Portugueses no Holocausto

Em anos recentes, a bibliografia sobre a questão do Holocausto e os judeus em Portugal veio a enriquecer-se com investigações de inegável interesse: José Freire Antunes em “Judeus em Portugal” recolheu o testemunho de 50 homens e mulheres (Edeline, 2002); Irene Pimentel escreveu o importante “Judeus em Portugal durante a II Guerra Mundial” (Esfera dos Livros, 2006); um investigador com pergaminhos, Avraham Milgram deu à estampa outro livro de grande qualidade “Portugal, Salazar e os Judeus” (Gradiva, 2010). Isto a par de memórias de alguns dos refugiados, como será o caso do impressivo relato de Fritz Teppich “Um refugiado na Ericeira” (Mar das Letras, 1999). Esther Mucznik, uma estudiosa das questões judaicas, acaba de publicar “Portugueses no Holocausto” (Esfera dos Livros, 2012) que veio trazer luz sobre histórias ainda mal conhecidas do grande público. A autora dedica este seu trabalho a todos os portugueses que morreram no Holocausto, vítimas dos crimes nazis e, entre todos eles, aos descendentes de portugueses expulsos devido à sanha inquisitorial que avassalou o país no início do século XVI e que se refugiaram em Amesterdão, Istambul ou Salónica.

 

Em jeito de enquadramento, a autora descreve a ideologia racial do nazismo e como foi praticada desde que a Adolf Hitler ascendeu ao poder. Se a escalada antissemita se tornou uma realidade na fase ascendente do nazismo, é a partir do momento em que se ocupou a Polónia, e mais tarde a Bielorrússia, Ucrânia e uma parte da Rússia que levou a uma mudança drástica no conceito da Solução Final, o extermínio do povo judeu. A autora compendia os dados mais salientes da execução desse plano que levou à matança de cerca de 6 milhões de judeus, número horrível que só será superado pelo de 14 milhões que terá sido o número de vítimas da matança perpetrada pelas paranoias de Hitler e Estaline nas chamadas terras sangrentas onde se incluem a Polónia, os países Bálticos, a Bielorrússia, a Ucrânia e a parte da Rússia que esteve sob a bota nazi.

 

É facto que a partir de junho de 1940 um conjunto de personalidades de renome mundial passou por Portugal a caminho de outras paragens, reis, políticos, escritores, cientistas, músicos. Mas os judeus de origem portuguesa muito cedo encaminharam-se para Portugal. A autora regista os casos da família Cassuto, a família de Ruth Arons e Nella Maissa, recorda as instituições judaicas que procuravam mitigar o sofrimento dos refugiados bem como a ação de vigilância da polícia política. E com esta moldura que ajuda a compreender melhor o drama dos judeus refugiados em Portugal, a autora oferece-nos um estudo sobre os portugueses em Amesterdão, ficamos a conhecer a comunidade portuguesa e como quase todos eles, mesmo invocando a sua origem portuguesa, foram assassinados nos campos de concentração. Como escreve a autora, a quase totalidade da comunidade dos judeus de origem portuguesa na Holanda (4 mil homens, mulheres e crianças) pereceram no Holocausto e eram descendentes dos antigos judeus que se refugiaram em Amesterdão em finais do século XVI. Tratava-se de uma comunidade que gozava de uma vitalidade excecional que vivia arreigada aos valores tradicionais judaicos. Basta recordar que em 1675 foi inaugurada a famosa sinagoga que se tornou no símbolo da idade de ouro do judaísmo sefardita na Holanda, como se escreve: “Situada em pleno coração do bairro judaico, a iniciativa da sua edificação coube ao rabino Aboab da Fonseca, nascido em Castro Daire de uma família de cristãos-novos e batizado com o nome de Simão da Fonseca. O rabino Aboab juntou a si um comité de fundadores cujos nomes indicam claramente a sua origem portuguesa: Isaac de Pinto, Samuel Vaz, David Salom de Azevedo, Abraham de Veiga, Jacob Aboab Osório, Jacob Israel Pereyra e Isaac Henriques Coutinho”. Durante a guerra a sinagoga foi saqueada. Durante a ocupação nazi, as autoridades judaicas procuraram adiar a deportação de judeus de origem portuguesa, em vão. Paralelamente à destruição da vida, também os ocupantes fizeram tudo para aniquilar as instituições da comunidade religiosa. Devido a um legalismo inflexível, Salazar não deu ouvidos aos rogos das autoridades judaicas.

 

Passando para outro ponto geográfico, a autora recorda a importância da comunidade judaica de Salónica, um dos centros judaicos mais importantes do mundo: “Os fugitivos de Espanha e Portugal trouxeram consigo uma brilhante cultura intelectual, o espírito de iniciativa, o gosto do risco, um sólido conhecimento técnico e a sua rede de relações ligando países e continentes. Portugueses ilustres como Amato Lusitano, Joseph Caro, Gracia e Joseph Nasi, deixaram a sua marca em Salónica, contribuindo para a sua prosperidade, nas ciências, na literatura, na tipografia, no comércio e na indústria. No início do século XX, cerca de 80 mil judeus povoam a cidade”. No início da I República, autoridades diplomáticas portuguesas em Istambul e Salónica emitiram certificados provisórios de inscrição consular portuguesa a cerca de 400 famílias judaicas. O regime de Salazar não acolheu bem e sempre suspeitou da legalidade desta nacionalidade. Com a ocupação da Grécia, os nazis iniciaram a deportação em massa, os judeus clamaram pelos seus direitos mas Salazar proibiu a revalidação dos passaportes e certificados de nacionalidade portuguesa. São acontecimentos sombrios em que detentores de nacionalidade portuguesa irão ser assassinados em campos de concentração.

 

A investigação transfere-se depois para os judeus registados nos consulados portugueses, em França, destaca-se o comportamento de José Brito Mendes pela sua coragem a salvar vidas e registam-se os nomes de militantes de esquerda portugueses que irão ser executados pelos seus ideais. Impressionante é voltarmos a ler o que se passou na tragédia húngara, nomeadamente em 1944. A autora refere o comportamento nobre de diplomatas como Sampaio Garrido que correndo todos os riscos protegeram judeus e não judeus das perseguições políticas e raciais. Ao contrário de Aristides Sousa Mendes nem Teixeira Branquinho nem Sampaio Garrido foram vítimas de Salazar pela sua generosidade em querer defender a vida de vítimas inocentes.

 

Trata-se de um levantamento meritório, a autora reuniu dados importantes sobre descendentes de portugueses que acabaram nas câmaras de gás, temos aqui um bom inventário de coragem e humanismo envolvendo diplomatas e mesmo a infanta Maria Adelaide de Bragança. Mais uma obra que contribui para a clarificação do acolhimento dos refugiados, da diplomacia portuguesa e de embaixadores e cônsules que não hesitaram no heroísmo anónimo, ficamos com uma ideia mais nítida de como a espiral devoradora do nazismo atingiu ancestrais e portugueses que eram judeus.

 

 

 

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