Autoconhecimento – A Busca de Si Mesmo

Em filosofia, o autoconhecimento ou conhecimento de si é ou um objeto de investigação epistemológica ou é a finalidade de uma busca de natureza ética. Quando visto como objeto da investigação epistemológica, o que se busca é a explicação de como e o que é conhecido. Quando visto como projeto ético, o que se busca é a realização de algo que leve o sujeito a ser mestre de si mesmo e, conseqüentemente, um ser humano melhor.

Autoconhecimento como objeto de investigação epistemológica

O conhecimento de si distingue-se do conhecimento de outras coisas (as coisas exteriores ao sujeito) por ser imediato, no sentido de não depender de evidências. Pode-se dizer que o autoconhecimento é fruto da introspecção. O sujeito tem acesso privilegiado aos próprios pensamentos, isto é, conhece os próprios pensamentos de uma maneira que os outros usualmente não conhecem. Tal acesso privilegiado é a marca da autoridade da primeira pessoa, pois usualmente o que o sujeito diz sinceramente que pensa deve ser considerado como o que ele pensa, enquanto o que uma outra pessoa diz que o sujeito pensa usualmente não é um relato que desfrute da mesma autoridade.

Autoconhecimento como projeto ético

Filósofos como Platão, Spinoza, Freud e Moran fazem parte de uma tradição que vê o autoconhecimento como uma conquista ou realização que traz saúde e liberdade para a pessoa. Esse projeto ético tem suas raízes no dito do oráculo de Delfos que tanto influenciou Sócrates: Conhece-te a ti mesmo.

De acordo com essa tradição, o autoconhecimento é uma realização, ao invés de algo dado ou prontamente disponível ao sujeito. Para conhecer-se a si mesmo, o sujeito precisa refletir, e interpretar a si mesmo.

Há subdivisões dentro dessa tradição. Primeiro, há os filósofos da antigüidade que viam o autoconhecimento como algo bom por si ou por fins práticos. Segundo, autores confessionais, como Agostinho e Rousseau. Terceiro os que vêem o autoconhecimento como algo moralmente valioso, mas difícil de ser alcançado por causa da natureza inefável do sujeito. Entre os defensores de tal posição está Nietzsche, em alguns momentos. Quarto os que vêem o autoconhecimento como uma autocrítica. Tal posição é encontrada no Eclesiastes, em Spinoza, em Nietzsche, Heidegger, Sartre e Moran.

O CONHECIMENTO DO HOMEM SOBRE SI MESMO

Será que o homem conhece totalmente a si mesmo? Esta questão caminha com o homem por toda história da humanidade, porém, naquele contexto histórico, o ser humano, através da evolução foi conhecendo tudo o que estava ao seu redor, buscando o conhecimento de si mesmo. Com certeza é uma pergunta que já foi feita por muitas pessoas, que procurando conhecer o homem, está procurando também conhecer a si mesmo.

Esta questão assombra a humanidade, com isso o ser humano conquistou vários objetivos, a ciência está cada vez mais evoluída e trazendo novos experimentos, enfim, a humanidade busca a cada instante conhecer algo novo, uma nova descoberta, conhece outros universos, planetas, pode até fazer previsões do futuro ,ou seja, conhece muito, mas, não o suficiente para esgotar ou limitar o conhecimento sobre si mesmo.

Segundo Ernst Cassirer o homem:

“é a criatura que está em contínua procura de si mesmo e que todos os momentos de sua existência, precisa escrutar as condições da mesma” (CASSIRER, 1997,p.22)

A cada dia o homem deve se fazer uma auto-análise de sua vida e de si mesmo, estar buscando através da procura de si uma realização para o seu próprio Eu, como diz Sócrates que “uma vida que não é examinada não vale a pena ser vivida”. O conhecimento de si é a primeira condição da auto realização. Precisamos tentar desatar as amarras que nos traz atados ao mundo exterior para podermos gozar de nossa verdadeira liberdade. Mas para adquirir o conhecimento de si mesmo, é necessário a convivência com o próprio ser humano, que para compreender-se e compreendê-lo é necessário defrontá-lo face a face.

O auto conhecimento é uma das verdades ensinada pelos filósofos antigos como, por exemplo, Sócrates, que na frase: ” conhece-te a ti mesmo”, cujo pensamento representa desenvolver a consciência de si mesmo, observação, reconhecimento, aceitação, transformação e harmonização dos próprios sentimentos, corpo, pensamentos e relembrar o sentido e significado da própria vida para poder direcioná-las. Fazer uma reflexão realista das próprias capacidades, talentos, dificuldades e bloqueios, de modo a desenvolver um encontro consigo mesmo elevando sua auto-estima e autoconfiança.

É através do conhecer-se que existe a capacidade e as possibilidades de realização dos seus sonhos, porque a pessoa se descobre e entra em contato com sua natureza essencial, resgata seu propósito de vida e fortalece a sua vontade.

Ao desenvolver o autoconhecimento, o homem pode atrair e conquistar o que almeja, assumindo a responsabilidade, conseqüências e usufruindo destas vantagens, pois sabe o que quer e traçar planos e metas de como realizar.

Na verdade não existe outro caminho que possamos conhecer o homem, se não for pela compreensão de si mesmo, sem compreendê-lo, sem compreender a sua vida e seu comportamento. Portanto, o ser humano é compreendido à medida que se deixa relacionar com o outro, sendo que cada qual faz parte da vida de cada Ser, de forma direta ou indireta. Não é permitido que, filosoficamente falando, possa se construir um homem artificial, mas pode-se procurar descrever um ser humano verdadeiro.

Voltando a questão inicial, uma das grandes dificuldades do ser humano é conhecer a si mesmo, pois para isso é necessário uma viagem interior,navegar em si mesmo é procurar dentro de si quem realmente é. É mergulhar nas profundezas do seu ser. Esta viagem às vezes pode ser angustiante, quando você começa questionar a si mesmo, fazer perguntas que nem você e ninguém possa responder, surgindo a partir daí uma série de questionamentos, podendo chegar a uma crise ontológica existencial, quando se questiona: Quem sou eu? De onde eu vim? Para onde eu vou?

Para estas perguntas não existem respostas pronta e definida por ninguém, é cada qual construir o seu caminho, mas vale dizer que o homem cresce a partir da observação de si mesmo, é voltar para si, para o seu Eu interior. No entanto, é possível encontrar na filosofia de Heráclito esta reflexão sobre o auto conhecimento na seguinte frase: “procurei por mim mesmo”. É procurar por você e se encontrar dentro de você mesmo, sendo que este encontro seja harmonioso, que após encontrar-se exista uma realização, particular e mútua.

Observando-se interiormente o ser humano passa a se conhecer e a partir do momento que o homem se conhece, ele começa a se identificar como um ser que vive em comunidade numa relação. Esta convivência comunitária ajuda o homem na sua procura interior onde ele possa se identificar com o outro e assim, ocorre um processo mútuo de transformação recíproca, onde comprova que, para conhecer a si mesmo também é necessário conhecer o outro, respeitando sua originalidade, não querendo ser o outro e nem querer que o outro seja você.

As vezes é necessário também que o ser humano seja também individual, onde ele reflete através de suas angústias dores e sofrimentos podendo assim haver uma intimidade, uma liberdade com ele mesmo, no qual contribuirá para o conhecimento de si.

O homem é um Ser que questiona as coisas e também a si mesmo. É questionante e questionado.

Este Ser questiona e se questiona porque ele existe. É capaz de pensar, e por isso tem a capacidade de questionar e de procurar o sentido do Ser. Ao se questionar o homem entra em um ritmo de autoconhecimento, levando em consideração: O que é? E quem ele é? Para quem é? Para chegar a descoberta do seu próprio Eu é necessário às vezes fazer e seguir estes, e outros questionamentos no qual ele traz um reflexão inteiramente pessoal que contribui nesta auto-descoberta de si. Para isso também é importante haver uma abertura, é estar aberto para conhecer-se. Na medida em que esta abertura para si ocorre à abertura para o outro, é abrir espaço para si, para fazer parte da própria vida e história.

Mas o que é de fundamental importância é que o processo de conhecimento do homem também é um processo de construção. É construir a si mesmo, não como um processo tecnológico, onde a máquina já deixa tudo pronto, um igual ao outro, é um processo “artesanal”, onde o artesão constrói a escultura com todo cuidado, observando todos os detalhes, corrigindo a cada defeito modelando o Ser, ofertando um pouco de si para o outro, para que este outro seja também parte dele, é como se o homem se construísse, e ainda não se definisse. Na medida em que vai se descobrindo, vai havendo uma transformação que o Ser vai acompanhando de forma bem próxima, partindo de si mesmo. Este que se constrói, que se transforma, se descobre, se faz parte de si, é também aquela obra inacabada, que a cada instante tem algo a ser modificado e transformado.

Mas sabemos que existem vários tipos de esculturas, como aquelas que são construídas de maneira suave e delicada, ou também aquelas que são de forma mais rígida grosseira, às vezes é necessário alguns instrumentos rígidos que só utilizando a forma pode-se fazer a obra. É como se a cada instante de nossa vida e a cada martelada fossemos aos poucos dando forma ao Ser. Este tipo de construção pode às vezes ser até dolorosa, mas é compensador o resultado da obra acabada.

A cada instante em que o homem se descobre, ele também vai se construindo, transformando-se, partindo de uma matéria bruta, para uma obra prima. Esta construção vai sendo formada aos poucos, sem tempo determinado. É deixar que o tempo faça o seu trabalho.

Volta-se a pergunta: Será que o homem conhece totalmente a si mesmo? O ser humano é o Ser que está em constante construção, é uma obra inacabada. Sempre existe algo a ser retocado, remodelado, ou às vezes até reconstruído. Mas, para isso acontecer é necessário deixar-se construir para assim aproximar-se ao máximo de sua realização como Ser, por isso o ser humano jamais conhece a si mesmo como totalidade, mas vai se conhecendo à medida que vai se construindo.

Benefícios do autoconhecimento

Autoconhecimento é, independentemente de crenças e religiões, o maior conhecimento do homem. Apenas através deste podemos sair da “caixa” que é nosso próprio cérebro. Não podemos entender o todo quando acreditamos que o todo é nossa própria experiência de vida.
Todas as nossas percepções e idéias são provenientes de conexões neuronais, as quais se formam ao passar dos anos dependendo de nossas experiências. Dizer o quanto da formação dessas idéias vem da experiência e o quanto vem da herança genética e/ou espiritual sempre foi um desafio, mas o objetivo aqui é apenas discutir os efeitos do autoconhecimento.

Podemos identificar um personagem que não sente felicidade ao vivenciar uma vida comum. Se desanima quando as coisas se tornam familiares e se entristece ao perceber que o que as pessoas fazem, em sua opinião, é correr em círculos (em busca de algo que nunca alcançarão, procurando por coisas novas que as façam feliz, se cansando delas para depois procurar outras, num ciclo interminável). Este acusa o mundo de ser louco (onde pessoas buscam e buscam e nunca se satisfazem, onde a vida não tem um sentido definido).

Até onde o autoconhecimento poderia ajudar nosso personagem?

Compreender que sua visão do mundo não é o mundo real e que para encontrar seu sentido não deve tentar compreendê-lo, mas senti-lo… Não colocaria o personagem no caminho certo?

Será que ao perceber sua ansiedade e seus malefícios não poderia gradualmente aprender a viver momentos minimizando sua preocupação com o sentido daquilo, com o que já foi e com o que ainda vai ser?

Poderia ao menos treinar a acalmar sua mente.
Será que poderia aumentar sua compreensão de que a própria vivência e aproveitamento do momento já pode se tornar o prório sentido deste momento?

Será que o simples conhecimento desses fatores podem influenciar efetivamente o bem-estar do personagem?

Observar que as pessoas criam objetivos superficiais afim de suprir suas necessidades de felicidade entristece o personagem. Talvez tenha lhe faltado convivência com pessoas que não precisam de nada para serem felizes.

Acredito que estamos vivenciando um aumento considerável de pessoas que sofrem dos males do personagem. Somos ensinados por nossos pais e pela sociedade a querer sempre mais.
Querer sempre mais pode parecer muito bonito e motivador, mas esconde o efeito colateral: nunca estar satisfeito.

Não está faltando em nossas escolas o ensinamento do maior conhecimento? Talvez não esteja lá por as pessoas de poder acreditarem que em nosso modelo econômico seja necessário que as pessoas tenham ambições.

“Recolhe-te em ti mesmo e observa. E se achas que ainda não és belo, faze o que faz o criador de uma estátua que deve ser bela. Ele corta aqui e ali, alisa acolá, torna uma linha mais leve, uma outra mais pura, até que na estátua surge um belo rosto. Faze o mesmo: corta o excesso, endireita o que está torto, leva luz ao que está sombrio, trabalha para fazer com que tudo resplandeça em beleza, e não cesses de cinzelar a tua estátua até que ela desprenda sobre ti o divino esplendor da virtude, até que vejas a bondade final estabelecida com firmeza no santuário sem mácula.”

– Plotino (205 D.C. Licopólis, Egito – 270 D.C.)

REFERÊNCIA

– CASSIRER, Ernst. Antropologia Filosófica ensaio sobre o homem. Trad. Dr. Vicente Félix de Queiroz. 2.ed. São Paulo: Mestre Jou, 1977.

Livro

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