A Biografia de Leon Trótski

Leon Trótski (Ianovka, 7 de novembro de 1879 — Coyoacán, 21 de agosto de 1940) foi um intelectual marxista e revolucionário bolchevique, fundador do Exército Vermelho e rival de Stalin na tomada do PCUS à morte de Lenin. Seu nome em ucraniano é Лев Давидович Троцький, que pode ser transliterado como Lev Davidóvitch Trótskii. Todavia, seu verdadeiro apelido de família era Bronstein (Бронштейн). Pelo calendário juliano, utilizado nos países de tradição ortodoxa, nasceu em 26 de outubro de 1879. Nos primeiros tempos da União Soviética desempenhou um importante papel político, primeiro como Comissário do Povo (Ministro) para os Negócios Estrangeiros; posteriormente como criador e comandante do Exército Vermelho, e fundador e membro do Politburo do Partido Comunista da União Soviética. Afastado por Stalin (ou Estaline) do controle do partido, Trótski foi expulso deste e exilado da União Soviética, refugiando-se no México, onde veio a ser assassinado por Ramón Mercader, um agente de Stalin. As suas ideias políticas, expostas numa obra escrita de grande extensão, deram origem ao trotskismo, corrente ainda hoje importante no marxismo.

Trótski nasceu numa pequena localidade do óblast de Kherson na atual Ucrânia, sendo o quinto filho de Anna (? – 1910) e David Leontyevish Bronstein ou Bronshtein (1847 – 1922), um humilde lavrador de origem judaica que havia aproveitado os esquemas de colonização tsaristas na Criméia para abandonar a área tradicional de residência autorizada aos judeus (o “pálio”) e converter-se num próspero, ainda que iletrado, fazendeiro. Embora a família fosse de origem judaica, não era religiosa; em casa, falava-se russo ou ucraniano e não iídiche. Aos 9 anos, foi para Odessa, a fim de prosseguir seus estudos numa escola tradicional alemã que, ao longo dos anos em que Trótski ali permaneceu, passou pelo processo de russificação, conforme a política czarista da época. Um bom aluno, Trotski revelava já um temperamento de líder, organizando um protesto contra um professor impopular no 2º ano. Não mostrou, contudo, grande interesse pela política nem pelo socialismo até 1896, quando se mudou para Nikolaev, onde cumpriu seu último ano de estudos secundários. Posteriormente cursou Matemática por um breve período na Universidade Nacional de Odessa. Sua irmã Olga viria a se casar com Lev Kamenev, um dos principais líderes bolcheviques e membro do triunvirato liderado por Stálin, que afastaria o próprio Trótski do poder. O jovem revolucionário Trótski teve seu primeiro contacto com o marxismo em 1896, quando ainda estudante em Nikolaiev. Participou desde jovem da oposição clandestina ao regime autocrático dos czares, organizando em 1897 a Liga Operária do Sul da Rússia, motivo de sua primeira prisão em 1898, tendo sido condenado a dois anos de detenção. Nesse período casou-se pela primeira vez – com Alexandra Sokolovskaia. Em 1900 foi novamente condenado a quatro anos de exílio na Sibéria. Aprofunda os seus estudos marxistas, iniciados na prisão – onde havia produzido um manuscrito, depois perdido, sobre a maçonaria – e começa a escrever artigos de crítica literária e cultural para a imprensa local. Na Sibéria nascem suas duas filhas mais velhas, Nina e Zina – a primeira das quais morreria de tuberculose no final da década de 1920; a segunda suicidar-se-ia em Berlim durante a emigração forçada por Stalin, em 1933. Em 1902, assumindo o nome Trótski (de um guarda prisional dos tempos de Odessa), conseguiu fugir da Sibéria rumo a Londres, onde se aproximou da figura que já então despontava na oposição social-democrata no exílio: Vladimir Lenin, então editor do “Iskra”, jornal do Partido Social-Democrata dos Trabalhadores da Rússia (PSDTR). Apesar da oposição do “pai do marxismo russo”, Georgi Plekhanov, Lenin introduziu Trótski no Conselho Editorial do “Iskra”. Esta primeira cooperação mútua entre os dois futuros líderes da Revolução Russa, no entanto, logo é rompida. Em 1903, Trótski participa no 2º congresso do PSDTR, onde se trava o famoso debate sobre as concepções organizacionais do partido. A corrente bolchevique, liderada por Lenin, favorece um partido centralizado sob a direção de revolucionários profissionais; a corrente menchevique, liderada por Plekhanov, pretende um partido com critérios mais amplos e disciplina partidária menos rígida. Na sua obra Nossas Tarefas Políticas, Trótski discorda da concepção de partido de Lenin, a quem acusava de jacobinismo, e mantém afinidades com os mencheviques, de quem todavia se afasta quanto ao caráter e ao sujeito político e social da revolução na Rússia. De fato Trótski mantém um certo grau de independência frente às duas correntes, as quais procura em vão conciliar. Em 1905 rompe com os mencheviques e torna-se socialista independente. É no decorrer desse primeiro exílio que Trótski, separado de Sokolovskaia (que continuaria a ser sua aliada política, militando na oposição trotskista durante a década de 1920 e desaparecendo no Gulag durante a década seguinte), conhece sua segunda esposa, Natália Sedova, que seria sua companheira para o resto da vida e com quem terá dois filhos, Serguei Sedov e Leon Sedov. Destes, o primeiro desapareceria no Gulag, durante as purgas de Stalin, e o segundo morreria misteriosamente em Paris, em 1938, durante o pós-operatório de uma apendicectomia, num hospital da emigração russa, admitindo-se hoje que tenha sido assassinado pelo GPU, dado que, à época, a comunidade russa exilada estava infiltrada por agentes da polícia política soviética. Diz-se que a internação no hospital teria sido sugerida a Sedov, por seu associado Mordka Zborovsky (codinome “Étienne”), o qual descobriu-se mais tarde ser um agente stalinista inflitrado no movimento trotskista. Por volta de 1903, Trótski entraria em contato com o socialista alemão Alexander Helphand, conhecido como Parvus, o qual havia elaborado o primeiro esboço do que viria a ser a Teoria da Revolução Permanente: a ideia de que a futura revolução russa não seria como pensavam os mencheviques – dirigida pela burguesia liberal, buscando construir um Estado capitalista – nem como pensavam os bolcheviques – dirigida pela classe operária ou pelo campesinato mas cumprindo as mesmas tarefas democráticas e construindo um Estado capitalista à revelia da burguesia. Trótski propôs, alternativamente, que as tarefas democráticas, de caráter burguês, só poderiam ser cumpridas na Rússia sob a direção da classe operária,mas que esta, no processo de implantação destas reformas burguesas, necessariamente tenderia para o socialismo. Dois anos depois de romper com Lenin, Trótski regressa à Rússia para participar na revolução de 1905, chegando a presidente do primeiro conselho revolucionário, o soviete de São Petersburgo. Fracassada a revolução, o seu envolvimento numa greve geral em outubro e apoio à rebelião armada que dela decorreu levam à condenação ao exílio perpétuo, novamente na Sibéria. Mas em janeiro de 1907 consegue novamente escapar e regressar a Londres para participar no 5º congresso do PSDTR. Em outubro desse ano muda-se para Viena, onde, em Outubro de 1908 funda um periódico social democrata bi-semanal em língua russa, o Pravda (A verdade), dirigido aos trabalhores na Rússia aos quais chega clandestinamente, que co-edita com Adolphe Joffe, Matvey Skobelev e Viktor Kopp, o qual iria até 23 de abril de 1912. Distribuído clandestinamente na Rússia, este jornal foi uma das publicação revolucionárias mais populares da época. O Pravda “vienense” de Trótski propugnava pela união das facções social-democratas russas, buscando superar intrigas políticas sectárias. No entanto, exatamente por esta posição “anti-sectária”, Trótski não conseguiu evitar vivas polémicas com Lenin. Quando as várias facções mencheviques e bolcheviques (que por sua vez se haviam cindido múltiplas vezes após o fracasso da revolução de 1905-1907) tentaram reunificar-se em obediência ao estabelecido numa reunião do Comité Central em Janeiro de 1907 em Paris – aliás, contra as objecções de Lenin – o Pravda acabou por ser reconhecido como orgão oficioso da Social-Democracia Russa, sendo por ela financiado. Lev Kamenev, por esta altura já cunhado de Trótski, entrou no conselho editorial por indicação dos bolcheviques, mas as tentativas de unificação fracassaram em Agosto de 1910, quando Kamenev se demitiu do conselho num clima de recriminações mútuas. Trótski continuou a publicar o Pravda durante mais 2 anos, até à sua extinção em Abril de 1912. A esta altura, o jornal teria o seu nome apropriado pelos bolcheviques de Lenin, que criaram assim o futuro Pravda, como orgão oficial exclusivamente da sua facção, daí em diante publicado de forma semi-legal na Rússia. Quando da eclosão das Guerras Balcânicas de 1912-1913, Trótski, esgotado pelas lutas faccionárias da emigração russa, desloca-se para a Sérvia, Bulgária e Romênia como correspondente do jornal liberal ucraniano Pensamento de Kiev. Ali denuncia atrocidades de guerra cometidas pelas forças sérvias e búlgaras contra as populações turca e albanesa, e participa das atividades políticas da social-democracia romena. Mais tarde, em 1914, perante a ameaça de ser internado como cidadão de um país inimigo aquando da eclosão da I Guerra Mundial, Trótski muda-se da Áustria para a Suíça e posteriormente para França – onde á a publicação “Nashe Slovo” Nossa Palavra – cujo apoio à linha antimilitarista adotada por parte do movimento socialista na conferência de Zimmervald acabará por indispô-lo com o governo francês, que, por instigação do embaixador russo em Paris, acaba por deportar Trótski em setembro de 1916 para Irún, em Espanha, onde é novamente detido pela polícia e forçado a embarcar para os EUA. Estabelece-se em Nova Iorque, onde colabora no jornal Novy Mir Mundo Novo. Ali se encontra quando subitamente, com o derrube do Czar Nicolau II, rebenta a Revolução Russa de 1917, levando-o a regressar ao seu país em maio. Os dias da revolução: De Outubro a Brest-Litovski No decurso da revolução, Trótski deixa de acr na unificação de todas as facções social-democratas, abandona a sua trajectória anterior de socialista independente e junta-se ao partido bolchevique de Lenin. Destacando-se pelo seu talento como organizador e agitador, é eleito presidente do soviete de Petrogrado, participa activamente na luta para derrubar o Governo Provisório de Alexander Kerenski, e lidera o Comité Militar Revolucionário que planeja e concretiza o assalto ao Palácio de Inverno, consumando a Revolução de Outubro. Após a conquista do poder pelos Bolcheviques, Trótski torna-se Comissário do Povo para os Negócios Estrangeiros, com a missão de negociar o armistício militar com a Alemanha e seus aliados. A posição de Trótski nas negociações do armistício foi oposta a de Lenin – que achava que um tratado deveria ser assinado com a Alemanha em quaisquer condições – mas também oposta a dos comunistas de Esquerda, que propunham a guerra revolucionária; para ele, a posição a tomar seria de “nem paz, nem guerra”; o governo soviético deveria retirar-se das conversações e esperar pela agitação revolucionária no exército alemão. Através de uma combinação prévia com Lenin, que havia aceitado testar sua proposta (“para estar de bem com Trótski, vale a pena até perder a Letônia e a Estônia”, teria dito Lenin), Trótski acaba por retirar-se de fato das conversações a 10 de fevereiro de 1918, respondendo a Alemanha com um novo ataque, que obrigou o governo soviético a assinar por fim a 3 de março o desvantajoso Tratado de Brest-Litovski. Trótski abandona subsequentemente o cargo, mas ainda no mesmo mês é nomeado Comissário do Povo para os Assuntos Militares (até 1925) e, em setembro, líder do Comité Militar Revolucionário do regime soviético. É neste contexto que lidera de forma decisiva a criação e organização do Exército Vermelho, que acaba por vencer a longa e violenta guerra civil (1918-20) contra o Exército Branco, garantindo a sobrevivência do regime soviético. Comissário da Guerra 1918: Formulação da política militar e primeiros sucessos Contrariamente ao que a velha guarda bolchevique desejava, Trótski reorganizou o Exército Vermelho em torno do recrutamento compulsório de camponeses, enquadrados por oficiais do antigo Exército Imperial, os quais eram vigiados quanto às suas simpatias políticas por propagandistas e militantes bolcheviques (“comissários políticos”) encarregados de validar as ordens militares dadas por estes oficiais, e garantir sua confiabilidade (“comando dual”). O Exército Vermelho foi assim constituído como uma organização hierarquizada e burocrática, que apoiava-se no uso de uma disciplina estrita que previa o uso liberal da pena de morte para atos de covardia e deserção, aplicável tanto aos ex-oficiais do Exército Imperial quanto aos comunistas. Como o próprio Trotsky explicou numa de suas proclamações: “Aviso que se qualquer unidade militar recuar sem ordens para tal, o primeiro a ser fuzilado será o comissário político da unidade, e depois o comandante… É o que prometo solenemente diante de todo o Exército Vermelho”3 Tal atitude levou a constantes protestos de militantes bolcheviques, que prefeririam um Exército Vermelho organizado como uma milícia popular dirigida exclusivamente por comunistas e dotada de oficiais eleitos. Para Trótski – que nada tinha de militar profissional – no entanto, as necessidades de uma guerra moderna impunham a posse de conhecimentos técnicos especializados que poderiam ser encontrados apenas num corpo de militares de carreira, daí a necessidade absoluta do recurso a “especialistas burgueses”. Leve-se em conta que, pelo uso de uma disciplina tida por muitos como “brutal”, Trótski procurou impor a vigência do princípio meritocrático no Exército Vermelho: não teve qualquer hesitação em promover oficiais tzaristas competentes a postos de responsabilidade, nem hesitou tampouco em validar punições e mesmo fuzilamentos de militantes comunistas tidos como culpados de covardia. Ajudou muito, aliás, na qualidade da sua liderança, que Trotsky, não obstante deixasse as decisões militares a cargo dos oficiais profissionais, houvesse passado boa parte da Guerra Civil deslocando-se para o fronte a bordo do seu lendário trem blindado – dotado de uma tipografia portátil, uma banda e outras facilidades – a partir do qual podia realizar a propaganda, monitorar as atividades militares, resolver diferendos burocráticos e logísticos, e eventualmente lançar mão dos seus talentos oratórios para elevar o moral da tropa. Na situação militar desesperada do verão de 1918, com os bolcheviques reduzidos à posse da parte da Rússia européia em torno de Moscou e Petrogrado (S.Petersburgo), com os alemães e austríacos ocupando a fronteira ocidental, os ingleses e franceses o Ártico russo, e as várias formações antibolcheviques, a Sibéria, Trótski recebeu carta branca do Partido para aplicar seus métodos. O primeiro grande sucesso militar do Comissário da Guerra seria a defesa da linha de frente dos Urais contra as tropas da Legião Checoslovaca – uma tropa de soldados checos emigrados mobilizados para a luta contra os austríacos ao lado do exército tzarista, que haviam sido instigados pela Entente franco-britânica e pela oposição russa a lutarem contra os bolcheviques – defesa esta que culminou na tomada de Kazan pelo Exército Vermelho em 10 de Setembro de 19185. Após esta vitória,como prova da confiança do Partido na política militar de Trotsky, o Conselho Militar Supremo foi (temporariamente) extinto em favor do estabelecimento de um Comandante em Chefe do Exército Vermelho, o qual viria a ser o comandante do Regimento Vermelho de Fuzileiros Letões (a Letônia tendo sido uma das regiões de fronteira do Império Russo onde o bolchevismo tinha encontrado mais seguidores) Ioakim Vatsetis (ou Jukums Vacietis), homem de confiança do Comissário da Guerra.A medida que a situação militar da Rússia Soviética se tornava menos crítica, no entanto, a oposição ao Comissário da Guerra, paradoxalmente, recrudescia. Logo após a vitória no fronte dos Urais, Vatsetis propõs que uma estratégia puramente defensiva deveria ser seguida no fronte siberiano – onde a Legião Checoslovaca havia sido substituída pelas tropas do almirante branco Kolchak – de forma a poupar tropas para operações no fronte ucraniano, onde as tropas brancas do general Denikin estavam na ofensiva. Esta proposta foi rejeitada pelo Comitê Central bolchevique, e como o avanço no fronte oriental acabou por provar-se bem sucedido – contra as expectativas de Trotsky e Vatsetis – este acabou por ser demitido da posição de Comandante em Chefe, que foi dada ao general Serguei Kamenev6 (nenhum parentesco com o cunhado de Trotsky). Por trás de todas estas querelas, estava a defesa de Trótski do Exército Vermelho como organização não partidária, que fez com que ele tivesse, desde muito cedo, de defrontar-se com uma cabala no interior do Partido, dirigida por Stalin – que, entre Maio e Outubro de 1918, estava encarregado de organizar serviços de intendência no fronte de Tsartsin – a futura Stalingrado – e havia tornado-se o governante informal da região do Baixo Volga, onde instalara um reinado de terror dirigido contra as antigas classes dirigentes e especialmente contra os antigos oficiais do Exército Imperial, fuzilados sob qualquer pretexto. Stalin e seu futuro Ministro da Defesa, Kliment Voroshilov, levaram sua oposição à Trótski ao ponto de recusarem subordinar-se ao ex-general tzarista Andrei Snesarev, nomeado por Trótski para dirigir as operações militares na região. Ao criticar a política de Trótski como hostil aos “velhos bolcheviques”, Stalin conseguiu uma primeira base de apoio na burocracia do Partido que lhe seria muito útil na luta posterior pelo poder. Em outubro de 1918, quando a ameaça dos exércitos brancos na frente dos Urais tinha desaparecido, no entanto, Trótski voltou sua atenção para a Frente Sul 7 e acabou por impor-se a Stalin, recebendo o apoio de Lenin, que, no entanto, ciente da necessidade de não diminuir Stalin diante de seus camaradas de Partido, organizou sua remoção honrosa para Moscou e encarregou o então Secretário Geral do Partido, Sverdlov, de organizar um encontro de reconciliação entre os dois antagonistas, o qual, no entanto, falhou: Trotsky respondeu a Stalin, quando este pediu-lhe para que não perseguisse seus “rapazes”, que a revolução não tinha tempo para esperar que os “rapazes” crescessem…8. 1919: Crise e reestauração de prestígio Continuamente importunado pela oposição da velha guarda bolchevique, comandada por Stalin, às suas políticas, Trótski chegou, em julho de 1919, a oferecer sua renúncia ao cargo de Comissário da Guerra ao órgão do Comitê Central do Partido responsável pelas nomeações para cargos administrativos, o Orgburo, de forma a obrigar a cúpula do Partido a expressar abertamente seu desacordo consigo ou apoiá-lo. Que a segunda opção tenha sido a escolhida deveu-se antes de tudo a Lenin, que, muito embora encontrasse dificuldades em conciliar os atritos criados por Trótski, pelo seu comportamento arrogante, com o restante dos líderes do Partido, continuou em última instância a apoiar sua política militar, chegando mesmo a, num dado momento em 1919, entregar-lhe um papel timbrado com sua assinatura que Trótski poderia utilizar para validar qualquer ordem sua10. No entanto, Trótski continuaria tendo suas políticas contestadas surdamente pelo Partido durante todo o início de 1919, especialmente pela estratégia tímida que havia proposto para o fronte siberiano (onde as tropas vermelhas continuavam a ter sucessos contra o Almirante Kolchak), assim como pela sua incapacidade de resolver a situação militar no fronte ucraniano, onde as tropas brancas do general Anton Denikin tinham sua base. No entanto, uma mudança de situação acabaria por restabelecer o seu prestígio. Stalin e Serguei Kamenev propunham que a estratégia para lidar com a situação na Ucrânia deveria incluir um assalto à retaguarda de Denikin na região caucasiana do Kuban, onde havia uma concentração de aldeias de cossacos aliados dos Brancos. Trótski, por sua vez, alegava que tal estratégia nada mais faria do que soldar a aliança entre as forças cossacas e os Brancos, e que a situação deveria ser resolvida por um ataque na direção do Leste da Ucrânia, onde a concentração de indústrias atrairia o apoio dos operários ao Exército Vermelho; os cossacos – que lutavam em defesa de suas terras – deixados a si mesmos, acabariam por ficar neutros. E, efetivamente, a execução do plano de Stalin apenas reforçou o Exército Branco, que, em setembro de 1919, tomou Orel e avançou para o Norte, na direção de Moscou e do centro de produção de munições de Tula, ameaçando a própria existência do regime soviético. Ao final, seria o plano de Trótski que acabaria sendo adotado: em Outubro de 1919, dois ataques de flanco lançados contra o Exército Branco o separaram da cavalaria cossaca, forçando Denikin a recuar para a Ucrânia, de onde o Exército Branco, completamente desmoralizado, e sem contar mais com os subsídios do governo britânico, recuaria para a Criméia. No entanto, os responsáveis pela defesa da Frente Sul jamais admitiram abertamente o seu débito para Trótski, o qual, inclusive, antes da ofensiva final, enviou ao Comitê Central do Partido uma carta defendendo sua estratégia e eximido-se de responsabilidade pelos erros anteriores do comando do Exército Vermelho na Ucrânia – uma reação que Lenin classificaria numa anotação à margem da carta de Trótski como produto de “nervosismo”. O que reabilitaria decisivamente a reputação de Trótski seria a sua eficiente defesa de Petrogrado contra as tropas do General branco Yudenich, que atacaria a antiga capital também em outubro de 1919, tentando solapar a moral do Exército Vermelho pela tomada do berço da revolução. Opondo-se às objeções de Lenin – que a princípio pensara em abandonar Petrogrado para concentrar-se na defesa da Frente Sul – Trótski comandou a defesa pessoalmente, chegando a cavalgar em direção às linhas inimigas sozinho para animar tropas em fuga. Esta vitória decisiva elevaria o Comissário da Guerra ao auge do seu prestígio – o qual foi imediatamente seguido pelo seu declínio. Após a derrota de Denikin e Yudenich, o Exército Branco estava reduzido a um remanescente entrincheirado na Criméia, sob o comando do Barão Wrangel, remanescente este que poderia ser liquidado facilmente pelo Exército Vermelho, quando o ditador nacionalista da Polônia, Pilsudiski, resolveu aproveitar-se do vácuo de poder na Ucrânia – onde a autoridade dos bolcheviques encontrava dificuldade para afirmar-se diante da atividade dos nacionalistas ucranianos e dos bandos anarquistas comandados por Nestor Makhno – para intentar restaurar o antigo império polonês nesta região, avançando para o leste com seu exército e tomando Kiev em 7 de maio de 1920. A reação nacionalista que este ataque provocou na Rússia determinou que o contra-ataque do Exército Vermelho fosse extremamente bem sucedido, limpando a Ucrânia e a Bielorússia ocidentais de tropas polonesas. Para Trótski, a contra-ofensiva deveria limitar-se a esta restauração do poder soviético nas repúblicas não-russas da fronteira ocidental, mas Lenin viu na situação a oportunidade de instalar um regime socialista na Polônia que servisse de elo de ligação entre a Rússia soviética e a Alemanha, onde as forças de Esquerda poderiam recuperar-se da repressão do levante spartakista de 1919, e ordenou uma ofensiva na direção de Varsóvia, onde esperava um levantamento operário na retaguarda de Pilsudiski. Trótski, no entanto, considerava que os poloneses, recém-independentes, tenderiam a colocar a garantia de sua independência acima da transformação socialista, e a derrota do Exército Vermelho nos arredores de Varsóvia em agosto de 1920, se privou a Rússia soviética de uma fronteira comum com a Alemanha – para grande prejuízo do movimento comunista internacional – ao mesmo tempo aumentou o prestígio de Trótski, que havia considerado as expectativas de Lenin e dos bolcheviques como irreais e advertido contra o otimismo excessivo. A instâncias de Trótski foi firmado um tratado de paz com a Polônia, o qual permitiu que o Exército Vermelho liquidasse o bastião Branco na Criméia em Novembro de 1920, encerrando a Guerra Civil. O Pós-Guerra Civil A auto-suficiência de Trótski, mesmo após a vitória dos Vermelhos na Guerra Civil, acabou por determinar que seu prestígio público sofresse abalos importantes: o primeiro, quando da repressão brutal das revoltas de Kronstadt e de Tambov, em que teve papel importante na adoção de uma política de repressão e de rejeição de qualquer compromisso com os rebeldes. Segundo, quando, após haver proposto um abandono do comunismo de guerra e um retorno parcial ao livre mercado, pela adoção do que viria a consistir na futura NEP, no início de 1920, foi desautorizado por Lenin, propondo então, como uma alternativa, que “os métodos de guerra fossem aplicados sistematicamente”, mediante um combate decidido ao desemprego decorrente da desmobilização e visando a rápida recuperação econômica da Rússia Soviética pela abolição total da independência, mesmo nominal, dos sindicatos e pela generalização do trabalho forçado através da formação de “exércitos do trabalho” que mobilizariam forçosamente trabalhadores ociosos. Somando-se à desconfiança dos veteranos bolcheviques por sua adesão tardia ao Partido, estas posições lhe darão uma fama de bonapartista e ditador militar potencial, e em muito enfraquecerão sua posição diante de Stalin; Lenin, no seu Testamento Político, falará de Trótski como “o homem mais capaz do presente Comitê Central”, mas deplorará suas tendências autoritárias (nas palavras de Lenin, “sua tendência a abordar as questões apenas pelo lado administrativo”). Derrota diante de Stalin Desde 1920, Lênin receia crescentemente a burocratização do Partido e do Estado. A sua morte, em 1924, gera um vazio de poder que agudiza a disputa interna entre o setor burocratizado e o setor em defesa de uma maior sovietização do regime. O primeiro, simbolizado por Stálin, acaba por vencer, assumindo a direção quase total do partido. Nesse momento, Trótski não quis ou não pôde opor-se activamente a Stalin, mantendo-se discreto no 12º Congresso do Partido em 1923 (nomeadamente na polémica questão do testamento secreto de Lenin, que condenava um Stalin demasiado poderoso e apelava directamente à sua destituição) onde acaba por perder o poder para um triunvirato, também chamado de Troika, constituído por Stalin, Lev Kamenev e Grigori Zinoviev, que posteriormente Stalin dissolveria com purgas aos seus próprios camaradas, até concentrar em si todo o poder. Trótski e seus apoiantes organizam-se na Oposição de Esquerda, facção que nos anos seguintes luta no interior do partido contra Stalin. Havia, no entanto, uma assimetria fundamental nesta luta faccionária: a Oposição de Esquerda, por mais bem implantada que estivesse no interior da militância comum do Partido, não tinha qualquer poder no interior das instâncias decisórias de um Partido Bolchevique já totalmente burocratizado. Trótski, pela sua entrada tardia no Partido e por não ter assumido responsabilidade por nomeações burocráticas como Stalin, não possuía capacidade de alavancar suas posições pelo exercício do clientelismo. Mas ainda, desde o seu Décimo Congresso,em 1920, o Partido Bolchevique havia adotado – com o apoio de Trótski, diga-se de passagem – um novo regimento administrativo que proibia a existência de facções permanentemente organizadas no partido, o que tornava possível a qualquer contestação à liderança do Partido ser caracterizada como “fracionaria”. Resumindo, o prestígio pessoal de Trotsky era inteiramente desproporcional aos recursos políticos concretos que ele poderia mobilizar no interior de um Partido à cuja vida interna ele era estranho. Daí, em grande parte, a inação de Trotsky diante da ascensão de Stalin; na ausência de Lenin – que até então havia sempre abonado suas políticas em momentos decisivos – Trotsky escolheu não desafiar o conclave bolchevique, sabendo que suas chances de vitória eram reduzidas. Durante a preparação pelo Comintern de um levante revolucionário na Alemanha em finais de 1923- com Lenin ainda vivo mas incapacitado – Trótski já havia solicitado ao Partido permissão para atender um convite feito pelo líder comunista alemão Heinrich Brandler e dirigir o levante projetado in loco como combatente revolucionário internacional – um projeto que de certa forma antecipava a aventura boliviana de Che Guevara. A permissão foi, no entanto, negada, pois Stalin temia que, se Trótski caísse prisioneiro ou morto, o embaraço que tal provocaria ao governo soviético, e temia mais ainda a possibilidade de que ele retornasse da Alemanha vitorioso, caso em que o aumento de seu poder e influência seria inrresistível. O levante alemão, mal preparado e executado, foi um fracasso, e fortaleceu a tendência stalinista de abandonar a revolução socialista internacional pelo “socialismo num só país”. No decorrer das lutas confusas que se seguiriam, Trótski buscou uma consolação – assim como um aumento da sua influência – pela concentração no trabalho teórico e intelectual. Trótski já havia, durante a Revolução de 1905, formulado a Teoria da Revolução Permanente- a proposição de que a revolução liberal-burguesa, nas condições de um país capitalista atrasado como a Rússia não se deteria na constituição de uma república democrática, mas avançaria para a revolução socialista, num processo sem solução de continuidade – contrariamente ao entendimento evolucionista do marxismo predominante à época, segundo o qual a revolução socialista seria um produto do esgotamento prévio das possibilidades de desenvolvimento capitalista nacional. Após a Revolução de 1917, passou a defender também que a revolução socialista era um processo mundial e que a Revolução Russa necessitaria continuar a desenrolar-se numa arena mundial, no âmbito de uma perspectiva internacionalista que contrastava claramente com a política estalinista do “socialismo num só país”. Defendeu a rápida industrialização da economia e o abandono da NEP (Nova Política Económica) de Lenin, quando Stalin e o teórico Bukharin defendiam a industrialização gradual e a manutenção daquela política. A dissidência no interior do Partido vem a público quando Trótski publica, em 1924, um prefácio à edição dos seus escritos de 1917, As Lições de Outubro, criticando a falta de estratégia revolucionária de Stalin e da Direção do Comintern na direção do levante alemão de 1923, e compara suas atitudes com a indecisão demonstrada por Kamenev e Zinoviev às vésperas da Revolução de Outubro. Estas discordâncias abertas afastam politicamente Trótski de Stalin, culminando na sua expulsão do partido a 12 de novembro de 1927, o exílio em Alma Ata (hoje Altana), na então República Socialista Soviética do Cazaquistão, a 31 de janeiro de 1928, e finalmente a expulsão da União Soviética em 1929. Ainda em julho desse ano, começa a publicar um boletim mensal da oposição, que continuaria a ser publicado e contrabandeado para o território soviético durante todo o seu exílio. Ironicamente, afastado Trótski, Stalin vira-se contra Bukharin e acaba por apropriar-se de muita da política económica de Trótski, implementando-a todavia de uma forma criticada por toda a parte como exageradamente violenta e autoritária. Tal “virada à Esquerda” de Stalin, no entanto, fez muito para privar a Oposição de Esquerda de grande parte dos seus partidários na URSS, que acabam por aderir a Stalin, que consideram estar realizando na prática o programa da oposição, nomeadamente o economista Ievguêni Preobrajenski e o antigo chefe de governo da Ucrânia soviética e amigo pessoal de Trótski desde a época de sua estadia nos Balcãs, o socialista romeno de etnia búlgara Christian Rakovski – que, juntamente com a imensa maioria dos antigos trotskistas, haveriam de perecer nas Grandes Purgas dos anos 1930. Exílio e morte Trótski e a sua filha Nina (França). Após a deportação, Trótski passou pela Turquia, França (Julho de 1933 a Junho de 1935) e Noruega (Junho de 1935 a Setembro de 1936), fixando-se finalmente no México, a convite do pintor Diego Rivera, vivendo temporariamente em casa deste e mais tarde em casa da esposa de Rivera, a pintora Frida Kahlo. A medida que aumenta a repressão stalinista, multiplicam-se os lutos familiares. Além da morte dos seus quatro filhos, os genros, noras, netos, e outros parentes próximos de Trotsky são igualmente vítimas da repressão por sua ligação com um “inimigo do povo” e desaparecem nos sucessivos expurgos da década de 1930, com exceção do único filho que Zina havia podido levado consigo ao exterior, e que acabou por reunir-se ao avô no México, após complicadas negociações com a mulher francesa de Leon Sedov – que havia responsabilizado-se pelo sobrinho até a sua própria morte num hospital parisiense. No seu crescente isolamento pessoal e político, Trotsky, a partir desta altura, aumenta consideravelmente a sua produção escrita, escrevendo importantes obras como sua autobiografia, Minha Vida (1930), a História da Revolução Russa (em 2 vols., 1930 e 1932), A Revolução Permanente (1930) e A Revolução Traída (1936), uma crítica violenta ao Estalinismo. Apoiando-se sobre um panfleto de Rakovski, Os Perigos profissionais do poder, Trótski considerava em A Revolução Traída que a União Soviética se tornara num Estado de trabalhadores degenerado, controlado por uma burocracia não-democrática – derivada, no entanto, da própria classe operária (em um processo descrito como Degenerescência Burocrática) e que teria eventualmente de ser derrubada por uma 2ª revolução política que restaurasse o caráter democrático da revolução socialista, ou, então, degenerar ao ponto de regressar ao capitalismo. Obelisco para León Trotsky Trotsky rejeitou as teses ultraesquerdistas de certos opositores bolcheviques do estalinismo (notadamente os “Centralistas Democráticos” liderados por Sapronov), que consideravam que o stalinismo era uma restauração do capitalismo, algo similar à restauração da monarquia francesa pelos Bourbons em 1815. Através desta mesma analogia com a Revolução Francesa, Trotsky considerou que o regime de Stalin era um Termidor soviético, no sentido de que, assim como o 9 de Termidor francês havia derrubado o radicalismo pequeno-burguês de Robespierre, Saint-Just e dos jacobinos, mas preservado o caráter burguês da sociedade francesa, do mesmo modo o estalinismo havia eliminado todos os elementos internacionalistas e de democracia proletária do regime soviético, mas não havia, de momento, abolido o caráter socialista da economia e das relações sociais na Rússia. Considerando a URSS estalinista, assim, como presa num estágio de transição entre o capitalismo e o socialismo, e não considerando que ela houvesse se convertido num capitalismo de Estado, Trótski opôs-se, no início da Segunda Guerra Mundial, àqueles entre seus seguidores – especialmente fortes no partido trotskista americano, o Socialist Workers’ Party (SWP), mas também figuras isoladas como o brasileiro Mário Pedrosa – que propunham retirar apoio à URSS em caso de ataque externo. Para Tótsky, a defesa das aquisições da Revolução de Outubro exigia o respeito mais estrito à consigna de “defesa incondicional da União Soviética”. Muito embora se opusesse ao Pacto Molotov-Ribbentrop, que considerava desmoralizante para o movimento operário, orientou seus partidários para que apoiassem a expropriação dos latifúndios e das fábricas realizadas por Stalin no leste da Polônia e nos Países Bálticos quando da sua incorporação forçada na URSS. A 3 de Setembro de 1938, numa reunião com 25 delegados de 11 países, Trótski e seus seguidores fundam a Quarta Internacional, como alternativa à Terceira Internacional estalinista. Trótski tinha entrado entretanto em conflito com Diego Rivera – numa disputa que tinha tanto a ver com as pretensões políticas de Rivera no movimento trotskista, que Trótski desfavorecia, quanto com a breve ligação de Trótski com Frida Kahlo – e mudara-se em 1939 para uma casa própria no bairro de Coyoacán, na Cidade do México. A 24 de Maio de 1940 sobrevive a um ataque à sua casa por assassinos alegadamente a mando de Stalin. Não sobreviverá, no entanto, ao segundo ataque de Stalin: a 20 de Agosto de 1940, o agente Ramón Mercader consegue sob disfarce entrar pacificamente na sua sala para um encontro, e, aproveitando um momento de distracção, aplica com uma picareta um golpe fatal no seu crânio. Ao ouvir o ruído, os guarda-costas de Trótski precipitam-se para a sala e quase matam Mercader, mas Trótski detém-nos, exclamando “Não o matem! Esse homem tem uma história para contar!”. Faleceu no dia seguinte. Mercader testemunhou posteriormente no seu julgamento: “Pousei o casaco impermeável na mesa de forma a poder tirar a picareta que estava no bolso. Decidi não perder a grande oportunidade que surgiu. No momento em que Trótski começou a ler o artigo, deu-me a minha oportunidade; tirei a picareta do casaco, segurei-a firme na mão e, de olhos fechados, dei-lhe um golpe terrível na cabeça”. A casa de Trótski em Coyocán, preservada no mesmo estado em que se encontrava naquele dia, é hoje um museu, em cujos terrenos se encontra ainda o cenotáfio de Trótski, com a foice e o martelo talhados sobre seu nome. Trótski nunca foi formalmente reabilitado pelo governo soviético, seja durante a “desestalinização” de Khrushchov, seja durante a “Glasnost” de Gorbatchov, apesar da reabilitação, durante estes dois episódios, da maioria da velha guarda bolchevique morta durante os grandes expurgos de Stalin. Dos descendentes de Trótski, o único que pôde preservar sua conexão com a família seria o seu neto, o engenheiro Esteban Volkov, filho de Zina, que seria criado por Natalia Sedova no México e muito faria pela preservação da memória do avô pela manutenção da sua casa de Coyoacán como um museu privado, depois apropriado pelo governo mexicano. Na década de 1990, Volkov viajaria à Rússia para encontrar-se, após sessenta anos de separação,com uma irmã recém-localizada, doente terminal de câncer, com a qual teve de conversar através de um intérprete, para explicar-lhe que a decisão de deixá-la na URSS havia sido imposta à sua mãe por Stalin. Biografias Trotsky encontrou, na década de 1950, um grande biógrafo na pessoa do marxista polonês radicado na Inglaterra Isaac Deutscher, que escreveu a monumental biografia em três volumes: O Profeta Armado – Trotsky 1879-1920, O Profeta Desarmado – Trotsky 1921-1929 e O Profeta Banido – Trotsky 1929-1940, a qual encontra-se atualmente disponível no original em publicação da Verso Editions, e em português numa tradução da Editora Civilização Brasileira, republicada recentemente pela Editora Record. Trata-se de uma biografia polêmica, em que Deutscher argumenta freqüentemente contra Trotsky, mas que, exatamente por isso, possui uma qualidade intelectual que a biografia também monumental, mais documentada e posterior do trotskista francês Pierre Broué, Trotsky (Paris, Fayard, 1988) não possui. O Wikiquote tem uma coleção de citações de ou sobre: Leon Trótski. O Wikisource tem material relacionado com este artigo: Leon Trótski Ver também Trotskismo IV Internacional Teoria da revolução permanente Lei do Desenvolvimento desigual e combinado Curva do desenvolvimento capitalista Programa de Transição.

Ligações externas O Wikimedia Commons possui multimedia sobre Leon Trótski Secção de Leon Trotsky em português no Marxists Internet Archive – MIA (marxists.org) The Lubitz TrotskyanaNet dealing with Leon Trotsky, Trotskyism and Trotskyists (inglês) Trotsky Uma vida dedicada à revolução socialista. O Marxismo de Leon Trotski Artigo de Alvaro Bianchi – professor de Ciência Política na Unicamp Trótski: 65 anos depois Ato pelos 65 anos da morte de Trótski reúne 700 em São Paulo Notas e referências ↑ Operações especiais: memórias de uma testemunha indesejada / Pavel Sudoplatov, Anatoli Sudoplatov, Mem Martins : Europa-América, D.L. 1994 ISBN 972-1-03771-0 ↑ David King & James Ryan, Trotsky- A Photographic Biograph, Oxford/Nova York, Basil Blackwell, 1986, pg.267 ↑ cf. Leon Trotsky, My Life, Penguin, 1988, pg.417 ↑ Robert Service, A History of Twentieth-Century Russia, Penguin,1997, pgs.105/106 ↑ Leon Trotsky, My Life,op.cit., Cap.33 ↑ Leon Trotsky, My Life,ibid., pg.470 ↑ Cf. Isaac Deutscher,Stalin, Penguin Books, 1982, pg.210 ↑ Cf. Deutscher, ibid., pg. 210 ↑ Trotsky, My Life, op.cit., pg.471 ↑ “Ciente do caráter rigoroso das ordens do Camarada Trótski, estou tão absolutamente convencido da sua correção, expediência e necessidade para o triunfo da causa, que as endosso sem quaisquer reservas-ass.V.ULYANOV/LENIN”-cf.Leon Trotsky, My Life, op.cit., pg.487. ↑ Trotsky, My Life, op.cit., pgs. 471/473. ↑ Cf. Richard Pipes, Russia under the Bolshevik Regime, Nova Iorque, Vintage, 1995, pgs.127/129 ↑ Cf. Richard Pipes, ibid., pg. 126 ↑ Trotsky, My Life, op.cit., pg.475 ↑ Leon Trotsky, My Life, op.cit., pg.482 ↑ Cf., e.g., Orlando Figes, A People’s Tragedy, Nova Iorque, Viking, 1997, pg.802

A Revolução Permanente

Leão Trotski

Novembro de 1929

Introdução

Esta obra é consagrada a uma questão estritamente ligada à história das três revoluções russas, mas ainda vai além. No decurso destes últimos anos, essa questão teve um papel imenso nas lutas intestinas do Partido Comunista da União Soviética. Colocada. em seguida, na Internacional Comunista, desempenhou papel decisivo no desenvolvimento da revolução chinesa, determinando uma série de resoluções extremamente graves, relacionadas com a luta revolucionária nos países do Oriente. Trata-se da chamada teoria da “revolução permanente”, que, segundo os epígonos do leninismo (Zinoviev, Stalin, Bukhárin e outros), constitui o pecado original do “trotskismo”.

Após longa trégua, a questão da revolução permanente novamente levantada em 1924, de uma forma que à primeira poderia parecer completamente inesperada. Não havia nenhum motivo político para recomeçar a discussão: eram controvérsias muito tempo esquecidas. Em compensação, existiam graves razões psicológicas. O grupo dos chamados “velhos bolcheviques”, ao empreender a sua ofensiva contra mim, opôs-me inicialrnente o seu título de “velhos”. Mas, um grande obstáculo surgia em seu caminho: o ano de 1917. Por mais importante que tenha sido a história das lutas ideológicas precedentes e da preparação revolucionária, essa primeira fase, para o conjunto do Partido e para os indivíduos, encontrou sua justificação mais alta e irrevogável na Revolução de Outubro. Nenhum dos epígonos1 conseguiu passar nesse exame.

No momento da revolução de fevereiro de 1917, todos sem exceção, ocuparam as posições vulgares da esquerda democrática. Nenhum deles formulou a palavra de ordem de luto do proletariado pelo poder. Todos eles consideravam a orientação rumo a revolução socialista como absurda ou, pior ainda, como “trotskista”.

Foi nesse espírito que dirigiram o Partido até o regresso de Lênin do estrangeiro e até à publicação de suas célebres teses de 4 de abril de 1917. Depois disso, Kaménev, já em luta direta contra Lênin, procurou organizar abertamente a ala democrática do bolchevismo. Zinoviev, que chegara com Lênin, dá-lhe logo, depois, sua adesão. Stalin, muito comprometido por sua posição social-patriótica, pôs-se a margem. Deixando ao Partido tempo para esquecer os lamentáveis artigos e discursos de sua autoria durante as semanas decisivas de março, Stalin foi se aproximando, pouco a pouco, do ponto de vista de Lênin. De tudo isso, surgiu, naturalmente, a pergunta: Que aprenderam do leninismo esses dirigentes “velhos bolcheviques”, uma vez que, no momento histórico mais grave e mais cheio de responsabilidades, nenhum deles foi capaz de utilizar, por si, toda a experiência teórica e prática do Partido? Foi preciso, porém, evitar, a todo custo, a questão e substituí-la por outra. Isso explica por que se decidiu concentrar o fogo sobre a teoria da revolução permanente. É natural que os meus contraditores não tenham, então, podido prever que, depois de criarem um eixo artificial de luta, se veriam forçados, em seguida, a girar insensivelmente ao redor desse eixo e a formar, assim, uma concepção nova por método inverso.

Os pontos essenciais da teoria da revolução permanente foram por mim formulados antes dos acontecimentos decisivos do ano de 1905. A Rússia caminhava para uma revolução burguesa. Entre os sociais-democratas russos da época (trazíamos todos, então, o nome de sociais-democratas), ninguém duvidava que marchássemos precisamente para uma revo1ução burguesa isto é, para uma revolução provocada pela contradição entre o desenvolvimento das forças produtivas da sociedade capitalista e as anacrônicas relações de classe e de condição legadas pela época de servidão e da Idade Média. Lutando, nessa época, contra os narodniki (populistas) e os anarquistas, consagrei numerosos artigos e discursos à interpretação marxista do caráter burguês da revolução iminente.

Esse caráter burguês da revolução não deixava, porém, prever que classes deveriam realizar as tarefas da revolução democrática e que forma tomariam então, as relações entre as classes. Era esse, no entanto, o ponto de partida de todos os problemas estratégicos fundamentais.

Plekhanov, Axelrod, Zassulitch, Mártov e, com eles, todos os mencheviques russos, partiam do ponto de vista de que o papel dirigente numa revolução burguesa só podia pertencer à burguesia liberal, na qualidade de pretendente natural do poder. Segundo esse esquema, cabia ao partido do proletariado o papel de ala esquerda da frente democrática: a social-democracia devia sustentar a burguesia liberal na luta contra a reação, mas defender, ao mesmo tempo, os interesses do proletariado contra a burguesia liberal. Por outras palavras, os mencheviques consideravam a revolução burguesa, sobretudo, como uma reforma liberal e constitucional.

Lênin formulava o problema de modo inteiramente diverso. A libertação das forças produtivas da sociedade burguesa do jugo da servidão significava antes de tudo, para ele, a solução radical do problema agrário, no sentido de uma liquidação definitiva da classe dos grandes proprietários fundiários e de uma transformação revolucionária no domínio da propriedade fundiária. Tudo isso estava indissoluvelmente ligado à abolição da monarquia. Lênin colocara o problema agrário, que tocava nos interesses – vitais da enorme maioria da população e que constituía, ao mesmo tempo, a base do problema do mercado capitalista, com uma audácia verdadeiras mente revolucionária. Uma vez que a burguesia liberal, que se opunha aos operários, estava ligada à grande propriedade fundiária por laços numerosos, a libertação verdadeiramente democrática da classe camponesa só podia realizar-se pela cooperação revolucionária dos operários e camponeses.

Em caso de vitória, essa revolta comum contra o antigo regime devia acarretar, segundo Lênin, a instauração da “ditadura. democrática do proletariado e dos camponeses”.

Essa fórmula é, hoje, repetida, na Internacional Comunista, como um dogma geral, sem que se procure fazer a análise da experiência histórica viva do último quarto de século. Como se não tivéssemos sido atores e testemunhas da revolução de 1905, da revolução de março de 1917 e, finalmente, da reviravolta de Outubro! No entanto, uma tal análise histórica é tanto mais necessária quanto o regime da “ditadura democrática do proletariado e dos camponeses” nunca existiu na realidade. Em 1905, Lênin falava, apenas, de uma hipótese estratégica que devia ainda ser verificada pelo curso real da luta de classes. A fórmula “ditadura democrática do proletariado e dos camponeses” tinha, sobretudo, e de caso pensado, um caráter algébrico. Lênin não resolvia, de antemão a questão das relações políticas entre as duas partes da ditadura democrática eventual: o proletariado e os camponeses. Não excluía a possibilidade de serem os camponeses representados na revolução por um partido especial, independente não só da burguesia, mas também do proletariado, e capaz de fazer a revolução democrática unindo-se ao partido do proletariado na luta contra a burguesia liberal. Como veremos em seguida, Lênin admitia até que o partido revolucionário camponês formasse a maioria no governo da ditadura democrática. Desde o outono de 1902, pelo menos, isto é, desde a época da minha primeira fuga para o estrangeiro, me considerei discípulo de Lênin no que concernia ao papel decisivo da transformação agrária no destino da nossa revolução burguesa. Ao contrário do que rezam as lendas absurdas dos últimos anos, estava então perfeitamente convencido de que a revolução agrária e, por conseguinte, a revolução democrática, só podia realizar-se no curso da luta contra a burguesia liberal, pelos esforços conjugados dos operários e dos camponeses. Opunha-me, porém, à fórmula da “ditadura_democrática do proletariado e dos camponeses”, por achar que tinha o defeito de deixar sem resposta a pergunta: A qual dessas duas classes pertencerá a ditadura real? Procurava demonstrar que, a despeito de sua enorme importância social e revolucionária, os camponeses não são capazes de formar um partido verdadeiramente independente e, muito menos, de concentrar o poder revolucionário nas mãos desse partido. Em todas as revoluções passadas, a partir da Reforma alemã do século XVI e mais cedo ainda, os camponeses rebelados deram sempre seu apoio a uma das frações da burguesia das cidades, permitindo-lhe, muitas vezes, alcançar a vitória. Assim também, considerava eu que, em nossa revolução burguesa retardada, os camponeses, no momento supremo da luta, podiam prestar um auxílio análogo ao proletariado e ajudá-lo a tomar o poder. Cheguei, assim, à conclusão de que a nossa revolução burguesa – só podia realizar de fato as suas tarefas no caso de o proletariado, apoiado pelos milhões de camponeses, concentrar em suas mãos a ditadura revolucionária.

Qual seria o conteúdo social dessa ditadura? Antes de mais nada, sua missão consistiria em levar até o fim a revolução agrária e a reconstrução democrática do Estado.

Em outras palavras, a ditadura do proletariado tornar-se-ia a arma com a qual seriam alcançados os objetivos históricos da revolução burguesa retardatária. Mas esta não poderia ser contida aí. No poder, o proletariado ser ia obrigado a fazer incursões cada vez mais profundas no domínio da propriedade privada em geral, ou seja, empreender o rumo das medidas socialistas.

– Mas, realmente acreditais que a Rússia já esteja madura para uma revolução socialista? – objetaram-se muitas vezes os Stalin, Rykov e outros Mólotov dos anos 1905-1917. Sempre respondi: não, não creio. Contudo, a economia mundial e a economia européia em particular estão perfeitamente maduras para esta revolução. A ditadura do proletariado na Rússia nos conduzirá ou não ao socialismo? Em que ritmos e por quais etapas? Tudo isso dependerá do comportamento futuro do capitalismo europeu e mundial.

Eis aqui os traços essenciais da revolução permanente, tal como ela se constituiu nos primeiros meses do ano de 1905. Três revoluções ocorreram depois. O proletariado russo chegou ao poder, levado pela poderosa vaga de uma insurreição camponesa. A ditadura do proletariado tomou-se um fato consumado na Rússia antes de surgir em outros países, incomparavelmente mais desenvolvidos.

Em 1924, sete anos após a fulgurante confirmação do prognóstico histórico da teoria da revolução permanente, os epígonos desencadearam contra ela uma furiosa campanha, destacando dos meus velhos escritos frases truncadas e réplicas polêmicas que eu mesmo já havia completamente esquecido depois de tanto tempo.

A esta altura, é bom lembrar que a primeira revolução russa irrompe pouco mais de meio século após a época das revoluções burguesas na Europa e trinta e cinco anos depois da insurreição da Comuna de Paris. A Europa já havia perdido o hábito das revoluções. A Rússia as desconhecia completamente. Todos os problemas da revolução se formulavam em novos termos. É fácil compreender que a revolução que se aproximava representava~então para nós uma massa de elementos desconhecidos ou duvidosos. As fórmulas de todos os grupos não passavam, em suma de hipóteses teses de trabalho. É preciso ser totalmente incapaz de fazer um prognóstico histórico e compreender seus métodos para considerar, hoje, as avaliações e análises de 1905 como se elas datassem de ontem. Não raro digo a mim mesmo e freqüentemente repito aos meus amigos: sem dúvida nos meus prognósticos de 1905 houve grandes lacunas muito fáceis de perceber, agora, após o fato consumado. Por ventura, todos os meus críticos os previram melhor do que eu e com maior alcance? Não tendo tido oportunidade de reler meus antigos trabalhos, admitia, antecipadamente, que eles continham falhas muito graves e importantes do que na realidade apresentavam. Disso me convenci, em 1928, durante meu exílio em Alma-Ata, onde o repouso político forçado me deu o tempo necessário para reler e anotar meus velhos escritos consagrados ao problema da revolução permanente. Confio em que o leitor chegue à mesma conclusão após ler a exposição que se segue.

Embora mantendo-me nos limites desta introdução, é necessário, contudo, caracterizar, tão exatamente quanto possível, os elementos componentes da teoria da revolução permanente e as principais objeções que lhe fazem. A discussão de tal forma se ampliou e se aprofundou que abarca, em suma, todas as questões mais importantes do movimento revolucionário mundial.

A revolução permanente, na concepção de Marx significa uma revolução que não transige com nenhuma forma de dominação de classe, que não se detém no estágio democrático e, sim, passa para as medidas socialistas e a guerra contra a reação exterior, uma revolução na qual cada etapa está contida em germe na etapa precedente, e só termina com a liquidação total da sociedade de classes.

Para dissipar a confusão criada em relação à teoria da revolução permanente, é preciso distinguir três categorias de idéias que se unem e se fundem nela. De início, compreende o problema da passagem da revolução democrática à revolução socialista. Eis basicamente sua origem histórica.

A idéia da revolução permanente foi formulada pelos grandes comunistas dos meados do século XIX, Marx e seus discípulos, para enfrentar a ideologia burguesa que, como se sabe, pretende que, apos o estabelecimento de um Estado “nacional” ou democrático, todas as questões podem ser resolvidas pela via pacífica da evolução e das reformas, Marx não considera a revolução burguesa de 1848. senão como o prólogo imediato da revolução proletária. Marx se “enganou”. Mas seu erro era um erro de fato, não um erro de metodologia. A revolução de 1848 não se transformou em revolução. socialista. Esta foi a razão pela qual não alcançou o triunfo da democracia. Quanto à revolução alemã de 1918, não era absolutamente o coroamento democrático de uma revolução burguesa: era uma revolução proletária decapitada pela social-democracia, para ser mais exato, pela contra-revolução que, após sua vitória sobre o proletariado, foi obrigada a conservar as falaciosas aparências de democracia.

Segundo o esquema da evolução histórica elaborado pelo “marxismo” vulgar, cada sociedade chega, cedo ou tarde, a um regime democrático; então, o proletariado se organiza e faz sua educação socialista nesse ambiente favorável. Entretanto, no que concerne à passagem ao socialismo, nem todos a concebiam de modo idêntico: os reformistas confessos a encaravam sob aspecto de reformas que dariam a democracia um conteúdo socialista (Jaurès); os revolucionários formais – reconheciam o caráter inelutável da violência revolucionária no momento da passagem ao socialismo (Guesde). Mas, tanto uns como outros, consideravam a democracia e o socialismo, em todos os povos e em todos os países, como duas etapas não somente distintas, mas também muito distantes uma da outra na evolução social. Esta idéia predominava, de igual . modo, entre os marxistas russos que, em 1905, pertenciam quase todos à ala esquerda da Segunda Internacional. Plekhánov, o brilhante fundador do marxismo russo, considerava como louca a idéia da possibilidade de uma ditadura proletária na Rússia contemporânea. Este ponto de vista era compartilhado não somente pelos mencheviques, mas também pela esmagadora maioria dos dirigentes bolcheviques, em particular pelos atuais condutores do partido. Eles eram então democratas revolucionários convictos, mas os problemas da revolução socialista lhes pareciam, tanto em 1905 como em véspera de 1917, o prelúdio obscuro de um futuro ainda longínquo.

A teoria da revolução permanente, renascendo em 1905, declarou guerra a esta ordem de idéias e a essa disposição de espírito.

Ela demonstrava que, em nossa época, o cumprimento das tarefas democráticas, proposto pelos países burgueses atrasados, conduzia diretamente à ditadura do proletariado, que coloca as tarefas socialistas na ordem do dia. Nisto consistia a idéia fundamental da teoria. Enquanto a opinião tradicional considerava que o caminho para a ditadura do proletariado passa por um longo período de democracia, a teoria da revolução permanente proclamava que para os países atrasados, o caminho para a democracia passa a ditadura do proletariado. Por conseguinte, a democracia era considerada não como um fim em si, que deveria durar dezenas de anos, mas como o prólogo imediato da revolução socialista, à qual se ligava por vinculo indissolúvel. Desta maneira, tornava-se permanente o desenvolvimento revolucionário que ia da revolução democrática à transformação socialista da sociedade.

Em seu segundo aspecto, a “teoria da revolução permanente” caracteriza a própria revolução socialista. Durante um período, cuja duração é indeterminada, todas as relações sociais se transformam no transcurso de uma luta interior contínua. A sociedade não faz senão mudar de pele, sem cessar. Cada fase de reconstrução decorre diretamente da precedente. Os acontecimentos que se desenrolam guardam, necessariamente, caráter político, dado que assumem a forma de choques entre os diferentes grupos da sociedade em transformação. As explosões da guerra civil e das guerras externas se alternam com os períodos de reformas “pacíficas”. As profundas transformações na economia, na técnica, na ciência, na família, nos hábitos e nos costumes, completando-se, formam combinações e relações recíprocas de tal modo complexas que a sociedade não pode chegar a um estado de equilíbrio. Nisso se revela o caráter. permanente da própria revolução socialista.

Em seu terceiro aspecto, a teoria da revolução permanente implica o caráter internacional da revolução socialista que resulta do estado da economia e da estrutura social da humanidade. O internacionalismo não é um princípio abstrato: ele não é senão o reflexo político e teórico do caráter mundial da economia, do -desenvolvimento mundial das forças produtivas e do ímpeto mundial da luta de classes. A revolução socialista começa no âmbito nacional mas nele não pode permanecer. A revolução pro1etária não pode ser mantida em limites nacionais senão sob a forma de um regime transitório, mesmo que este dure muito tempo, como o demonstra o exemplo da União Soviética. No caso de existir uma ditadura proletária isolada, as contradições internas e externas aumentam inevitavelmente e ao mesmo passo que os êxitos. Se o Estado proletário continuar isolado, ele, ao cabo, sucumbirá vítima dessas contradições. Sua salvação reside unicamente na vitória do proletariado dos países avançados. Deste ponto de vista, a revolução nacional não constitui um fim em si, apenas representa um elo da cadeia internacional. A revolução internacional, a despeito de seus recuos e refluxos provisórios, representa um processo permanente.

A campanha dos epígonos é dirigida (sem ter, contudo, sempre o mesmo grau de clareza), contra os três aspectos da teoria da revolução permanente. O que é muito natural, pois se trata de três partes indissoluvelmente ligadas e formando um todo. Os epígonos separam, mecanicamente, a ditadura democrática da ditadura socialista, do mesmo modo que separam a revolução socialista nacional da revolução internacional. Para eles, a conquista do poder nos quadros nacionais representa, na essência, não o ato inicial mas sim o ato final da revolução: em seguida se abre o período de reformas que culmina na sociedade socialista nacional.

Em 1905, nem mesmo admitiam a possibilidade de o proletariado russo conquistar o poder antes de o proletariado da Europa ocidental fazê-lo. Em 1917, eles pregavam a revolução democrática na Rússia como um fim em si e repeliam a idéia da ditadura do proletariado. Em 1925-1927, na China, orientaram-se rumo a uma revolução nacional sob a direção da burguesia. Eles lançaram, em seguida, para a China, a palavra de ordem da ditadura democrática dos operários e camponeses, opondo-se à ditadura do proletariado. Proclamavam ser perfeitamente possível construir na União Soviética uma sociedade socialista isolada, bastando-se a si mesma. A revolução mundial, deixando de ser uma condição indispensável para o triunfo do socialismo, torna-se para eles, apenas, uma circunstância favorável. Os epígonos chegam assim a esta ruptura profunda com o marxismo no curso de sua luta permanente contra a teoria da revolução permanente.

Esta luta, iniciada pela ressurreição artificial de certas reminiscências históricas e pela falsificação do passado longínquo, levou a uma revisão completa das idéias do grupo dirigente da revolução. Já explicamos muitas vezes que esta revisão dos valores foi provocada pelas necessidades sociais da burocracia soviética: tornando-se cada vez mais conservadora, ela aspirava a uma ordem mundial estável; desejava que a revolução terminada, tendo-lhe assegurado uma situação privilegiada, fosse suficiente para a construção pacífica do socialismo e reclamava a consagração desta tese. Não retornaremos mais a esta questão; limitar-nos-emos a acentuar que a burocracia está perfeitamente consciente da ligação que existe entre suas posições materiais e ideológicas e a teoria do socialismo nacional. É precisamente agora que isto se torna bem mais claro, talvez porque o aparelho estalinista, assaltado por contradições que não havia previsto, se desloca cada vez mais para a esquerda e desfere golpes sensíveis em seus inspiradores de ontem, pertencentes à direita. Como se sabe, a hostilidade dos burocratas com respeito à oposição marxista, da qual tomaram emprestadas, apressadamente, as palavras de ordem e os argumentos, não se abrandou nem um pouco. Quando os oposicionistas, querendo dar apoio à política de industrialização, suscitam a questão de sua reintegração no partido, se lhes pede, antes de tudo, renegar a teoria da revolução permanente e reconhecer, mesmo por via indireta, a teoria do socialismo num só país. Com isso, a burocracia estalinista põe à mostra o caráter puramente tático de sua reviravolta à esquerda, deixando contudo íntegras as bases estratégicas de seu nacional-reformismo. A importância deste fato é evidente: em política, como na guerra, a tática, ao final de contas, se subordina à estratégia.

A questão de que tratamos já ultrapassou, há muito tempo, os quadros da luta contra o “trotskismo”. Estendendo-se cada vez mais, envolve, agora, literalmente, todos os problemas da ideologia revolucionária. Revolução permanente ou socialismo num só país. eis a alternativa em que se encontram os problemas internos da União Soviética, as perspectivas das revoluções no Oriente e, finalmente, a sorte de toda a Internacional Comunista.

Esta obra não trata da questão sob todos os seus diferentes aspectos, pois não é necessário repetir o que já ficou dito nos outros trabalhos do autor. Procurei demonstrar, do ponto de vista teórico, a falência econômica e política do nacional-socialismo em minha Critica do Programa da Internacional Comunista. Os teóricos da Internacional Comunista não disseram uma só palavra a respeito. Era, aliás, a única coisa que lhes restava fazer. No presente livro, reconstituo, antes de mais nada, a teoria da revolução permanente, tal como foi formulada em 1905, tendo em vista os problemas internos da revolução russa. Mostro, em seguida, em que diferia da de Lênin a minha maneira de colocar a questão, e como e por que coincidiu com a sua nos momentos decisivos. Trato, finalmente, de demonstrar a importância decisiva que tem o problema de que nos ocupamos para o proletariado dos países atrasados e, por conseguinte, para toda a Internacional Comunista.


Que acusações formularam os epígonos contra a teoria da revolução permanente? Deixando de lado as inúmeras contradições de meus críticos, chegamos a tirar, de sua enorme produção literária, os pontos essenciais seguintes:

1. Trotsky desconhecia a diferença entre a revolução burguesa e a revolução socialista. Ainda em 1905, acreditava que o proletariado russo tivesse diante de si, como tarefa imediata, a revolução socialista;

2. Trotsky esquecia completamente o problema agrário. Para ele, o camponês não existia. Imaginava a revolução como um duelo entre o proletariado e o czarismo;

3. Trotsky não acreditava que a burguesia mundial tolerasse a existência um tanto prolongada da ditadura do proletariado russo, cuja queda considerava inevitável no caso de o proletariado do Ocidente não conseguir conquistar o poder, no mais breve prazo, para prestar-nos o seu apoio. Trotsky subestimava, assim, a pressão que o proletariado do Ocidente podia exercer sobre a sua burguesia;

4. Trotsky, de modo geral, não tem confiança nas forças. do proletariado russo, Julgando-o incapaz de construir o socialismo com seus próprios recursos fundava, por conseguinte, e continua a fundar todas as suas esperanças na revolução internacional.

Essas acusações se repetem através dos inúmeros escritos e discursos de Zinoviev, Stalin, Bukhárin e outros; chegam mesmo a ser formuladas nas resoluções mais importantes do Partido Comunista russo e da Internacional Comunista. Mas, apesar disso, somos obrigados a constatar que o seu único fundamento é a ignorância aliada à má fé.

Como vou demonstrar mais adiante, as duas primeiras afirmações dos críticos são fundamentalmente falsas. Eu partia do caráter burguês e democrático da revolução russa e chegava à conclusão de que, a própria acuidade da crise agrária poderia levar ao poder o proletariado da Rússia atrasada. Era precisamente essa idéia que eu defendia nas vésperas da revolução de 1905. Era essa a idéia encerrada na denominação de revolução permanente, isto é, ininterrupta, passando imediatamente da fase burguesa à fase socialista. Para exprimir a mesma idéia Lênin adotou mais tarde a excelente expressão de transcrescimento da revolução burguesa em revolução socialista. Stalin, considerando a revolução permanente como um salto único do reino da autocracia para o reino do socialismo, opôs-lhe em 1924, antedatando-a, essa idéia de transcrescimento. O infortunado “teórico” nem mesmo se deu ao trabalho de refletir sobre o que poderia significar a permanência, isto é, a continuidade ininterrupta da revolução, tratasse de um salto Único?

Quanto à terceira acusação, foi ela ditada pela esperança, de curta duração, que os epígonos fundavam na possibilidade de neutralizar a burguesia imperialista por um tempo ilimitado, mediante a pressão “sabiamente” organizada do proletariado. Foi essa a idéia central de Stalin, de 1924 a 1927. O Comitê Anglo-Russo foi o seu resultado. Decepcionados em sua esperança de poder amarrar a burguesia mundial com a ajuda de aliados como Purcell, Raditch, Lafollette e Chang-Cai-Chec, os epígonos tomaram-se de pânico diante do perigo de uma guerra iminente. A Internacional Comunista atravessa, ainda hoje, esse período.

O quarto argumento contra a teoria da revolução permanente reduz-se, muito simplesmente, à constatação de que, em 1905, eu não era partidário da teoria do socialismo num só país, que Stalin só fabricou, para uso da burocracia soviética, em 1924. Essa acusação é uma verdadeira farsa histórica. A dar-lhes ouvidos, seria preciso acreditar que os meus adversários – se é que, em 1905, eram eles capazes de reflexões políticas – pensassem, nessa época, que a Rússia estava madura para uma revolução socialista independente. Na realidade, no curso dos anos de 1905-1917, não cessaram de me acusar de utopismo, porque eu admitia a possibilidade da tomada do poder pelo proletariado russo antes do proletariado da Europa ocidental. Em abril de 1917 Kaménev e Rykov acusaram Lênin de utopisrno e lhe ensinaram, sob uma forma popular, que a revolução socialista devia realizar-se, primeiro, na Inglaterra e em outros países adiantados, e que a vez da Rússia só viria mais tarde. Até 4 de abril de 1917, Stalin teve também esse ponto de vista. Foi só com muita dificuldade e gradualmente que ele assimilou a fórmula de Lênin que opunha a ditadura do proletariado à ditadura democrática. Na primavera de 1924, Stalin ainda repetia, com os demais, que a Rússia, considerada isoladamente, não estava madura para a edificação de uma sociedade socialista. Mas, já no outono do mesmo ano, no curso de sua luta contra a teoria da resolução permanente, Stalin descobriu, pela primeira vez, que era possível construir o socialismo isolado na Rússia. Depois disso, os professores vermelhos fizeram, para o seu uso, uma coletânea de citações destinadas a provar que, em 1905, Trotsky afirmava – que horror! – que a Rússia não podia chegar ao socialismo sem o auxílio do proletariado ocidental.

Mesmo pegando a história de todas as lutas ideológicas travadas no período de um quarto de século, picando-a com uma tesoura, pisando depois os pedacinhos num pilão, e encarregando, em seguida, um cego de os colar novamente, ainda assim, talvez não se conseguisse obter uma mixórdia teórica e política tão monstruosa como a que os epígonos oferecem aos seus leitores e ouvintes.


Para demonstrar mais claramente a ligação existente entre os problemas de ontem e os de hoje, somos obrigados a recordar aqui, embora sucintamente, o que os dirigentes da Internacional Comunista, isto é, Stalin e Bukhárin, fizeram na China.

Em 1924 reconheceu-se o papel dirigente da burguesia chinesa, sob o pretexto de que a China estava em vésperas de uma revolução Libertadora nacional. O partido da burguesia nacional, o Cuomintang, foi, então oficialmente reconhecido como partido dirigente. Os próprios mencheviques russos, em 1905, não ousaram fazer tais concessões ao Partido Constitucional Democrático (os “cadetes”), que era o partido da burguesia nacional.

Mas, os dirigentes da Internacional Comunista foram além. Forçaram o Partido Comunista chinês a fazer parte do Cuomintang e a se submeter à sua disciplina. Telegramas especiais de Stalin recomendaram que os comunistas chineses contivessem o movimento agrário. Proibiu-se que os operários e os camponeses revolucionários criassem Sovietes, por medo de criar suspeitas em Chang-Cai-Chec, defendido por Stalin, contra a Oposição, ainda no começo de abril de 1927, poucos dias antes do golpe de Estado de Xangai, e por ele proclamado “aliado fiel” numa reunião do Partido em Moscou.

A subordinação oficial do Partido Comunista à direção burguesa e a interdição oficial de criar Sovietes (Stalin e Bukhárin ensinaram que o Cuomintang “substituía” os Sovietes) constituem uma traição muito mais chocante e mais grosseira ao marxismo do que toda a atividade dos mencheviques de 1905 a 1917.

Em abril de 1927, depois do golpe de Estado de Chang-Cai-Chec, uma ala esquerda liderada por Vang-Tin-Vei, desligou-se provisoriamente do Cuomintang, O Pravda não deixou de proclamar imediatamente que Vang-Tin-Vei era um “aliado fiel”. Na realidade, Vang-Tin-Vei representava, em relação a Chang-Cai-Chec, a mesma coisa que Kerensky em relação a Miliukov, com a diferença de que, na China, Miliukov e Kornilov estavam reunidos na mesma pessoa de Chang-Cai-Chec.

Em lugar de preparar a guerra aberta contra esse Kerensky chinês, ordenou-se que o Partido Comunista chinês, depois de abril de 1927, entrasse no Cuomintang de “esquerda” e se submetesse à disciplina de Vang-Tin-Vei. Esse amigo “fiel” destruiu o Partido Comunista e, ao mesmo tempo, o movimento operário e camponês, nada ficando a dever aos processos do bandido Chang-Cai-Chec, proclamado aliado fiel por Stalin.

Ainda que em 1905 e mais tarde, sustentassem Miliukov, os mencheviques não chegaram a entrar no partido liberal. Embora aliados de Kerensky em 1917, conservaram, no entanto, a sua própria organização. A política de Stalin na China não passou,~pois~. de má caricatura do próprio menchevismo. Tal foi o primeiro e mais importante período da revolução chinesa.

Quando, depois, as conseqüências dessa política – deperecimento completo do movimento operário e camponês, desmoralização e ruína do Partido Comunista – se tornaram muito evidentes os dirigentes da Internacional Comunista lançaram uma nova ordem:

“Meia-volta à esquerda!” e exigiram. a revolta armada imediata dos operários e camponeses. Foi assim que o jovem Partido Comunista, já meio esmagado e estropiado, tendo sido, havia pouco, apenas a quinta roda do carro de Chang-Cai-Chec e de Vang-Tin-Vei, e, por conseguinte, sem experiência política, recebeu a ordem inesperada de conduzir os operários e os camponeses, até então retidos pela Internacional Comunista sob a bandeira do Cuomintang, à ofensiva contra esse mesmo Cuomintang que tivera todo o tempo necessário para concentrar em suas mãos o poder e o exército. No espaço de vinte e quatro horas, um Soviete fictício foi improvisado em Cantão. Essa insurreição armada foi preparada, de antemão, de maneira a coincidir com a abertura do XV Congresso do Partido Comunista da União Soviética: e foi não só a prova do heroísmo da vanguarda dos operários chineses, como o testemunho dos erros criminosos dos dirigentes da Internacional Comunista. A insurreição de Cantão foi precedida e seguida de outras aventuras menos importantes. Tal foi o segundo capítulo da estratégia chinesa da Internacional Comunista, estratégia que se poderia definir como má caricatura do bolchevismo.

Nessas duas finalidades, de liberal-oportunismo e de espírito de aventura, foi desfechado um golpe no Partido Comunista chinês, do qual só poderá refazer-se depois de uma série de anos e, ainda assim, se realizar uma política justa.

Cabia ao VI Congresso da internacional Comunista fazer o balanço de toda essa atividade; ele aprovou-a inteiramente, o que é muito compreensível: só fora convocado para isso. E, para o futuro, lançou a fórmula de “ditadura democrática dos operários e dos camponeses”. Nunca explicaram, porém, aos comunistas chineses, que diferença poderia existir entre essa ditadura e a do Cuomintang de direita ou de esquerda, de um lado, e a ditadura do proletariado, de outro lado. É verdade que isso continua inexplicável.

Ao mesmo tempo que lançou a palavra de ordem de ditadura democrática, o VI Congresso declarou inadmissíveis palavras de ordem democráticas como a Assembléia Constituinte, o sufrágio universal, a liberdade de imprensa e de reunião etc., deixando o Partido Comunista chinês completamente desarmado diante da ditadura da oligarquia militar. No entanto durante longos anos, os bolcheviques russos mobilizaram os operários e os camponeses em torno dessas pa1avras de ordem democráticas, que desempenharam, em 1917, um papel imenso. Só mais tarde, quando o poder soviético, já sendo uma realidade, entrou em colisão política violenta com a Assembléia Constituinte, aos olhos de todo o povo, é que o nosso partido suprimiu as instituições e palavras de ordem da democracia formal ou burguesa, em proveito da democracia real, soviética ou proletária.

O VI Congresso da Internacional Comunista baralhou tudo isso. Continuando a impor ao partido chinês a palavra de ordem de ditadura “democrática,” em lugar da ditadura “proletária”, proibiu-lhe, ao mesmo tempo, o uso das palavras de ordem democráticas que servem para preparar essa ditadura. O partido chinês se viu, assim, não só desarmado, mas completamente desprevenido.

Como consolo, permitiu-se, finalmente, que ele lançasse, no momento do domínio absoluto da contra-revolução, essa mesma palavra de ordem de “Sovietes” que lhe fora proibida quando se desenvolvia o movimento revolucionário. O herói de um conto popular russo entoa alegres canções nupciais nos enterros e cantos fúnebres nas festas de casamento: em ambos os casos sai sempre apanhando. Se quem apanhasse fossem apenas os estrategistas que dirigem atualmente a Internacional Comunista, a coisa não teria muita gravidade. O que está em jogo é, porém, cousa muito maior: trata-se nada menos que da sorte do proletariado. A tática da Internacional Comunista não foi outra coisa senão uma sabotagem inconsciente, mas bem organizada, da revolução chinesa. E isso se realizou de forma tanto mais segura quanto a Internacional Comunista cobriu, de 1924 a 1927, toda a sua política menchevique de direita, com a autoridade do bolchevismo, enquanto o poder soviético, por meio do seu poderoso mecanismo de represália, a defendia contra as críticas da Oposição de Esquerda.

Temos, afinal de contas, diante de nós, uma perfeita experiência da estratégia de Stalin, desenvolvida, do princípio ao fim, sob o signo da luta contra a teoria da revolução permanente. É muito natural, portanto, que o principal teórico de Stalin, encarregado de defender a submissão do Partido Comunista chinês ao Cuomintang nacional-burguês, tenha sido Martinov, que foi também o principal crítico menchevique da teoria da revolução permanente, durante o período de 1905 a 1923: a partir desse último ano, continuou ele a cumprir sua missão histórica, mas, já então, nas fileiras bolcheviques!

Sobre a origem desta obra, encontra-se o essencial no primeiro capítulo.

Em Alma-Ata, começara eu a preparar um livro teórico e polêmico contra os epígonos. Grande parte desse livro devia ser consagrada à teoria da revolução permanente. No curso do meu trabalho, recebi de Rádek, sobre o mesmo assunto, um manuscrito onde ele opunha a “revolução permanente” à linha estratégica de Lênin. Rádek precisava dessa saída, à primeira vista surpreendente, pela simples razão de que também se achava completamente atolado na política chinesa de Stalin: não só antes, como depois do golpe de Estado de Chang-Cai-Chec, Rádek, do mesmo modo que Zinoviev, invocava a necessidade da submissão do Partido Comunista chinês ao Cuomintang. Para justificar essa sujeição do proletariado à burguesia, apelava Rádek – nem era preciso dizer – pai-a a necessidade de união com os camponeses, e me censurava por ter “subestimado” essa necessidade. Seguindo o exemplo de Stalin, servia-se ele da terminologia bolchevique para defender uma política menchevique, procurando ocultar, com a fórmula da ditadura do proletariado e dos camponeses, o fato de que o proletariado chinês estava sendo desviado da luta pelo poder, luta que devia travar à frente das massas camponesas. Quando eu desmascarei toda essa mistificação de idéias, Rádek experimentou a violenta necessidade de demonstrar que a minha luta contra o oportunismo disfarçado com citações de Lênin resultava, muito simplesmente, da contradição existente entre a teoria da revolução permanente e o leninismo. E transformou a defesa dos seus próprios pecados num libelo de promotor público contra a revolução permanente. Essa intervenção serviu-lhe para preparar o caminho da própria capitulação. Desconfiei disso tanto mais que nos anos precedentes, ele mesmo se propusera escrever uma brochura para defender a teoria da revolução permanente. No entanto, abstive-me ainda de considerar Rádek um homem perdido. Procurei, então, responder ao seu artigo de uma maneira nítida e categórica, mas deixando-lhe o caminho livre para a retirada. Publico, mais adiante, minha resposta a Rádek, tal como foi redigida na época, acrescentando apenas algumas notas explicativas e correções de estilo.

O artigo de Rádek não foi publicado e duvido muito que ainda o seja um dia, porque, sob a sua forma de 1928, não poderia passar pela peneira da censura de Stalin. Tal publicação seria, hoje, aliás, mortal para Rádek, pois daria um quadro muito expressivo de sua evolução ideológica, que lembra muito a “evolução” de um homem que se precipita de um sexto andar ao chão.

O ponto de partida deste livro explica por que Rádek ocupa aí um lugar mais importante do que o que teria direito a pretender. Rádek não pôde inventar um só argumento novo contra a teoria da revolução permanente. Sua atitude é a de um epígono dos epígonos. Recomendamos, pois, que o leitor veja em Rádek, não apenas Rádek, mas o representante de uma espécie de firma coletiva, à qual ele se associou, com direitos limitados, ao preço de sua renúncia ao marxismo. Se Rádek achar, todavia, que é muito elevada a quantidade de cascudos com que o mimoseio, poderá distribuí-los, à vontade, entre os que mais os merecem. 12 um negócio interno da firma. Quanto a mim, não vejo inconveniente nisso.


Vários grupos do Partido Comunista alemão chegaram ao poder ou por ele lutaram, demonstrando sua capacidade de dirigir por meio de exercícios críticos sobre a revolução permanente. Mas, toda essa literatura, cujos autores são Máslov, Talheimer e outros, desceu a um nível tão lamentável que não vale o trabalho de uma réplica crítica. Os Thaelmann, os Remmele e outros caudilhos ultimamente nomeados estão ainda mais baixo. A única coisa que tais críticos puderam demonstrar é que nem sequer transpuseram o umbral do problema. Deixo-os, por isso… no umbral. Quem for capaz de se interessar pela crítica teórica de Máslov, Talheimer e outros, que recorra, depois de ler este livro, aos escritos dos autores mencionados, para se convencer, então, de sua ignorância e falta de escrúpulos. Esse resultado será, por assim dizer, um produto acessório do trabalho que oferecemos ao leitor.

Prínkipo, 30 de Novembro de 1929

L. TROTSKY

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