Gustavo Corção

Gustavo Corção (Rio de Janeiro, 17 de dezembro de 1896 – Rio de Janeiro, 6 de julho de 1978) foi um escritor e pensador católico brasileiro, autor de diversos livros sobre política e conduta, além de um romance. Foi membro da antiga União Democrática Nacional (UDN) e um expoente do pensamento conservador no Brasil.

Sua obra é influenciada pela apologia católica do escritor inglês G.K. Chesterton, influência extensamente explicada no seu ensaio Três Alqueires e uma Vaca.

Formado engenheiro, Corção só obteve notoriedade no campo das idéias aos 48 anos, ao publicar o livro A Descoberta do Outro, narrativa autobiográfica de sua conversão ao catolicismo. Como engenheiro, era um apaixonado pela eletrônica. Foi durante anos professor desta Disciplina na Escola Técnica do Exército, atual Instituto Militar de Engenharia. O amor à eletrônica e à música sacra levou-o a ser um estudioso e interprete de Órgão Hammond. Este instrumento musical tornou-se uma de suas paixões, tanto pela engenhosidade de sua construção como por sua belíssima sonoridade.

Obras

A Descoberta do Outro

Três Alqueires e Uma Vaca

Lições de Abismo (Romance)

As Fronteiras da Técnica

Dez Anos

Claro Escuro

Machado de Assis

Patriotismo e Nacionalismo

O Desconcerto do Mundo

Dois Amores Duas Cidades

O Século do Nada

A Tempo e Contra-tempo

Progresso e Progressismo

As Descontinuidades da Criação

Há trinta anos morria Gustavo Corção

Estava eu pensativo sobre este aniversário, lembrando dos tempos de Gustavo Corção, lembrando dos tempos em que ele fazia parte do meu mundo de criança e de adolescente. Crescemos com esta presença constante em nossas vidas, presença do mestre e amigo dos meus pais, cujos livros, desde os quinze ou dezesseis anos já líamos e debatíamos em casa. A Descoberta do Outro, instigante, como que beliscando o leitor para faze-lo pensar, foi o primeiro, como para tantos dos seus apaixonados leitores. Lições de Abismo também nos dava panos para mangas e discutíamos para saber se o Roualt que José Maria vê diante de sua cama, no momento crucial de sua conversão, era uma visão mística de Nosso Senhor ou apenas uma descrição poética daquele momento. De onde me vinha, aos dezoito anos, a naturalidade com que saía com minha mãe, dirigindo, para levar o Dr. Corção ao centro? – Entre pela rua Direita, meu filho! E eu, que era bom conhecedor do Centro, por ter estudado muitos anos no Colégio São Bento, olhava para minha mãe pedindo socorro… Ah! sim, é a Primeiro de Março, que antes se chamava assim! Hoje, passados trinta anos, fico eu querendo estar com ele novamente, para aproveitar melhor de sua sabedoria e de sua fé.  Não é a mesma coisa para nossos colaboradores que o conhecem apenas por seus escritos. Apesar do tempo, vive ainda em minha memória muitas lembranças marcantes da sua presença.

 

Mas não se engane, leitor. Não é saudosismo que grita exigindo a volta de Gustavo Corção! Na verdade, a falta que provoca este desejo é um vazio da hora, atual e pesado. O que falta no nosso mundo é a veracidade, a autenticidade da sua inteligência. Onde vamos nós encontrar escritores que manejem a lingua como ele? Pior! Onde vamos encontrar pensadores de verdade? Porque a internet está pululando de imbecis, moedas falsas, cheios de erudição mas vazios de discernimento. E isso vai pesando e nos deixando sem apoio, sem bases, sem mestres. Temos com quem ler, mas não temos com quem conversar, com quem aprender. Vamos aos livros e buscamos nos santos, nos doutores, alimento para nossa inteligência e para a fé. Mas “a fé nos vem pelos ouvidos”. E sentimos falta de nos chegarmos junto a um mestre e dizer-lhe: “senhor, poderíamos continuar a ouvir palavras sobre o Reino?”

 

De que nos serviria um Corção para ficar no armário? Qual a utilidade de um Museu Gustavo Corção? Queremos Gustavo Corção vivo, dentro de nós, espada em punho, saindo pelas ruas da cidade, pelas esquinas do mundo, confundindo os traidores da verdade e os inimigos de Deus. Precisamos de leitores que aprendam a pensar com os primeiros livros do mestre, mas que aprendam sobretudo a discernir o tempo presente com a ajuda de Dois Amores Duas Cidades e O Século do Nada. Aqueles nos servem para o iníco, estes para o fim. Aqueles agradam a todos, estes só agradam aos combatentes. E porque? Porque não basta conhecermos o que está a nossa volta, aqui, neste ano de 2008. É preciso conhecer as causas que levaram a Civilização Católica Ocidental a desaparecer nos escombros de 500 anos de desvios, de erros filosóficos, de erros quanto aos princípios universais, mas que rapidamente se transformaram em colossais monstros políticos que geraram a carnificina, o genocídio do nome católico, a crueldade do comunismo, a religião do deus feito Estado para usurpar o Reino Social de Nosso Senhor Jesus Cristo.

 

Cada católico deve conhecer a doutrina, o catecismo, com a profundidade necessária para conter a avalanche de Vaticano II que arrasta o edifício da fé jogando-o ao chão. Ler Gustavo Corção não é obrigatório para este combate, mas não podemos negar que é de grande valia para os soldados dos últimos tempos. Aqui no site dele, temos procurado publicar dezenas de artigos que nos formem, pelo exemplo, pela reflexão, na defesa da verdade e da fé. Agora estamos prestes a oferecer as primeiras aulas em áudio, onde ouvimos a voz, a ênfase dada a uma ou outra frase, o élan de amor num momento de pura poesia ou de profunda mística.

 

Devemos a conservação dessas aulas gravadas à Dna Marta Soares dos Santos, que durante anos assistiu às suas aulas com um inseparável gravador. É verdade que o professor não gostava muito da idéia, pois jamais passaria por sua cabeça difundir algo gravado de sua voz. Sempre se corre o risco de uma certa vaidade. Mas ele tolerava a coisa, ciente de que, pela importância do assunto tratado, alguns ausentes poderiam aprender alguma coisa daquela maravilhosa doutrina e receber a graça.

 

Quanto a nós, pobres de nós, já a terceira geração, os últimos que ainda conheceram e conviveram um pouco com Gustavo Corção, mas já sem a honra de te-lo como um amigo e pai, foi-nos passado o bastão, o labor está agora em nossas mãos. Junto com alguns jovens colaboradores de valor, temos trabalhado nesta missão de manter aceso o bom combate. Contamos com todos os admiradores de Gustavo Corção para que os laços da Comunhão dos Santos, na oração e no sacrifício, nos sustente a cada dia.

Dom Lourenço Fleichman, OSB

 

A descoberta do outro

Gustavo Corção

Ed Agir, 1944

p1. Num romance de Alexandre Herculano, um personagem faz a sua namorada uma pergunta patética: “Sabes tu, Hermengarda, o que é passar dez anos amarrado ao próprio cadáver?”. Eu, porém posso dizer que avalio aquela situação por que passei mais de quinze anos amarrado a técnica. A técnica é inebriante por duas razões fortes. Primeiro, porque dá a inteligência  uma satisfação vertiginosa; segundo, porque todos se maravilham com suas prestidigitações. É difícil resistir à admiração dos outros, e o técnico é hoje o mais admirado dos homens.

Um indivíduo não precisa interromper sua leitura de galvanômetro para pensar na dor e na morte; mas corre o risco de levar esse critério para fora do laboratório. Sairá então cambaleando, ébrio de logaritmos e de papel milimetrado e chegará em casa nesse estado. Ora, eu vivi mais de 15 anos nessa intemperança, e as pessoas respeitáveis que conheci estavam convencidos de que minha vida era um pequeno modelo de virtude porque não espancava a mulher e não deixava os filhos sem pão.

p.43 Então – disse para mim mesmo –  o que todos fazem, andando nas ruas, conversando nas salas, nas esquinas movimentadas, nos cafés entre a azáfama dos garções e os tinidos das xícaras, nos cassinos, nas praias cheia de sol… é só isso: engolir horas. Matar o tempo. Vivem como se o mundo fosse a antecâmara duma burocracia colossalmente inútil, numa espera sem sentido, numa espera paciente, desmemorizada, suavemente temperada de idiotia, de uma espera que se diverte e que caminha para o nada com gritinhos de alegria enfermiça, com pequenos protestos em falsete de horror ao vazio.

p. 91 – é curioso notar que um homem de opiniões, e principalmente aquele que se torna ativo por princípio, o empreendedor por sistema, julga que vive abraçado com as realidades. Um jornalista, um negociante, um industrial, seriam os homens mais positivos do mundo, enquanto que um beneditino seria um indivíduo metido dentro de si mesmo, uma espécie de abstrato que vive de sonhos. Evidentemente há qualquer coisa de objetivo no ofício de vender queijos ou fabricar sapatos, mas a vida daqueles homens ativos, em conjunto, gira em torno de opiniões e ideais. A contemplação é realista e não a ação. O contemplativo é o único homem que realmente se preocupa com a realidade. Um indivíduo torna-se fabricantes de queijo por opinião, porque havia uma infinidade de alternativas para sua atividade; escolheu aquela porque julga que o queijo seja um bom negócio. Discutiu o problema em casa, houve controvérsia, algum cunhado terá discordado e acabou resolvendo pelos queijos. O próprio queijo fabricado, que para quem come tem uma realidade sensível, para o fabricante desvanece-se e no fim de algum tempo só há faturas. O monge beneditino, ao contrário, só se preocupa com uma realidade; ela é ou não é, mas não admite meio-termo; em muita coisa pode discutir e enunciar livremente suas opiniões; mas ele se tornou monge porque a realidade máxima e o centro definitivo de sua vida deixaram de ser uma opinião.

]Em última análise pode-se afiançar que os homens de negócios vivem de devaneios. Costumam dizer que os fatos são os fatos e que as cifras são as cifras, e nisso se resume toda a noção que vem de uma realidade.

O contrário se dá com os homens contemplativos, poetas ou monge. A única coisa que os preocupa é o absoluto de uma realidade.

Para os homens de opiniões, a única realidade é o próprio eu. O patrono dos homens dinâmicos modernos foi Descartes e por isso cada um deles hoje formulará a sua filosofia assim: “Tenho uma opinião, logo existo.”

p. 98 – quando eu era menino, ouvia as pessoas grandes falarem com freqüência em exemplos edificantes de vidas devotadas admiravelmente a causa sagradas. Uma dessas causas se não me falha a memória, era o bem-estar das gerações vindouras; outra era a ciência; a outra era a proteção aos animais. Não alcancei o tempo em que a república era também uma causa sagrada. Foi preciso viver 40 anos para descobrir que a única causa razoável consistia em servir o próximo: e era razoável, sobretudo porque não era uma causa. O próximo é a última coisa do mundo que podemos meter dentro de uma opinião; ele resiste com todos os seus recursos; ele representa para a nossa experiência uma difícil, mas inevitável objetividade. Sobre  o indivíduo do século 30 eu posso formular uma dúzia de teorias, posso meter minha vontade entre mim e o seu existir, e daí, conforme a opinião tirar uma causa. O próximo é mais difícil, porque ele mesmo se encarrega de me exigir tanta coisa que pouco me sobra para dar ainda em demasia.

p.113 a função principal do artista no mundo consiste em em trazer uma mensagem da infância, defendendo-nos da secura do racionalismo e da aridez do cientificismo.

p.121 Intelectualmente, escrevendo livros ou vociferando discursos, podemos romper a homogeneidade de nossas equações e eludir por algum tempo nossa sede e nossa fome. Mas na primeira oportunidade nos agarramos ao próximo como a uma tábua. Temos a idéia de que ele nos poderá salvar. O encontro do amor. Depois, porém, chegam às decepções. Se o noivado foi rompido, a experiência falhou; se chega a casamento, então ainda poderá ser pior porque a presença constante traz uma saturação que é quase impossível suportar. A corrente viva de amor arrefece ficando a fome da carne e a obrigação do convívio. Quando jogamos não confiar em ninguém ainda confiamos num cozinheiro ou num barbeiro; quando não jogamos perfeitamente identificados com um idealismo filosófico ainda conseguimos afagar um gato no colo.

Ninguém até hoje, creio eu, acreditou na morte de modo natural e a encarou como conseqüência lógica e funcional da vida. Falamos na morte como numa realidade pensável, uma experiência de razão,  quase como numa abstração, e não sentimos ressonância as profundas e vitais em nosso íntimo. Nas conversas gerais, a morte é tratada como se fosse, por exemplo, um triângulo esférico e não como uma intensa realidade que ronda pela sala em torno de nossos corpos. É coisa que acontece com parentes afastados e que elimina periodicamente personagens de destaque na política e na literatura; e por isso, quando nos cai perto, e cobre de lividez o rosto da esposa, nosso primeiro sentimento é de absoluto espanto como se, apesar de todas as enormes cifras demográficas, aquele fenômeno fosse ímpar no mundo. Cada morte é terrivelmente inesperada. A experiência de mil gerações, a guerra, a propaganda espírita, as epidemias, não conseguem nos reconciliar com a morte porque, dentro de nós, muito em nosso íntimo, esperamos que ela seja vencida. A morte é inimiga e imprópria. Há um modo divertido de falar na morte, entre anedotas e piscadelas de olho, estando todos convictos que aquele fenômeno tem qualquer coisa de subversivo e obsceno: advínhamos nele a suprema pornografia.

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