SOBRE OS TRÊS DIÁLOGOS E O ANTICRISTO DE VLADIMIR S. SOLOVIOV

Vladimir Serguêievitch Soloviov começou a escrever sua última obra “Os Três Diálogos e Breve Relato sobre o Anticristo” em 1899, em Cannes e veio a terminá-la para a publicação no inverno de 1900.  Seis meses depois faleceu, deixando esta obra profética como seu testamento literário.

Soloviov vinha refletindo sobre o mistério do mal – mistério sem resposta, ou com resposta insuficiente desde o início da humanidade e inadequadamente abordado pelas filosofias, uma vez que a filosofia trata de problemas, ao passo que o mal, antes de ser um problema é um mistério. O mistério do mal não é a mesma coisa que problema do mal. O problema é exposto e solucionado. O mistério é de certo modo perceptível, mas inacessível. Escrever uma tese filosófica sobre o mal é uma tarefa tão ilusória como seria filosofar sobre a morte ou sobre o além. O objeto da filosofia e das ciências é outro. A reflexão sobre o mistério do mal se dá no âmbito da Teologia. Só é possível refletir sobre o mal, sobre a morte, sobre o além, com base em uma filosofia sustentada pela intuição teológica. Foi dessa base natural da tradição religiosa que Soloviov partiu, inicialmente considerando o mal como privação do bem, conforme a filosofia escolástica, inspirada em Santo Agostinho. Um ferimento físico é um mal que deixa de ser mal quando positivamente curado. O material que preenche o vazio é o bem que desfaz o mal. No entanto, as coisas não são assim tão simples. Se fosse tão fácil entender onde se origina o mal, em que consiste, como existe e como age no ser humano, nos animais e na natureza inteira, o mal não seria mais um mistério e sim um problema, mais ou menos fácil de solucionar. Soloviov estava convencido de que o mal é uma força desenfreada, muito mais real do que um pensamento criminoso ou uma ação desastrosa: é uma força caótica que rompe o equilíbrio humano e a harmonia do universo. Ou não?

A reflexão de Soloviov sobre o mistério do mal tem muito a ver com uma luta que ele vinha travando durante dez anos com o escritor Leão Tolstoi. Muitas vezes estes dois pensadores disputaram, se entenderam e se desentenderam, sem chegarem a se reconciliar. Tolstoi, durante toda vida atormentado pelas realidades obscuras das limitações da inteligência, do sofrimento, da morte, chegou à velhice procurando desvendar o insondável mistério. Acresce que esta realidade arcana envolve outros mistérios, como o da fé, da graça (dom de Deus), do instinto religioso, dos ensinamentos do Evangelho. A doutrina de Tolstoi, lançada com “apostólica” convicção e com cores de modernismo esclarecido – iluminismo – acabou por expandir-se como uma verdadeira seita intelectualista, naturalista e niilista, incompatível com o Cristianismo tradicional. A nova doutrina prega o princípio soberano da não-resistência ao mal. Se o mal é carência do bem, certamente o bem vencerá o mal naturalmente. Se a morte não pode ser destruída, toda atividade do progresso é inútil e vã. Através de um emaranhado de considerações de uma teologia autodidata, Tolstoi choca-se com os dogmas milenares da Igreja e nega a própria essência do Cristianismo que é a ressurreição. O tolstoísmo desconsidera, enfim, o único bem, a única vitória do homem sobre a morte, que é a promessa da ressurreição. Na ressurreição está todo o poder de Cristo, a força do seu verdadeiro amor à humanidade e do amor e gratidão da humanidade a ele, por dar ao ser humano a capacidade de discernir e vencer o mal.

Vladimir Soloviov, angustiado ante a impossibilidade de deter o avanço do tolstoísmo, quis expor a questão complexa do mal da maneira mais acessível possível para que as pessoas pudessem perceber como a nova ideologia dos “evangelhos naturalistas” era uma visão fugaz e embaçada das verdades cristãs. Que fazer para deter o avanço do anticristianismo? Escrever um tratado árido de filosofia ou uma tese documentada pela Sagrada Escritura e Santos Padres seria um esforço inútil nos últimos meses do século que se encerrava, ao revérbero de coriscos de uma apostasia que se avultava nas civilizações russa e européia. Soloviov preferiu expor suas reflexões na forma de diálogo e com uma narração literária leve e simbólica, visando alcançar quem tivesse ouvidos para ouvir.

Os principais personagens dos Três Diálogos são: uma Senhora que coordena os interlocutores; um General que representa o ponto de vista religioso-moral; um Político que representa a visão do progresso da civilização moderna; um Príncipe que encarna o pensamento de Leão Tolstoi e, enfim, um Senhor Z, relator e porta-voz das teses do próprio autor.

No primeiro diálogo, o General desfecha o primeiro ataque ao princípio da não resistência ao mal, defendendo a legitimidade da guerra contra o falso pacifismo do Príncipe, isto é, do Conde Tolstoi. O General recapitula a filosofia que Soloviov expõe no seu tratado de Moral, “A Justificação do Bem”. Há uma guerra justa e existe uma paz má, como existe um exército indiferente e também um exército cristianíssimo, como é chamado o exército imperial russo. Ele lembra que tradicionalmente os santos da Igreja Russa pertencem a duas categorias: monges e militares. É dever dos bons acudir em auxílio dos que são injustamente agredidos. É verdade que todos somos irmãos, mas é preciso distinguir quem é Abel, quem é Caim.  “Se o meu irmão agredir Abel e eu lhe der um bofetão para que ele não repita esta má ação, por acaso posso ser acusado de ter esquecido o amor fraterno?” O clímax do primeiro diálogo é quando o General prova sua tese com um argumentum ad hominem, isto é, um argumento irrefutável e incontroverso, amplamente descrito na crua narração da batalha contra a tribo turca dos bashi-buzuk, na guerra sempre lembrada de 1877, da Rússia contra a Turquia.

No segundo diálogo, que gira em torno do progresso, aparece o Político, encarnação da moral mundana, epicurista e utilitarista. Coerente com sua indiferença em face do bem e do mal, não louva nem condena a argumentação do General, apenas como político ladino desvia o foco da questão, julgando o pensamento do General correto, porém anacrônico. Ele está convencido de que o grau de civilização então reinante na Europa não deixa lugar para guerras, porque as nações civilizadas têm a arma do entendimento, podendo trocar os canhões por trilhos ferroviários. Segundo ele, a grande conquista dos povos de hoje é a “civilidade”, ou boas maneiras e diplomacia, que em si são um sintoma de progresso. Por outras palavras, ele vê a cultura e o progresso como fruto da “civilidade” e como o mínimo requisito para as pessoas viverem como gente civilizada e avançar em qualquer direção para alcançar a perfeita realização humana. Esta cultura única é, segundo o seu pensamento, a cultura progressista européia, que deve vir a ser a cultura de toda a humanidade.

A disputa definitiva e mais acesa contra o tolstoísmo começa no terceiro diálogo, onde o Sr. Z. declara que o processo acelerado desse modo de ser da cultura progressista da Europa é obra do Anticristo, ou seja, sintoma do fim da história. O Sr. Z. concretiza suas idéias no breve relato sobre o Anticristo, em que ele, o Sr. Z., pinta um quadro escatológico do mistério do mal, numa forma bem fundamentada nos moldes da literatura arcana do livro da Revelação (o Apocalipse). Na visão escatológica do mundo, o mal não é a inerte ausência do bem que, não sofrendo resistência, acaba por desaparecer. Ainda quando se apagar todo vestígio, por exemplo, do mal social, restará sempre o mal ontológico, que é a morte e a corrupção de toda a matéria. Da reflexão sobre os fatos narrados nos Evangelhos, deduz-se que Cristo não veio a este mundo para aniquilar o mal, mas sim para separá-lo do bem, ele veio separar o trigo do joio. A morte não é aniquilada por uma fórmula de exorcismo ou de magia; ela é superada pelo poder da ressurreição de Cristo. O relato sobre o Anticristo mostra como o Grande Impostor, usando de seus artifícios de prestidigitação e feitiçaria inflige um golpe mortal aos poderes do bem, retratados no Papa Pedro II e no Stáretz João, mas estes ressuscitam. Ensinar a doutrina cristã negando a ressurreição de Cristo não é cristianismo, mas anticristianismo. A poderosa e permanente força do mal fere, fragmenta, domina momentaneamente, mas não aniquila o Cristianismo. O tolstoísmo, por não admitir a ressurreição, identifica-se com o Anticristo. O Reino de Deus não chega através de conquistas das armas e da vontade férrea de um império poderoso, mas só se instala depois da calamidade universal da morte, pela qual todo ser humano passará. Todas as passagens obscuras e assustadoras do Apocalipse são mera figura apagada da assombrosa calamidade, que é a morte. A grande diferença entre o Cristianismo e o Anticristo é que a ruína inevitável da morte é vista como uma suprema purificação para chegar ao Bem absoluto. Daí o grito de triunfo da Páscoa da Ressurreição: “Cristo ressuscitou dos mortos, venceu a morte com a própria morte e deu a vida aos que estavam nos túmulos” (leitmotif da Liturgia pascoal). Daí nasce para o cristão o entusiasmo inspirado no cântico matinal recitado na madrugada de Páscoa: “Na carne adormeceste, como um mortal, Rei e Senhor! Ressurgiste ao terceiro dia, ressuscitando Adão da corrupção e aniquilando a morte. Páscoa da incorruptibilidade, salvação do mundo!” (Liturgia pascoal).

     A doutrina de Tolstoi tenta corromper o dogma da salvação e se anuncia como a síntese do mal moral, como culto do progresso naturalista, de uma civilização a serviço do “deus deste mundo” sem a esperança do verdadeiro bem eterno e incorruptível. A segunda vinda de Cristo na glória com a transfiguração do mundo (novos céus e nova terra) virá necessariamente depois de um breve triunfo do Anticristo, isto é, do mal da humanidade. Para tentar explicar da maneira mais concreta possível o mistério imperscrutável da luta entre o bem e o mal, a luz e as trevas, a falsidade e a verdade, o Senhor Z. lê o breve relato sobre o Anticristo. O Breve relato é o anátema fulminante do tolstoísmo que invadia a Rússia como uma excrescência do ateísmo e indiferentismo da civilização iluminista importada da Europa com a petulante intenção de renovar a face da terra.

Vladimir Soloviov revela-se um grande áugure do século que se iniciava: ele esquadrinha o vôo agourento do anticristianismo e como um arúspice inspirado denuncia a ameaça que lia nas entranhas da Europa no final do século XIX, o pan-mangolismo ou “perigo amarelo” (Japão, China e “tigres asiáticos”). O leitor de hoje, tanto faz se mais culto ou menos instruído, percebe que cada frase, cada idéia exposta no texto encerra predições já cumpridas ou que ainda poderão ser cumpridas. Recorde-se o desbaratamento da invencível esquadra imperial russa na guerra com o Japão em 1904 que foi o golpe inicial que preparou a revolução de 1905 e logo de 1917, com calamitosa repercussão por todo o continente europeu. Posteriormente, um atentado do anticristianismo alvejou mortalmente um papa, que praticamente ressuscitou. Depois disto, no palco do Anticristo, as hierarquias luterana, católica e ortodoxa deram-se as mãos e a Igreja Ortodoxa Russa, no mesmo chão do Vaticano, encomendou a Deus o “Preosvyachénago papu Rímskago” e a igreja latina voltou à união com a grega para confessar o Espírito Santo que procede do Pai. Tudo se encontra testemunhado. No século XXI, a Europa formaria os Estados Unidos da Europa, com uma constituição de tendências democráticas. Não formou? Iguala-se o materialismo teórico com a fé indiferente e vaga da velha civilização. A apostasia do Cristianismo se multiplica, restando no mundo um pusillus grex. Não foi assim que a humanidade transpôs o limiar do terceiro milênio? E surgirá um grande reformador. Os amigos e comentaristas de Vladimir Soloviov identificam este reformador com o Grande Inquisidor do romance “Os Irmãos Karamázov” de Fiódor Dostoievsky. Como Cristo, o novo reformador tem 33 anos, é de espírito religioso, filantropo, crê em Deus, mas ama a si acima de tudo, deixando ver seu lado de caricatura de Cristo. Ele quer ser um benfeitor da humanidade e, para tanto, espera um sinal do alto. O sinal não vem. A convicção de que ele não é o Messias, de que Cristo é o verdadeiro, primeiro e único Messias, leva-o ao desespero. Pensa em atirar-se no precipício, mas uma força estranha o detém. Ouve uma voz que pergunta: “Por que não me procuraste? Por que honraste aquele imbecil? Sou eu o teu deus e teu pai. Aquele outro, indigente, crucificado, é um estranho para mim e para ti. Vai cumprir a tua missão em meu e teu nome. Recebe o meu espírito”. Ao ouvir estas palavras, o eleito fica extasiado; é aclamado Imperador Romano e proclama o seu manifesto: “Povos da Terra, eu vos prometi e vos dei a paz! Mas a paz só é perfeita com a prosperidade. Aquele que no mundo sofre as ameaças da miséria da pobreza, não goza da alegria da paz. Vinde a mim, todos os que tendes fome e sede, e eu vos saciarei”. Vozes como esta ecoam hoje por todos os cantos da terra. O grande imperador implantará a igualdade e a saciedade universal. Ora, a humanidade não tem fome só de pão, senão também de espetáculo. O milagreiro Apolônio, grande mago, assistente a latere do vitorioso imperador, enviará fogo do céu e entreterá as pessoas com sortilégios e encantamentos. Nessa época, o cristianismo definhará em toda a terra. Fazia muito tempo que o papa tinha sido expulso de Roma, tendo, depois de longa peregrinação, vindo encontrar asilo em São Petersburgo, sob condição de se abster de todo e qualquer proselitismo. Na religião protestante, tinham permanecido apenas os cristãos da Reforma, sinceros e bem intencionados. A Igreja ortodoxa, depois de ter perdido milhões de fiéis, restabeleceu, finalmente, a união com os staroviery (velhos crentes) e outras seitas locais. Vaticínios cumpridos passo a passo.

O poder do imperador impostor era absoluto. Ele convocou um concílio verdadeiramente ecumênico do qual participaram católicos, ortodoxos e protestantes. Atrai para seu lado as multidões, mas não os chefes das hierarquias católica, ortodoxa e protestante com seu pequeno rebanho unificado. Subitamente começa o seu desmascaramento, quando o Staretz João encara o impostor e afirma que eles estão dispostos a reconhecê-lo, desde que confesse Jesus Cristo, Filho de Deus. O impostor não subsistirá e cabe ao povo judeu desfechar o golpe final na impostura para logo se decretar a confraternização universal.

O autor do relato morreu sem terminar o seu texto, mas o Sr. Z. pôde resumir o final, revelando que o Anticristo foi precipitado no lago de fogo do Mar Morto com seus sequazes, ao passo que judeus e cristãos se dirigiram a Jerusalém, para celebrar a apoteose, com Cristo vindo ao encontro deles, revestido de majestade real, mostrando-lhes as chagas da crucifixão, avançando à frente de uma multidão dos que “seguem o Cordeiro aonde quer que ele vá” (Ap. 14,4).

 

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