A Metafísica Tomista

A Metafísica Tomista

1. Origem: Metafísica, segundo uma idéia ainda muito difundida, foi o nome dado por Andrônico de Rodes [séc. I a.C], à série de 14 livros escritos por Aristóteles [384-322 a.C], ordenados por letras do alfabeto grego, que se referiam ao que ele mesmo denominou ‘Filosofia Primeira’, ‘Teologia’ ou ‘Sabedoria’, por estudar ‘o ser enquanto ser’ [Met. 1003a 21-26], as primeiras causas e princípios da realidade, cuja função era a de ser ciência orientadora de todas as demais ciências. Como foram colocados na classificação e publicação de obras de Aristóteles depois dos oito livros da Física, os livros em questão receberam o nome de t¦ met£ t¦ fusik£ tá metá tá physicá, isto é, ‘os que estão depois da física’, ou mais exatamente ‘as coisas que estão depois das coisas da física’. Por feliz coincidência, melhor nome não poderia tal obra receber, pois tratava justamente das realidades que se encontravam para além da física. Depois de Aristóteles, tal estudo passou a ser considerado como a disciplina fundamental da filosofia por ordernar-se a estudar o ser de toda a realidade. Eis a divisão e o conteúdo da obra:

A Metafísica de Aristóteles

Livro I (A) Sobre a natureza da ciência. A vida teorética. A filosofia se ocupa principalmente da investigação dos princípios e das causas. Análise e crítica das doutrinas dos filósofos precedentes sobre os primeiros princípios.
Livro II (a) Introdução à ciência. Dificuldade e método. Seu objeto são as causas primeiras, cuja série é impossível prolongar até o infinito.
Livro III (B) Tratado aporemático. Principais dificuldades do conhecimento científico.
Livro IV (G) Aparece a Filosofia Primeira como ciência do ser enquanto ser distinta de todas as demais ciências.
Livro V (D) Vocabulário. Definições e explicação dos nomes empregados em filosofia.
Livro VI (E) A Filosofia Primeira como ciência do ser enquanto ser, distinta das demais ciências teóricas particulares. Sobre o acidente
Livro VII (Z) Sobre a substância.
Livro VIII (H) Sobre a substância.
Livro IX (Q) Sobre o ato e a potência.
Livro X(I) Sobre a unidade, a contrariedade e a oposição.
Livro XI (K) 1-8 Resumo dos livros III, IV e VI; 8-12, resumo da Física II, III e V. Sobre a infinitude e o movimento.
Livro XII (L) Sobre as distintas classes de substâncias. Teologia. Astronomia. Sobre o sumo bem.

 

Livro XIII (M) Controvérsia com os platônicos sobre as Idéias subsistentes e os números ideais.
Livro XIV (N) Controvérsia com os platônicos sobre as Idéias subsistentes e os números ideais.

Comentários de São Tomás aos XII Livros da Metafísica de Aristóteles

Livro I (A) Livro I: Acerca da natureza e da perfeição desta ciência divina que é denominada Sabedoria e as opiniões dos antigos acerca das causas e dos princípios, como foram estabelecidos e refutados. Proêmio – Lições de I a III, n. 1-68: sobre a natureza desta ciência, seus princípios, sua dignidade, os graus de conhecimento humano e as causas que consideram esta ciência. Lições IV a XVII, n. 69-272: expõe e analisa as opiniões dos filósofos precedentes acerca das causas das coisas.
Livro II (a) Livro II: De como o homem se dispõe naturalmente para a consideração da verdade, de como pertence maximamente à filosofia primeira o conhecimento da verdade, e de como não pode dar-se um processo ao infinito nas busca das causas primeiras e do modo como se deve considerar a verdade. Lições I a V, n. 273-337: começa a considerar acerca da verdade desta ciência e determina o que é necessário para a consideração da verdade universal.
Livro III (B) Livro III: Acerca do modo como investigar a verdade, superando as dúvidas que apareçam na busca desta ciência, considerando o gênero das causas, das substâncias, dos princípios das coisas e acerca de qual ciência pertence considerar tais coisas. Lições I a XV, n. 338-528: começa a investigar a verdade de todas as realidades que pertencem à consideração desta ciência. Procede, à maneira de disputa, mostrando as coisas dubitáveis.
Livro IV (G) Livro IV: Acerca daquelas coisas que pertençam à consideração desta ciência, tais como acerca do ente, do uno e do múltiplo e do mesmo modo, do idêntico, do diverso e dos primeiros princípios de demonstração. Lições I a XVII, n. 529-748: Procede, demonstrando as coisas que são consideradas por esta ciência.
Livro V (D) Livro V: Acerca dos nomes que todas as ciências se valem, de suas intenções e significados. Lições I a XXII, n. 749-762: Começa a tratar acerca daquelas coisas que esta ciência considera, distinguindo os sentidos dos nomes que caem sob a consideração desta ciência; os nomes que significam causas n. 763-841; os nomes que significam aquilo que é o sujeito nesta ciência, n. 842-1032; os nomes daquelas coisas que se têm por modo de paixão, n. 1033-1143.
Livro VI (E) Livro VI: Acerca do modo de considerar o ente, o que compete à filosofia primeira, do modo como algumas coisas não pertencem a esta ciência. Lições I a IV, n. 1144-1244: Começa a determinar acerca daquelas coisas que caem sob a consideração desta ciência; estabelece por qual razão esta ciência deve considerar o ente. Procede, à maneira de demonstração, informando as coisas que são consideradas por esta ciência.
Livro VII (Z) Livro VII: Acerca da consideração da essência das substâncias sensíveis em suas considerações lógicas e comuns. Lições I a XVII, n. 1245-1680: Começa a considerar o ente; estabelece o que é o ente enquanto ente; o que é o ente.
Livro VIII (H) Livro VIII: Acerca dos princípios das substâncias sensíveis, especialmente da matéria e da forma e do modo como se unem. Lições I a V, n. 1681-1767: Considera o ente e o modo como se divide em dez predicamentos.
Livro IX (Q) Livro IX: Acerca da potência e do ato e da comparação do ato à potência. Lições I a XI, n. 1768-1919: Considera o ente e o modo como se divide em dez predicamentos.
Livro X(I) Livro X: Acerca do uno e das coisas que se seguem de sua consideração. Lições I a XII, n. 1920-1982: Considera o uno e o que se segue de sua consideração; n. 1983-2145: Considera o uno e a sua relação com o múltiplo.
Livro XI (K) Livro XI: Acerca do modo e do caminho para conhecer as substâncias separadas, revendo o que se considerou nos livros anteriores e no tratado de Física, como sendo úteis para a sua consideração. Lições I a XIII, n. 2146-2415: Considera os primeiros princípios do ente e acerca das substâncias separadas, retomando o que já fora dito acerca da substância.
Livro XII (L) Livro XII: Acerca da substância sensível, da substância imóvel e sobre a suma bondade. Lições I a XII, n. 2416-2663: Considera o que já foi dito acerca da substância e tudo o que a ela se refira.

2. Os Comentários de Tomás de Aquino aos livros da Metafísica de Aristóteles: para destacar a originalidade da metafísica tomista abordaremos a sua principal contribuição, ou seja, os seus Comentários aos XII livros da Metafísica de Aristóteles. Note-se que o Aquinate comentou apenas os XII primeiros livros da Metafísica. O fato é que nos doze livros comentados pelo Aquinate encontram-se os quatorze livros originais do Estagirita. É bem mais atual a querela acerca do número de livros e a sua ordem. No tempo do Angélico este era o número. E a ordem é muito similar a que hoje ocupa os doze primeiros livros. A data e o local dos comentários sobre a Metafísica de Aristóteles apresentam numerosos problemas, mas o estado atual da questão informa o possível local: Nápoles e as datas: 1270-1271. Os Comentários seguem a divisão aristotélica de livros e capítulos, mas acrescentam-se as lectio, que são as lições do Aquinate. Cada livro, independente das divisões capitulares, apresenta tais lições divididas, segundo certo critério temático, previamente estabelecido pelo lector (leitor) que se propõe a comentar a obra. Por isso, a denominação original de lectio, leitura. Por razões metodológicas, em determinadas edições, cada lectio se divide em pequenas partes expositivas e são numeradas seqüencialmente. Valemo-nos, aqui, de uma edição que apresenta esta numeração. Eis: Sancti Thomae Aquinatis, In Metaphysicam Aristotelis Commentaria. Cura et Studio P. Fr. M.-R. Cathala. Taurini: Marietti, 1915. Muito provavelmente foram numeradas posteriormente, embora sua divisão apareça no original tomista. Estes parágrafos numerados representam pequenas introduções e análises da parte do texto comentado. Esta numeração ajuda na percepção seqüencial da exposição dos comentários. Eis, pois, o número de livros, a sua ordem e as principais doutrinas de seu comentário:

3. A Metafísica Tomista: É mérito de Tomás de Aquino a inovadora exegese metafísica. Fruto da entrega de uma vida de estudo, oração e contemplação, que exige o mesmo de quem dela se aproxima. Não se pode aproximar-se da metafísica tomista sem se tornar, ao menos, cúmplice dela. Não erraria muito se dissesse que ela é, para o Aquinate, quase uma oração. De fato, se nos seres encontramos, segundo o Angélico, os vestígios, a imagem e semelhança de Deus, é certo que o estudo dos seres é muito mais que uma mera investigação, já que, por meio deste estudo, se pode encontrar algo do próprio Deus. Mas o que a Metafísica procura e encontra são a verdade, a causa e os princípios do ser. Que verdade? A verdade que é a adequação do intelecto com a realidade, ou seja, os princípios que a razão conhece do real não se opõem, senão antes se adequam, aos que existem no próprio real. Que causa? A causa primeira do ser e os seus princípios metafísicos constitutivos. A causa primeira é o que explica a natureza e a origem de toda perfeição e diversidade dos seres, da unidade e multiplicidade dos seres. De fato, a especulação metafísica nasce do interior da análise do uno e do múltiplo. Dentro desta perspectiva é importante e original a solução tomista ao problema da individuação dos seres, que é um dos temas mais importantes de sua Metafísica. Quais princípios? Os princípios são o que constituem e demonstram toda a estrutura e ordem internas dos seres. Constituem porque formam parte do ser e o demonstram porque, sendo evidentes à razão, são indemonstráveis em si mesmos, mas princípios de demonstração de tudo quanto possa ser. Tais princípios são, efetivamente, o fundamento de uma nova construção filosófica, cuja cobertura é a contemplação teológica, que marca, no metafísico, a identificação da Causa primeira com Deus. A Metafísica tomista leva o homem inevitavelmente a Deus, por meio de um caminho racional, coerente e demonstrável. Por isso, ela é ciência. O Aquinate se vale, como método, da procedência do estudo de casos mais simples e concretos para chegar à análise dos mais complexos e abstratos. Por isso, parte da análise das realidades sensíveis, na medida em que busca chegar, a partir disso, à análise das realidades imateriais. Neste sentido, a sua metafísica começa por compreender o ente sensível, sua causa próxima e seus princípios, para ir ascendendo ao ente supra-sensível, na consideração de sua causa remota. Daí ser a Metafísica dividida, como veremos, em geral e específica. Aquela considera o ente enquanto ente e, esta, a realidade última e única, causa e princípio de todos os seres. No estudo da Metafísica geral, considera-se tudo quanto se possa dizer do ente. Toda nomenclatura que se segue no estudo desta parte é herança do gênio grego aristotélico e latino agostiniano, com a inclusão de alguns verbetes que são frutos da colaboração de outros autores e do próprio Aquinate. O Aquinate vale-se deste vocabulário, mas o adequa, corrige e amplia, oferecendo novas possibilidades gramaticais e semânticas. A linguagem analógica ou a analogia, é fundamentalmente a grande inovação tomista. Por ela, tornou-se mais eficiente a comparação entre realidades que aparentemente, muito divergindo em algo acidental, assemelham-se em algo essencial. A linguagem analógica é o fundamento para a afirmação de duas outras importantes doutrinas tomistas: a doutrina da participação, a partir da qual se afirma e demonstra a real existência de algo na criatura que representa à maneira de vestígio, imagem e semelhança alguma perfeição divina e a doutrina do ato de ser que demonstra que o ser representa e confirma, em cada criatura, certo grau de realização de alguma perfeição divina. Este rico vocabulário se alinha, até hoje, nos léxicos e dicionários especializados ou não e, inclusive, guardam parcial, quando não total, semelhança com o sentido metafísico original aristotélico-tomista. A lexicografia aristotélico-tomista estabelece, guardadas as proporções, uma revolução semântica em linguagem filosófica e teológica. Isso marca, efetivamente, a sua importância e atualidade. Termos como substância, acidente, matéria, forma, privação, ato, potência, causa, princípio, uno, verdade, bem, algo, relação e, tantos outros, enriqueceram ainda mais o leque de possibilidades semânticas de alguns conceitos que mantêm, em alguns casos, o mesmo sentido original em seus usos corriqueiros. Quanto ao estudo da Metafísica específica, considera-se tudo quanto a razão possa, com seus princípios, aproximar-se da idéia da existência de Deus, da afirmação de algo de sua natureza e dos seus atributos. Esta parte foi denominada apropriadamente de Teodicéia. No Tomismo quase tudo é por via metafísica: a antropologia, a cosmologia, a psicologia, a gnosiologia, a ética, a política etc. Ela se faz onipresente às suas exposições filosóficas. Não obstante, apesar de tudo isso, para o Aquinate, ela não passa de um instrumento, uma serva da Teologia. Esta serva é, sem dúvida, em nossos dias, o remédio e a cura mais eficazes contra o desespero e o desencanto da razão humana, com relação à realidade, ao próximo e a Deus, conseqüência dos limites e privações aos retos princípios, que se lhe impuseram o idealismo, o niilismo e o relativismo. Por isso, para o Aquinate a Metafísica é, por excelência, a ciência humana racional mais digna e nobre de ser estudada, aprendida e ensinada pelo homem, pois revela ao homem, pelas coisas naturais e pelo uso dos princípios invioláveis da razão, a necessidade da existência de um ser infinito em perfeição: Deus. Eis a Metafísica tomista.

3.1. Prolegômenos: (a) O que é Metafísica? Segundo o Aquinate é tríplice a denominação da metafísica: Metafísica enquanto é ciência do ente; ciência divina e filosofia primeira, enquanto investiga as primeiras causas [In Met. I, lec. 2, 58-62; II, lec. 2, 291; VI, lec. 1, 1166-1170; XI, lec. 7, 2263-2267]. Em síntese a metafísica é a ciência do ente enquanto ente, dos seus princípios e causas. (b) O objeto da Metafísica: o ente é o objeto próprio da metafísica, porque é o que primeiro considera o intelecto, quando conhece a realidade; por isso, o ente é o sujeito da Metafísica [In IV Met. lec.1, n.529-531]. (c) A divisão da Metafísica: Como já dissemos, a Metafísica se divide em duas grandes partes: Metafísica Geral ou Ontologia [de onto (ente)+logia (estudo)], como ulteriormente a denominou Christian Wolff [1679-1754] e Metafísica Especial ou Teodicéia [de theo (Deus)+diké (justiça/estudo)], como posteriormente a denominou Wilhem Leibniz [1646-1716]. Para o Aquinate a Metafísica geral estuda o ente comum, enquanto a especial estuda o ente primeiro, as coisas divinas, o que se ocupa a última parte da Metafísica [In I Met. lec.2, 52-68; CG.I,4;STh.I-II,q66,a5,ad4]. Segundo o Aquinate é maximamente pertencente à Metafísica e, por conseguinte, mais nobre e digno, o que se ocupa dos estudos do que é imaterial em si mesmo ou o que é abstraído da matéria. Pertence ao estudo metafísico, portanto, o estudo dos conceitos que se originam por abstração das realidades sensíveis como, também, o estudo que trata da existência de realidades supra-sensíveis, como a das substâncias separadas, que embora não possuam matéria sejam também entes e objeto de estudo da Metafísica [In VI Met.lec.1,1162-1165]. (d) O método da Metafísica: O Aquinate estabelece duplo método: um ascendente, denominado resolutivo –resolutio-, que parte das determinações particulares às resoluções universais, que não é outra coisa que a indução; e outro descendente, denominado compositivo –compositio-, que inversamente parte das resoluções universais às composições particulares, que não é senão a dedução [In de Trin. lec.2,q2,a1,c3]. (e) A Metafísica e as demais ciências: Como vimos, para o Aquinate a Metafísica é ciência do ente. Ela nasce da especulação acerca dos princípios da Física, e daí tira seu nome. A Física é ciência [In I Phys.,lec.1,n.3] que estuda as causas, devendo inquirir a suprema causa [In II Phys.,lec.6,n.196]; e trata da matéria, da forma, do composto, do movimento, do tempo, do espaço e do lugar [In II Phys.,lec4,n.166]. Neste sentido, a Metafísica supõe o estudo da Física e de tudo que nela seja considerado. Os princípios metafísicos são ordenados segundo a ordem que a razão faz acerca dos conceitos, próprio da Lógica, que é a arte necessária diretiva da própria razão, por meio da qual o homem procede no conhecimento da verdade e evita o erro [In I Per. 1]; por isso, a Metafísica é estritamente lógica ou ciência da razão [S.Theo.I-II,q90,a1,ad2]. A Metafísica serve de modelo para a arquitetura de outras ciências teórico-práticas como, por exemplo, a Ética. A Ética é ciência moral, dos costumes, um tipo de conhecimento especulativo-prático: é especulativo, na medida em que nasce da ordem que a própria razão procura estabelecer, a partir dos seus princípios, nos atos da vontade [In I Eth. lec.1,n.1] e é prático, na medida em que é ciência dos costumes e dos atos humanos, que são sempre circunstanciais, singulares e práticos [In III Sent. d.23,q.1, a.4,2c]. (f) Metafísica – ciência e sabedoria: Metafísica é ciência, na medida em que, a partir dos princípios, deduz suas conclusões. É sabedoria no sentido estrito, enquanto ciência suprema de toda ordem natural, a qual julga, explica e defende pelos princípios das demais ciências, posto que os princípios da Metafísica transcendam aos das demais ciências, pois os destas são menos universais que os os princípios daquela [In II Met.lec5,n391/In IV Met.lec5,n588/CGI,c1;STh.I,q1,a6;I-II,q57,a2]. Concluindo, podemos dizer que a Metafísica é ciência especial que considera o ente segundo o que é comum de todos e, na medida em que é considerado abstraído absolutamente da matéria e do movimento [In III Sent. d27,q2,a4,c2].

3.2. O ente considerado em si mesmo: Analisaremos agora o essencial da Metafísica Geral. Deixaremos para expor e analisar a Teoria do Conhecimento Tomista, que serve de introdução à Metafísica, em Gnosiologia Tomista e Epistemologia Tomista, ou seja, a doutrina do ente considerado pelo intelecto, segundo a teoria do conhecimento tomista, bem como os princípios gerais do ente, comuns à consideração de todas as demais ciências. Do mesmo modo deixaremos para tratar em Teodicéia Tomista o conteúdo essencial da segunda parte da Metafísica, ou seja, a Metafísica Especial. Consideremos, pois, a doutrina fundamental da Metafísica Geral.

(a) O conceito de ente: o Aquinate concebe o ente analogamente. O conceito de ente não é unívoco, porque não se diz só e da mesma maneira de um único ser. O que é unívoco? O conceito unívoco diz-se do nome que significa uma mesma essência, que se diz de uma única natureza, ou seja, a conveniência do nome com a natureza, como no caso do nome Deus [S.Theo.I,q5,a6,ad3/q13,a10,c/In II Sent. 22,1,3,ad2]. O conceito de ente não é equívoco, porque não é o que significa várias coisas por um mesmo nome [C.G.4,49], como ocorre na ambigüidade, onde se toma a similitude entre as realidades, mas a unidade do nome [C.G.1,33] em que não há proporcionalidade entre o nome e a essência, ou seja, o nome é comum, mas as substâncias diversas, como ocorre com o nome cão dito do animal, da constelação e do temperamento irascível do homem [S.Theo.I,q4,a2,c]. O conceito de ente não é genérico, porque não inclui todas as diferenças [In I Met. lec.9, n.139] predicáveis do ente que fazem parte da definição, como o conceito de animal que inclui as diferenças racional e irracional [S.Theo.I,q3,a5,c], como no conceito de ente não entra alto, magro, baixo, gordo etc. O conceito de ente é análogo, porque resulta da comparação entre os diversos entes, por proporção [S.Theo.I,13,a5,c], em que o nome, segundo um significado aceito, é posto na definição de algo, com outro significado [S.Theo.I,13,a10,c], como o que se diz de algo que comumente se aplica a muitos [In I Sent.22,1,3,ad2], como saudável dito do alimento e do corpo que dele se alimenta. O ente considerado em si mesmo, como algo que existe fora da mente, de modo autônomo e independente, é dito essencial, como o abacateiro. O ente considerado como algo que existe fora da mente, mas que existe em outro, como algo que depende da existência do outro, é dito acidental, como o tom de cor verde do abacateiro. O ente que existe fora da mente é dito real porque é uma realidade concreta e singular e o ente que é considerado pela e na mente é dito de razão, porque ou é uma imagem ou um conceito abstrato e universal. O ente que já é o que é, é dito ente em ato, como o abacateiro é abacateiro em ato. O ente que vem a ser o que ainda não é, é dito ente em potência, como a semente de abacateiro que ainda não é abacateiro em ato, senão só em potência. Neste sentido, ente se diz da essência, do acidente, real e de razão, da potência e do ato [In V Met. lec.9, n.885]. Mas há que advertir que ente por acidente não é propriamente ser [In XI Met. lec.8, n.2272] e, por esta razão, não há ciência acerca do ente por acidente [In VI Met. lec.2, n.1172-1176]. O ente que é considerado abstraído da realidade concreta, pelo intelecto, é dito ente abstraído ou, como já dissemos, ente de razão [STh.I-II,q8,a1,ad3]. Há o ente de razão com fundamento no real, dito desta maneira porque resultou da abstração de uma realidade concreta, como o conceito de maçã. Há, também, o ente de razão raciocinado, enquanto produzido pela razão só a partir dos dados da imaginação, com as imagens que já existem nela, daí ente de razão derivado do raciocínio da razão, como produzido pela imaginação, por exemplo, uma maçã com asas, ou minotauro. Daí, ente de razão com fundamento no real e ente de razão raciocinado ou raciocinante. De qualquer modo, a consideração do ente de razão é próprio da Lógica [In IV Met. lec.4, n.574] e do ente real, considerado em si mesmo, é próprio da Metafísica. Em um e outro caso, o estudo do ente é primeiríssimo, porque é o que primeiro capta o intelecto quando considera o real [In I Met. lec.2, n.46]. Concluindo, quando o intelecto concebe o ente afirma que o ente é aquilo que é e o não-ente aquilo que não é, sendo impossível conceber o ente sendo e não sendo ao mesmo tempo. Desta captação do ente real, o intelecto, a partir dos primeiros princípios de conhecimento que possui como hábitos, formula os primeiros princípios de demonstração.

(b) Os primeiros princípios de demonstração: Para o Aquinate princípio significa aquilo de que algo procede e que contribui para a produção e demonstração de qualquer coisa [STh.I q33 a1, c]. Segundo o Aquinate, está inscrito na natureza intelectiva do homem o hábito dos primeiros princípios teóricos, também conhecidos como hábitos dos primeiros princípios do conhecimento. É a partir do uso do hábito dos primeiros princípios que se intui o hábito dos primeiros princípios da demonstração do conhecimento. Por tal intuição não somente se aperfeiçoa a inteligência como, também, a inclina para o conhecimento da verdade universal. Tal exercício dispõe a virtude intelectual especulativa dos hábitos dos primeiros princípios [STh. I-II,q57,a1]. A tal intuição do primeiro princípio de demonstração, segue-se a concepção do ente, como aquilo que é, e do não-ente, como aquilo que não é. Tal concepção é necessária e a constatação do princípio é evidente para o intelecto, quando concebe o ente. Esta evidência conclama o estabelecimento da existência do primeiro princípio do conhecimento, denominado princípio de contradição, ou princípio da não-contradição, este que não precisa ser demonstrado, porque é antes o que demonstra tudo mais que o intelecto concebe e que marca a oposição por contradição entre coisas que são e as que não-são [STh.I-II,q35,a4,c], entre o universal e o particular [STh.I-II,q.77,a2,ob3] e entre a afirmação e a negação [In I Peri. c.16], de cuja oposição se segue o corolário de que é impossível afirmar e negar ao mesmo tempo [STh.I-II,q94,a2] e que o ente é e não é, simultaneamente, uma mesma realidade [In IV Met. lec.6]. Do primeiro princípio da contradição, no qual todos os demais princípios se fundamentam [STh.I-II,q94,a2;De ver.q5,a2,ad7], seguem-se o princípio de identidade, que afirma que o ente é o que é [STh.I,q13,a7], o princípio do terceiro excluído, que sustenta não haver um meio termo entre ente e não-ente [STh.I-II,q94,a2;De ver.q5,a2,ad7], o princípio de causalidade, que afirma toda causa produzir um efeito proporcional [In IV Sent.d1,q1,a4;STh.I,q79,a13] e o princípio de finalidade, que sustenta que todo agente opera por causa de um fim [In I Sent.d35,q1,a1]. Resta agora considerar de que está constituído o ente, sua natureza.

(c) A natureza do ente: Dizemos que ente é o que tem ser [In XII Met. lec.1, n.2419]. Ora, se ente é o que tem ser, o ser é o que constitui a natureza do ente.A distinção entre ente e ser é muito importante, embora possam ser tomados como sinônimos, quando considerados univocamente. Mas nem sempre são tomados univocamente, pois ser se diz de Deus, mas ente, enquanto isso denota a existência concreta, substancial, determinada e finita, não significa o ser de Deus. Para que se evite confusão dos tipos univocidade, equivocidade e generalidade, a distinção entre ente e ser aqui é tomada analogicamente, conforme o que se disse já acima. Então face a isso a primeira questão é: O que é ser? A primeira afirmação é a de que ser é ato, mas não qualquer ato, senão ato de ser [In IV Met. lec.2, n.556-558]. Mas, o que é ato de ser? O ato é sempre considerado como perfeição pela qual alguma coisa existe [In IX Met. lec.3, n.1805], de tal modo, se algo existe, é ato. Existir se toma do que tem existência. Existência é a manifestação do ser de algo. Por existir consideremos, primeiramente, a manifestação real de algum ser: se for ser concreto, o existir manifesta segundo tal concretude e se for imaterial, a manifestação é segundo a sua natureza imaterial. Neste último caso, tal existência não é imediata e necessariamente manifesta aos sentidos, senão só ao intelecto, que mediante seus princípios pode captá-la. Portanto, o existir do ente concreto se manifesta no espaço, no tempo e pode por ambos ser mensurado, como em sua duração temporal e em sua localização espacial. Pois bem, ente é o que tem ser, ser é ato e a existência a manifestação deste ato. Assim, pois, quando dizemos que ente é o que tem ato de ser, queremos dizer que ente é o que tem a perfeição de existir. Mas, também, prioritariamente se diz que ente é o que tem o ser como constitutivo de sua natureza. Por isso, ser é a natureza do ente ou de qualquer coisa que exista [In I Sent.d33,q1,a1,ad1]. O ser deste ato que determina o ente a existir também o determina com o subsistir. Por isso, quanto mais intensivo for o ato de um ente, mais intensiva é a sua perfeição. A intensidade máxima do ente, nesta ordem, é a subsistência, na medida em que é a propriedade do que subsiste por si mesmo. Ora, se o ente existe por outro, não subsiste por si. Mas se existe por si, também subsiste por si. Isso que faz com que algo subsista por si e não por outro é o que de mais nobre pode o ente ter. Por isso, o ato que determina tal perfeição no ente é o que de mais nobre [CG.I,c28,n260/In I Sent.d17,q1,a2,ad3], perfeito, digno e íntimo [De anim. a9/De nat. accid. c.1,n.468] existe na natureza do ente e na de qualquer realidade que exista em si e por si [De Pot.q7,a2,ad9], porque é a atualidade de todos os atos, inclusive do ato último [CG.III,c3;C.Theo.I,c.11,n.21] de tudo o que existe e de qualquer forma que venha a existir [Quodl. XII,q5,a1/STh.I,q4,a1,ad3] como substância. Ora, se é o ato de ser que aperfeiçoa o ente, é ele que permite conceituar o ente como substância, já que por substância se entende esta realidade que existe e subsiste por si e não em outro. Antes, porém, de considerar o ente sob a denominação substância, que destaca e enfatiza no ente a capacidade e a propriedade do subsistir, consideremos outras propriedades do ente que nos chegam a partir da análise da natureza do ente em si mesmo. Tais propriedades porque são conversíveis com o ser, são denominadas transcendentais, no sentido escoslático do termo, ou seja, são notas inseparáveis da noção de ser, de tal maneira que ao pensarmos ser, pensamos indistintamente tais notas.

(d) As propriedades do ente: O intelecto ao considerar o conceito de ente concebe, ainda, outros seis conceitos que não são totalmente sinônimos de ente, pois se distinguem só conceitualmente e não realmente do ente. Como dissemos, tais conceitos se dizem igualmente de ente, porque são notas inseparáveis da noção de ser, de tal maneira que ao pensarmos ser, pensamos indistintamente tais notas. O Aquinate concebe seis notas ou propriedades transcendentais do ente. Aristóteles havia concebido somente cinco. Para o Aquinate são eles: coisa, uno, algo, verdadeiro, bem e belo. Pois bem, tais conceitos são convertíveis com o conceito de ente e se dizem transcendentais, porque são propriedades fundamentais do ente [De ver.q1,a1;q21,a1-3;De pot.q7,a2,ad9;q9,a7,ad6;In IV Met.lec3,n.566]. O primeiro transcendental é denominado coisa, na medida em que ao conceber o ente, o concebe como uma coisa – res – uma realidade [In II Sent. d25,q1,a4,c;STh.I,q39,a3,ad3], de tal maneira que não há ente senão real. O segundo transcendental é denominado unidade, e este é considerado quando ao se conceber o ente, se concebe também que ele é indivisível [In I Sent.d24,q1,a2;STh.I,q11,a1], ou seja, que o conceito de ente não pode ser atribuído senão unicamente e indivisivelmente ao ente. O terceiro transcendental é denominado algo, na medida em que se considera que todo e qualquer ente tem uma natureza, uma unidade que a distingue de qualquer outra natureza como alguma –aliquid– coisa, que a distingue das demais [D ver.q1,a1,c]. O quarto transcendental é denominado verdade, estabelecido quando o intelecto concebe que todo ente é cognoscível e que tal cognoscibilidade exige uma adequação entre o que o intelecto concebe do real e o que o real é em si mesmo, sendo por isso que se dirá que a verdade é a adequação do intelecto com a coisa e que todo ente é verdadeiro, na medida em que pode ser conhecido como uma verdade pelo intelecto [In I Perih.lec.3,n.29-30;STh.I,q16,a3]. O quinto transcendental é denominado bondade, e é estabelecido quando o intelecto concebe que todo ente é bom e apetecível por si mesmo pela vontade [STh.I,q5,a1;De ver.q21,a2], de tal modo que ente é o que é querido por ser ente. Cabe aqui uma nota sobre o mal. O mal não é ente, por isso não tem ser. O mal é a privação de ser ou de alguma perfeição, propriedade ou nota fundamental que algo deveria possuir, mas da qual se encontra privado [De malo,q1,a1,c]. Sendo assim, o mal é no ente e não o ente ou do ente. O sexto trancendental é denominado belo, quando o intelecto concebe que o ente é aquilo que agrada aos sentidos e causa prazer ao ser apreendido [STh.I,q5,a4,ad1;I-II,q27,a1,ad3]. Com a concepção das notas transcendentais segue-se agora a análise da consideração do ente como ele existe na realidade, a partir de uma divisão do ente em substância e acidentes. O ente considerado fora da mente pode ser dito substância, o que é em si mesmo e acidente, o que existe na substância.

(e) A divisão do ente a substância: Denomina-se substância o ente que subsiste e existe em ato, por isso, ente se diz primeira e propriamente da substância [In III Met. lec.12, n.488-493]. A substância éa base, o fundamento, o sujeito, o suposto para tudo que exista no ente ou se diga do ente [In III Sent. d23,q2,a1,ad1], porque é antes o que existe por si e subsiste a parte de tudo que exista nele ou que se predique dele [In II Sent.d37,q1,a2,c/STh.I,q6,a4,c/CG.I,25/CG.II,52]. Diz-se substância primeira a que existe de modo individual, fora da mente como este homem que é Pedro, este cavalo que é campeão, esta árvore que é um abacateiro; e substância segunda a que existe, de modo universal, na mente, fruto da abstração – operação própria do intelecto – que abstrai toda materialidade do real, suas notas individuais, quando a concebe, como quando se concebe homem, animal e vegetal [In I Sent.d25,q1,a1,ad7]. Divide-se em substância simples a que não se compõe com nada e substância composta que se compõe com outra, como a de matéria e forma ou de ato e potência [STh.I,q75,a7c;CGIII,20], em substância divina e substância criada [Sth.I,q13,a7;CG.I,3]. A substância divina é a substância imóvel ou eterna e simples [In XII Met. lec12, n.2424-2427]. As substâncias criadas são as substâncias móveis. As substâncias criadas podem ser ainda denominadas: substância sensível incorruptível ou substância inanimada as que são como os astros, os corpos naturais, como os minerais, substância sensível corruptível, ou substância animada as que são como as plantas e os animais [In XII Met. lec12, n.2424-2427], substância racional ou intelectiva dita a substância homem [STh.I,q108,a5,c;q29,a1,c;CG.II,44;III,110], substância separada ou angélica, a que existe como anjo [In XII Met. lec12, n.2424-2427]. Diz-se substância completa ou perfeita a que não depende de outra para ser o que é, como a substância separada, mas diz-se substância incompleta ou imperfeita a que necessita unir-se a outra para existir completa, como a mão em relação ao corpo [STh.III,q2,a2,ad3;I,q75,a4,ad2;CGII,55].

(f) A divisão do ente – o acidente: Denomina-se acidente o ente que não existe, nem subsiste por si, senão em outro [STh.I,q77,a1,ad5;q28,a2,c;Quodl.IX,q3,a5,ad2;In IV Sent.d12,q1,a1,ad2;De pot.q8,a2,c]. O que significa existir em outro? Existir em outro não significa a existência por acomodação ou justaposição, ou seja, a existência daquilo que se acomoda ou se justapõe a outro, enquanto em si mesma é parcialmente autônoma e, portanto, parcialmente independente. O acidente não é nem autônomo, nem independente parcial ou totalmente frente à substância. De fato, o acidente não existe fora da substância. Mas isso não impede que o nosso intelecto assim possa pensá-lo. Pode o nosso intelecto pensar a cor verde como algo acidental da maçã, já que não é necessário que toda maçã seja por essência verde. É neste sentido que o intelecto pensa certas propriedades das substâncias como lhe sendo acidentais, ou seja, não lhe são essenciais e necessárias. Na substância há os acidentes naturais ditos assim porque existem nas substâncias, nos corpos naturais. Na mente após abstração e só nela, há os acidentes lógicos ou predicáveis, que resultam da consideração e abstração do intelecto sobre as propriedades das substâncias. São ditos predicáveis porque resultam de uma relação lógica de predicação que o nosso intelecto estabelece entre os conceitos. Nosso intelecto quando conhece e concebe conceitos predica uns dos outros. Assim, nosso intelecto desmembra do conceito de homem, os conceitos de animal e racional e os classifica segundo uma distinção mental, sendo denominados predicáveis porque são ditos predicados do conceito de homem. Deste modo os conceitos de animal e racional, que são desmembrados do conceito de homem, são classificados segundo uma relação lógica que o nosso intelecto faz segundo uma distinção mental em gênero, espécie, diferença, próprio e identidade. Vejamos, pois, cada um dos cinco predicáveis. O primeiro predicável é a espécie, que é um dos cinco predicáveis que representa a essência completa do indivíduo e que é indicada na definição [In VII Met. lec5,n1378], não é gênero, nem diferença, mas o princípio deles [In VII Met. lec5,n.1378-1379] e o que nas substâncias compostas significa a composição de matéria e forma [In VII Met.lec9,n.1469] e no homem a composição de corpo e alma. Por isso a espécie é dita humana. Assim, a espécie é homem. O segundo predicável é o gênero que é um dos cinco predicáveis que indica uma parte da essência, comum a outras espécies, como animal dito do homem e do cavalo; portanto o gênero forma parte da definição que se dá a uma realidade conhecida [S.Theo.I,q3,a5,c]. O terceiro predicável é a diferença que é um dos cinco predicáveis que indica a nota específica que diversifica no interior do gênero uma coisa de outra, como a racionalidade no gênero animal [SThIq3,a5,c;q31,a2,ad2;q50,a4,ad1]. Esta diferença é a razão. O quarto predicável é a identidade que é o oposto da diferença [S.Theo.I,q40,a1,ad2]. O quinto predicável é o próprio que é um dos predicáveis que se diz só daquele que convém e não é necessário que pertença à sua essência, como o riso do homem [In I Sent.d8,q1,a1;In II Anal.lec3]. Os acidentes naturais, ou seja, que existem nas substâncias naturais e que são concebidos pelo intelecto são denominados em sua consideração lógica de predicamentos ou categorias, mas enquanto tais existem realmente na substância. Como Aristóteles, o Aquinate estabelece nove categorias de acidentes da substância. A primeira categoria é denominada quantidade, na medida em que é o primeiro acidente que existe na substância natural, de tal maneira que não existe substância natural que não possua a quantidade como extensão, magnitude, pela qual a substância seja pequena ou grande, leve ou pesada etc. Suas notas são: segue a matéria na substância, a divide e a multiplica, é sujeito da qualidade [SThI,q28,a2,c;In I Phys.lec3;In V Met.lec15; In III Phys.lec5]. A segunda categoria é denominada qualidade, na medida em que é o acidente que segue a quantidade e que a modifica intrinsecamente e, por conseqüência, a própria substância, sem que com isso a substância deixe de ser o que é, mas que seja capaz de apresentar, não ao mesmo tempo, figuras diferentes, propriedades extensivas diferentes, como calor, cor etc. [SThI,q13,a1,ad3;q28,a2,c;In III Phys.lec5;In I Sent.d22,q1,a1,ad3]. A terceira categoria é denominada relação, na medida em que se diz não intrinsecamente da substância, mas da referência ou ordenação de uma substância ou de um acidente da mesma com outra substância ou acidente da mesma ou de outra substância, como por exemplo, entre substâncias: filiação, paternidade; entre acidente e substância: o branco desta neve; entre acidentes da mesma substância o azul do mar é diferente aqui e lá; entre acidentes de substâncias distintas: o verde da folha da laranjeira é diferente do verde da fola do abacateiro [SThI,q28,a2-4;In III Phys.lec1;In IV Sent.d27,q1,a1]. A quarta categoria é denominada ação enquanto é na substância princípio agente de movimento da substância em outro sujeito como, por exemplo, aquecer, lançar uma bola etc. [SThI,q41,a1,ad2;CGII,9]. A quinta categoria é denominada paixão, enquanto é na substância o princípio passivo de atividade de outro sujeito como, por exemplo, ser aquecido, ser lançado etc. [CGIV,66;In III Phys.lec6;SThII-II,q171,a2,c;]. A sexta categoria é denominada lugar, na medida em que se refere o espaço comum que uma substância pode ocupar com relação a outras substâncias corpóreas adjacentes como, por exemplo, este espaço aqui, aquele espaço ali etc. [SThI,q76,a5;I,q33,a2;q36,a2;In III Pys.lec3;In V Met.lec9]. A sétima categoria é denominada posição e faz referência ao modo como a substância está no lugar como, por exemplo, na vertical, na horizontal, etc. [SThI,q3,a1;In IV Phys.lec7;Quodl.III,q3,a3,c;]. A oitava categoria é denominada posse e faz referência à substância ter ou não algo contigüo a si como, por exemplo, estar coberto ou não, usar caneta etc. [SthI,q49,a1,c;SThIII,q2,a6]. A nona categoria é denominada tempo e faz referência à medida do movimento da substância, de sua duração temporal corpórea como, por exemplo, ontem, hoje, amanhã etc. [STh.I-II,q31,a2,c;In IV Sent.d49,q3,a1,c;In IV Phys.lec20]. Mas porque não há ciência dos acidentes, é preciso voltar à consideração da substância e analisar e expor os seus princípios. Quais os princípios da substância?

(g) Os princípios estruturais da substância: a matéria – dentre as criaturas corpóreas, a primeira realidade a ser criada e da qual foram produzidos todos os demais corpos é denominada matéria primeira ou materia ex qua – ou seja, aquela primeira, a partir da qual foram produzidas todas as outras criaturas corporais. A matéria é o que entra na constituição de qualquer substância natural. Qual a sua origem? A matéria primeira foi criada direta e imediatamente por Deus, sem a intervenção de algum instrumento e sem nada pressupor. Por que é primeira? Diz-se primeira porque antes dela nenhuma outra matéria existiu. Como se deu sua origem? Ela foi criada ex nihilo – do nada; Deus não criou a matéria da não-matéria, mas do nada. Portanto, antes dela não existiu uma realidade sobre a qual Deus operasse e sacasse a matéria primeira. Ora, se ela foi a primeira, todos os corpos que se formaram depois de sua criação, têm nela o seu primeiro princípio. Por isso, a matéria primeira é, antes de tudo, o princípio de tudo quanto existe materialmente, como também, a matéria comum de todos os corpos que foram produzidos, eduzidos e gerados a partir dela. O que significa matéria primeira? É o substrato das transformações substanciais [In XII Metaph., lect.2], mas não como um ser em ato, senão em potência [In VIII Metaph., lect.1; VII, lect. 6; XII, lect. 2]. Tudo que dela é tirado denomina-se matéria segunda. O que é a matéria segunda? É a matéria que por estar determinada em ato por uma forma específica e pelas dimensões quantitativas, se encontra privada de qualquer outra determinação específica por meio de alguma outra forma substancial. A matéria segunda é singular, individual, sensível, concreta, determinada, corruptível. Por isso, a matéria segunda é também denominada matéria sensível, matéria individuada, matéria determinada, matéria signada, matéria corruptível. Quando, porém, o intelecto abstrai da substância material, individual sua matéria e princípios individuantes, considerando a sua essência, considera também a matéria. Tal matéria considerada pelo intelecto e que não deve ser confundida com a matéria primeira em razão da nomenclatura, recebe os seguintes nomes: matéria universal ou comum, posto que universal é definido como o que é comum de muitos, matéria abstrata, na medida em que é considerada abstraída das determinações acidentais, como a quantidade e seus atributos como altura, largura e profundidade ou matéria inteligível, porque é só considerada pelo intelecto. O que é privação? É o nome que expressa o estado atual de uma matéria que por encontrar-se informada por uma forma substancial que lhe confere tal e tal perfeição, se encontra privada e carente de toda e qualquer outra perfeição em ato [STh.I-II,q36,a1,c;CG.I,71;III,7]. Qual a sua natureza? A matéria segundo aquilo que é se encontra em potência para a forma [STh.I,q66,a2,c]. Ora, a matéria primeira conteve originariamente toda perfeição que os corpos manifestaram, que dela foram produzidos. Sendo assim, a matéria primeira possuiu toda a perfeição originalmente em si mesma de um modo minimamente atual e maximamente potencial. Tal máxima perfeição potencial lhe rendeu o título de pura potência. Contudo, ela não era literalmente pura potência, posto que se ela existiu, também possuiu, ao menos, uma mínima atualidade, pois só existe o que possui algum ato. Que categoria de ato possuiu originalmente em sua natureza? O ato de ser das formas elementares, que dentre os atos de ser é o minimamente atual e maximamente potencial. O que é maximamente potencial? Refere-se à capacidade de a matéria receber, produzir e transformar-se em muitas outras perfeições que nela subsistiam apenas de modo potencial. A matéria por ser primeiro sujeito das formas, ao ser informada por uma forma específica, torna-se atual, como o seu substrato individual, por isso, a matéria é considerada princípio de individuação da forma que recebe [In VII Metaph., lect.10]. São, pois, usuais no pensamento tomista, as noções atribuídas à matéria, tais como: substrato, primeiro sujeito, pura potência e princípio de individuação.

(h) Os princípios estruturais da substância: a forma – é o que determina a natureza da substância [STh.I,q5,a5,c], de tal maneira que tudo o que existe tem forma [STh.I76,a1]. A forma enquanto forma é ato [STh I,q75,a5,c]; e é o ato da matéria [STh I,q105,a1,c] sendo, pois, aquilo que indica a essência [C.G.I,21] ou o que constitui a espécie de algo [STh I,q5,a5,c], que constitui a natureza de uma coisa natural [C.G,IV,35]. Diferente da matéria, a forma não foi única em sua origem. De fato, a natureza da matéria primeira é constituída por uma pluralidade de formas substanciais denominadas elementares. São ditas formas elementares por serem princípio de todas as demais formas produzidas ulteriormente, a partir da geração ou transformação ocorrida no interior da matéria primeira. Das sucessivas mesclas entre as formas elementares, no interior da matéria primeira, foram produzidas as formas substanciais mistas, ditas assim, porque resultam da mescla entre as elementares. As formas substanciais mistas são de três categorias: formas minerais, formas vegetativas e formas sensitivas ou animais. Qual a diferença? As formas minerais são formas produzidas da matéria primeira, cuja mescla não gerou organicidade, senão justaposição e coesão das mesmas. As formas vegetais são as formas produzidas a partir da mescla das formas elementares e minerais na matéria primeira, cuja mescla gerou além da coesão, organicidade e movimento de aumento, crescimento e diminuição. Este movimento é denominado vida. As formas sensitivas são as formas produzidas a partir da sucessiva mescla das formas elementares, minerais e vegetativas no interior da matéria primeira, cuja mescla deu origem às substâncias que possuem além de coesão, uma categoria de movimento superior ao das formas vegetativas, pois possuem ademais da capacidade de aumento, crescimento e diminuição, a sensação por meio de órgãos sensíveis que estabelecem uma relação com o mundo exterior. Estas três categorias de formas substanciais são ditas formas materiais, formas corporais, formas naturais porque suas perfeições são produzidas a partir das sucessivas mesclas naturais entre as formas elementares, no interior da matéria primeira. Há as formas imateriais que não são produzidas a partir da matéria, senão que são criadas direta e imediatamente por Deus. São elas a forma substancial racional, ou a alma intelectiva do homem e a forma substancial separada, ou a forma angélica. A forma humana, também, denominada de forma –coiuntiva – unitiva [STh.I,q7,a2,ad2;CG.III,69], porque se une ao corpo, possui as perfeições das formas elementar, mineral, vegetativa e sensitiva, além da sua específica que é a intelectualidade. Por ter a natureza imaterial e por ser a sua origem por criação, pelo sopro espiritual de Deus, a forma humana é, também, genericamente denominada de forma espiritual. A forma humana porque ela só determinada a natureza humana é denominada forma completa ou perfeita [STh.I,q66,a2,c;CG.II,89;CG.III,22]. A forma que por si só não completa a natureza de algo diz-se forma incompleta ou imperfeita. A forma angélica, que é forma completa e perfeita, embora não possua como constitutivo da perfeição própria de sua natureza as perfeições das formas elementares, minerais, vegetativas e sensitivas, possui em grau superior a da intelectualidade, pois é ser puramente espiritual. Todas as formas ditas até aqui, ou seja, as formas elementares, as formas minerais, as formas vegetativas, as formas sensitivas, as formas humanas e as formas angélicas são formas substancias, porque constituem substâncias. No entanto, há formas que existem na substância, como acidente e, por esta razão, são denominadas formas acidentais [STh.I,q77,a6,c;STh.I,q3,a6;CG.II,49]. Estas não constituem as substâncias, senão que as supõem existindo para nelas existirem. Tais são as formas dos acidentes, como a figura, por exemplo. De fato a figura é o acidente da substância natural que mais expressa a forma substancial do corpo. Tais formas quando são consideradas pelo intelecto, abstraídas das substâncias, são denominadas formas lógicas. As formas naturais -elementar, mineral, vegetal e animal – podem ser consideradas pelo intelecto e, enquanto tais, são denominadas espécies, essências, ou naturezas. São ditas formas artificiais as formas que resultam da operação artificial, como as que derivam da ação humana sobre a matéria. Algumas formas artificiais são substanciais e outras acidentais [STh.III, q66,a3,c;I,q14,a8,c; CG.II,2,47;III,24;IV,35;In I Sent.d36,q2,a1,c]. Matéria e forma constituem por meio de uma união em ato, a natureza ou essência da substância, determinando-a a existir e operar. O primeiro efeito desta união é a individuação da substância.

(i) A individuação: A matéria por ser o primeiro sujeito das formas, ao ser informada por uma forma específica, torna-se atual, como seu substrato individual, por isso, a matéria é considerada princípio de individuação da forma que recebe [In VII Metaph., lect.10]. São, pois, usuais no pensamento tomista as noções atribuídas à matéria, tais como: substrato, primeiro sujeito, pura potência e princípio de individuação. Para o Aquinate a natureza não é, por si mesma, individual. Tomás estabelece que esta é individual no suposto. O suposto é a matéria e a natureza a forma, de tal modo que a substância individual é a união substancial de ambas, na medida em que a natureza da espécie se individua pela matéria. A matéria na substância é o que impede a comunicabilidade da natureza a muitos. Por isso, o suposto é princípio de incomunicabilidade, porque é a matéria que recebe e constitui a individualidade da substância. Tal matéria não é comum de muitos, mas uma tal matéria determinada. O suposto acrescenta algo diverso à natureza, ou seja, a diferença individual: no composto de matéria e forma, indivíduo acrescenta a determinação da matéria e os acidentes individuais sobre a natureza da espécie. E as coisas compostas de matéria e forma, suposto e natureza se distinguem. Por isso, nos ensina Tomás que, dentre as substâncias corpóreas, em nenhuma criatura é idêntico o suposto e a natureza, mas aquelas que não se compõem de matéria e forma não diferem o suposto da natureza, pois nos anjos a própria forma é o suposto da natureza. Estas palavras resumem o antes dito: deve ficar claro que suposto e natureza não se identificam absolutamente em qualquer coisa, pois o suposto não é o seu ser. Assim, pois, porque a natureza não é por si mesma individual e porque ela é distinta do suposto nas criaturas materiais, a pergunta por seu princípio de individuação e incomunicabilidade constitui, dentro do contexto do pensamento tomista, a formulação mesma do problema da individuação das substâncias materiais. Tomás define o princípio de individuação como aquilo que determina a incomunicabilidade da natureza, porque é princípio de incomunicabilidade e identifica este princípio à matéria assinalada pela quantidade. Tomás coloca o fundamento da individuação da natureza específica na matéria assinalada pela quantidade: porque a matéria por natureza não está apta a ser recebida em algo, ela mesma deve ser o primeiro sujeito subjacente e princípio de individuação do que recebe e isto porque ela é o primeiro sujeito subjacente, ou seja, primeiro sujeito a partir do qual se produz algo por essência e não por acidente, por isso ela é considerada sujeito de toda forma e princípio de incomunicabilidade. Pelo que lhe acrescenta a matéria, a natureza se torna individual e incomunicável, sendo o princípio de individuação o de incomunicabilidade da espécie: pois o singular possui incomunicabilidade justamente por aquilo que é de sua natureza, ou seja, pela matéria. A forma não é individuada pelo fato de ser recebida na matéria, mas pelo de ser recebida ‘nesta matéria’, que é distinta e sua existência determinada aqui e agora: na verdade a forma não é individuada por ser recebida na matéria, senão enquanto é recebida ‘nesta matéria’ ou ‘naquela outra’ que existe determinada e distinta uma da outra aqui e agora. Eis algumas referências mais importantes, segundo uma ordem cronológica: In I Sent., d. 8, q. 5, a. 2; d. 9, q. 1, a. 2, d. 23, q. 1, a. 1; d. 25, q. 1, a. 1, ad. 3, ad. 6; d. 36, q. 1, a. 1, con; De ent. et ess., cap. 2, n. 7; De nat. mat., cap. 1, n. 370; cap. 2, n. 375; cap. 3, n. 377; cap. 4, n. 379, n. 380, n. 383, n. 385, n. 389; cap. 5, n. 393, n. 394; cap. 6, n. 398; De prin. indiv., n. 426, n. 428; In II Sent., d. 3, q. 1, a. 1; a. 3; d. 30, q. 2, a. 1; In III Sent., d. 1, q. 2, a. 5, ad. 1; In IV Sent., d. 12, q. 1, a. 1, sol. 3, ad. 3; q. 2, sol. 4; d. 44, q. 1, a. 1; q. 2, a. 2, sol. 2; De Trinitate, lec. 1, q. 4, a. 2; C. Gen., 1, c. 21, n. 199; 1, c. 44; 4, c. 63; 2, c. 71, n. 1480; 4, c. 65, n. 4019-4020; 4, c. 81, n. 4151; De Pot., q. 9, a. 1; a. 2, ad. 1; Quodl., 8, a. 10; 11, a. 6; Sum. Theo., I, q. 3, a. 2, ad. 3; q. 29, a. 3, ad. 4; q. 54, a. 3, ad. 2; q. 56; a. 1, ad. 2; q. 76, a. 4; a. 6; De Anima, a. 9; De Spirit. creat., a. 3; De Sub. sep., cap. 7, n. 77; Quodl., 1, q. 10, a. 21, a. 22; Com. Theo., cap. 153, n. 305; n. 308; Sum. Theo., III, q. 77, a. 2.

(j) O ser, a essência e a existência: – o ser – temos visto que o ente é o que tem ser [In XII Met. lec.1, n.2419], ato de ser [In IV Met. lec.2, n.556-558], perfeição, pela qual alguma coisa existe [In IX Met. lec.3, n.1805], subsiste e é o que de mais nobre [CG.I,c28,n260/In I Sent.d17,q1,a2,ad3], perfeito, digno e íntimo [De anim. a9/De nat. accid. c.1,n.468] há na natureza da coisa [In I Sent.d33,q1,a1,ad1], como ato de todos os atos [CG.III,c3;C.Theo.I,c.11,n.21] e ato de tudo o que existe e de qualquer forma que venha a existir [Quodl. XII,q5,a1/STh.I,q4,a1,ad3] como substância;- a essência – num primeiro sentido metafísico essência indica a natureza individual da substância e num segundo sentido, agora lógico, indica a qüididade ou essência abstraída pelo intelecto da substância individual. Então, a essência no primeiro sentido metafísico é sinônima de substância e a essência no sentido lógico é sinônimo de qüididade, ou seja, a essência considerada como conceito, abstraída e na mente [STh.I,q3,a3,c]. Na consideração lógica a essência é o que o intelecto capta da união e composição de matéria e forma [STh.Iq29,a2,ad3]. Por isso, a essência na mente indica o que é comum de muitos [De ente et ess.c2]. Na consideração metafísica a essência é na própria substância a composição de matéria e forma. Ora, na substância é a forma que dá o ser e é a matéria que o recebe. Em substâncias de mesma natureza é o mesmo ato de ser que determina a perfeição em todas. Mas as substâncias de mesma natureza se distinguem individualmente, umas das outras, pelo modo como recebem o ato de ser em seus supostos. Isto faz com que o ser seja distinto da essência na substância de cada coisa de que é ser. Pautado nisso, afirma-se que ser e essência distinguem-se nas criaturas. Só em Deus ser e essência se identificam [Comp. Th. I,XI]; – a existência – a existência é o que resulta do último ato, do ato de ser, pois vimos que o ato de ser é aquilo pelo qual algo existe [In IX Met. lec.3, n.1805]. Neste sentido, sem ato de ser, não há existência. Podemos, então, dizer que a existência é a manifestação aqui e agora do ato de ser realizado na substância. A existência torna factual a presença da substância. Sendo assim, a distinção metafísica que há é a de ser e essência e não de essência e existência, posto que metafisicamente falando não há essência que não exista e existência que não tenha uma essência.

(l) A causalidade da substância: Por ser muito comum confundir causa com princípio e o que é o elemento, parece oportuno diferir causa de princípio e elemento [In I Phys,lec1,n.5]. Princípio pode ser o primeiro numa ordem ou a causa de algo. É dito primeiro numa ordem quando antecede na ordem do ser ou do tempo ao que é segundo, como o hidrogênio é princípio da água, que no ser e no tempo é segundo. É dito causa quando o princípio é intrínseco e atua essencialmente na produção de outra realidade, como na geração biológica o espermatozóide é princípio da fecundação, porque causa no óvulo a fecundação. Causa é princípio intrínseco de algo. Elemento é aquilo de que algo se compõe e pode ser princípio ou causa deste algo. Consideremos, pois, a causalidade da substância, visto que não raro reduz-se na substância a matéria como sendo a sua única causa. Mas há que se dizer que a causa é o que por sua natureza independente da matéria [In II Phys,lec5,n.176], embora ela mesma, a matéria, possa ser uma causa. Como herança da Física, a Metafísica estabeleceu quatro causas para a constituição da substância. Vejamos as espécies de causas: a material, a formal, a eficiente ou movente e a final [In II Pys,lec5,n.178-186; In II Phys,lec10,n.239]. Segundo o Aquinate é necessário que sejam quatro as causas: a causa do ser é a forma, daí a causa formal; aquilo de que algo é feito é a matéria, daí a a causa material; aquilo pelo que algo opera é princípio eficiente, daí a causa eficiente e aquilo a que tende uma operação é o fim, daí a causa final [In II Phys. lec10, n240]. Para a constituição metafísica da substância concorrem as quatro causas. A causa pode ser essencial ou acidental [In II Phys,lec5,n.190]. A essencial é que opera na essência ou constitui uma essência e é sempre finita e determinada, mas a acidental que opera no acidente ou constitui um acidente é infinita e indeterminada [In II Phys,lec8,n.214]. Deste modo a causa essencial produz efeito contínuo e a acidental ocasional, poucas vezes [In II Phys,lec8,n.214]. A causa essencial é anterior à acidental [In II Phys,lec10,n.236] e a acidental não causa algo absoluto [In II Phys,lec9,n.218]. A causa pode ser em ato ou em potência [In II Phys,lec6,n.191]. É causa em ato quando essencial e potencial quando acidental. A causa quando não manifesta é o acaso e o fortuito [In II Phys,lec7,n.198]. A causa primeira é o seu ser e dá o ser aos demais [In VIII Phys,lec 21,n.1154]. O acaso se enquadra entre as causas [In II Phys,lec8,n.198], mas é causa por acidente [In II Phys,lec5,n.181], seu efeito não é absoluto nem freqüente [In II Phys,lec8,n.214]. O intelecto não conhece imediatamente o acaso e sua natureza, senão posteriormente depois de considerar os efeitos que ela produz [In II Phys,lec10,n.237]. O acaso pertence ao gênero das causas móveis [In II Phys,lec10,n.236] e distingue-se do fortuito [In II Phys,10,n.227] senão em sentido amplo, pois em sentido estrito é o mesmo que acaso, ou seja, causa não manifesta [In II Phys,lec7,n.206], que se refere às coisas práticas [In II Phys,lec10,n.229]. É a causa eficiente o que principia o movimento na natureza. É ação quando o agente o produz e paixão quando o agente o sofre [De pot.q7,a9,ad7/In III Pys.lec4,n301-306]. O que é o efeito? É o que se segue de uma causa, por isso denomina-se também causado [In II Phys,lec8,n.208]. O efeito essencial é causado por causa essencial e o acidental por causa acidental [In II Phys,lec6,n.192] e ele não é conhecido se não se conhece a sua causa [In II Phys,lec6, n.196].

(m) A analogia e a participação: – analogia – tem fundamental valor e uso. É a comparação por proporção [S.Theo.I,13,a5,c]; em analogia é necessário que o nome segundo um significado aceito seja posto na definição do mesmo nome, com outro significado [S.Theo.I,13,a10,c], por isso, análogo se diz de algo que comumente se aplica a muitos [In I Sent.22,1,3,ad2]; a analogia pode ser: de proporcionalidade, quando os sujeitos possuem a perfeição significada de modos diversos, mas semelhantes, como por exemplo, ser dito do homem, do anjo e de Deus; de atribuição, quando um dos sujeitos possui a perfeição em sua plenitude e os demais por participação ou de modo derivado, como por exemplo, intelecto dito de Deus e por atribuição do homem e do anjo; – participação – tem importância capital na metafísica tomista; participação é o nome que se dá à causalidade em que o efeito de uma causa recebe parcialmente o que existe de um modo total na causa, como por exemplo, quando se diz que o homem participa da animalidade, porque não exaure tudo o que é a animalidade em sua substância; da mesma maneira Sócrates participa da humanidade, pois sendo o que é, Sócrates não esgota a humanidade em sua substância [In De Hebd.lec2,n24]. As coisas que se diferenciam entre si, se distinguem porque possuem naturezas diversas e as possuem diversas porque as recebem diversamente [CG.I,26]. Cada uma delas participa, a seu modo, segundo o que constitui a sua substância, e o que recebem de perfeição da causa da qual participam e são efeitos [In De causis, pro. 25; De pot.q3,a5].

(n) A divisão do ente – o ato: o ente considerado em si mesmo, divide-se em ato e potência [In VI Met. lec.2, n.1171]. A noção de ato indica perfeição, pela qual alguma coisa existe [In IX Met. lec.3, n.1805]. O ato é dito de diversos modos [In IX Met. lec.5, n. 1828-1831]. Com relação à potência ele é anterior [In IX Met. lec.7, n. 1845], mas no que se refere ao movimento e ao tempo, ele é posterior [In VII Met. lec.2, n. 1278; IX, lec.7, n. 1847-1848; IX, lec.8, n. 1856; In XII, lec.4, n. 2480-2481; In XII lec.6, n. 2506]. O ato é sempre melhor que a potência, pois a sua privação é o mal [In IX Met. lec. 10, n. 1883-1885]; diz-se ato primeiro o ser de algo e ato segundo sua operação, que provém do ser. Daí que o operar segue o ser. – a potência: dupla é a potência, a potência ao ser que é da matéria e a potência de operar que é da forma [STh.I-II.q55,a2,c]. Diz-se potência ativa a de operar e potência passiva a de receber algo de outro [STh.I,q25,a1,c]. A potência ativa pode ser imanente, quando permanece no agente e transeunte, quando termina em outro [STh.I,q9,a2,c]. A potência da matéria é princípio de recepção do ser e a potência da substância é princípio de operação. A potência metafísica é a da ordem do ser, como a da matéria à forma.

Léxico da Metafísica

3. Principais conceitos: A seguir apresentamos os principais conceitos metafísicos tratados neste comentário:

Abstração

Designa em Tomás uma atividade do intelecto pela qual considera a forma comum de um objeto separada (abstraída) de sua matéria e de suas condições individuais. Ela é tríplice: da matéria, dos inferiores e dos sentidos [In I Met. lec. 10, n. 158; In III Met. lec. 7, n. 404-405; In VIII Met. lec. 1, n. 1683 e In XII Met. lec. 2, n. 2426]. A abstração da matéria é de quatro modos: matéria sensível, inteligível, comum e individual [In VI Met. lec. 1; In XI Met. lec. 7, n. 2259-2264].

Acidente

Designa em Tomás algo que não é ser, mas do ser [In VII Met. lec. 1, n. 1257-1258; In XII Met. lec. 1, n. 2419-2421]. Depende do sujeito e se define por ele [In IX Met. lec. 1, n. 1768]. O ser do acidente é ser em [In V Met. lec. 9, n. 894;In V Met. lec. 22, n. 1139]. São de dois modos: simples e unido ao sujeito [In VII Met. lec.4, n. 1343]. Não pode ser sujeito de outro acidente [In IV Met. lec.7, n.632]. São formas adicionadas à substância ou causadas pelos princípios da substância [In IV Met. lec.2, n. 558].

Ato

Tomás considera o que é ato no Livro IX. A noção de ato indica perfeição, pela qual alguma coisa existe [In IX Met. lec.3, n.1805]. O ato é dito de diversos modos [In IX Met. lec.5, n. 1828-1831]. Com relação à potência ele é anterior [In IX Met. lec.7, n. 1845], mas no que se refere ao movimento e ao tempo, ele é posterior [In VII Met. lec.2, n. 1278; IX, lec.7, n. 1847-1848; IX, lec.8, n. 1856; In XII, lec.4, n. 2480-2481; In XII lec.6, n. 2506]. O ato é sempre melhor que a potência, pois a sua privação é mal [In IX Met. lec. 10, n. 1883-1885].

Bem

Em Tomás é alguma causa final [In I Met. lec.11, n. 177-179]. É o que todos apetecem [In I Met. lec.11, n.179; lec.4, n.71]. Pode ser entendido como causa final ou causa eficiente [In I Met. lec.11, n.177]. Enquanto bem de algum fim, pode ser extrínseco e intrínseco [In XII Met. lec.12, n. 2627]. O bem inteligível supera o sensível, como o imutável supera o móvel e particular [In XII Met. lec.8, n.2538].

Causa

Designa em Tomás aquilo de que por necessidade segue uma outra coisa [In V Met. lec.7, n.749]. Ela influi naquilo de que é causa [In V Met. lec.1, n.751]. É de quatro maneiras: formal, material, eficiente e final [In I Met. lec.4, n.71]. As causas existentes não são infinitas [In II Met. lec.2, n.299]. Ela pode ser essencial ou acidental [In V Met. lec.3, n.784/787], simples ou composta [In V Met. lec.2, n.775], universal ou particular [In V Met. lec.3, n.787], primeira ou remota [In V Met. lec.3, n. 785]. As causas se ordenam entre si: o fim é da eficiente, a eficiente da forma e a forma da matéria [In V Met. lec.3, n. 782].

Conhecimento

Em Tomás é duplo: de definição e de demonstração [In III Met. lec.5, n. 389]. Da verdade tem dois caminhos: por resolução e por composição [In II Met. lec.2, n. 278]. É perfeição [In I Met. lec.2, n. 66-68]. Algo só é conhecido se estiver em ato [In II Met. lec.1, n. 280].

Contingência

Em Tomás algo é dito contingente destes modos: enquanto existe em muitos, em poucos ou ambos [In VI Met. lec.2, n. 1182-1183].

Definição

 

É a noção que significa aquilo que é [In VII Met. lec.12, n. 1537]. Diz-se o término que inclui a totalidade da coisa, nada estando fora e estando nela tudo que se refere este termo [In V Met. lec.19, n.1044]. Qualquer realidade pode ser definida logicamente mediante as causas extrínsecas e intrínsecas, mas metafisicamente só mediante as causas intrínsecas [In VII Met. lec.17, n. 1658]. A definição das substâncias sensíveis significa a forma e a matéria [In VIII Met. lec.3, n. 1705-1711].

 

Demonstração

 

Os princípios de demonstração são comuns a todas as concepções [In III Met. lec.5, n.387]. O princípio de demonstração não pode ser demonstrado [In IV Met. lec.15, n.710].

 

Diversidade

 

Diz-se do que se opõe totalmente ao que é idêntico [In V Met. lec. 12, n.914].

 

Efeito

 

É o que decorre da causa. O efeito próprio da causa primeira é o ser [In VI Met. lec.3, n. 1209].

 

Elemento

 

É aquilo de que algo se compõe [In V Met. lec.4, n.798]. Pertence à causa material [In VII Met. lec.17, n.1679]. Para a sua descrição requer-se: que seja primeiro; causa; princípio; intrínseco e seja de alguma espécie [In V Met. lec.4, n.795-798].

 

Ente

 

É o sujeito da Metafísica [In IV Met. lec.1, n.529-531]. Não é gênero, pois não possui diferença [In I Met. lec.9, n.139]. É o que tem ser [In XII Met. lec.1, n.2419]. É tomado do ato de ser [In IV Met. lec.2, n.556-558]. Diz-se da substância [In III Met. lec.12, n.488-493]. É considerado de quatro modos: do acidente, da verdade da proposição, dos predicamentos e se divide em ato e potência [In VI Met. lec.2, n.1171]. Pode ser essencial, acidental, real e de razão, dos predicamentos e do ato e da potência [In V Met. lec.9, n.885]. Ente por acidente não é propriamente ser [In XI Met. lec.8, n.2272]. Não há ciência acerca do ente por acidente [In VI Met. lec.2, n.1172-1176]. Ente de razão é próprio da Lógica [In IV Met. lec.4, n.574]. É o que primeiro capta o intelecto [In I Met. lec.2, n.46].

 

Espécie

 

O nome espécie designa a substância composta, a forma [In VIII Met.lec3,n.1705-1711].

 

Essência

 

O mesmo que substância. É o que é significado na definição [In VII Met. lec5,n1378]. Em abstrato não é gênero, nem espécie, nem diferença, mas o princípio deles [In VII Met. lec5,n.1378-1379]. Nas substâncias compostas significa a composição de matéria e forma abstraída [In VII Met.lec9,n.1469].

 

Forma

 

É aquilo que constitui qualquer espécie [In II Met. lec.4, n.320]. É anterior à matéria [In VII Met. lec.2, n.1278]. Pode ser do todo ou da parte [In VII Met. lec.9, n.1467]. Diz-se da substância e do acidente [In VIII Met. lec.3, n.1717-1721]. Não existem múltiplas formas substanciais num mesmo corpo [In II Met. lec.4, n.321]. Não é passível de mais e menos [In XI Met. lec.12, n.2381]. É universal se abstraída, pois não existe forma universal nos seres singulares [In VIII Met. lec.3, n.1709].

 

Gênero

 

Pode ser tomado como sinônimo de matéria enquanto ser, mas não segundo a acepção [In VII Met.lec12,n1546]. O conceito de gênero se toma do de matéria [In V Met.lec7,n862]. O gênero é de quatro modos [In V Met.lec22,n1119-1123]. O gênero não se predica da espécie por participação, mas por essência [In VII Met.lec3,n1328]. O gênero é o princípio das coisas que são definidas [In III Met.lec8,n427]. O gênero é o princípio da espécie, porque esta se constitui de gênero e diferença [In III Met.lec8,n.428].

 

Identidade

 

É a unidade que o intelecto capta ou que existe na substância, dela consigo mesma [In V Met.lec11,n912]

 

Individuação

 

É principiada pela matéria [In VII Met.lec10,n1496]; não se dá pela coleção de acidentes [In VII Met.lec15,n.1926]

 

Intelecto

 

Difere dos sentidos [In I Met.lec2,n45; In II Met.lec1,n282-286]; seu objeto é a verdade [In VI Met.lec4,n.1230-1240]; possui duas operações, uma indivisível e outra de composição [In VI Met.lec4,n.1232]; está ordenado ao inteligível [In XII Met.lec8,n.2540]; humano é imaterial [In IX Met.lec11,n2624]; divino inteligi-se a si mesmo [In XII Met.lec11,n2611-2626].

 

Matéria

 

É o princípio de tudo quanto existe, segundo os antigos [In I Met.lec4,n73-74;In VII Met.lec2,n1284]; distingue-se de privação [In II Met.lec4,n.329]; primeira existe como sujeito de mudanças substanciais [In XII Met.lec2, n.2429-2430]; está presente em tudo o que se move [In II Met.lec4,n.328]; é substância como ente em potência [In VIII Met.lec1,n.1687;In VII Met.lec6,n.1388]; em si mesma não é nem gênero, nem qualidade [In VII Met.lec2,n.1285]; enquanto sujeito é necessário que seja outra coisa pela essência [In VII Met.lec2,n.1286]; não é gênero , senão no nome [In VII Met.lec12,n.1546]; não é sozinha uma substância completa [In VII Met.lec2,n1291-1293]; pode ser sensível ou inteligível [In VII Met.lec10,n.1496;lec11,n.1507-1508;In VIII Met.lec5,n.1760]; individual é algo [In VIII Met.lec5,n.1762]; sensível é diferente em cada coisa que tem matéria [In VIII,lec.1,n.1690]; primeira é una para todos [In VIII Met.lec4,n.1729]; primeira ordena-se primeiramente às formas elementares [In XII Met.lec2,n.2436;In I Met.lec12,n.196]; primeira é conhecida pela geração e corrupção [In VIII Met.lec1,n.1688]; é a mesma para tudo que se gera e corrompe [In VIII Met.lec4,n.1729-1730]; comum não é individual e pertence à espécie [In VII Met.lec9,n.1473;lec.10,n.1492]; não é determinada senão pela forma [In VII Met.lec11,n1530]; é princípio de individuação [In VII Met.lec.10,n.1496]; é conhecida pela forma [In VII Met.lec10,n.1496; In VIII Met.lec1,n.1687].

 

Metafísica

É triplamente denominada: ciência do ente enquanto ente, ciência divina e filosofia primeira [In I Met.lec.2,n.56-68;In III Met.lec4,n.384;In VI Met.lec1,n.n.1147-1148]; é anterior, é ciência mais nobre entre as ciências e a que rege todas as demais ciências [In I Met.proleg;In I Met.lec3,n.64;In VI Met.lec1,n.n.1168; In I Met.lec2,n.2151]; todas as demais ciências dependem dela e a ela se ordenam [In XI Met.lec1,n.2151;In I Met.lec3,n.59]; trata dos princípios de demonstração [In IV Met.lec5; In XI Met.lec4,n2206-2210]; seu sujeito é o ente comum, absoluto, universal [In III Met.lec.5,n.391-392; In IV Met.lec5,n.593;In I Met.lec2,n47;In VI Met.lec1,n.,n.1169]; seu sujeito também é a substância [In V Met.lec.7,n.842;In III Met.lec6,n.398].

Movimento

As opiniões dos antigos [In XI Met, lect. 9, n.2330]; alguns filósofos afirmaram ser eterno [In XII Met. lect. 6, n.2504]; circular e ordenado é o dos astros segundo Platão [In XII Met. lect. 10, n.2567]; não é senão o ato móvel pelo movente In III Met. lect. 4, n.382; In XI Met. lect. 9, n.2308]; é ato do que existe em potência, portanto é ato imperfeito e ato do imperfeito [In XI Met. lect. 9, n.2305]; pode ser postos em três predicamentos: qualidade, quantidade e lugar [In XI Met. lect. 12, n.2376]; poder ser natural ou voluntário, conforme a vontade [In XII Met. lect. 7, n.2520]; o natural é duplo: princípio ativo e passivo ou material [In VII Met. lect. 8, n.1422]; nenhum movimento local é absolutamente contínuo [In XII Met. lect. 5, n.2491]; sem o movimento local não é possível nenhum outro movimento [In XII Met. lect. 8, n.2551]; o movimento local é circunstancial [In XI Met. lect. 13, n.2404-2412]; o movimento contínuo é indivisível segundo o tempo [In V Met. lect. 7, n. 853-855]; é uno segundo a substância e é ato do que se move e do movente [In XI Met. lect. 9, n.2312]; o movimento eviterno não está em potência de ser movido [In IX Met. lect. 9, n.1874-1875]; e tempo são relativos entre si [In XII Met. lect. 5, n.2490-2491]; do céu, que é regular e muito veloz é medida de todos os outros movimentos [In X Met. lect. 2, n.1974]; perpétuo é causado por agente perpétuo [In XII Met. lect. 6, n.2510]; primeiro movimento é subjacente à necessidade da divina vontade [In XII Met. lect. 7, n.2535]; o zodíaco é uma espécie de movimento [In XII Met. lect. 6, n.2511]; nos que se movem não se pode ir ao infinito com o movimento [In II Met. lect. 2, n. 300]; tudo que se move é movido por outro [In II Met. lect. 3, n.303-304; In V, lect. 14, n.955; In XII, lect. 6, n.2517].

Natureza

os seus princípios são o movimento e o repouso [In III Met. lect. 12, n.489; In IV, lect. 17, n.744-748]; diz-se de toda substância [In V Met. lect. 5, n.808]; significa cinco coisas: primeiro a geração dos vivos, segundo o princípio de geração, terceiro o princípio intrínseco de qualquer movimento, quarto a matéria e quinto a substância, a essência ou a forma [In V Met. lect. 5, n.808-820]; duplamente diz-se que a matéria e a forma são natureza [In V Met.lect.5,n.821]; é de qualquer modo, conforme ensina Boécio, o que informa o princípio da diferença específica [In V Met. lect. 5, n.822]; é princípio do movimento naquilo em que ela existe [In VII Met. lect. 6, n.1381]; de qualquer coisa tem em si alguma inclinação ao primeiro motor, ordena-se a si mesma ao seu devido fim [In XII Met. lect. 12, n.2634]; de qualquer coisa não é fortuita nem casual, embora na consecução de algo causado por ela possam ocorrer tais eventos para além de sua ordem [In XII Met. lect. 12, n.2632-2637]; de todo o universo possui um bem em si mesma e um bem da ordem [In XII Met. lect. 12, n.2628-2637].

Potência

Diz-se de quatro modos [In IX Met. Lect. 14, n.955-960]; pode ser equívoca, analógica, ativa e passiva [In IX Met. lect. 1, n.1773-1780]; a multiplicidade de potencias não é segundo a equivocidade, mas segundo a analogia [In IX Met. lect. 1, n.1780]; da alma é dupla: racional e irracional [In IX Met. lect. 2, n.1787]; de agir e de padecer é de certo modo uma mesma potência [In IX Met. lect. 1, n.1781-1783]; passiva existe no paciente e a ativa no agente [In IX Met. lect. 1, n.1782-1783]; ativa do movimento existe em outro, pela qual é movido [In V Met. lect. 14, n.955]; de algum modo é considerada metaforicamente [In V Met. lect. 14, n.974]; de fazer segue a do bem-fazer, mas não o contrário [In IX Met. lect. 2, n.1794]; absolutamente passiva é contraditória [In IX Met. lect. 9, n.1868]; e ato coexistem de algum modo no sujeito [In IX Met. lect. 3, lect. 4]; de algum modo precedem a algum ato, mas de outro não [In IX Met. lect. 4, n.1815]; diz-se ser algo a disposição que há da potência ao ato [In IX Met. lect. 6, n.1832-1838].

Princípio

é comum à causa [In V Met. lect. 1, 750]; e causa se identificam no sujeito, mas se distinguem segundo a razão [In V Met. lect. 1, 751]; significa o que é primeiro [In V Met. lect. 1, 751]; é considerado de diversos modos [In V Met. lect. 1, 751-760]; é segundo o número ou espécie [In III Met.lect. 3, 361, lect. 10, lect. 12]; de algumas coisas são universais [In III Met.lect. 15, 523-528; In VII, lect. 13, lect. 14]; extrínseco da coisa é corruptível, mas não o intrínseco, a não ser analogamente [In III Met. lect. 10, 456, lect. 11, 466-487; In XI, lect. 2, 2180-2181; In XII, lect. 4, 2455-2487]; primeiro de tudo é incorruptível [In XI Met. lect. 2, 2181-2181]; primeiro de demonstração não pode ser demonstrado, não erra, é naturalmente cognoscível, mas o homem pode demonstrar coisas mediante ele [In XI Met. lect. 5, 2211-2220; In IV, lect. 6, 608-610; lect, 6, 597-599; In XI, lect. 5, 2211-2213]; primeiro é especulativo [In IV Met. lect. 6, 603, 605; In XI lect. 5, 2211-2212]; primeiro é firme e certo [In IV Met. lect. 6, 597-599]; não se define, a não ser por via de negação [In X Met. lect. 4, 1990]; as substâncias animadas são os primeiros princípios entre as substâncias viventes [In XII Met. lect. lect. 4, 2476]; primeiro é próprio da ciência matemática [In IV Met. lect. 5, 588]; pode ser segundo a potência ou o ato [In III Met. lect. 3, n.365;365; lect. 15, 519-522.26]; do corpo celeste, que é eterno, deve ser veríssimo [In II Met. lect. 2, 395].

Privação

é duplamente concebida pela razão [In V Met.lect.14,n.967]; dita da matéria enquanto sujeito ou da forma [In X Met. lect.6,n.2052]; é de certo modo um hábito In V Met. lec.14,n.964]; nem toda privação é sinal de contrariedade [In X Met.lec.6,n. 2050-2053]; não é passível de mais e menos [In X Met.lect.6,n.2038]; não significa alguma natureza no sujeito, mas supõe-no [In X Met. lect. 6, n.2051].

Sabedoria

é própria da parte especulativa da alma [In I Met. lect. 1, 34]; é acerca dos primeiros princípios e das coisas simples [In I Met. lect. 1, 34-35, lect. 2; In XI, lect. 1, 2146]; é Filosofia não por ser ciência do real [In I Met.lect. 3, 56]; diz-se de quem conhece as coisas difíceis por conhecimento certo das causas, ordenando e persuadindo [In I Met. lect. 2, 43]; sendo princípio especulador das coisas, deve ser acerca das causas das coisas [In I Met. lect. 3, 68]; é Filosofia Primeira e considera a causa formal e a final [In III Met. lect. 4, 376-386]; é uma ciência que considera os primeiros princípios de demonstração das coisas [In XI Met. lect. 1, 2150-2151]; é ciência de todas as substâncias, embora de umas mais que outras [In XI Met. lect. 1, 2152-2153]; considera a substância e os acidentes enquanto se dizem ser, mas ordena-se ao estudo principalmente da substância e dos entes primeiros [In XI Met. lect. 1, 2154-2155]; enquanto ciência considera quatro gêneros de causas e principalmente a causa formal e a final [In XI Met. lect. 1, 2156-2157]; estuda também as substâncias sensíveis, enquanto são substâncias [In XI Met. lect. 1, 2158-2159]; considera também o que as ciências matemáticas consideram [In XI Met. lect. 1, 2165]; considera os princípios intrínsecos das coisas, como a matéria e a forma [In XI Met.lect. 1, n.2166-2167].

Ser

existe no intelecto quando este julga e compõe [In V Met. lect. 9, n.891-894]; do homem é compreensível [In IV Met. lect. 7, n.616-618]; quando significa a figura da predicação [In V Met.1ect. 9, n.889]; da coisa constituído pelos princípios da essência segundo Avicena [In IV Met.lect. 2, n.556-558]; da natureza é substancial [In V Met. lect. 9, n.896].

Substância

pode ser sensível, supra-sensível ou inteligíveis [In III Met. lect. 2, 350;lect. 7, 403]; se a substância separada é de um único gênero ou de muitos [In III Met. lect. 2, 351;lect. 7, 404]; segundo os antigos [In V Met. lect 10, 900;In VII, lect. 1, 1260-1267]; é de quatro gêneros [In V Met. lect. 10, 898-902; In VII, lect 2, 1270-1273; lect 13, 1566-1568]; pode ser o que existe fora da mente, a realidade da coisa, ou o que existe na mente, segundo a acepção da razão [In VIII Met. lect. 1, 1683-1684]; pode ser considerada o suposto de uma natureza ou a própria natureza de uma coisa [In X Met. lect. 3, 1979]; pode ser sensível corruptível, sensível incorruptível e imóvel ou não sensível [In XII Met. lect. 2, 2424-2426, lect. 5, 2488]; é o sujeito da metafísica, é um só predicamento não divisível em muitos predicamentos [In V Met. lect. 11, 906]; de que maneira diz-se minimamente do sujeito [In VII Met. lect. 13, 1575-1576]; que se compõe de substâncias e não compõe de substâncias [In VII Met. lect, 13, 1590-1591]; é anterior à outras coisas sensíveis [In XII Met. lect. 1, 2417-2423]; pode ser considerada a matéria e a forma [In VII Met. lcet. 17, 1648]; é aquilo que era ser e de que modo pode dizer-se princípio e causa [In VII Met. lect. 17, 1649]; como se difere de acidente [In VII Met., lect. 17, 1459]; é anterior no tempo, na natureza e na definição ao acidente [In VII Met.lect. 1, 1257-1259, lect. 13, 157-1580]; não se distingue por contrariedade de forma ou do composto [In XI Met. lect. 12, 2378-2384]; divide-se em três: matéria, forma e composto [In VII Met. lect. 2, 1276]; algo se diz da substância por si ou por acidente [In VII Met. lect. 2, 1273]; universal distingue-se triplamente da particular [In V Met. lect. 10, 903]; separada é ser espiritual [In III Met. 3, lect. 9, 455; In XI, lect. 2, 2175-2176; In XII 12, lect. 5, 2488-2489, 2495-2499]; das coisas sensíveis o que é [In VIII Met. lect. 1, 1686-1690]; separada não é da mesma espécie da outra [In VII Met. lect. 17, 1648]; separada não é essência das coisas sensíveis [In XI Met. lect. 2, 2175-2179]; material não é inteligível em ato, mas em potência [In XII Met. lect. 8, 2541]; primeira é incorpórea e indivisível [In XII Met.lect. 8, 2548-2549]; primeira não é dita infinita privativa, senão negativamente [In XII Met. lect. 8, 2550]; eterna é única [In XII Met.lect. 9, 2553-2562]; imaterial tem mesmo número dos astros [In XII Met. lect. 9, 2557; lect. 10, 2586; lect. 10, 2588-2589].

Uno

uno significa a natureza acrescida sobre algo [In X Met. lect4, 1981]; diz-se duplo: princípio do número e o que se converte com o ente [In III Met. lect. 12, 501; In V, lect. 8, 875, lect. 10, 901; In X, lect. 3, 1981]; pode ser por si ou por acidente [In V Met. lect. 7, 842-843]; transcendental acrescenta a indivisibilidade sobre o ente [In III Met. lect. 12, 501; In IV, lect. 2, 560; In V, lect. 8, 866; X, lect. 3, 1974, lect. 4, 1985, lect. 8, 2000]; transcendental implica privação de divisão e refere-se a tudo quanto ente [In IV Met.lect. 3, 566; X, lect. 3, 1981]; não é gênero, nem predica-se univocamente [In X Met. lect. 3, 1966]; qualquer coisa é una por sua essência [In III Met. lect. 12, 501; IV, lect. 2, 549-555]; e ente significa o mesmo [In X Met.lect. 3, 1974-1978]; e ente não são gêneros, mas comum de muitos analogicamente [In XI Met. lect. 1, 2168-2170]; que é princípio do número não é o mesmo que uno que se converte com o ente [In IV Met. lect. 2, 556-560]; que é princípio do número é a medida do ser [In V Met. lect. 8, 875; X, lect. 2, 1937-1938]; que é número pertence a algum gênero, espécie, por alguma analogia [In V Met.lect. 8, 876-880]; coloca-se na definição do múltiplo [In IV Met. lect. 3, 566; lect. 3, 566; In X Met. lect. 4, 1991]; e múltiplo se opõem [In X Met. lect. 4, 1992-1994; lect. 4, 1999-2016; lect. 8, 2075-2096].

Verdade

o seu conhecimento é por dupla via: por resolução e por composição [In II Met. lect. 1, n.278]; o seu conhecimento implica dupla dificuldade: uma da parte das coisas e outra da parte de nosso intelecto [In II Met. lect. 1, n.279-286]; para o seu conhecimento os homens se ajudam duplamente: direta e indiretamente [In II Met.lect. 1, n.287-288; lect. 5, n.334]; é conveniente buscá-la [In II Met. lect. 5, n.335-336]; dos primeiros princípios é previamente determinada, e resolvem muitas dificuldades em sua aplicação [In III Met. lect. 1, n.338]; o verdadeiro e o falso nas coisas não são senão afirmar e negar [In IX Met. lect. 11, n.1896-1901; In VI, lect. 4, n.1230-1240]; está mais no ato que na potência e mais nas simples que nas compostas [In IX Met. lect. 11, n.1910-1913].

Fonte: http://www.aquinate.net/portal/Tomismo/Filosofia/tomismo-filosofia-a-metafisica-tomista.htm

 

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