Semiótica

1. O que é semiótica?
2. Quem foi Charles Sanders Peirce?
3. Desde quando há estudos semióticos?
4. Quando o termo “semiótica” começou a ser utilizado?
5. Qual a diferença entre semiótica moderna, do século XIX e medieval?
6. A semiótica é um método ou um ponto de vista?
7. Quais são os “tipos de semiótica”?
8. Por que há vários tipos de semiótica?
9. Qual é a diferença entre semiótica e semiologia?
10. Quando se iniciaram os primeiros estudos de semiótica peirceana no Brasil?
11. O que são signos na concepção peirceana?
12. Quais são os tipos de signos, de acordo com Peirce?
13. O que é semiose?
14. Em que campos pode trabalhar um(a) semioticista?

15. Pequena Biografia de Charles Sanders Peirce

 

1. O que é semiótica?

Semiótica é a doutrina formal dos signos.
Cf. Charles Sanders Peirce, 2.227.

“O nome semiótica vem da raiz grega semeion, que quer dizer signo.” “Semiótica, portanto, é a ciência dos signos, é a ciência de toda e qualquer linguagem.” (p.7) “A Semiótica é a ciência que tem por objeto de investigação todas as linguagens possíveis, ou seja, que tem por objetivo o exame dos modos de constituição de todo e qualquer fenômeno de produção de significação e de sentido.” (p.13)
Santaella, L. (1983). O que é Semiótica. São Paulo: Brasiliense.

“A Semiótica peirceana não é uma ciência aplicada, nem é uma ciência teórica especial, ou seja, especializada.” A Semiótica, ou lógica, “é uma ciência formal e abstrata, num nível de generalidade ímpar”. (p.43)
Santaella, L. (1992). A assinatura das coisas. Rio de Janeiro: Imago.

“Semeiotica ou lógica ‘é a ciência das leis necessárias gerais dos signos’ (2.39) e está especificamente preocupada com a relação dos fenômenos para com a verdade.” (pp.2 e 3)
Liszka, J.J. (1996). A General Introduction to the Semeiotic of Charles Sanders Peirce. Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press.

“Semiótica é a ciência dos signos e dos processos significativos (semiose) na natureza e na cultura.” (p.17) A Semiótica, como teoria geral dos signos, tem a sua etimologia do “grego semeîon, que significa ‘signo’, e sêma, que pode ser traduzido por ‘sinal’ ou ‘signo’.” (p.21)
Nöth, W. (1995). Panorama da Semiótica: de Platão a Peirce. São Paulo: Annablume.

“Semiótica é o estudo ou doutrina dos signos, algumas vezes considerada como uma ciência dos signos; uma investigação sistemática da natureza, propriedades e tipos de signo…” (p.179)
Colapietro, V.M. (1993). Glossary of Semiotics. New York: Paragon House.

2. Quem foi Charles Sanders Peirce?

Charles Sanders Peirce (1839-1914), cientista, matemático, historiador, filósofo e lógico norte-americano, é considerado o fundador da moderna Semiótica. Graduou-se com louvor pela Universidade de Harvard em química, fez contribuições importantes no campo da Geodésia, Biologia, Psicologia, Matemática, Filosofia. Peirce, como diz Santaella (1983: 19), foi um “Leonardo das ciências modernas”. Uma das marcas do pensamento peirceano é a amplição da noção de signo e, conseqüentemente, da noção de linguagem.

Peirce “foi o enunciador da tese anticartesiana de que todo pensamento se dá em signos, na continuidade dos signos” (p.32); do diagrama das ciências; das categorias; do pragmatismo.
Santaella, L. (2001). Matrizes da Linguagem e Pensamento. São Paulo: Iluminuras.

“Ao morrer, em 1914, Peirce deixou nada menos do que 12 mil páginas publicadas e 90 mil páginas de manuscritos inéditos. Os manuscritos foram depositados na Universidade de Harvard. Apenas vinte anos mais tarde, na década de 1930, surgiria a primeira publicação de textos coligidos nos seis volumes dos Collected Papers, editados por Hartshorne e Weiss. Infelizmente, grande parte dos textos aí coligidos restringiu-se a escritos que Peirce já publicara em vida. (…) Nos anos 1950, Burks acrescentou os volumes 7 e 8 aos Collected Papers, nos quais aparecem temas adicionais… tais como a filosofia da mente e algumas da principais correspondências de Peirce com Lady Welby onde estão expostas discussões importantes da teoria dos signos peirceana.” (p.6) “…em 1976, sob direção de Max Fisch, estabeleceu-se na Universidade de indiana, com sede em Indianápolis, o Peirce Edition Project… sob os auspícios do National Endowment for the Humanities, para a publicação de escritos cronológicos de Peirce em 35 volumes” (p.7), tarefa que ainda hoje não foi terminada. Hoje o Peirce Edition Project está sob a direção de Nathan Houser.
Santaella, L. (1999). O estado da arte dos estudos sobre Peirce: um breve panorama. In Machado, F.R. (org.) Caderno da 2ª Jornada do Centro de Estudos Peirceanos. Editado pelo CENEPE-COS/PUC-SP.

Para saber mais sobre a vida e a obra de Peirce, consulte:

Brent, J. (1993) Charles Sanders Peirce: A Life. Bloomington and Indianapolis: Indiana University Press.

Santaella, L. (1983). O que é Semiótica. São Paulo: Brasiliense.

Santaella, L. (1992). A assinatura das coisas. Rio de Janeiro: Imago.

Sebeok, T. A. (1994). Encyclopedic Dictionary of Semiotics. Berlin&New York: Mouton de Gruyter.

3. Desde quando há estudos semióticos?

“A semiótica propriamente dita teve seu início com filósofos como John Locke (1632-1704) que, no seu Essay on human understanding, de 1690, postulou uma “doutrina dos signos” com o nome de Semeiotiké , ou com Johann Heinrich Lambert (1728-1777) que, em 1764, foi um dos primeiros filósofos a escrever um tratado específico intitulado Semiotik.” (p.18)
Nöth, W. (1995). Panorama da Semiótica: de Platão a Peirce. São Paulo: Annablume.

Para maiores detalhes:

Nöth, W.(1985/1995). Handbook of Semiotics. Bloomington e Indianapolis: Indiana University Press. Tradução de: Handbuch der Semiotik.

4. Quando o termo “semiótica” começou a ser utilizado?

Inicialmente, encontramos esse termo na medicina. “O médico grego Galeno de Pérgamo (139-199), por exemplo, referiu-se à diagnóstica como sendo ‘a parte semiótica’ (semeiotikón méros) da medicina.” (p.19)
Nöth, W. (1995). Panorama da Semiótica: de Platão a Peirce. São Paulo: Annablume.

“E apenas mais tarde é que os filósofos e lingüístas adotaram o termo para designar uma teoria geral dos signos.” (pp. 12 e 13)
Nöth, W.(1985/1995). Handbook of Semiotics. Bloomington e Indianapolis: Indiana University Press. Traduação de: Handbuch der Semiotik.

5. Qual a diferença entre semiótica moderna, do século XIX e medieval?

Podemos dizer nas palavras do professor Nöth que a semiótica medieval desenvolveu-se no âmbito da teologia e do trívio das artes liberais (gramática, retórica e dialética).

No séc XIX, “símbolos e imagem são as noções centrais da semiótica” (p.55). Vemos o emergir das teorias moderna de significado, sentido e referência da semântica lingüística e o início do questionamento científico da linguagem.
Nöth, W. (1995). Panorama da Semiótica: de Platão a Peirce. São Paulo: Annablume.

O período moderno (século XX) é inaugurado por Edmund Husserl (1859-1938) com a sua teoria fenomenológica dos signos e significados. Não obstante, na história da semiótica moderna, Charles Sanders Peirce (1839-1914) é visto como uma das maiores figuras deste período, o fundador da teoria moderna dos signos.
Nöth, W.(1985/1995). Handbook of Semiotics. Bloomington e Indianapolis: Indiana University Press. Tradução de: Handbuch der Semiotik.

6. A semiótica é um método ou um ponto de vista?

Esta questão é bastante controversa entre os pesquisadores. Para conhecer as opiniões diversas, recomendamos a leitura do capítulo 2: “Semiótica: método ou ponto de vista?” em Deely, J. (1990). Semiótica Básica. São Paulo: Ática.

7. Quais são os “tipos de semiótica”?

Semiótica peirceana (Peirce)

Foco de atenção: universalidade epistemológica e metafísica. Nas palavras de Santaella: “uma teoria sígnica do conhecimento que busca divisar e deslindar seu ser de linguagem, isto é, sua ação de signo” (p.14, op.cit).

Semiótica estruturalista/Semiologia (Saussure; Lévi-Strauss; Barthes; Greimas)

Foco de atenção: signos verbais.

Semiótica russa ou semiótica da cultura (Jakobson; Hjelmslev; Lotman)

Foco de atenção: linguagem, literatura e outros fenômenos culturais, como a comunicação não-verbal e visual, mito, religião.

Nöth, W.(1985/1995). Handbook of Semiotics. Bloomington e Indianapolis: Indiana University Press. Traduação de: Handbuch der Semiotik.

8. Por que há vários tipos de semiótica?

As “semióticas” se voltam à investigação de signos e/ou significação. O que diferencia um tipo de semiótica de outro é a concepção e a delimitação de seu campo de estudo. Assim, essa variedade foi construída à medida que os estudos divergiam em seus pressupostos.

9. Qual é a diferença entre semiótica e semiologia?

Resumidamente: a Semiologia, também conhecida como a Lingüística saussureana, é ciência da linguagem verbal, e a Semiótica é a ciência de toda e qualquer linguagem.

“Semiótica é usado para se referir à tradição filosófica da teoria dos signos desde Peirce, enquanto que a semiologia se refere à tradição lingüística desde Saussure”. (p.14)
Nöth, W.(1985) 1995. Handbook of Semiotics. Bloomington e Indianapolis: Indiana University Press. Tradução de: Handbuch der Semiotik.

A tradição semiótica de Poinsot, Locke e Peirce difere-se da semiológica proposta por Saussure porque a semiótica “não tem como princípio ou quase exclusiva inspiração a fala e a língua humana. Ela vê na semiose um processo muito mais vasto e fundamental envolvendo o universo como físico no processo da semiose humana, e fazendo da semiose humana uma parte da semiose da natureza.” (…) Semiótica e semiologia constituem duas tradições ou paradigmas, o que tem “até certo ponto prejudicado o desenvolvimento contemporâneo por existir dentro dele em condições sociológicas de oposição. Essas condições de oposição, todavia, não são apenas desnecessárias logicamente, mas dependem para seu sustento de uma sinédoque perversa pela qual a parte é tomada erradamente pelo todo. A semiótica forma um todo do qual a semiologia é uma parte.” (p.23)
Deely, J. (1990). Semiótica Básica. São Paulo: Ática.

9. Qual é a diferença entre semiótica e semiologia?

Resumidamente: a Semiologia, também conhecida como a Lingüística saussureana, é ciência da linguagem verbal, e a Semiótica é a ciência de toda e qualquer linguagem.

“Semiótica é usado para se referir à tradição filosófica da teoria dos signos desde Peirce, enquanto que a semiologia se refere à tradição lingüística desde Saussure”. (p.14)
Nöth, W.(1985) 1995. Handbook of Semiotics. Bloomington e Indianapolis: Indiana University Press. Tradução de: Handbuch der Semiotik.

A tradição semiótica de Poinsot, Locke e Peirce difere-se da semiológica proposta por Saussure porque a semiótica “não tem como princípio ou quase exclusiva inspiração a fala e a língua humana. Ela vê na semiose um processo muito mais vasto e fundamental envolvendo o universo como físico no processo da semiose humana, e fazendo da semiose humana uma parte da semiose da natureza.” (…) Semiótica e semiologia constituem duas tradições ou paradigmas, o que tem “até certo ponto prejudicado o desenvolvimento contemporâneo por existir dentro dele em condições sociológicas de oposição. Essas condições de oposição, todavia, não são apenas desnecessárias logicamente, mas dependem para seu sustento de uma sinédoque perversa pela qual a parte é tomada erradamente pelo todo. A semiótica forma um todo do qual a semiologia é uma parte.” (p.23)
Deely, J. (1990). Semiótica Básica. São Paulo: Ática.

10. Quando se iniciaram os primeiros estudos de semiótica peirceana no Brasil?

Primeiramente, no Brasil, foram desenvolvidos estudos lingüísticos, cujo maior representante seria Joaquim Mattoso Câmara Jr. Assim, por essa via, as idéias saussureanas foram divulgadas antes das peirceanas.

“Desde o início da década de 1970, há quase trinta anos, a obra do norte-americano Charles Sanders Peirce (1839-1914), cientista, lógico, filósofo e criador da moderna ciência semiótica, vem sendo estudada na PUC de São Paulo. O pensamento de Peirce não entrou nessa universidade pela via da lógica, nem pela via da filosofia, mas pela via da semiótica. Naquela época, o atual programa de pós-graduação em Comunicação e Semiótica se chamava Teoria Literária, fundado e coordenado por Lucrécia Ferrara, pioneira junto com Joel Martins e Antonieta Alba Celani na criação dos programas de estudos pós-graduados na PUCSP, esses mesmos que cresceram, multiplicaram-se, trazendo hoje tanto prestígio acadêmico a essa universidade.

Foi nas magníficas aulas de Haroldo de Campos e Décio Pignatari, primeiros professores do programa de Teoria Literária, que a teoria dos signos de Peirce começou a ser interpretada no Brasil. Em 1970, Haroldo de Campos organizou a edição para a Perspectiva da Pequena Estética de Max Bense, filósofo alemão e divulgador primeiro da obra peirceana em seu país. Em 1972, a Cultrix editou, com tradução de Octanny S. da Mota e Leonidas Hegenberg, mais coletânea de escritos escolhidos de Charles Sanders Peirce. Essa coletânea antecederia em muitos anos, as primeiras coletâneas de textos traduzidos de Peirce em vários países da Europa. Enfim, foi com salutar precocidade que se deu o plantio das primeiras sementes dos estudos peirceanos no Brasil, cuja dianteira foi tomada pela pós-graduação em Teoria Literária da PUCSP.

Em 1978, esse antigo programa ampliou-se interdisciplinarmente numa proposta de estudos pós-graduados em Comunicação e Semiótica (COS). Sob essa nova sigla, que dura até hoje, e com novas perspectivas comunicacionais, a semiótica encontrou solo fértil para se desenvolver e se diversificar. A semiótica peirceana entrou em convivência com outras correntes da semiótica – saussuriana, hjelmsleviana, soviética, greimasiana, barthesiana etc. – formando um conjunto teórico aberto e crítico que, desde então, espraiou-se numa variada gama e campos de aplicações: literatura, artes, som, música, oralidade, dança, performance, jornal, rádio, imagens técnicas da era eletro-mecânica – fotografia e cinema -, da era eletrônica – televisão, vídeo – e da era teleinformática – infografia, infovias etc.

A vocação interdisciplinar da semiótica, como uma ciência da comunicação, também se dilatou na multi e transdisciplinaridade, propiciando o diálogo e intercâmbio conceitual com a epistemologia, a história das ciências, as ciências sociais, a psicologia, a psicanálise etc. Nesse contexto, desde 1992, um fenômeno importante e original começou espontaneamente a brotar no programa de COS. Começaram a surgir, pouco a pouco, Centros de Pesquisa ligados às linhas de pesquisa que estão definidas como extensões diretas das áreas de concentração do programa.” (pp. 3 e 4) O Centro de Estudos Peirceanos é um desses centros de pesquisa, fundado em 1996, por Lúcia Santaella.
Santaella, L. (1997). Estudos de Peirce no COS/PUCSP. In Laurentiz, S. (org.) Caderno da 1ª Jornada do Centro de Estudos Peirceanos. Editado pelo CENEP-COS/PUC-SP.

Para maiores detalhes:

Santaella, L. (1990). “Brazil: A Culture in Tune with Semiotics”. The Semiotic Web 1989. Berlin&New York: Mouton de Gruyter.

11. O que são signos na concepção peirceana?

Peirce ampliou sobremaneira a noção de signo, concebendo-o como uma relação triádica.

“Signo é uma coisa que representa uma outra coisa: seu objeto. Ele só pode funcionar como signo se carregar esse poder de representar, substituir uma outra coisa diferente dele.” (p.58)
Santaella, L. (1983). O que é Semiótica. São Paulo: Brasiliense.

“Defino um Signo como qualquer coisa que, de um lado, é assim determinada por um Objeto e, de outro, assim determina uma idéia na mente de uma pessoa, esta última determinação, que denomino o Interpretante do signo, é, desse modo, mediatamente determinada por aquele Objeto. Um signo, assim, tem uma relação triádica com seu Objeto e com seu Interpretante (8.343).” (p.12)
Santaella, L. (2000). A teoria geral dos signos: Como as linguagens significam as coisas. 2a ed. São Paulo: Pioneira.

12. Quais são os tipos de signos, de acordo com Peirce?

De acordo com Peirce, os signos se diferenciam dependendo da relação entre os elementos que compõem um signo e de sua ação específica (ou semiose). Quando um signo diz respeito ao signo em si mesmo (primeiro elemento da tríade), pode ser classificados em quali-signo, sin-signo ou legi-signo. Quanto à relação de um signo com o seu objeto dinâmico, o signo pode ser classificado como ícone, índice e símbolo. Quanto à relação do signo com o(s) interpretante(s), o signo pode ser classificado como rema, dicente e argumento.

Dada a complexidade dessa classificação feita por Peirce, para entendê-la é necessário realizar um estudo cuidadoso do assunto. Recomendamos as referências bibliográficas citadas a seguir (e o Roteiro Bibliográfico para a Iniciação à Leitura de Peirce), que, em português, constituem importantes fontes de informações para propiciar um aprofundamento no tema.

Santaella, L. (2000). A teoria geral dos signos: Como as linguagens significam as coisas. 2a ed. São Paulo: Pioneira.

Queiroz, A.J.M. de (1997). Sobre as 10 Classes de Signos de C.S.Peirce. Tese de Mestrado, inédita. PUC.

13. O que é semiose?

“A semiose ou ação do signo é a ação de determinar um interpretante.” (p.50)
Santaella, L. (1992). A assinatura das coisas. Rio de Janeiro: Imago.

“A palavra técnica ‘semiose’ refere-se a ação de um signo de gerar ou produzir um interpretante de si mesmo.” (p.3)
“Semiose tem a sua origem no grego: semeiosis. De acordo com Peirce, semiose se refere a qualquer tipo de ação do signo.” (pp.887,888)
Sebeok, T. A. (1994). Encyclopedic Dictionary of Semiotics. Berlin&New York: Mouton de Gruyter

 

14. Em que campos pode trabalhar um(a) semioticista?

Como a semiótica se presta ao estudo dos mais variados tipos de linguagem e significação, um(a) semioticista pode atuar nas mais diversas áreas, como comunicação de um modo geral; publicidade e propaganda, especialmente quanto à análise e desenvolvimento de marcas; biologia, como pesquisador(a) dos processos de comunicação celulares, por exemplo; tecnologias da informação etc. Enfim, todo e qualquer campo que envolva o estudo e/ou a aplicação de processos/técnicas comunicacionais.

15. Pequena Biografia de Charles Sanders Peirce

No estudo geral dos signos Charles Sanders Peirce (1839-1914) seria o pioneiro daquela ciência que é conhecida como “Semiótica”, usando já este termo, que John Locke, no final do século XVII, teria usado para designar uma futura ciência que estudaria, justamente, os signos em geral. Para Peirce, o Homem significa tudo que o cerca numa concepção triádica (primeiridade, secundidade e terceiridade), e é nestes pilares que toda a sua teoria se baseia.

Num artigo intitulado “Sobre uma nova lista de categorias”, Peirce, em 14 de maio de 1867, descreveu suas três categorias universais de toda a experiência e pensamento. Considerando tudo aquilo que se força sobre nós, impondo-se ao nosso reconhecimento, e não confundindo pensamento com pensamento racional, Peirce concluiu que tudo o que aparece à consciência, assim o faz numa gradação de três propriedades que correspondem aos três elementos formais de toda e qualquer experiência. Essas categorias foram denominadas:

Qualidade;

Relação;

Representação.

Algum tempo depois, o termo Relação foi substituído por Reação e o termo Representação recebeu a denominação mais ampla de Mediação. Para fins científicos, Peirce preferiu fixar-se na terminologia de Primeiridade, Secundidade e Terceiridade.

Primeiridade – a qualidade da consciência imediata é uma impressão (sentimento) in totum, invisível, não analisável, frágil. Tudo que está imediatamente presente à consciência de alguém é tudo aquilo que está na sua mente no instante presente. O sentimento como qualidade é, portanto, aquilo que dá sabor, tom, matiz à nossa consciência imediata, aquilo que se oculta ao nosso pensamento. A qualidade da consciência, na sua imediaticidade, é tão tenra que mal podemos tocá-la sem estragá-la. Nessa medida, o primeiro (primeiridade) é presente e imediato, ele é inicialmente, original, espontâneo e livre, ele precede toda síntese e toda diferenciação. Primeiridade é a compreensão superficial de um texto (leia-se texto não ao pé da letra; ex: uma foto pode ser lida, mas não é um texto propriamente dito).

Como Luis Caramelo explica no seu livro Semiotica uma introdução, “A primeiridade diz respeito a todas as qualidades puras que, naturalmente, não estabelecem entre si qualquer tipo de relação. Estas qualidades puras traduzem-se por um conjunto de possibilidades de vir a acontecer(…)”. Desta forma, temos, no nosso mundo o acontecimento ou possibilidade “chuva”, mas é apenas isso, apenas possibilidade existencial. Caso localizemos chuva como um acontecimento, por exemplo “está a chover” estamos perante a secundidade.

Secundidade – a arena da existência cotidiana, estamos continuamente esbarrando em fatos que nos são “externos”, tropeçando em obstáculos, coisas reais, factivas que não cedem ao sabor de nossas fantasias. O simples fato de estarmos vivos, existindo, significa, a todo momento, que estamos reagindo em relação ao mundo. Existir é sentir a acção de fatos externos resistindo à nossa vontade. Existir é estar numa relação, tomar um lugar na infinita miríade das determinações do universo, resistir e reagir, ocupar um tempo e espaço particulares. Onde quer que haja um fenômeno, há uma qualidade, isto é, sua primeiridade. Mas a qualidade é apenas uma parte do fenômeno, visto que, para existir, a qualidade tem que estar encarnada numa matéria. O fato de existir (secundidade) está nessa corporificação material. Assim sendo, Secundidade é quando o sujeito lê com compreensão e profundidade de seu conteúdo. Como exemplo: “o homem comeu banana”, e na cabeça do sujeito, ele compreende que o homem comeu a banana e possivelmente visualiza os dois elementos e a ação da frase.

A palavra chave deste conceito é ocorrência, o conceito em ação. É desta forma, também, uma atualização das qualidades da primeiridade.

Terceiridade – primeiridade é a categoria que dá à experiência sua qualidade “distintiva”, seu frescor, originalidade irrepetível e liberdade. Secundidade é aquilo que dá à experiência seu caráter “factual”, de luta e confronto. Finalmente, Terceiridade corresponde à camada de “inteligibilidade”, ou pensamento em signos, através da qual representamos e interpretamos o mundo. Por exemplo: o azul, simples e positivo azul, é o primeiro. O céu, como lugar e tempo, aqui e agora, onde se encarna o azul é um segundo. A síntese intelectual, elaboração cognitiva – o azul no céu, ou o azul do céu -, é um terceiro. A terceiridade, vai além deste espectro de estrutura verbal da oração. Ou seja, o indivíduo conecta à frase a sua experiência de vida, fornece à oração, um contexto pessoal. Pois “o homem comeu a banana” pode ser ligado à imagem de um macaco no zoológico; à cantora Carmem Miranda; ao filme King Kong; enfim, a uma série de elementos extra-textuais.

Sucintamente, podemos dizer que terceiridade está ligada a nossa capacidade de previsão de futuras ocorrências da secundidade, já que não só conhecemos o acontecimento na medida de possibilidade natural, como já o vimos em acção, e como tal, já nos é intrínseco. Desta forma já podemos antecipar o que virá a acontecer.

Também para Peirce há três tipos de signos:

O ícone, que mantém uma relação de proximidade sensorial ou emotiva entre o signo, representação do objeto, e o objeto dinâmico em si; o signo icónico refere o objecto que denota na medida em que partilha com ele possui caracteres, caracteres esse que existem no objecto denotado independentemente da existência do signo. – exemplo: pintura, fotografia, o desenho de um boneco. É importante falar que um ícone não só pode exercer esta função como é o caso do desenho de um boneco de homem e mulher que ficam anexados à porta do banheiro indicando se é masculino ou feminino, a priori é ícone, mas também é símbolo, pois ao olhar para ele reconhecemos que ali há um banheiro e que é do gênero que o boneco representa, isto porque foi convencionado que assim seria, então ele é ícone e símbolo;

O índice, ou parte representada de um todo anteriormente adquirido pela experiência subjetiva ou pela herança cultural – exemplo: onde há fumaça, logo há fogo. Quer isso dizer que através de um indício (causa) tiramos conclusões. Ainda sobre o que nos diz este autor, é importante referir que «um signo, ou representamen, é qualquer coisa que está em vez de (stands for) outra coisa, «em determinado aspecto ou a qualquer título», (e que é considerado «representante» ou representação da coisa, do objecto – a matéria física) e, por último, o «interpretante» – a interpretação do objecto. Por exemplo, se estivéssemos a falar de “cadeira”, o representante seria o conceito que temos de cadeira. Sucintamente, o índice é um signo que se refere ao objecto denotado em virtude de ser realmente afectado por esse objecto.

O objeto seria a cadeira em si e o interpretante o modo como relacionamos o objeto com a coisa representada, o objeto de madeira sobre o qual nos podemos sentar. Sobre isto é interessante ver a obra “One and three chairs” do artista plástico Joseph Kosuth. A principal característica do signo indicial é justamente a ligação física com seu objeto, como uma pegada é um “indício” de quem passou. A fotografia, por exemplo, é primeiramente um índice, pois é um registro da luz em determinado momento.

O símbolo, “é um signo que se refere ao objecto que denota em virtude de uma lei, normalmente uma associação de ideias gerais que opera no sentido de fazer com que o símbolo seja interpretado como se referindo aquele objecto”. by Luis Caramelo

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