Karl Jaspers

Vida

Karl Jaspers filho de um banqueiro protestante nasceu em Oldenburg, na Alemanha aos 23 de fevereiro em 1883 e morreu na Basiléia, Suíça, em 1969.Tendo terminado os estudos secundários, Jaspers foi encaminhado pelo pai aos estudos de direito, que ele, porém abandonou depois de três semestres, para estudar medicina. Depois de ter-se formado, em 1909, pela Universidade de Heildeberg, tornou-se assistente voluntário na clínica psiquiátrica da mesma universidade.

Então, antes de entregar-se à Filosofia foi médico, tendo-se dedicado de modo especial à psiquiatria. “O trânsito da psiquiatria à metafísica caracteriza já em parte, a atitude de Jaspers, que é, desde logo, uma atitude de insatisfação para com os saberes particulares. Estes saberes não podem dar uma luz suficiente sobre o que verdadeiramente interessa ao homem: a existência humana, sua própria existência”.[1]

Sua formação intelectual foi simultaneamente científica e filosófica. Recebeu seu grau de doutor em 1909 e já em 1921 era professor pleno de filosofia em Heildeberg. Perdeu sua cátedra em 1937, da qual foi expulso pelo regime nacional-socialista por razões políticas. A ela voltou em 1945, sendo que em 1949 aceitou um convite da Universidade de Basiléia até lecionar.

Figura entre os primeiros pensadores contemporâneos que se apresentaram em público com trabalhos de orientação existencialista.

Suas obras mais importantes são: Filosofia (em 3 volumes), Orientação Filosófica do Mundo, Explicação da Existência, Metafísica, Razão e Existência, A Fé Filosófica.

Esses escritos podem ser distribuídos em 3 diferentes épocas: a 1ª de preparação na qual o médico se inicia nos problemas filosóficos. A 2ª de plenitude em que são explanados e desenvolvidos os diferentes aspectos de seu pensamento. A 3ª é de aprofundamento: “Jaspers retorna aos temas fundamentais de seu pensamento em companhia muitas vezes dos Grandes filósofos do passado”.

Em nosso século, poucos são os pensadores como Jaspers, em que a vida se apresenta extremamente coerente com o pensamento. Também por isso Jaspers pode ser considerado um grande pedagogo. Em suas notas biográficas, recorda que o pai o educara para ser sempre coerente com ele mesmo e para agir de acordo com a razão, donde a sua postura de revolta contra toda concepção cultural, não só política, mas também moral e religiosa, que pretenda apresentar-se com caráter de validade absoluta e, portanto, em sentido autoritário.

Principais pensamentos

A investigação filosófica é resolução da vida, em três momentos: orientação no mundo, esclarecimento da existência e metafísica.

Conceito “ser-em-situação”: é a realidade empírica que se mostra e se impõe a todos, filósofos ou não, é o dado puro e simples que se refere a qualquer realidade humana ou mundana, física e psíquica, é vida temporal do homem como desdobramento no tempo e espaço. Não é verdadeiro ser do homem. O transcender a situação é a verdadeira existência, e não é conceituável por meio de idéias, é aquilo que eu me sinto radicado (a). A existência ainda não é, mas pode ser. O ser-em situação é o ponto de apoio da existência, o problema do ser está indissoluvelmente ligado ao da verdade. A existência se realiza na solidão do indivíduo, enquanto a massa é chamada ser-sem-existência. A existência e a verdade são históricas, levando em conta o homem político, religioso e econômico, é um processo que nunca chega ao fim, portanto há a impossibilidade de certezas absolutas, qualquer pretensão de certeza absoluta, seja filosófica ou religiosa é uma não-verdade. A mente humana é sempre impulsionada para além dos limites da experiência. É uma situação que não se pode viver sem luta ou sem dor, é um fator limitante. A consciência humana me diz que sou limitado (a), mas não diz o limitante, portanto quem limita é Deus. De todas as situações-limites, a fundamental é a morte, que também é um mistério, o qual só pode ser revelado através do amor.

1. A essência e a existência humana em Cristo O ser em sua existência é limitado, finito e alienado, portanto distante do seu Criador, o qual é essência. Compreende-se, porém que por o homem por sua semelhança à imagem de Deus traz consigo esta mesma essência, a qual busca Deus. Assim se estabelece um paradoxo, na medida em que a mesma existência que aliena é também a única possibilidade de aproximação de Deus.
A existência em sua tentativa de auto-satisfação, não consegue preencher o vazio da separação de Deus, mas o encontro com a essência é que efetivamente atenderá as exigências do ser limitado. Jesus Cristo é a essência, como parte da Trindade que se faz homem, portanto Ele representa a única possibilidade de satisfação na existência.

Jesus Cristo se deixa reconhecer em uma realidade finita e não seria o Cristo se aqueles que o esperavam não o tivessem recebido como o Messias. Naturalmente há também uma recepção de fé, caso contrário seria somente mais um profeta em meio a tempos difíceis, um homem religioso, um outro Cristo, cujo valor seria unicamente histórico. Entretanto, as pesquisas históricas nos levam às primeiras comunidades, as quais eram impregnadas de seus próprios costumes, suas tradições e idéias. Jesus apresentado por estas comunidades estaria restrito e limitado por sua versão. Portanto a existência do Cristo é uma opção de fé.

Obras

Tendo sido influenciado por vários filósofos, os principais são Kant e Kierkegaard, vemos isso em algumas questões que foram reformuladas por ele, através da influência exercida pelas idéias de Kant, o qual para Jaspers foi o filósofo em absoluto, um mestre na formulação das questões fundamentais : que é a ciência? Como é possível a comunicação? Que é a verdade? Que é o homem? Que é a transcendência?Sendo estas perguntas os pontos básicos para nortear seu pensamento, logo sua filosofia,
Sua linguagem é relativamente mais simples, evitando principalmente o abuso de neologismos que tanto dificultam a compreensão das idéias de outros pensadores.

Sendo que só Kierkegaard despertou-o definitivamente para a filosofia como um pensar consciente, metódico, fundado em si mesmo, e ensinou-lhe que o verdadeiro filosofar é um giro constante em torno da existência e da transcendência.

Analisando o nosso próprio ser encontraremos quatro diferentes dimensões: o Ser-aí (Dasein), a Consciência, o Espírito e a Existência. Nos fixaremos na dimensão da Existência, que é um dos objetivos deste estudo, pois nele enfatizaremos a visão Jasperiana sobre a Transcendência.

Abaixo foi colocado um breve comentário de algumas obras escritas por Jaspers:

A Situação Espiritual do Nosso Tempo

O homem é o único se que não apenas é, mas sabe que é. Consciente, aprofunda o seu mundo e modifica-o segundo um projeto, abrindo caminho através da natureza que repete e inconscientemente o “mesmo” imutável. Ele é o ser não identificável como simples existência porque é capaz de determinar livremente o que vier a ser: o homem é espírito e a situação do homem autêntico não pode deixar de ser a da sua situação espiritual.

Do surto da consciência epocal: a crítica do tempo é contemporânea da consciência de si. A nossa afunda as suas raízes no pensamento cristão da história como plano de salvação. Segundo ela o redentor surgiu quando os tempos se acharam completados; com Ele a história se conclui ou resolve numa expectativa de preparação pessoal para o advento do fim dos tempos.

Desde a Revolução Francesa existe, com efeito, uma nova consciência específica do significado epocal do tempo que, no século XIX, tomou orientações distintas quer opondo-se ao mesmo ideal de um futuro grandioso por um receio entre o abismo de que não há salvação possível, que procurando sossegar-se a si próprio com a noção de época como passageira, noção que em caso de dificuldade parece ter efeito suficiente e calmante sobre mais débeis espíritos.

Da situação em Geral: se o problema do conceito de situação se tem posto até os nossos dias, tem-no sido por forma abstrata e imprecisa. No fundo, só o indivíduo é suscetível de se encontrar em situação. Por analogia, porém, fala-se da situação de grupos, do Estado, da humanidade, de instituições como a Igreja, a Universidade, o teatro, de formações objetivas como a ciência, a filosofia, a poesia. Na medida em que à vontade do indivíduo as assume como coisa sua, esta vontade acha-se com ela numa estrutura situacional.

As situações podem ser inconscientes, tornando-se ativas sem que o indivíduo saiba como se formam e acontecem, ou são reconhecidos como presentes por uma vontade consciente de si, capaz de assumi-las, utilizá-las e transformá-las.

Do método para um esclarecimento da situação atual: Uma estrutura da situação espiritual do presente que não quiser cair no círculo vicioso de simples imagens do ser, terá de permanecer aberta. Conhecida a fronteira do cognoscível (que se pode conhecer) e o perigo das absolutizações, impõe-se inverter cada uma das imagens de sorte a que outras se tornem sensíveis. Importa reduzi-las a perspectivas parciais que, na sua parcialidade, serão válidas, embora sem valor absoluto.

A considerar-se a organização da existência das massas anônimas como princípio da realidade, acabará este por cessar, como tal, no momento em que venham a surgir na existência poderes anônimos com força decisiva.

Os limites da Organização da Existência: O turbilhão da existência moderna substitui ao homem uma visão límpida do que, na realidade, acontece. Vagamos na existência como num mar sem que possamos escapar-lhe ou espraiar-nos numa margem firme a permitir-nos uma perspectiva nítida da totalidade. O redemoinho só permite abranger o que, por ele arrastado, logramos.

A partir da suposta evidência generalizada é se levado a considerar o existir ao nível da simples assistência material dos valores da massa anônima, através de uma produção racional, baseada em descobertas técnicas. Como se apenas a razão pudesse conduzir a totalidade a uma organização integral.

O Domínio da Massa Anônima: A técnica e a massa anônima engendra-se mutuamente. A organização técnica da existência e a massa são feitas uma para outra. A gigantesca maquinaria deve ser adaptada às qualidades da massa.

Qualidades da Massa Anônima: Não podem existir, como tais, qualidades da massa anônima, visto que esta não passa da pura quantidade de uma grandeza vaga e sem conteúdo axiológico.

Os valores da Massa Anônima: o homem deixa de ser ele próprio quando se identifica a massa anônima. Por um lado, esta contém um caráter dissolvente a permitir que no homem atue uma vontade que não é a sua; por outro, ela isola o indivíduo reduzindo-o a um átomo abandonado à sua avidez de existência: é a ficção do igualitarismo. Assim é que se ambiciona o que o outro possui, e o que um pode entende o outro poder também. A inveja reina secretamente a par da mania de desfrutar de bens sempre crescentes e de consideração sempre maior.

Quando o homem, porém, reivindica a sua qualidade de ser humano, logo se encontra numa tensão entre a sua existência e o seu autêntico ser-si-próprio.

O domínio do mecanismo: ao reduzir o indivíduo a uma função o mecanismo gigantesco dá assistência às estruturas materiais da existência, elimina-o dos elementos substitutivos da vida, que outrora envolviam os homens como se fossem grãos de areia.

A angústia vital: Ao mesmo tempo em que se racionaliza e universaliza a Organização da existência, a consciência da ruína desenvolve-se com fantástico êxito até ao domínio da angústia, ante o fim do que possa conferir sentido a vida.
O espírito como meio: Mesmo a atividade concentra a sua atenção sobre tudo aquilo de que depende a absolutização dos organismos da existência: as forças e as situações econômicas, os poderes maiores, como se tais fatores representassem forças autênticas.

A Significação da Educação: É a educação que leva o indivíduo por intermédio do seu próprio ser, a uma comparticipasão na totalidade.

Cultura: A cultura é uma forma de vida: a sua espinha dorsal é a disciplina como princípio intelectivo e o seu espaço é o conhecimento ordenado. A penetração dos valores do passado, assimilação de juízos apocalípticos, o conhecimento do real e a intimidade com as línguas constituem o seu conteúdo.

Introdução ao Pensamento Filosófico:

Aborda vários temas que vão desde a I Guerra Mundial e suas conseqüências sociais, psicológicas e religiosas; fazendo um roteiro onde são colocadas situações do dia-a-dia que nos afetam de forma positiva ou negativa e que muitas vezes não percebemos.

Tanto que coloca a necessidade de se fazer filosofia diariamente, com os acontecimentos do dia a dia, em todas as situações que nos rodeiam, para que tenhamos uma visão crítica e clara de tudo o que é possível, e assim nos deixemos envolver em circunstâncias onde nos juntamos a massa, a maioria, com opiniões e até mesmo preconceitos infundados , não pensados e questionados se postos a luz de uma discussão séria. Assim nos deixando ser conduzidos.

Deus

Encarado como um Enigma, pois as significações que não podem ser reduzidas ao objeto significado são por nós denominados assim. Sendo assim o Enigma pode ser objetivo ou subjetivo, isto é, objetivo quando o homem percebe alguma coisa que lhe vem ao encontro, e subjetivo quando o homem o cria em função de suas concepções, modo de pensar e poder de entendimento. Então claramente é entendido que Deus, para a fé cristã é o Transcendente, pois é subjetivo, pois não é possível comprová-lo de forma objetiva pois o homem constrói a figura de Deus a partir das suas próprias experiências. Portanto ao mesmo tempo cremos num mesmo Deus – o Deus Supremo, Eterno –e em um Deus diferente, a partir do momento em que se sabe que a minha concepção de Deus é diferente da do outro. Se Deus é colocado como um objeto específico – isto é ciência e não transcendência. Portanto, através da ciência a explicação sobre Deus é inviável, pois Ele é entendido no campo subjetivo e não no campo objetivo como faz a ciência,então ficamos com o campo dos Enigmas, que dá margem para o transcendente.

“A palavra ‘Deus’ destina-se a designar algo que nós, pura e simplesmente, não chegamos a compreender. O israelita do Antigo Testamento procurou, sem êxito, esclarecer o sentido dessa palavra; mas jamais duvidou de que Deus existia.

A Fé Filosófica

Se perguntarmos de onde viemos e para onde iremos viver, seguramente haverá questionamentos. Só podemos explicar através da fé na revelação, fora da fé na revelação só há o nihilismo (filosofia do nada).

A fé filosófica é a fé do homem que pensa, tem sempre uma aliança com o saber.

É conhecimento ilimitado, onde a ciência é o elemento fundamental desta filosofia. Não pode haver nada que não possa interrogar, nenhum mistério que possa estar encoberto da investigação.

A fé filosófica quer logo esclarecer a si mesma. A fé não pode tornar-se saber de validez universal. Deve estar presente por auto convicção, e deve incessantemente ser mais clara, mais consciente e ser posta cada vez mais no manifesto da consciência.

Deus é o transcendente, aquilo que está “além do domínio da ciência e do domínio da Existência”.

Ele se manifesta a nós principalmente através das situações-limites, situações estas que nos levam a encontrar as soluções além de nossos limites existenciais, isto é, além das nossas capacidades. Sendo assim, há situações em nossa vida aonde nossa finitude, limitação nos impede de “andar”, então começaremos a “andar em terreno transcendente”.

O transcendente não é para ser explicado, pois é o que é, não se limita ao espaço, nem ao tempo ou lugar. O transcendente vai além da existência do ser humano.

Para tocá-Lo precisamos de fé, pois através desta conseguimos sair do mundano, da existência limitada e nos transpormos ao transcendente. Sendo assim para se tocar no transcendente temos que ter uma fé transcendente. E esta não busca explicá-lo e sim estar em comunicação com Ele, pois Ele por ser transcendente é além de nossa existência; e se manifesta através de cifras (mundo, homem…) e o fundamento da fé é a linguagem cifrada. Meio pelo qual há a comunicação entre ambos.

Só que esta comunicação não é possível, pois “Deus não é objeto de demonstração, nem, muito menos, de experiência. Deus é invisível e não pode ser visto nem demonstrado, mas somente crido”.

Deus é o Absoluto, e como tal “simplesmente não pode existir porque não existe nenhum ser absolutamente indeterminado, um ‘ser’ semelhante é igual a nada”.

As Doutrinas Existencialistas

A Transcendência:

Ela é “insusceptível de ser conhecida ou pensada, que existe absolutamente sem qualquer determinação e da qual somente se pode saber que ela é, sem nunca se saber o que ela é, porquanto o único enunciado que dela se pode estabelecer consiste em afirmar, com Plotino, que ela é o que é – ou com o Deus do Antigo Testamento: Eu sou o que sou”.

Pois se a limitarmos no como ela é, reduziríamos a divindade ao mundo ou o mundo a Deus. E isto faria com que este perdesse a Sua dimensão, e vastidão. Destruiríamos a “questão” de Ele ser infinitamente mais, pois O demilitaríamos a conhecimento do nosso eu-pessoal. Isso é totalmente fora de questão.

Então “Deus não é o ser pessoal que o homem piedoso idealiza espontânea e arbitrariamente na oração, na qual Deus se torna para ele um Tu, um Juiz, um Legislador, um Pai. Não há dúvida de que é duro reduzir o Deus pessoal ao seu ser de cifra. No entanto, não há outro caminho a seguir uma vez que o abismo da Transcendência é demasiado profundo para poder ser sondado. Temos que fazer de Deus um Dasein análogo ao nosso, reduzindo assim a divindade ao mundo ou o mundo a Deus”.

Dentro desta concepção o Deus pessoal do cristianismo é inviável, pois isso seria limitá-lo ao nosso conhecimento limitado e falho.

Deus é muito mais, portanto é impossível , segundo Jaspers, colocá-lo em parâmetros humanos; bem como de através da oração entrarmos em contato com Ele , uma vez que Este se comunica através de cifras. E estas se diferem de uma pessoa para outra, quer dizer, o Deus que concebo e creio não é, e não pode ser o mesmo Deus que concebe e crê meu amigo, pois ambos têm percepções e ‘Daseins’ diferentes.

Logo não posso ‘construir’ uma definição de Deus universal por causa dessa pluralidade de visões e percepções humanas e pela finitude dessas.

Também porque Deus como o transcendente é infinitamente mais, e como tal, afirmo Sua existência – Ele é – mas, não O conheço pois em minha existência não consigo conceber uma ‘existência tão superior a minha’ , daí o conceito de Deus ser o transcendente; sendo então impessoal e não conhecível.

Bibliografia GIORDIANI, Mario Curtis – Iniciação ao Existencialismo – Livraria Freitas Bastos, São Paulo , 1976.

JOLIVET, Régis – As Doutrinas Existencialistas – Livraria Tavares Martins, Porto, 1961.

PENZO, Giorgio e GILBERTINI, Rosino – Deus na Filosofia do Século XX – Ed. Loyola, São Paulo, 1998.

JASPERS, Karl – Introdução ao Pensamento Filosófico – Ed. Cultrix, 1965.

JASPERS, Karl – A Situação Espiritual do Nosso Tempo – Ed. , 1964.

JASPERS, Karl – A Fé Filosófica – Ed. Losada S.A , Buenos Aires, 1953.

_____________________________________

NOTAS

[1] GIORDANI, Mario Curtis – Iniciação ao Existencialismo – Livraria Freitas Bastos S. A, S.P, 1976 – pág.49 e 51.

[2] JASPERS, Karl – Introdução ao Pensamento Filosófico – Ed. Cultrix, São Paulo, 1965.

[3] Idem pág.114.

[4] GIORDANI, Mario Curtis – Iniciação ao Existencialismo – Liv.Freitas Bastos S. A, S.P, 1976 – Pág.57.

[5] Idem, pág.64.

[6] Idem pág.64.

[7] JOLIVET, Régis – As Doutrinas Existencialistas – Liv.Tavares Martins, Porto, 1961 – Pág.329.

[8] Idem – págs. 339 e 340.

Karl Jaspers e o Existencialismo

Filósofo alemão. Realizou estudos de Direito e Medicina e chegou à Filosofia através do seu interesse pela Psicologia. Professor de Filosofia na Universidade de Heidelberg, entre 1937 e 1945 foi afastado da sua cátedra pelos nazistas. A sua obra principal, que contém as suas teses fundamentais, é a Filosofia (1932).

O Existencialismo é uma corrente filosófica onde se considera que a existência precede a essência e não o contrário como defendia Platão. Primeiro o sujeito existe e depois se constitui como ser pensante e crítico, formando assim sua essência. Dentre os principais existencialistas destaca-se Jean-Paul Sartre, que escreveu livros como O Ser e o Nada e Crítica da Razão Dialética.

Para Karl Jaspers a vida se apresenta extremamente coerente com o pensamento. Dentro de suas principais idéias encontra-se a do ser-em-situação, onde diz que: o transcender a situação é a verdadeira existência; é o ponto de apoio da existência, o problema do ser está indissoluvelmente ligado ao da verdade; a existência se realiza na solidão do indivíduo, em quanto a massa é chamada ser-sem-existência; qualquer pretensão de certeza absoluta é uma não-verdade; a mente humana é sempre impulsionada para além dos limites da experiência.

No que cerne a questão da essência e da existência em Cristo, Jaspers fala que o ser em sua existência é limitado e que o criador é a própria essência, gerando assim um paradoxo entre existência e essência. Ele faz uma análise do próprio ser,  em quatro dimensões: o ser-aí (dasein), a consciência, o espírito e a existência.

Uma das abordagens mais interessantes deste filósofo trata da situação espiritual do nosso tempo. Vejamos suas definições: o homem é espírito e a situação do homem autêntico não pode deixar de ser a da sua situação espiritual; do surto da consciência epocal a crítica do tempo é contemporânea da consciência em si; da situação em geral só o indivíduo é suscetível de se encontrar em situação; do método para um esclarecimento da situação atual uma estrutura da situação espiritual do presente que não quiser cair no círculo vicioso de simples imagens do ser, terá de permanecer aberta; os limites da organização da existência o turbilhão da existência moderna substitui ao homem uma visão límpida do que, na realidade, acontece; o domínio da massa anônima a técnica e a massa anônima engendram-se mutuamente; qualidades da massa anônima não pode existir, a massa anônima não passa da pura quantidade de uma grandeza vaga e sem conteúdo axiológico; os valores da massa anônima o homem deixa de ser ele próprio quando se identifica a massa anônima. Ficção do igualitarismo; o domínio do mecanismo dá assistência às estruturas materiais da existência, eliminando do indivíduo os elementos substitutivos da vida; a angústia vital desenvolvimento da consciência da ruína até o domínio da angústia; o espírito como meio mesmo a atividade concentra a sua atenção sobre tudo aquilo de que depende a absolutização dos organismos da existência; a significação da educação leva o individuo por intermédio do seu próprio ser a uma comparticipação na totalidade; cultura é uma forma de vida, a sua espinha dorsal é a disciplina como princípio intelectivo e o seu espaço é o conhecimento ordenado.

Karl Jaspers também nos proporciona uma introdução ao pensamento filosófico. Deus é visto como um enigma, para fé cristã é o transcendente, pois é subjetivo. Quando fala da fé filosófica, cita que é a fé do homem que pensa, tem sempre uma aliança com o saber. É conhecimento ilimitado, onde a ciência é o elemento fundamental desta filosofia. Quanto às doutrinas existencialistas, Jaspers dá enfoque especial a transcendência, dizendo que ela  é insusceptível de ser conhecida ou pensada, que existe absolutamente sem qualquer determinação e da qual somente se pode saber que ela é, sem nunca se saber o que ela é, porquanto o único enunciado que dela se pode estabelecer consiste em afirmar, com Plotino, que ela é o que é.

Pensamentos

Orientar Filosoficamente a Vida

A ânsia de uma orientação filosófica da vida nasce da obscuridade em que cada um se encontra, do desamparo que sente quando, em carência de amor, fica o vazio, do esquecimento de si quando, devorado pelo afadigamento, súbito acorda assustado e pergunta: que sou eu, que estou descurando, que deverei fazer?
O auto-esquecimento é fomentado pelo mundo da técnica. Pautado pelo cronômetro, dividido em trabalhos absorventes ou esgotantes que cada vez menos satisfazem o homem enquanto homem, leva-o ao extremo de se sentir peça imóvel e insubstituível de um maquinismo de tal modo que, liberto da engrenagem, nada é e não sabe o que há-de fazer de si. E, mal começa a tomar consciência, logo esse colosso o arrasta novamente para a voragem do trabalho inane e da inane distração das horas de ócio.

Porém, o pendor para o auto-esquecimento é inerente à condição humana. O homem precisa de se arrancar a si próprio para não se perder no mundo e em hábitos, em irrefletidas trivialidades e rotinas fixas.
Filosofar é decidirmo-nos a despertar em nós a origem, é reencontrarmo-nos e agir, ajudando-nos a nós próprios com todas as forças.
Na verdade a existência é o que palpavelmente está em primeiro lugar: as tarefas materiais que nos submetem às exigências do dia-a-dia. Não se satisfazer com elas, porém, e entender essa diluição nos fins como via para o auto-esquecimento, e, portanto, como negligência e culpa, eis o anelo de uma vida filosoficamente orientada. E, além disso, tomar a sério a experiência do convívio com os homens: a alegria e a ofensa, o êxito e o revés, a obscuridade e a confusão. Orientar filosoficamente a vida não é esquecer, é assimilar, não é desviar-se, é recriar intimamente, não é julgar tudo resolvido, é clarificar.
São dois os seus caminhos: a meditação solitária por todos os meios de consciencialização e a comunicação com o semelhante por todos os meios da recíproca compreensão, no convívio da ação, do colóquio ou do silêncio.

Karl Jaspers, in ‘Iniciação Filosófica’

A Independência do Homem

Mal podemos acreditar no filósofo a quem tudo deixa indiferente; não acreditamos na tranqüilidade do estóico, não desejamos sequer a impavidez, porque a própria condição humana nos lança na paixão e no medo, e são as lágrimas e o júbilo que nos permitem conhecer o que é. Eis por que somente o impulso ascendente nos liberta das perturbações anímicas e não é pela supressão que nos encontramos.

Temos, pois, que nos arriscar a ser homens e, enquanto homens, fazermos o que pudermos para alcançar a independência conquistada. Sofreremos então sem queixume, desesperar-nos-emos sem nos afundarmos, abalados mas nunca completamente derrubados quando suspensos à íntima independência que em nós se gera.
A filosofia, porém, é a escola dessa independência, não a sua posse.

Karl Jaspers, in ‘Iniciação Filosófica’

O Futuro do Homem O homem pode sempre mais e coisa diversa daquilo que se esperaria dele. O homem é inacabado e inacabável e sempre aberto ao futuro. Não há homem total e não o haverá jamais. Por isso há dois modos de pensar o futuro do homem. Posso concebê-lo como um processo natural, análogo àquele que respeita aos objetos, e formular probabilidades. Ou então posso imaginar as situações que vão ocorrer sem saber a resposta que lhes dará o homem, sem saber como, através delas, mas espontaneamente, ele se encontrará a si próprio. No primeiro caso, aguardo um desenrolar necessário que poderia conhecer em princípio, mesmo se não o conheço. No segundo caso, o futuro, longe de ser o desenvolvimento de necessidades causais implicadas pela realidade dada, depende do que será realizado e vivido em liberdade. As inúmeras pequenas ações dos indivíduos, todas as suas livres decisões, todas as coisas que realizam, têm um alcance ilimitado. No primeiro caso submeto-me a uma necessidade contra a qual nada posso. No segundo procuro a fonte original que está na base da liberdade humana. Faço um apelo à vontade.
Caminhamos para um futuro que não pode ser conhecido, que, na sua totalidade, não está decidido. A imagem que dele temos é incessantemente corrigida pela experiência. O conhecimento do ser na sua totalidade continua a ser-nos inacessível. O saber que temos da superabundante realidade não mais se completa. A nossa consciência está sempre em marcha. A uma consciência que desejaria ter-se por definitiva opõe-se a realidade do ser que não deixa de se mostrar novo, diferente, através dos fenômenos que surgem incessantemente, forçando assim a nossa consciência a transformar-se indefinidamente. Predizer verdadeiramente o futuro do homem seria já realizá-lo. Aqui predizer significa produzir.

Se conseguíssemos certificar-nos do que é a condição humana, com as definidas perspectivas das suas possibilidades infinitas, nunca mais poderemos desesperar definitivamente do homem. Simbolicamente: o homem foi criado por Deus à sua imagem: por muito perdido que ele esteja, tal semelhança não pode desaparecer completamente. (…)
É incontestável, em primeiro lugar, que não nos críamos a nós mesmos e que estamos no mundo graças a alguma coisa que não somos nós. Tomamos consciência deste fato quando pensamos simplesmente que seria possível não existirmos.
É incontestável, em segundo lugar, que não somos livres graças a nós próprios, mas sim graças ao que, no fundo da nossa liberdade, se nos oferece a nós próprios: ainda que o queiramos, isso não chega para nos tornarmos livres. No auge da liberdade ganhamos consciência do fato de sermos para nós um dom: a nossa liberdade faz-nos viver, mas não podemos nós próprios consegui-la pela força.
Essa coisa pouca que não podemos conquistar – nem pela «revolta de Prometeu», nem isolando o nosso «eu» até torná-lo o centro do ser, nem arrancando-nos nós ao pântano pelos próprios cabelos, como Munchhausen -, de onde pode ela vir-nos? E de onde o socorro?
Este não se manifesta como um processo do mundo. Não vem do exterior. Porque, sentimo-lo, é no mais profundo de nós que nós nos encontramos quando nos tornamos nós próprios. Em parte alguma a transcendência fala de maneira direta, ninguém a tem diante de si, ela não se deixa captar. Deus não fala senão através da nossa liberdade. A decisão fundamental é aquela de que depende a maneira de apreender conscientemente a nossa condição de homem. Enquanto homem, não nos bastamos nunca, não somos o nosso único fim. Estamos vinculados à transcendência. Ela exalta-nos e, ao mesmo tempo, torna-nos transparentes a nós próprios, dando-nos consciência do pouquinho que somos.

Karl Jaspers, in ‘Panorama das Idéias Contemporâneas’

Precisamos do Outro para Encontrar a Verdade Só alcançamos a verdade do nosso pensamento quando incansavelmente nos esforçamos por pensar colocando-nos no lugar de qualquer outro. É preciso conhecer o que é possível ao homem. Se tentamos pensar seriamente aquilo que outrem pensou aumentamos as possibilidades da nossa própria verdade, mesmo que nos recusemos a esse outro pensamento.
Só ousando integrar-nos totalmente nele o podemos conhecer. O mais remoto e estranho, o mais excessivo e excepcional, mesmo o aberrativo, incitam-nos a não passar ao largo da verdade por omissão de algo de original, por cegueira ou por lapso.

Karl Jaspers, in ‘Iniciação Filosófica’

O Elogio da História Nenhuma realidade é mais essencial para a nossa auto certificação do que a história. Mostra-nos o mais largo horizonte da humanidade, oferece-nos os conteúdos tradicionais que fundamentam a nossa vida, indica-nos os critérios para avaliação do presente, liberta-nos da inconsciente ligação à nossa época e ensina-nos a ver o homem nas suas mais elevadas possibilidades e nas suas realizações imperceptíveis.
Não podemos melhor aproveitar os nossos ócios do que familiarizando-nos com as magnificências do passado, conservando viva essa recordação e, ao mesmo tempo, contemplando as calamidades em que tudo se subverteu. A experiência do presente compreende-se melhor refletida no espelho da história. O que a história nos transmite vivifica-se à luz da nossa época. A nossa vida processa-se no esclarecimento recíproco do passado e do presente.
Só de perto, na intuição concreta e sensível, e prestando atenção aos pormenores, a história realmente interessa. Filosofando procedemos a considerações que se mantêm abstratas.

Karl Jaspers,

“Somente como indivíduo um homem pode se tornar filósofo”
Karl Jaspers

“Só nos momentos em que exerço minha liberdade é que sou plenamente eu mesmo: ser livre significa ser eu mesmo…”
Karl Jaspers

“Na filosofia as perguntas são essenciais do que as respostas.”
Karl Jaspers

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