ORIGENS DA FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA – A filosofia contemporânea Ocidental – J. M Bochenski

Capítulo I – ORIGENS DA FILOSOFIA CONTEMPORÂNEA

O “homem moderno”, isto é, o homem desde o Renascimento encontra-se pronto para ser enterrado.

Conde Paul Yorck von Wartenburg

1.   O  SÉCULO XIX

A. Caráter e desenvolvimento da filosofia moderna.  A filosofia moderna, ou seja, o pensamento filosófico do período compreendido entre os anos 1600 e 1900, pertence já, por completo, à historia. Uma vez porém que a filosofia contemporânea, a filosofia de nosso presente imediato procede essencialmente de um confronto com a filosofia moderna, que se traduz por um antagonismo com ela, mas se apresenta ao mesmo tempo como sua continuação e esforço para dela se libertar e superá-la, é óbvio que para bem compreendê-la se requer o conhecimento do passado.

Como é sabido, sua origem coincide com o declínio do  pensamento escolástico, o qual se caracteriza por seu pluralismo (aceitação de uma pluralidade de entes e de graus de ser realmente diversos) e por seu personalismo (reconhecimento da primazia dos valores  da pessoa humana), por uma concepção orgânica da realidade bem como pelo teocentrismo ou olhar dirigido para o Deus criador. Quanto ao método da escolástica, reduzia-se ele à análise lógica pormenorizada dos problemas particulares. A filosofia moderna atacou de frente todas estas características. Seus princípios fundamentais são o mecanicismo, que destruiu a concepção orgânica e hierárquica do ser, e o subjetivismo, graças ao qual o homem se liberta de sua ordenação a Deus e desloca para o sujeito o centro de seus interesses.    A filosofia moderna abandona, em  matéria de método, a lógica formal. É ela caracterizada — sem dúvida, com relevantes exceções — pela articulação de vastossistemas que descuram a análise.

Devia ser René Descartes (1596-1650) quem primeiro havia de conferir à nova viragem sua expressão mais completa. Descartes é, acima de tudo, mecanicista. Admite, sem dúvida, dois graus de ser: o espírito e a matéria; mas, segundo ele, a realidade não-espiritual é redutível a conceitos puramente mecânicos (posição, movimento, impulso), e todo acontecimento comporta uma explicação mediante leis mecânicas, calculáveis. Ao mesmo tempo, é subjetivista: quer dizer que, para ele, o dado último e o ponto de partida necessário da filosofia é o pensamento. Acresce a isto o seu nominalismo: para ele não existe intuição intelectual, mas tão-somente percepção sensível das coisas individuais. Enfim, Descartes é adversário declarado da lógica formal. Em rigor de expressão, não conhece nenhum método filosófico específico e de bom grado aplicaria a todos os domínios  os processos — por êle não sujeitos a análise filosófica — das ciências matemáticas da natureza.

A aceitação destes princípios implicava o ter de enfrentar problemas insolúveis: se a estrutura do mundo é simples agregado de átomos, algo comparável a uma máquina, como explicar seu conteúdo espiritual? Por outro lado, como chegar à realidade deste mundo, partindo de um pensamento que deve ser tido como o único dado imediato? Mas, e esta é a questão primordial, como ê possível o saber em geral, se unicamente podemos conhecer coisas individuais, quando esse saber opera constantemente cem conceitos gerais e com leis universais?

O próprio Descartes resolveu este último problema, valendo-se da suposição de idéias inatas e de um paralelismo entre as leis do pensamento e as leis do ser em geral. Seu famoso cogito assegurava-lhe o acesso à realidade, e entre o espírito e a matéria ele estatuía uma relação de causa e efeito. Um grupo de pensadores, indevidamente chamados racionalistas, apossou-se de sua teoria das idéias inatas. Contam-se entre eles principalmente Baruch Spinoza (1632-1677), Gottfried Wilhelm Leibniz (16-16-1716) e Christian Wolff (1679 1754). Um segundo grupo, os empiristas ingleses, procede mais logicamente: mostrando-se conseqüentes, aceitam o mecanicismo, estendendo-o até ao espírito, e associam-no ao subjetivismo e ao nominalismo radical.   Esta atitude, já visível em potência em Francis Bacon de Verulam (1561-1626), logra seu desenvolvimento sistemático graças a John Locke (1632-1704), George Berkeley (1685-1753) e principalmente David Hume (1711-1776). Para este último, a alma não é mais do que um feixe de imagens, denominadas “idéias” (the mind is a bundle of ideas). Só elas são conhecidas imediatamente; as leis universais nada mais são do que um produto da associação devida ao hábito e, por conseguinte, carecem de qualquer valor objetivo. Até a existência de um mundo real se baseia na crença. Só o seu fideísmo preservou Hume de um ceticismo total. Com esta reserva, tudo nele se torna problemático:  espírito, realidade, e principalmente o saber.

Ao mesmo tempo, o progresso das ciências da natureza havia suscitado a formação de uma imagem materialista do universo, que se foi ampliando tanto mais que não havia então filosofia alguma capaz de lhe oferecer resistência. O materialismo, já preconizado por Thomas Hobbes (1588-1679), foi-se desenvolvendo mais e mais na filosofia de Etienne Bonnet (1720-1793), Julien Offray la Mettrie (1709-1751), Paul Heinrich Dietrich von Holbach (1723-1789), Denis Diderot  (1713-1784)  e Claude Adrien Helvetius  (1715-1771).

B. Kant. Nesta situação desesperada, verdadeira catástrofe do espírito, se encontrou envolvido Immanuel Kant (1724-1804). Propôs-se a tarefa de salvar o espírito, a ciência, a moral e a religião, sem por isso renunciar a nenhum dos princípios fundamentais do pensamento moderno. Começa por aceitar, em parte, o mecanicismo que, em seu entender, reinava no mundo empírico, inclusive no pensamento subjetivo. Mas este mundo é, para êle, o resultado de uma síntese operada pelo sujeito transcendental a partir da massa informe das sensações. Donde se segue que as leis da lógica, da matemática e das ciências da natureza regem este mundo, uma vez que o pensamento as introduz nele e sustenta a estrutura fundamental das mesmas. Sucede porém que o espírito não está submetido a estas leis, uma vez que não procede do mundo fenomênico, senão que é, antes, o legislador, o manancial de tais leis. Assim se salvaram, a um tempo, a ciência e o espírito. Só que, desta maneira, se torna Impossível o conhecimento da coisa em si, o conhecimento do uma realidade em si existente pura além dos fenômenos: o conhecimento permanece circunscrito ao domínio da intuição sensível, e, fora da sensação, “as categorias são vazias”.    Donde se infere a carência de solução para os momentosos problemas do ser e da vida humana: no plano do conhecimento a metafísica é impossível. Sem dúvida, Kant se defronta com osproblemas da existência de Deus, da imortalidade e da liberdade, que, segundo êle, constituem os três problemas básicos da filosofia; mas resolve-os por meios extra-racionais, mediante os postulados da vontade.

Portanto, a filosofia kantiana é uma síntese dos dois elementos essenciais da filosofia moderna: o mecanicismo e o subjetivismo. Deve sua configuração a um conceitualismo radical: o sujeito transcendental, enquanto princípio plasmador, cria o conteúdo inteligível do mundo, conteúdo que, por outro lado, se resolve em puras relações. Sendo assim, a realidade fica separada em duas zonas: o mundo empírico, fenomênico, sem reserva sujeito às leis da mecânica; e o mundo da coisa em si, do número, que é racionalmente incognoscível. Kant conferiu ao pensamento moderno sua forma mais autêntica e sua expressão mais completa, ao mesmo tempo porém o introduziu numa senda fatal.

Será difícil exagerar a influência do kantismo na subseqüente evolução do pensamento filosófico. Ele domina o século XIX e, não obstante a reação em contrário verificada no final desse século, muitos são os filósofos que até nossas dias se têm mantido fiéis a suas diretrizes. As principais correntes do pensamento do século XIX derivam também do kantismo como de seu manancial. Por haver contestado a possibilidade de toda metafísica racional, Kant só deixava abertos ao conhecimento dois caminhos: ou elaborar a realidade com os métodos da ciência e, em tal caso, a filosofia convertia-se numa síntese dos resultados das diversas ciências particulares; ou estudar os processos pelos quais a realidade deriva dos princípios constitutivos do espírito e, neste outro caso. a filosofia se convertia em análise da gênese ou devir da idéia. E, de fato, as duas grandes correntes filosóficas do século XIX desenvolvem ambas possibilidades. O positivismo e o materialismo limitam a tarefa da filosofia a uma síntese científica, ao passo que o idealismo elabora sistemas, nos quais tenta explicar o mundo como o produto de um movimento do pensamento.

C. O romantismo. No começo do século XIX entrou em cena novo fator, que mais tarde deveria representar seu papel:   o  romantismo.    Trata-se de um movimento complexo e difícil de definir. Podemos todavia dizer, sem demasiado simplificar as coisas, que seu característico essencial consiste numa exaltação da vida e do espírito; a qual se explica por uma reação vigorosa contra as doutrinas mecanicistas. Kant propusera-se eliminar as conseqüências de tais doutrinas pelas vias racionais. Restava, todavia, outro caminho a seguir: renunciar à razão. Compreende-se que poetas e outras personalidades de gênio, enfastiados pela secura da descrição científica do mundo, se tenham erguido contra a ciência racional e lhe tenham oposto o sentimento, a vida, a religião e outras coisas idênticas, com a afirmação de existirem outras vias de acesso à realidade, que não só as preconizadas pela ciência.

Contudo, o romantismo não é necessariamente irracionalista; não faltam sequer ocasiões em que êle se arvora em defensor acérrimo da razão. Nunca porém deixa de dar a devida ênfase a tudo quanto seja movimento, vida e evolução. As filosofias dos séculos XVII e XVIII haviam propugnado, sem exceção, uma concepção estática do mundo. Para o mecanicismo a máquina do mundo é uma estrutura grandiosa estabelecida de uma vez para sempre, engrenagem monumental na qual nada se perde e nada de novo se produz. O romantismo concentrou, com toda energia, seus ataques contra semelhante imagem do mundo, e este protesto lhe granjeou o haver exercido influência muito profunda no transcurso do século XIX.

 D. Correntes principais. Um distintivo particularmente característico do século XIX é a tendência, invulgarmente forte, para construir sistemas: a síntese prevalece sobre a análise. No dealbar do século, essa tendência exprime-se principalmente no idealismo alemão. Se Kant havia posto em destaque a função criadora do espírito, essa idéia. amplia-se e em sua extensão alia-se com a idéia do devir preconizada pelo romantismo. Daí se originam os sistemas idealistas de Johann Gottlieb Fichte (1762-1814), de Friedrich Wilhelm Joseph Schelling (1775-1854) e, especialmente, de Georg WiLhelm Friedrich Hegel (1770-1831). Este último concebe a realidade como o desenvolvimento dialético da razão absoluta que, através da tese e da antítese, avança para uma nova síntese. À filosofia hegeliana é um racionalismo radical, se bem que totalmente romântico mercê de seu caráter dinâmico e evolucionista.

O lugar ocupado por este idealismo não tardou em ser preenchido por uma série de sistemas oriundos das ciências particulares. Deve ser mencionado em primeiro lugar o materialismo alemão, de Ludwig Feuerbach (1804-1872), de Jakob Moleschott (1822-1S93), de Ludwig Büchner (1824-1S99) e de Karl Vogt (1817-1895). Estes negavam até a existência do espírito e eram partidários de um determinismo radical. Importa mencionar em seguida o positivismo fundado na França por Auguste Comte (1798-1857), seguido na Inglaterra por .John Stuart Mill (1806-1873) e na Alemanha por Ernst Laas (1837-1885) e Friedrich Jodl (1848-1914). Para todos eles a filosofia nada mais é do que síntese das ciências, interpretando-se a ciência com critério mecanicista. Estas duas tendências foram fortemente estimuladas pela doutrina de Charles Darwin (1809-1882), o qual, em sua famosa obra Da origem das espécies pela seleção natural (1859) explicava a evolução das espécies num sentido puramente mecanicista. / Por esta forma a idéia romântica e hegeliana da evolução adquire base científica, não mais posta em discussão, mas recebe também uma interpretação mecanicista. Converte-se em doutrina dominante e conduz ao evolucionismo monista, do qual Thomas Henry Huxley (1825-1895) e sobretudo Herbert Spencer (1820-1903) são os representantes típicos que mais se salientam, ao passo que Ernst Haecket, (1834-1919) devia ser o vulgarizador mais conhecido.

Durante os anos 1850-1870 tinha-se a impressão de que o evolucionismo mecanicista e, as mais das vezes, francamente materialista, haveria de manter sua preponderância na Europa. Contudo, por alturas de 1870 manifestou-se um retorno ao idealismo, primeiramente na Inglaterra com Thomas Hill Green (1836-1882) e Edward Caird (1835-1908), seguidos por importante escola, em seguida na Alemanha com um neokantismo representado por Otto Liebmann (1840-1912), Johannes Volkelt (1848-1930) e pelas escolas de Marburgo e de Baden, que criaram centros de ensino organizados. Na França, Charles Renouvier (1815-1903) ensina um neocriticismo; outro Importante idealista francês é Octave Hamelin (1856-1907). Mas esta orientação não consegue impor-se absolutamente de modo exclusivo, de sorte que até ao final do século continuam sobrevivendo, a par dela, poderosas tendências positivistas e evolucionistas.

Polo que, podemos assinalar três períodos no desenvolvimento   do   pensamento  europeu   no decurso do  século XIX: idealismo, cientificismo evolucionista, coexistência de ambas as correntes. A despeito de todos os antagonismos, estas duas correntes apresentam em comum certos traços essenciais: a tendência sistemática, um racionalismo sublinhado relativamente ao mundo empírico, a recusa a penetrar no domínio da realidade, enfim a tendência monista que pretende fundir o ser pessoal humano no absoluto ou na evolução universal. Racionalismo, fenomenismo, evolucionismo, antipersonalismo monista e a edificação de grandes sistemas conferem, em larga escala, sua fisionomia ao século XIX.

E. Correntes secundárias. Contudo, o idealismo e o evolucionismo positivista não são as únicas correntes que dominam o pensamento da época. Paralelamente a elas se desenvolvem duas outras tendências, menos importantes e aparentemente sem grande influência, mas que, não obstante, representam potentes realidades: o irracionalismo e a metafísica.

O irracionalismo, oriundo do romantismo, ergue-se a princípio contra o racionalismo hegeliano. Seu porta-voz é Arthur Schopenhauer (1788-1860), para quem o Absoluto não é a razão, mas uma vontade cega e irracional. A par dele, o dinamarquês Soren Aabye Kierkegaard (1813-1855), pensador religioso, leva ainda mais longe o ataque contra o racionalismo. Anteriormente, na França, uma tendência análoga, voluntarista e irracionalista, embora menos pronunciada, havia tido seu representante em François Pierre Maine de Biran   (1766-1824).

Mais tarde, o irracionalismo defronta-se com o racionalismo procedente das ciências particulares; apóia-se então na teoria da evolução de Darwin. Seu mensageiro profético é Friedrich Nietzsche (1844-1900), que proclama a preeminência dos impulsos vitais sobre a razão e preconiza a revisão de todos as valores e o culto do super-homem. No evolucionismo origina-se igualmente a filosofia de Wilhelm Dilthey (1833–1912). Dilthey ensina a primazia da história e a relatividade de toda filosofia. O relativismo, numa forma original, encontrou ainda um representante na pessoa de GEORG Simmel (1858-1918).

A outra corrente secundária do pensa monto filosófico do século XIX é constituída pela metafísica. Os filósofos metafísicos pretendera  que podem  ter  acesso a  ura  mundo situado para além dos fenômenos, e não raro é lícito descortinar neles tendências para um pluralismo metafísico, unidas a uma compreensão mais ampla dos problemas do homem concreto. Não se constituem escolas de importância e os pensadores permanecem mais ou menos isolados. Citemos, na Alemanha, Johann Friedrich Herbart (1776-1841), Gustav Theodor Fechner (1801-1887), Rudolf Hermann Lotze (1817–1881) e Edüard von Harttmann (1842-1906). Mais tarde, surgem, com certas variantes, Wilhelm Wundt (1832-1920), Rudolf Eucken  (1846-1926)  e Friedrich Paulsen  (1846-1908).

Na França, os adeptos da metafísica são Victor cousin (1792-1867) e seus discípulos (Paul Janet, 1823-1899). Com os sistemas de Felix Ravaisson-Molien (1813-1900) e Jules Lachelier (1832-1918 — para citar somente os mais importantes — a metafísica assume configuração mais sólida. Pelo contrário, nenhuma tendência de relevo se manifesta neste domínio na Inglaterra.

Tanto os pensadores irracionalistas quanto os metafísicos desta época, bem como os filósofos anteriormente mencionados, se atem à posição de Kant. O irracionalismo procede, em parte diretamente da doutrina kantiana, segundo a qual os problemas metafísicos não são acessíveis à razão e, por outra parte, sua oposição ao racionalismo kantiano é que lhe serve de guia. Tampouco faltam influências de um empirismo mecanicista de cunho darwiniano, especialmente em Nietzsche. O mesmo se diga, apesar das aparências em contrário, dos metafísicos desta época. Todos compartilham na convicção de um dualismo do mundo fenomênico e da coisa em si, além de que a maior parte deles se filia também ao mecanicismo. Seja como for, importa sublinhar que estas duas correntes, de importância afinal assaz relativa, não resistem a um confronto com o idealismo e o empirismo, que representam, no campo da filosofia européia do século XIX, as duas forças predominantes.

2.   A CRISE

A. Mudança de situação. O final do século XIX e o início do século XX encontram-se sob o signo de profunda crise filosófica, cujos sintomas são a aparição de movimentos contrários às duas posições mais potentes do pensamento moderno, que são o mecanicismo materialista e o subjetivismo. Esta mudança de situação ultrapassa as fronteiras do campo da filosofia; podemos até compará-la com a profunda crise com que, na época do Renascimento, se iniciou toda a nossa cultura moderna. É sumamente difícil traçar um quadro completo de suas múltiplas e intrincadas causas; todavia, os fatos síio claros: a Europa nessa época é sujeita a uma profunda remodelação do pensamento social, tem de enfrentar graves perturbações econômicas, inovações radicais no domínio da arte e notável revolução em matéria de religião. Aliás, todos concordam em considerar o início do século XX, não já como o final de um breve período, senão como a liquidação de toda uma época histórica muito mais ampla ora conclusa, de sorte que o nosso tempo não pertence mais à chamada era moderna. Também tem sido defendido, e acaso não sem motivo, que esta recente revolução é mais radical do que a que se produziu no Renascimento. Em todo caso, não resta dúvida que se manifesta em todos os setores da vida uma atitude fundamental diferente, e as lutas e guerras, de que temos sido vítimas, têm feito todo o possível para acelerar o processo de decomposição próprio da crise.

Tão profunda transformação da vida espiritual corresponde evidentemente a mudanças no domínio social e, ao menos em parte, é conseqüência necessária destas.   Contudo, no estado atual da ciência não é possível perscrutar em seus pormenores estas conexões.   Limitaremo-nos, portanto, a expor as causas espirituais diretas e os fatores desta transformação. Podemos classificá-los em três grupos.    O primeiro compreende a crise da física e da matemática, que provocou, por  um lado,  um grande desenvolvimento do pensamento analítico e, por outro lado, o desmoronamento de certas posições  espirituais típicas do século XIX.    O segundo grupo consta de dois métodos que começam a desenvolver-se neste momento: o  método matemático-lógico  e o fenomenológico.    Enfim,  o  terceiro  grupo é  constituído  por  certas mundividências  ou  concepções do mundo, entre as quais se salientam o irracionalismo e a nova metafísica realista.   Estes diversos movimentos espirituais encontram-se muitas vezes mutuamente entrelaçados.    Assim,  por  exemplo,  a  lógica matemática  está intimamente relacionada com a crise da matemática, ao passo que a crise da física reforça o irracionalismo e, por último, não raro são os mesmos pensadores que fundam o método fenomenológico e o novo realismo.    Além disso, verificamos que os precursores da fenomenologia e os da lógica matemática se influenciam reciprocamente.

Apesar destas conexões, o aparecimento simultâneo de movimentos tão diferentes por sua determinação histórica e pelo fim que têm em vista representa um acontecimento sem precedentes na história do pensamento humano. De fato, tais movimentos operam uma transformação completa da filosofia.

B. A crise da física NEWTONIANA. A maioria dos filósofos do século XIX considerava a física de Newton como a imagem absolutamente verdadeira do mundo. Viam nela o transunto claro da realidade, na qual tudo se reduz às posições e impulsos de átomos materiais (mecanicismo). Supondo que pudéssemos conhecer as posições e os impulsos das partículas materiais num dado momento, acreditava-se que poderíamos deduzir daí pelo cálculo e segundo leis mecânicas toda a evolução anterior e futura do mundo (determinismo de Laplace). Os princípios e até as simples teorias da física eram tidos por absolutamente verdadeiros (absolutismo). O “dado” mais simples parecia ser a matéria, e a este dado simplicíssimo devia ser tudo logicamente reduzido (materialismo). Além disso, a física, a mais antiga das ciências da natureza, encontrara sua confirmação na técnica, e todavia não haviam dado sinais de vida outros ramos do saber, principalmente a história, que deviam florescer no decurso do século XIX.

Em fins do século XIX e começos do século XX, principiou a. ser posto em dúvida o valor desta concepção física do universo. Não é exato crer, como sucede a cada passo, que a nova física não conhece mais a matéria, que rejeita em bloco o determinismo, que, via de regra, não admite proposições certas, etc, contudo é certo que muitas coisas, que até agora se acreditava serem absolutamente seguras, se tornaram problemáticas. Assim, por exemplo, não resta dúvida, hoje em dia, que a matéria, longe de ser simples, é, ao invés, extremamente complexa, e que seu estudo científico oferece ainda graves dificuldades. Além disso, parece ser impossível determinar exatamente, a um tempo, a posição e o impulso de uma partícula material, e, em todo caso, o determinismo à maneira de Laplace é indefensável. Se o determinismo em geral já caducou, ou se pode continuar sobrevivendo noutra forma qualquer, é questão que todavia prossegue sendo posta pelos físicos mais eminentes. Eis como se expressava o famoso astrofísico Eddington: “Sou indeterminista da mesma maneira que sou anti-a-lua-é-feita-de-queijo-fresco…; duas hipóteses são estas que não temos nenhuma razão de admitir”.

Também o mecanicismo admitiu pelo menos novas formas. Whitehead, um dos melhores conhecedores da questão,  observa atiladamente que a física antiga figurava o mundo como um prado onde cavalos galopavam em plena liberdade, ao passo que a física nova o representa como um lugar atravessado por uma rede ferroviária na qual os trens percorrem uma via de antemão traçada, e que portanto o novo “mecanicismo” se aproxima muito de uma concepção orgânica da realidade. Enfim, a elaboração da teoria da relatividade e da teoria quântica, bem como outras descobertas da física, puseram em dúvida toda uma série de resultados considerados como absolutamente verdadeiros.

Estas transformações operadas na física repercutiram na filosofia de duas maneiras. Do fato de os físicos não chegarem mais a acordo entre si sobre se e em que medida importa manter intactos o mecanicismo e o determinismo e de não se pouparem a esforços para captar’ cientificamente a matéria, que de novo mais e mais se complica, e de terem de admitir a relatividade de suas teorias, resulta que o mecanicismo e o determinismo não podem continuar apelando para a autoridade da física e que a explicação do ser pela matéria se torna sumamente problemática (1).

(1) Vários cientistas eminentes tiraram destes fatos conclusões ainda mais avançadas, uma vez que, tendo em vista os resultados obtidos pela física e biologia recentes, julgam-se obrigados a adotar o espiritualismo, o idealismo e até o teísmo. Citemos tão-somente os nomes bem conhecidos de Sir Arthur Stanley Eddington (1882-1944), Sir James HOPWOOD Jeans (1877-1946), Max Planck (1858-1947) entre os físicos e os astrônomos, e de Sir Arthur Thomson (1801-1933) e John Soott Haldane (1860-1936) entre os biólogos. Contudo, embora seja possível encontrar em suas doutrinas muitos aspectos justos e interessantes, principalmente quando fazem a crítica do materialismo, suas conceituações construtivas são, as mais das vezes, tão caracteristicamente eivadas de ‘diletantismo que os filósofos especializados lhes atribuem muito pouco crédito. Não resta porém dúvida que tais cientistas filosofantes exerceram profunda influência sobre as multidões. Do ponto de vista filosófico, assume grande importância o fato de tais teorias terem podido ser emitidas por eles, pois íbro mostra suficientemente quão distantes hoje estamos da mentalidade do século XIX.

Mais importante é todavia a outra repercussão da crise. Pôs ela em evidência não ser possível que a filosofia aceite, sem análise prévia, conceitos e princípios físicos, nem que considere como válidas a priori, desde seu ponto de vista, as conclusões da física.    Sem dúvida, Descartes e Kant foram, neste particular, vítimas de um equívoco ingênuo. Por outro lado, por meio destas descobertas a crise da física suscitou o chamado pensamento analítico, que devia ser algo típico na filosofia do século XX.

C. A crítica da ciência. A situação acima descrita não é só o resultado de um mero desenvolvimento das ciências. Concorreram também para criá-la diversos pensadores que, muito antes de a crise se desencadear, haviam analisado e em certo sentido posto em dúvida os métodos das ciências da natureza. Decisiva nesta crítica da ciência foi a interferência de filósofos franceses, como émile Boutroux (1845-1921, De la contingence des lois de la nature, 1874; De l’idée de loi naturelle, 1894), Pierre Duhem (1861-1916, primeira obra de importância: Le mixte et Ia combinaison chimique, 1902) e Henri Poincaré (1853-1912, La science et l’hypothèse, 1902).

Paralelamente aos esforços desta escola surgem os trabalhos do empiriocriticismo, o qual arrancando de uma posição positivista chega a conclusões ainda mais radicais. RIchard Avenarius (1843-1896) publicou entre 1888 e 1890 sua Kritik der reinen Erfahrung (Crítica da experiência pura) e Ernst Mach (1838-1916) trouxe a público em 1900 sua obra principal, na qual faz uma crítica extremamente penetrante do valor absoluto da ciência.

A crítica da ciência defrontou-se tanto comovalor das idéias quanto com as teorias científicas. Análises demoradas e Investigações históricas mostraram que umas e outras são em grande parte de natureza subjetiva. O sábio não se contenta com dissecar arbitrariamente a realidade, senão que opera constantemente com conceitos que despontam em sua mente. No que tange às grandes teorias, em derradeira instância elas nada mais são do que instrumentos cômodos para ordenar a experiência: “nem verdadeiras nem falsas, mas úteis” (Poincaré). Note-se que nenhum destes críticos franceses, nem sequer Poincaré, era convencionalista (*). O que eles queriam era a prova de a ciência’ se encontrar muito longe do ideal de infalibilidade que no século XIX comumente lhe era atribuída. Os empiriocriticistas alemães foram ainda mais além e professaram um relativismo muito chegado ao ceticismo.

(1) O “convencionalismo” é a teoria segundo a qual os conceitos científicos são fruto de uma “convenção”, e, por conseguinte, são “convencionais”.

Em suma, a ciência perdeu aos olhos dos filósofos grande parte de sua autoridade, e isso contribuiu para acelerar o processo de decomposição aberto pela crise Interna da física. De ora avante não mais seria possível defender a concepção newtoniana do universo, a qual constituía a pressuposição fundamental do kantismo e de todo o pensamento europeu até então.

D.     A   CRISE   DA   MATEMÁTICA   E   A   LÓGICA   MATEMÁTICA.     O   desenvolvimento da matemática provocou igualmente, em fins do século XIX, uma crise que não devia ser menos profunda  nem menos prenhe de conseqüências do que a -da física. Entre as muitas descobertas recentemente levadas a efeito no  domínio da matemática, repercutiram de modo especial na filosofia a da geometria não-euclidiana e a teoria dos conjuntos de G. Cantor (1845-1918). Estas duas descobertas mostraram que muitas coisas, que anteriormente eram sem hesitação aceites como simples pressuposições da matemática, não comportam, de fato, nenhuma certeza, e chamaram a j atenção para a análise exata de noções aparentemente simples bem como para a estrutura axiomática dos sistemas. No domínio da teoria dos conjuntos descobriram-se — precisamente  no final do século XIX — os chamados paradoxos, ou seja, contradições deduzidas de postulados aparentemente simples e evidentes, mediante demonstrações corretas. Tudo isto parece ter abalado os fundamentos da matemática.

Mantém íntima relação com esta crise o revivescimento da lógica formal, e precisamente na forma da chamada logística, lógica simbólica ou matemática. Como já dissemos, a lógica formal havia sido muito descurada pela filosofia moderna, ao ponto de naquela época ter decaído num estado verdadeiramente “bárbaro”. Entre os filósofos eminentes daquele período, só Leibniz foi um lógico notável; os restantes muitas vezes nem sequer conheciam os elementos da lógica formal — Descartes e Kant são disso exemplos clássicos. Mas, em 1847, apareceram, independentemente uma da outra, as obras de dois matemáticos ingleses, Augustus de Morgan (1806-1878) e Georgbs Boole (1815-1864), que passam por ser as primeiras publicações da lógica matemática contemporânea, Estes trabalhos foram continuados por Ernst Schröder (1841–1902), Giuseppe Peano (1858-1932) e, principalmente, Gottlob Frege (1848-1925), pensador e lógico emérito.   Não obstante, a lógica matemática continuou sendo pouco mais que desconhecida dos filósofos até princípios do século XX. Só depois que Bertrand Russell se encontrou com Peano em 1900 e publicou, em 1903, seus Principies of Mathematics, é que pelo menos a filosofia anglo-saxônica se interessou por este gênero de investigações. Em 1910-1913, apareceu a obra monumental Principia Mathematica de Whitehead e Russell, a qual apressou de maneira significativa o desenvolvimento da nova disciplina.

A lógica matemática exerceu dupla influência na filosofia. Em primeiro lugar, mostrou ser uma espécie de instrumento muito precioso para a análise dos conceitos e da demonstração, instrumento capaz de ser aplicado, segundo a opinião de seus representantes, até a domínios que não são matematizáveis, uma vez que a chamada lógica “matemática” só é matemática “por sua origem”, mas, na realidade, opera com conceitos que não são matemáticos, mas inteiramente gerais. Em seguida, as investigações lógico-matemáticas reconduziram ao plano da atualidade muitos velhos problemas da filosofia, como, por exemplo, os problemas do terceiro excluso, da evidência dos axiomas, da gramática filosófica (hoje denominada “semiótica”) e, acima de tudo, o problema dos universais.

E. O método FENOMENOLÓGICO. Partindo de teses filosóficas muito diferentes e tendo em mira intuitos diversos, um segundo movimento contribuiu para romper com o século XIX e para construir a filosofia contemporânea: a fenomenologia. Em rigor de expressão, o termo “fenomenologia” convém ao método e à doutrina de Edmund Husserl, mas aplica-se igualmente a todo um grupo de pensadores que representam tendência análoga. O fundador deste movimento é Feanz Brentano (1838-1917). Antigo frade dominicano, abandonou a Ordem e, mais tarde, a Igreja, mas continuou sempre influenciado, em mais de um aspecto;- pelo pensamento aristotélico-tomista, como é fácil verificar pelo seu objetivismo, alto apreço da análise pormenorizada e lógica. Numerosos foram seus discípulos, dos quais três assumiram relevante importância : Kazimierz Twardowski, Alois Meinong e Edmund Husserl. Kazimierz Twardowski (1866-1938), embora não sendo lógico, foi o fundador da escola lógica polonesa, destinada a desempenhar importante papel no desenvolvimento da lógica matemática. Alois Meinong (1853-1921) fundou a chamada “teoria do objeto” e uma escola, pequena mas muito influente.

O mais eminente dos discípulos de Brentano, Edmund Husserl (1859-1938) foi quem elaborou o método fenomenológico propriamente dito. Este método, que consiste principalmente na análise da essência do dado, do fenômeno, passou a ser, sobretudo após a segunda guerra mundial, o método filosófico mais espalhado, a par do método lógico-matemático. A diferença capital entre a fenomenologia e a lógica matemática consiste em que a primeira renuncia completamente à dedução, ocupa-se pouco com a linguagem (malgrado o exemplo do próprio Husserl) e não analisa os fatos empíricos mas só as essências. Vale a pena relembrar que a obra capital de Meinong, Ueber die Annahmen, apareceu em 1902, ao passo que as Logische Untersuchungen de Husserl, uma das obras mais influentes da primeira metade do século, vieram a lume em 1900-1901.

Bastante aparentado ao método fenomenológico é o método chamado “análise” de G. E. Moore (1873- ), que em Russell se converteu na análise lógico-matemática. Em Moore manteve sempre caráter distinto. Em sua obra Principia Ethica, vinda a lume em 1903, Moore aproxima-se muito do método de Meinong e parece ter sido influenciado por ele até certo ponto. A influência de Meinong fêz-se sentir também sob vários respeitos na obra de Russell, ao passo que a lógica matemática posterior recebeu muitas sugestões de Husserl.

F. O irracionalismo vitalista. Tanto a lógica matemática quanto a fenomenologia são, antes de mais nada, métodos e não doutrinas dotadas de conteúdo. Ambas brotaram de uma reflexão sobre os fundamentos das ciências e procuram de novo estabelecê-los mediante um método racional. Neste particular ambas as direções são pluralistas e opõem-se à tendência para construir sistemas. Por suas análises puseram a descoberto e desfizeram muitas grosseiras simplificações do século XIX. Além disso, ambas as direções — pelo menos em seus inícios — são realistas. Em Moore como em Husserl manifesta-se certa simpatia para com o platonismo, simpatia de uma nova espécie. Convém todavia reter que nem a lógica matemática nem a fenomenologia — pelo menos em seus princípios, nas Logische Untersuchungen e nos Principia Mathematica — representam doutrinas filosóficas propriamente ditas.

Pela mesma altura, aparecem dois movimentos filosóficos novos em seu conteúdo: o lrracionalismo vitalista e a nova metafísica realista. Uma das conseqüências da crise espiritual daquela época foi a prodigiosa extensão das tendências irracionalistas, que caracterizam o final do século XIX e o dealbar do século XX. Kant havia negado que o conhecimento racional pudesse alcançar um mundo situado além da experiência, permanecendo todavia, segundo ele, o mundo empírico sujeito a leis racionais e calculáveis. A critica da ciência e a crise da física parece haverem demonstrado claramente que tal não acontece, e com isso generalizou-se a dúvida kantiana acerca do valor da razão. Durante o século XIX, a razão fora identificada com a razão mecanicista das ciências: a crise que esta sofreu arrastou consigo uma crise do racionalismo.

Contudo não é esta a única fonte das novas tendências. Embora paradoxalmente, também o empirismo concorreu de modo notável para o desenvolvimento das mesmas, quando sua concepção mecanicista do mundo’ se transferiu para o domínio da vida e tomou entãoa forma do darwinismo. Coisa .estranha neste início de século, a doutrina, segundo a qual todo ser superior se explica pelo inferior, foi aplicada juntamente com seu princípio fundamental à psicologia e à sociologia. Em conseqüência, toda a vida consciente, incluindo a razão, tinha que ser reduzida a elementos inferiores e subordinada às leis da evolução dos seres vivos: nada mais de estável, nada de imutável, nenhum princípio eterno permanecia de pé, unicamente um ímpeto vital ao serviço da evolução da vida.

Enfim, as mesmas causas que, no princípio do século XIX, provocaram o aparecimento do romantismo, agora reforçadas pela influência da tradição, voltaram a desempenhar seu papel: a imagem monista e determinista do mundo, traçada pela ciência antes de 1900 era tão provocante que suscitou o protesto de toda uma série de pensadores, que se sentiram chamados a salvar os direitos da vida, da pessoa humana e os valores espirituais.

liste protesto ergueu-se de maneira imprevista e vigorosa, principalmente em dois filósofos, James e Bergson, que se colocaram a frente deste movimento filosófico. Vivia ainda SPENCER, o mais típico representante do empirismo mecanicista, quando apareceram quase ao mesmo tempo Les donnés immédiates  de la conscience  (1889)  e os Principies of Psychology (1890). pouco depois seguidos de Matière et Mémoire (1896) e Will to believe (Vontade de crer) (1897). Os dois pensadores exerceram até nossos dias tal influência que nos sentimos obrigados a ocupar-nos demoradamente deles (nos capítulos 11 e 12). Bastará observar aqui que tanto um como outro são irracionalistas declarados e que no centro de sua filosofia situam a idéia da vida. A eles se deve que o irracionalismo, que durante o século XIX fora somente uma corrente de segunda categoria, tenha ressurgido a ponto de se tornar uma das posições diretrizes do pensamento.

G. Revivescência da metafísica realista. Paralelamente àquela cristaliza-se outra corrente e, decerto, mais profunda: voltam de novo o realismo e a metafísica, os quais pela primeira vez quebram o quadro dos princípios kantianos que até ent5o dominavam toda a filosofia. £ difícil pôr a descoberto suas raízes e causas profundas, porque as bases de uma nova metafísica são, na verdade, complexas e numerosas. Podemos asseverar em termos muito gerais que, por alturas de 1900, começam a esgotar-se os recursos do kantisimo: já não bastam nem satisfazem, e o pensamento procura outras soluções. Primeiramente manifesta-se uma tendência para um realismo “crítico”, que todavia não .renuncia à posição kantiana. É professado, por exemplo, por Alois Riehl (1844-3924). Mais tarde, a escola de Würzburg, fundada por Oswald Külpe (1862-1915), seguido por brilhante plêiade de pensadores,  dá novo e enérgico arranque na mesma direção. Mas o autêntico movimento renovador do realismo, do mesmo modo que o método fenomenológico, procede de Brentano e de seus discípulos, principalmente de Meinong e Husserl. é certo que Husserl nunca chegou ao realismo e menos ainda à filosofia do ser; mas o fato de ele haver desviado a atenção dos problemas estéreis da teoria do conhecimento para a análise do dado foi de suma importância para o novo realismo e para a metafísica; a influência de Meinong foi igualmente muito apreciável neste sentido.

Fora desta linha, a metafísica realista ganha terreno em muitos outros domínios, sob a pressão de diversos fatores espirituais. O tomismo, que experimentou um renascimento por alturas de 1880 (encíclica Aeterni Patris, 1879), organizou-se numa grande escola que cedo havia de converter-se numa das mais poderosas: em 1893 foi fundada La Revue Thomiste, órgão da Universidade de Friburgo na Suíça, e em 1894 a Revue Néoscolastique de Philosophie, em Lovaina. Professa ele o realismo imediato e a metafísica tradicional. Mas não se encontra isolado: em 1903 publica Moore, na Inglaterra, seu Célebre artigo Refutation of idealism, e propugna, em acordo com Russell, uma filosofia aparentada ao platonismo. Em França, Boutroux e Bergson confessam-se, por outros motivos, partidários do realismo. Na Alemanha, é sobretudo a doutrina de Hans Driesch (1867-1941) que por seu caráter aristotélico chama a atenção.

Esta corrente neo-realista não desfruta da popularidade do irracionalismo, mas nem por isso é menos decisiva: a metafísica, movimento secundário e indistinto no século XIX, converte-se numa das doutrinas mais influentes da época.

H. Retorno à especulação. Pluralismo. Sob a influência dominante do positivismo, a filosofia acalmara muito em fins do século XIX. Talvez a maioria dos filósofos receasse fazer-se notada por algo original, e o resultado foi que na maior parte das universidades se passou a ensinar um certo historicismo, simples inventário das doutrinas do passado. Um dos traços mais significativos do início do século XX é o retorno à. especulação sistemática, que se manifesta de igual modo nas escolas irracionalistas e entre os metafísicos.

Mas a característica mais profunda e decisiva é, sem dúvida, o retorno ao pluralismo personalista. Se o século XIX em quase todas as suas manifestações se orienta para o monisrno, quase todos os movimentos de fim de século são, pelo contrário, pluralistas, isto é, acentuam a diversidade dos graus doser e uma pluralidade de entes autônomos. Este pluralismo encontra sua mais radical expressão em James, o qual chega a confessar simpatia para com o politeísmo; manifesta-se porém mais ou menos por toda a parte, entre os fenomenólogos, os neo-realistas ingleses, os tomistas. A pessoa humana recupera seus antigos direitos e cada vez mais se vai convertendo em centro do interesse filosófico. Com isso, os grandes problemas do espírito começam a apaixonar verdadeiramente o pensamento. Se o século XIX foi uma época predominantemente monista e materialista, a crise de 1900 anuncia o predomínio de um personalismo espiritualista fundamentado em amplíssimas bases.

Certamente, por alturas de 1900 estas idéias ainda estão longe de ser geralmente aceitas.    O primeiro quartel do século assiste até a um retorno passageiro das velhas tendências. Contudo as idéias novas não recuam; pelo contrário vão atuando e, após a primeira guerra mundial, impor-se-ão à maioria dos pensadores europeus.

3.   O  INICIO DO  SÉCULO XX

A.   Características.  Eis os traços característicos da filosofia do primeiro quartel do século XX. Em primeiro lugar, é um período de intensa atividade filosófica; número considerável de eminentes pensadores entra em cena ou começa a exercer influência. Sob este aspecto, pode computar-se este período entre os mais fecundos da história moderna. Em seguida, é um período de transição. Ao lado de correntes novas, continuam atuando tendências de velho estilo, mantidas sempre em crédito. Os epígonos do século XIX ainda não são tidos nessa conta; pelo contrário, mostram-se muito ativos e influentes, e em vários países, como na Inglaterra e Itália, dominam a situação até à guerra de 1914. Entretanto, pensadores eméritos já expuseram as novas idéias e asseguraram-lhes vasta repercussão. Alguns dentre eles, especialmente Bergson e em menor escala Husserl, alcançaram excepcional reputação. As principais escolas são: os empiristas e os idealistas, que todavia se alimentam com as idéias do século XIX, os filósofos da vida, os fenomenólogos e os neo-realistas, que são os partidários das idéias novas.

B.   Os empiristas. Número assaz considerável de pensadores segue a linha do positivismo ou até a do materialismo. Prevalece neles a idéia da evolução mecanicista. No entanto,
de maneira geral, rompem já o quadro do positivismo, visando estabelecer, à base das ciências, uma espécie de imagem geral da realidade, a que por vezes eles próprios dão o nome de
“metafísica”. Podemos distinguir entre eles vários grupos de orientação diferente e de importância desigual.

No que se refere à França, devem ser citados alguns empiristas que publicaram boa parte de suas obras no século XIX, mas cuja’ influência só nesta altura se faz sentir. Todos eles constroem uma espécie de metafísica sobre uma base científica. Salientemos Alfred Fouilée (1838-1912), autor de uma teoria das “idéias forças”, André Lalande (1867- 1963), crítico  do otimismo evolucionista e propugnador da lei da dissolução, bem como o materialista Félix le Dantbc (1869--1917), autor de um certo número de obras contra o espiritualismo, o vitalismo e o individualismo ontológico.

Na Alemanha, a tendência empirista é principalmente representada pelos positivistas, entre os quais avulta incontestavelmente Theodor Ziehen (1862-1950). Ernst Mach (1838–1916) continua exercendo influência e vários de seus discípulos professam seu empiriocriticismo. Dentro desta ordem de idéias, importa citar, como pensador inteiramente independente, Wilhelm OswalD (1853-1932). Químico de profissão, tornou-se mais tarde filósofo e sobre a base das ciências da natureza fundou uma doutrina atualista, segundo a qual a realidade nada mais é do que energia.

A psicologia é o terreno onde as correntes materialistas se manifestam de maneira particularmente eficaz. É, em primeiro lugar, o behaviorismo, escola fundada por John B. Watson (1878- ). No fundo, não é mais do que uma metodologia científica, que abstrai do estudo dos fenômenos psíquicos enquanto processos decorrentes no íntimo da alma, bem como da introspecção, e pretende considerar exclusivamente como objeto da psicologia o comportamento (behaviour) externo. Uma das conseqüências é a negação total do psiquismo. A resultados idênticos chegou a reflexologia do russo Ivan Pavlov (1849-1936), segundo a qual as funções psíquicas superiores têm de ser explicadas por meio de reflexos condicionados ou  inibidos.

Entretanto, a psicanálise de Sigmund Freud (1856-1939) pode ser considerada o mais importante movimento oriundo do emplrismo. Freud, que aceita o princípio fundamental do mecanicismo evolucionista, segundo o qual o superior explica-se pelo inferior, propõe a tese de que a vida da consciência nada mais é que o resultado de um jogo puramente mecânico dos elementos da “subconsciência”. Estes elementos, que dispõem de uma dinâmica própria, combinam-se em “complexos” e têm tendência para reaparecer na consciência e dirigir a ação. A força característica e motriz da vida psíquica é a “libido”, espécie de eros no sentido mais amplo. Partindo destes princípios, que expôs em sua Traumadeutung (Interpretação dos sonhos) (1900), Freud elaborou desde 1913 (Totem und Tabu), sistemas explicativos da religião, da arte, etc. Para êle, todos os fenômenos psíquicos superiores não são mais que “sublimações” do impulso erótico.

Generalização idêntica de uma teoria cientifica limitada foi a que levou a cabo a escola francesa de sociologia, com seu fundador Emile Durkheim (1858-1917) e com Lucien Lévy-Bruhl (1857-1939), que foi realmente seu sucessor. Estes sociólogos defendem a concepção de que a sociedade é uma realidade, sem dúvida contida em cada indivíduo, mas objetiva. Podemos captá-la cientificamente mediante um método objetivo e comparativo, pelo só estudo das causas eficientes, com exclusão de toda finalidade. A aplicação deste método levou Durkheim e Lévy-Bruhl a afirmar que as leis éticas e lógicas são completamente relativas, pura expressão das necessidades de uma sociedade em evolução, e que a religião consiste no culto desta mesma sociedade. O sistema culmina numa espécie de psicologia especulativa, segundo a ‘qual o que é religioso, lógico e moral, pertence à esfera social, enquanto o profano, o alôgico e o egoísta, pertence à espera do homem individual. Por conseguinte, o corpo seria um princípio de individuação.

Todos estes sistemas, principalmente a psicanálise e o sociologismo, tiveram grande aceitação entre as multidões. Todos eles, porém, não são mais do que um derradeiro reflexo do pensamento do século XIX. Todavia, um traço os diferencia do empirismo da velha escola: seu relativismo. Le Dantec, Pavlov, Ziehen, Ostwald, Freud e Durkheim, todos são relativistas. Para eles não existem leis absolutas, nem lógica objetiva, nem morai imutável. Por esta faceta, o empirismo abeira-se do irracionalismo, que, pela mesma época, se vai inoculando na filosofia.

Falta acrescentar que nenhuma destas doutrinas, considerada filosoficamente, se reveste de importância por seu conteúdo. Todas elas são exclusivamente sensualistas e nomina-listas, incapazes de ultrapassarem as fronteiras do pensamento Intuitivo. E nelas interfere fortemente o materialismo mecanicista. Estranho paradoxo é a circunstância de uma doutrina já superada em física e também em biologia fincar pé no campo da psicologia e da sociologia.

C. O idealismo. O idealismo exerceu a maior influência nos principais países da Europa durante os primeiros vinte e cinco anos do século XX, mas perdeu-a quase completamente na maior parte desses países por altura de 1925. Isto é verdade principalmente na Inglaterra, pois que na Alemanha, França e Itália, ele continuou sendo uma potência até à segunda guerra mundial. Pelo que, teremos que voltar a tratar dele mais tarde. Pelo contrário, uma vez que o idealismo inglês já não pertence à filosofia atual, vamos esboçar-lhe rapidamente as linhas fundamentais.

O idealismo inglês brotou da velha cepa hegeliana. Seus arautos são Francis Herbert Bradley (1846-1924), Bernard Bosanquet (1848-1923) e Ellis McTaggart (1866-1925). Os dois primeiros são monistas. Bradley, provavelmente o mais profundo dentre eles, funda sua filosofia sobre a idéia das relações intrínsecas. Segundo ele, as relações não são acrescidas à essência das coisas já constituídas, mas constituem elas próprias essa essência. Esta doutrina conduz, por um lado, ao monismo — a realidade é um todo orgânico — e, por outro lado, ao ser aplicada ao conhecimento, conduz ao idealismo objetivo — não existe diferença essencial entre o objeto e o sujeito, visto ambos não serem mais do que uma forma na qual se manifesta o todo, idéia única e absoluta. Reforça sua tese com perspicazes considerações sobre as contradições inerentes a toda realidade empírica. Tais contradições provam, segundo Bradley, que esta realidade não é senão aparência, por detrás da qual se esconde a realidade verdadeira, o absoluto. Todavia Bradley, embora defensor de um idealismo monista, está longe de reduzir a realidade ao abstrato. Do mesmo modo que Hegel, persiste em afirmar a primazia do concreto. Seu conceito universal não é uma abstração, mas, de conteúdo mais rico do que o particular, é um “universal concreto” e mais real do que o particular. Estes são apenas alguns aspectos básicos do pensamento rico e complexo de Bradley, que exerceu — e continua exercendo ainda — influência duradoura sobre uma série de eminentes pensadores. Assim, por exemplo, James e Marcel foram diretamente influenciados por ele, ao passo que o neo-realismo inglês se ergue renitentemente contra suas concepções fundamentais.

Bosanquet prolonga o idealismo hegeliano na mesma direção, insistindo todavia mais, quando possível, no caráter concreto da realidade. O terceiro pensador que mencionamos, McTaggart, difere de Bosanquet e de Bradley por sua adesão ao pluralismo: o absoluto é, para ele, uma comunidade de espíritos que entre si mantêm relações recíprocas. Sua filosofia é profundamente espiritualista e personalista.    Em vez do absoluto impessoal dos idealistas clássicos, McTaggabt coloca a pessoa de Deus. Por esta forma lança uma ponte entre o idealismo e a nova filosofia em gestação.

D. As novas correntes. Faremos somente breve referência aos novos movimentos filosóficos que surgem neste período, já que todos eles prosseguem desenvolvendo-se depois de 1925 e pertencem, por conseguinte, à filosofia atual, que constitui o objeto deste livro. São em número de três: fe-nomenologia,  neo-realismo e irracionalismo vitalista.

A fenomenologia, entrementes, tornou-se um fator poderoso. Em 1913, aparece o Jahrbuch für Philosophie iind phünomenologische Forschung (Anais de filosofia e de investigação fenomenológica), no qual trabalhou ao lado de Hus-serl todo um grupo de pensadores muito capazes, tais como A. Pfander, D. von Hildebrand, M. Geiger, R. Ingarden e, muito especialmente Max Scheler, que publica no primeiro e segundo volumes (1913-1916) do Jahrbuch a sua obra capital Der Formalismus in der Ethik und die materiais Wertethile (O formalismo na ética e a ética material dos valores). A influência da fenomenologia é extremamente pronunciada, de sorte que influi, por um lado, até no neokantismo, em todo caso em Emel Lask (1875-1915), e, por outro lado, na psicologia, domínio onde encontra na pessoa de Carl Stumpf (1848-1936) um discípulo de valor. Tornando-se uma escola considerável, ela disputa na Alemanha o ferreno ao neokantismo; todavia, até o ano de 1914 este último continua sendo o movimento filosófico mais potente daquele país.

Também o novo realismo, principalmente graças aos escritos de Moore e de Russell, se revela muito ativo, sem que todavia logre formar uma escola de grande envergadura. Whitehead não entrou ainda em sua fase metafísica, Alexander publica sua grande obra Space, Time and Deity (Espaço, Tempo e Deidade) só em 1920, portanto quase no final do período que nas ocupa. Na Inglaterra, mais ainda que na Alemanha, o idealismo campeia nas universidades. Pelo contrário, o tomismo, que representa em França a principal corrente realista da época, publica já obras de grande valor. Em 1909, R. Garrigon-Lagrange traz a lume seu livro Le sens commun e, em 1915, Dieu. Enfim, J. Maritain surge, em 1913, com a primeira de suas obras importantes, na qual toma posição contra Bergson. Como se vê, a escola tomista encontra-se constituída, mas a despeito de sua maturidade interna não goza ainda da reputação de que desfruta em nossos dias: também em França — como aliás em toda a parte — imperam ainda as antigas tendências.

Uma só das novas escolas conseguiu impor-se o atrair sobre si a atenção não só dos círculos especializados em filosofia como também de um público mais vasto interessado pelos assuntos literários, a saber, o irracionalismo vitalista. Na Alemanha, onde a custo se descobre Dilthey e onde Klages entra em cena com sua obra propriamente filosófica, o irracionalismo ainda não logrou alcançar o público. Mas nos países de língua inglesa William James, secundado por brilhante campanha de F. C. S. Schiller, obtém êxito sem precedentes. A obra capital deste último, Humanism, data de 1903, e, durante o primeiro quartel do século, sucedem-se uns após outros os livros de sua autoria. Na França, desponta a estrela de Bergson. A Évolution créatrice, sua obra fundamental, aparece em 1907 e converte-se num autêntico centro da discussão filosófica. Como chefe de escola, Bergson está cercado de eminentes pensadores que em menor ou maior grau se lhe mantêm fiéis. Entre eles, merecem ser citados os modernistas, com Le Roy, Blondel, Pradines e Baruzi. Vasta é a repercussão de Bergson. Mesmo assim, o bergsonismo não consegue eliminar completamente as antigas doutrinas que, a seu lado, continuam exercendo influência.

4.   AS CORRENTES PRINCIPAIS DA FILOSOFIA ATUAL

A. As escolas. O período da filosofia contemporânea, de que vamos agora ocupar-nos, que vai desde a primeira guerra mundial até ao ano de 1946, assistiu ao florescimento de duas novas escolas. Uma, o neopositivismo, representa uma prolongação original da atitude positivista; a outra, denominada “filosofia da existência”, apresenta-se como algo inteiramente novo, apesar de prolongar a filosofia da vida e de conter elementos fenomenológicos e metafísicos. Todas as escolas já existentes possuem seus pensadores eméritos que prosseguem desenvolvendo em forma grandiosa sua temática fundamentai. É este o caso particular da metafísica, que se orgulha com os nomes de um Alexander, de um Whitehead, de um Hartmann e de um número crescente de tomistas; é o caso também da fenomenologia, com a figura máxima de M. Scheler,  e da filosofia da vida, representada pela derradeira fase de Bergson e por todo o pensamento de Klages, para falar dos outros.

É possível distinguir os sistemas mais importantes de nossa época sob dois pontos de vista: segundo o conteúdo doutrinai e segundo o método. Do ponto de vista do conteúdo, podemos dividi-los em seis grupos. Temos, em primeiro lugar, as duas direções que prolongam a atitude mental do século XIX: o empirismo ou a filosofia da matéria, como continuação do positivismo, e o idealismo em suas duas formas, a hegeliana e a kantiana. Temos, em seguida, duas doutrinas às quais se deve a ruptura com esse século: a filosofia da vida e a filosofia da essência, ou seja, a fenomenologia. Finalmente, surgem dois grupos que exprimem a tentativa mais original e significativa de nosso tempo: a filosofia da existência e a nova metafísica do ser.

Evidentemente, esta classificação não deixa de ser um tanto arbitrária. Não é possível passar em silêncio as profundas discrepâncias que separam filósofos agrupados sob o mesmo rótulo. Assim, por exemplo, temos de apresentar sob o título comum de “filosofia da matéria” as doutrinas de B. RUSSEL, dos neopositivistas e também dos marxistas, doutrinas essas que apresentam entre si notáveis diferenças. Na seção “filosofia da vida” tivemos de incluir pensadores tão diferentes como Dewey e Klages. Por último, importa observar que pensadores isolados subsistem, com suas escolas, entre os grupos, estabelecendo a transição de um grupo a outro. Assim acontece, por exemplo, com a escola idealista de Baden, que oferece pontos de contato com o historicismo dependente da filosofia da vida, e com a fenomenologia de Scheler, que preconiza já a filosofia da existência. Tais agrupamentos são absolutamente necessários na história do pensamento filosófico para se obter uma exposição da matéria quanto possível completa. Nossa classificação não pretende ocultar as profundas discrepâncias dentro de cada grupo, como nem as transições de grupo para grupo. Sendo assim, nossa classificação em seis grupos justifica-se como manifestação das seis atitudes mentais decisivas de nosso tempo: empirismo, idealismo, filosofia da vida, fenomenologia, filosofia da existência e metafísica.

A diferenciação à base do método não deveria ser tão decisiva em si; no entanto, parece que começa a impor-se de maneira notável, como se verificou no X Congresso Internacional de Filosofia, em 1948. Com efeito, vê-se que a aplicação de métodos diferentes, a análise lógico-matemática, de um lado, e o procedimento fenomenológico, do outro lado, provocam não raro uma cisão no interior da mesma escola filosófica. E embora haja ainda muitos filósofos que não admitem nenhum destes dois métodos ou desejam aplicar ambos ao mesmo tempo, este parece ser, as mais das vezes, o pomo da discórdia entre os pensadores. Além dos fenomenólogos, quase todas os filósofos da existência e parte dos metafísicos costumam empregar o método fenomenológico, que no transcurso do tempo se foi ampliando e modificando. Contudo, outros metafísicos associaram-se aos defensores da lógica matemática, e, mais que nenhum outro, Whitehead. é muito para notar que a lógica matemática tenha sido capaz de suscitar um entendimento compreensivo recíproco de representantes de direções diversas e até opostas, de platônicos, de aristotélicos, de nominalistas, até de kantianos e de alguns pragmatistas, quando, por outro lado, a distância entre os partidários deste método e os da fenomenologia parece por vezes tão grande que impede toda possibilidade de acordo.

B. Influências. Tratamos acima das origens da filosofia atual.    Só nos resta acrescentar umas quantas indicações.

Primeiramente, convém notar que as circunstâncias históricas que provocaram o rompimento com o pensamento do século anterior continuam operando no período atual. Assim, a física prossegue desenvolvendo-se no mesmo sentido de afastamento crescente de sua velha base mecanicista. A. ilusão do progresso operado pela técnica — que entre os norte-americanos e os russos se encontra ainda hoje em pleno florescimento — sofreu reiterados abalos na Europa. Não só os filósofos senão também as multidões parecem estar curados desta ilusão. Isto à custa dos maiores sacrifícios, tanto mais que os terríveis sofrimentos provocados por uma série de acontecimentos demasiado conhecidos fizeram que a atenção do homem se concentrasse nos problemas urgentes da pessoa humana, nas questões do destino, do sofrimento, da morte e das relações humanas. Dir-se-ia que se encontra em pleno desenvolvimento uma renovação religiosa. Enfim, uma espécie de incerteza e de inquietação gerais começa a apossar-se dos homens, que sentem claramente a situação de crise e mais do que nunca se volvem para a filosofia, na esperança de obterem dela uma resposta às dolorosas perguntas de sua vida amargurada. Tudo isto explica que a filosofia da existência tenha podido ganhar terreno tão rapidamente e que a metafísica tenha adquirido a força que hoje conta. Isto explica igualmente o elevado nível da vida filosófica na atualidade.

Sobre esta filosofia exercem-se também influências notáveis de pensadores de épocas remotas. Bertrand Russell, um dos filósofos da matéria, por conseguinte um continuador do século XIX, afirma, em 1946, que a influência de Tomás de Aquino é maior que a de Kant ou de Hegel. O mesmo parece se pode dizer a respeito de todos os filósofos de nosso tempo. Cada vez que a filosofia realizou um progresso, fê-lo em forma de espiral. No momento presente, e no que tange às questões fundamentais, ela encontra-se mais próxima do pensamento dos gregos e da escolástica, do que dos filósofos de há cem anos. Assim, vimos Platão renascer com Whitehead, Aristóteles com Driesch, Hartmann e os Tomistas., Plotino com certos filósofos dá existência, Tomás de Aquino com a escola que leva seu nome, a baixa escolástica com a fenomenologia e o neopositivismo, Leibniz com Russell,

Quando, todavia, se tratar de saber quem exerce mais eficaz influência sobre a filosofia nossa contemporânea, sem hesitação devemos citar dois pensadores pertencentes a nossa época: Bergson e Husserl, como já se disse. Sem dúvida, não são os únicos. Mas sempre e em toda a parte a filosofia da vida e a fenomenologia desempenham papel decisivo, embora não sejam professadas por escolas particularmente poderosas.

Em suma, a evolução que, para um observador atento, se manifesta desde 1900 encontra-se atualmente em franca realização: a superação da filosofia do século XIX em proveito de uma nova conceição da realidade, concepção que desponta cora o dealbar do século e que, sem representar marcha para trás, todavia se aproxima grandemente do pensamento de épocas transatas.

C. Importância relativa dos sistemas. Quanto á importância de escolas e sistemas, podemos considerá-la debaixo de dois pontos de vista totalmente diferentes. Os sistemas, que exercem muito forte influência sobre as massas, via de regra não atuam na mesma medida sobre os filósofos. Duas leis gerais, parece, condicionam a atitude das massas perante a filosofia.   Era primeiro lugar, a aceitação por parte do público é sempre extremamente tardia, de sorte que uma filosofia que floresceu cinqüenta ou cem anos atrás nos meios especializados, tem agora as maiores probabilidades de se tornar popular, independentemente da consideração em que é tida pelos filósofos. Alem disso, as multidões resistem muito menos que os filósofos à dupla atração de que dispõe um sistema, graças a sua simplicidade e a sua encenação. Uma filosofia apresenta tanto maior número.de probabilidades de expansão quanto for mais primitiva e quanto mais potente for a propaganda que a lance em circulação, ao passo que os filósofos se mostram geralmente menos sensíveis a esta espécie de fatores.

Neste nosso compêndio interessa-nos unicamente a filosofia no sentido acadêmico do termo, e não aquilo que as multidões têm por bom. Contudo, não será inútil perguntar-nos quais são as filosofias mais populares de nosso tempo. Duas principalmente se nos afiguram que podem disputar esta prerrogativa. Em primeiro lugar, a filosofia da matéria, É a mais simples e, por conseguinte, a mais facilmente compreensível pelos não-filósofos. Além disso, em sua forma marxista ela é estimulada por todo o poder do partido comunista mundial bem como pelo prestígio de uma série de intelectuais que, na qualidade de diletantes em filosofia, sucumbem, do mesmo modo que as multidões, ao sortilégio dos dogmas simplificados. A par da filosofia da matéria, goza também de grande popularidade, especialmente nos países latinos, a filosofia da existência. A primeira vista, isto parece estranho, porque a filosofia da existência é uma doutrina inteiramente moderna e, de mais a mais, extremamente especializada e sutil. Mas o fato tem fácil explicação, se tivermos em conta a forma simplificada e acessível com que é apresentada às multidões, através da literatura, do teatro e do ensaio popular, gêneros de propaganda de que só os existencialistas, entre os filósofos, lançaram mão. Além disso, aquilo que os não-filósofos costumam em geral apreender na filosofia da existência é o seu elemento irracionalista e radicalmente subjetivista. Ora, o subjetivismo é uma velha doutrina dos séculos passados, e o irracionalismo foi difundido no século XIX por certas correntes filosóficas, de que acima falamos, principalmente pela filosofia da vida que esteve em moda no final do século. Poderíamos confrontar o êxito atual da filosofia da existência com o êxito que a doutrina estóica conheceu nos primeiros séculos de nossa era: também a filosofia estóica era uma filosofia manifestamente especializada, mas soube conquistar vasto domínio, pela circunstância de apelar para certas idéias morais simples, para a recepção das quais a história vinha, desde há muito, preparando o terreno.

Em comparação com estas duas correntes filosóficas, as outras escolas contam com poucos adeptos entre o grande público. Acaso, a metafísica é a que se encontra em melhor situação, especialmente em sua versão tomista que estriba em potente tradição e é propugnada pela Igreja católica. A filosofia da vida e a fenomenologia são menos conhecidas, sobretudo a última. Quanto ao idealismo, parece ter sofrido rude golpe.

É diferente o quadro que se nos oferece, quando consideramos as influências das escolas entre os próprios pensadores. Também neste caso o idealismo deveria, sem dúvida, ser relegado para o último posto, enquanto a filosofia da vida e a fenomenologia ocupam lugar importante, embora só de maneira indireta, devido à sua repercussão em várias escolas. Pelo contrário, das duas escolas que são exclusivamente de nosso tempo, parece que se deve outorgar o primeiro posto à metafísica, de preferência à filosofia da existência. Enfim, a filosofia da matéria encontra-se em posição singular: em determinadas formas, por exemplo na velha forma de Spencer ou na do materialismo dialético, ela é simplesmente, ou quase simplesmente inexistente em nossas universidades. Mas os trabalhos de Russell e dos neopositivistas, acrescentados a uma reação em certos círculos científicos contra a crise da ciência, concorreram para seu retorno momentâneo. Durante os anos 1930-1939 tinha-se a impressão de o neopositivismo estar prestes a tornar-se uma das escolas dominantes. De momento, só na Inglaterra êle manteve sua posição — sem dúvida muito sólida — ao passo que no continente europeu foi desalojado pelas demais correntes. Aliás, na própria Inglaterra (como também nos Estados Unidos) parece ir perdendo pouco a pouco sua influência.

Resumindo, podemos compendiar da seguinte maneira a importância relativa dos sistemas: no primeiro posto estão a metafísica e a filosofia da existência; seguem-se-lhes — de maneira menos direta e mediante as correntes mencionadas — a  filosofia da vida e a fenomenologia;  e finalmente, a maior distância, a filosofia da matéria.   Em derradeiro lugar, o idealismo (1).

D. CARACTERÍSTICAS GERAIS. Naturalmente, não é possível indicar as características gerais que correspondam por igual a todas as correntes do pensamento contemporâneo. Isto, principalmente, porque algumas dentre elas nada mais fazem do que continuar a atitude do século XIX, ou mais geralmente dos “modernos” (1600-1900), ao passo que as restantes se empenham em construir algo radicalmente novo em relação àquelas. Há, todavia, traços comuns que, embora não se apliquem a todos os filósofos, são característicos da maior parte deles. Assim, por exemplo, Whitehead parece estar do lado da razão, quando afirma que já se encontra superada a “bifurcação” tão típica da época moderna entre o mundo-máquina e o sujeito pensante: como vimos, tanto o subjetivismo como o mecanicismo sofreram séria derrota. Em substância, manifesta-se uma tendência para uma concepção orgânica e diferenciada da realidade, aliada a um reconhecimento expresso de sua estrutura graduada e de suas diferentes camadas de ser. Distinguem-se ainda outros caracteres que, embora não possam ser qualificados de universais, definem, todavia, claramente o perfil do pensamento contemporâneo. Citemos entre eles:

a)      Atitude antipositivista. Se prescindirmos dos filósofos da matéria e de alguns idealistas, este é um traço fundamental que se pode verificar estar presente em toda parte. Neste particular, os filósofos da vida, os fenomenólogos e os filósofos da existência ultrapassam os metafísicos: aqueles contestam em geral todo e qualquer valor às ciências da natureza como fontes do conhecimento filosófico, ao passo que estes contentam-se com reservar-lhes um lugar subordinado.

b)             Análise. Em flagrante contraste com o século XIX, os filósofos contemporâneos praticam especialmente a análise,

(1) A comissão da Associação Internacional das Sociedades de Filosofia (fundada em 1948, cf. Apêndice) compõe-se de trinta membros, vinte e quatro dos quais são europeus, nomeados por eleição. Destes, cinco são tomistas, quatro metafísicos de outras tendências, dois dialéticos, um positivista, um idealista, um materialista dialético (tcheco-eslovaco) e um existencialista. Seis destes filósofos são partidários da lógica matemática. Claro está que a composição desta comissão não exprime exatamente a força relativa das escolas; no entanto, é bastante   significativa e muitas vezes com métodos novos dotados de extrema precisão.

c)      Realismo. Os metafísicos, a maioria dos filósofos da vida e dos filósofos da matéria, assim como uma parte dos filósofos da existência, são realistas, sendo os idealistas os únicos que se mantêm aferrados à posição contrária. A forma de realismo que professam é a do realismo imediato: atribuem ao homem o poder de captar o ser diretamente. Em geral, a distinção kantiana entre coisa em si e fenômeno é, por assim dizer, rejeitada em toda a linha.

d)      Pluralismo. A maioria dos filósofos de nossos dias são pluralistas e opõem-se ao monismo idealista e materialista do século XIX. Contudo, também aqui há exceções: por exemplo, Alexander, entre os metafísicos, e Croce, entre os idealistas, são monistas. Como quer que seja, porém, constituem uma minoria, cuja influência diminui a olhos vistos.

e)      Atnalismo. Quase todos os filósofos da atualidade são atualistas. O interesse deles concentra-se no devir, num devir que mais e mais é encarado como historicidade, tanto mais que a biologia, que no início do século fora critério decisivo para as doutrinas irracionalistas, foi suplantada pela história. O atualismo da filosofia contemporânea nega a existência das substâncias; só os tomistas e alguns neo-realistas ingleses representam exceção. Filósofos há que vão ainda mais longe em seu atnalismo e rejeitam até as formas ideais imutáveis. É o que sucede com os filósofos da matéria e da vida, com muitos idealistas e com todos os filósofos da existência. Mas esta tendência é vigorosamente combatida por outras escolas, sobretudo pelos neokantianos, fenomenólogos e metafísicos.

f)        Personalismo. Na maioria dos casos, o interesse volve-se para a pessoa humana. Prescindindo dos filósofos da matéria, todos os pensadores de nosso tempo são mais ou menos espiritualistas declarados e insistem na dignidade peculiar da pessoa humana. Este personalismo é professado de forma particularmente dramática pelos filósofos da existência, mas também muitos fenomenólogos e metafísicos o propugnam de maneira categórica. É precisamente nisto que devemos ver  o  traço distintivo da filosofia  contemporânea, em   radical  contraste com  o passado:  é  uma filosofia mais próxima  do ser real do homem de que as precedentes.

E. Caracteres externos. Além destes, traços inerentes as próprias doutrinas, a filosofia atual distingue-se ainda por toda uma série de caracteres externos. É acentuadamente especializada, extraordinariamente produtiva e existe entre suas escolas um convívio muito mais intenso que outrora.

a)      Especialização. Entre os filósofos profissionais não se encontra nenhum, cujos trabalhos possam ser confrontados em simplicidade com os de Platão ou Descartes. Todas as escolas (salvo o materialismo dialético e, sob certo respeito, o pragmatismo) dispõem de um aparato conceptual especializado, dotado de rico vocabulário abstrato, e operam manejando com noções complexas e sutis. Nota-se isto principalmente nos filósofos da existência e nos neopositivistas; é, portanto, um distintivo típico das duas doutrinas mais recentes. Quase outro tanto se pode afirmar dos idealistas, dos fenomenólogos e dos metafísicos. Certas teses filosóficas de nossa época relembram muitíssimo em seu aspecto exterior tanto os trabalhos técnicos especializados de Aristóteles quanto os processos sutis da escolástica do século XV.

b)      Produtividade. É extraordinariamente grande a produtividade dos filósofos. Para dar apenas uns quantos números: só na Itália, havia no ano de 1946não menos que trinta revistas especializadas de filosofia e uma só escola internacional, o tomismo no sentido estrito do termo, dispunha de mais de vinte. A bibliografia (incompleta) do Instituto Internacional de Filosofia menciona para um semestre (I, 1938) mais de 17.000 títulos. A esta mole quantitativa é mister acrescentar a multiplicidade dos problemas versados e o aparecimento de grande número de trabalhos realmente importantes. Sem dúvida, é difícil distinguir o que nesses trabalhos contém valor permanente; mas, a não ser que todas as aparências sejam ilusórias, muitos filósofos de nossa época deixarão um rasto duradouro na história do pensamento filosófico. Penso não ser exagero asseverar que a época atual é uma das mais fecundas da história.

c) Interdependência. Uma característica da filosofia atual é a Intensidade dos contatos entre filósofos das tendências mais  diversas  e até  contraditórias,  bem  como o  estabelecimento de relações entre os países. Com o início do século XX assiste-se à celebração de uma série de congressos internacionais de filosofia (3, Paris, 1900; II, Genebra, 1904; III, Heidelberg, 1908; IV, Bolonha, 3911; V, Nápoles, 1924; VI, Nova Iorque, 1927; VII, Oxford, 1930; VIII, Praga, 1934; IX, Paris, 1937; X, Amsterdam, 1948) que reuniram uni número sempre crescente de filósofos. A par destes congressos, importa mencionar os encontros internacionais com fins mais especializados, e que se ocupam de uma só disciplina ou se destinam aos membros de uma só escola. Deve outrossim ser mencionada a fundação de revistas de escolas internacionais (idealistas, tomistas, neopositivistas, etc.) ou de outras em várias línguas. Abateram-se os limites representados pelas fronteiras nacionais e também, em grande parte, pelas barreiras das escolas, obtendo-se, por essa via, o resultado de uma interpenetração das várias correntes filosóficas, tal como no passado raramente se presenciou.

Isto revela-se já no movimento que levou à formação das escolas contemporâneas. Assim, o neo-realismo inglês procede, a um tempo, da teoria do objeto (aparentada a fenomenologia), de certas idéias empiristas e do estudo da metafísica (o estudo de Leibniz por Russell). O neopositivismo está Intimamente ligado àcrítica da ciência, ao empirismo clássico e ao neo-realismo inglês, como também recebe influências de Husserl, o fundador da fenomenologia. Esta última, por seu turno, repercute fortemente na filosofia da existência e numa parte da metafísica. O idealismo não se mostra inteiramente independente de seu inimigo tradicional, o positivismo. Mas o que há de mais característico é o processo de formação da filosofia da existência, a qual reúne em si influências positivistas, idealistas e fenomenológicas, embora se baseie principalmente na filosofia da vida e seja profundamente influenciada pelos metafísicos.

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