Ascetismo e Misticismo – Mestre Eckhart

 

Mestre Eckhart

INTELECTO — RAZÃO — CONHECER — CONHECIMENTO: (VERNÜNFTICHEIT (VERNUNFT), VERSTÀNDNISS (DAS ERKENNEN), INTELLEKT, ERKENNTNIS)
Excertos do glossário do tradutor, Enio Paulo Giachini, da ótima versão portuguesa dos “Sermões Alemães” de Mestre Eckhart

Todos esses termos em Eckhart se orientam para a estruturação da filiação e a dinâmica da sua difusão no mistério da encarnação, na qual o homem enquanto filho no Filho se torna a aberta, a clareira na e através da qual todos os entes do universo na sua ordenação co-participam do destinar-se da humanidade, como diferentes modulações e repercussões da Vida divina no universo. Vernünticheit, Vernunft, se refere ao ser do homem, enquanto dynamis, potência de recepção (vernehmen) dessa sorte de ser-com e ser-para a liberdade da deidade e ser como que pura passagem dessa gratuidade jovial da criatividade da deidade, que se espraia por sobre toda a criação. É dentro dessa perspectiva que todos esses termos indicativos da faculdade de conhecimento, do intelecto querem ser entendidos.

Traduzimos as palavras Vernünfticheit e Vernunft (que vêm de vernehmen), e que no latim correspondem a mens, por Intelecto e Verstündniss, que foram vertidas várias vezes em alemão moderno como (das) Erkennen, Erkenntnis, Vernunft e em português significam o conhecer, conhecimento, e também intelecto. O uso das palavras mens, intellectus e ratio no pensamento medieval não corresponde sem mais ao uso que fazemos das palavras intelecto, intelectual e razão, racional… Para nós, hoje esses termos são praticamente sinônimos, um ao lado do outro. Ao passo que, no pensamento medieval, mens indica o que é o mais próprio do homem, o ápice do ser do homem, onde se dá o toque de contato com deidade (cf. “Itinerarium mentis in Deum”, de São Boaventura). Intellectus e ratio devem ser então entendidos a partir da mens como uma presença de variação da “intensidade” de ser mens como ser do homem, na sua participação do ser de Deus. Hoje, em português, intelecto, mental não possui mais o vigor originário do latim mens, pois no uso atual conota algo como alienado, subjetivo, irreal. Assim, na nossa tradução, conforme o contexto, para Vernünticheit, Vernunft, Verstadnisse usamos intelecto (intelectual) e conhecer, conhecimento, deixando aberta a necessidade de cada vez examinar o que intelecto ou intelectual, conhecer e conhecimento querem assinalar.

E também dentro dessa perspectiva que este glossário comentado quer se colocar.

Assim, intelecto, razão, entendimento, o conhecer e o conhecimento não se referem primeiramente à faculdade do sujeito homem e seus atos correspondentes. Por isso, não devemos entender estes termos em Eckhart a partir do que comumente entendemos por eles no nosso uso cotidiano, mas antes entender a nossa compreensão usual do que seja intelecto e conhecimento a partir do que conotam esses termos dentro da perspectiva do sentido do ser do pensamento eckhartiano. Para isso é necessário primeiro explicar que aqui, neste glossário, quando usamos a expressão sentido do ser, não estamos falando da significação do ser, conceito do ser, adequação do nosso saber ao objeto, representação dentro de nós, a saber, na nossa mente, do objeto, diante, ao redor, fora de nós. O ser entendido como verbo, dinamicamente, sugere de imediato e originariamente vigir, viver, animar-se, perfazer-se, surgir-crescer-consumar-se, liberar-se, desprender-se, soltar-se nasciva, espontânea e livremente no que è o seu próprio. E isto, apesar de, no nosso cotidiano, dominar o uso do verbo ser na significação de estar ali como algo ocorrente diante de mim, à mão, ali parado, estático, à disposição do uso, ou como objeto-bloco permanente em si, do qual tenho da minha parte subjetiva impressões, sensações, representações etc. A dinâmica da espontaneidade da liberdade do próprio de si mesmo, portanto, o ser, é expressa também por a presença, o vir à fala, o vir à luz, o manifestar-se. Trata-se, pois, de um movimento no qual há e do qual vem uma condução, um ductus, um fio condutor, qual sutil tração do sabor e gosto, da graça e beleza, portanto, do fascínio da coisa ela mesma, ou melhor, da causa da propriedade de ser. Esse ductus que nos toca, vindo de e nos induzindo à dinâmica do ser, se chama sentido do ser.

A essência do homem no pensamento medieval é definida como animal racional (homo est animal rationale). Esta definição é tradução latina da determinação do ser do homem que nos gregos soava: to zóon logon echon (vivente ou ânimo atinente a lógos, isto é, à colheita do sentido do ser). Esta acepção originariamente grega do ser do homem, como acolhida do ductus que o toca, vindo de e o induzindo para a dinâmica da manifestação do ser, silenciada na sua tradução latina animale rationale, vem à fala, quando o medieval dentro da esfera da ordenação do ser que representa a dimensão humana distingue e escalona o modo de ser da diferença especifica do homem como ratio, intellectus, spiritus, e como que adentrando no ser de Deus, mens. Nessa escalação, quanto mais o homem se torna ele mesmo, como filho de Deus, tanto mais se torna in-sistência receptiva, isto é, a pura, límpida e simplesmente recepção livre e grata da doação da Abgeschiedenheit, isto é, da soltura livre do Um da igualdade na filiação divina. Essa ab-soluta receptibilidade, o ser puro nada do desprendimento na correspondência ao ab-soluto desprendimento da pura doação da deidade, recebe nos sermões alemães de Eckhart o nome de Vernünfticheit, Vernunft, no qual está o verbo vernehmen, que conota as significações de receber, aperceber, acolher, colher, captar. “Receber” em alemão se diz empfangen, mas empfangen significa também conceber, e Empfängnis significa conceição ou concepção. E a palavra conceito tem a ver com concepção. Isto significa: Tudo isso que pensamos ser uma “imagem”, uma representação, ou “ideia” reprodutiva do objeto real, dentro da “cabeça” do sujeito-homem, e nesse sentido também o conhecimento, e o conhecer como ato do homem, colocado como sujeito e agente da faculdade chamada razão, intelecto ou mente, se o intuirmos a partir e dentro da dinâmica da sua gênese, isto é, antes de se ter fixado e encaixado dentro do sentido do ser entificante da coisalidade físico-material, nos acena para uma referência direta à essência, ou ao ser do homem, a partir e dentro do ontologicum “filiação divina”, no qual recebe a possibilidade de ser filho de Deus no Filho Unigênito do Pai, caracterizado na dinâmica da vida íntima trinitária como Intelecto.

Assim considerados, termos como intelecto, intelectual, razão, racional, mente, mental, em Eckhart, não devem ser entendidos primeiramente como designações de uma das faculdades do sujeito-homem chamada intelecto, razão, mente, em diferenciação com vontade e sentimento. Indicam antes o grau de intensidade e qualificação do ser-homem enquanto este é existência humana. Assim, intelecto ou razão não exclui, mas inclui vontade, sentimento e inteligência num grau de intensidade e qualificação, o mais excelente do ser da existência-humana.

Johann[es] Eckhart, o Mestre Eckhart

(Professor e teólogo alemão )
1260 – 1327

Professor e teólogo alemão dominicano nascido em Hochheim, próximo a Gota, na Turíngia, que defendeu uma filosofia das mais originais e considerado o maior místico especulativo alemão. Ingressou na ordem dos dominicanos (1265), estudando em Estrasburgo e em Colônia, sob a influência dos ensinamentos de Tomás de Aquino. Estudou no priorado de Saint-Jacques, em Paris, tornando-se mestre em teologia (1302) e lá se iniciou como professor de teologia. Nomeado provincial dos dominicanos na Saxônia (1303) e vigário-geral para a Boêmia (1306), residiu em Estrasburgo e estabeleceu-se finalmente em Colônia (1314) como mestre dos dominicanos. Com ensinamentos centrados na união da alma individual com Deus, filosofia das mais originais, resultante da fusão de elementos gregos, neoplatônicos, árabes e escolásticos, partia da afirmação de que o homem e o mundo nada são sem Deus, produziu uma obra caracterizada por uma busca da justificação da fé que não contem o suporte da razão. Morreu em Avignon, França, sendo o autor de Opus tripartitum, Quaestiones, Pregações e Tratados, estes dois últimos em alemão. Entre seus tratados, destacam-se o Livro da divina consolação, Do homem nobre e Do desapego.

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