HUMANISMO INTEGRAL

JACQUES MARITAIN

Introdução

Heroísmo e Humanismo

Noção geral do humanismo

Não esperamos o interesse suscitado pelas novas diretivas comunistas concernentes ao humanismo socialista para situar o problema do humanismo. Desde então, este problema está na moda; afinal há lugar para que nos rejubilemos com isto, questões de importância central foram levantadas para o futuro. Não se poderá mais dizer que o problema do homem só começará a ter significação depois do desaparecimento da economia capitalista.

Todavia, não nos apercebemos ainda de que tomar posição sobre o humanismo obriga a situar ao mesmo tempo muitos outros problemas.

Desejaria aqui, e para introduzir às considerações propostas na presente obra, chamar a atenção para um destes problemas. Nada há que o homem deseje tanto como uma vida heróica; nada há de menos ordinário ao homem do que o heroísmo: é, parece-me, o sentimento profundo de tal antinomia que faz, a um só tempo, o trágico e a qualidade espiritual da obra de André Malraux. Suponho que a questão do humanismo, mesmo socialista, não parece a Malraux uma questão de repouso.

Poderei eu afirmar que a Aristóteles tampouco ela não parecia uma questão de repouso? Propor somente o humano ao homem, notava ele, é trair o homem e desejar sua infelicidade, porquanto pela sua parte principal, que é o espírito, o homem é solicitado para melhor do que uma vida puramente humana. Sobre este princípio (senão sobre a maneira de o aplicar), Ramanuja e Epíteto, Nietzsche e S. João da Cruz estão acordes.

A nota de Aristóteles que acabo de lembrar é humanista ou é anti-humanista ? A resposta depende da concepção que se faz do homem. Vê-se por isto que a palavra humanismo é um vocábulo ambíguo. É claro que aquele que o pronuncia compromete de logo uma metafísica, e que, segundo existe ou não no homem alguma coisa que respira acima do tempo, e uma personalidade cujas necessidades mais profundas ultrapassam toda ordem do universo, a idéia que se fará do humanismo terá ressonâncias inteiramente diferentes.

Contudo, porque a grande sabedoria pagã não pode ser supressa da tradição humanista, devemos ser advertidos em qual quer caso em não definir o humanismo pela exclusão de toda ordenação ao super-humano e pela abjuração de toda transcendência. Para deixar as discussões abertas, digamos que o humanismo (e uma tal definição pode ser desenvolvida segundo linhas muito divergentes) tende essencialmente a tornar o homem mais verdadeiramente humano, e a manifestar sua grandeza original fazendo-o participar de tudo o que o pode enriquecer na natureza e na história (“concentrando o mundo no homem”, como dizia mais ou menos Scheler, e “dilatando o homem ao mundo”); ele exige ao mesmo tempo que o homem desenvolva as virtualidades nele contidas, suas forças criadoras e a vida da razão, e trabalhe por fazer das forças do mundo físico instrumento de sua liberdade.

Assim entendido, o humanismo é inseparável da civilização ou da cultura, tomando-se estas duas palavras como sinônimas.

Pode haver um humanismo heróico ?

As observações precedentes parecem dificilmente contestáveis. De fato, no entanto, não se apresentam os períodos humanistas, nos diversos ciclos de cultura, em oposição com os períodos heróicos, e não aparecem como um declínio destes no humano, ou como uma retomada do humano sobre estes, como uma recusa mais ou menos geral do super-humano? Seria portanto o humanismo incompatível com o heroísmo, e com os momentos criadores, ascendentes, e verdadeiramente orgânicos da cultura, a não ser quando estivesse ligado a um dinamismo histórico, onde ele ficasse inconsciente de si mesmo e escondido aos próprios olhos, e no qual mesmo à dor fosse cego, e se suportasse na ignorância, o homem se ignorando então para se sacrificar por qualquer coisa mais elevada do que ele? Será que o humanismo somente se pode desembaraçar por si mesmo e se exprimir, e significar ao mesmo tempo suas postulações próprias, nos momentos de dissipação de energia, de dissociação e de descida, em que para recorrer uma vez a esta oposição de termos, a “cultura” se torna “civilização”, em que a dor abre os olhos sobre si, – e não é mais suportada? Será que o homem só se pode conhecer renunciando ao mesmo tempo a se sacrificar por qualquer coisa maior do que ele ? Humana, demasiado humana, pulando nesta “anarquia dos átomos” de que falou Nietzsche, é a decadência neste sentido um fenômeno humanista?

Talvez a resposta fosse menos simples do que parece a certo aristocratismo fácil, talvez certas formas de heroísmo permitissem resolver esta aparente contrariedade. Pretende-o o heroísmo comunista pela tensão revolucionária e o titanismo da ação, o heroísmo budista, pela piedade e a inação (non – agir). Pelo amor pretende-o outro hurnanismo. O exemplo dos santos humanistas, como o admirável Tomás Morus, é neste ponto de vista particularmente significativo. Testemunha porém ele somente que humanismo e santidade podem coexistir, ou então que pode haver um humanismo nutrido nas fontes heróicas da santidade? Um humanismo desembaraçado por si mesmo e consciente de si, que conduz o homem ao sacrifício e a uma grandeza verdadeiramente super-humana, pois então a dor humana desvenda os olhos, e é suportada por amor, – não na renúncia à alegria, mas em uma sede maior, e na exultação da alegria. Pode haver um hurnanismo heróico??

Quanto a mim, respondo que sim. E me pergunto se não e da resposta a esta questão (e das considerações que se acrescentam) que dependem antes de tudo as diversas posições tomadas por iins e outros em face do trabalho histórico que se efetua aos nossos olhos, e as diversas opções práticas às quais se sentem obrigadas.

O humanismo ocidental e a religião.

Bem compreendo que, para alguns, um humanismo autêntico só deve ser por definição um humanismo anti-religioso. Pensamos de modo absolutamente contrário, como se verá nos capítulos que se seguem. No momento, quereria somente indicar, a propósito, duas observações de fatos.

Primeiramente, é verdade que, desde os princípios da Renascença, o mundo ocidental passou progressivamente de um regime de heroísmo sacral cristão a um regime humanista. Mas o humanismo ocidental tem fontes religiosas e “transcendentes” sem as quais é incompreensível; – chamo “transcendentes” todas as formas de pensamento, quaisquer que sejam fora disto as suas diversidades, que põem na origem do mundo um espírito superior ao homem, no homem um espírito cujo destino vai além do tempo, e uma piedade natural ou sobrenatural no centro da vida moral. As fontes do humanismo ocidental são fontes clássicas e fontes cristãs,

e não é somente na massa da antigüidade medieval, é também em uma das partes menos recusáveis da herança da antigüidade pagã, aquela que evocam os nomes de Homero, Sófocles, Sócrates, Virgílio “Èai do Ocidente”, que aparecem os caracteres a que acabo de me referir. De outro lado, pelo fato somente de que o regime da cristandade medieval era um regime de unidade da carne e do espírito, ou de espiritualidade incarnada, ele envolvia em suas formas sacrais um humanismo virtual e implícito; no XII e XIII séculos ele devia “aparecer” e se manifestar, – com o brilho de uma beleza instável e como que obrigada a existir, pois de logo a discordância entre o estilo cultural medieval e o estilo do humanismo clássico (sem falar das diversas desfigurações que o próprio cristianismo iria sofrer e cujas principais foram o puritanismo e o janseísmo), devia recobrir e esconder por um tempo o acordo provindo (?) do cristianismo e do humanismo considerados em suas essências.

Nesses tempos medievais, uma comunhão, em uma mesma fé viva, da pessoa humana com as outras pessoas reais e concretas, e com o Deus que elas amavam, e com a criação inteira, tornava, no meio de muitas misérias, o homem fecundo em heroísmo assim como em atividade de conhecimento e em obras de beleza; e nos corações mais puros um grande amor, exaltando no homem a natureza acima dela própria, estendia às próprias coisas o senso da piedade fraterna; então, um São Francisco compreendia que antes de ser explorada em nosso serviço por nossa indústria, a natureza material reclama em qualquer sorte ser adestrada por nosso amor; quero dizer que amando as coisas, e nelas o ser, o homem as atrai ao humano, em lugar de fazer passar o humano sob a sua medida.

De outro lado, – e é esta a minha segunda observação, a considerar o humanismo ocidental em suas formas contemporâneas aparentemente as mais emancipadas de toda metafísica da transcendência, é fácil ver que, se um resto de conao (?) comum subsiste ainda da dignidade humana da liberdade dos valores desinteressados, é uma herança de idéia e sentimentos outrora cristãos, hoje desviados. E compreendo muito bem que o humanismo liberal-burguês seja apenas o trigo degerminado, pão de amido. E contra esse espiritualismo materializado, o materialismo ativo do ateísmo ou do paganismo levam vantagem. Todavia, desligadas de suas raízes naturais e colocadas em um clima de violência, são ainda em parte energias cristãs adoecidas que, de fato, existencialmente, qualquer que sejam as teorias, comovem o coração dos homens e os obrigam à ação. Não é um dos sinais da confusão das idéias que se estende hoje sobre o mundo, ver tais energias outrora cristãs servir para exaltar precisamente a propaganda de concepções culturais diametralmente opostas ao cristianismo ? Seria bela a ocasião para os cristãos reconduzir as coisas à verdade, reintegrando na plenitude de sua fonte original essas esperanças de justiça e essas nostalgias de comunhão, cujo sustento é feito pela dor do mundo e cujo élan é desorientado, e suscitando assim uma força cultural e temporal de inspiração cristã capaz de agir na história e ajudar os homens.

Ser-lhes-iam necessárias para tal uma sã filosofia social e uma sã filosofia da história moderna. Trabalhariam eles então para substituir, ao regime inumano que agoniza aos nossos olhos, um novo regime de civilização que se caracteriza por um humanismo integral, e que representaria a seus olhos uma nova cristandade não mais sacral, porém profana, como tentamos mostrar nos estudos aqui reunidos.

Este novo humanismo, sem medida comum com o humanismo burguês, e tanto mais humano quando menos adora o homem, mas respeita realmente e efetivamente a dignidade humana e dá direito às exigências integrais da pessoa, nós o concebemos como que orientado para uma realização social-temporal desta atenção evangélica ao humano, a qual não deve existir somente na ordem espiritual, mas incarnar-se, e também para o ideal de uma comunidade fraterna. Não é pelo dinamismo ou pelo imperialismo da raça, da classe ou da nação que ele pede aos homens de se sacrificarem, mas por uma vida melhor para os seus irmãos, e pelo bem concreto da comunidade das pessoas humanas; pela humilde verdade da amizade fraterna a fazer passar – ao preço de um esforço constantemente difícil, e da pobreza, – na ordem do social e das estruturas da vida comum; é deste modo somente que um tal humanismo é capaz de engrandecer o homem na comunhão, e é por isto que ele não poderia ser outro senão um humanismo heróico.

Biografia

Filósofo francês, nascido em Paris, a 18 de novembro de 1882, Jacques Maritain tem por avô um conhecido advogado, acadêmico, ministro e homem político, Jules Favres (1809-1880): família culta mas sem religião. Estudante na Sorbonne (licença de filosofia, 1900-1901), deixa-se atrair por Spinoza, antes de bifurcar para uma licença em ciências naturais.
O noivado com Raissa Oumançoff, sua companheira de estudos na Sorbonne, data de 1902. Os dois casam-se em 26 de novembro de 1904, ano da recepção de Jacques no concurso da agregação de filosofia.
Convertido em 1906. Primeiro seguiu Bergson, e acabou propugnando um tomismo adaptado a nossa época que restaure a metafísica cristã, diante do racionalismo antropocêntrico e do irracionalismo panteísta em que se debate o idealismo moderno.
No ano de 1912, Jacques e Raissa são recebidos como oblatos leigos da ordem beneditina.
Professor na França (1914), Canadá (1940) e EUA (1949). Embaixador no Vaticano (1945-1948).
De sua obra vastíssima, citamos: Arte e Escolástica (1920); Humanismo integral (1936); Os graus do saber (1032); O camponês do Garona (1966), Pessoa e Bem Comum (1947); Reflexões sobre a Inteligência e sobre sua Vida Própria (1924).
Após a morte de Raissa em 04 de novembro de 1960, J. Maritain retira-se para Toulouse, com a Fraternidade dos Irmãozinhos de Foucaud, onde faz seu noviciado aos 88 anos.
Morre em 28 de abril de 1973. Tinha 90 anos e morreu como quis, em um contexto de oração, de silêncio, de contemplação.

 Certidão de Batismo e de Conversão de Jacques Maritain

Paroquia de São Pedro de Montmartre
No ano mil novecentos e seis, no decimo primeiro dia do mês de junho, com a presença dos padrinhos abaixo assinados, Jacques Maritain , nascido em 18 de Novembro de 1880 em Paris, tenho reconhecido que fora da verdadeira Igreja não há salvação, de sua propria vontade e sem constrangimento algum, fez profissão da religião catolica, apostolica e romana, e abjurou em minhas mãos a heresia de Lutero, da qual eu lhe dei publicamente absolvição, investido dos poderes que Monsenhor, o Arcebispo de Paris me conferiu para este efeito em data de 9 de junho. Enfim, eu lhe dei o batismo sob condição. Na fé,  eu, capelão, assinei o presente certificado com o dito e as testemunhas.
Feito em Paris, na Igreja de São João Evangelista ( Paroquias de São Pedro), no dia acima.
I. Durantel,spi
Jacques Maritain
 León Bloy
Jeanne León Bloy
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