Jean-Louis Vieillard-Baron

Professor na Universidade de Tours, na França, e grande especialista do “idealismo alemão” (vide Idealismo_alemão), autor em particular de Platão e o idealismo alemão (1770-1830), o filósofo escreveu algumas obras capitais para se compreender a presença do platonismo no pensamento dos séculos XVI, XVII, XVIII e XIX.

Vieillard-Baron: Platonismo e interpretação de Platão na época moderna

De Reuchlin a Hegel, os diálogos de Platão não cessaram de ser consumidos e repensados. Pode-se distinguir a interpretação de Platão, que não implica em esforço pessoal de pensamento da parte dos intérpretes, e o platonismo como herança de Platão assimilada no interior de uma démarche filosófica nova. De Reuchlin a Kleuker, Platão é interpretado como o grande filósofo herdeiro da sabedoria tradicional originária da Cabala ou dos Caldeus. A verdade metafísica sobre a salvação da alma, sobre Deus e sobre o mundo lhe foi dada pelas revelações especiais que soube explicar nos seus diálogos. Só a partir da segunda metade do século XVIII que tem início uma interpretação mais racionalista de Platão, com Hemsterhuis, depois Hegel e Schelling. Esta interpretação implica em um platonismo de fato; se inscreve no quadro de uma nostalgia da Grécia (Heinse e Hölderlin), na base da reflexão política e metafísica do jovem Hegel. A referência a Aristóteles será mais tardia e e menos assimilada. A última parte desta obra demonstra a persistência de filosofemas platônicos na época moderna: a reminiscência de Hegel, a contemplação para Cruezer, a alma do mundo em Cudworth e outros tantos.

Através da questão das correspondências e harmônicos entre a alma, o mundo e Deus, se revela a grande interrogação seguinte: como pensar o platonismo segundo a mobilidade e sem referência a uma filosofia da substância e da imutabilidade?

Índice
O problema da “recepção” de Platão

Primeira Parte – Leituras de Platão nos séculos XVI e XVII

1. Platonismo e Cabala na obra de Johann Reuchlin
2. Os Platônicos de Cambridge e sua compreensão das relações entre microcosmo e macrocosmo

Segunda Parte – O problema do platonismo no século XVIII
1. Platonismo e paganismo no século XVIII
2. Platão revisado e corrigido pela Aufklärung
– O uso dos diálogos de Platão segundo Jean-Jacob Engel
– O Phedon de Moses Mendelssohn
– O Sistema de filosofia platônica de Tenneman
3. O platonismo do círculo de Münster
– A tradição platônica revivificada por J.F. Kleuler
– O platonismo de Hemsterhuis
4. Platonismo e antiplatonismo no fina do século XVIII: Hemsterhuis e Fichte

Terceira Parte – Platonismo e idealismo na Alemanha
1. A verdade da utopia: a imagem da Grécia em Heinse e H6olderlin
2. A influência platõnica na formação do pensamento político de Hegel em Frankfurt e em Iena
3. A noção de matéria espiritual em Hegel e Schelling em Iena
4. Platonismo e aristotelismo em Hegel

Quarta Parte – A persistência de grandes filosofemas platônicos
1. Hegel e a reminiscência
2. A contemplação: Creuzer, intérprete de Plotino
3. A Alma do Mundo e seu destino no pensamento cristão platonizante

Obras de Platão

Segundo o filósofo Jean Brun

O filósofo que deseja estudar o pensamento dos pré-socráticos, o dos estoicos ou o dos epicuristas depara com o problema da ausência quase total de textos e limita-se a estudar as citações ou os fragmentos transcritos pelos autores posteriores. Com Platão, Aristóteles e Plotino, estamos frente a um problema de certo modo inverso, não temos poucos textos, mas sim, e por vezes, textos de mais: quando se estuda Platão ou Aristóteles deve fazer-se a separação, dentro das obras que tradições por vezes em desacordo atribuem a esses filósofos, entre as obras suspeitas e as obras apócrifas. Dispomos, para a autenticação da obra de Platão, de critérios externos: uma obra é autenticada se Aristóteles ou Cícero a atribuírem a Platão ou se se encontrar uma citação da obra no interior de outra — e de critérios internos: uma obra é atribuída a Platão se for «conforme» a sua filosofia, mas são visíveis os perigos deste procedimento que consiste em definir primeiro Platão para depois poder ajuizar das suas obras; outros críticos utilizaram o processo estilométrico, que consiste em medir a frequência de certas palavras gregas usuais de modo a definir um «estilo» de Platão que permita autenticar uma obra segundo o modo como foi escrita, mas deve dizer-se também que o estilo não é um dado imutável num homem que viveu perto de 80 anos.

O segundo problema é o da cronologia das obras; é certo que o pensamento de Platão evolui e que não é o mesmo nos diálogos de juventude e nos da maturidade; mas os críticos de Platão nunca conseguiram entender-se sobre uma cronologia rigorosa.

Resta outro problema: Aristóteles fala-nos das «obras não escritas» de Platão; alguns quiseram separar um ensino exotérico, que estaria nas obras chegadas até nós, e um ensino esotérico que teria sido exclusivo dos estudantes da Academia, mas é muito difícil saber algo  sobre esse ensino esotérico, a não ser que se relacionava com as «ideias-números».

Temos duas classificações antigas das obras de Platão: uma classificação trilógica de Aristófanes de Bizâncio e uma classificação tetralógica de Trasilo. Eis a classificação que foi adotada hoje em dia na coleção de G. Budé que editou as obras completas de Platão (texto com aparato crítico, tradução e introduções desenvolvidas) e à qual iremos buscar todas as citações que se seguirão; esta classificação segue uma ordem cronológica provável:

Hípias menor, sobre a Mentira, gênero anatréptico;

Primeiro Alcibíades, sobre a natureza do homem, gênero maiêutico (atribuição contestada);

Apologia de Sócrates;

Eutífron, da Piedade, gênero probatório;

Críton, do Dever, gênero ético;

Hípias maior, sobre o Belo, gênero anatréptico;

Laques, sobre a Coragem, gênero maiêutico;

Lisis, sobre a Amizade, gênero maiêutico;

Cármides, sobre a Sabedoria, gênero probatório;

Protágoras, sobre os Sofistas, gênero demonstrativo;

Górgias, sobre a Retórica, gênero refutativo;

Mênon, sobre a Virtude, gênero probatório;

Fédon, da Alma, gênero moral;

Banquete, do Amor, gênero moral;

Fedro, da Beleza, gênero moral;

Íon, sobre a Ilíada, gênero probatório;

Menexeno, da Oração fúnebre, gênero moral;

Eutidemo, ou da Erística, gênero anatréptico;

Crátilo, sobre a Justeza dos nomes;

República, da Justiça, diálogo político;

Parmênides, autocrítica das Ideias:

Teeteto, sobre a Ciência, gênero peirástico;

Sofista, do Ser, gênero lógico;

Político, da Realeza ou da Governança;

Filebo, do Prazer, gênero ético;

Timeu, ou da Natureza;

Crítias ou da Atlântida;

Leis ou da Legislação;

Epinomis ou do Filósofo (atribuição contestada);

Cartas de Platão (a sua autenticidade é muito contestada, no entanto é provável que a Carta VII, que nos dá muitos detalhes sobre a vida de Platão, seja autêntica);

Diálogos suspeitos e apócrifos: Segundo Alcibíades, Hiparco, Minos, Os Rivais, Téages, Clitofon.

Diálogos apócrifos: Do Justo, Da Virtude; Demódoco, Sísifo, Eríxias, Axíoco, Definições.

Todas estas obras chegaram até nós através de manuscritos, dos quais os mais antigos remontam à Idade Média bizantina. Os dois mais importantes são um manuscrito do século IX que se encontra na Biblioteca Nacional de Paris; a primeira parte perdeu-se mas existe uma boa cópia do século XI que se encontra na Biblioteca de São Marcos em Veneza; o segundo manuscrito data de 895 e encontra-se em Oxford; pode acrescentar-se que escavações empreendidas no Egito permitiram encontrar papiros incompletos ou mutilados dos três primeiros séculos da era cristã (um deles, para o Fédon, remonta ao século III a. C).

Deve acrescentar-se que, desde a Antiguidade até a Renascimento, as obras de Platão foram comentadas ou utilizadas por autores mais ou menos prudentes; temos assim comentários de Proclus (sobre o Crátilo, A República, o Parmenides e o Timeu), de Hérmias, de Olimpiodoro, a tradução latina incompleta de um comentário de Calcídio sobre o Timeu. Devemos citar também os textos de Plutarco, de Galiano, de Teão de Esmirna, de Máximo de Tiro, de Albino, que comentaram, citaram ou criticaram Platão.

Romantismo Platônico

Segundo Jean-Louis Vieillard-Baron o estudo da recepção de Platão na história da filosofia moderna nos defronta com problemas de métodos e problemas filosóficos de fundo. Os primeiros têm uma importância ainda maior pois condicionam a maneira que podemos apreender a metafísica subjacente à problemática platônica. A interpretação do texto de Platão supõe a transmissão deste texto, e aí nos confrontamos com a questão das edições, onde questões não apenas filológicas, mas até mesmo de organização e apresentação dos diálogos, que assim determinam sua leitura.

Vieillard-Boron adota o conceito alemão de Platonbild: toda leitura de Platão se dando segundo uma certa imagem de Platão recebida na historiografia, ou na mentalidade filosófica comum. Ler um filósofo deveria ser uma experiência onde se destacando dos lugares comuns a seu respeito, se vai ao encontro de sua pergunta e investigação maiores: “assim Hegel toma distância da imagem de um Platão incoerente ou de um Platão místico e pré-cristão, para forjar uma visão global da metafísica platônica”.

O estudo da leitura de Platão na filosofia moderna é um domínio inesgotável. Onde podemos entrar na interiorização criativa de grandes pensadores como Hegel ou Schelling, o empreendimento se torna cativante. Frequentemente no entanto ela nos remete à leitura de obras secundária que serviram como intermediárias indispensáveis à transmissão de Platão. De qualquer modo Vieillard-Baron reconhece sempre é possível p6or em obra o princípio hegeliano que o resultado não é nada sem o processo que o engendrou. Desta maneira, é possível determinar como cada filósofo se situa em relação à obra de Platão, vendo também o posicionamento do filósofo como um espelho onde sua própria filosofia se reflete em se constituindo.

Vieillard-Boron que será nosso principal condutor nesta investigação do platonismo na Modernidade, se guia, como faremos também, pela obra monumental de Eduard Zeller sobre à tradição platônica.

 

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