filosofia kantiana, estes últimos termos fazem referência ao mundo moral, onde não há lugar para a experimentação, enquanto a doutrina proposta é justamente uma doutrina experimentalista. Todavia, no mesmo artigo, Peirce declarava que, em face da extensão do significado de que o pragmatismo fora alvo por obra de W. James e de F. C. S. Schiller, preferia o termo pragmaticismo, para indicar sua própria concepção, estritamente metodológica, do pragmatismo (“What Pragmatism Is”, TheMonist, 1905; Coll. Pap., 5,411-37). Desta maneira, Peirce acabava distinguindo duas versões fundamentais de pragmatismo, que podem ser assim caracterizadas: 1) um pragmatismo metodológico, que é substancialmente uma teoria do significado; 2) um pragmatismo metafísico, que é uma teoria da verdade e da realidade.

1) O pragmatismo metodológico não pretende definir a verdade ou a realidade, mas apenas um procedimento para determinar o significado dos termos, ou melhor, das proposições. Peirce dizia no artigo do ano de 1878, geralmente considerado data de nascimento do pragmatismo: “É impossível ter em mente uma ideia que se refira a outra coisa que não os efeitos sensíveis das coisas. Nossa ideia de um objeto é a ideia de seus efeitos sensíveis. (…) Assim, a regra para atingir o último grau de clareza na apreensão das ideias é a seguinte: Considerar quais são os efeitos que concebivelmente terão o alcance prático que atribuímos ao objeto da nossa compreensão. A concepção destes efeitos é a nossa concepção do objeto” (Chance, Love and Logic, I, 2, § 1; trad. it., p. 39). O princípio dessa regra metodológica é que “a função do pensamento é produzir hábitos de ação”, crenças. A regra proposta por Peirce era, portanto, sugerida pela exigência de achar um procedimento experimental ou científico para fixar as crenças, entendendo por científico ou experimental o procedimento que não recorre ao método da autoridade nem ao método apriori (Ibid., I, 1, § 2, pp. 9 ss.). Pode-se dizer que pertence ao mesmo tipo o pragmatismo de Dewey, que, para evitar qualquer equívoco, preferiu o termo instrumentalismo . “A essência do instrumenta-lismo pragmático” — escreveu ele — “é conceber o conhecimento e a prática como meios para tornar seguros, na experiência, os bens, que são as coisas excelentes de qualquer espécie” (The Quest for Certainty, 1929, p. 37). Deste ponto de vista, Dewey compartilhava o experimentalismo de Peirce, porque para ele “a experimentação faz parte da determinação de qualquer proposição justificada” (Logic, 1939, p. 461), ao mesmo tempo em que evidenciava o caráter instrumental e operacional de todos os procedimentos do conhecer, considerados como meios para passar de uma situação indeterminada para uma situação determinada, ou seja, ao mesmo tempo distinta e unificada (Logic, cap. VI). É, portanto, bastante óbvio o parentesco desse tipo de pragmatismo com a metodologia científica contemporânea, em particular com o operacionismo , por um lado, e com as teses fundamentais da lógica simbólica, por outro. Os pragmatistas italianos Giovanni Vailati e Mário Calderoni ressaltaram este aspecto. O primeiro observava a propósito que o principal ponto de contato entre lógica e pragmatismo “está na tendência comum a ambos de considerar o valor e o próprio significado de uma asserção como algo intimamente vinculado ao emprego que se pode ou se deseja fazer deles na dedução e na construção de determinadas consequências ou grupos de consequências” (“Pragmatismo e lógica matemática”, 1906, em Il método della filosofia, p. 198). Estas palavras definem bem o caráter funcional do pragmatismo de inspiração metodológica.

2) A concepção de pragmatismo metafísico encontra-se em W. James e em F. C. S. Schiller; suas teses fundamentais consistem em reduzir verdade a utilidade, e realidade a espírito. A segunda destas teses foi compartilhada pelo pragmatismo metafísico com boa parte da filosofia contemporânea; o próprio James reconheceu e gabou a concordância substancial de sua filosofia com a dos espiritualistas franceses, especialmente a de Bergson. A primeira tese é característica dessa forma de pragmatismo. Seu pressuposto é o principio que ela tem em comum com o pragmatismo metodológico: a instrumentalidade do conhecer. Mas este pressuposto é entendido e realizado por ela de modo totalmente diferente. Em primeiro lugar, ela procura evidenciar a dependência de todos os aspectos do conhecimento (ou do pensamento) em relação a exigências da ação, portanto em relação às emoções em que tais exigências se concretizem. Também a “racionalidade”, segundo James, é uma espécie de sentimento (“O sentimento da racionalidade” em The Will to Believe, 1897). Deste ponto de vista, as ações e os desejos humanos condicionam a verdade: qualquer tipo de verdade, inclusive a científica. Portanto não é legítimo, deste ponto de vista, recusar-se crer em doutrinas que tenham condições de exercer ação benéfica na vida do homem só porque elas não são apoiadas por provas racionais suficientes. Em casos como estes, afirmava James, é preciso correr o risco de acreditar. E F. C. S. Schiller levava esta doutrina às suas consequências extremas, ressuscitando palavras de Protágoras, “o homem é a medida de todas as coisas”, e afirmando a relatividade do conhecimento em relação à utilidade pessoal e social (Humanism, 1903). Enquanto Schiller se limitava a este relativismo, James abria caminho, através dele, ao teísmo e às doutrinas espiritualistas tradicionais, com a alegação de que elas são úteis à ação e benéficas à vida humana. Embora procurasse limitar o dogmatismo dessas doutrinas, insistindo no caráter pluralista do universo (v. pluralismo) e no caráter finito da divindade (v. Deus), O pragmatismo foi para ele essencialmente uma via de acesso à metafísica tradicional. Um dos motivos que James aduzia para justificar o exercício da vontade de crer é que a crença pode produzir sua própria justificação: é o que acontece às vezes nas relações humanas, quando acreditar que alguém é nosso amigo leva-nos a ter comportamento amistoso para com essa pessoa, conquistando a sua amizade. Dificilmente se pode fazer uso teológico ou metafísico dessa proposição; no entanto, ela tornou-se um princípio importante da sociologia contemporânea. Quanto ao resto, enquanto o pragmatismo metodológico teve continuação nos estudos de lógica e de metodologia e em algumas correntes do neo-empirismo, o pragmatismo gnosiológico confluiu para as correntes espiritualistas (cf. H. W. Schneider, A History of American Philosophy, 2a ed., 1957).

A este pragmatismo metafísico vinculam-se as outras manifestações fora do circuito anglo-saxão; em primeiro lugar, vincula-se com a filosofia de Hans Vaihinger, exposta na obra Filosofia do como se (Philosophie des Als Ob, 1911), na qual ele afirma o caráter fictício de todo conhecimento e o caráter biológico da preferência por um conhecimento e não por outro. Vincula-se também ao pragmatismo pluralista de A. Aliotta (A guerra eterna e o drama da existência, 1917), em que está presente a mesma tônica espiritualista do pragmatismo de James (cf. de Aliotta, O sacrifício como significado do mundo, 1947). Finalmente, vincula-se ao fideísmo pragmatista de Miguel de Unamuno, na forma exposta no Comentário ao Dom Quixote (1905) e em Do sentimento trágico da vida (1913), e de José Ortega y Gasset (O tema do nosso tempo, 1923; Sobre Galileu, 1933; História como sistema, 1935, etc), que, porém, especialmente nas últimas obras, revela a influência do existencialismo de Heidegger. [Abbagnano]


O empirismo que tem no valor prático, isto é, no êxito, o critério da verdade. É representado por W. James, J. Dewey, E. Le Roy, Laberthonnière, Papini. Na ciência, só reconhece a verdade de uma lei ou de uma teoria se esta oferece a possibilidade de se tirar dela aplicações práticas. Uma religião é tida por verdadeira quando é moralmente benéfica. O pragmatismo contrapõe-se ao racionalismo, para o qual uma coisa não é verdadeira porque é útil, mas é útil de ensinar porque é verdadeira. Sustentado e divulgado por W. James, o pragmatismo teve sua época de glória no fim do século XIX e no início do século XX. Quase desaparecido da Europa, subsiste ainda hoje em certos círculos filosóficos dos Estados Unidos da América. [Larousse]


O pragmatismo é uma variedade do relativismo, segundo o qual a verdade não se mede pelo objeto, mas por outra norma. Enquanto o psicologismo vê esta norma nas causas psíquicas do processo cognoscitivo, o pragmatismo procura-a no fim que deve ser alcançado pelo conhecimento. Se um conhecimento favorece esse fim, se se revela fecundo para a ação (em grego = pragma, donde o nome de pragmatismo), nesse caso é “verdadeiro”, concorde ou não com a realidade. Segundo o pragmatismo, não há verdade absolutamente válida, pois o que é útil a um pode ser nocivo a outro. No biologismo, o conceito pragmatista de verdade não se refere ao indivíduo, senão ao interesse da espécie. Pragmatista é também o princípio da economia de pensamento, formulado por Mach: uma teoria é verdadeira, quando reduz nossas experiências à fórmula mais simples. O pragmatismo encontrou especial acolhida na Inglaterra (F. S. C. Schiller) e na América do Norte (W. James). — É, sem dúvida, exato que o conhecimento deve servir à vida, e que o conhecimento verdadeiro, ou seja, o que é conforme com a realidade, favorece também, via de regra, as finalidades práticas. Mas daí não se segue, de maneira nenhuma, que o fomento da vida constitua a medida da verdade, porque o que deve valer como estimulante da vida depende da compreensão que o homem adquire de si mesmo, da finalidade de sua existência e dos círculos ou ordens, em que está envolvido; depende, portanto, da verdade. — Santeler. [Brugger]


Dá-se este nome a um movimento filosófico que se desenvolveu sobretudo nos Estados Unidos e na Inglaterra mas que teve ampla repercussão na filosofia contemporânea. O pragmatismo norte-americano surgiu por volta de 1872 no Clube Metafísico. As linhas principais deste movimento foram traçadas por Peirce no seu artigo “Como tornar claras as nossas ideias”, de 1878. Nele defende que “toda a função do pensamento consiste em produzir hábitos de ação” e que “o que uma coisa significa é simplesmente os hábitos que envolve”. Mais concretamente, dizia Peirce, jogando com as palavras:

“concebemos o objeto das nossas concepções considerando os efeitos que se podem conceber como susceptíveis de alcance prático. Assim, pois, a nossa concepção deste efeito equivale ao conjunto da nossa concepção do objeto”. Contudo Peirce propôs depois o nome de pragmaticismo para a sua doutrina para a diferenciar do pragmatismo de William James, que é uma transposição para o campo ético daquilo que primitivamente se tinha pensado num sentido puramente científico e metodológico. Peirce destacou que o seu pragmatismo não é tanto uma doutrina que expressa conceptualmente aquilo que o homem concreto deseja e postula, mas sim uma teoria que permite dar significação às únicas proposições que podem ter sentido.

Pode afirmar-se que predominaram duas tendências no pragmatismo: a primeira afirma que “o significado de uma proposição consiste nas consequências futuras de experiência que (direta ou indiretamente) prediz que vão acontecer, não importando que isso seja ou não crível”; a segunda defende que “o significado de uma proposição consiste nas consequências futuras de a crer. [Ferrater]


A tendência pragmatista prosperou principalmente nos Estados Unidos da América e na Grã-Bretanha, sem todavia se ter limitado a estes países. Por volta do ano 1900, encontrou muitos partidários, especialmente na Alemanha. Manifestou-se nos empiriocriticistas, em Karl Marx e em Lenin, em Georg Simmel e Hans Vaihinger (1852-1933), e, de modo geral, a posição dos positivistas aproxima-se dela. Em França, alguns representantes da “crítica da ciência”, especialmente Abel Rey, têm mais de um ponto comum com o pragmatismo. Em todo caso, todos estes pensadores não defendem somente as ideias pragmatistas, mas também muitas outras doutrinas,

Do ponto de vista da teoria do conhecimento, o pragmatismo consiste essencialmente em negar o conhecimento contemplativo, puramente teórico, e em reduzir o verdadeiro ao útil. Mas estes princípios são defendidos em graus diversos pelos pragmatistas. Enquanto a tendência mais radical professa ser verdadeira toda proposição que conduza a um êxito individual, a mais moderada propugna ser verdadeiro o que pode ser verificado pelos fatos objetivos. Mas a utilidade, o valor, o êxito, são considerados diretamente como o critério único e, em geral, como a essência da verdade. Só variam os matizes desta utilidade
Contudo no pragmatismo anglo-americano não se trata de uma pura teoria do conhecimento. As mais das vezes, ela vai acompanhada de toda uma filosofia da vida, que se assemelha muito à de Bergson. Segundo esta filosofia, nada há de estável na realidade, tudo é fluente, tudo cria livremente, a inteligência é incapaz de captá-la e, todo conhecimento se baseia na experiência. Os pragmatistas anglo-americanos compartilham igualmente, em comum com Bergson, uma certa atitude personalista e humanista. A diferença fundamental entre seus porta-vozes e o filósofo francês está em que, para este, a intuição permanece sendo essencialmente teórica, ao passo que, segundo os pragmatistas, todo conhecimento é, por definição, prático.

O pragmatismo deve sua origem aos mesmos princípios que a filosofia de Bergson; desenvolveu-se paralelamente com ela e desempenhou tarefa análoga na história do espírito. Mas hoje, como tal, está superado na Europa, e só parcialmente continua subsistindo dentro de outras correntes (neopositivismo, existencialismo). Pelo que, só muito rapidamente nos ocupamos dos três grandes pragmatistas, James, Schiller e Dewey. Com exceção de Schiller, são norte-americanos, mas a influência deles sobre o pensamento europeu foi tão considerável que não podemos deixar de nos ocupar deles, pelo menos de maneira sumária. [Bochenski]

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