Alteridade – Emmanuel Levinas

Alteridade (ou outridade) é a concepção que parte do pressuposto básico de que todo o homem social interage e interdepende do outro. Assim, como muitos antropólogos e cientistas sociais afirmam, a existência do “eu-individual” só é permitida mediante um contato com o outro (que em uma visão expandida se torna o Outro – a própria sociedade diferente do indivíduo).

Relação de sociabilidade e diferença entre o indivíduo em conjunto e unidade, onde os dois sentidos inter dependem na lógica de que para individualizar é necessário um coletivo. Dessa forma eu apenas existo a partir do outro, da visão do outro, o que me permite também compreender o mundo a partir de um olhar diferenciado, partindo tanto do diferente quanto de mim mesmo, sensibilizado que estou pela experiência do contato.

Segundo a enciclopédia Larousse (1998), alteridade é um “Estado, qualidade daquilo que é outro, distinto (antônimo de Identidade). Conceito da filosofia e psicologia: relação de oposição entre o sujeito pensante (o eu) e o objeto pensado (o não eu).”

A “noção de outro ressalta que a diferença constitui a vida social, à medida que esta efetiva-se através das dinâmicas das relações sociais. Assim sendo, a diferença é, simultaneamente, a base da vida social e fonte permanente de tensão e conflito” (G. Velho, 1996)

“A experiência da alteridade (e a elaboração dessa experiência) leva-nos a ver aquilo que nem teríamos conseguido imaginar, dada a nossa dificuldade em fixar nossa atenção no que nos é habitual, familiar, cotidiano, e que consideramos ‘evidente’. Aos poucos, notamos que o menor dos nossos comportamentos (gestos, mímicas, posturas, reações afetivas) não tem realmente nada de ‘natural’. Começamos, então, a nos surpreender com aquilo que diz respeito a nós mesmos, a nos espiar. O conhecimento (antropológico) da nossa cultura passa inevitavelmente pelo conhecimento das outras culturas; e devemos especialmente reconhecer que somos uma cultura possível entre tantas outras, mas não a única.” (F. Laplantine, 2000)

Tal tema foi estudado ainda por Tzvetan Todorov em seu livro A conquista da América – a questão do outro, onde é estudado no contexto do descobrimento e a conquista da América no primeiro centenário após a primeira viagem de Colombo, basicamente no século XVI. Há ainda, contudo, menções a essas relações de alteridade em obras anteriores a Todorov, como por exemplo, em Michel de Montaigne, um dos autores dos textos a serem cruzados:

“Mas, para retornar a meu assunto, acho que não há nessa nação nada de bárbaro e de selvagem, pelo que me contaram, a não ser porque cada qual chama de barbárie aquilo que não é de costume; como verdadeiramente parece que não temos outro ponto de vista sobre a verdade e a razão a não ser o exemplo e o modelo das opiniões e os usos do país em que estamos”.

Apontamentos podem ser feitos não só durante o processo de conquista e colonização da América, mas em toda a história do contato entre diferentes povos e culturas. Por exemplo, pode-se partir desde Cortés, que procurou conhecer o outro, buscando intérpretes e estabelecendo táticas de guerra. Surge aqui uma personagem curiosa: Malinche. Ela foi dada por Montezuma aos espanhóis e acaba sendo fundamental para o processo de conquista promovido por Cortés, pois sabia a língua dos maias e astecas e posteriormente também o espanhol. Para os indígenas é o símbolo da traição, para outros é o símbolo da mestiçagem, porque Malinche não é somente bilíngüe, mas também “bicultural”, e adotou inclusive a ideologia do “outro”. Deste modo, a humanidade do outro só foi concebida quando integrada à cultura do “eu”, ocorrendo uma assimilação, uma integração da cultura do “outro” à européia, no caso.

Avançando cronologicamente na História, é possível ainda encontrar relatos de relações de alteridade no texto “Descobrindo os brancos”, de autoria de um índio ianomâmi chamado Davi Kopenawa Yanomaqui, já no século XX. Nele, as relações de alteridade mais uma vez são descritas, desta vez devido à invasão de suas terras, no estado brasileiro do Amazonas, por milhares de garimpeiros entre os anos de 1987 e 1990.

Assim, a análise crítica dessas obras pode levar à indagação de que, por vezes, os estudos históricos possam ser em parte o reflexo do modo de agir e pensar dos europeus na época da conquista, que tomaram a sua sociedade, os seus valores como o “correto” e o “modelo” a ser seguido pelos “outros”.

Há outras idéias que podem ser relacionadas ao conceito de alteridade. quando ligado à literatura, por exemplo. O “eu” que fala na obra não é mais o eu que escreve.

Emmanuel Levinas

Emmanuel Levinas (Kaunas, 30 de novembro de 1906 — Paris, 25 de dezembro de 1995) foi um filósofo francês nascido numa família judaica na Lituânia.

Bastante influenciado pela fenomenologia de Edmund Husserl, de quem foi tradutor, assim como pelas obras de Martin Heidegger e Franz Rosenzweig, o pensamento de Levinas parte da idéia de que a Ética, e não a Ontologia é a Filosofia primeira. É no face-a-face humano que se irrompe todo sentido. Diante do rosto do Outro, o sujeito se descobre responsável e lhe vem à idéia o Infinito.

Pensamento

Historicamente, está impressa na sua obra a memória dos seis milhões de judeus assassinados pelo nacional-socialismo durante a Shoah (Holocausto), aos quais dedica seu livro Autrement qu’etre (1974). Traz consigo, portanto, a inquietação de um século marcado pela dominação do homem sobre o outro homem. Nas palavras dele, “Século que, em trinta anos, conheceu duas guerras mundiais, os totalitarismos de direita e de esquerda, hitlerismo e stalinismo, Hiroshima, o goulag, os genocídios de Auschwitz e do Cambodja. Século que finda na obsessão do retorno de tudo o que estes nomes bárbaros significam. Sofrimento e mal impostos de maneira deliberada, mas que nenhuma razão limitava na exasperação da razão tornada política e desligada de toda a ética”.

Filosoficamente, Levinas percebe que o pensamento ocidental, a partir da filosofia grega, desenvolveu-se como discurso de dominação. O Ser dominou a Antigüidade e a Idade Média, sendo depois substituído pelo eu desde a época moderna até os nossos dias, porém sempre sob o mesmo sinal: a unidade unificadora e totalizante que exclui o confronto e a valorização da diversidade, entendida como abertura para o Outro. A obra de Levinas transmite o alerta de uma emergência ética de se repensar os caminhos da filosofia a partir de um novo prisma, de se partir do e já em direção ao Outro. Uma tal inspiração Levinas buscará na sabedoria bíblico-judaica.

Confrontando a filosofia ocidental, dialoga constantemente com os pensadores da tradição, como Platão, Descartes, Kant, Hegel, Bergson, Husserl e Heidegger. Esses dois últimos estão sempre presentes em sua obra, seja partindo deles, seja já tentando superá-los. A propósito, afirma: “quase sempre, começo com Husserl ou em Husserl, mas o que digo já não está em Husserl” e, em outro lugar: “Apesar do horror que um dia veio associar-se ao nome de Heidegger — e que nada poderá dissipar — nada conseguiu desfazer em meu espírito a convicção de que Sein und Zeit, de 1927, é imprescritível”. De Descartes, Levinas guarda a descoberta da idéia do infinito, tomada como orientação metafísica para a sua ética. Contudo, é com Franz Rosenzweig que comunga suas maiores intuições, autor esse “presente demais para ser citado” segundo Levinas.

Fragmentos

“O Outro metafísico é outro de uma alteridade que não é formal, de uma alteridade que não é um simples inverso da identidade, nem de uma alteridade feita de resistência ao Mesmo, mas de uma alteridade anterior a toda a iniciativa, a todo o imperialismo do Mesmo; outro de uma alteridade que não limita o Mesmo, porque nesse caso o Outro não seria rigorosamente Outro: pela comunidade da fronteira, seria, dentro do sistema, ainda o Mesmo. O absolutamente Outro é Outrem; não faz número comigo. A coletividade em que eu digo ‘tu’ ou ‘nós’ não é um plural de ‘eu’. Eu, tu, não são indivíduos de um conceito comum.” (extraído de LEVINAS, E. Totalidade e infinito. Trad. José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1988, p.26.)

O rosto

“O modo como o Outro se apresenta, ultrapassando a idéia do Outro em mim, chamamo-lo, de fato, rosto. Esta maneira não consiste em figurar como tema sob o meu olhar, em expor-se como um conjunto de qualidades que formam uma imagem. O rosto de Outrem destrói em cada instante e ultrapassa a imagem plástica que ele me deixa, a idéia à minha medida e à medida do seu ideatum — a idéia adequada. Não se manifesta por essas qualidades, mas kath’autó. Exprime-se. ” (extraído de LEVINAS, E. Totalidade e infinito. Trad. José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1988, p.38.)

A idéia do Infinito

“Voltando à noção cartesiana do infinito — ‘à idéia do infinito’ colocada no ser separado pelo infinito — retém-se a sua positividade, a sua anterioridade relativamente a todo o pensamento finito e a todo o pensamento do finito, a sua exterioridade em relação ao finito. Foi a possibilidade do ser separado. A idéia do infinito, o transbordamento do pensamento finito pelo seu conteúdo, efetua a relação do pensamento com o que ultrapassa a sua capacidade, com o que a todo o momento ele apreende sem ser chocado. Eis a situação que denominamos acolhimento do rosto. A idéia do infinito produz-se na oposição do discurso, na socialidade. A relação com o rosto, com o outro absolutamente outro que eu não poderia conter, com o outro, nesse sentido, infinito, é no entanto a minha Idéia, um comércio. Mas a relação mantém-se sem violência — na paz com essa alteridade absoluta. A ‘resistência’ do Outro não faz violência, não age negativamente, tem uma estrutura positiva: ética. A primeira revelação do outro, suposta em todas as outras relações com ele, não consiste em apanhá-lo na sua resistência negativa e em cercá-lo pela manha. Não luto com um deus sem rosto, mas respondo à sua expressão, à sua revelação. ” (extraído de LEVINAS, E. Totalidade e infinito. Trad. José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1988, p.176.)

O desejo metafísico

“«A verdadeira vida está ausente.» Mas nós estamos no mundo. A metafísica surge e mantém-se neste álibi. Está voltada para o «outro lado», para o «doutro modo», para o «outro». Sob a forma mais geral, que revestiu na história do pensamento, ela aparece, de facto, como um movimento que parte de um mundo que nos é familiar – sejam quais forem as terras ainda desconhecidas que o marginem ou que ele esconda – , de uma «nossa casa» que habitamos, para um fora-de-si estrangeiro, para um além. O termo desse movimento – o outro lado ou o outro – é denominado outro num sentido eminente. Nenhuma viagem, nenhuma mudança de clima e de ambiente podem satisfazer o desejo que para lá tende. O Outro metafisicamente desejado não é «outro» como o pão que como, como o país em que habito, como a paisagem que contemplo, como, por vezes, eu para mim próprio, este «eu», esse «outro». Dessas realidades, posso «alimentar-me» e, em grande medida, satisfazer-me, como se elas simplesmente me tivessem faltado. Por isso mesmo, a sua alteridade incorpora-se na minha identidade de pensante ou de possuidor. O desejo metafísico tende para uma coisa inteiramente diversa, para o absolutamente outro.” (extraído de LEVINAS, E. Totalidade e infinito. Trad. José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, 1988, p.21.)

A in-condição humana

“Podemos mostrar-nos escandalizados por esta concepção utópica e, para um eu, inumana. Mas a humanidade do humano — a verdadeira vida — está ausente. A humanidade no ser histórico e objetivo, a própria aberta do subjetivo, do psiquismo humano, na sua original vigilância ou acalmia, é o ser que se desfaz da sua condição de ser: o desinteresse. É o que quer dizer o título do livro: ‘de outro modo que ser’. A condição ontológica desfaz-se, ou é desfeita, na condição ou incondição humana. Ser humano significa: viver como se não se fosse um ser entre os seres. Como se, pela espiritualidade humana, se invertessem as categorias do ser, num ‘de outro modo que ser’. Não apenas num ‘ser de modo diferente’; ser diferente é ainda ser. O ‘de outro modo que ser’, na verdade, não tem verbo que designe o acontecimento da sua in-quietude, do seu desinteresse, da impugnação deste ser — ou do esse — do ente. (…) De fato, trata-se de afirmar a própria identidade do eu humano a partir da responsabilidade, isto é, a partir da posição ou da deposição do eu soberano na consciência de si, deposição que é precisamente a sua responsabilidade por outrem. (…) Tal é a minha identidade inalienável de sujeito .” (extraído de LEVINAS, E. Ética e Infinito: diálogos com Philippe Nemo. Trad.: João Gama. Lisboa: Edições 70, 1988, p.92-93.)

Ser, guerra e totalidade

“A face do ser que se mostra na guerra fixa-se no conceito de totalidade que domina a filosofia ocidental. Os indivíduos reduzem-se aí a portadores de formas que os comandam sem eles saberem. Os indivíduos vão buscar a essa totalidade o seu sentido (invisível de fora dela). A unicidade de cada presente sacrifica-se incessantemente a um futuro chamado a desvendar o seu sentido objetivo. Porque só o sentido último é que conta, só o último ato transforma os seres neles próprios. Eles serão o que aparecerem nas formas, já plásticas, da epopéia. ” (extraído de LEVINAS, E. Totalidade e Infinito. Trad.: José Pinto Ribeiro. Lisboa: Edições 70, s/d, p.10.)

A responsabilidade frente ao Deus ausente

“Deus que vela sua face não é, pensamos, uma abstração de teólogo nem uma imagem de poeta. É a hora em que o indivíduo justo não encontra nenhum recurso exterior, em que nenhuma instituição o protege, em que a consolação da presença divina no sentimento religioso infantil se nega também, em que o indivíduo apenas pode triunfar em sua consciência, ou seja, necessariamente no sofrimento. Sentido especificamente judeu do sofrimento que não toma em nenhum momento o valor de uma expiação mística pelos pecados do mundo. A posição de vítimas em um mundo em desordem, ou seja, em um mundo onde o bem não chega a triunfar, é sofrimento. Ele [o sofrimento] revela um Deus que, renunciando a toda manifestação solícita, convoca à plena maturidade do homem responsável integralmente. Mas no mesmo instante, este Deus que vela sua face e abandona o justo à sua justiça sem triunfo — este Deus longínquo — vem do interior. Intimidade que coincide, para a consciência, com o orgulho de ser judeu, de pertencer concretamente, historicamente, estupidamente ao povo judeu. “Ser judeu, isso significa… nadar eternamente contra a imunda e criminosa correnteza humana… Eu sou feliz em pertencer ao povo mais infeliz de todos os povos da terra, ao povo cuja Thorá representa o que há de mais elevado e de mais belo nas leis e ensinamentos.” A intimidade do Deus viril se conquista numa provação extrema. Por minha pertença ao povo judeu que sofre, o Deus longínquo se torna meu Deus. “Agora eu sei que tu és verdadeiramente meu Deus, pois tu não saberias ser o Deus daqueles cujos atos representam a mais horrível expressão de uma ausência de Deus, militante.” O sofrimento do justo por uma justiça sem triunfo é vivido concretamente como judaísmo. Israel — histórica e carnal — tornando-se novamente categoria religiosa.” (extraído de «Aimer la Thora plus que Dieu», In: LEVINAS, E. Difficile Liberté: essais sur le judaisme. Paris: Albin Michel, 1963/ Librairie Générale Française, 1984 (Le Livre de Poche), p.201-206.)

Mas Quem Era Levinas?

Judeu praticante. Sua família migrou para Ucrânia. Lá viveu a revolução de 1917. Voltou para a Lituânia depois desse período. Em sua obra podemos perceber nitidamente a influência de alguns escritores russos, como Tolstoi, Dostoievski, entre outros. Levinas viajou para a França e lá descobriu Husserl, conheceu pessoalmente Heidgger. Tais filósofos, também influenciariam sua obra.
Levinas “serviu” na guerra como tradutor do alemão e do russo. Numa das batalhas foi preso pelo exército nazista. Porém os alemães não o mataram. Após o cárcere reencontrou sua esposa e filha que também haviam sobrevivido, graças a grupos religiosos que as acolheram (a mulher foi salva por um grupo religioso e a filha por outro). Levinas descobriu, porém, que toda a sua família na Lituânia havia sido dizimada.
Diante de tanto sofrimento o filósofo acaba por perguntar-se: “Por que estou vivo?”, “O que fazer com a vida, agora?”.
Levinas faz uma análise do que foi a segunda grande guerra e desacredita a Razão prática ocidental, especialmente a européia. Junto com sua crítica, Levinas se pergunta: “O que fazer?”. “Qual caminho seguir?”.
Pivatto comenta que o que Levinas procura fazer é buscar “A dignidade e o sentido do ser humano.”.
Pode-se perceber, em Levinas, uma forte carga bíblica – judaica. A Tora e os profetas. Levinas tem em seu desenvolvimento intelectual as dimensões:

Filosófica,

Literária (em seus artigos) e “midras”, comentários ao Talmud (espécie de fusão entre o texto rabínico e a Tora. Método hermenêutico e filosófico).

Levinas acreditava que uma (re) novação social seria possível através de uma leitura moderna da Bíblia, ou ainda do judaísmo.
O método utilizado por Levinas é o fenomenológico. Em certos pontos o autor vai além, permanecendo, porém: fenomenológico (devido a influência de Husserl) . Alguns críticos dizem que Levinas não é um filósofo. Mas, o próprio Levinas, sempre considerou a si mesmo como um.
A critica de Levinas é feita contra a Moral / Razão, que segundo Pivatto, esquematizada, Apresenta-se assim:

Levinas crítica e “funde” essas quatro vertentes clássicas que “formam” a Moral / Razão. Porém, coloca na Moral e na Razão ao invés do SER, o BEM. Para Levinas o modelo europeu está obsoleto, ultrapassado. Esse é o aspecto negativo em Levinas. O aspectopositivo é que tudo isso pode ser transformado se nos pusermos à “Escuta”. A “Escuta” do que? A “Escuta” do “Outro”.
Em Levinas essa “Escuta”, que já se achava de certo modo em Heidgger, é a “Escuta” do “Outro”. Com isso passa-se a busca do sentido do “Outro”. Essa busca do “Outro” não pode ser analisada a partir de uma totalidade. Isso é uma crítica que Levinas faz a Hegel. Para Levinas, se o “Outro” for analisado a partir de uma totalidade, haverá uma anulação do “Outro”. Nesse tipo de análise, é como se ele (o “Outro”) fosse parte de um todo, e, se é parte de um todo é apenas uma parte, não é um “mistério” (“mistério”: termo que Levinas abandona nas etapas finais de seus escritos). Para Levinas, numa análise assim, acabaríamos por perdermos a dimensão do “Outro” mesmo, ele (“Outro”) a partir de si mesmo.
Para Levinas o “Outro”, o Ser Humano deve ser respeitado em sua totalidade, em sua dimensão mais ampla. “É o respeito ao outro a partir dele mesmo”. Segundo Pivatto, Levinas é responsável por um pensamento muito importante para a atualidade e para a Filosofia que é o da “facticidade da alteridade do outro.”: “A facticidade do Outro”.
Pivatto coloca que Levinas usava a seguinte imagem: O Eu é separado do “Outro” por um abismo. Porém deve-se construir uma ponte, para a comunicação. Cabe ressaltar que essa ponte que se constrói, não se constrói porque se busca o complemento no “Outro”, ou porque se busca uma troca, não. O que se busca é apenas o diálogo. Não levamos, trazemos ou trocamos; apenas dialogamos.
Em seu livro “Total do Infinito”, Levinas se pergunta e desafia com a seguinte questão: “Não estamos nos iludindo com a Moral?”. “Como deve ser entendida a Razão?”. “Como devemos entender a Liberdade?”. Levinas questionava se realmente devemos entender a razão como Kant a entendia. Questiona-se se deveríamos entender a Liberdade como a Revolução Francesa a entendia. Para Levinas havia um problema, na medida em que se verificava “um divórcio, entre a Política e a Moral”. Levinas verificava que “a Moral era para o indivíduo e a Política para a sociedade”. Em Levinas encontramos a célebre frase que diz que a “Política é a arte de prever e ganhar a guerra por vários meios”. Com essas constatações e críticas Levinas chega à conclusão de que “a Moral ocidental contém em si, o germe da guerra”.
Para Pivatto, Levinas não é um filósofo nato. O autor vai trocando ao longo de sua obra os termos que usa, ou melhor, os termos vão adquirindo outros sentidos ao longo de sua produção. Essa é uma das dificuldades de ler Levinas. Ele utiliza-se de termos clássicos da Filosofia, mas com um sentido diferente, novo.
Um problema filosófico que é encontrado em Levinas é a questão da Verdade e da Justiça. Se fosse perguntado a um filósofo ocidental o vem antes a Verdade ou a Justiça o que ele responderia? Para Levinas só há Liberdade amparada na / pela Verdade. Levinas critica a Liberdade, a Razão e a Subjetividade.
Dentro de seu raciocínio Levinas se pergunta: “O que é Conhecer?”. Segundo o modelo de Husserl, conhecer é a relação entre Sujeito – Objeto. Mas para Levinas Conhecer é um “nascer” com.“NASCER”. Não é um ato, mas um acontecimento. NASCER + COM, estar junto. Não é objetivar, só. Levinas vai além e diz que conhecer não é algo, mas “alguém que vem a mim” (o “Outro”que vem ao “Eu”). Para Pergentino o conceito proposto por Levinas requer a totalidade de todo o Ser, não só os sentidos: olfato, visão, paladar, audição e o tato, mas todo o Ser. O modelo de Levinas não admite idealização, representação. É o “Outro” que é acolhido em “carne e osso”. Em Levinas encontramos a expressão “Rosto”. Temos um “rosto” em nossa frente um “Outro”. O próprio Levinas se pergunta como é possível isso; acolher o “Outro”. “Como é possível acolher o Outro sem formar dele uma representação?”. Para isso, segundo Levinas, é necessário uma ruptura total com o “monismo”, o “naturalismo” e os “teísmos”. Levinas delega a Metafísica um novo sentido. Para Levinas “A Metafísica se reconstrói na relação histórica entre o EU e o OUTRO”. Há uma relação Metafísica. Uma relação e uma separação. Ao mesmo tempo em que se relacionam (o “Eu” e “Outro”) estão separados não se misturam, preservam a sua personalidade, seu “mistério”. É uma relação Metafísica e transcendente. É um conceito diferente de Metafísica que se encontra em Levinas, fato pelo qual, como já foi comentado torna-se muitas vezes difícil a leitura desse autor.
Levinhas propõe um movimento do “Eu” em direção ao “Outro”. O Eu todo se movimenta. Pede ajuda, ou acolhe. Nessa relação não há objetivação nem complementação (o que também seria objetivação). Para Levinas “o ser humano é capaz de ir além da Liberdade”. Uma figura, imagem freqüentemente encontrada em Levinas é a da “Casa Aberta” e a das “Mãos Abertas”. Sempre são considerados como elementos da relação: os pobres, a viúva, o órfão e o estrangeiro. Figuras, aliás, muito atuais e bíblicas.

Levinas, como já foi dito, é contra a Retificação = Representação.

Levinas fez uma leitura diferenciada de Descartes. Mais especificamente da “3º Meditação”, que fala sobre o “Infinito”. A partir dessa leitura Levinas nos propõe um novo modelo. Segundo Descartes a “idéia” é finita e o “Infinito”, por ser infinito, pertence a Deus. A “idéia” não pode abarcar o “Infinito”. A “idéia” pode objetivar, representar, porém não o pode conhecer o “Todo”. Levinas coloca então, no lugar do “Infinito”, o “Outro”. Para Levinas da mesma forma que não podemos conhecer o “Infinito”, não podemos conhecer o “Outro”.
“O Ser Humano não é um objeto”, para Levinas. Ao criticar a Razão que é falha, Levinas a destrona de seu posto para acolher o “Outro”. A Razão é ensinada pelo “Outro”, pelo infinito. Há uma espécie de propedêutica para esse estudo segundo Pivatto. Na realidade Levinas se dá o trabalho de (re) pensar o homem desde o início. Todo o homem novamente. Seu raciocínio é transpassado pela Ética. Ele não parte do nada por si só, mas parte do “Há”! Não há “ente” para Levinas, só o verbo, só o “Há”…
E o que há no íntimo do homem é a plenificação, o “gozo” dos sentidos: A Sensibilidade. Para Levinas “a Felicidade é o próprio existir”, a própria forma de existir é a Felicidade. Nesse ponto encontramos outra frase que resume bem o pensamento de Levinas: “O homem que come é o homem mais justo de todos.”. Levinas coloca que quando, ou enquanto isso não acontecer totalmente haverá injustiça… Em Levinas, então encontramos uma dimensão material, também.
Referente ao Psiquismo, Levinas coloca que este parte de si mesmo. É uma expressão “que vem de dentro para fora”. “O homem e o meio estão visceralmente casados”, por isso deve haver harmonia. Um ponto bastante interessante em Levinas é o que tange ao “Ateísmo”. O filósofo usa esse termo com um novo sentido. Para Levinas o homem que vem é ateu. Ou seja, o “ser que surge”, inconsciente, não sabe de Deus, nem sabe do “Outro”. Procura, assim somente sua auto – afirmação e sua auto – satisfação. Para Levinas a “o corpo precede a consciência”. A consciência necessita do corpo para se encarnar. Esta é, para Levinas, uma condição de possibilidade: A consciência depende do corpo físico. Outro ponto interessante na obra de Levinas é a Economia. A Economia surge com a utilização, com “o uso da mão”. A mão utiliza-se dos objetos, querendo com isso satisfazer os sentidos, o “gozo”.
Para Levinas a “Teoria” surge a partir do psiquismo, quando esse encontra uma “insuficiência na ação”. Quando as coisas não se resolvem com o uso da Economia, da mão, do corpo, surge, então a teoria. A “prática falha”, ou que falha ocasiona uma “desconfiança de si” e sugere uma “auto – afirmação” para reforçar a própria “autonomia”. É aqui que surge uma nova crítica de Levinas a Filosofia e ao pensamento ocidental.
A “insuficiência dos atos” nem sempre foi analisada, já a “auto – afirmação”, a autonomia humana sempre foi tida como mais importante.
Nesse ponto Levinas se pergunta: “Seria possível criticar a Liberdade ocidental sem que com isso cause “escândalo” ou se pense que seria um retorno a barbárie?”. Levinas coloca que apesar da Liberdade que é tão “endeusada” há um “mal do ser”. Esse “mal do ser”, consiste na “solidão da Razão”. Não existe a alteridade, o “Outro”. Não há mais ninguém além de mim mesmo”. Esse é o problema da atualidade: O individualismo ao invés da individualidade.

Frase

“A política opõe-se a moralidade, como a filosofia à ingenuidade.”

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