Discurso Filosófico – A Arte da Argumentação

 

Discurso Argumentativo 

Organização

1. Construção do Discurso

A construção de um discurso argumentativo, susceptível de propiciar alguma adesão por parte do auditório, tem várias fases, cada uma com os seus requisitos. Aristóteles, Cícero, Quintiliano e muitos outros filósofos desde a antiguidade clássica procuraram construir um modelo para esta construção. Quase todos insistiram no fato de que o orador, não se pode limitar a escrever um bom discurso, deve também cuidar de muitos outros aspectos, como a sua postura na hora de o proferir.

Fases Fundamentais (Esquema clássico):

1ª. Parte: Invenção (heurésis). Em função do auditório e do assunto a debater procurava-se escolher o tipo de discurso, argumentos e estrutura argumentativa mais adequado.

2ª. Parte: Disposição (táxis). Organização interna do discurso, dando-se particular atenção à disposição dos argumentos de forma a conduzir o auditório a aceitação de uma dada conclusão.

3ª. Parte: Elocução (léxis). Redação do discurso.

4º. Parte: Ação (hypókrisis). Pronunciação do discurso, onde a atenção é posta na atuação do orador, tom de voz, gestos, postura… de modo a criar uma empatia e receptividade no auditório para as suas teses.

2. A organização do discurso (táxis).

Foi objeto também de recomendações muito precisas. O modelo clássico apresenta três momentos fundamentais:

a) Introdução. Apresentação da tese e sua contextualização. Este momento é decisivo para captar a adesão do auditório. O orador deve partir coisas que não suscitem polêmica, como fotos, verdades, presunções ou até valores, de modo a gerar um primeiro acordo com o auditório, predispondo-o a aceitar as suas conclusões.

b) Argumentação. Apresentação dos argumentos que sustentam a tese. Antecipando possíveis críticas são também apresentados alguns contra-argumentos e feita a sua refutação. A ordem dos argumentos depende muito do auditório. Três alternativas possíveis:

– Ordem crescente. “O Inconveniente da ordem crescente é que,  começando por argumentos fracos, ela indisponha o auditório, tire brilho à imagem do orador, esmoreça  o seu prestígio e a atenção que lhe é dada”, Chain Perelman (Império Retórico)

– Ordem decrescente. ” A ordem decrescente, terminando os discurso com os argumentos mais fracos, deixa ao auditórios uma má impressão, muitas vezes a única coisa que eles se lembram”, Chain Perelman (Império Retórico)

– Ordem mista (nestoriana). Os argumentos mais fortes são colocados no princípio e no fim, sendo os restantes colocados no meio do discurso.

c) Conclusão. Síntese dos resultados atingidos que justificam a tese inicial.

3. Ordem dos Oradores

A organização de um discurso, pode estar dependente do fato do orador ser o primeiro ou o segundo a falar.

No caso de ser o primeiro, o seu discurso deve centrar-se nas suas teses, evitando envolver-se na refutação dos contra-argumentos do adversário. Se o fizer, não apenas chamará a atenção para os mesmos, mas também reforçará a sua lembrança.

No caso de ser o segundo, por exemplo, se vir que o orador que o precedeu impressionou vivamente o auditório, deve começar por rebater as suas teses, de forma a criar espaço para a aceitação das suas idéias.

Elementos fundamentais de um discurso filosófico

Esquemas

Síntese da Matéria

Argumentação . Tipos de Argumentos 

1. A filosofia pode ser definida como uma atividade intelectual que procura analisar, compreender e dar respostas para aos enigmas e problemas com que se debate a humanidade e aos quais a ciência não dá resposta .

Cada filósofo sobre estes problemas formula os seus pontos de vista, produzindo afirmações ( teses, teorias) sustentadas num conjunto de razões (argumentos ) credíveis, isto é, susceptíveis de convencer as pessoas da verdade das suas conclusões.

2. A filosofia é nesta perspectiva também uma atividade argumentativa, envolvendo estratégias de persuasão de um dado auditório (os destinatários dos discursos produzidos).

3. Num discurso filosófico podemos encontrar os seguintes elementos:  Problema/Questão, Tese, Argumentos, Contra-Argumentos, Refutação dos Contra-Argumentos, Conclusão.

Problema: O enigma que se procura encontrar uma resposta.

Exemplo: O que é a realidade ?

Questão: Uma forma particular de formular o problema de modo a que o mesmo possa ser abordado, numa dada perspectiva. A formulação da questão acaba assim por evidenciar alguns aspectos do problema, secundarizando outros. Alguns autores não fazem qualquer distinção entre problema e questão.

Exemplo: A realidade pode reduzir-se apenas ao que vemos ?

Tese: A resposta ou hipótese explicativa sobre um determinado problema. A tese, em certo sentido, coincide com a conclusão.

Teoria. Uma tese apresentada de uma forma coerente e apoiada num conjunto de argumentos convincentes da sua verdade.

Argumentos: Razões que fundamentam a tese e nos conduzem a admitir uma dada conclusão (tese/teoria).

Contra-argumentos: As razões que podem ser apontadas para desmentirem as afirmações apresentadas.

Refutação: As razões que podem ser indicadas para mostrar que os contra-argumentos são inconsistentes para negarem as teses/eorias.

Conclusão: As respostas a que teremos que chegar tendo em conta a validade dos argumentos apresentados, assim como os raciocínios efectuados.

4. Na defesa de uma dada tese, podemos produzir três tipos fundamentais argumentos, de acordo como o modo como raciocinamos.

Argumentos dedutivos : A partir de premissas (afirmações, argumentos) é deduzida uma dada conclusão que se apresenta como necessária e válida. Se as premissas forem verdadeiras e o raciocínio for correcto, então a conclusão será também verdadeira.

Exemplos:

Todos os homens são mortais

Os gregos são homens

Logo, os gregos são mortais

É verdade tudo penso de forma clara e distinta

Penso de forma clara e distinta que a existência pertence à essência de Deus

Logo, é verdade que Deus Existe.

(adaptado de Descartes)

Argumentos indutivos : A partir de conjunto de premissas particulares induzimos uma conclusão mais geral que se apresenta como logicamente possível, provável mas não necessária..

Exemplos:

A Helena pertence a uma Associação de Defesa do Meio Ambiente

A maioria das pessoas que pertencem a tal associação opõe-se à destruição de um jardim no Bairro Alvalade

Logo, Helena vai opor-se à destruição deste jardim no bairro de Alvalade (Lisboa).

“Outrora as mulheres casavam-se muito novas. A Julieta da peça Romeu e Julieta, de Shakespeare, ainda não tinha 14 anos. Na Idade Média, 13 anos era a idade normal de casamento para uma rapariga judia. E durante o Império Romano muitas mulheres casavam aos 13 anos, ou mesmo mais novas”. (A. Weston, A Arte de Argumentar).

Durante séculos inúmeras observações e experiências nunca desmentiram esta afirmação

Nunca se encontrou algo que a sugerisse que a mesma pudesse ser falsa

Logo, temos que concluir que a mesma é uma verdade absoluta.

Argumentos analógicos : Com base em duas ou mais premissas estabelecemos relações de semelhança entre elas, procuramos extrair uma conclusão que se apresenta como logicamente possível,  provável mas não necessária.

Exemplo:

Colhe-se o que se semeia. Se plantarmos amoras, colhemos amoras. Se plantarmos cebolas obtemos cebolas. Do mesmo modo quem semeia a guerra não pode esperar obter paz, justiça e fraternidade  (adpt de W.Salmon).

Processo Comunicativo. Demonstração e Argumentação

1. Argumentar é expor de forma encadeada um conjunto de argumentos (razões) que justificam uma conclusão. Por outras palavras, um argumento é um conjunto de premissas (razões, provas, idéias) apresentadas para sustentar uma tese ou um ponto de vista.

2. Conforme os tipo de argumentos (razões) que nos servimos para justificar uma dada conclusão, podemos estar perante uma demonstração ou uma argumentação. Foi Aristóteles no Organon, quem fez pela primeira vez esta distinção.

No caso da demonstração, os argumentos (premissas) são verdadeiros e a partir deles só podemos deduzir uma conclusão verdadeira.

Exemplo:

Todos os mamíferos têm pulmões

Todas as baleias são mamíferos

Logo, todas as baleias têm pulmões

As premissas que partimos são verdadeiras e também inquestionáveis. A conclusão só pode ser uma. Negá-la seria entrar em contradição. Aristóteles designou este tipo raciocínio de analítico.

No caso da argumentação os argumentos (premissas) são mais ou menos prováveis. Muitos pessoas são susceptíveis de serem convencidos que os mesmos verdadeiros, mas nem todas irão concordar com esta posição. A conclusão está longe de gerar uma unanimidade.

Exemplo:

Todos os alunos são estudiosos

João é aluno

Logo, João é estudioso

A premissa que partimos é muito discutível. A conclusão inferida a partir da conclusão, embora logicamente válida, não obtendo a concordância de todos. Aristóteles designou este tipo raciocínio de dialético. Neste caso o orador não se pode limitar a expor algo que é admitido como verdadeiro, mas tem que persuadir quem o ouve da sua veracidade das suas conclusões.

3. Com base nos exemplos anteriores, podemos afirmar que a argumentação se distingue da demonstração em muitos aspectos, tais como:

Na argumentação a conclusão é mais ou menos plausível; as provas apresentadas são susceptíveis de múltiplas  interpretações, frequentemente marcadas pela subjetividade de quem argumenta e do contexto em que o faz. Na argumentação procura-se acima de tudo, convencer alguém que uma dada tese é preferível à sua rival. É por isso que só se argumenta nas situações em que existem várias respostas possíveis. Toda a argumentação implica deste modo o envolvimento ou comprometimento de alguém em determinadas teses.

Na demonstração a conclusão é universal, decorrendo de forma necessária das premissas, e impõe-se desde logo à consciência como verdadeira; as provas são sem margem de erro e não estão contaminadas por fatores subjetivos ou de contexto. A demonstração assume um caráter impessoal. É por isso que  podemos dizer que a mesma foi correta  ou incorretamente feita, dado só se admitir uma única conclusão.

3. O discurso argumentativo supõe a disponibilidade de duas ou mais pessoas (interlocutores), para confrontarem de forma pacífica, os seus pontos de vista e argumentos. Fazem-no de um modo que procura cativar a atenção e adesão às suas idéias por parte de quem os ouve (auditório). Três das condições para que isso possa acontecer: o discurso dever ser coerente e consistente, isto é credível,  mas também o orador tem que ser persuasivo.

4. A argumentação é distinta da persuasão. Se podemos dizer que todo o discurso argumentativo é persuasivo, o contrário não é verdadeiro, pois nem todo o discurso persuasivo é argumentativo.

A argumentação para poder ser convincente tem que fazer apelo à razão, ao julgamento de quem participa ou assiste ao confronto de idéias.

A persuasão está ligada à sedução. A adesão de alguém a certas idéias é feita através de gestos, palavras ou imagens que estimulam nela sentimentos ou desejos ocultos, acabando por gerar falsas crenças.  Através da persuasão o orador reforça os seus argumentos despertando emoções, de modo a criar uma adesão emotiva às suas teses. Na persuasão ao contrário da argumentação faz-se apelo a processos menos racionais. Como veremos, os atuais meios de comunicação de massas, veiculam discursos publicitários que utilizam sofisticadas técnicas de persuasão dirigidas a públicos-alvo bem determinados.

Chaim Perelman  questiona este critério de distinção. Segundo este autor, o critério de distinção não assenta na dicotomia razão/emoção, mas sim na dimensão do auditório: os discursos argumentativos dirigem-se a públicos particulares, capazes de avaliarem as teses em confronto. Os discursos persuasivos dirigem-se a públicos universais, pouco versados nos tema em discussão e por isso mais receptivos à sedução.

5. Um discurso argumentativo requer uma organização e encadeamento de argumentos, tal de forma lógica que o auditório não apenas possa acompanhar o raciocínio do orador, mas também que possa ser convencido da justeza da posição que está a ser defendida (Logos). Para além deste aspecto, é também fundamental para que o discurso seja persuasivo que o próprio orador seja credível (Ethos) e que desperte simpatia ou gere empatia com o auditório (Pathos)

Este aspecto realça a importância do emissor (orador, o que elabora a argumentação). Ele tem que conhecer as características do seu receptor (auditório) e saber calcular as suas reações face à mensagem pretende veicular. O discurso argumentativo valoriza o receptor e as suas opiniões ou reações.

6. O grande objetivo de todo o discurso argumentativo é provocar a adesão de um auditório (o conjunto de indivíduos que o emissor pretende influenciar por meio da sua argumentação).

O discurso é sempre feito em função de um auditório composto por indivíduos todos diferentes entre si. O emissor, antes de elaborar a sua argumentação tem que construir do mesmo uma dada representação ideal tentando prever a sua adesão aos argumentos que irão ser expostos.

Nem todos os argumentos provocarão certamente a mesma adesão. Cada auditório requer, pois, da parte do emissor, uma estratégia argumentativa própria, de forma a apresentar nos momentos certos os argumentos mais ajustados. Um auditório particular é muito distinto de um auditório universal. Cada um exige um discurso próprio para que este possa ser persuasivo.

7. Desde o seu início que na filosofia se dedica um enorme atenção à argumentação. Tal não acontece por acaso. Na verdade a argumentação é uma das formas mais profícuas da própria atividade filosófica, na medida que ela envolve a capacidade de dialogar, de pensar, de analisar, de escolher e implica o comprometimento de alguém com os seus próprios argumentos.

A argumentação em filosofia

Oferecem-se neste apêndice alguns instrumentos complementares para a redação e avaliação de argumentos. Os instrumentos aqui expostos são particularmente importantes para a redação e avaliação de ensaios argumentativos em filosofia, onde o risco de errar não é amenizado pelos dados da experiência. Por este motivo, a ênfase é toda colocada nos argumentos dedutivos. O objetivo é oferecer aos estudantes, sobretudo os de filosofia, a possibilidade de exercer as suas faculdades críticas, argumentando a favor do que pensam acerca dos mais diversos problemas, teses e argumentos filosóficos.

A estrutura deste apêndice é a seguinte: as três primeiras secções tratam da validade de argumentos e da avaliação de condicionais; as duas secções seguintes apresentam duas falácias comuns que têm de ser detectadas e evitadas; introduz-se depois algum simbolismo lógico, assim como algumas regras de transformação, úteis para avaliar alguns argumentos filosóficos; o apêndice termina com dois exemplos de argumentos filosóficos que o leitor já pode agora avaliar, com os instrumentos oferecidos ao longo deste livro.

Validade e correção

Um argumento dedutivo válido é qualquer argumento dedutivo que obedeça às regras da lógica, algumas das quais foram apresentadas no capítulo VI. A definição semântica de argumento dedutivo válido é a seguinte: um argumento dedutivo é válido se, e somente se, nos casos em que as premissas são verdadeiras, a conclusão também é verdadeira. Por exemplo:

Se o conhecimento é possível, os cépticos estão enganados.
O conhecimento é possível.
Logo, os cépticos estão enganados.

Dada a verdade das duas premissas, a conclusão é também verdadeira. Claro que se as premissas forem falsas, a conclusão tanto pode ser falsa como verdadeira. A validade dedutiva do argumento só nos garante a verdade da conclusão caso as premissas sejam verdadeiras. Por outras palavras, um argumento dedutivo válido garante que nunca podemos ter as premissas verdadeiras e a conclusão falsa.

Considere-se agora o seguinte argumento:

O mundo exterior existe.
O mundo exterior não existe.
Logo, Deus existe.

Pela definição dada, este argumento é válido, apesar de poder parecer o contrário. A indecisão nasce do fato de não ser possível atribuir a verdade simultaneamente às duas premissas, porque estas são inconsistentes. Mas já se torna claro o fato de este argumento ser válido se fizermos a seguinte consideração: precisamente pelo fato de as premissas não poderem nunca ser simultaneamente verdadeiras, segue-se que nunca podemos ter as premissas verdadeiras e a conclusão falsa. Logo, o argumento é válido, pois é isso precisamente que caracteriza os argumentos válidos.

Considere-se este outro argumento:

Deus existe.
Logo, o mundo exterior existe ou o mundo exterior não existe.

À primeira vista pode parecer que este argumento não é válido. Mas se tivermos mais atenção verificamos que se trata, de fato, de um argumento válido. Mais uma vez: dada a verdade da premissa, a conclusão pode ser falsa? Bom, é fácil ver que a conclusão nunca pode ser falsa. Logo, também não é falsa dada a verdade da premissa. Logo, é um argumento válido.

O objetivo destes dois exemplos de argumentos válidos que aparentemente não o são é distinguir a validade de um argumento da sua relevância. Apesar de os dois argumentos acima serem válidos, eles não são relevantes. Porquê? Porque o primeiro é válido à custa da inconsistência das premissas; e o segundo é válido à custa do fato de a conclusão ser sempre verdadeira. Temos assim de perceber que o que nos interessa num ensaio argumentativo, quer estejamos a escrevê-lo, quer estejamos a avaliá-lo, não é a validade dos argumentos tout court, mas um caso especial de validade, a que podemos chamar relevância. Assim, para decidir se um argumento é relevante, temos de usar a seguinte definição: um argumento dedutivo válido é relevante se, e somente se: 1) todas as premissas podem ser simultaneamente verdadeiras; 2) a conclusão pode ser falsa.

Perante um argumento dedutivo qualquer, o leitor deve usar a seguinte rotina para verificar a sua relevância:

1. Verificar se é um argumento válido, pela definição semântica dada.
2. Verificar se todas as premissas podem ser simultaneamente verdadeiras.
3. Verificar se a conclusão pode ser falsa.

Um argumento só é relevante se passar os três testes. Se passar apenas um ou dois, não é relevante.

Condicionais

As condicionais são canonicamente expressas na forma “Se…, então…”. Mas a verdade é que existem muitas formas de exprimir condicionais. Esta secção oferece uma lista de algumas dessas formas.

O leitor deve recordar as regras 2, 4 e 6, assim como a regra C4: a clareza na exposição dos seus argumentos é fundamental. Algumas das formas de exprimir condicionais são de evitar, pois só servem para obscurecer o que de outra forma seria uma condicional facilmente compreensível — e também facilmente criticável. Esta secção é útil para avaliar argumentos cuja estrutura lógica está escondida (geralmente atrás de uma hecatombe lexical que impede o leitor de pensar, isto é, de avaliar criticamente o que o autor está a afirmar).

O primeiro fato: muitas vezes, o “então” é elidido, como em

Se Deus não existe, a ética não é possível.

que significa precisamente o mesmo que

Se Deus não existe, então a ética não é possível.

Outros fatos menos evidentes:

Se A, então B

pode exprimir se como

1. A somente se B.
2. A só se B.
3. A implica B.
4. A só no caso de B.
5. A só na condição de B.
6. A é condição suficiente de B.
7. B é condição necessária de A.
8. B se A.
9. Só se B é que A.

Não se deve usar a lista acima para fazer variar a forma como, ao longo de um ensaio, se exprimem condicionais. Lembre-se da regra 6, que se aplica também às partículas lógicas: se começou por dizer “Se A, então B”, não afirme de seguida “C só se D”, para tornar o texto variado; afirme antes “Se C, então D”. Um texto não é um espetáculo de variedades e a elegância literária não vale nada se for conseguida à custa da clareza, porque é uma forma luminosa para um conteúdo obscuro (é como um automóvel com uma excelente pintura, mas com o motor avariado).

O que costuma fazer mais confusão são as noções de condição necessária e condição suficiente. A lista acima permite saber exatamente o que é uma condição suficiente (a antecedente de uma condicional) e uma condição necessária (a conseqüente de uma condicional). Mas os exemplos seguintes tornarão claras estas noções:

Estar inscrito em Filosofia é uma condição necessária para passar a Filosofia. Mas estar inscrito em Filosofia não é uma condição suficiente para passar a Filosofia.

Ter 10 valores é uma condição suficiente para passar a Filosofia. Mas ter 10 valores não é uma condição necessária para passar a Filosofia.

Argumentos e condicionais

Muitos argumentos são expostos sob a forma de uma condicional, como

Se não existir livre-arbítrio, a responsabilidade moral não é possível.

Para avaliar a verdade de uma condicional usam-se precisamente as mesmas regras que se usam para avaliar a validade de um argumento. A diferença consiste agora em tomar a antecedente da condicional em vez das premissas, e a sua conseqüente em vez da conclusão. Assim, uma condicional pode funcionar como um argumento válido se, e somente se, nos casos em que a antecedente é verdadeira, a conseqüente também for verdadeira. Por outras palavras, uma condicional pode funcionar como um argumento válido se, e somente se, for uma verdade lógica.

Note-se que uma condicional pode ter antecedentes ou conseqüentes complexos:

1. Se Deus e o mundo existem, então Deus existe.
2. Se Deus existe, então Deus ou o mundo existem.

Nos casos de condicionais com antecedentes ou conseqüentes complexos, aplica-se a mesma distinção que já introduzimos anteriormente: para que se aceite uma condicional verdadeira como relevante é necessário que a sua antecedente possa ser verdadeira e que a sua conseqüente possa ser falsa. As duas condicionais anteriores são verdadeiras e relevantes, mas as duas seguintes não são relevantes, apesar de serem verdadeiras:

1. Se o mundo exterior existe e o mundo exterior não existe, Deus existe.
2. Se Deus existe, então o mundo exterior existe ou o mundo exterior não existe.

Falácia da inversão da condicional

Uma falácia comum, não exposta na lista do autor, é a seguinte:

Se não existir livre-arbítrio, a responsabilidade moral não será possível.
Logo, se a responsabilidade moral não for possível, não existirá livre-arbítrio.

A forma lógica desta falácia é a seguinte:

Se A, então B.
Logo, se B, então A.

É fácil verificar que se trata de uma falácia com o exemplo seguinte, que tem a mesma forma lógica do que o anterior:

Se nasceste em Lisboa, és português de naturalidade.
Logo, se és português de naturalidade, nasceste em Lisboa.

Repare-se no método informal que usei aqui para tornar evidente que este argumento é falacioso: mantendo a sua forma lógica intacta, substituí as frases de maneira a obter uma premissa verdadeira e uma conclusão falsa. O leitor com poucos conhecimentos de lógica pode sempre usar este método para testar a validade dos seus argumentos, ou dos de outrem. Se conseguir imaginar um caso em que todas as premissas são verdadeiras e a conclusão falsa, o argumento será inválido. Mas se não o conseguir, isso não implica que o argumento seja válido: pode sempre haver uma possibilidade em que o leitor não pensou. A única forma de saber inequivocamente que um argumento é válido é através de processos formais, sintáticos ou semânticos, que não cabe aqui explicar. Mas as regras 24-29 abrangem as formas de raciocínio simples mais comuns.

Falácia da causa única

Esta é talvez a falácia mais popular. Como é uma falácia do cálculo de predicados, Weston não a incluiu na sua lista. Mas é tão comum que o leitor deve estar alertado, não só para não a cometer inadvertidamente nos seus argumentos, como para poder detectá-la nos argumentos das outras pessoas.

Todas as coisas têm uma causa.
Logo, tem de haver algo que seja a causa de tudo.

Este argumento é usado em particular para defender a existência de Deus, que depois é identificado com a causa de todas as coisas. Mas a mesma forma lógica pode surgir inadvertidamente em vários argumentos.

Verifica-se que este argumento é inválido considerando os seguintes exemplos, que têm a mesma forma lógica do que o anterior:

Todas as pessoas têm uma mãe.
Logo, tem de haver alguém que seja a mãe de toda a gente.

Todos os números têm um sucessor.
Logo, tem de haver um número que seja o sucessor de todos os números.

Nestes dois argumentos, as premissas são verdadeiras e as conclusões são falsas. Logo, na sua forma geral,

Todos os x têm um y.
Logo, tem de haver um y para todos os x.

a premissa pode ser verdadeira e a conclusão falsa. Logo, esta forma de argumento dedutivo não é válida.

Esta falácia é particularmente clara para as pessoas que sabem lógica formal, sendo conhecida por falácia da inversão dos quantificadores.

Símbolos lógicos

Apresento a seguir alguns símbolos lógicos e algumas regras de transformação básicas, que poderão servir como uma introdução à lógica. Por outro lado, ajudarão qualquer pessoa a exercer o seu poder crítico sobre argumentos informais onde ocorra algum deste simbolismo. Os argumentos dedutivos podem ser muito complexos, e também aqui o simbolismo ajuda, porque torna mais simples a sua avaliação.

As palavras-chave que ocorrem nos argumentos dedutivos, e das quais depende a sua validade, como “se,…então…”, “e”, “ou” e “não”, são operadores lógicos e simbolizam-se assim:

1. Se A, então B: A → B (ou: A ⊃ B)
2. Não A: ¬A (ou: ~A)
3. A ou B: A ∨ B
4. A e B: A ∧ B (ou: A & B)
5. A se e somente se B (ou: A se e só se B): A ↔ B
6. Todos os objectos x têm o predicado P: ∀xPx
7. Existe pelo menos um objecto x que tem o predicado P: ∃x;Px

As regras de transformação permitem-nos mudar as frases existentes para outras logicamente equivalentes. Conhecer algumas delas torna-se importante para avaliar argumentos que não pertencem a nenhuma das formas válidas apresentadas no Capítulo VI, como:

Ou Deus existe, ou a vida não tem sentido.
Mas a vida tem sentido.
Logo, Deus existe.

Listam se a seguir algumas regras para realizar estas transformações. Cada regra consiste num par de fórmulas, separadas por ≡. Este símbolo significa que o que está à sua esquerda pode substituir-se pelo que está à sua direita e vice versa.

T1. A 𠪪A
T2. A → B ≡ ¬A ∨ B
T3. A → B ≡ ¬B → ¬A
T4. ¬(A → B) ≡ A ∧ ¬B
T5. A ↔ B ≡ (A → B) ∧ (B → A)
T6. A ↔ B ≡ (A ∧ B) ∨ (¬A ∧ ¬B)
T7. ¬(A ↔ B) ≡ (A ∧ ¬B) ∨ (¬A ∧ B)
T8. A ∨ B ≡ ¬A → B
T9. A ∨ B ≡ B ∨ A
T10. ¬(A ∨ B) ≡ ¬A ∧ ¬B
T11. ¬(A ∧ B) ≡ ¬A ∨ ¬B
T12. A ∧ B ≡ B ∧ A

Retomando o exemplo dado acima, é agora fácil compreender que a forma do argumento original era

B ∨ ¬A
A
Logo, B.

Mas, as regras T9 e T2 permitem substituir a primeira premissa por A → B:

A → B
A
Logo, B

É agora claro que se trata de um caso simples de modus ponens:

Se a vida tem sentido, Deus existe.
A vida tem sentido.
Logo, Deus existe.

Dois exemplos

A ambigüidade, ou equivocidade, já foi abordada na regra 7 e surge também na lista de falácias (falácia da palavra ambígua). Mas esta falácia adquire por vezes contornos de uma razoável complexidade, que justificam um tratamento mais detalhado.

No fundo, trata se sempre de usar uma certa expressão ambígua ou equívoca, mudando depois a sua interpretação quando confrontados com argumentos desfavoráveis. Repare se na seguinte idéia:

P. O filósofo, e conseqüentemente a filosofia, não é algo que exista independentemente de uma história, de uma cultura, de uma língua; é antes uma manifestação de um tempo, de um lugar, de uma mentalidade, de uma sociedade.

Esta idéia, aparentemente pacífica, é por vezes usada como premissa para a conclusão seguinte:

C. A filosofia está de tal forma contextualizada historicamente que tem de ser avaliada no contexto histórico que a legitima. O nosso trabalho consiste na descrição contextualizada do que os filósofos escreveram, e não na discussão das teses, argumentos e problemas que eles discutiram; não podemos concordar nem discordar, não podemos argumentar nem discutir com os filósofos, porque isso seria não compreender o caráter histórico da filosofia, seria descontextualizar a filosofia da sua história.

A idéia que serve de premissa a esta tese acerca do caráter histórico da filosofia é ambígua e pode substanciar-se em duas teses muito diferentes:

P1. As teses, os argumentos e os problemas da filosofia têm uma história e são influenciados por diversos fatores históricos, tal como os filósofos.

P2. A teses, os problemas e os argumentos da filosofia só são respectivamente verdadeiras, pertinentes e válidos no tempo em que foram proferidos, mas não depois disso.

O leitor percebe imediatamente que a tese P1 é verdadeira, mas trivial. E que a tese P2 é de tal maneira forte, que são necessários argumentos poderosos para nos convencer da sua verdade.

Acontece que a conclusão C só pode derivar-se da tese P2, que por ser tão forte precisa de ser cuidadosamente defendida; mas não da tese P1, que realmente não precisa de ser defendida, por ser trivial.

O que se observa por vezes é uma estratégia que consiste em defender C partindo da premissa P. Confrontado com argumentos simples que contrariam P2, que é na realidade a única interpretação de P que sustenta C, o autor da tese historicista defende-se afirmando que tem P1 em mente, mas não P2. Mas acontece que P1 não implica C. Repare-se que a estratégia é exatamente a mesma daquela que foi discutida na regra 7 e na falácia da palavra ambígua — apenas um pouco mais complicada porque a ambigüidade não reside agora sobre uma única palavra, mas sobre toda uma premissa.

Na realidade, tudo se torna ainda mais complicado porque em geral nunca se chega de fato a formular claramente a tese C, mas apenas P. Ao invés, C está a todo o instante a ser sugerida e a ser suposta, e é na verdade a teoria que sustenta todo o discurso. C é o pano de fundo sobre o qual se constrói uma complicada teia de frases complexas, mas nunca é claramente expressa, pois isso mostraria imediatamente que se está a defender a interpretação P2 e não a P1. Desta forma, cria-se a ilusão suficiente para parecer que se defende P1, que é trivial, e que portanto não levanta objeções; mas retiram-se conseqüências de P2.

As coisas tornam-se ainda mais complicadas quando no plano teórico se defende a filosofia como uma atividade crítica e reflexiva, mas no plano prático se verifica que está subjacente a tese C, que identifica afinal a filosofia com a filologia, tornando o estudante de filosofia num antiquário do texto filosófico.

Com tudo o que já aprendeu com este livro, o leitor está agora em condições de começar a discutir e a avaliar, isto é, começar a pensar sobre os argumentos, teses e problemas filosóficos.

Tomemos um exemplo:

O próprio fato de o Universo existir, com tudo o que ele contém, é uma evidência segura de que os cépticos se colocam numa perspectiva a que poderíamos chamar errônea. Na verdade, o conhecimento é uma possibilidade em aberto se o Universo, ou o Todo, existe, assegurando assim a facticidade do próprio Ser e a eloqüente negação do Nada. Por outro lado, abre-se um abismo dilacerante no seio mesmo desta questão, pois a própria intangibilidade teorética do conhecimento se apresenta em alternativa paralela à intangibilidade da perspectiva céptica, o que, convenhamos, não corresponde à própria existência do Todo, nem à negação do Nada.

Quero deixar como exercício ao leitor a discussão crítica deste argumento. Mas para isso impõe-se uma ajuda.

O primeiro passo para avaliar este argumento consiste em pôr a descoberto o que realmente está a ser afirmado. O resultado desse trabalho é o seguinte:

Se o universo existe, o conhecimento é possível.
Ou o conhecimento não é possível, ou os cépticos estão enganados.
Mas o universo existe.
Logo, os cépticos estão enganados.

Uma vez clarificado o raciocínio realizado, já podemos discutir a sua validade, para depois discutirmos a verdade das suas premissas e da sua conclusão. Repare-se que mesmo que este argumento seja válido, a conclusão só tem de ser admitida como verdadeira se admitirem como verdadeiras todas as premissas.

Repare na forma obscura como o argumento está originalmente expresso, escondendo o raciocínio realizado, através duma espécie de espetáculo de variedades lexical. O resultado desta forma de expressão é a inibição das faculdades críticas do raciocínio e a conseqüente falência da possibilidade de discussão. Se não quer que as suas idéias sejam discutidas, não as exprima; se as exprimir, faça-o da forma mais clara possível. O objetivo a que deve dirigir-se é a verdade, e não a ilusão de que a alcançou só porque se exprimiu de forma tão obscura que ninguém foi capaz de reagir criticamente ao que afirmou.

Por outro lado, quando se deparar com um argumento deste gênero, não se deixe amedrontar, nem o recuse liminarmente como ininteligível. Faça um genuíno esforço de compreensão. Procure pôr a descoberto o raciocínio subjacente; avalie a sua validade; e discuta depois as suas premissas e a sua conclusão o melhor que puder. No final verificará que ganhou duas coisas: treinou a sua capacidade crítica e, mesmo que não tenha descoberto uma tese, um problema ou um argumento interessantes, descobriu pelo caminho alguns erros, algumas trivialidades, ou alguns disparates contra os quais ficou entretanto alertado. Na procura da verdade, a descoberta do erro é um passo muito importante. (É também por isso que deve escrever os seus argumentos o mais claramente possível: para que os seus leitores possam ajudá-lo a descobrir os erros que você não foi capaz de descobrir sozinho.)

Contra-argumento

Em raciocínio e mapa de argumentos, um contra-argumento, também conhecido como retribuição, é uma objeção a uma objeção. Um contra-argumento pode ser usado para rebater uma objeção a uma premissa, contenção principal ou lema.

Um contra-argumento pode buscar lançar dúvida sobre a veracidade de uma ou mais premissas iniciais de um argumento, ou para mostrar que os argumentos iniciais da contenção não se seguem a suas premissas de maneira válida, ou o contra-argumento pode dar pouca atenção às premissas e estrutura de inferência do argumento inicial e simplesmente tentar demonstrar a verdade de uma conclusão incompatível com o que é estipulado no argumento inicial.

Refutação

Em lógica informal, uma refutação ou objeção, é uma razão que vai contra uma premissa, lema ou conclusão. A refutação de uma refutação é conhecida como retribuição.

Baixe Livro

Anúncios

Deixe um comentário

Preencha os seus dados abaixo ou clique em um ícone para log in:

Logotipo do WordPress.com

Você está comentando utilizando sua conta WordPress.com. Sair / Alterar )

Imagem do Twitter

Você está comentando utilizando sua conta Twitter. Sair / Alterar )

Foto do Facebook

Você está comentando utilizando sua conta Facebook. Sair / Alterar )

Foto do Google+

Você está comentando utilizando sua conta Google+. Sair / Alterar )

Conectando a %s