Carl Gustav Jung e a sua Psicologia

Carl Gustav Jung

Carl Gustav Jung nasceu em Kesswil, cantão da Turgóvia, região às margens do lago Constança, Suíça, no dia 26 de julho de 1875. Filho de Johann Paul Jung, pastor protestante da igreja reformada e de Emile Preiswerk. Sua mãe era uma dona de casa instruída e culta que o incentivou à leitura do Fausto de Goethe na adolescência.

A infância foi vivida no campo, em contato com a natureza e entre os livros da silenciosa biblioteca de seu pai, onde leu textos de filosofia e teologia.

Quando chegou à Universidade de Basiléia para estudar medicina, Jung detinha razoável conhecimento de filosofia, nutrindo especial interesse pelas idéias de Kant e Goethe. O seu entusiasmo filosófico levá-lo-ia, ainda, às idéias de  Schopenhauer e às  de Nietzsche, que exerceriam significativa influência na construção  de sua teoria psicológica.

Concluído o curso de medicina, Jung dedicou-se à psiquiatria, como assistente do professor Eugene Bleuler no Burgholzi Psychiatric Hospital, da Universidade de Zurich, interessando-se preponderamente pela esquizofrenia.

O contato com a obra de Freud ocorreu através do livro A interpretação dos sonhos, cuja leitura por Jung deu-se em dois momentos. No primeiro, a obra não lhe causou impacto nem despertou interesse. Em segunda leitura,  percebeu a extensão e a  profundidade com que Freud tratou a questão dos sonhos. Essa leitura aproximou os dois maiores estudiosos do inconsciente numa amizade, fecunda e tumultuada, que durou cerca de sete anos.

Nos primórdios de sua relação com Freud, Jung permaneceu receptivo à teoria da sexualidade infantil. Todavia, ao longo do tempo em que estudou  e praticou a psicanálise freudiana, não conseguiu encontrar, nos seus fundamentos teóricos, elementos que dessem conta dos fenômenos com os quais se defrontava no tratamento de psicóticos, principalmente esquizofrênicos. Nesses pacientes, a doença decorria de grave dissociação da mente, não apresentando traços de uma etiologia sexual.

A partir desse impasse,  Jung desenvolveu  estudos de alquimia, mitos e lendas na busca de elementos que contribuíssem para a elucidação das questões levantadas pela clínica da psicose. Foram principalmente essas questões que o fizeram demandar outras perspectivas de análise, tais como a abordagem simbólica e a hermenêutica. Com o instrumental teórico oferecido por esses métodos, identifica nos mitos, lendas e processos alquímicos a estrutura e a dinâmica psíquica por ele encontrados na clínica da psicose.

A partir dessa constatação, são fundados os pilares em cima dos quais Jung afirma que essa estrutura, enquanto forma, seria um componente da psique, presente em todos os indivíduos desde o nascimento, chegando então à sua hipótese mais refinada – a da existência de um substrato desconhecido na mente humana, responsável pelo lado obscuro da psique, que ele denominou de inconsciente coletivo que configura a dimensão objetiva da psique e contém o aprendizado resultante da experiência humana em todos os tempos, herdado pelo indivíduo como disposições ou virtualidades psíquicas.

O inconsciente coletivo, dotado de propósito ou intencionalidade, cuja força energética repousa em elementos primordiais ou arcaicos denominados arquétipos,  é determinante dos fatos psíquicos.  Jung considera que é a psique coletiva, no seu embate com o ambiente externo e suas exigências, que gera o que ele denominou de inconsciente pessoal, e não as vicissitudes da pulsão como postula a teoria freudiana.

Galileu, ao abandonar o finalismo e quaisquer considerações qualitativas no exame da realidade, marcou o início da ciência moderna: a física passa a apoiar-se exclusivamente em relações quantitativas e mensuráveis. Esse modelo,  influenciado pelo racionalismo cartesiano,  consolida-se com Isaac Newton, cujo método de investigação centra-se nas relações de movimento, base de quaisquer fenômenos encontrados na natureza.

A mecânica newtoniana vê o espaço e o tempo como entidades dotadas de grandeza absoluta. As relações de movimento existentes num universo dominado pelo espaço e pelo tempo constituem os pilares da física, paradigma da ciência moderna,  modelo que foi extrapolado para as ciências biológicas, humanas e sociais.

Na procura de respostas fora do quadro teórico da ciência moderna, Jung contrapõe-se ao  modelo científico dominante, buscando sustentação teórica na perspectiva finalista, abolida da ciência desde Galileu e, desse modo, expõe-se à crítica da comunidade científica, diante da qual tem o seu status de pesquisador questionado, sendo-lhe atribuída atitude mística na condução dos estudos psicológicos.

Adotando postura empirista, Jung encaminha-se para uma abordagem fenomenológica do fato psíquico, com sustentação no método hermenêutico.  Wilhelm Dilthey, filósofo neokantiano, que se preocupou fundamentalmente com as diferenças entre a metodologia das ciências naturais e a dos estudos humanos, aponta esse método como o mais adequado para as ciências humanas. A hermenêutica é a ciência da compreensão e da interpretação que  constituem a especificidade das ciências do espírito.

Como a dimensão inconsciente da psique é inacessível a um exame direto, o modo possível de investigação da realidade psíquica estaria fundado no exame e na interpretação dos seus produtos. Freud e Jung usam, ambos, o método interpretativo como caminho de aproximação da realidade psíquica. Na perspectiva freudiana essa interpretação é analítica, causal e reducionista. Enquanto do ponto de vista junguiano é amplificadora, finalista, prospectiva e sintética.

O fato de Jung ter-se definido pelo finalismo não significa que tenha assumido algum tipo de irracionalidade em seu trabalho científico. O seu racionalismo não é de ordem cartesiana, mas sustenta-se na estrutura interpretativa, com metodologia fenomenológica. No corpo de sua obra, encontram-se referências em que ele  opõe-se à interpretação metafísica ou sobrenatural da realidade psíquica, argumentando que o dado  empírico ou fenomenológico é o único que conta e que pode ser examinado pelo estudioso da psicologia humana.

J.J. Clarke diz que Jung estaria mais à vontade no ambiente científico contemporâneo, que parece romper com a linearidade do modelo newtoniano. De fato, o  paradigma emergente sinaliza que a realidade escapa ao enquadramento linear, causal e mecanicista  proposto pela ciência moderna.

Para Jung a ciência é projeção psíquica dos cientistas e os modelos teóricos aproximações e não retratos fiéis da realidade. Nessa perspectiva, o conhecimento científico está mais perto de uma metáfora por meio da qual o mundo é interpretado que de um conjunto de dados articulados enunciadores de uma verdade confirmada. Para ele, cada teoria, como criação da mente, está subordinada à  interioridade do cientista que a formulou,  cuja realidade psíquica é projetada no mundo exterior na forma de teoria científica. Jung via a ciência como um mito destinado a explicar o universo cuja natureza íntima, para ele, permaneceria para sempre incognoscível.   Essa visão é um dos pilares em que se assenta o quadro epistemológico do modelo científico emergente.

O ENCONTRO COM FREUD

Em 1902 deslocou-se a Paris onde estudou com Pierre Janet, regressando no ano seguinte ao hospital de Burgholzli onde assumiu um cargo de chefia e onde, em 1904, montou um laboratório experimental em que implementou o seu célebre teste de associação de palavras para o diagnóstico psiquiátrico. Neste interim, Jung entra em contato com as obras deSigmund Freud (1856-1939). Jung viu em Freud um companheiro para desbravar os caminhos da mente. Enviou-lhe copias de seus trabalhos sobre a existência do inconsciente, confirmando concepções freudianas de recalque e repressão. Ambos encantaram-se um com o outro, principalmente porque os dois desenvolviam trabalhos inéditos em medicina e psiquiatria.

A partir de então Freud e Jung passaram a se corresponder (359 cartas que posteriormente foram publicadas entre 1906 a 1913). O primeiro encontro entre eles, em 27 de fevereiro de 1907, transformou-se numa conversa que durou treze horas ininterruptas. Depois deste encontro estabeleceram uma amizade de aproximadamente sete anos, durante a qual trocavam informações sobre seus sonhos, análises, trocavam confidências, discutiam casos clínicos.

Porém, tamanha identidade de pensamentos e amizade não conseguia esconder algumas diferenças fundamentais. Jung jamais conseguiu aceitar a insistência de Freud de que as causas dos conflitos psíquicos sempre envolveriam algum trauma de natureza sexual, e Freud não admitia o interesse de Jung pelos fenômenos espirituais como fontes válidas de estudo em si. O rompimento entre eles foi inevitável.

O ROMPIMENTO COM FREUD

Após a separação de Freud, Jung sentiu o chão desmoronar-se sob os pés. O sentido da sua vida ficou em primeiro plano. Seguiu-se uma série de sonhos e visões que forneceram material para o trabalho de toda uma vida. Dir-se-ia que se ele não houvesse se empenhado na integração de todo aquele material que jorrou qual lava derretida, teria fatalmente sucumbido a uma psicose. Mas algo nele o impelia a ir adiante na compreensão de tudo o que se originava naturalmente de seu inconsciente. Em suas palavras, “Os anos durante os quais me detive nessas imagens interiores constituíram a época mais importante da minha vida e neles todas as coisas essenciais se decidiram. (…) Toda a minha atividade ulterior consistiu em elaborar o que jorrava do inconsciente naqueles anos (…)”.

Foi durante essa fase de confronto com o inconsciente que ele desenvolveu o que chamou de “imaginação ativa”, um método de interação com o inconsciente onde este se investe espontaneamente de várias personificações (pessoas conhecidas e desconhecidas, animais, plantas, lugares, acontecimentos, etc.). Na imaginação ativa interagimos ativamente com elas, isto é, discordando, quando for o caso, opinando, questionando e até tomando providências com relação ao que é tratado, isso tudo pela imaginação. Ela difere da fantasia passiva porque nesta não atuamos no quadro mental, de forma a participarmos do drama vivenciado, mas apenas nos contentamos em assistir o desenrolar do roteiro desconhecido. Pela imaginação ativa existe não só a possibilidade de compreensão do inconsciente, mas também de interação com este, de forma que o transformamos e somos transformados no processo. Um personagem pode nos fazer entender falando explicitamente do motivo de, por exemplo, estarmos com insônia. Esse enfoque trata a psique como uma realidade em si, de forma tão literal interiormente, quanto uma maçã nos é real exteriormente, ao contrário de Freud que insistia em substituir uma determinada imagem por outra de cunho sexual.

JUNG E O NAZISMO

Carl Jung, que alguns acham ter sido um simpatizante nazista, assumiu em 1933, ano da chegada ao poder de Adolf Hitler, a presidência da “Sociedade Médica Internacional Geral para a Psicoterapia”, que contou como administrador, entre outros, um sobrinho de Hermann Göring. No início de 1934, num artigo “Sobre a situação atual da psicoterapia”, Jung afirma que o Judeu, como nómade, não pode jamais criar a sua cultura própria; para desenvolver os seus instintos e talentos tem de apoiar-se em um “povo anfitrião mais ou menos civilizado”. Carl Jung viria mais tarde a deixar aquela organização.

Sejam examinados os fatos. O presidente da Sociedade era Ernst Kretschmer. Quando Hitler tomou o poder, Kretschmer deixou a presidência e os membros da Sociedade, compreensivelmente alarmados, dado a situação da Alemanha, pediram insistentemente a Jung que aceitasse a presidência. Sua autoridade científica e sua condição de suíço representavam verdadeira tábua de salvação. “Deveria eu, perguntou Jung a seus acusadores, na atitude de neutro prudente retirar-me para a segurança do lado de cá da fronteira e lavar as mãos em inocência, ou deveria segundo estava bem consciente arriscar minha pele e expor-me a inevitáveis mal entendidos, aos quais não poderia escapar todo aquele que, por força de premente necessidade, tivesse de entrar em contato com os poderes políticos existentes na Alemanha”? Jung decidiu correr os riscos que previra. Sob a presidência de Jung, a Sociedade Médica Internacional de Psicoterapia conseguiu realizar dois congressos fora da Alemanha: um, em Copenhague (1937) e outro em Oxford (1938). Decerto esses encontros, noutros países, representaram verdadeiros respiradouros para muitos cientistas alemães (Silveira, 1981).

Jung interpretou o nacional socialismo como fenômeno patológico. Uma irrupção do inconsciente coletivo. “Wotan” havia tomado posse da alma do povo alemão. E quem é Wotan? O deus pagão dos germânicos, “um deus das tempestades e da efervescência, desencadeia paixões e apetites combativos”. Num ensaio publicado em 1936, Jung traça o paralelo entre Wotan redivivo e o fenômeno nazista. Wotan é uma personificação de forças psíquicas corresponde a “uma qualidade, um caráter fundamental da alma alemã, um “fator” psíquico de natureza irracional, um ciclone que anula e varre para longe a zona calma onde reina a cultura”. Os fatores econômicos e políticos pareceram a Jung insuficientes para explicar todos os espantosos fenômenos que estavam ocorrendo na Alemanha. Wotan reativado no fundo do inconsciente, Wotan invasor, seria explicação mais pertinente. E estávamos apenas em 1936.

O argumento decisivo é, porém, a atitude dos nazistas em relação a Jung. Com o aparecimento do livro PSICOLOGIA e RELIGIÃO, 1940, as autoridades decidiram que toda a sua obra fosse interditada e queimada na Alemanha, bem como nos países ocupados por Hitler.

Outra acusação correlata com a de simpatizante do nazismo, foi a de anti-semita. Seria desde logo estranho admitir que um psicólogo, toda sua vida em busca do fundo psíquico comum a todos os homens (inconsciente coletivo), eternamente existente sob as diferentes peculiaridades individuais, locais, nacionais, raciais,

históricas, fosse partidário de discriminações entre esses mesmos homens cuja alma tinha para ele igual estrutura básica. Seria também extravagante que um anti-semita contasse entre seus discípulos mais próximos precisamente homens de origem semita. Basta lembrar alguns nomes. Erich Neumann, judeu alemão. Chefiava o grupo jungueano em Tel Aviv, Israel, onde morreu em 1960, Seus livros são originais aplicações da psicologia jungueana.

AS ORIGENS E A HISTÓRIA DA CONSCIÊNCIA

Sua obra principal, é prefaciada por Jung. Gerhard Adler, judeu alemão, refugiado do nazismo, um dos mais destacados elementos do grupo jungueano na Inglaterra, co-editor das obras completas de Jung. Adler define esses ataques a Jung como devidos a “completa ignorância ou, pior, a maldade intencional”. Roland Cahen, francês de origem semita, é quem chefia a escola jungueana na França e dirige a publicação das obras de Jung em língua francesa. (cf: Silveira, 1981)

JUNG E SUA OBRA

Em 1921, publicou outra de suas principais obras: “Tipos Psicológicos”. Nesta obra, ele abordou a relação entre o consciente e o inconsciente propondo a diferenciação de tipos de personalidade: extrovertida-introvertida.
Por último, fez uma diferenciação entre o inconsciente individual e o inconsciente coletivo, que, segundo ele, possuía sentimentos, pensamentos e recordações que condicionavam cada sujeito (desde seu nascimento), inclusive, em sua forma de simbolizar os sonhos.
O inconsciente coletivo contém arquétipos, imagens primitivas, primordiais, as quais se recorrem em situações como a confrontação com a morte, ou na escolha de um parceiro, ou, ainda, na manifestação de elementos culturais como a religião, os mitos e lendas populares.
O enfoque terapêutico de Jung se dirigia a reconciliar os distintos estados da personalidade, que não está somente dividia em introversão e extroversão, mas, em sensações e intuição, em sentimento e pensamento. A partir do momento em que compreende como ocorre a integração do inconsciente pessoal com o coletivo, o paciente alcançará um estado de individualização, ou seja, a totalidade em si mesmo.
Jung escreveu várias obras, especialmente sobre os métodos analíticos e as relações entre psicoterapia e crenças religiosas. Faleceu em 1961, em Kusnacht, Suíça.

Obras:

Devido à metodologia usada por Jung, seus escritos costumam ser de leitura difícil e penosa. É recomendável iniciar por algum de seus comentadores, como Nise da Silveira (Jung: vida e obra) e Aniela Jaffe (Memórias, sonhos e reflexões de C. C. Jung). Sobre este, um comentário.

Lista das obras de Jung, em português no Brasil:

A Energia Psíquica.

A Prática da Psicoterapia.

A Vida Simbólica: Escritos Diversos.

Ab-reação, análise dos sonhos, transferência.

Aion: Estudos sobre o Simbolismo do Si-mesmo.

Cartas de Carl Gustav Jung.

Consideraciones Sobre la Historia Actual (ainda não traduzido para língua portuguesa).

Escritos Diversos.

Estudos Alquímicos.

Estudos Experimentais Vol. II.

Estudos Experimentais.

Estudos Psiquiátricos.

Eu e o Inconsciente.

Freud e a Psicanálise.

Interpretação Psicológica do Dogma da Trindade.

Memórias, Sonhos e Reflexões. Autobiografia escrita em conjunto com Aniela Jaffé.

Misterium Coniunctionis 1.

Misterium Coniunctionis 2.

Misterium Coniunctionis 3.

O Desenvolvimento da Personalidade.

O Homem e seus Símbolos. Obra para leigos, organizada por Jung e escrita por ele e seus colaboradores, com artigos de Aniella Jaffé, Marie-Louise fon Franz e outros.

O Segredo da Flor de Ouro: Um Livro de Vida Chinesa.

Os Arquétipos e o Inconsciente Coletivo.

Presente e Futuro.

Psicologia da Religião Ocidental e Oriental.

Psicologia do Inconsciente.

Psicologia e Alquimia.

Psicologia e Religião Oriental.

Psicologia e Religião.

Símbolo da Transformação na Missa.

Símbolos da Transformação: Análise dos Prelúdios de uma Esquizofrenia.

Sincronicidade.

Tipos Psicológicos.

A natureza da psique.

Algumas das Frases ditas por Jung:

“Só aquilo que somos realmente tem o verdadeiro poder de curar-nos.”
“Não descobrimos num doente mental nada de desconhecido ou novo. Encontramos neste doente as bases de nossa própria natureza.”
“Acredito que alguma parte do Eu ou da alma não está sujeita as leis do espaço e do tempo.”
“Quem olha para fora, sonha e quem olha para dentro, acorda.”

Últimos dias:

Carl Gustav Jung morreu a 6 de junho de 1961, aos 86 anos, em sua casa, nas margens do lago de Zurique, em Küsnacht após uma longa vida produtiva, que marcou – e tudo leva a crer que ainda marcará mais – a Antropologia, a Sociologia e a Psicologia, e também, em outros campos como a Arte, a Literatura e a Mitologia.

A psicologia analítica:

Anterior mesmo ao período em que estavam juntos, Jung começou a desenvolver uma sistema teórico que chamou, originalmente, de “Psicologia dos Complexos”, mais tarde chamando-a de “Psicologia Analítica”, como resultado direto de seu contato prático com seus pacientes. O conceito de inconsciente já está bem sedimentado na sólida base psiquiátrica de Jung antes de seu contato pessoal com Freud, mas foi com Freud, real formulador do conceito em termos clínicos, que Jung pôde se basear para aprofundar seus próprios estudos. O contato entre os dois homens foi extremamente rico para ambos, durante o período de parceria entre eles. Aliás, foi Jung quem cunhou o termo e a noção básica de “complexo”, que foi adotado por Freud.

Utilizando-se do conceito de “complexos” e do estudo dos sonhos e de desenhos, Jung passou a se dedicar profundamente aos meios pelos quais se expressa o inconsciente. Em sua teoria, enquanto o inconsciente pessoal consiste fundamentalmente de material reprimido e de complexos, o inconsciente coletivo é composto fundamentalmente de uma tendência para sensibilizar-se com certas imagens, ou melhor, símbolos que constelam sentimentos profundos de apelo universal, os arquétipos: da mesma forma que animais e homens parecem possuir atitudes inatas, chamadas de instintos (“fato” este negado por correntes de ciências humanas, como por exemplo em antropologia o culturalismo de Franz Boas ), também é provável que em nosso psiquismo exista um material psíquico com alguma analogia com os instintos.

Os tipos psicológicos:

Jung sentia que a ênfase da psicanálise nos fatores eróticos era um ponto de vista unilateral, uma visão reducionista da motivação humana e do seu comportamento. Ele propôs que a motivação do homem fosse entendida em termos de uma energia de vida criativa geral – a libido – capaz de ser investida em direções diferentes, assumindo grande variedade de formas. A libido corresponderia ao conceito de energia adotado na Física, a qual pode ser interpretada em termos de calor, eletricidade, motricidade, etc. As duas direções principais da libido são conhecidas como extroversão (projetada no mundo exterior, nas outras pessoas e objetos) e introversão (dirigida para dentro do reino das imagens, das idéias, e do inconsciente). As pessoas em quem a primeira tendência direcional predomina são chamadas extrovertidas, e introvertidas aquelas em quem a segunda direção é mais forte.

A sua necessidade em criar uma tipologia psíquica decorreu da questão que nasceu em seu interior acerca de sua divergência com Freud e até com outros profissionais. Ele poderia, assim, ter perguntado: “Por que divirjo de Freud?”.

A resposta tomou forma na análise que fez das teorias psicológicas de seu mestre e de Adler, também um ex-discípulo de Freud. Para este as neuroses derivavam de problemas com os instintos, para o outro do próprio ego, no seu sentimento de superioridade ou inferioridade. Um, portanto, extrovertido, e o outro introvertido. Jung também propôs que se poderia agrupar as pessoas de acordo com o seu maior desenvolvimento em uma das quatro funções psicológicas: pensamento, sentimento, sensação, ou intuição. Transformações de libido de uma esfera de expressão para outra – por exemplo, de sexualidade para religião – são realizadas por símbolos que são gerados durante a mudança de personalidade.

A psicologia junguiana também merece outro destaque: o processo de individuação. Conforme Nise da Silveira (2006) todo ser tende a realizar o que existe nele, em germe, a crescer, a completar-se. Assim é para a semente do vegetal e para o embrião do animal. Assim é para o homem, embora o desenvolvimento de suas potencialidades seja impulsinado por forças instintivas inconscientes, isso adquire um caráter peculiar: o homem é capaz de tomar consciência desse desenvolvimento e de influenciá-lo. Precisamente no confronto do inconsciente com o consciente, no conflito como na colaboração entre ambos é que os diversos componentes da personalidade amadurecem e unem-se numa síntese, na realização de um indivíduo específico e inteiro. Essa confrontação “é o velho jogo do martelo e da bigorna: entre os dois, o homem, como o ferro, é forjado num todo indestrutível, num indivíduo. Isso, em termos toscos, é o que eu entendo por processo de individuação” (Jung).

O processo de individuação não consiste num desenvolvimento linear. É um movimento de circunvolução que conduz a um novo centro psíquico. Jung denominou esse centro de Self (si mesmo – superego). Quando consciente e inconsciente vêm ordenar-se em torno do Self, a personalidade completa-se. O Self será o centro da personalidade total, como o ego é o centro do campo do consciente. O conceito junguiano de individuação tem sido muitas vezes deturpado. Entretanto é claro e simples na sua essência: tendência instintiva a realizar plenamente potencialidades inatas. Mas, de fato, a psique humana é tão complexa, são de tal modo intricados os componentes em jogo, tão variáveis as intervenções do ego consciente, tantas as vicissitudes que podem ocorrer, que o processo de totalização da personalidade não poderia jamais ser um caminho reto e curto de chão bem batido. Ao contrário, será um percurso longo e difícil.

A psique objetiva

Jung percebeu que a compreensão da criação de símbolos era crucial para o entendimento da natureza humana. Ele então explorou as correspondências entre os símbolos que surgem nas lutas da vida dos indivíduos e as imagens simbólicas religiosas subjacentes, sistemas mitológicos, e mágicos de muitas culturas e eras. Graças à forte impressão que lhe causou as muitas notáveis semelhanças dos símbolos, apesar de sua origem independente nas pessoas e nas culturas (muitos sonhos e desenhos de seus pacientes de variadas nacionalidades exprimiam temas mitológicos longínquos), foi que ele sugeriu a existência de duas camadas da psique inconsciente: a pessoal e a coletiva. O inconsciente pessoal inclui conteúdos mentais adquiridos durante a vida do indivíduo que foram esquecidos ou reprimidos, enquanto que o inconsciente coletivo é uma estrutura herdada comum a toda a humanidade composta dos arquétipos – predisposições inatas para experimentar e simbolizar situações humanas universais de diferentes maneiras. Há arquétipos que correspondem a várias situações, tais como as relações com os pais, o casamento, o nascimento dos filhos, o confronto com a morte. Uma elaboração altamente derivada destes arquétipos povoa todos os grandes sistemas mitológicos e religiosos do mundo.

Na qualidade de cientista altamente desapegado e desconfiado do favorecimento que se dá a certas verdades, para ele materialismo e ciência não eram sinônimos. O materialismo não passa o culto a um deus exteriormente concreto por meio da razão, um tipo de fé nos princípios limitadores das leis físicas. “A razão nos impõe limites muito estreitos e apenas nos convida a viver o conhecido”. Para sermos realmente justos, convém recebermos igualmente os aspectos racionais e irracionais da vida.

Perto do fim da vida Jung também sugeriu que as camadas mais profundas do inconsciente independem das leis de espaço, tempo e causalidade, dando lugar aos fenômenos paranormais como a clarividência e a precognição. A estas correspondências entre acontecimentos interiores e exteriores, por meio de um significado comum, ele deu o nome de sincronicidade. Muitos fatos ocorridos enquanto tratava seus clientes o fizeram crer que os acontecimentos se dispunham “de tal modo, como se fossem o sonho de uma ‘consciência maior e mais abrangente, por nós desconhecida'” (Obras Completas Vol. VIII, p. 450).

Sincronicidade

Esse termo é uma tentativa de encontrar formas de explicação racional para fenômenos que a ciência de então não alcançava, tais como os referidos acima, fenômenos não causais que não podem ser explicados pela razão, porém são significativos para o indivíduo que os experimenta. Para uma abordagem sobre a construção do conceito veja-se Capriotti, Letícia. Jung e sincronicidade: a construção do conceito. Para uma explanação sintética e didática de sincronicidade, veja-se Capriotti, Letícia. Jung e sincronicidade: o conceito e suas armadilhas.

A construção do conceito de sincronicidade surgiu da leitura que Jung fez de um grande número de obras sobre alquimia e o pensamento renascentista. Jung chegou a possuir grande quantidade de textos alquímicos originais, que o levaram também a usar a expressão Unus Mundus em sua autobiografia, e a idéia de Anima Mundi.

Uma interessante análise da contribuição da psicologia profunda de Freud – Jung para a formação do pensamento ocidental, mostrando como Jung tinha preocupações epistemológicas rigorosas pode ser vista em Tarnas. Em função disso, tais fenômenos puderam ser examinados, mas apenas como algo psicológico, e não propriamente da natureza, resultando em algumas distorções interpretativas, em inúmeros sentidos.

A partir da contribuição de Jung, vários desenvolvimentos em diferentes áreas do conhecimento têm ampliado a compreensão da relação entre os processo psíquicos e o mundo exterior. O conceito de inconsciente coletivo encontra ecos na nova física de Bohm e Capra, nos campos morfogenéticos de Sheldrake, nas psicologia profunda e na ecopsicologia norte-americanas.

Museu Imagens do inconsciente

No Brasil, Jung teve uma conhecida aluna, a Dra. Nise da Silveira, fundadora do Museu de Imagens do Inconsciente. Ela escreveu, dentre outros, o livro “Jung: vida e obra”, publicado em primeira edição em 1968.

Jung – Uma resposta ao nosso tempo

Na terapia junguiana, que explora extensivamente os sonhos e fantasias, um diálogo é estabelecido entre a mente consciente e os conteúdos do inconsciente. A doença psíquica é tida como uma conseqüência da separação rígida entre elas. Os pacientes são orientados a ficarem atentos aos significados pessoal e coletivo (arquétipo) inerente aos seus sintomas e dificuldades. Sob condições favoráveis eles poderão ingressar no processo de individuação: uma longa série de transformações psicológicas que culminam na integração de tendências e funções opostas, e na realização da totalidade. Jung trilhou a individuação, pois havia a necessidade imperiosa nele de ir ao inferno e voltar para poder mostrar o caminho da volta àqueles que ficaram perdidos pelo caminho da vida. Tornou-se ele uma resposta sincera e corajosa ao nosso tempo. “Sou eu próprio uma questão colocada ao mundo e devo fornecer minha resposta; caso contrário, estarei reduzido à resposta que o mundo me der”.

Frases de Carl Jung

Erros são, no final das contas, fundamentos da verdade. Se um homem não sabe o que uma coisa é, já é um avanço do conhecimento saber o que ela não é.Onde o amor impera, não há desejo de poder; e onde o poder predomina, há falta de amor. Um é a sombra do outro.Todos nós nascemos originais e morremos cópias.Quem olha para fora sonha, quem olha para dentro desperta.

Uns sapatos que ficam bem numa pessoa são pequenos para uma outra; não existe uma receita para a vida que sirva para todos.

O ego é dotado de um poder, de uma força criativa, conquista tardia da humanidade, a que chamamos vontade.

Os sonhos são as manifestações não falsificadas da atividade criativa inconsciente.

O encontro de duas personalidades assemelha-se ao contato de duas substâncias químicas: se alguma reação ocorre, ambos sofrem uma transformação.

Aquilo a que você resiste, persiste.

Tudo depende de como vemos as coisas e não de como elas são.

Sua visão se tornará clara somente quando você olhar para dentro do seu coração.

Sonhos são realizações de desejos ocultos e são ferramenta que busca equilíbrio pela compensação. É o meio de comunicação do inconsciente com o consciente.

Nós precisamos entender melhor a natureza humana, porque o único perigo real que realmente existe é o próprio homem.

A criação de algo novo é consumado pelo intelecto, mas despertado pelo instinto de uma necessidade pessoal. A mente criativa age sobre algo que ela ama.

Há quem diga que são os sonhos dos homens que sustentam o mundo na sua órbita.

O homem que não atravessa o inferno de suas paixões também não as supera.

Conheça todas as teorias, domine todas as técnicas, mas ao tocar uma alma humana, seja apenas outra alma humana.

O sofrimento precisa ser superado, e o único meio de superá-lo é suportando-o.

Ser normal é a meta dos fracassados!

Só aquilo que somos realmente tem o poder de curar-nos.

Aquilo que na vida tem sentido, mesmo sendo qualquer coisa de mínimo, prima sobre algo de grande, porém isento de sentido.

Tudo aquilo que não enfrentamos em vida acaba se tornando o nosso destino.

Onde acaba o amor tem início o poder, a violência e o terror.

Que insensato eu fui! Como me esforcei para forçar todas as coisas a harmonizarem-se com o que eu pensava que devia ser…
Até onde conseguimos discernir, o único propósito da existência humana é acender uma luz na escuridão da mera existência.

Toda a gente tem o seu lado obscuro que – desde que tudo corra bem – é preferível não conhecer.

Dentro de cada um de nós há um outro que não conhecemos. Ele fala conosco por meio dos sonhos.

Não preciso ‘acreditar’ em Deus; eu sei que ele existe.
A felicidade perderia seu significado se ela não fosse equilibrada pela tristeza.

Quando pensamos, fazêmo-lo com o fim de julgar ou chegar a uma conclusão; quando sentimos, é para atribuir um valor pessoal a qualquer coisa que fazemos.

Carl Gustav Jung faleceu em 06 de junho de 1961. Criador da psicologia analítica e reconhecido como um dos sábios do século deixou significativas contribuições científicas para o estudo e compreensão da alma humana. Sua obra reflete profundo interesse pelas questões espirituais, enquanto fenômenos psíquicos.
REFERÊNCIA BIBLIOGRÁFICA
(1)  EM BUSCA DE JUNG  –  J. J. Clarke
Rio de Janeiro: Ediouro, 1993 – p. 45

As manifestações religiosas e simbólicas que cercavam Carl Gustav Jung, filho de um pastor protestante, sempre lhe chamaram a atenção. Foi através de uma observação cuidadosa e atenta da análise destas representações na mente humana que ele pôde reconhecer como conteúdos arquetípicos da alma as manifestações coletivas que embasam as mais diversas religiões.
Agnóstico pela metafísica e gnóstico pela experiência, Jung via a religiosidade como uma função natural e inerente à psique. Chegava a considerá-la, como aponta Silveira (1994), um instinto, um fenômeno genuíno. A religião era vista mais como uma atitude da mente do que qualquer credo, sendo este uma forma codificada da experiência religiosa original.

“Encaro a religião como uma atitude do espírito humano, atitude que de acordo com o emprego originário do termo: “religio”, poderíamos qualificar a modo de uma consideração e observação cuidadosas de certos fatores dinâmicos concebidos como “potências”: espíritos, demônios, deuses, leis, idéias, ideais, ou qualquer outra denominação dada pelo homem a tais fatores; dentro de seu mundo próprio a experiência ter-lhe-ia mostrado suficientemente poderosos, perigosos ou mesmo úteis, para merecerem respeitosa consideração, ou suficientemente grandes, belos e racionais, para serem piedosamente adorados e amados.” (Jung, 1995, p.10)
O próprio Jung menciona a importância da religiosidade para o ser humano, ao afirmar (Jung apud. Silveira, 1994):
“Entre todos os meus doentes na segunda metade da vida, isto é, tendo mais de 35 anos, não houve um só cujo problema mais profundo não fosse constituído pela questão de sua atitude religiosa. Todos, em última instância, estavam doentes por ter perdido aquilo que uma religião viva sempre deu em todos os tempos a seus adeptos, e nenhum curou-se realmente sem recobrar a atitude religiosa que lhe fosse própria. Isto, é claro, não depende absolutamente de adesão a um credo particular ou de tornar-se membro de uma igreja.” (pp. 153-154)
Jung considerava todas as religiões válidas, visto que todas recolhem e conservam imagens simbólicas advindas do inconsciente, elaborando-as em seus dogmas e, assim, realizando conexões com as estruturas básicas da vida psíquica. “As organizações ou sistemas são símbolos que capacitam o homem a estabelecer uma posição espiritual que se contrapõe à natureza instintiva original, uma atitude cultural em face da mera instintividade. Esta tem sido a função de todas as religiões.” (Jung, 1997, p. 57)

Jung entendia o termo como religio e religare, ou seja, tornar a ligar. E via a religião exatamente com a função de ligar o consciente a fatores inconscientes importantes. Para Jung, a libido que constrói imagens religiosas, representa o laço que nos liga à nossa origem. Para designar a vivência do contato com tais fatores e a forte emoção descrita pelos que a vivenciam, Jung apropriou-se do termo criado por R. Otto: numinoso. Via, então, a religião como uma observação conscienciosa e acurada do “numinoso”, ou seja, um efeito dinâmico ou existência que domina o ser humano; é independente de sua vontade.

“O termo “religião” nele se subdivide finalmente em duas acepções profundamente diferentes, sem por isso ser irreconciliáveis. De um lado, uma confissão que toma sua origem numa profissão de fé determinada(..) e, de outro lado, uma experiência ou uma série de experiências primordiais, nas quais o homem entra em relação com um sagrado que provoca nele o sentimento do numinoso. No primeiro caso a religião se apresenta como um sistema de representações fixas, um conjunto de símbolos nos quais as significações culturais se sobrepõem às correspondências psíquicas naturais e geralmente as oculta. Ela supõe o fenômeno da crença e o prolonga com um corpo de dogmas; sem impedir a possibilidade de uma relação direta entre o crente e seu deus, ela não a encoraja e se apresenta, por meio de seus ritos e suas liturgias, como mediadora necessária graças à qual o homem encontra o divino.
A segunda definição de religião, no sentido da experiência religiosa anterior a qualquer especificação confessional, com a própria aprovação de Jung, constitui um domínio eletivo para sua psicologia.” (Tardan-Masquelier, 1994, pp.134-135)

Para o gnosticismo1, há uma divisão do indivíduo em corpo, alma e espírito, o que permite classificar os homens em hyléticos, psíquicos e pneumatológicos. Desta forma, Jung acreditava que a grande função da religião era evitar dissociações neuróticas da psique, o que se consegue através do autoconhecimento, do embate entre o Ego e o Self, entre a realidade física e a psíquica. Ele pontuava que a causa de inúmeras neuroses está principalmente no fato de as necessidades religiosas da alma não serem mais levadas a sério, “devido à paixão infantil do entendimento racional. (…) o que importa já não são os dogmas e credos, mas sim toda uma atitude religiosa, que tem uma função psíquica de incalculável alcance.” (Jung, 1999, p. 44) Ou seja, é importante para o homem desenvolver uma atitude religiosa, independente do credo ou do dogma.

Devo ressaltar que Jung utilizava os termos “Deus” ou “divindades” no contexto simbólico, como explica: “Ambos se encontram como tais muito além do alcance humano. Revelam-se a nós como imagens psíquicas, isto é, como símbolos.” (Jung, 2000, p. 296). E as pessoas realizam os ritos porque “No rito estão próximas de Deus; são até mesmo divinas.” (Jung, 1998, p.273)

Visto que o termo símbolo pode ser assumido de diversas maneiras, abro aqui um espaço para definir a acepção que faço do mesmo. “O mecanismo psicológico que transforma a energia é o símbolo, (…) um meio inestimável que nos dá a possibilidade de utilizar o mero fluxo instintivo do processo energético para uma produção efetiva de trabalho” (Jung, 1997, pp. 44- 45).
O simbolismo é expressivo; é um modo de dizer algo impossível de ser dito diretamente. Como o que é simbolizado é, geralmente, um objeto de valor, as atitudes das pessoas perante seus símbolos raramente são neutras; são sempre carregadas afetivamente. Isso ocorre porque há uma tendência a se transferir o valor do que é simbolizado para o símbolo.

O termo símbolo pode ser usado para qualquer ato, objeto, acontecimento, relação ou qualidade que sirva de vínculo à uma concepção. Trazido pela imaginação, cada um é simbolizado e traduzido. Todo os símbolos são formulações passíveis de noções, de abstrações da experiência fixada em formas perceptíveis, em incorporações concretas de atitudes, crenças, julgamentos ou idéias.

“Sob a forma abstrata, os símbolos são idéias religiosas; sob a forma de ação, são ritos ou cerimônias. São manifestações e expressões do excedente da libido. Constituem, ao mesmo tempo, degraus que levam a novas atividades que, especificamente, devemos chamar culturais, para distingui-las das funções instintivas que seguem seu curso regular, de acordo com as leis da natureza.” (Jung, 1997, pp. 45-46).
Jung afirmava que um símbolo religioso pertence à linguagem das religiões. São símbolos envoltos em dogmas e rituais fortemente organizados. Designam conteúdos dogmáticos e fenômenos religiosos. As principais figuras simbólicas de uma religião constituem sempre a expressão da atitude moral e espiritual específica que lhe são inerentes. A percepção de uma figura religiosa pelos sentidos, apóia a transferência da libido para o símbolo.

No caso dos primitivos, a formação de uma religião ou a formação dos símbolos é de seu interesse e tão importante quanto a satisfação dos instintos. O caminho para um posterior desenvolvimento e fuga do estado de redução é a formação de uma religião de caráter individual. As idéias mais primitivas referentes a uma potência mágica que pode ser considerada ao mesmo tempo como força objetiva e estado subjetivo de intensidade demonstram como os inícios da formação dos símbolos se acham intimamente ligados ao conceito de energia.

O símbolo reativa a imaginação, através da “função teofânica”, da imaginação simbólica, que se dá por uma experiência simbólica vivida no numinoso. Pitta & Mello citam Durand, que define símbolo como “uma representação que faz aparecer um sentido secreto,… a epifania de um mistério” (1995, p.105).

Os símbolos possuem as características culturais de arquétipos universais e são, cada um, produtos únicos da experiência de grupos específicos com suas sensibilidades próprias. Como fenômeno, importa na religião que a consideremos em si mesma, naquilo que contém de irredutível e original. Para que seja possível tal apreensão é que necessitamos dos símbolos.

A imaginação simbólica está na base de diversas vertentes do sócio-cultural, inclusive da religião (Pitta & Mello, 1995, p.106), visto que a utilização e apreensão das formas simbólicas são acontecimentos sociais como quaisquer outros.

Geertz afirma que os símbolos sagrados funcionam para sintetizar o “ethos” de um povo “o tom, o caráter, e a qualidade da sua vida, seu estilo e disposições morais e estéticos e sua visão de mundo; o quadro que fazem do que são as coisas na sua simples atualidade, suas idéias mais simples sobre ordem” (1989, p. 104).

O ethos torna-se intelectualmente razoável por representar um tipo de vida idealmente adaptado ao estado de coisas atual que a visão de mundo descreve enquanto torna-se emocionalmente convincente por ser apresentada como a imagem de um estado verdadeiro. Isso gera dois efeitos que envolvem moral e estética: objetivam preferências retratando-as como condições de vida impostas e invocam sentimentos vividos profundamente como provas experimentais da verdade. Os símbolos religiosos unificam um estilo de vida particular e uma metafísica específica.

O homem depende grandemente dos símbolos e dos sistemas simbólicos, a ponto de torná-los decisivos para sua viabilidade como criatura. Qualquer indício de que não somos capazes de enfrentar um ou outro aspecto da experiência provoca em nós grande ansiedade, pois o homem não sabe enfrentar o caos.

Geertz cita James, para quem acreditamos em tudo e acreditaríamos mais, se pudéssemos. O que menos somos capazes de tolerar são ameaças a nossos poderes de concepção, a quaisquer idéias de que nossa capacidade de criar, apreender e utilizar os símbolos possa falhar, pois assim estaríamos perdidos (1989, p. 113).

Antes de discorrer sobre a visão junguiana sobre a religião, devo esclarecer também um pouco da teoria do autor sobre a psique; sua estrutura e funcionamento. Assim, ficará de mais fácil compreensão ao leitor não especializado os termos e mecanismos aqui referidos.

Para Jung, a psique seria formada por vários sistema distintos, interatuantes, sendo os principais o Ego, o Self (ou Si-mesmo), o inconsciente pessoal e seus complexos, o inconsciente coletivo e seus arquétipos (entre outros a persona, a anima, o animus e a sombra). Além destes sistemas interdependentes, existiriam ainda as atitudes de introversão e extroversão e as funções de pensamento, sentimento, sensação e intuição.

A psique seria um sistema de energias parcialmente fechado, onde a energia de fontes externas deveria ser acrescentada ao sistema. Os estímulos ambientais também produziriam mudanças na distribuição da energia interna do sistema. O fato da dinâmica da personalidade estar sujeita a influências e modificações de fontes externas significa que a personalidade não é capaz de atingir um perfeito estado de estabilização, o qual só seria possível se ela fosse um sistema completamente fechado, sendo, portanto, um estado ideal.

Jung acreditava que, quanto mais profundas fossem as camadas da psique, mais perderiam sua originalidade individual. “Quanto mais profundas, mais coletivas se tornam, e acabam por universalizar-se e extinguir-se na materialidade do corpo, isto é, nos corpos químicos. O carbono do corpo humano é simplesmente carbono; no mais profundo de si mesma, a psique é o universo.” (Jung, 1975 – p.355).

Segundo Jung, “nossa consciência não se cria a si mesma, mas emana de profundezas desconhecidas. Na infância, desperta gradualmente e, ao longo da vida, desperta cada manhã, saindo das profundezas do sono, de um estado de inconsciência. É como uma criança nascendo diariamente do seio materno”. (ibid. p.353). As profundezas mencionadas por ele residiriam em cada ser e suas dimensões seriam incalculáveis: o inconsciente. Logo, seriam dois os níveis de estruturas psíquicas que formam o psiquismo: o consciente e o inconsciente.

Para Jung, a consciência seria um fenômeno intermitente, produto da percepção e orientação no mundo externo, surgindo quando se percebe que se “é”. Ela cobriria o inconsciente e dele brotaria. Ele afirmava que, teoricamente, seria impossível fixar limites para a consciência, visto que ela poderia estender-se indefinidamente, mas, empiricamente, ela encontraria seus limites quando atinge o desconhecido. Desconhecido este que se dividiria em dois grupos: os exteriores e os interiores, que seriam o objeto da experiência imediata. Aos últimos chamou inconsciente.

Jung foi o primeiro a estabelecer que consciente e inconsciente existiriam em um profundo estado de interdependência recíproca, sendo impossível o bem-estar de um sem o bem-estar do outro. Ao diminuir ou danificar a conexão entre esses dois estados, o homem adoeceria e sua vida ficaria despojada de significação. “Se o fluxo entre um estado e outro for interrompido por muito tempo, o espírito e a vida humana na Terra serão remergulhados no caos e na velha noite”. (1993, p.15). Assim, para ele, a consciência não seria simplesmente um estado de espírito intelectual e racional ou da mente, nem dependeria somente da capacidade do homem para a articulação. Ele concluiu que a consciência não seria apenas um processo racional e que o homem estaria errado ao acreditar que ela e os poderes da razão fossem a mesma coisa.

A consciência seria, então, o sonho permanente e mais profundo do inconsciente, que luta sempre por lograr uma consciência cada vez maior, chamada por Jung de “percepção”. Essa “percepção” incluiria toda a sorte de formas não-racionais de conhecimento e percepção, bastante preciosas por serem as pontes no meio da inesgotável riqueza do significado ainda não compreendido do inconsciente coletivo, que estaria sempre disposto a expandir a consciência do homem para as necessidades que se apresentassem. Ou seja, a consciência se renovaria e ampliaria conforme a vida assim o exigisse, através de suas linhas (não-racionais) de comunicação com o inconsciente coletivo.

Jung acreditava que os processos inconscientes compensadores do eu consciente continham todos os elementos que a psique necessita para se auto-regular como um todo. Para ele, porém, o inconsciente encerraria possibilidades inacessíveis ao consciente, já que nele se encontrariam os conteúdos subliminais de tudo que foi esquecido ou passou despercebido, além de tudo o que depositou-se em suas estruturas arquetípicas durante milênios.

Jung concebia o inconsciente como que constituído de duas camadas: uma pessoal e outra coletiva. O inconsciente pessoal se constituiria por conteúdos individuais mais ou menos únicos, que não se repetiriam, e seriam formados pelas camadas mais superficiais do inconsciente, que abarcaria as lembranças perdidas, reprimidas, as percepções e impressões subliminais e os conteúdos que ainda não amadureceram para a consciência. Mello & Figueiredo (ms. 1995 – p. 10) citam Humbert, segundo o qual,

“o inconsciente pessoal é feito de inconsciente coletivo: resulta do encontro das informações que conduzem o vir-a-ser humano, com as circunstâncias, as particularidades, as escolhas, as hereditariedades, os ambientes, as tradições, enfim, todo o contexto físico e psíquico, social e individual da existência”.

Resumidamente falando, o inconsciente pessoal seria formado, então, por aquisições que resultariam da interação do indivíduo com o ambiente, do que é reprimido e do que é percebido, pensado ou sentido.

A segunda camada do Inconsciente, o coletivo, incluiria estruturas universais que aparecem regularmente. Lá se encontrariam os instintos, complexos e arquétipos. Ele nos revelaria as conexões do indivíduo com o todo. Segundo Jung descreve, “os conteúdos do inconsciente coletivo constituem como que uma condição onipresente, imutável, idêntica a si própria em toda parte.” (1975, p. 355). O inconsciente coletivo seria, então, de natureza distinta, abrangendo em si todos os conteúdos da experiência psíquica humana, sendo, também, neutro, pois seus conteúdos só receberiam determinação de valor depois da confrontação com o consciente. Assim, também, o inconsciente seria objetivo em comparação ao consciente, que seria sempre subjetivo. Ou seja, o inconsciente sempre “diz” claramente, mesmo que através de símbolos, tudo o que deseja “dizer”; é direto. Já o consciente abriga em si valores aos quais “permitiu” acesso do inconsciente, aos quais já determinou um valor e um significado; tudo nele é muito “particular”, muito “pessoal”, muito do próprio indivíduo.

Arquétipos seriam um padrão hereditário e característico da espécie, que organiza o desenvolvimento psicológico através dos símbolos, sendo atualizados de acordo com as condições internas e externas do indivíduo. Seriam inobserváveis. Derivariam das matrizes arquetípicas, podendo assumir diversas formas e gerar as imagens arquetípicas. Estas, por sua vez, seriam imagens e/ou vivências formadas a partir de fatores e motivos denominados arquétipos, tornando possível sua observação. Arquétipos, ou imagens primordiais, seriam auto-retratos dos instintos. Temas e figuras que pertenceriam a fatores estruturais do inconsciente humano. Seriam predisposições herdadas que responderiam a certos aspectos do mundo. Suas manifestações repousariam sobre condicionamentos instintivos e nada teriam a ver com a consciência.

Segundo Silveira (1994, p.79), Jung considerava os arquétipos “possibilidades herdadas para representar imagens similares, são formas instintivas de imaginar. Matrizes arcaicas onde configurações análogas ou semelhantes tomam forma. Jung compara o arquétipo ao sistema axial dos cristais, que determina a estrutura cristalina na solução saturada, sem possuir, contudo, existência própria”. Eles não teriam conteúdo determinado; seriam determinados, em grau limitado, em sua forma. Não seria possível provar sua existência, a não ser que eles se manifestassem de maneira concreta.

Segundo Jacobi (p. 60), “o inconsciente coletivo, matriz parapessoal da soma acumulada em milhões de anos de condições psíquicas básicas, tem uma amplitude e profundidade incomensuráveis; é o equivalente interno da criação, desde o primeiro dia do seu ser e estar, um cosmo interno tão infinito quanto o externo”

Jung introduziu um novo conceito: o arquétipo sombra como um dos conteúdos do inconsciente pessoal. Para ele, a sombra seria uma parte inferior da personalidade, o somatório de todos os elementos psíquicos pessoais e coletivos, das propriedades ocultas e desfavoráveis, das funções mal desenvolvidas e dos conteúdos do inconsciente pessoal. Os seus elementos seriam incompatíveis com a forma de vida escolhida, por isso unir-se-iam ao inconsciente formando uma personalidade parcial e relativamente autônoma, que possuiria tendências opostas às do consciente. Ela representaria o oposto do que seria o Ego, e, pelo seu desconhecimento pelo Ego, seria vivida geralmente como perigosa. Segundo Jung, “a sombra é todo o inconsciente”. (Mello & Figueiredo, ms. 1995, p.8)

Haveria uma medida para todos os indivíduos absorverem sua própria sombra: não se poderia absorvê-la completamente, nem ignorá-la. Segundo Jung (1975, p. 359),

“enquanto elemento do inconsciente pessoal, a sombra procede do eu; enquanto arquétipo do “eterno antagonista”, procede do inconsciente coletivo. (…) Negligenciar e recalcar a sombra ou identificar o eu com ela pode determinar dissociações perigosas. Como ela é próxima do mundo dos instintos, é indispensável levá-la continuamente em consideração.”
Ele afirma, também, que a sombra não possuiria somente tendências moralmente repreensíveis; possuiria, ainda, instintos normais, boas qualidades, reações apropriadas, impulsos criadores e percepções realistas, e que, no sonho, ela freqüentemente possuiria o mesmo sexo que o sonhador. Coloca, ainda, que a sombra representaria os potenciais não vividos ainda, que muitas vezes não têm força para expressão ou são incompatíveis com a auto-imagem do indivíduo.

O conceito de persona também está inserido dentro da concepção junguiana de personalidade. O termo persona designava a máscara usada pelos atores no teatro antigo. Jung apoderou-se do termo para designar “a máscara”, a maneira que usamos para nos mostrar na comunicação com o mundo; o modo que nós e os outros pensam que somos – o que parecemos ou desejamos ser. Ela seria uma zona intermediária entre a consciência do eu e os objetos do mundo; uma ponte com o mesmo. Os moldes da persona seriam retirados da psique coletiva.

A persona seria, em parte, um sistema de defesa. Mas existiria o risco de o Ego consciente identificar-se com ela devido à sua grande valorização. Quando isso acontecesse, o indivíduo seria fundido com ela, se reduzindo a uma “impermeável casca de revestimento” (Silveira, 1994, p.94), não passando, por dentro, de um farrapo que seria facilmente destruído por seu inconsciente. Quanto mais aderida à pele do ator, mais dolorosa seria a operação psicológica para despir a persona. Ao retirar a máscara, a face que apareceria seria estranha para nós e nela se refletiria nosso lado escuro e desconhecido: a sombra.

Anima e animus seriam a personificação da natureza feminina do inconsciente do homem e da natureza masculina do inconsciente da mulher. Sua função seria estabelecer uma relação entre a consciência individual e o inconsciente coletivo. Essa bissexualidade psíquica refletiria um fator biológico: o número de genes do sexo oposto presente em cada indivíduo parece produzir um caráter correspondente no mesmo, sendo que, devido à sua inferioridade, permaneceria inconsciente. O homem traria em si uma imagem de mulher e a mulher traria em si uma imagem de homem. Tais imagens seriam projetadas inconscientemente no ser amado e constituiriam a principal razão da atração passional e seu contrário. A atração pelo sexo oposto, pelo reflexo da própria anima ou animus projetada no outro, seria responsável pelo contato com nossos próprios conteúdos inconscientes. Através desse contato é que seria possível nos tornamos conscientes dos mesmos, trazendo para o consciente características importantes e caminhando rumo à individuação. Visto que seriam essenciais na construção da estrutura psíquica de todo homem e toda mulher, a anima e o animus seriam considerados arquétipos.

O arquétipo Self seria o centro regulador e unificador da psique total (consciente e inconsciente). Ele seria simbolicamente expresso pela imagem de Deus presente em toda a história da humanidade. Para Jung, seria ele quem produziria o sonho e o enviaria ao Ego.

Silveira postula que o Self, por vezes, corresponderia ao superego da psicologia freudiana. “Quando a renúncia aos desejos egoístas ocorre por temor da opinião pública e dos códigos, conforme acontece ordinariamente, isso significa que o Self permanece inconsciente e, nesta condição, projeta-se no exterior, identificando-se à consciência moral coletiva. Neste caso, Self e superego coincidem.” (ibid. p.75). Às vezes, também, a renúncia às exigências egoístas não seria motivada pela pressão da moral coletiva, mas pelas leis internas inerentes ao Self, quando este se tornasse perceptível como fator psíquico determinante. Neste caso, o Self deixaria de coincidir com o superego.

Para Jung, o Ego tenderia a ser o centro do consciente; um complexo composto por um conjunto de representações e afetos formado por uma percepção geral de nossa existência, nosso corpo e nossa memória. Ele seria o responsável pelas decisões.

Durante o desenvolvimento do homem, ocorreria simultaneamente um desenvolvimento de suas potencialidades impulsionado por forças inconscientes, sendo que o homem seria capaz de se conscientizar desse desenvolvimento e influenciá-lo. Assim, no “confronto do inconsciente com o consciente, no conflito como na colaboração entre ambos é que os diversos componentes da personalidade amadurecem e unem-se numa síntese, na realização de um indivíduo específico e inteiro”. (Silveira, 1994 p. 91) Essa confrontação foi chamada de processo de individuação. Seria esse processo que permitiria que a personalidade se completasse, quando consciente e inconsciente se ordenariam em torno do Self – o centro da personalidade total.

Jung sempre viu o inconsciente em constante trabalho, revolvendo conteúdos, agrupando-os e reagrupando-os, sofrendo mudanças e provocando-as, influenciando o Ego e sendo influenciado por ele. Os seus conteúdos seriam suscetíveis de metamorfoses, o que se poderia acompanhar através dos sonhos (nos casos individuais) e nas transformações dos símbolos religiosos na vida social (coletiva). Foi através do estudo das evoluções individuais e coletivas e da simbologia alquimista que Jung chegou ao conceito tido como básico em sua psicologia: o processo de individuação (realização de Si-mesmo, individualidade e unidade).

No âmago da psique se encontraria o arquétipo de Deus (arquétipo do Self ou do Si-mesmo). O confronto com o numinoso poderia ser forte a ponto de causar a desintegração do Ego. E seria como defesa a essa situação que o homem realizaria os rituais. Estes serviriam de anteparo entre o divino e o humano; entre a imagem de Deus presente no inconsciente e o Ego. Jung acreditava que as religiões e seus rituais serviam como forma de proteção ao Ego no confronto com o inconsciente, sendo que a união entre os opostos consciente e inconsciente seria promovida pelos símbolos religiosos, que impediriam o aniquilamento do Ego.

O inconsciente coletivo seria uma área na qual estariam presentes possibilidades herdadas da experiência passada da humanidade. Tais imagens seriam gravadas pela repetição de reações subjetivas, vividas e revividas pela humanidade e constituiriam a matriz dos símbolos que se expressam nos sonhos, nos mitos, nos contos de fadas e nas obras individuais. Deve-se ressaltar que tais imagens primordiais herdadas seriam as formas mais antigas e universais da imaginação humana.

O conceito de inconsciente coletivo permitiu que Jung tentasse resolver duas questões que considerava relevantes: a) explicar a semelhança entre conteúdos simbólicos individuais e temas místicos recorrentes ao longo da história da humanidade, pois “indubitavelmente, todo o simbolismo arcaico usualmente encontrado nas fantasias e sonhos representa fatores coletivos” (1994, p.132); b) integrar a História como um elemento formador da psique individual.

“À semelhança de Deus, o inconsciente tem dois aspectos: um é bom, favorável e benfazejo, o outro é mau, malévolo e nefasto. O inconsciente é a fonte imediata de nossas experiências religiosas. A natureza psíquica de toda experiência não significa que as realidades transcendentais sejam também psíquicas. A física não considera que a realidade transcendental, representada por seu modelo psíquico, também seja psíquica. Ela chama isso de matéria; da mesma forma a psicologia não atribui sua própria natureza psíquica às suas imagens ou arquétipos. Ela os denomina “psicóides” e está convencida de que representam realidades transcendentais. Ela conhece inclusive a “fé simples” como uma espécie de convicção inevitável. Podemos procurá-la em toda parte, mas ela só vem ao nosso encontro quando quer, pois é um Dom do Espírito Santo. Só existe um único espírito divino: uma presença imediata, muitas vezes aterradora e de forma nenhuma sujeita ao nosso arbítrio. (…) Uma experiência desse tipo é sempre numinosa porque une todos os aspectos da totalidade.” (Jung, 2000, p.262)

Silveira postula que todas as religiões originem-se de encontros com os fatores do inconsciente, venham eles por sonhos, visões ou êxtases e apresentem-se como deuses, demônios ou espíritos. Afirma, ainda, que Jung reconhecia todos os deuses como possíveis, desde que tenham sido atuantes no psiquismo humano. Isto apesar de as afirmações religiosas não poderem ser universalmente comprováveis. Segundo Jung, ainda, todos os psicólogos que estudem os fenômenos religiosos devem abster-se de considerar como verdadeiro somente o que apresentar-se como um dado físico, visto não ser este seu único critério de veracidade. Há, além, verdades psíquicas que não podem ser recusadas, mesmo sendo de difícil explicação. Todas as religiões vêm do mesmo solo: o inconsciente. Não há “revelação”, nem deus, nem transcendente; há somente arquétipos, recém-brotados do “mesmo solo materno em que, outrora, se formaram, sem exceção, todos os sistemas filosófico-religiosos.” (Jung, 1999, p.77)

É o contato com os “mistérios” de cada religião que fala diretamente – simbolicamente – com o nosso inconsciente, satisfazendo nossa religiosidade.

“Esses mistérios sempre foram a expressão de uma condição psicológica fundamental. A pessoa externa suas condições psicológicas fundamentais e mais importantes neste rito, nesta magia, ou qualquer nome que possa ter. E o rito é o desempenho cultual desses fatos psicológicos básicos. Isto explica por que não se deveria mudar nada no rito. Um rito deve ser realizado segundo a tradição e, se houver nele qualquer mudança que seja, incorre-se em erro. Não se deve permitir que a razão nele interfira. (…) Não estamos psicologicamente desenvolvidos o suficiente para entender a verdade, a verdade extraordinária dos ritos e dos dogmas. Por isso esses dogmas nunca deveriam ser submetidos a qualquer tipo de crítica.” (Jung, 1998, p. 270)

É possível à psique descobrir em si uma completude perfeita, através de seu sistema de auto-regulação. Mesmo quando gerado por um sagrado exterior, o numinoso, interior ao homem, gera um processo interno de comunhão do fundo originário externo com o Self. Assim, tudo o que alimenta as atitudes religiosas de cada comunidade nada é além de uma supraestrutura, um nível de consciência ou de inconsciente pessoal. Ou seja, não se referem à totalidade da alma, não permitindo, assim, de fato a sua realização. Desta forma, pela análise do numinoso,

“(…) todas as religiões se encontram enquanto possuem uma função psicológica numa dada sociedade e cultura, e enquanto, por conseguinte, emanam da natureza. Seus simbolismos aí aparecem numa dimensão nova: eles traduzem não acontecimentos cósmicos, mas acontecimentos psíquicos. De imanente ao cosmo, o divino torna-se imanente à psique humana”. (Louis Beirnaert, 1954; In: Tardan-Masquelier, 1994, p. 141.)
Como função psíquica, a religiosidade poderia ser desenvolvida, cultivada ou aprofundada, como também poderia ser negligenciada, deturpada ou reprimida. Visto que toda função psíquica busca uma forma de expressão, um caminho para dar vazão à sua carga energética, poderia encontrar meios diversos para fazê-lo. Desta forma, antigos deuses teriam sido substituídos por outras formas reverenciadas. Esta teoria junguiana ajuda a explicar o fato de Comte ter desenvolvido a Religião da Humanidade e de Teixeira Mendes, Miguel Lemos e tantos outros terem sentido tanta necessidade de reverenciar religiosamente algum ser ou alguma forma, em substituição ao Catolicismo aprendido na infância e abandonado por convicções teóricas – como já nos indicaram Azzi (1980) e Torres (1957). Tardan-Masquelier (1994) reforça tais afirmações ao propor que a função religiosa:

“se enraíza portanto na potência escondida dos arquétipos: a experiência religiosa é em primeiro lugar experiência do inconsciente coletivo, “revelação natural”, que faz o homo religious pressentir a presença de um supraconsciente transpessoal. Recolocando o indivíduo no curso vital de uma tradição que participou na constituição de seu substrato psíquico, ela lhe restitui sua pertença espiritual e o faz descobrir as origens profundas de suas representações.
Jung porém não sente de modo algum a necessidade de, para perceber a irredutibilidade do fato religioso, apelar para a crença numa entidade divina vivida como transcendência. A experiência religiosa lhe parece absoluta, não pela referência a um deus, seja ele qual for, mas pelo fato de que ela implica a totalidade da alma e por colocar em jogo uma temporalidade arquetípica cuja existência individual é somente um fragmento.” (pp. 136-137)
Silveira (1994) cita William James, autor do primeiro trabalho sobre o fenômeno religioso a partir de um ponto de vista psicológico, creditando-lhe a observação de que os cientistas, mesmo priorizando os fatos objetivos, não perdiam o sentimento religioso. A própria importância que davam a tais fatos era em si só quase religiosa e seu temperamento científico, devoto. Cultos de personalidades são manifestações da função religiosa. A adoração de atores, cantores, políticos, jogadores, também.

Jung (1998), também menciona o autor e alguns de seus conceitos, acrescentando que:

“uma atitude religiosa também pode representar o sentimento; além disso, a devoção religiosa (acrítica) seja à idéias de Deus ou à idéia da matéria pode existir, embora esta atitude possa ser chamada de ‘religiosa’ apenas quando é absoluta. Assim, o empírico pode ser religioso.” (p. 45)
Praticar uma verdadeira religião seria, a partir de uma ou de diversas experiências imediatas que possibilitam a intuição do Self, alcançar uma plenitude que submete-se conscientemente às realidades inconscientes. Mesmo se escolhermos um tipo acabado de símbolo religioso, podemos constatar que os símbolos da divindade correspondem sempre aos do Self, o que pode-se traduzir como uma expressão da idéia e da presença de Deus manifestando a totalidade psíquica através de experiências psicológicas (Tardan-Masquelier, 1994).

“não há contradição entre o ponto de vista psicológico e a visão do crente, nem qualquer intromissão da ciência no campo da metafísica ou da teologia. Todavia, o que pertence à ordem da fé, a crença num Deus, pode também ser vivido como a experienciação de uma instância psíquica que transcende a consciência. Essa interpretação segunda desvela um dos sentidos da prática religiosa: unificação pelo compromisso simbólico, pois, “sem a experiência vivida dos contrários, não seria possível ter a experiência da totalidade e, por isso mesmo, acesso interior às figuras sagradas.”. Ela decodifica, no aprofundamento progressivo, a obra do processo de individuação que se realiza por meio da auto-regulação da psique, pois a inclinação natural autônoma da alma é o impulso para a totalidade.” (id., p. 140)
Segundo Wilges e Colombo (1983), Jung acreditava que o homem jamais seria capaz de livrar-se do “problema Deus”, por ser, nas profundezas de sua psique, religioso, teísta, crístico, tendo em seu ser mais profundo um dinamismo que o impeliria para Deus. Ateísta seria aquele que não permitisse que este dinamismo fizesse sua irrupção no consciente. Deve-se ressaltar, porém, que, para Jung, a única coisa que se pode dizer sobre Deus em psicologia é que há uma imagem arquetípica de divindade. (Jung, 1995)

Desta forma, seria papel de um terapeuta auxiliar o paciente em sua reconstituição de uma “religião” verdadeira, ou seja, “de uma atitude reverente e atenta em relação ao fator “numinoso” íntimo que é o Si-mesmo.” (Tardan-Masquelier, 1994, p.138)

“As variedades de experiências do divino levam a comparações psicológicas que, por sua vez, podem levantar protestos dos teólogos quanto à autenticidade ou distorção de certas imagens. Às vezes a experiência não existe, ou então é uma abstração conceitual, ou ainda o divino é deslocado para imagens e experiências que via de regra não são consideradas sagradas. Com freqüência, e isto tem interesse psicológico considerável, o grau de perturbação psicológica de uma pessoa é o fator determinador da distorção ou deslocação (sic.) correspondente da imagem de Deus. Consequentemente, a experiência e também a imagem de Deus aparecem ao psicólogo como continuando a revelar-se dentro e através da alma, sem nenhuma limitação, e para além dos confinamentos de qualquer dogma. Tais imagens e experiências são representações coletivas compartilhadas pela mente de todos nós na sociedade em que vivemos.” (Hillman, 1984, pp.39-40)

Mas, de acordo com tais conclusões, como seria uma religião que se diz não-teológica? Teria sido realmente possível a Augusto Comte abstrair-se de toda e qualquer teologia na criação de sua religião? Faria isso alguma diferença, ou seria uma questão simplesmente de nomenclatura? Como terá sido ele capaz de lidar com o seu Self, com o seu eu religioso? Provavelmente a resposta a essa questão responde também à forma como Miguel Lemos pôde sentir-se confortado por esta mesma religião.

Ecletismo que visa conciliar todas as religiões por meio da gnose, que por sua vez é um conhecimento esotérico da divindade. (cf. Ferreira, 1993)

Dentre todos os conceitos de Carl Gustav Jung, a idéia de introversão e extroversão são as mais usadas. Jung descobriu que cada indivíduo pode ser caracterizado como sendo primeiramente orientado para seu interior ou para o exterior, sendo que a energia dos introvertidos se dirige em direção a seu mundo interno, enquanto a energia do extrovertido é mais focalizada no mundo externo.

Entretanto, ninguém é totalmente introvertido ou extrovertido. Algumas vezes a introversão é mais apropriada, em outras ocasiões a extroversão é mais adequada, mas as duas atitudes se excluem mutuamente, de forma que não se pode manter ambas ao mesmo tempo. Também enfatizava que nenhuma das duas é melhor que a outra, citando que o mundo precisa dos dois tipos de pessoas. Darwin, por exemplo, era predominantemente extrovertido, enquanto Kant era introvertido por excelência.

O ideal para o ser humano é ser flexível, capaz de adotar qualquer dessas atitudes quando for apropriado, operar em equilíbrio entre as duas.

As Atitudes: Introversão e Extroversão

Os introvertidos concentram-se prioritariamente em seus próprios pensamentos e sentimentos, em seu mundo interior, tendendo à introspecção. O perigo para tais pessoas é imergir de forma demasiada em seu mundo interior, perdendo ou tornando tênue o contato com o ambiente externo. O cientista distraído, estereotipado, é um exemplo claro deste tipo de pessoa absorta em suas reflexões em notável prejuízo do pragmatismo necessário à adaptação.

Os extrovertidos, por sua vez, se envolvem com o mundo externo das pessoas e das coisas. Eles tendem a ser mais sociais e mais conscientes do que acontece à sua volta. Necessitam se proteger para não serem dominados pelas exterioridades e, ao contrário dos introvertidos, se alienarem de seus próprios processos internos. Algumas vezes esses indivíduos são tão orientados para os outros que podem acabar se apoiando quase exclusivamente nas idéias alheias, ao invés de desenvolverem suas próprias opiniões.

As Funções Psíquicas

Jung identificou quatro funções psicológicas que chamou de fundamentais: pensamento, sentimento, sensação e intuição. E cada uma dessas funções pode ser experienciada tanto de maneira introvertida quanto extrovertida.

O Pensamento

Jung via o pensamento e o sentimento como maneiras alternativas de elaborar julgamentos e tomar decisões. O Pensamento, por sua vez, está relacionado com a verdade, com julgamentos derivados de critérios impessoais, lógicos e objetivos. As pessoas nas quais predomina a função do Pensamento são chamadas de Reflexivas. Esses tipos reflexivos são grandes planejadores e tendem a se agarrar a seus planos e teorias, ainda que sejam confrontados com contraditória evidência.

 O Sentimento

Tipos sentimentais são orientados para o aspecto emocional da experiência. Eles preferem emoções fortes e intensas ainda que negativas, a experiências apáticas e mornas. A consistência e princípios abstratos são altamente valorizados pela pessoa sentimental. Para ela, tomar decisões deve ser de acordo com julgamentos de valores próprios, como por exemplo, valores do bom ou do mau, do certo ou do errado, agradável ou desagradável, ao invés de julgar em termos de lógica ou eficiência, como faz o reflexivo.

A Sensação

Jung classifica a sensação e a intuição juntas, como as formas de apreender informações, diferentemente das formas de tomar decisões. A Sensação se refere a um enfoque na experiência direta, na percepção de detalhes, de fatos concretos. A Sensação reporta-se ao que uma pessoa pode ver, tocar, cheirar. É a experiência concreta e tem sempre prioridade sobre a discussão ou a análise da experiência.

Os tipos sensitivos tendem a responder à situação vivencial imediata, e lidam eficientemente com todos os tipos de crises e emergências. Em geral eles estão sempre prontos para o momento atual, adaptam-se facilmente às emergências do cotidiano, trabalham melhor com instrumentos, aparelhos, veículos e utensílios do que qualquer um dos outros tipos.

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A Intuição

A intuição é uma forma de processar informações em termos de experiência passada, objetivos futuros e processos inconscientes. As implicações da experiência (o que poderia acontecer, o que é possível) são mais importantes para os intuitivos do que a experiência real por si mesma. Pessoas fortemente intuitivas dão significado às suas percepções com tamanha rapidez que, via de regra, não conseguem separar suas interpretações conscientes dos dados sensoriais brutos obtidos. Os intuitivos processam informação muito depressa e relacionam, de forma automática, a experiência passada com as informações relevantes da experiência imediata.

Arquétipos

Dentro do Inconsciente Coletivo existem, segundo Jung, estruturas psíquicas ou Arquétipos. Tais Arquétipos são formas sem conteúdo próprio que servem para organizar ou canalizar o material psicológico. Eles se parecem um pouco com leitos de rio secos, cuja forma determina as características do rio, porém desde que a água começa a fluir por eles. Particularmente comparo os Arquétipos à porta de uma geladeira nova; existem formas sem conteúdo – em cima formas arredondadas (você pode colocar ovos, se quiser ou tiver ovos), mais abaixo existe a forma sem conteúdo para colocar refrigerantes, manteiga, queijo, etc., mas isso só acontecerá se a vida ou o meio onde você existir lhe oferecer tais produtos. De qualquer maneira as formas existem antecipadamente ao conteúdo. Arquetipicamente existe a forma para colocar Deus, mas isso depende das circunstâncias existenciais, culturais e pessoais.

Jung também chama os Arquétipos de imagens primordiais, porque eles correspondem freqüentemente a temas mitológicos que reaparecem em contos e lendas populares de épocas e culturas diferentes. Os mesmos temas podem ser encontrados em sonhos e fantasias de muitos indivíduos. De acordo com Jung, os Arquétipos, como elementos estruturais e formadores do inconsciente, dão origem tanto às fantasias individuais quanto às mitologias de um povo.

A história de Édipo é uma boa ilustração de um Arquétipo. É um motivo tanto mitológico quanto psicológico, uma situação arquetípica que lida com o relacionamento do filho com seus pais. Há, obviamente, muitas outras situações ligadas ao tema, tal como o relacionamento da filha com seus pais, o relacionamento dos pais com os filhos, relacionamentos entre homem e mulher, irmãos, irmãs e assim por diante.

O termo Arquétipo freqüentemente é mal compreendido, julgando-se que expressa imagens ou motivos mitológicos definidos. Mas estas imagens ou motivos mitológicos são apenas representações conscientes do Arquétipo. O Arquétipo é uma tendência a formar tais representações que podem variar em detalhes, de povo a povo, de pessoa a pessoa, sem perder sua configuração original.

Uma extensa variedade de símbolos pode ser associada a um Arquétipo. Por exemplo, o Arquétipo materno compreende não somente a mãe real de cada indivíduo, mas também todas as figuras de mãe, figuras nutridoras. Isto inclui mulheres em geral, imagens míticas de mulheres (tais como Vênus, Virgem Maria, mãe Natureza) e símbolos de apoio e nutrição, tais como a Igreja e o Paraíso. O Arquétipo materno inclui aspectos positivos e negativos, como a mãe ameaçadora, dominadora ou sufocadora. Na Idade Média, por exemplo, este aspecto do Arquétipo estava cristalizado na imagem da velha bruxa.

Jung escreveu que cada uma das principais estruturas da personalidade seriam Arquétipos, incluindo o Ego, a Persona, a Sombra, a Anima (nos homens), o Animus (nas mulheres) e o Self.

Símbolos

De acordo com Jung, o inconsciente se expressa primariamente através de símbolos. Embora nenhum símbolo concreto possa representar de forma plena um Arquétipo (que é uma forma sem conteúdo específico), quanto mais um símbolo se harmonizar com o material inconsciente organizado ao redor de um Arquétipo, mais ele evocará uma resposta intensa e emocionalmente carregada.

Jung se interessa nos símbolos naturais, que são produções espontâneas da psique individual, mais do que em imagens ou esquemas deliberada-mente criados por um artista. Além dos símbolos encontrados em sonhos ou fantasias de um indivíduo, há também símbolos coletivos importantes, que são geralmente imagens religiosas, tais como a cruz, a estrela de seis pontas de David e a roda da vida budista.

Imagens e termos simbólicos, via de regra, representam conceitos que nós não podemos definir com clareza ou compreender plenamente. Para Jung, um signo representa alguma outra coisa; um símbolo é alguma coisa em si mesma, uma coisa dinâmica e viva. O símbolo representa a situação psíquica do indivíduo e ele é essa situação num dado momento.

Aquilo a que nós chamamos de símbolo pode ser um termo, um nome ou até uma imagem familiar na vida diária, embora possua conotações específicas além de seu significado convencional e óbvio. Assim, uma palavra ou uma imagem é simbólica quando implica alguma coisa além de seu significado manifesto e imediato. Esta palavra ou esta imagem tem um aspecto inconsciente mais amplo que não é nunca precisamente definido ou plenamente explicado.

Os Sonhos

Os sonhos são pontes importantes entre processos conscientes e inconscientes. Comparado à nossa vida onírica, o pensamento consciente contém menos emoções intensas e imagens simbólicas. Os símbolos oníricos freqüentemente envolvem tanta energia psíquica, que somos compelidos a prestar atenção neles.
Para Jung, os sonhos desempenham um importante papel complementar ou compensatório. Os sonhos ajudam a equilibrar as influências variadas a que estamos expostos em nossa vida consciente, sendo que tais influências tendem a moldar nosso pensamento de maneiras freqüentemente inadequadas à nossa personalidade e individualidade. A função geral dos sonhos, para Jung, é tentar estabelecer a nossa balança psicológica pela produção de um material onírico que reconstitui equilíbrio psíquico total.

Jung abordou os sonhos como realidades vivas que precisam ser experimentadas e observadas com cuidado para serem compreendidas. Ele tentou descobrir o significado dos símbolos oníricos prestando atenção à forma e ao conteúdo do sonho e, com relação à análise dos sonhos, Jung distanciou-se gradualmente da maneira psicanalítica na livre associação.
Pelo fato do sonho lidar com símbolos, Jung achava que eles teriam mais de um significado, não podendo haver um sistema simples ou mecânico para sua interpretação. Qualquer tentativa de análise de um sonho precisa levar em conta as atitudes, a experiência e a formação do sonhador. É uma aventura comum vivida entre o analista e o analisando. O caráter das interpretações do analista é apenas experimental, até que elas sejam aceitas e sentidas como válidas pelo analisando.

Mais importante do que a compreensão cognitiva dos sonhos é o ato de experienciar o material onírico e levá-lo a sério. Para o analista junguiano devemos tratar nossos sonhos não como eventos isolados, mas como comunicações dos contínuos processos inconscientes. Para a corrente junguiana é necessário que o inconsciente torne conhecida sua própria direção, e nós devemos dar-lhe os mesmos direitos do Ego, se é que cada lado deva adaptar-se ao outro. À medida que o Ego ouve e o inconsciente é encorajado a participar desse diálogo, a posição do inconsciente é transformada daquela de um adversário para a de um amigo, com pontos de vista de algum modo diferentes mas complementares.

O Ego

O Ego é o centro da consciência e um dos maiores Arquétipos da perso-nalidade. Ele fornece um sentido de consistência e direção em nossas vidas conscientes. Ele tende a contrapor-se a qualquer coisa que possa ameaçar esta frágil consistência da consciência e tenta convencer-nos de que sempre devemos planejar e analisar conscientemente nossa experiência. Somos levados a crer que o Ego é o elemento central de toda a psique e chegamos a ignorar sua outra metade, o inconsciente.

De acordo com Jung, a princípio a psique é apenas o inconsciente. O Ego emerge dele e reúne numerosas experiências e memórias, desenvolvendo a divisão entre o inconsciente e o consciente. Não há elementos inconscientes no Ego, só conteúdos conscientes derivados da experiência pessoal.

A Persona

Nossa Persona é a forma pela qual nos apresentamos ao mundo. É o caráter que assumimos; através dela nós nos relacionamos com os outros. A Persona inclui nossos papéis sociais, o tipo de roupa que escolhemos para usar e nosso estilo de expressão pessoal. O termo Persona é derivado da palavra latina equivalente a máscara, se refere às máscaras usadas pelos atores no drama grego para dar significado aos papéis que estavam representando. As palavras “pessoa” e “personalidade” também estão relacionadas a este termo.

A Persona tem aspectos tanto positivos quanto negativos. Uma Persona dominante pode abafar o indivíduo e aqueles que se identificam com sua Persona tendem a se ver apenas nos termos superficiais de seus papéis sociais e de sua fachada. Jung chamou também a Persona de Arquétipo da conformidade. Entretanto, a Persona não é totalmente negativa. Ela serve para proteger o Ego e a psique das diversas forças e atitudes sociais que nos invadem. A Persona é também um instrumento precioso para a comunicação. Nos dramas gregos, as máscaras dos atores, audaciosamente desenhadas, informavam a toda a platéia, ainda que de forma um pouco estereotipada, sobre o caractere as atitudes do papel que cada ator estava representando. A Persona pode, com freqüência, desempenhar um papel importante em nosso desenvolvimento positivo. À medida que começamos a agir de determinada maneira, a desempenhar um papel, nosso Ego se altera gradualmente nessa direção.

Entre os símbolos comumente usados para a Persona, incluem-se os objetos que usamos para nos cobrir (roupas, véus), símbolos de um papel ocupacional (instrumentos, pasta de documentos) e símbolos de status (carro, casa, diploma). Esses símbolos foram todos encontrados em sonhos como representações da Persona. Por exemplo, em sonhos, uma pessoa com Persona forte pode aparecer vestida de forma exagerada ou constrangida por um excesso de roupas. Uma pessoa com Persona fraca poderia aparecer despida e exposta. Uma expressão possível de uma Persona extremamente inadequada seria o fato de não ter pele.

A Sombra

Para Jung, a Sombra é o centro do Inconsciente Pessoal, o núcleo do material que foi reprimido da consciência. A Sombra inclui aquelas tendências, desejos, memórias e experiências que são rejeitadas pelo indivíduo como incompatíveis com a Persona e contrárias aos padrões e ideais sociais. Quanto mais forte for nossa Persona, e quanto mais nos identificarmos com ela, mais repudiaremos outras partes de nós mesmos. A Sombra representa aquilo que consideramos inferior em nossa personalidade e também aquilo que negligenciamos e nunca desenvolvemos em nós mesmos. Em sonhos, a Sombra freqüentemente aparece como um animal, um anão, um vagabundo ou qualquer outra figura de categoria mais baixa.

Em seu trabalho sobre repressão e neurose, Freud concentrou-se, de inicio, naquilo que Jung chama de Sombra. Jung descobriu que o material reprimido se organiza e se estrutura ao redor da Sombra, que se torna, em certo sentido, um Self negativo, a Sombra do Ego. A Sombra é, via de regra, vivida em sonhos como uma figura escura, primitiva, hostil ou repelente, porque seus conteúdos foram violentamente retirados da consciência e aparecem como antagônicos à perspectiva consciente. Se o material da Sombra for tra-zido à consciência, ele perde muito de sua natureza de medo, de desconhecido e de escuridão.

A Sombra é mais perigosa quando não é reconhecida pelo seu portador. Neste caso, o indivíduo tende a projetar suas qualidades indesejáveis em outros ou a deixar-se dominar pela Sombra sem o perceber. Quanto mais o material da Sombra tornar-se consciente, menos ele pode dominar. Entretanto, a Sombra é uma parte integral de nossa natureza e nunca pode ser simplesmente eliminada. Uma pessoa sem Sombra não é uma pessoa completa, mas uma caricatura bidimensional que rejeita a mescla do bom e do mal e a ambivalência presentes em todos nós.

Cada porção reprimida da Sombra representa uma parte de nós mesmos. Nós nos limitamos na mesma proporção que mantemos este material inconsciente.

À medida que a Sombra se faz mais consciente, recuperamos partes previamente reprimidas de nós mesmos. Além disso, a Sombra não é apenas uma força negativa na psique. Ela é um depósito de considerável energia instintiva, espontaneidade e vitalidade, e é a fonte principal de nossa criatividade. Assim como todos os Arquétipos, a Sombra se origina no Inconsciente Coletivo e pode permitir acesso individual a grande parte do valioso material inconsciente que é rejeitado pelo Ego e pela Persona.
No momento em que acharmos que a compreendemos, a Sombra aparecerá de outra forma. Lidar com a Sombra é um processo que dura a vida toda, consiste em olhar para dentro e refletir honestamente sobre aquilo que vemos lá.

O Self

Jung chamou o Self de Arquétipo central, Arquétipo da ordem e totalidade da personalidade. Segundo Jung, consciente e inconsciente não estão necessariamente em oposição um ao outro, mas complementam-se mutuamente para formar uma totalidade: o Self. Jung descobriu o Arquétipo do Self apenas depois de estarem concluídas suas investigações sobre as outras estruturas da psique. O Self é com freqüência figurado em sonhos ou imagens de forma impessoal, como um círculo, mandala, cristal ou pedra, ou de forma pessoal como um casal real, uma criança divina, ou na forma de outro símbolo de divindade. Todos estes são símbolos da totalidade, unificação, reconciliação de polaridades, ou equilíbrio dinâmico, os objetivos do processo de Individuação.

O Self é um fator interno de orientação, muito diferente e até mesmo estranho ao Ego e à consciência. Para Jung, o Self não é apenas o centro, mas também toda a circunferência que abarca tanto o consciente quanto o inconsciente, ele é o centro desta totalidade, tal como o Ego é o centro da consciência. Ele pode, de início, aparecer em sonhos como uma imagem significante, um ponto ou uma sujeira de mosca, pelo fato do Self ser bem pouco familiar e pouco desenvolvido na maioria das pessoas. O desenvolvimento do Self não significa que o Ego seja dissolvido. Este último continua sendo o centro da consciência, mas agora ele é vinculado ao Self como conseqüência de um longo e árduo processo de compreensão e aceitação de nossos processos inconscientes. O Ego já não parece mais o centro da personalidade, mas uma das inúmeras estruturas dentro da psique.

Crescimento Psicológico – Individuação

Segundo Jung, todo indivíduo possui uma tendência para a Individuação ou auto desenvolvimento. Individuação significa tornar-se um ser único, homogêneo. na medida em que por individualidade entendemos nossa singularidade mais íntima, última e incomparável, significando também que nos tornamos o nosso próprio si mesmo. Pode-se traduzir Individuação como tornar-se si mesmo, ou realização do si mesmo.

Individuação é um processo de desenvolvimento da totalidade e, portanto, de movimento em direção a uma maior liberdade. Isto inclui o desenvolvimento do eixo Ego-Self, além da integração de várias partes da psique: Ego, Persona, Sombra, Anima ou Animus e outros Arquétipos inconscientes. Quando tornam-se individuados, esses Arquétipos expressam-se de maneiras mais sutis e complexas.
Quanto mais conscientes nos tornamos de nós mesmos através do auto conhecimento, tanto mais se reduzirá a camada do inconsciente pessoal que recobre o inconsciente coletivo. Desta forma, sai emergindo uma consciência livre do mundo mesquinho, suscetível e pessoal do Eu, aberta para a livre participação de um mundo mais amplo de interesses objetivos.

Essa consciência ampliada não é mais aquele novelo egoísta de desejos, temores, esperanças e ambições de caráter pessoal, que sempre deve ser compensado ou corrigido por contra-tendências inconscientes; tornar-se-á uma função de relação com o mundo de objetos, colocando o indivíduo numa comunhão incondicional, obrigatória e indissolúvel com o mundo.

Do ponto de vista do Ego, crescimento e desenvolvimento consistem na integração de material novo na consciência, o que inclui a aquisição de conhecimento a respeito do mundo e da prória pessoa. O crescimento, para o Ego, é essencialmente a expansão do conhecimento consciente. Entretanto, Individuação é o desenvolvimento do Self e, do seu ponto de vista, o objetivo é a união da consciência com o inconsciente.

Como analista, Jung descobriu que aqueles que vinham a ele na primeira metade da vida estavam relativamente desligados do processo interior de Individuação; seus interesses primários centravam-se em realizações externas, no “emergir” como indivíduos e na consecução dos objetivos do Ego. Analisandos mais velhos, que haviam alcançado tais objetivos, de forma razoável, tendiam a desenvolver propósitos diferentes, interesse maior pela integração do que pelas realizações, busca de harmonia com a totalidade da psique.

O primeiro passo no processo de Individuação é o desnudamento da Persona. Embora esta tenha funções protetoras importantes, ela é também uma máscara que esconde o Self e o inconsciente.
Ao analisarmos a Persona, dissolvemos a máscara e descobrimos que, aparentando ser individual, ela é de fato coletiva; em outras palavras, a Persona não passa de uma máscara da psique coletiva. No fundo, nada tem de real; ela representa um compromisso entre o indivíduo e a sociedade acerca daquilo que alguém parece ser: nome, título, ocupação, isto ou aquilo.

De certo modo, tais dados são reais mas, em relação à individualidade essencial da pessoa, representam algo de secundário, uma vez que resultam de um compromisso no qual outros podem ter uma quota maior do que a do indivíduo em questão.

O próximo passo é o confronto com a Sombra. Na medida em que nós aceitamos a realidade da Sombra e dela nos distinguimos, podemos ficar livres de sua influência. Além disso, nós nos tornamos capazes de assimilar o valioso material do inconsciente pessoal que é organizado ao redor da Sombra.

O terceiro passo é o confronto com a Anima ou Animus. Este Arquétipo deve ser encarado como uma pessoa real, uma entidade com quem se pode comunicar e de quem se pode aprender. Jung faria perguntas à sua Anima sobre a interpretação de símbolos oníricos, tal como um analisando a consultar um analista. O indivíduo também se conscientiza de que a Anima (ou o Animus) tem uma autonomia considerável e de que há probabilidade dela influenciar ou até dominar aqueles que a ignoram ou os que aceitam cegamente suas imagens e projeções como se fossem deles mesmos.

O estágio final do processo de Individuação é o desenvolvimento do Self. Jung dizia que o si mesmo é nossa meta de vida, pois é a mais completa expressão daquela combinação do destino a que nós damos o nome de indivíduo. O Self torna-se o novo ponto central da psique, trazendo unidade à psique e integrando o material consciente e o inconsciente. O Ego é ainda o centro da consciência, mas não é mais visto como o núcleo de toda a personalidade.

Jung escreve que devemos ser aquilo que somos e precisamos descobrir nossa própria individualidade, aquele centro da personalidade que é eqüidistante do consciente e do inconsciente. Dizia que precisamos visar este ponto ideal em direção ao qual a natureza parece estar nos dirigindo. Só a partir deste ponto podemos satisfazer nossas necessidades.

É necessário ter em mente que, embora seja possível descrever a Individuação em termos de estágios, o processo de Individuação é bem mais complexo do que a simples progressão aqui delineada. Todos os passos mencionados sobrepõem-se, e as pessoas voltam continuamente a problemas e temas antigos (espera-se que de uma perspectiva diferente). A Individuação poderia ser apresentada como uma espiral na qual os indivíduos permanecem se confrontando com as mesmas questões básicas, de forma cada vez mais refinada. Este conceito está muito relacionado com a concepção Zen-budista da iluminação, na qual um individuo nunca termina um Koan, ou problema espiritual, e a procura de si mesmo é vista como idêntica à finalidade.)

Obstáculos ao Crescimento

A Individuação nem sempre é uma tarefa fácil e agradável. O Ego precisa ser forte o suficiente para suportar mudanças tremendas, para ser virado pelo avesso no processo de Individuação.

Poderíamos dizer que todo o mundo está num processo de Individuação, no entanto, as pessoas não o sabem, esta é a única diferença. A Individuação não é de modo algum uma coisa rara ou um luxo de poucos, mas aqueles que sabem que passam pelo processo são considerados afortunados. Desde que suficientemente conscientes, eles tiram algum proveito de tal processo.

A dificuldade deste processo é peculiar porque constitui um empreendimento totalmente individual, levado a cabo face à rejeição ou, na melhor das hipóteses, indiferença dos outros. Jung escreve que a natureza não se preocupa com nada que diga respeito a um nível mais elevado de consciência, muito pelo contrário. Logo, a sociedade não valoriza em demasia essas proezas da psique e seus prêmios são sempre dados a realizações e não à personalidade. Esta última será, na maioria das vezes, recompensada postumamente.

Cada estágio, no processo de Individuação, é acompanhado de dificuldades. Primeiramente, há o perigo da identificação com a Persona. Aqueles que se identificam com a Persona podem tentar tornar-se perfeitos demais, incapazes de aceitar seus erros ou fraquezas, ou quaisquer desvios de sua auto-imagem idealizada. Aqueles que se identificam totalmente com a Persona tenderão a reprimir todas as tendências que não se ajustam, e a projetá-las nos outros, atribuindo a eles a tarefa de representar aspectos de sua identidade negativa reprimida.

A Sombra pode ser também um importante obstáculo para a Individuação. As pessoas que estão inconscientes de suas sombras, facilmente podem exteriorizar impulsos prejudiciais sem nunca reconhecê-los como errados. Quando a pessoa não chegou a tomar conhecimento da presença de tais impulsos nela mesma, os impulsos iniciais para o mal ou para a ação errada são com freqüência justificados de imediato por racionalizações. Ignorar a Sombra pode resultar também numa atitude por demais moralista e na projeção da Sombra em outros. Por exemplo, aqueles que são muito favoráveis à censura da pornografia tendem a ficar fascinados pelo assunto que pretendem proibir; eles podem até convencer-se da necessidade de estudar cuidadosamente toda a pornografia disponível, a fim de serem censores eficientes.

O confronto com a Anima ou o Animus traz, em si, todo o problema do relacionamento com o inconsciente e com a psique coletiva. A Anima pode acarretar súbitas mudanças emocionais ou instabilidade de humor num homem. Nas mulheres, o Animus freqüentemente se manifesta sob a forma de opiniões irracionais, mantidas de forma rígida. (Devemos nos lembrar de que a discussão de Jung sobre Anima e Animus não constitui uma descrição da masculinidade e da feminilidade em geral. O conteúdo da Anima ou do Animus é o complemento de nossa concepção consciente de nós mesmos como masculinos ou femininos, a qual, na maioria das pessoas, é fortemente determinada por valores culturais e papéis sexuais definidos em sociedade.)

Quando o indivíduo é exposto ao material coletivo, há o perigo de ser engolido pelo inconsciente. Segundo Jung, tal ocorrência pode tomar uma de duas formas. Primeiro, há a possibilidade da inflação do Ego, na qual o indivíduo reivindica para si todas as virtudes da psique coletiva. A outra reação é a de impotência do Ego; a pessoa sente que não tem controle sobre a psique coletiva e adquire uma consciência aguda de aspectos inaceitáveis do inconsciente-irracionalidade, impulsos negativos e assim por diante.

Assim como em muitos mitos e contos de fadas, os maiores obstáculos estão mais próximos do final. Quando o indivíduo lida com a Anima e o Animus, uma tremenda energia é libertada. Esta energia pode ser usada para construir o Ego ao invés de desenvolver o Self. Jung referiu-se a este fato como identificação com o Arquétipo do Self, ou desenvolvimento da personalidade-mana (mana é uma palavra malanésica que significa a energia ou o poder que emana das pessoas, objetos ou seres sobrenaturais, energia esta que tem uma qualidade oculta ou mágica). O Ego identifica-se com o Arquétipo do homem sábio ou mulher sábia aquele que sabe tudo. A personalidade-mana é perigosa porque é excessivamente irreal. Indivíduos parados neste estágio tentam ser ao mesmo tempo mais e menos do que na realidade são. Eles tendem a acreditar que se tornaram perfeitos, santos ou até divinos, mas, na verdade, menos, porque perderam o contato com sua humanidade essencial e com o fato de que ninguém é plenamente sábio, infalível e sem defeitos.

Jung viu a identificação temporária com o Arquétipo do Self ou com a personalidade-mana como sendo um estágio quase inevitável no processo e Individuação. A melhor defesa contra o desenvolvimento da inflação do Ego é lembrarmo-nos de nossa humanidade essencial, para permanecermos assentados na realidade daquilo que podemos e precisamos fazer, e não na que deveríamos fazer ou ser.

A Estrutura da Alma

Como reflexo do mundo e do homem, a alma é de tal complexidade que pode ser observada e analisada a partir de um sem-número de ângulos. Com a psique acontece justa­mente o mesmo que acontece com o mundo: porque uma sistemática do mundo está fora do alcance humano, temos de nos contentar com simples normas artesanais e aspectos de interesse particular. Cada um elabora para si seu próprio segmento do mundo e com ele constrói seu sistema privado para seu próprio mundo, muitas vezes cercado de paredes estanques, de modo que, algum tempo depois, parece-lhe ter apreendido o sentido e a estrutura do mundo. Ora, o finito não pode jamais apreender o infinito. Embora o mundo dos fenômenos psíquicos seja apenas uma parte do mundo como um todo, é justamente por esta razão que parece mais fácil apreender uma parte do que o mundo inteiro. Mas deste modo estar-se-ia esquecendo que a alma é o único fenômeno imediato deste mundo percebido por nós e por isto mesmo a condição indispensável de toda experiência em relação ao mundo.

As únicas coisas do mundo que podemos experimentar diretamente são os conteúdos da consciência. Não que eu pretenda reduzir o mundo a uma idéia, a uma representação do mundo, mas o que eu quero enfatizar é como se eu dissesse que a vida é uma função do átomo do carbono. Esta analogia mostra-nos claramente as limitações da ótica do profissional à qual eu sucumbo, ao procurar dar alguma explicação do mundo ou mesmo uma parte dele.

Meu ponto de vista é, naturalmente, o ponto de vista psicológico, e mais especificamente o do psicólogo prático cuja tarefa é encontrar, o mais depressa possível, uma via de saída da confusão caótica dos complicados estados psíquicos. Meu ponto de vista deve, necessariamente, diferir daquele do psicólogo que pode analisar experimentalmente um processo psíquico isolado, com toda calma, no silêncio do laboratório. A diferença é mais ou menos aquela que há entre o cirurgião e o histólogo. Também não sou um metafísico cuja tarefa é dizer o que as coisas são em si e por si, e se elas são absolutas ou algo semelhante. Os objetos de que me ocupo situam-se todos dentro dos limites do experimentável.

Minha necessidade consiste sobretudo em apreender condições complexas e ser capaz de falar sobre elas. Devo ser capaz de expressar coisas complicadas em linguagem acessível e distinguir entre vários grupos de fatos psíquicos. Estas distinções não podem ser arbitrárias, porque devo chegar a um entendimento com o objeto de que me ocupo, isto é, com meu paciente. Por isto, devo recorrer sempre ao emprego de esquemas simples que, de um lado, reconstitui os fatos empíricos e, de outro lado, se liga àquilo que é universalmente conhecido e assim encontra compreensão.

Estando para classificar em grupos, os conteúdos da consciência, começamos, segundo a antiga norma, com a proposição: “Nihil est in intellectu, quod non antea fuerit in sensu” [“O intelecto só contém o que passou pelos sentidos”].

Parece que o consciente flui em torrentes para dentro de nós, vindo de fora sob a forma de percepções sensoriais. Nós vemos, ouvimos, apalpamos e cheiramos o mundo, e assim temos consciência do mundo. Estas percepções sensoriais nos dizem que algo existe fora de nós. Mas elas não nos dizem o que isto seja em si. Isto é tarefa, não do processo de percepção, mas do processo de apercepção. Este último tem uma estrutura altamente complexa. Não que as percepções senso­riais sejam algo simples; mas sua natureza complexa é menos psíquica do que fisiológica. A complexidade da apercepção, pelo contrário, é psíquica. Podemos identificar nela a cooperação de diversos processos psíquicos. Suponhamos ouvir um ruído cuja natureza nos pareça desconhecida. Depois de algum tempo, percebemos claramente que o ruído peculiar deve provir das bolhas de ar que sobem pela tubulação da central de aquecimento. Isto nos permite reconhecer o ruído. Este reconhecimento deriva de um processo que denominamos de pensamento. É o pensamento que nos diz o que a coisa é em si.

Falei acima em ruído “peculiar”. Quando qualifico qualquer coisa como “peculiar”, eu me refiro a uma tonalidade afetiva especial que a coisa tem. A tonalidade afetiva implica uma avaliação

Podemos conceber o processo de reconhecimento essencialmente como uma comparação e uma diferenciação com o auxílio da memória. Quando vejo o fogo, por ex., o estímulo luminoso me transmite a idéia de fogo. Como existem inúmeras imagens recordativas do fogo em minha memória, estas imagens entram em combinação com a imagem do fogo que acaba de ser recebida, e a operação de compará-la e diferenciá-la dessas imagens de recordação produz o reconhecimento, isto é, a constatação definitiva da peculiaridade da imagem há pouco adquirida. Em linguagem ordinária, este processo denomina-se pensamento.

O processo de avaliação é diferente: o fogo que eu vejo provoca reações emocionais de natureza agradável ou desagradável, e as imagens de recordação assim estimuladas trazem consigo fenômenos emocionais concomitantes denominados tonalidades afetivas. Deste modo um Objeto nos parece agradável, desejável, belo ou desagradável, feio, repelente, etc. Em linguagem ordinária este processo se chama sentimento.

O processo intuitivo não é uma percepção sensorial nem um pensamento, nem também um sentimento, embora a linguagem, aqui, apresente uma lacuna lamentável de discriminação. Com efeito: alguém pode exclamar: “Oh, estou vendo a casa inteira queimando!” Ou: “E tão certo como dois e dois são quatro que haverá um desastre, se o fogo irromper aqui”. Ou: “Eu tenho a sensação de que este fogo ainda poderá levar a uma catástrofe”. De acordo com o respectivo temperamento, o primeiro falará de sua intuição como sendo um ato de ver bem nítido, ou seja, faz dele uma percepção sensorial. O outro a designará como pensamento: “Basta só refletir, para ver claramente quais serão as conseqüências”, dirá ele. O terceiro, afinal, sob a impressão de seu estado emocional, dirá que sua intuição é um processo de sentir, mas a intuição, segundo meu modo de ver, é uma das funções básicas da alma, ou seja, a percepção das possibilidades inerentes a uma dada situação. É bem provável que o fato de os conceitos de sentimento, sensação e intuição serem usados indistintamente no alemão se deva a um desenvolvimento insatisfatório da língua, ao passo que sentiment e sensation, do francês, e feeling e sensation, do inglês, são absolutamente distintos, embora sentiment e feeling sejam empregados às vezes como palavras auxiliares para intuição (intuition). Recentemente, porém, o termo intuition começou a ser usado comumente na língua inglesa usual.

Outros conteúdos da consciência que podemos distinguir são os processos volitivos e os processos instintivos. Os primeiros são definidos como impulsos dirigidos, resultantes de processos aperceptivos cuja natureza fica à disposição do chamado livre-arbítrio. Os segundos são impulsos que se originam no inconsciente ou diretamente no corpo e se caracterizam pela ausência de liberdade ou pela compulsividade.

Os processos aperceptivos podem ser dirigidos ou não dirigidos. No primeiro caso falamos de atenção, e no segundo, de fantasias ou sonhos. Os processos dirigidos são racionais, os não dirigidos irracionais. Entre estes últimos se inclui o sonho como a sétima categoria dos conteúdos da consciência. Sob certos aspectos, os sonhos se assemelham às fantasias conscientes, pelo fato de terem caráter irracional, não dirigido. Mas os sonhos se distinguem das fantasias na medida em que suas causas, seu curso e seu objetivo são obscuros, à primeira vista, para a nossa compreensão. Mas eu lhes atribuo a dignidade de categoria de conteúdo da consciência, porque são a resultante mais importante e mais evidente de processos psíquicos inconscientes que ainda estão penetrando no campo da consciência. Acredito que estas sete classes dão uma idéia dos conteúdos da consciência, superficial embora, mas suficiente para os nossos objetivos.

Existem, como se sabe, certos pontos de vista que pretendem restringir todo o psíquico à consciência, como sendo idêntico a ela. Não acredito que isto seja suficiente. Se admitirmos que há certas coisas que transcendem nossa percepção sensorial, então podemos falar também do psíquico cuja existência só nos é acessível por via indireta. Para quem conhece a psicologia do hipnotismo e do sonambulismo, é fato corri­queiro que, embora uma consciência artificialmente ou patologicamente restringida desta espécie não contenha determinadas idéias, contudo ela se comporta exatamente como se as contivesse. Havia, por ex., uma pessoa histericamente surda que costumava cantar. Um dia o médico sentou-se ao piano, sem que a paciente notasse, e se pôs a acompanhar o verso seguinte, em uma nova tonalidade. Imediatamente a paciente continuou a cantar na nova tonalidade. Um outro paciente tinha a singularidade de cair em convulsões “hístero-epiléticas” à vista do fogo. Tinha um campo de visão notadamente limitado, isto é, sofria de cegueira periférica (tinha o que se chama campo de visão “tubular”). Se alguém colocasse um foco luminoso na zona cega, ocorria o ataque exatamente como se ele tivesse visto a chama. Na sintomatologia desses estados patológicos há inúmeros casos desta espécie, nos quais, apesar da melhor boa vontade, só se pode dizer que estas pessoas percebem, pensam, sentem, recordam-se, decidem e agem inconscientemente, ou seja, fazem inconscientemente o que outros fazem de maneira consciente. Estes processos ocorrem independentemente de saber se a consciência os percebe ou não.

Estes processos psíquicos incluem, portanto, o trabalho não desprezível de composição que está na origem dos sonhos. Embora o sono seja um estado em que a consciência se acha consideravelmente limitada, contudo o elemento psíquico não deixa absolutamente de existir e de agir. A consciência apenas se retirou dele, e na falta de um objeto em que se concentrar, caiu em um estado relativo de inconsciência. Mas a vida psíquica, evidentemente, continua da mesma forma como há vida psíquica inconsciente durante o estado de vigília. Não é difícil encontrar as provas neste sentido. Este campo particular de experiência equivale ao que Freud descreve como “a psicopatologia do dia-a-dia”. Ele mostrou que nossas intenções e ações conscientes muitas vezes são frustradas por processos inconscientes, cuja existência é verdadeira surpresa para nós mesmos. Nós cometemos lapsos de linguagem, lapsos de escrita, e inconscientemente fazemos coisas que traem justamente aquilo que gostaríamos de manter o mais secretamente possível ou que nos é até mesmo totalmente desconhecido. “Língua lapsa verum dicit”, diz um antigo provérbio. É sobre a freqüência destes fenômenos que se baseia o experimento das associações utilizado no diagnóstico e que pode ser de grande proveito quando o paciente não pode ou não quer dizer nada.

É nos estados patológicos que podemos encontrar os exemplos clássicos da atividade psíquica inconsciente. Quase toda a sintomatologia da histeria, das neuroses compulsivas, das fobias e, em grande parte, também da dementia praecox ou esquizofrenia, a doença mental mais comum, tem suas raízes na atividade psíquica inconsciente. Por isto estamos autoriza­dos a falar da existência de uma alma inconsciente. Todavia, esta alma não é diretamente acessível à nossa observação – do contrário não seria inconsciente! – mas só pode ser deduzida. E nossa conclusão pode apenas dizer: “é como se…”.

O inconsciente também faz parte da alma. Podemos agora falar de conteúdos do inconsciente, em analogia com os diferentes conteúdos da consciência? Isto equivaleria a postular, por assim dizer, um outro estado de consciência dentro do inconsciente. Não quero entrar aqui nesta delicada questão que tratei em outro contexto, mas quero me limitar à questão se podemos diferenciar ou não o que quer que seja no inconsciente. Esta questão só pode ser respondida empiricamente, ou seja, com a contrapergunta se há elementos plausíveis ou não para uma tal diferenciação.

Para mim não há a menor dúvida de que todas as atividades que se efetuam na consciência podem processar-se também no inconsciente. Há inúmeros exemplos em que um problema intelectual sem solução no estado de vigília foi resolvido durante em sonhos Conheço um contabilista, por ex., que durante vários dias tentou, em vão, esclarecer uma falência fraudulenta. Certo dia trabalhou até meia-noite, sem encontrar a solução, e em seguida foi dormir. Às três horas da madrugada, sua mulher o viu levantar-se e dirigir-se ao seu gabinete de trabalho. Ela o seguiu e o viu tomando notas afanosamente em sua mesa de trabalho. Mais ou menos após um quarto de hora ele voltou ao leito. Na manhã seguinte ele não se lembrava de nada. Pôs-se de novo a trabalhar e descobriu uma série de notas, escritas de próprio punho, que esclareciam total e definitivamente todo o emaranhado do caso.

Em minha atividade prática tenho me ocupado de sonhos há mais de vinte anos. Vezes e mais vezes tenho visto como idéias que não foram pensadas durante o dia, sentimentos que não foram experimentados, depois emergiam nos sonhos e deste modo atingiam a consciência. Mas o sonho como tal é um conteúdo da consciência, pois do contrário não poderia ser objeto da experiência imediata. Mas visto que ele traz à tona materiais que antes eram inconscientes, somos forçados a admitir que estes conteúdos já possuíam uma existência psíquica qualquer em um estado inconsciente e somente durante o sonho é que apareceram à consciência restrita, ao chamado “remanescente da consciência”. O sonho pertence aos conteúdos normais da psique e poderia ser considerado como uma resultante de processos inconscientes, a irromper na consciência.

Se, porém, com base na experiência, somos levados a admitir que todas as categorias de conteúdos da consciência podem, ocasionalmente, ser também inconscientes e atuar sobre a consciência como processos inconscientes, deparamo-nos com a pergunta, talvez inesperada, se o inconsciente tem sonhos também. Em outras palavras: há resultantes de processos ainda mais profundos e – se possível – ainda mais inconscientes que penetram nas regiões obscuras da alma! Eu deveria repelir esta pergunta paradoxal como demasiado aventurosa, se não houvesse realmente motivos que conduzem semelhante hipótese ao domínio do possível.

Devemos primeiramente ter diante dos olhos os elementos necessários para provar que o inconsciente tem sonhos também Se queremos provar que os sonhos ocorrem como conteúdos da consciência, devemos simplesmente demonstrar que há certos conteúdos que, pelo caráter e pelo sentido, são estranhos e não podem ser comparados aos outros conteúdos racionalmente explicáveis e compreensíveis. Se pretendemos mostrar que o inconsciente tem sonhos também, devemos fazer a mesma coisa com os seus conteúdos. O mais simples talvez seja apresentar um exemplo prático:

Trata-se de um oficial, de 27 anos de idade Ele sofria de violentos ataques de dores na região do coração, como se dentro houvesse um bolo, e de dores penetrantes no calcanhar esquerdo. Organicamente não se descobriu nada. Os ataques haviam começado cerca de dois meses antes e o paciente fora licenciado do serviço militar, em vista de sua incapacidade temporária para andar. Várias estações de cura de nada adiantaram. Uma investigação acurada sobre o passado de sua doença não me proporcionou nenhum ponto de referência, e o próprio paciente não tinha a mínima idéia do que poderia ser a causa de seu mal. Ele me dava a impressão de ser um tipo saudável, um tanto leviano e teatralmente meio “valentão”, como se quisesse,.dizer: “Nesta ninguém me apanha”. Como a anamnese nada revelasse, eu lhe fiz perguntas a respeito de seus sonhos. Imediatamente tornou-se evidente a causa de seus males. Pouco antes da neurose se manifestar, a moça que ele namorava rompeu com ele e noivara com outro. Ele me contou essa história, considerando-a sem importância – “uma mulher estúpida: se ela não me quer, eu arranjo outra – um homem como eu não se deixa abater por uma coisa destas”. Esta era a maneira pela qual ele tratava sua decepção e sua verdadeira dor. Mas agora seus afetos vêm à tona. E a dor do coração desaparece e o bolo que ele sentia na garganta desaparece depois de alguns dias de lágrimas. A “dor no coração” é uma expressão poética que aqui se tornou realidade, porque o orgulho de meu paciente não lhe permitia que ele sofresse sua dor como sendo uma dor da alma. O bolo que ele sentia na garganta, o chamado globus hystericus, provém, como todos sabemos, de lágrimas engolidas. Sua consciência simplesmente se retirou dos conteúdos que lhe eram penosos, e estes, entregues a si mesmos, só podiam alcançar a consciência indiretamente sob a forma de sintomas. Trata-se de processos inteira­mente compreensíveis por via racional e, conseqüentemente, de evidência imediata, os quais – se não tivesse sido o seu orgulho – poderiam igualmente transcorrer no plano da consciência.

E agora quanto ao terceiro sintoma: as dores que ele sentia no calcanhar não desapareceram. Elas não se enquadram na imagem que acabamos de esboçar. O coração não está ligado diretamente ao calcanhar e ninguém exprime sua dor por meio do calcanhar. Do ponto de vista racional não se vê a razão pela qual as duas outras síndromes não satisfaziam. Mesmo teoricamente, estaríamos inteiramente satisfeitos, se a tomada de consciência do sofrimento psíquico resultasse em dor normal e, conseqüentemente, em cura.

Como a consciência não podia me oferecer nenhum ponto de referência para o sintoma do calcanhar, recorri mais uma vez ao antigo método dos sonhos. O paciente teve um sonho em que se vira mordido por uma serpente e imediatamente ficara paralítico. Este sonho, evidentemente, trazia a interpretação do sintoma do calcanhar. O calcanhar lhe doía porque fora mordido por uma serpente. Tratava-se de um conteúdo estranho, com o qual a consciência racional nada sabia o que fazer. Pudemos entender, de imediato, a razão pela qual o coração lhe doía, mas o fato de o calcanhar também doer, ultrapassava qualquer expectativa racional. O paciente ficou completamente perplexo diante do caso.

Aqui, portanto, teríamos um conteúdo que irrompe na zona inconsciente, de maneira estranha, e provavelmente provém de uma camada mais profunda que já não pode ser esquadrinhada por via racional. A analogia mais próxima deste sonho é, evidentemente, a própria neurose. Ao rejeitá-lo, a moça provocou-lhe uma ferida que o paralisou e o pôs doente. Uma análise posterior do sonho revelou um novo pedaço de seu passado que então se tornou claro ao nosso paciente, pela primeira vez: ele fora o filho querido de uma mãe um tanto histérica. Ela tinha pena dele, admirava-o e paparicava-o em excesso, razão pela qual ele se criou com modos de mocinha. Mais tarde, de repente assume um porte viril e abraça a carreira militar, onde poderia encobrir sua moleza interior com suas exibições de “valentia”. Em certo sentido, a mãe também o paralisara.

Trata-se manifestamente daquela mesma antiga serpente que foi sempre amiga especial de Eva, “Ela te esmagará a cabeça, e tu (a serpente) lhe ferirás o calcanhar”, diz o Gênesis a respeito da descendência de Eva, fazendo eco a um hino egípcio muito mais antigo, que se costumava recitar ou cantar para curar mordidas de serpente:

A idade do deus fez sua boca se mover,

E jogou sua lança por terra,

E o que ela cuspia, caía no chão.

Isis amassou-o, então, com suas mãos

Juntamente com a terra que havia aí;

E com tudo isto formou um verme nobre,

E o fez semelhante a um dardo.

Ela não o enrolou sem vida em torno de seu rosto,

Mas o atirou enrolado sobre o caminho

Pelo qual o Grande Deus costumava andar

À vontade, através de seus dois reinos.

O nobre deus avançava resplendente,

Os deuses que serviam o faraó acompanhavam-no,

E ele seguia em frente, como acontecia todos os dias.

Então o nobre verme picou-o.

Suas maxilas começaram a bater

E todos os seus membros tremiam.

E o veneno invadiu sua carne,

Como o Nilo invade seu território.

Os conhecimentos bíblicos conscientes de meu paciente consistiam em um mínimo lamentável. Provavelmente um dia ele ouvira distraidamente falar de uma serpente que mordia o calcanhar e, em seguida, a esqueceu. Mas algo de profundo em seu inconsciente o ouviu e não o esqueceu, mas na ocasião oportuna o recordou: um pedaço de seu inconsciente, que evidentemente gostava de se expressar mitologicamente, porque este modo de expressão estava em consonância com sua natureza.

Mas a que tipo de mentalidade corresponde a maneira de expressar simbólica ou metafórica? Ela corresponde a mentalidade do homem primitivo, cuja linguagem não possui termos abstratos, mas apenas analogias naturais e “não-naturais”. Esta mentalidade da venerável antiguidade é tão estranha àquela psique que produz dores do coração e o bolo na garganta quanto um brontossauro a um cavalo de corrida. O sonho da serpente nos revela um fragmento daquela atividade psíquica, que não tem mais nada a ver com a moderna individualidade do sonhador. Ela se processa, por assim dizer, como que “numa camada mais profunda, e somente suas resultantes emergem em uma camada superior onde jazem os afetos reprimidos, tão estranhos para elas quanto um sonho para a consciência. E da mesma forma como precisamos de empregar uma certa técnica analítica para entender um sonho, assim também necessitamos de conhecimento da mitologia para apreender o sentido de um fragmento que surge de uma camada mais profunda.

O tema da serpente, por certo, não era uma aquisição individual do sonhador, pois os sonhos com serpentes são muito comuns, mesmo entre os habitantes das grandes cidades, dos quais muitos provavelmente nunca viram uma serpente verdadeira.

Mas poder-se-ia objetar que a serpente no sonho nada mais é do que uma figura de linguagem concretizada. Ora, a respeito de certas mulheres dizemos que são falsas como serpentes; falamos da serpente da tentação, etc. Esta objeção me parece quase inaceitável no presente caso, mas é difícil encontrar uma prova mais rigorosa, porque a serpente é realmente uma figura de linguagem muito comum, mas só seria possível uma prova mais precisa, se pudéssemos encontrar um caso em que o simbolismo mitológico não fosse uma figura de linguagem comum ou uma criptomnésia, isto é, um caso em que o sonhador nunca tivesse lido, visto ou ouvido, em qualquer parte ou de algum modo, acerca do tema em questão, e depois o tivesse esquecido e de novo o tivesse lembrado inconscientemente. Esta prova me parece de grande importância, pois ela nos mostraria que o inconsciente racional seria uma atividade psíquica que é independente da alma consciente e até mesmo da camada superior inconsciente, e continua não tocada – e talvez intocável – pela experiência pessoal, uma espécie de atividade psíquica supra-individual, um inconsciente coletivo, como o chamei, para distingui-lo de um inconsciente superficial, relativo ou pessoal.

Mas antes de sairmos a procura desta prova, eu gostaria, para sermos completos, de fazer ainda algumas observações complementares ao sonho com a serpente. A impressão que se tem é de que essas camadas hipotéticas mais profundas do inconsciente – o inconsciente coletivo – traduzem as experiências com mulheres em mordida de serpente no sonho, transformando-as, assim, em temas mitológicos. O motivo – ou melhor, o objetivo disto – nos parece obscuro à primeira vista, mas se nos recordarmos do princípio fundamental segundo o qual a sintomatologia de uma doença, é, ao mesmo tempo, uma tentativa natural de cura – as dores do coração por exemplo, são uma tentativa de produzir uma explosão emocional – então devemos considerar o sintoma do calcanhar, também como uma espécie de tentativa de cura. Como nos mostra o sonho, não é somente a decepção recente no amor, mas também todas as outras decepções na escola e em outras situações que este sintoma eleva ao mesmo tempo ao nível de um acontecimento mítico, como se isto de algum modo pudesse ajudar o paciente.

Isto talvez nos pareça simplesmente inacreditável, mas os sacerdotes-médicos do antigo Egito que entoavam o hino da serpente de Isis sobre a mordida da serpente, acreditavam nesta, teoria; e não somente eles, mas todo o mundo antigo acreditava, como o primitivo ainda hoje acredita na magia por analogia – pois trata-se aqui do fenômeno psíquico que está na raiz da magia por analogia.

Não devemos pensar que isto seja uma antiga superstição que ficou bem para trás no tempo. Se lermos atentamente os textos latinos do missal, toparemos constantemente com o famoso sicut que introduz sempre uma analogia mediante a qual se deve produzir uma mudança. Exemplo impressionante de analogia era a produção do fogo sagrado no Sabbatum sanctum [Vigília pascal]. Antigamente, como se sabe, obtinha-se o fogo, nesta ocasião, golpeando-se uma pedra – e, mais antigamente ainda, perfurando-se uma peça de madeira, o que era uma prerrogativa da Igreja. Por isto, o sacerdote pronunciava a seguinte oração: “Deus, qui per Filium tuum, angularem scilicet lapidem, claritatis tuae ignem fidelibus contulisti: productum e silice, nostris profuturum usibus, novum hunc ignem sanctifica”: “Ó Deus, que por vosso Filho, Pedra angular da Igreja, acendestes nos corações de vossos fiéis o fogo de vossa claridade, santificai este fogo novo, que da pedra retiramos para nosso uso”. Pela analogia com o Cristo como pedra angu­lar, o fogo retirado da pedra é de certo modo elevado ao nível de Cristo, que, por sua vez, acende um novo fogo.

O racionalista pode rir-se destas coisas. Mas há algo de profundo que foi tocado dentro de mim, e não somente dentro de mim, mas dentro de milhões de cristãos, chamemos a isto de beleza ou não. Mas o que foi tocado dentro de nós foram aqueles elementos de fundo, aquelas formas imemoriais do espírito humano que nós próprios não adquirimos, mas herdamos desde épocas que se perdem nas brumas do passado.

Se existisse esta alma supra-individual, tudo o que é traduzido em sua linguagem figurada perderia o caráter pessoal, e se se tornasse consciente, vê-lo-íamos sub specie aeternitatis [sob a figura da eternidade], não mais como o meu sofrimento, mas como o sofrimento do mundo, não mais como uma dor pessoal e isoladora, mas como uma dor sem amargura, unindo-nos a todos os homens. Não precisamos de procurar provas para demonstrar que isto teria efeito curativo.

Mas quanto a saber se, de fato, existe esta alma supra-individual, até agora não apresentei nenhuma prova que satisfaça a todas as exigências. Eu gostaria de o fazer, mais uma vez, sob a forma de um exemplo: Trata-se de um doente mental de seus trinta anos de idade, que sofria de uma forma paranóide de dementia praecox (esquizofrenia). Adoeceu desde cedo, quando mal entrava na casa de seus vinte anos. Apresentou sempre uma estranha mistura de inteligência, obstinação e idéias fantasistas. Fora simples escriturário, empregado de um consulado. Evidentemente, como compensação para sua existência extremamente modesta, adoeceu de megalomania e acreditava que era o Salvador. Sofria de freqüentes alucinações por certos períodos ficava muito agitado. Nos períodos de calma, podia circular livremente pelo corredor do hospital, Certo dia o encontrei aí, piscando as pálpebras para o sol através da janela e movendo curiosamente a cabeça para um lado e para outro. Logo me pegou pelo braço, querendo me mostrar alguma coisa. Dizia-me que eu devia piscar as pálpebras, olhando para o sol; que eu então poderia ver o pênis do sol. Se eu movesse a cabeça de um lado para o outro, eu também veria o pênis do sol, e esta era a origem do vento.

Eu fiz esta observação cerca do ano de 1906. No decorrer de 1910, quando eu estava absorvido nos estudos mitológicos, caiu-me nas mãos um livro de Dieterich, tradução de uma parte do chamado Papiro Mágico de Paris. Dieterich considerava o texto estudado e traduzido por ele como uma liturgia do culto de Mitra. Consiste o mesmo em uma série de prescrições, de invocações e visões. Uma destas visões é descrita com as seguintes palavras: “Da mesma maneira, ver-se-á também, o chamado tubo, origem do vento de serviço. Tu verás, com efeito, uma espécie de tubo pendendo do disco solar, e de tal modo que, em direção às regiões do ocidente sopra um vento infinito; mas quando é o outro vento que sopra na dire­ção das regiões do leste, observarás, da mesma maneira, que a visão voltar-se-á nesta mesma direção”. O termo grego para tubo, significa instrumento de sopro, e na combinação, em Homero, significa “forte jorro de sangue”. Evidentemente uma corrente de vento sopra através do tubo que sai do sol.

A visão de meu paciente, no ano de 1906, e o texto grego editado somente em 1910 se achavam suficientemente separados no tempo, de modo a excluir a possibilidade de uma criptomnésia de sua parte e uma transmissão de pensamento, da minha. Não se pode negar o paralelismo evidente entre as duas visões, mas poderíamos afirmar que se trata de uma semelhança meramente casual. Neste caso, não poderíamos esperar nem conexões com idéias análogas nem um sentido íntimo da visão. Esta expectativa, porém, não se concretizou, porque em certas pinturas da Idade Média este tubo é representado, inclusive, sob a forma de mangueira de regar que pende do céu e penetra por baixo das vestes de Maria, no momento da Anunciação, e o Espírito Santo aparece descendo por ele, sob a forma de pomba, para fecundar a Virgem. Como sabemos pelo milagre de Pentecostes, o Espírito Santo é representado, desde os tempos antigos, como um vento impetuoso, o – “o vento sopra onde quer –  [Jó 3,8]. “Animo descensus per orbem solis tribuitur”: diz-se que o Espírito desce pelo círculo do sol. Esta concepção é comum a toda a filosofia clássica tardia e medieval.

Não consigo, portanto, descobrir nada de casual nestas visões, mas simplesmente o ressurgimento de possibilidades, de idéias que sempre existiram e que podem ser descobertas de novo nas mais diversas mentes e épocas, não sendo, portanto, idéias  herdadas!

Entrei propositadamente nas particularidades deste caso, para oferecer uma visão concreta daquela atividade psíquica mais profunda qual seja o inconsciente coletivo. Resumindo, gostaria, portanto, de observar que devemos distinguir, por assim dizer, três níveis psíquicos, a saber: 1) a consciência; 2) o inconsciente pessoal que se compõe, primeiramente, daqueles conteúdos que se tornam inconscientes, seja porque perderam sua intensidade e, por isto, caíram no esquecimento, seja porque a consciência se retirou deles (é a chamada repressão) e, depois, daqueles conteúdos, alguns dos quais percepções sensoriais, que nunca atingiram a consciência, por causa de sua fraquíssima intensidade, embora tenham penetrado de algum modo na consciência e 3) o inconsciente coletivo, que, como herança imemorial de possibilidades de representação, não é individual, mas comum a todos os homens e mesmo a todos os animais, e constitui a verdadeira base do psiquismo .individual.

Todo este organismo psíquico corresponde perfeitamente ao corpo que, embora varie sempre de indivíduo para indivíduo, é, ao mesmo tempo e em seus traços essenciais básicos, o corpo especificamente humano que todos temos e que em seu desenvolvimento e em sua estrutura conserva vivos aqueles elementos que o ligam aos invertebrados e, por último, até mesmo aos protozoários. Teoricamente deveria ser possível extrair, de novo, das camadas do inconsciente coletivo não só a psicologia do verme, mas até mesmo a da ameba.

Todos estamos convencidos de que seria totalmente impossível entender o organismo vivo sem considerar sua relação com as condições ambientais. Há um sem-número de fatos biológicos que só podemos explicar como reações ao meio ambiente; assim, por ex., a cegueira do proteus anguinus [espécime dos proteídos], as peculiaridades dos parasitas intestinais, a anatomia específica dos vertebrados que reverteram à vida aquática.

O mesmo se pode dizer a respeito da alma. A sua organização peculiar deve estar intimamente ligada às condições ambientais. Esperaríamos que a consciência reaja e se adapte ao presente, porque a consciência é, por assim dizer, aquela parte da alma que tem a ver, sobretudo, com fatos do momento, ao passo que do inconsciente coletivo, como psique atemporal e universal, esperaríamos reações às condições mais universais e permanentes, de caráter psicológico, fisiológico e físico.

O inconsciente coletivo– até onde nos é possível julgar parece ser constituído de algo semelhante a temas ou imagens de natureza mitológica, e, por esta razão, os mitos dos povos são os verdadeiros expoentes do inconsciente coletivo. Toda a mitologia seria uma espécie de projeção do inconsciente coletivo. É no céu estrelado cujas formas caóticas foram organizadas mediante a projeção de imagens, que vemos isto o mais claramente possível. Isto explica as influências dos astros, afirmadas pela Astrologia: estas influências mais não seriam do que percepções introspectivas inconscientes da atividade do inconsciente coletivo. Do mesmo modo como as constelações foram projetadas no céu, assim, também outras figuras semelhantes foram projetadas nas lendas e nos contos de fadas ou em personagens históricas. Por isso, podemos estudar o inconsciente coletivo de duas maneiras: na mitologia ou na análise do indivíduo. Como não posso colocar este último material ao alcance dos leitores, devo limitar-me à mitologia. Mas a mitologia, por sua vez, é um campo tão vasto, que só posso destacar apenas alguns casos mais representativos. Da mesma forma, as condições ambientais são tão numerosas e variadas, que aqui também só podemos tomar apenas alguns exemplos mais ilustrativos.

Da mesma forma que o organismo vivo com suas características especiais constitui um sistema de funções de adaptação às condições ambientais, assim também a alma deve apresentar aqueles órgãos ou sistemas de funções que correspondem a acontecimentos físicos regulares. Não me refiro às funções sensoriais que dependem de órgãos, mas, antes, a uma espécie de fenômenos psíquicos paralelos aos fatos físicos regulares. Para tomarmos um exemplo: o curso diário do sol e o alternar-se regular dos dias e das noites deveriam refletir-se na psique sob a forma de imagem gravada aí desde tempos imemoriais. Não podemos demonstrar a existência de uma tal imagem, mas, em compensação, descobrimos analogias mais ou menos fantásticas do processo físico: cada manhã um herói divino nasce do mar e sobe no carro do Sol. No ocidente, espera-o uma Grande Mãe, que o devora, assim que anoitece. No ventre de um dragão o herói atravessa o fundo do mar da meia-noite. Depois de um combate terrível com a serpente noturna, ele renasce na manhã seguinte.

Este conglomerado mítico contém, sem dúvida, um reflexo do processo físico, e isto é tão óbvio, que muitos pesquisadores, como se sabe, admitem que os primitivos inventaram tais mitos para explicar globalmente os processos físicos. Pelo menos é fora de dúvida que as Ciências e a Filosofia Natural nasceram deste solo nativo, mas que o primitivo tenha imaginado estas coisas apenas por necessidade de explicação, como uma espécie de teoria física ou astronômica, me parece sumamente improvável.

O que podemos dizer sobre as imagens míticas é, em primeiro lugar, que o processo físico penetrou na psique claramente sob esta forma fantástica e distorcida e aí se conservou, de sorte que o inconsciente ainda hoje reproduz imagens semelhantes. Naturalmente neste ponto surge a pergunta: por que a psique não registra o processo natural, mas unicamente as fantasias em torno do processo físico?

Se nos transportarmos para a mente do primitivo, imediatamente compreenderemos a razão pela qual isto acontece. Com efeito, ele vive num tal estado de participation mystique, como Lévy-Bruhl chamou este fato psicológico, que entre o sujeito e o objeto não há aquela distinção absoluta que se encontra em nossa mente racional. O que acontece fora, acontece também dentro dele, e o que acontece dentro dele, acontece também fora. Presenciei um belo exemplo deste fato quando estive entre os Elgônis, uma tribo primitiva de Monte Elgon, na África oriental. Eles costumam cuspir nas mãos, ao nascer do Sol, e voltam as palmas em direção a este, quando se ergue sobre o horizonte. Como a palavra athísta significa, ao mesmo tempo, Deus e Sol, eu lhes perguntei: “O Sol é Deus?” Eles me responderam: “não”, com uma gargalhada, como se eu tivesse perguntado alguma coisa particularmente estúpida. Como neste preciso momento o Sol se achava a pino no céu, apontei para ele e perguntei: “Quando o Sol está aqui, vós dizeis que ele não é Deus, mas quando está no poente, dizeis que é Deus”. Fez-se um silêncio embaraçoso, até que um velho chefe tomou a palavra e disse: “É isto mesmo. É verdade: quando o Sol está aqui em cima, não é Deus, mas quando se põe, é Deus (ou então será Deus)”. Para a mente do primitivo é indiferente qual das duas versões seja a correta. O nascer do Sol e o sentimento da própria libertação constituem para ele um só e mesmo evento divino, da mesma forma que a noite e seus temores são uma só e mesma coisa. Sua emoção lhe diz muito mais do que a Física, por isto ele registra suas fantasias emocionais. Para ele, portanto, a noite significa a serpente e o sopro frio dos espíritos, enquanto a manhã é o nascimento de um belo deus.

Da mesma forma como existem teorias mitológicas que pretendem explicar todas as coisas como tendo provindo do Sol, assim também existem teorias lunares que fazem o mesmo em relação à Lua. Isto se deve simplesmente ao fato de que existem realmente inúmeros mitos lunares entre os quais toda uma série em que a Lua é a mulher do Sol. A Lua é a experiência mutável da noite. Por isto ela coincide com a experiência sexual do primitivo, coincide com a mulher que é para ele também a experiência da noite. Mas a Lua pode também ser a irmã inferiorizada do Sol, pois durante a noite os pensamentos maus e emocionais de poder e vingança perturbam o sono. A Lua é perturbadora do sono; e é também um receptáculo das almas separadas, pois os mortos voltam de noite, durante os sonhos, e os fantasmas do passado aparecem terrificantes durante a insônia. Assim, a Lua significa também a loucura (lunacy). São experiências desta natureza que se gravaram na alma, em lugar da imagem mutável da Lua.

Não são as tempestades, não são os trovões e os relâmpagos, nem a chuva e as nuvens que se fixam como imagens na alma, mas as fantasias causadas pelos afetos. Certa vez assistia a um violento terremoto, e minha primeira e imediata sensação era a de que eu não estava mais na terra sólida e familiar, mas sobre a pele de um gigantesco animal que sacolejava sob meus pés. Foi esta a imagem que se gravou e não o fato físico. As maldições do homem contra os temporais, seu medo perante os elementos desencadeados antropomorfizam a paixão da natureza, e o elemento puramente físico se transforma em um deus furioso.

Da mesma maneira que as condições do meio ambiente, as condições fisiológicas, também as pulsões glandulares provocam fantasias carregadas de afetos. A sexualidade aparece como um deus da fertilidade, como um demônio feminino ferozmente sensual, como o próprio diabo, com pernas caprinas dionisíacas e gestos obscenos, ou como uma serpente terrificante que procura sufocar suas vítimas até a morte.

A fome transforma os alimentos em deuses, e certas tribos de índios do México chegam mesmo a dar férias anualmente a seus deuses para se recuperarem, privando-os dos alimentos costumeiros por um certo tempo. Os antigos faraós eram venerados como comedores dos deuses. Osíris era o trigo, o filho da terra, e por isto as hóstias até o presente devem ser feitas de farinha de trigo, isto é, representam um deus que será comido, como o fora laços, o misterioso deus dos mistérios eleusinos. O touro de Mitra representa a fertilidade alimentar da terra.

As condições psicológicas do meio ambiente naturalmente deixam traços míticos semelhantes atrás de si. Situações perigosas, sejam elas perigos para o corpo ou ameaças para a alma, provocam fantasias carregadas de afeto, e na medida em que tais situações se repetem de forma típica, dão origem a. arquétipos, nome que eu dei aos temas míticos similares em geral.

Dragões habitam junto aos cursos de água, de preferência nos baixios ou outras passagens perigosas; djinns e outros demônios moram em desertos áridos ou em desfiladeiros perigosos; os espíritos dos mortos vivem nas moitas sinistras das florestas de bambu; ondinas traiçoeiras e serpentes aquáticas habitam nas profundezas do mar ou nos sorvedouros das águas. Poderosos espíritos dos ancestrais ou deuses moram em pessoas importantes, e os poderes mortais dos fetiches residem em qualquer coisa estranha ou extraordinária. A doença e a morte nunca são devidas a causas naturais, mas são invariavelmente produzidas por espíritos ou bruxas. Mesmo a arma que matou alguma pessoa é mana, isto é, dotada de força extraordinária.

E agora perguntar-me-ão: O que dizer dos eventos mais corriqueiros, das realidades mais imediatas e mais próximas de nós, como o marido, a mulher, o pai, a mãe, os filhos? Os fatos mais comuns da vida quotidiana, que se repetem eternamente, produzem os arquétipos mais poderosos, cuja atividade incessante é imediatamente reconhecível em toda parte, mesmo em nossa época racionalista. Tomemos como exemplos os dogmas cristãos: a Trindade é constituída por Deus Pai, Filho e Espírito Santo que era representado pela ave de Astarte, a pomba, e também se chamava Sofia e possuía natureza feminina nos primeiros tempos do Cristianismo. O culto a Maria na Igreja posterior é um sucedâneo evidente dessa prática. Temos aqui o arquétipo da família”num lugar celeste” – como o expressou Platão – entronizado como formulação do último mistério. Cristo é o esposo, a Igreja é a esposa; a piscina batismal é o utarum ecclesiae [o útero da Igreja], como ainda é chamada no texto da benedictio fontis [bênção da fonte]. A água é benta com sal, dando-nos uma idéia de líquido amniótico ou água do mar. Celebra-se um hierógamos, um casamento sagrado, na bênção do Sabbatum sanctum acima mencionado, onde se mergulha por três vezes uma vela ou círio aceso, na fonte batismal, como símbolo fálico, para fecundar a água e lhe conferir o poder de gerar de novo o neófito (quasimodo genitus), A personalidade mana, o curandeiro [medicine-man] é o pontifex maximus, o Papa; a Igreja é a mater ecclesia, a magna mater dotada de poderes mágicos; os homens são filhos carentes de ajuda e de graça. A sedimentação de todas as poderosas experiências ancestrais de toda a humanidade – ricas de afetos e de imagens – com o pai, a mãe, os filhos, o marido e a mulher, com a personalidade mágica, com os perigos do corpo e da alma, erigiu este grupo de arquétipos em princípios formuladores e reguladores supremos da vida religiosa e até mesmo da vida política, num reconhecimento inconsciente de suas tremendas forças psíquicas.

Eu descobri que uma compreensão racional destas coisas de modo nenhum as priva de seu valor; pelo contrário, ajuda-nos não somente a sentir, mas a entender sua imensa importância. Esta poderosa projeção permite ao católico experimentar uma parte considerável do seu inconsciente coletivo em uma realidade tangível. Assim, ele não precisa procurar uma autoridade, uma instância superior, uma revelação, alguma coisa que o una ao eterno e intemporal. Estas coisas estão sempre presentes, e ao seu alcance: no Santíssimo Sacramento de cada altar ele tem a presença real de Deus. É o protestante e o judeu que devem procurar: um, porque, por assim dizer, destruiu o corpo da divindade, e o outro, porque nunca o atingiu. Para ambos, os arquétipos que se tornaram uma realidade viva e visível para os católicos jazem mergulhados no inconsciente. Aqui, infelizmente, não posso entrar mais profunda­mente nas diferenças notáveis da atitude de nossa consciência de civilizados face ao inconsciente. Eu gostaria, entretanto, de mostrar que esta questão da atitude é controvertida e evidentemente um dos maiores problemas com que se defronta a humanidade.

Isto também é fácil de compreender, tão logo se perceba que o inconsciente, enquanto totalidade de todos os arquétipos, é o repositório de todas as experiências humanas desde os seus mais remotos-inícios: não um repositório morto – por. assim dizer um campo de destroços abandonados – mas sistemas vivos de reação e aptidões, que determinam a vida individual por caminhos invisíveis e, por isto mesmo, são tanto mais eficazes. Mas o inconsciente não é, por assim dizer, apenas um preconceito histórico gigantesco; é também a fonte dos instintos, visto que os arquétipos mais não são do que formas através das quais os instintos se expressam. Mas é também da fonte viva dos instintos que brota tudo o que é criativo; por isto, o inconsciente não é só determinado historicamente, mas gera também o impulso criador – à semelhança da natureza que é tremendamente conservadora e anula seus próprios condicionamentos históricos com seus atos criadores. Por isto, não admira que tenha sido sempre uma questão candente para os homens de todas as épocas e todas as regiões saber qual a melhor maneira de se posicionar diante destas determinantes invisíveis. Se a consciência nunca se tivesse dissociado do inconsciente – acontecimento que se repete eternamente e que é simbolizado como queda dos anjos e desobediência de nossos primeiros pais – este problema nunca teria surgido, nem tampouco a questão da adaptação às condições ambientais.

É justamente a existência de uma consciência individual que torna o homem consciente não só de sua vida exterior mas também de sua vida interior. Da. mesma forma que o meio ambiente assume um aspecto amigável ou hostil para o homem primitivo, assim também as influências do inconsciente lhe parecem um poder contrário com o qual ele deve conviver, como convive com o mundo visível. Suas inumeráveis práticas mágicas servem a esse objetivo. No nível mais alto da civilização as religiões e as filosofias preenchem esta mesma finalidade, e sempre que um tal sistema de adaptação começa a faltar, surge um estado geral de inquietação e fazem-se tentativas de encontrar novas formas adequadas de convivência com o inconsciente.

Mas tais coisas parecem muito distantes para nossa moderna concepção iluminista. Deparo-me muitas vezes com um riso incrédulo, quando falo dos poderes deste pano de fundo da psique que é o inconsciente e comparo sua realidade com o mundo visível; mas então eu devo perguntar: Quantas pessoas não existem, em nosso mundo civilizado, que ainda professam sua crença em mana e espíritos? Em outras palavras: Quantos milhões não há de Christian Scientists [partidários da Ciência Cristã] e de espíritas? Não quero multiplicar o número destas perguntas. Elas pretendem apenas ilustrar o fato de que o problema das determinantes invisíveis da psique continua tão vivo quanto antes,

O inconsciente coletivo é a formidável herança espiritual do desenvolvimento da humanidade que nasce de novo na estrutura cerebral de todo ser humano. A consciência, ao invés, é um fenômeno efêmero, responsável por todas as adaptações e orientações de cada momento, e por isso seu desempenho pode ser comparado muitíssimo bem com a orientação no espaço. O inconsciente, pelo contrário, é a fonte de todas as forças instintivas da psique e encerra as formas ou categorias que as regulam, quais sejam precisamente os arquétipos. Todas as idéias e representações mais poderosas da humanidade remontam aos arquétipos Isto acontece especialmente com as idéias religiosas. Mas os conceitos centrais da Ciência, da Filosofia e da Moral também não fogem a esta regra. Na sua forma atual eles são variantes das idéias primordiais, geradas pela aplicação e adaptação conscientes dessas idéias à realidade, pois a função da consciência é não só a de reconhecer e assumir o mundo exterior através da porta dos sentidos, mas traduzir criativamente o mundo exterior para a realidade visível.

Intuição – Sharon Franquemont

Apartir da entrevista da psicóloga americana Sharon Franquemont na Revista Veja-nº21-ano 35 de 29.05.2002 , ela diz que, no século XXI, o uso da intuição é fundamental para se dar bem no trabalho e no amor, temos recebido um sem número de e-mails pedindo que fosse escrito mais alguma coisa sobre o assunto da entrevista da referida psicóloga. Daí resolvemos apresentar um estudo sobre um Ensaio sobre a “Intuição”.

O que dizem os dicionaristas a respeito de Ensaio e de Intuição.

Ensaio (Intuição)

Aurélio diz que Ensaio do francês. essai é uma obra literária em prosa, analítica ou interpretativa, sobre determinado assunto, porém menos aprofundada e/ou menor que um tratado formal e acabado.

O dicionário eletrônico Houaiss diz que a rubrica: literatura, é prosa livre que versa sobre tema específico, sem esgotá-lo, reunindo dissertações menores, menos definitivas que as de um tratado formal, feito em profundidade como por exemplo ensaio sobre a violência.

A intuição

Intuição é definido pelo dicionarista Aurélio como: do latim. tardio. intuitione, que é a ‘imagem refletida por um espelho’, com sentido filosófico em latim escolástico.1. Ato de ver, perceber, discernir; percepção clara e imediata; discernimento instantâneo; visão. 2. Ato ou capacidade de pressentir; pressentimento: 3. Filosofia.Conhecimento imediato de um objeto na plenitude da sua realidade, seja este objeto de ordem material, ou espiritual. 4. Filosofia. Apreensão direta, imediata e atual de um objeto na sua realidade individual. 5. A faculdade intuitiva.

E pelo dicionarista Houaiss a palavra Intuição, é um substantivo feminino e significa faculdade de perceber, discernir ou pressentir coisas, independentemente de raciocínio ou de análise. 2 Rubrica: filosofia, forma de conhecimento direta, clara e imediata, capaz de investigar objetos pertencentes ao âmbito intelectual, a uma dimensão metafísica ou à realidade concreta. 2.1 Rubrica: filosofia. No cartesianismo, conhecimento de um fenômeno mental que se apresenta com a clareza de uma evidência, sem oferecer qualquer margem para a dúvida (como por.exemplo., o cogito). 2.2 Rubrica: filosofia. no kantismo, conhecimento imediato de objetos oferecidos pela sensibilidade, seja a priori (espaço e tempo), seja a posteriori (objetos captados pelos sentidos) 2.3 Rubrica: filosofia. no bergsonismo, conhecimento metafísico capaz de captar a essência temporal e fluida de uma realidade, oposto à quantificação e espacialização que caracterizam a inteligência conceitual. 3 Rubrica: teologia. visão clara e direta de Deus como a que possuem os bem-aventurados.

Em suma, a intuição vem do termo latim intueri e significa ver por dentro. É uma informação interna e aparece na forma de uma profunda emoção e autoconfiança. Segundo Carl G.Jung a intuição é uma capacidade inconsciente de perceber possibilidades. Para o filósofo Emerson, intuição é uma sabedoria interior que se expressa e orienta por si própria. Enfim, é uma inteligência que consegue resolver um problema ou elaborar um produto ou um serviço através de uma visão interior . Em suma, a intuição vem do termo latim intueri e significa ver por dentro. É uma informação interna e aparece na forma de uma profunda emoção e autoconfiança. Segundo Carl G.Jung a intuição é uma capacidade inconsciente de perceber possibilidades. Para o filósofo Emerson, intuição é uma sabedoria interior que se expressa e orienta por si própria. Enfim, é uma inteligência que consegue resolver um problema ou elaborar um produto ou um serviço através de uma visão interior. . Existe uma diferença entre e intuição e insight considerando que Intuição é a capacidade de prever possibilidades e insight é como a intuição é revelada. .

Psicologia e a Intuição em psicologia

Intuição o processo pelo qual um novo conhecimento ou uma crença, surge no mundo dos conhecimentos do sujeito, sem que ele possa apresentar provas lógicas em apoio dessa idéia.

Na intuição delirante, o caráter patológico não se prende ao fato de ter uma intuição, mas ao seu conteúdo e ao caráter de verdade que o sujeito lhe atribui, sem nenhum suporte perceptivo e sem necessidade de verificação lógica. Para N.Chomsky, que estudou sobre linguagem e sua aquisição, intuição gramatical é o processo que, sob a dependência do conhecimento tácito ( ou seja, inconsciente) que o locutor tem do conjunto de regras que determinam a boa formação das frases, permite ao sujeito fazer juízos de gramaticalidade a respeito der qualquer frase. Trata-se portanto, de intuição da formas lingüística, e não do sentido de intuição partilhada por todos os membros de uma mesma comunidade lingüística. Vamos transcrever um comentário do Professor Efraim Rojas Boccalandro sobre o livro A intuição do Psicólogo; Técnicas de abordagem com o uso do Rorschach.

Como a criatividade adicionada a intuição atua no campo empresarial

A origem etimológica da palavra intuição como vimos acima provém de um verbo latino que significa ver; perceber; discernir; ato ou capacidade de pressentir. É uma forma de captar informações sem recorrer aos métodos do raciocínio e da lógica. Nosso cérebro está dividido em dois hemisférios: o do lado direito armazena e elabora as nossas emoções, a imaginação, criatividade, é a metade intuitiva, sem domínio verbal; o hemisfério esquerdo é o lado organizado, racional, lógico, analítico, usa a linguagem e domina a palavra. A intuição se opõe à razão? Não, ela apenas se situa fora dos seus domínios. Há mais probabilidade de acerto quando intuição e razão agem de forma equilibrada. Num recente levantamento feito pelo International Institute For Management Development — IMD, com sede na Suíça, 80% dos 1.312 executivos entrevistados em nove países, avaliaram que a intuição se tornou importante para formular a estratégia e o planejamento empresarial.

Desses, a maioria (53%) diz que recorre à intuição e ao raciocínio lógico em igual proporção no seu dia-a-dia. A intuição é velha companheira de artistas e cientistas. Num estudo recente divulgado nos Estados Unidos, 82 entre os 93 Prêmios Nobel enfatizaram o papel importante dessa capacidade na criatividade e nas descobertas humanas. O físico Albert Einstein, que considerava a imaginação mais importante do que o conhecimento, disse certa vez: Às vezes confio estar certo, sem saber a razão.

Os gênios da música clássica, Beethoven e Mozart, atribuíam suas maiores realizações ao uso da intuição. As mulheres estão galgando novas posições de destaque não só como empresárias, mas como líderes nas mais diversas atividades, graças aos seus dotes privilegiados em relação à intuição. Nelson Blecher cita no seu artigo alguns exemplos bem interessantes sobre a valorização da intuição no mundo dos negócios, começando pela Compaq, líder mundial de computadores pessoais. Ela contratou uma equipe de quatro psicólogos para percorrer todas as suas unidades espalhadas pelo mundo, para avaliar o perfil intuitivo dos seus executivos. Jorge Schreurs, presidente da Compaq do Brasil, foi submetido durante dois dias, a uma bateria de testes. O curioso é que nos questionamentos não vieram perguntas sobre o mercado brasileiro, sobre novos modelos de computadores, ou, sobre suas relações com a indústria de informática. Os quatro psicólogos queriam saber, acima de tudo, se o presidente da Compaq do Brasil tinha uma intuição aguçada. Akio Morita, presidente da Sony, observara pessoas caminhando pelas ruas de Tóquio e Nova York carregando pesados aparelhos de som nos ombros. Levou o assunto para uma discussão com os engenheiros da empresa, pois, na sua intuição, um aparelho compacto, pequeno e leve, poderia ser um novo produto no mercado. . Sua equipe achou que ninguém teria interesse em comprar um equipamento sem dispositivo de gravação. Morita fez valer a sua intuição forte e lançou em 1979 o walkman, que foi, e ainda é, um sucesso de mercado, multiplicando-se em mais de 250 diferentes modelos. Mais da metade dos executivos brasileiros já pesquisados em grandes e médias empresas, pende para o hemisfério esquerdo do córtex cerebral, guiando-se mais pelo raciocínio e a lógica, do que pela intuição. Japoneses, americanos e ingleses despontam no grupo dos executivos como os mais intuitivos. Os empresários brasileiros ainda dão um peso muito grande às análises estatísticas, para a quantificação de dados, usando demais o lado esquerdo, em detrimento do direito. Conseguem examinar as árvores, deixando de enxergar a floresta. Ficam muito preocupados em contar, medir, pesar, e quando precisam decidir, o tempo passou e o concorrente saiu na frente. Um modelo novo de tênis dura apenas seis meses. Computadores estão superados em 18 meses. Os consumidores se tornam mais imprevisíveis. As pesquisas de tendência estão ficando mais caras. São as aceleradas mudanças econômicas e tecnológicas que tornaram as questões demasiadamente complexas. Com a globalização, as empresas tiveram que se adaptar a novos esquemas de produção, novas fontes de suprimentos, novos nichos de mercado.

Surgiram questões cruciais como: Produzir internamente ou terceirizar? Comprar de fornecedor nacional ou localizar outro melhor na Ásia? Montar uma rede própria de distribuição ou fazer parcerias estratégicas com outras empresas? As pressões para tomada de decisão estão sendo feitas em prazos cada vez menores, aumentando, progressivamente, nas pessoas bem-sucedidas, os apelos para os dotes intuitivos. Vale a pena voar nas asas da criatividade e intuição!

Não poderíamos adicionar a intuição a um sexto sentido?

Tato, olfato, audição, paladar e visão. São os cinco sentidos visíveis. O sexto, não poderia ser a intuição, palavra que vem do latim intueri, que significa olhar para dentro, ninguém sabe ao certo onde fica. Não existe uma fronteira definida que delimite o seu alcance. Sabemos que a língua é capaz de identificar sabores diferentes, que o tato nos permite ter sensações de volume e textura, mas, afinal, do que a intuição é capaz?

A intuição aguçada, pertence mais ao homem ou a mulher uma coisa é certa que as pessoas criativas são mais intuitivas pela facilidade no contato com as emoções e o imaginário é que as pessoas criativas podem a sua intuição com mais freqüência. Uma decisão acertada baseada na intuição pode parecer mágica.

Não é isso que os cientistas, artistas pensam – segundo eles, a racionalidade e a criatividade exercitando a intuição? os que raciocinam, criam são muito mais intuitivos do que os emotivos e estereotipados que são repetidores do que os outros fazem. As pessoas podem ativar a intuição através de objetivos claros que é a primordial condição, devendo saber discernir s informações objetivas e subjetivas e ter capacidade para fazer associações, conexões e analogias Conhece-te a ti mesmo e aumentarás a tua intuição. O mergulho interior é uma forma de ampliar a intuição; Aquele que conhece a si mesmo conhece o senhor; diz o islamismo, Olha para dentro de ti tu és um Buda, fala o budismo. Na Grécia se deu muita importância ao Conhece-te a ti mesmo a partir do templo de Apolo, figura complexa e enigmática, que transmitia aos homens os segredos da vida e da morte, Apolo foi o deus mais venerado no panteão grego depois de Zeus, o pai dos céus. Os oráculos desempenharam uma função importante na vida dos gregos. Tratava-se de santuários em que um deus transmitia profecias ou conselhos a quem pedisse, através de um intermediário humano. O oráculo do deus Apolo em Delfos construído no século VII a.C. na Grécia manteve sua liderança até a época helenística. No oráculo de Delfos havia uma sacerdotisa, a pitonisa, que entrava em transe e recebia as mensagens de Apolo. Suas palavras eram interpretadas por sacerdotes que, por sua vez, as traziam em verso aos ouvintes. No frontão do templo se lia Gnohti seauton cuja tradução é Conhece-te a ti mesmo; o dístico era completado ;e conhecerás o Universo e os deuses. A frase era uma advertência de quem desejasse conhecer os desígnios dos deuses deveria começar a procura dentro de si A frase tornou-se célebre e imortalizou-se graças ao filósofo Sócrates 469-399 a.C. Em suma esse aviso era uma advertência para o visitante que se consultava com a pitonisa e que queria conhecer os desígnios dos deuses deveria começar a procurar dentro se si isto é intuir.

Resumo da entrevista da Sharon

A psicóloga americana Sharon Franquemont abriu um tema que empolga pelos poucos estudos que existem a respeito excetuando-se o do Jung que nos ocuparemos adiante. As teorias da psicóloga Sharon Franquemont já foram ouvidas por funcionários do governo americano, profissionais da educação e dirigentes de grandes corporações, como Intel, Procter&Gamble e AT&T.

A captação das imagens apreendidas acontece muito rapidamente e o raciocínio é intuitivo. Está sempre aberto ao novo e gosta de experimentos não muito comuns As informações são recebe e processadas a partir de idéias e imagens, ao contrário daquele que desenvolve o pensamento analítico, tem grande capacidade de intuir que é o ato de ver, perceber, discernir; perceber clara e imediatamente os fatos em redor; por discernimento instantâneo com percepção do todo. A visão dos fatos é sempre inovar e criar e sem receio em acreditar em novas idéias. Não é titubeante e vê muito rapidamente as atitudes que pretende tomar. Para aqueles que pensam intuitivamente, é mais importante o futuro do que o presente. Pela sua ampla visão se perde nas minúcias e pormenores. Não se perde com detalhes. Prefere a análise do que a síntese.

Como a intuição é vista pela filosofia e a sua importância nos conhecimentos:

Platão, nasceu em Atenas, em 428/427 a.C., e lá morreu em 347 a.C. seu verdadeiro nome era Aristóteles, e foi denominado de Platão que, segundo alguns, derivou de seu vigor físico e da largueza de seus ombros ( platôs significa largueza ). Ele era filho de uma abastada família, aparentada com famosos políticos importantes, por isso não espanta que a primeira paixão de Platão tenha sido a política. Platão distingue quatro formas ou graus de conhecimento, que vão do grau inferior ao superior: crença, opinião, raciocínio e intuição intelectual. Para ele, os dois primeiros graus devem ser afastados da Filosofia — são conhecimentos ilusórios ou das aparências, como os dos prisioneiros da caverna — e somente os dois últimos devem ser considerados válidos. O raciocínio treina e exercita nosso pensamento, preparando-o para uma purificação intelectual que lhe permitirá alcançar uma intuição das idéias ou das essências que formam a realidade ou que constituem o Ser.

Platão cita que Anaxágoras, um dos pré-socráticos, tinha estudado a necessidade de introduzir uma Inteligência universal para conseguir explicar o porquê das coisas, mas não soube levar muito adiante esta sua intuição, continuando a atribuir peso preponderante às causas físicas, afirmava que a verdade direta e evidente era aquela que a pessoa recebia de um plano transcendente, sem nenhuma mediação do mundo material. A partir da teologia medieval, esse conceito foi sendo gradativamente resgatado. Na Idade Média, tinha-se em mente que o contato direto com o sagrado promovia o êxtase religioso, a sensação de iluminação e de plenitude. Atualmente, muitos religiosos consideram esse tipo de experiência como sendo puramente intuitiva. Mais tarde, uma maior exploração do tema teve como base duas fontes centrais, No século XVII, Renè Descartes (1596-1650) tratou a como uma verdade evidente nas obras Meditações Metafísicas e Discursos do Método. Um século mais tarde, Kant (1724-1804) identificou a como um pensamento que engloba verdades e conhecimentos que independem da experiência adquirida. Ou seja, para o filósofo alemão, a pessoa nasce intuitiva. Pouco mais tarde, na Inglaterra, a corrente chamada intuicionista, que tinha no filósofo escocês William Hamilton (1788-1856) um dos principais representantes, afirmava que a era a primeira manifestação do conhecimento, uma iluminação súbita que alargava a compreensão humana. O físico Albert Einstein (1879-1955) afirmava que a criatividade é mais importante que o conhecimento.

Assim ele se referia: Se o senhor quer estudar em qualquer dos físicos teóricos os métodos que emprega, sugiro-lhe firmar-se neste princípio básico: não dê crédito algum ao que ele diz, mas julgue aquilo que produziu.

Porque o criador tem esta característica: as produções de sua imaginação se impõem a ele, tão indispensáveis, tão naturais, que não pode considerá-las como imagem de espírito, mas as conhece como realidades evidentes . Todo o século XVIII foi consumido na exploração das possibilidades abertas pelo método infinitesimal, então recém-descoberto. Foi um período de prodigiosos calculadores (como Euler) que, apoiados na fecundidade da pura técnica operatória, invadiam e desbravavam domínios cujo fundamentos eram, amiúde, pouco claros. Os matemáticos manipulavam séries infinitas (guiados apenas pela pura intuição, pois não conheciam os fundamentos dos métodos utilizados). Esses procedimentos originaram dúvidas e perplexidades, que terminaram por inspirar uma nova atitude crítica, na passagem do século XVIII ao XIX. Não é fácil conceituar a intuição. Se perscrutarmos os dicionários, encontraremos algo do tipo: a intuição é o ato de ver, perceber, discernir, pressentir. Fica-nos, então, aquela impressão de que a intuição é o ato de ver algum objeto ou fenômeno de maneira diferente daquela normalmente vista pela maioria das pessoas que olham para esse objeto ou fenômeno.

Por exemplo: bilhões de pessoas, no decorrer de milhares de anos, já devem ter se deparado com um cenário, ao cair da tarde, onde, por trás de uma macieira repleta de frutos suspensos por pedúnculos visualiza-se a Lua, fixa no firmamento. Quantos viram algo além de maçãs e da Lua? Pois é bem possível que num cenário como este e em seu sítio, em Woolsthorpe, o jovem Isaac Newton, com apenas 24 anos de idade, tenha visualizado, além de maçãs e da Lua, a inércia retilínea e a atração entre corpos com massa. Entre a visão normal, ou o ato puro e simples de olhar, e a visão sofisticada, qual seja, o ato de ver, de perceber, de discernir, de pressentir, reside o segredo da intuição, também descrita como a contemplação pela qual se atinge a verdade por meio não racional Newton, quando viu cair a maçã e teve a intuição da Lei da Gravidade, passou o resto de sua vida trabalhando para verificar aqueles conceitos que determinara como leis. Se pesquisarmos com intuição, poderemos, agindo com amor a natureza, fazer uma viagem fantástica, e redescobrir a arte de descobrir Vamos, então, trabalhar um pouco mais este conceito no sentido de esclarecero que aqui entendemos por verdade e por que o processo intuitivo seria não racional. O cientista é, diferentemente dos outros, um homem que procura pela verdade e que, portanto, assume a existência dessa verdade. Nessa procura, admite como certo o que poderíamos chamar de verdade provisória. Digamos, então, que esta última seja o que consideramos como verdade científica, e o que a distingue das demais verdades provisórias, encontradas pelos que não são cientistas, seria o seu acoplamento ao método científico ou à experimentação. Para resumir, poderíamos dizer que a verdade científica é uma verdade provisória tomada por empréstimo da natureza e da forma como ela aparenta ser. As hipóteses e conjecturas científicas assumem, com freqüência, esse papel de verdades científicas. Digamos, então, que o primeiro passo, mas não o único e/ou o derradeiro, para chegarmos às verdades científicas seria a contemplação da natureza. A não racionalidade, atribuída à intuição, retrata o seu caráter essencial, mas não engloba, propriamente, todo o processo intuitivo. Digamos que se refere ao insight ou estalo ou, ainda, à percepção de alguma coisa estranha, não notada nas outras vezes em que se observou o mesmo objeto ou fenômeno. É óbvio que esta percepção, ao ser trabalhada racionalmente, poderá vir a se constituir numa conjectura ou hipótese. No entanto, mesmo antes de formularmos uma conjectura ou hipótese, já estamos frente a algo a que podemos associar o conceito de verdade provisória.

Existe um conceito popular a dizer: Gato escaldado tem medo de água fria..

Seria isto equivalente a admitir que o gato raciocina?

Seria isto coerente com a afirmação de que o gato formula hipóteses (a água queima) e as generaliza (as próximas águas queimarão)? Provavelmente não!

Podemos, pelo exemplo, simplesmente inferir que o gato está dotado de uma intuição primitiva e da capacidade de memorizar fatos e, em conseqüência disso, em condições de aprender por um meio não racional. Se a ciência experimental começa pela intuição, poderíamos concluir que o intuitivismo é a base fundamental de todos os conhecimentos humanos oriundos das ciências empíricas. É importante não confundir intuitivismo com intuicionismo.

Este último relaciona-se à doutrina que faz da intuição o instrumento próprio do conhecimento da verdade: ver para crer. Mesmo porque o cientista parte da contemplação do que realmente existe, e interpreta esta verdade seguindo um raciocínio lógico aprisionado ao método científico. O cientista, então, parte da verdade (intuitivismo) e procura por novas verdades científicas intuição é, portanto, bem diferente de dizer que a ciência começa pela observação. É comum contemplarmos a natureza por vias indiretas. Newton, por exemplo, conhecedor da inércia circular de Galileu, viu a Lua em movimento e deve ter associado este movimento desnecessidade de um pedúnculo para que a Lua permanecesse a uma distância fixa da Terra, o que não acontecia com as maçãs.

Ou seja, Newton contemplou a natureza com conhecimentos adquiridos em seus estudos, o que é diferente de observar um fenômeno sem conhecimento algum. Einstein, por outro lado, contemplou a natureza utilizando-se unicamente da imaginação e de seus conhecimentos prévios, deixando a observação momentaneamente de lado. Seus conhecimentos sobre eletromagnetismo, aos quinze anos de idade, relacionavam-se a brincadeiras com uma bússola ganha na infância e ao que pôde aprender no segundo grau a respeito do eletromagnetismo vigente na época.

Um Pouco mais de Jung e a intuição

Carl Jung, psicanalista profundamente interessado pelo estudo das diferentes formas de expressão da vida, inclui a intuição como uma das atividades do psiquismo que funda o que é o humano.

Considera a intuição conjuntamente com o pensamento, o sentimento e a sensação qualidades que permitirão criar uma tipologia dos seres humanos pela predominância e interação de cada uma destas funções. Jung julgava ser a intuição e o sentimento faculdades preponderantes para uma vivência adequada da psique, pois é apenas através de todos os seus elementos (pensamento, sentimento, sensação e intuição) que podemos tentar entendê-la. Foi ele quem determinou, na sua obra Tipos Psicológicos, que a intuição é um componente indispensável para a formação da personalidade do homem, ao lado da sensação, do pensamento e do sentimento. E foi ele também quem colocou a intuição como uma ocorrência nascida e processada a partir do plano inconsciente. Hoje, em função das mudanças teóricas, deixa-se de acreditar no imediato. Temos como mediadores os conhecimentos histórico, econômico, político e social, entre outros. Jung classifica a sensação e a intuição, juntas, como as formas de apreender informações, ao contrário das formas de tomar decisões. A sensação refere-se a um enfoque na experiência direta, na percepção de detalhes, de fatos concretos, o que uma pessoa pode ver, tocar, cheirar.

A intuição é uma forma de processar informações em termos de experiência passada, objetivos futuros e processos inconscientes. Os intuitivos processam informação muito depressa e relacionam, de forma automática, a experiência passada e informações relevantes à experiência imediata.

Para o indivíduo, uma combinação das quatro funções resulta em uma abordagem equilibrada do mundo: uma função que nos assegure de que algo está aqui (sensação); uma segunda função que estabeleça o que é (pensamento); uma terceira função que declare se isto nos é ou não apropriado, se queremos aceitá-lo ou não (sentimento); e uma quarta função que indique de onde isto veio e para onde vai (intuição). Entretanto, ninguém desenvolve igualmente bem todas as quatro funções. Cada pessoa tem uma função fortemente dominante, e uma função auxiliar parcialmente desenvolvida. As outras duas funções são em geral inconscientes e a eficácia de sua ação é bem menor. Quanto mais desenvolvidas e conscientes forem as funções dominante e auxiliar, mais profundamente inconscientes serão seus opostos. Jung chamou a função menos desenvolvida em cada indivíduo de função inferior. Esta função é a menos consciente e a mais primitiva e indiferenciada. Jung classifica a sensação e a intuição juntas, como as formas de apreender informações, diferentemente das formas de tomar decisões. A Sensação se refere a um enfoque na experiência direta, na percepção de detalhes, de fatos concretos. A Sensação reporta-se ao que uma pessoa pode ver, tocar, cheirar. É a experiência concreta e tem sempre prioridade sobre a discussão ou a análise da experiência. Os consumidores sensitivos tendem a responder à situação imediatamente, e lidam eficientemente com todos os tipos de aspectos negativos. Em geral estão sempre prontos para o aqui e agora. O consumidor intuitivo processa informações em termos de experiência passada, objetivos futuros e processos inconscientes. As implicações da experiência são muito mais importantes para os intuitivos do que a experiência real em si. Os intuitivos recebem e decodificam a informação muito depressa e relacionam, de forma automática, a experiência passada com as informações relevantes da experiência imediata. A grande maioria dos Programas de Treinamento Gerenciais abordam que é o estudo dos diversos modos pelos quais as línguas podem diferir umas das outras., as decisões são geralmente tomadas enfatizando-se a preferência que emprega a função dominante, geralmente ignorando-se a função inferior. É mais provável que uma decisão seja melhor tomada quando as quatro funções forem utilizadas já que estão relacionadas observação (Sensação – intuição) e à tomada de decisões (Pensamento -Sentimento ). Os tipos Intuição-Pensamento, enfatizam problemas e conceitos gerais. Sua organização ideal é aquela em que o enfoque principal é a descoberta, invenção e produção de novas tecnologias e portanto deve ter um alto grau de flexibilidade. Os autores a denominaram organizações ligadas a pesquisa e desenvolvimento. Os tipos Intuição-Sentimento, também tem como ideal organizações mais flexíveis e globalizantes. A diferença marcante com os Pensamentos é a de que enquanto eles preocupam-se com aspectos teóricos da organização, estes enfatizam as metas pessoais e humanas. Sua organização ideal é aquela que pudesse servir a humanidade, ou seja, eles realmente acreditam que as organizações existem com o objetivo de servir as pessoas. Foram chamadas de organização orgânico-adaptativa pelos autores. Erich Fromm (1900-1950), psicanalista e filósofo social alemão naturalizado americano, constitui o terceiro pilar fundamental da utilização terapêutica dos sonhos.

Sua grande contribuição à psicanálise foi a nova ênfase que deu aos fatores econômicos e sociais no comportamento do indivíduo. A título de ilustração realizou novas interpretações de sonhos famosos, aplicando-os terapia das neuroses e dos desvios de comportamento. Para Fromm, o sentido fundamental do sonho é a realidade e a autêntica que se manifesta também em conseqüência de problemas e questões socioeconômicas.

Como a parapsicologia enquadra a Intuição

No Corpo Mental que é o veículo de manifestação pelo qual a consciência se manifesta usando os atributos da inteligência ( intelecto, intuição, memória, imaginação, etc. ); mente; corpo do pensamento.

Conclusão

Como dissemos no inicio que faríamos um ensaio panorâmico sobre a intuição julgamos desprenteciosamente ter atingido o nosso alvo e como iniciamos o nosso ensaio com os conceitos de psicóloga Sharon Franquemont gostaria de finalizar com o final de sua entrevista com o meu ponto de vista que a intuição também tem um pouco de querer é poder.

Conta a psicóloga que conhecia uma casal que foi para Londres passar as férias: Lá, a mulher teve a intuição de que um dia ela e o marido se mudariam para aquela cidade. Cinco anos depois, ele foi convidado a se transferir e, ela mesmo tendo que abandonar projetos pessoais importantes em andamento, não hesitou em acompanhá-lo. Ela tinha certeza de que tudo sairia bem, como, de fato aconteceu e conclui Pura intuição.

A HERANÇA DAIMONICA DE JUNG

James Hillman
(Thompson, Connecticut)

Durante os funerais de Jung na Igreja Reformista Suíça em Kusnacht, o pastor descreveu aquele que ali se homenageava como um herege. É sobre essa face herética de Jung e seu legado para nossa cultura que gostaria de refletir neste ensaio. E, para essa reflexão, vamos olhar histórica e hereticamente para os primeiros trabalhos de Jung na virada do século.

Entre dezembro de 1900 e 1909, Jung trabalhou e viveu no hospital psiquiátrico de Burghoelzli, primeiramente como residente e depois como chefe-assistente. Ele era um membro praticante da Anstaltpsychiatrie, aquele estilo e método de atendimento que implica em uma intensa participação e observação diárias dos pacientes, típica do século XIX, um método que resultou no diagnóstico diferencial que a psicopatologia continua a empregar hoje em dia. Ele era, aparentemente, um membro efetivo do grupo.

Foi lá, durante uma das conferências internas habituais, que ele resenhou A Interpretação dos Sonhos, de Freud, livro o qual Jung foi um dos primeiros e únicos leitores. Apenas 351 cópias do Die Traumdeutung foram vendidas nos seis primeiros anos após sua publicação. Quer seja pelo estímulo de Bleuler, ou por sua própria vontade, Jung tinha o olhar voltado para idéias radicais, heréticas.

Durante esse período, entre os vinte e os trinta e poucos anos de Jung, o Burghoelzli era o lugar para quem tinha um intenso interesse pelas associações mentais. A noção empírica da mente, derivada originalmente de Aristóteles e depois Locke, Hume e Jeremy Bentham em nosso tempo, afirmava que os eventos mentais poderiam ser modelados em cadeias de associações. As leis dessas cadeias tornaram-se domínio da psicologia, tornaram-se, em larga escala, a Psicologia, particularmente depois que ela foi aperfeiçoada nos experimentos e teorias do século XIX, primeiramente por Francis Galton e depois por Wundt.

Galton, que era primo de Darwin, ao tempo do nascimento de Jung já havia elaborado uma lista de palavras e medido o tempo de suas próprias associações a elas. E Thomas Brown, de Edinburgo, antes ainda no mesmo século, já havia investigado diferenças individuais nas associações, elaborando algo em torno de nove ou dez leis sobre como e porque idéias evocam outras idéias. A tarefa no Burghoelzli era entrar na mente do paciente através das associações, já que elas, dizia Bleuler, “eram o caminho para se compreender o homem completo.”

Jung virou de cabeça para baixo a coisa toda. Ele fazia novas e heréticas perguntas. Não perguntava que caminho seguem as associações, nem como e porque funcionam. Em vez disso: como, porque e quando a associação não funciona. Não quais eram suas leis, mas o que as perturbava. Ele voltou-se para o estranho, o anormal, o patologizado. A questão, colocada nos termos do “o que” perturba as associações, implica um “o que”, algo “outro”, um bloqueio ou interferência, um ímpeto interveniente para além da inércia de um idiota ou da resistência voluntária de um beócio. Um “o que”, um “algo”, um “outro” mais forte que as próprias leis das associações. Ele não apenas tinha divisado um método experimental para a investigação do inconsciente freudiano; tinha também reimaginado o ser humano como um locus de complexos semi-autônomos, que depois descreveu como daimones, espíritos, kobolds, pequena gente e Deuses.

Não as associações, mas seus desvios através dos complexos, foram o caminho para “se compreender o homem completo.” Jung tomou um campo comum e fez uma pergunta incomum. Mais: ele usou o método empírico quantitativo para libertar a psicopatologia da noção empírica quantitativa da personalidade. Ele utilizou o método científico para subverter a atitude científica, abrindo assim caminho para uma fenomenologia radical da psique como um campo autônomo de personificações múltiplas. Seu ensaio mais brilhante do período mostrava a intercambialidade entre os sintomas histéricos do corpo, as perturbações mensuráveis das associações verbais e as figuras de fantasia nos sonhos. Os complexos libertados na linguagem aparecem fisicamente em nossos sintomas e passeiam todas as noites em nossos sonhos. Os sintomas neuróticos e também a resposta normal, o aparato mental e também a reação corporal, mundo noturno e mundo diurno também estão fundamentalmente imersos na realidade psíquica dos complexos inconscientes. A personalidade está sempre sujeita a eles; estamos sempre inconscientes; o inconsciente está em toda a parte. Jung resolveu velhos dilemas: mente/corpo, anormal/normal, consciente/inconsciente na realidade psíquica do complexo, esse in anima.

Claro, Jung já havia feito algo semelhante em outro grande trabalho de seus primeiros anos, sua tese de doutorado. No parágrafo de abertura, Jung focaliza seu interesse em “certos estados de consciência.” Ele investiga “fenômenos ocultos.” Numa dissertação médica! Muito estranho. Não uma patografia no sentido comum, um estudo neurológico à la Freud, mas uma patografia dos espíritos; espiritismo. Um estudo não de Helena, ou Frau S. W. como foi chamada, mas sim um estudo sobre o “o que” perturba a atenção usual, um estudo sobre os “outros,” as vozes, figuras e ideações que falavam através de Frau S. W.

Em sua dissertação Jung apresenta uma idéia fundamental que é a idéia fundamental de minhas observações aqui: “o caso não muito comum,” como diz Jung, é para onde se olhar na busca de “uma riqueza de observações interessantes.” O insight é ganho a partir daquilo que ele chama de “inferioridade psicopática.” Esses casos estranhos, diz Jung já no começo de sua tese escrita quando ele tinha 23 ou 24 anos, apontam para algo mais do que meramente uma relação analógica com a psicologia da normalidade. Aqui Jung afirma uma característica metodológica, também compartilhada por Freud e básica a toda a psicologia profunda (ou seja, a psicologia não-humanista, não-transcendental). Começamos com o anômalo, o estranho, o excepcional. Esse método foi muito sucintamente colocado por Edgar Wind: “o lugar comum pode ser entendido como uma redução do excepcional, mas o excepcional não pode ser entendido ao amplificarmos o lugar comum…. o excepcional é crucial porque introduz… a categoria mais ampla.”

Sim, ocultismo e espiritismo eram temas comuns e apreciados no começo do século. Também os experimentos de associação. Mas Jung deu ao espiritismo uma virada herética — não por reduzi-lo medicamente à inferioridade psicopática, isto é, a personalidade de Frau S. W., sua desordem e seu tratamento, tentando curar eliminando as outras vozes e figuras. A virada herética estava mais em tomar os outros mais seriamente, dando suporte a suas ideações, substancializando-os e a suas intenções e traços com analogias literárias e históricas. Novamente, seu olhar radical estava pousado nesses daimones e sua relativa autonomia. Ele foi ao encontro da radical independência dos “outros” com a radical independência de sua próprias idéias. Ao invés de reduzi-los a seus constructos mentais, ele expandiu seus constructos mentais por causa deles.

Esses dois exemplos do olhar de Jung para o estranho antecipam sua idéia posterior essencial de personalidade: a idéia da individuação. “A personalidade,” como Jung a define, “é a suprema realização da idiossincrasia inata de um ser vivo” (Collected Works 17, §289). O caminho rumo à realização dessa idiossincrasia inata, ou “individuação,” Jung define como um “processo de diferenciação” (CW 6, §757). “Diferenciação,” declara ele, “significa o desenvolvimento das diferenças, a separação das partes do todo” (CW 6, §705). Não é a totalidade que define a individuação, mas a separação das partes: complexos das funções, projeções das realidades, o individual do coletivo, imagens-de-Deus dos Deuses e o metafórico do metafísico. (CW 11, §835-36; CW 13, §73-75). “Diferenciação significa o desenvolvimento das diferenças,” diz Jung. Diferenciação dá a sensação da diferença, a sensação de ser diferente, de diferirmo-nos de nós mesmos e dos outros, de sermos estranhos. Ele até mesmo caracteriza diferenciação como “isolamento” e diz que é o sine qua non da consciência diferenciada. (CW 13, §395) “A individuação é o tornar-se aquilo que não é o ego… aquilo que você não é… Você se sente como se fosse um estranho” (SPRING 75, p. 31). A neurose, que nos aparta fazendo-nos sentir agudamente diferentes, torna-se uma culpa beata pois é a primeira manifestação de isolamento e de heresia. O radicalismo começa na não-adaptação, aquele não-conformismo ou anormalidade da idiossincrasia. A própria autonomia dos sintomas no sofrimento neurótico que não pode ser suprimida, não pode ser extraída e nem aceita — essa autonomia das partes, que experimentamos como sintomas — é a primeira evidência de diferenciação radical. A neurose torna-se o sine qua non da individuação. Individuação e patologizar são inseparáveis, tanto na teoria quanto na existência.

Já que o olhar de Jung era assim tão atraído pelo idiossincrático, quer seja no fato experimental ou no sofrimento clínico, ele foi forçado a procurar por modos mais amplos de compreensão normativa, tais como tipos e arquétipos. Tipos e arquétipos podem generalizar anomalias. De fato, ambos têm maneiras de abarcar o aspecto patologizado dos fenômenos: os primeiros como “função inferior,” os segundos como universali fantastici (Vico), ou seja, personificações míticas repletas de exageros. Contudo, uma vez que ninguém é sempre típico e nenhum fenômeno sempre apenas arquetípico, esses agrupamentos mais amplos sempre desconsideram a particularidade e devem se submeter eventualmente à prioridade da individualidade.

Exatamente aqui a idéa junguiana de Self torna-se teoricamente crucial. Ela resolve este problema entre universais monotéticos e individualidades idiossincráticas pois, mesmo que a noção de Self afirme um princípio formal abstrato em funcionamento em todos os seres humanos ao mesmo tempo, ela insiste na idiossincrasia de cada existência. Sempre que a peculiaridade única do Self em qualquer indivíduo dá lugar a símbolos, emoções ou formulações estereotipados, temos a grande patologia do sistema de Jung: a possessão ou identificação com o Self, ou seja, a psicose. Para dizê-lo mais radicalmente, somente a peculiaridade individualizada de nossas psicopatologias nos protege contra a loucura maior. Somos salvos por nossas anomalias ou, como o disse Jung frequentemente, nós não curamos nossos sintomas, eles nos curam.

As analogias religiosas que Jung emprega — Cristo nascido numa manjedoura, o lapis como materia vilis, o ouro no estrume, a pedra que os construtores rejeitaram — expressam o profundo protesto, o profundo protestantismo que se anunciou nos horrendos e heréticos sonhos de infância com o monstro fálico e o monte de excremento sobre a igreja. Podemos falar de “radicalismo congênito,” um impulso daimônico dado com sua natureza? Ao menos digamos que ele foi forçado num caminho diferente, um caminho que exigiu dele fazer de sua real idiossincrasia e abandono pelo “pai” a virtude abrangente que ele chamou de “individuação.” Mas individuação não é uma idealizada completude centralizante ou totalidade. “Eu não acredito que tal centro (Self) exista,” disse numa entrevista a Miguel Serrano. Nem a individuação é atingida por incrementos de desenvolvimento. Em vez, a individuação é a realização da idiossincrasia inata, da diferença inata. Ela não aparece no futuro fictício do envelhecimento. Ela aparece fenomenicamente, em qualquer momento estranho de diferença. A individuação ocorre sempre que normas e hátitos usuais do sujeito são deslocados. Somos vítimas da individuação, não seus patrocinadores.

O olhar de Jung para o estranho recolheu e iluminou fenômenos inusuais um atrás do outro: misticismo tibetano muito antes dos vagabundos do dharma; Zen muito antes de Alan Watts; a sabedoria trickster dos índios americanos antes de Castañeda e Rothenberg; alquimia, parapsicologia e atrologia antes destas serem absorvidas pelos viajantes da Nova Era; a psique da física teórica muito antes de Capra; I Ching antes dos biscoitinhos da sorte; a ressurreição do feminino antes das feministas; a natureza da consciência africana antes de van der Post; o colapso do Cristianismo coletivo antes das filosofias do Deus-está-morto e da teologia do pós holocausto. Ele inspirou os Alcoólatras Anônimos; foi um dos primeiros a dar testemunho do poder do mito como uma realidade viva em funcionamento em ilusões coletivas tais como o Nacional Socialismo e os discos voadores. E muito antes que Thimothy Leary e Ram Dass tomassem suas formas humanas ele já havia escrito sobre o fator tóxico nas condições psíquicas bizarras, ou estados alterados, da psicose.

Não é de espantar que Jung tenha virado um Santo da Nova Era aparecendo, já no começo dos anos sessenta, entre os ícones na capa de um disco dos Beatles.

Mas esses tópicos — sincronicidade, a psique geográfica e racial, ilusões políticas, zen — não são a herança. A fantasia profética aquariana não é a herança. Sejamos bem claros. Não as palavras; mas os verbos e advérbios. Não o campo; mas seu arado. Não o que ele viu; mas como ele viu. Não a lua; mas o inquisitivo e torto dedo que a aponta. Acreditar que avançar a psicologia de Jung ainda mais no inconsciente é avançar esses tópicos, é arar os mesmos sulcos profundos e colher uma safra mais rala. Pior, trata-se do literalismo errado. Pois o inconsciente não reside nos campos onde ele o encontrou. O inconsciente toma a si mesmo bem literalmente: busca permanecer inconsciente, portanto ele sempre escapa. “A natureza ama se ocultar,” disse Heráclito. Assumir que os campos que Jung explorou são hoje as explorações do inconsciente é ficar preso no tempo, como os fãs de Rudolf Steiner vestindo-se na moda pré-primeira-guerra, como os freudianos ortodoxos com suas barbas e divãs, ou os hippies ainda usando suas faixas na cabeça e sandálias dos anos sessenta. Entre nós junguianos esse erro de identificar o inconsciente com seus campos aparece nas preocupações com o mal, com mandalas pintadas, ou com insultar ou revificar o Cristianismo. Demonstrar a tipologia com evidências estatísticas, usar imaginação ativa como uma técnica com guias espirituais, revestir a cultura com o ‘feminino,’ com a sombra ou Mercúrio — esses encargos dos herdeiros de Jung com os quais, ao menos, eles não o trocam por Kohut, Klein, Grof ou Lacan — são tentativas de seguir o mestre que não seguem o mestre. Em vez, eles fazem ego onde havia id. Eles seguem Freud, a abordagem modernista, positivista e psicodinâmica, ampliando o âmbito do conhecimento ao incrementarem a ambição da razão conceitual. Didática. Seguidores podem ser razoáveis e aceitáveis; Jung só podia ser escandaloso e radical.

Digo tudo isso tão diretamente, com ironia retórica, porque temos apenas vinte e cinco minutos, tempo para um sermão, uma argumentação persuasiva que balance e deixe uma impressão emocional. Meu estilo almeja o próprio discurso de heresia que estou propondo. Voei o oceano, cruzei os Alpes para dizer isso.

E o que estou propondo como herança tem que ser afirmado num jeito negativo e irônico; a opus contra o familiar e natural. O radicalmente renovador não vai com a maré, mesmo quando aparentemente o tópico é um evento contemporâneo. Em 1936 Jung escreveu seu ensaio sobre Wotan. Muito significativo que ele tenha se pronunciado sobre a Alemanha e o Nacional Socialismo. Extraordinária foi sua percepção de que o mito estava ativo ali no meio da política, como esteve em Atenas, Roma e na Europa de Joana d’Arc e Cola di Rienzi. Os poderes arquetípicos não se mostram apenas nos livros simbólicos, nas religiões exóticas e nos consultórios. Eles se apoderam das ruas, da mídia, do campo de guerra. Ou, ainda como um outro exemplo: quando em 1950 a Igreja proclamou a doutrina da Assunção de Maria e a teologia de Jung parecia reconhecida por aquela retificação da trindade como o quarto feminino, sua teologia era radical, não porque era atemporal e profética, não porque o conteúdo supria um background teológico para o feminismo; era radical porque Jung arriscava-se numa teologia psicológica contra a reificação da Igreja de Pedro, contra noções ridículas de salvação através de um Jesus inofensivo.

E, quando a isso seguiu-se o escandaloso livro sobre Jó, lá estava mais uma vez a heresia — não meramente em função da teologia literal em suas proposições sobre uma figura de Deus inadequada e inconsciente precisando tornar-se humana; o homem como o salvador de Deus. Não; o escândalo mais verdadeiro estava na iconoclasia, o desfacelamento da tão querida e inviolável imagem de Deus ocidental. Jung havia deslocado o maior de todos os grandes temas. Novamente, o jeito de trabalhar, não o trabalho; o distúrbio, não a nova doutrina; o agon romântico de Jó e Jung, não o solidificado troféu que coroa a luta. É esse Jung biográfico, Jung do falo monstruoso e da igreja defecada que dá aquela carga paternal vitalizante à imagem de Jung na psique contemporânea.

Se não mantivermos a imago de Jung dessa maneira, Jung como um terrorista psicológico, um pós-moderno sempre deslocando o esperado, tremendo as bases, sua imagem esmaece num retrato da senilidade sábia, um membro do clube da história sentado em sua poltrona, mais um rei de cabelos brancos nas torres da cultura européia; e esquecemos das figuras heréticas e apaixonadas entre as quais ele está e por quem ele foi fascinado: Abelardo, Paracelso, Freud, von der Flue, os gnósticos e os alquimistas, Nietszche.

Portanto estou tentando nos afastar da noção de que a herança cultural de Jung está literalmente nos campos que ele abriu, e assim retornei a tais tópicos tediosos como experimentos de associação convencionais e sua tese acadêmica para salientar o estranho dom de Jung e seu legado à cultura: seu “deslocar o usual.”

Deslocar o tema usual — este é o escândalo, a heresia; e é aí que Jung — arcaísta, patriarca, arqui-conservador — é radical no real sentido da palavra. Radical porque vai de volta aos radices, as raízes, os archai. Esses archai revertem adaptações híbridas e convenções coletivas a algo mais velho, profundo e mais essencial. Essas raízes não se conformam. As raízes protestam contra acomodações. As raízes atravessam qualquer camada de enxerto, qualquer expectativa, insistindo em torcer o seu jeito pelos caminhos abertos para elas. Para estarem certas têm que desviar. Eu uso a metáfora das “raízes;” Jung falou do “inconsciente arquetípico.” E era, como ainda é, chegar às raízes do sofrimento, do sofrimento inconsciente, do sofrimento do inconsciente, das raízes, a preocupação da terapia radical.

Onde está o inconsciente hoje? Onde sofrem as raízes? Onde estão enterradas as faíscas de Sofia na escuridão de nosso mundo presente? Dar atenção a elas é a terapia junguiana da cultura.

O inconsciente hoje reside não apenas nos pacientes burgueses que estão, eles mesmos, tão frequentemente engajados na mesma profissão terapêutica, não apenas nos sonhos e nos relacionamentos, e dificilmente nas insignificantes e tramadas agonias da transferência, o bovarismo de Flaubert agora reescrito como a psicodinâmica do narcisismo. Sofia sofre hoje em nossas cidades, em nossa tecnologia, em nossas instituições e nossa política paranóica, essas furiosas superestruturas egoístas que perderam suas raízes elementais nos archai; e Sofia sofre nos padrões de produção, distribuição, consumo e lixo, nas coisas comuns do dia-a-dia que nos cercam neuroticamente chamando nossa atenção, com suas formas desmoralizadas, falsas personas e sua tendência para o colapso. O daimônico vive menos em nossos sonhos e mais em nossos dias, nossa inércia moral e exaustão anestesiada. O inconsciente se rebela em nosso mundo maníaco, não na sincronicidade, na sexualidade, nas deusas, na primeira infância e no transcendentalismo trivial. O inconsciente está onde sempre está, nas bordas da consciência, entrelaçado à consciência, onde não olhamos ou não queremos ver. Está no meio de nós. Estamos imersos na psique. Como insistiram os alquimistas, o ouro da possibilidade está no lixo horrendo mais próximo de nós.

A tarefa de trabalharmos a materia prima do inconsciente real sempre foi aquela do artista que não expressa meramente seu sofrimento, mas que reflete o tormento da anima mundi, o sofrimento das raízes. Por artista quero dizer o artesão, quer seja, artista, alquimista ou analista — aquele que toma nas mãos a madeira abandonada, os sons cacofônicos, os pedaços de bricolage e retorna essa insconsciência a suas raízes. O artesão trabalha através da anima rumo à anima mundi.

E assim, para concluir, a abordagem herética de Jung precisa ser renomeada. Afinal, ela assim foi chamada por um pastor dentro do contexto religioso de um funeral. Mas aquilo a que o pastor se referiu não é nada mais do que a visão das artes desde Giotto, Dante e Vitruvius; aquela visão daimônica que desloca o usual ao revertê-lo a seu archai. O mesmíssimo ato que esfacela o ícone familiar anuncia sua importância daimônica, elevando a imagem ao lugar primeiro.

Se a visão de Jung é semelhante àquela do artesão e sua vida conforma-se ao dever e destino do artista — apesar dos protestos de Jung, apesar de suas atitudes anti-estéticas, apesar de seu imenso e continuado compromisso com a religião — ainda assim este é o legado que ele deixa à cultura e é também sua terapia. Se sua visão é comparável com a do artista, então o trabalho da terapia também deve ser concebido ou imaginado como um empreendimento artístico, a reversão da medicina para sua arte, assim como a política para sua arte, o planejamento das cidades, o serviço social, a indústria, a educação — cada um como um trabalho com as raízes que sofrem. Cada um como uma tentativa de fazer alma a partir da inconsciência. Cada um uma tentativa de individuação do coletivamente dado. Cada ato da luta diária levemente em conflito com a luta diária, deslocando o usual, libertando a imagem cativa e aliviando o sofrimento de Sofia na matéria. Cada movimento sempre radical, subversivo, particularmente subversivo às noções confortáveis da psicoterapia usual, psicoterapia como usual, e sempre uma raiva contra a cega harmonia de uma vida anestesiada. Em vez, uma vida em meio ao notável, ao estranho, ao patologizado; os machucados e descontentes, em paz somente num mar revolto.


Este ensaio foi pela primeira vez apresentado em Milão na Conferência “Presente e Herança Cultural” que comemorava o 25° aniversário da morte de C. G. Jung, no Centro Italiano di Psicologia Analitica, em 1987. Está publicado na revista SPHINX 1/1988, Londres, Inglaterra.

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